Tempo da Bruxa
36 Limbo
Sentada no banquinho de madeira diante da lareira, Selena come o mingau que Revna preparou. A garotinha desvia parte da refeição para oferecer aos três borzois que a rodeiam com os narizes longos, curiosos e famintos. A risadinha infantil atravessa o silêncio da cabana toda vez que um dos cachorros a lambe.
Nora permanece escorada na pilastra que sustenta o telhado. Os braços estão cruzados. Às vezes as mãos se movimentam para esfregar o rosto, em específico os olhos. A lareira afasta o frio externo. Nora sente as mãos e as axilas molhadas. O suor escorre da nuca até a costa, causando coceira. Diversas vezes, enquanto examina a garota, Nora mordisca os nós dos dedos com mais força do que deveria. As gotas vermelhas de sangue pintam as mãos extremamente pálidas, como mãos de um maldito cadaver. O gosto ácido e repugnante enche a boca. Nora respira fundo várias vezes para conter o vômito. O vômito é substituído pelo desconforto no peito, que sobe à garganta como falta de ar. Os olhos ardem.
E nada realmente acontece.
— Olha, — Selena fala, e Nora se assusta com a voz infantil e suave. — Mamãe, olha! — A garota exige. Nora seca as lágrimas e a encara. Selena oferece um pouco de mingau em troca de obediência. — Senta. — Os cachorros resistem. Selena, porém, é paciente. — Senta. — Mais duas tentativas, e os cachorros obedecem. Selena oferece o mingau. — Viu?! Eu sou uma… — Ela franze o cenho, incerta sobre a palavra: — domadora de cachorros. — Selena segura o focinho da cadela. — Mamãe, por que eles têm esse narizão?
Revna ri pelo nariz. Nora o encara. A entidade está se divertindo muito com a tenebrosa situação e ignora o olhar dela.
— E essas pernocas? — Selena prossegue. Ela coça o espaço entre as sobrancelhas exatamente como Nora faz quando está confusa. — E eles são tão magrelos. São… — Selena tenta demonstrar com as mãos uma figura retangular. — Como fala? — Nora está muda. — Mamãe! Como fala?! Eles são finos. E a cabeça deles é assim — Selena gesticula. — Assim, olha! Achatadas! Por que eles são assim?! — Ela ri. — São esquisitos. — Selena inclina a cabeça e acaricia o cachorro que busca afeto. — Mas eu gostei! Eles são nossos?
Nora corre para fora da choupana, batendo a porta com força. Ela anda em círculos. A brisa gelada seca o suor, mas não a refresca de verdade. Nora gesticula, mordisca os nós dos dedos, ri e chora ao mesmo tempo. A angústia no peito às vezes é raiva pura. E a onda alta, que tem considerável potencial de destruir tudo, se quebra antes de chegar à orla. As lágrimas são salgadas como o mar. A grama é muito machucada com os movimentos circulares, e Nora desiste, caindo sobre os joelhos. Demora muito para que a brisa noturna a refresque. E demora ainda mais para que Revna a encontre sob a grama destruída. Ele senta-se às escadas e espera.
— Isso não é certo. Ela… — Nora franze o cenho. — Nada disso está certo.
Revna suspira.
— Por quê?
Nora ri.
— Você me subestima demais. — Nora o encara. Revna inclina a cabeça. — Acha que sou tola? — Ela bufa. — Nem sei porque questiono. É claro que pensa que sou tola!
— Por quê?
— Porque nada disso é real! — Nora esbraveja. As lágrimas queimam o rosto. — Essa casa. — Ela franze o cenho. — Essa floresta. Esses cachorros. Nada é real. — Nora morde o lábio até sangrar. — Eu… — Ela aperta os olhos. — Nunca voltaria para um lugar como esse. Eu passei as últimas décadas… — Nora para de falar e arregala os olhos. Revna permanece mudo. Nora senta-se na grama. — Eu estava morta. — As memórias retornam devagar. Nora afunda as mãos no cabelo. — É isso, então? Eu estou morta de novo? — Ela olha ao redor. — Isso é… — Nora ri dos próprios pensamentos. — É o meu paraíso?
— Te agradaria se fosse?
Nora balança a cabeça.
— Eu estava no corpo de Vincenzo. — Ela relembra. — Adrian me matou?
— Ele não deixou de tentar, admito.
— Mas não estou morta. — A ausência de resposta é a confirmação que Nora espera. — O que é isso, então? Esse… lugar?
— A sua alma está muito fragilizada agora. — Revna alcança um galho fino. — Como uma linha tênue.
— Então, eu estou morrendo. — Nora olha ao redor. Nada se movimenta. — E isso é um limbo.
— Várias vezes eu te alertei, Eleonora. Todos esses extremos… Você já estava fragilizada após as semanas com Lucien. Ainda assim, insistiu em todos os extremos: transmutou Adrian fora da lua, mesmo quando avisei que não era seguro; Eris pouco ajudou ao invadi-la daquela forma; disputar o corpo com Madalena exigiu bastante. A travessia que fizemos é muito desafiadora. E, enfim, movimentou energias densas para trazer Adrian de volta.
— Funcionou. — Nora encara Revna, que se recusa a respondê-la. — A sua discordância é tão severa que posso tocá-la.
— Deveria ser diferente?
— Eu precisava trazê-lo. Dante precisa do pai.
— Dante também precisa da mãe.
— É como uma pintura. — Nora olha ao redor. — Uma bela pintura. É assim para todos?
— Depende. — Ela arqueia a sobrancelha. — Depende de quem guia a alma. Algumas almas não são guiadas e apenas dormem. Outras veem os mentores espirituais que os acompanharam durante a vida. Costuma ser um forte período de regressão para considerar a vida que foi tecida até o momento. Também é uma oportunidade de se recuperar, mas é uma faca de dois gumes. Algumas almas não veem esse período como a oportunidade de se curar; veem como um fim. Como o destino final. Mas não é esse o propósito. Esse limbo é limitado. Eventualmente se torna repetitivo. É uma prisão. E além da recuperação, não há chance de desenvolvimento.
Nora encara a choupana. O limbo está congelado como mais cedo. As janelas estão iluminadas de forma contínua, o que é totalmente impossível quando depende de velas ou fogueiras já que as chamas são aleatórias. A brisa cessou. E o corpo dela não sua, nem sente frio. As árvores da floresta estão imóveis. É uma pintura novamente.
— Fez isso para mim. — Nora aposta. Revna confirma em silêncio. — Todos esses detalhes. São todos tão particulares. Parte deles eu nem me lembrava. — Nora esfrega a testa. — A floresta. Os cachorros. — Ela sorri. — Até mesmo o tapete. E… Selena.
— E Selena.
— O que é aquilo?
— É a sua filha.
— Minha filha está morta.
— Sim, Selena morreu. — Nora inclina a cabeça. — Mas a alma dela não descansou ainda. — Nora fecha os olhos quando lembra-se do sofrimento da filha. — Minha querida, — Revna aproxima-se e a levanta do chão com facilidade. Nora permite que ele a mantenha em pé. — não há nada que eu possa fazer ou falar para cessar a dor que a assombra e o sofrimento que foi injustamente imputado à Selena. Os meus lamentos são, perto de sua angústia, um sarcasmo inútil. — As lágrimas escorrem. — Ainda assim, me lamentarei até que a minha existência se desfaça. Por isso, entenda isso como uma tentativa de poupá-las um pouco. Você merece conhecê-la antes de se despedir. — Nora soluça. — E a alma de Selena merece um pouco de tranquilidade antes de descansar. — Nora esconde o rosto no peito dele e chora. Revna a acolhe. — Selena é uma criança adorável. E muito falante.
Nora ri entre as lágrimas.
— Você passou um tempo com ela?
— Um pouco, sim. — A expressão de Revna torna-se séria. — É uma alma muito jovem. Não sabe que está morta. Estava presa ao corpo, sem saber que como espírito pode vagar pelo mundo. Foi difícil convencê-la a vir. É desconfiada. Muito mais do que você. E eu não poderia trazê-la se ela não concordasse.
— Como fez isso?
— Disse que você estava a esperando. — Nora ergue as sobrancelhas. — Adrian cravou você em Selena de uma forma tão profunda que percebo que ela sempre esteve esperando. Esperando por você. — Nora chora. Revna respira fundo. — Aproveite esse tempo. Adrian e Vincenzo estão indo a Génova. E você deve estar lá quando a encontrarem. Não há outra pessoa para auxiliá-la na passagem. Essa é a tradição da família, não é? — Ela pisca sem resposta. — Não se esqueça, Eleonora. Esse lugar é uma pintura. É um limbo. Nunca muda. Não devem ficar aqui para sempre. Você deve se recuperar para retornar, e Selena deve ser preparada para fazer a passagem.
(...)
O cheiro de ervas preenche o quarto alugado. Apesar do ritmo lento, a cavalgada foi extensa e com poucas pausas significativas. Poucos minutos antes do dia acabar, Adrian e Vincenzo concordaram em passar a noite em uma estalagem. Afinal, a montaria deve descansar e comer bem para que aguente o longo percurso. A escolha da estalagem não foi difícil; é a única disponível na região. E embora se anuncie como a melhor, Adrian tem dúvidas porque toda hora que abre a janela para ventilar o quarto, o cheiro forte de excrementos, tanto humano quanto animal, empesta o último quarto disponível. Além disso, da janela consegue ver o local exato em que todas as fezes são jogadas.
Adrian revira os olhos, fecha bem a janela e afasta-se para não ver todo o excremento produzido, mas não tanto porque encarar o céu noturno é um privilégio. A ardência no nariz é substituída pelo cheiro de sabão e ervas. No fundo do quarto, escondido por um biombo, Vincenzo lava o corpo em uma bacia de madeira. A água foi esquentada na lareira pelo senhor da estalagem, e foi adicionado mais um valor significativo à conta. Adrian não sabe como pagarão a estalagem. Ao mesmo tempo, não consegue coibir Vincenzo do banho porque as feridas são muitas e extensas. Sem a higiene mínima a infecção é inevitável. E o cheiro do pus será muito mais incômodo.
Adrian senta-se no beiral da janela e encara a noite. Mais quatro ou cinco dias serão necessários para chegar a Génova. Embora Eleonora o tenha transformado para buscar Selena, Adrian afastou-se muito da região. E agora que o sol não queima mais o rosto, os olhos e os ombros, e a cabeça não lateja devido ao excesso de odores que o mundo porta; Adrian finalmente se pergunta porque não buscou Selena. A fisgada no peito queima na pele. Recusa-se a formalizar as possibilidades. A tensão espalha pelo corpo; as mãos formigam; os ombros pesam e pinicam. Adrian esfrega a nuca.
Por que não encontrou Selena?
Adrian engole a seco. Esfrega o espaço entre os olhos. Belisca a própria pele. Talvez Selena não estivesse em Génova. Então, por que estão voltando para a propriedade Conti? Adrian pode ter sido impedido de alcançar a filha? Selena se assustou, como Dante quando era pequeno? Adrian a machucou?
O nariz arde e coça muito. O cheiro de terra, suor, grama úmida e laranja preenche o cômodo ao mesmo tempo que Vincenzo termina o banho. O homem surge no centro do quarto, e Adrian coça tanto o nariz que escorre. Os olhos ardem, e Adrian espirra várias vezes.
— Você tomou banho para feder?
Vincenzo cheira a si próprio.
— Não estou fedendo!
— Está sim! Mal consigo suportar.
Vincenzo revira os olhos.
— Talvez seja o seu cheiro! — Adrian cheira o próprio corpo. Cheira a suor, terra e sangue. Muito sangue. — Abra as janelas, então.
Adrian obedece, e a brisa traz o cheiro fétido dos excrementos e o forte cheiro de terra, grama úmida e laranja.
— Não. — Adrian torce o nariz. — Não é meu, nem mesmo seu. Você cheira a… — Adrian fareja. — Lavanda. E sabão ruim.
— Com certeza o sabão é ruim. — Vincenzo senta-se na beirada da cama. O último quarto disponível naquela noite é composto apenas por uma cama grande de casal, que acomoda dois adultos e uma criança. Eles ainda não discutiram a logística, mas com certeza não dividirão a cama. — É sempre assim? — Adrian inclina a cabeça, confuso. — O nariz. Os cheiros. Sente tudo?
Adrian aperta a ponta do nariz, pensa e suspira.
— Não, eu… — Ele estreita os olhos. — Por muito tempo, não. É complicado. — Adrian coça a cabeça e sente a ferida que recusou ajuda do Revna. — Antes de conhecer Eleonora, era assim que eu vivia. Todos os cheiros e barulhos eram fortes, exagerados. É como se eu estivesse muito sensível a tudo. Até mesmo ao toque. — Adrian encosta as janelas novamente. — Nos dias antes da lua cheia eu era insuportável, intratável. Tudo isso me deixava mais nervoso que o normal, mais impaciente. — Adrian pende a cabeça para trás, encostando na parede. — Por muito anos eu não me transformei. Acredito que seja um absurdo para os meus iguais, mas foi o que me salvou. Se eu fosse obrigado a transmutar todos os meses… Nem sei quanto mal eu teria causado. Não só aos desconhecidos.
— Você não controla?
— Não. Ou pouquíssimo. — Adrian suspira. — Às vezes eu me lembrava de algumas coisas no dia seguinte. Porém, enquanto estava transmutado… Eu não sei. Eu era um mero espectador dentro de mim mesmo; incapaz de intervir. E ainda que fosse possível intervir, eu não desejava. Eu era dominado por todos os meus piores desejos. — Ele encara o jardim da propriedade. — São incontáveis as desgraças que causei. As coisas que destruí. E todas as pessoas que matei, inclusive meu próprio pai.
Vincenzo arqueia as sobrancelhas.
— Foi realmente você?
Adrian assente e acrescenta:
— Eu sempre me perguntei se era assim para minha mãe também. Ou se é assim para todos os que são como eu.
Vincenzo abaixa o olhar e suspira.
— Deve ter sido difícil crescer assim.
Adrian estreita os olhos.
— Eu não preciso que sinta pena de mim.
— Adrian, eu não… Você sempre tira o pior das coisas.
Adrian salta da janela.
— Eu mordo como o meu pai. Lembra? — Vincenzo balança a cabeça. — Além disso, você já evidenciou o seu desprezo antes. Não acredito que nada mudou. Não para mim.
— Eu não… Eu nunca desprezei você.
Adrian inclina a cabeça para trás e gargalha.
— Você sempre me desprezou. Você sempre se sentiu melhor do que eu. — Adrian gesticula. — Mais culto, mais agradável, mais fácil de lidar. Até mais honrado do que eu! Era o filho que Marco desejava. E nunca me deixou esquecer disso!
— Não seja tão tolo. Nós dois sabemos que Marco nunca desejou filho nenhum!
Adrian sorri, amargo.
— Tenho certeza que ele seria feliz por tê-lo.
— Não pode me culpar pelo que o seu pai fez!
— De forma alguma! Ao Marco deixo todo o mérito! Mas não pense que isso te escusa. Junto com Abigail, você sempre tentou me lembrar que não pertencia à família, que eu era uma besta-fera sem conserto. Os deboches, as risadas, os comentários maldosos. Eu sempre fui excessivo; muito barulhento, muito desagradável.
— Convenhamos, Adrian: você nunca tentou ser mais fácil. Pelo contrário, você provocava Marco o tempo todo. Se você se comportasse melhor…
— Como? — Adrian esbraveja. — Como eu poderia ser diferente? Minha mãe foi enterrada no quintal quando eu tinha seis anos! E apenas ela sabia o que eu era. E eu fui obrigado a me transformar em todas as luas cheias. Tem noção disso? Todos os ossos se quebrando; toda a pele rasgando e se refazendo! Uma vez por mês! Todos os meses, sem fim! E havia Marco! Marco sempre me detestou. Pouco por quem eu era. E sim por ser como Anna! E eu ainda deveria ser dócil e fácil para que não o incomodasse e evitasse tudo? — Adrian gargalha. — É claro que sim. É assim que você vê as coisas. Cabia a mim evitar que ele fosse um carrasco! E não cabia a ele ser alguém decente. Isso é uma forma de dizer que eu sou culpado!
— Eu não disse…
— Não precisa dizer com as palavras, Vincenzo! Você não…
O cheiro de orvalho invade o cômodo, mesmo quando as janelas e a porta estão fechadas. Aos poucos, a figura se forma próxima à lareira. Revna resmunga como um pai autoritário:
— Tudo o que sabem fazer é brigar! Como duas crianças ridículas!
Adrian recua meio passo. A entidade avança no quarto, jogando uma bolsa de couro em cima da cama. O tilintar das moedas interrompe a bronca. Adrian confere as moedas de prata e arqueia as sobrancelhas.
— Onde conseguiu isso?
Revna revira os olhos.
— Sente-se. — Ele diz para Vincenzo, que obedece sem questionar. — Deixe-me ver os ferimentos.
Adrian cruza os braços. É tão natural para Vincenzo agir com docilidade. Revna analisa os ferimentos com muita técnica e aplica a pasta acinzentada, que é uma mistura indescritível e insuportável de cheiros, e garante que em alguns dias Vincenzo estará completamente recuperado. Adrian toca a ferida exposta na cabeça e reconsidera a anterior recusa. A aproximação é lenta e pouco produtiva. A pasta foi feita para atender exclusivamente Vincenzo. Revna limpa as mãos nas roupas e o encara, erguendo a sobrancelha.
— Gostaria de um pouco? — Há deboche na voz da entidade. — Considere pedir.
— Fede demais.
Revna revira os olhos e levanta-se ao mesmo tempo que Vincenzo se veste.
— Vocês vão dividir a cama? — Revna ri. — Ou o cachorro vai dormir no chão?
Adrian range os dentes.
— Não vejo problema com a cama. — Vincenzo diz, muito dócil. — Tem bastante espaço.
Revna aponta para o homem com o indicador e diz:
— Você deveria aprender um pouco.
— Tudo isso é uma grande diversão para você, não é? — Adrian bufa. — Sabe de uma coisa, Revna? — Revna inclina a cabeça, curioso. — Tenho pensado nisso desde que voltei… Não havia um corpo menos desagradável para colocar a alma de Eleonora? Inclusive, eu nem mesmo sei se a alma dela está nesse corpo, considerando que tudo o que ouço é o Vincenzo.
Revna se endireita muito rápido.
— Acha que estou mentindo?
— Não vejo nenhum motivo para ser honesto comigo.
Revna sorri de canto e suspira.
— Ainda assim, a alma de Eleonora repousa dentro desse corpo. Quanto a isso, não se preocupe. — Vincenzo estreita os olhos, acompanhando a conversa. — Sobre o corpo escolhido. Já respondi essa dúvida antes. Era o corpo mais próximo disponível, que suportaria a magia de Eleonora.
— Não entendo isso. Ele é apenas um homem.
Revna observa Vincenzo.
— Ele é? — Revna afasta-se. — Eu não tenho intenção de passar a noite com vocês, mas acredito que Vincenzo encontrará a oportunidade para contar da família cigana. Não é?
(...)
— Mamãe! — Selena inquere. — E essa? Eu gostei da cor!
Nora observa a lavanda e sorri, abaixando-se perto da garota. Ela cheira a planta. Selena a imita e arqueia as sobrancelhas, surpresa. Nora inclina a cabeça.
— Que cheirosa! — Selena franze o cenho. — É de comer?
— Mais ou menos. — Nora colhe um punhado cheio de lavandas e coloca no cesto. — Usamos mais para chás. E para preparar banhos. — Selena alcança o ramo e cheira novamente, assentindo. — Eu também gosto de usar para purificar as energias e trazer equilíbrio.
A garotinha assente e volta a correr, desviando dos arbustos e árvores. Os cachorros a acompanham. O dia nasceu ensolarado e convidativo; a brisa suave traz o cheiro de pólen, comum da primavera na região. É a melhor época para colher flores e plantas, embora não seja aconselhado caçar porque é a época de acasalamento de diversas espécies; aprendeu isso com o pai há séculos, que sempre foi muito sensível à natureza. Agora que é adulta e bem mais velha do que um dia os pais foram, Nora os entende de novos ângulos.
Selena desaparece entre a grama alta e os arbustos. Nora não se preocupa. Não há ninguém na floresta além delas e os cachorros, que são companhias glamourosas e divertidas. Ela também conhece a região muito bem. No mundo real é inexistente, mas a floresta nada mais é do que a mistura de suas lembranças. A gentileza de Revna em construir um limbo tão delicado ainda impressiona e a envergonha.
Nora para de andar e inspira. A controvérsia é grande. Embora nada no limbo seja real, ela e a filha são. Agora que está mais calma e até mesmo descansada, Nora sente a energia que a alma de Selena emana. É refrescante, jovial e estranhamente severa. Ainda que a garota se distancie um pouco, Nora sente a reverberação a vários metros de distância.
Deslumbrante e preocupante ao mesmo tempo. Nora não sabe se no mundo físico Selena deixava um rastro tão forte. Desconfia que sim, já que atraiu diversas energias duvidosas. O quão poderosa Selena será quando crescer? Nora engasga com a própria saliva. Revna a alertou na noite anterior.
É um retrato.
Não podem ficar para sempre.
O farfalhar das folhas mostra a aproximação, e Nora se assusta quando dois borzois saltam dos arbustos. Os cachorros de pernas longas, corpos esguios e focinhos achatados brincam entre si, mordiscando, correndo e jogando-se ao chão o tempo todo. A voz de Selena sobressalta o barulho dos animais, e Nora sente o coração disparar. Por muito tempo imaginou como era a voz da filha; aguda ou suave. Também imaginou as expressões que Selena faria ao se comunicar; se era esguia e ágil como Nora ou forte e dura como o pai.
Agora a vê por completo. A garota ainda não sabe que é uma alma perdida no limbo. Não sabe que os antigos limites corpóreos se desfizeram; não sabe que é leve e translúcida como uma pluma; ou que naquele limbo tudo pode ser feito e não há nenhuma obrigação física. Selena age como a criança que era antes de ser desfeita; rendendo-se aos costumes de dormir, comer, ir ao banheiro.
Nora lacrimeja. A farsa é sutil e comovente. É um presente e um castigo.
— Mamãe! — Selena chama em um tom mais agudo que o normal. Nora a procura entre a grama alta e não a encontra. Ela apressa o passo, revirando os arbustos. — Mamãe! — Selena soa próxima. — Aqui em cima.
Nora arregala os olhos ao ver a garota pendurada no galho denso da árvore de médio porte. As pernas da garota estão pendentes. O corpo todo é sustentado pelos braços juvenis e muita disposição. Nora aproxima-se e apoia a garota pelas pernas até que ela se sinta segura para soltar-se. Nora a acomoda no colo e a encara. Há um meio sorriso, recheado de descrença e admiração.
— Olha só! — O tom de Nora beira falsamente a repreensão. — Você é bem danada! Me distraí só cinco minutos.
A expressão corporal de Selena muda drasticamente. As bochechas vermelhas pelo esforço tornam-se pálidas. Os ombros altivos se encolhem. A ruga surge entre as sobrancelhas; os lábios se tornam retos e repuxados. Selena desvia os olhos, envergonhada.
— Me desculpe. — Nora a coloca no chão. — Isso não é coisa de mocinha. Eu prometo que não vou fazer de novo. — Nora franze o cenho. — Eu prometo. Juro. — Selena junta as mãos. — Não fique brava comigo. — A voz torna-se chorosa. — Por favor, não quero voltar pra lá.
— Ei, — Nora segura o rosto da menina. As primeiras lágrimas escorrem. — Do que está falando?
— Eu sei que prometi me comportar melhor. Me desculpa.
A tensão aparece nos ombros de Nora. Rapidamente se espalha pelo corpo como um choque; uma queimação. Morre no peito ao transformar-se em raiva.
— Quem te falou essas coisas?
Selena desvia os olhos e se afasta. Nora a segue. Por vários minutos, elas caminham entre os pinheiros-rasteiros sem falar nada. Selena usa os dedos para arrancar algumas folhas. Os ombros e a cabeça seguem baixos e envergonhados. Enquanto a segue como um cão devoto, Nora pondera todas as possibilidades. O tempo que Selena passou com Ginevra não foi usado apenas para a mais óbvia maldade e tortura exercida por Lucien, mas também podas da personalidade ativa da garota; deixando-a mais dócil como a dama que deveria ser. Nora fecha as mãos em punhos para disfarçar o tremor raivoso. O gosto de bile surge na boca.
Como Adrian permitiu que Selena fosse arrancada da própria casa? Como ele sequer cogitou que seria útil ou gentil para a garota? Ela não o conheceu quando criança, mas desconfia que Adrian fosse agitado, falante e energético como Selena. Se Adrian fosse parecido com Dante, uma criança de imaginação e curiosidade fértil, mas energia moderada e muito mais voltado para os trabalhos manuais como a pintura, não teria sido rejeitado por Marco.
Por que Adrian a submeteu?
Nora para de andar quando a raiva transborda em xingamentos baixos. As mãos ardem, assim como o peito. Ela olha ao redor, sente a brisa suave e o cheiro doce. Alguns segundos de procura são necessários até Nora visualizar a pequena árvore de framboesa-selvagem. Ela arqueia as sobrancelhas. Tem certeza de que aquela árvore não existia no dia anterior. Desiste rapidamente de toda lógica, já que estão em um limbo feito por Revna; qualquer coisa pode acontecer. Aproxima-se com admiração e arranca a primeira frutinha. O cheiro é intenso, azedo e muito curioso. Lembra-se, então, de Nikita. Era a fruta favorita dele.
Nora a esfrega na pele para testar. Depois, enfia na boca. O gosto é agridoce como o cheiro. A frutinha está suculenta como um manjar dos deuses. Ela ri, pensa em Revna e nega. Naturalmente framboesas são frutas que geram discussões acaloradas; para alguns é amarga demais; para outros, como Nikita, é a melhor.
— O que está fazendo?
Nora limpa a boca porque tem certeza que está avermelhada. Selena aponta para a mancha vermelha no braço. Nora senta-se na grama e a convida para descansar. A garota teme, olha ao redor e cede.
— O seu pai já te ensinou como saber se a fruta é venenosa? — Selena nega. — Antes de comer qualquer fruta desconhecida, esfregue um pouco na pele. Se for venenosa, a pele vai coçar e inchar muito rápido. — Selena ergue as sobrancelhas, impressionada. — Quer tentar?
— Eu posso?
— Claro que sim.
A garota assente. Nora escolhe a framboesa mais bonita do pé e a entrega à garotinha. Meio desajeitada e muito curiosa, Selena esfrega no braço. Embora a cor forte da fruta pinte a pele dela, não há nenhuma reação. Selena ri, curiosa.
— Pode comer, se quiser.
— Eca! — Selena faz uma careta quando prova. Nora ri. — É… — A garota cospe. — horrível! — Nora enfia outra na boca. — Mamãe, é horrível! Não faz isso! — Selena agarra as bochechas da Nora, apertando para fazê-la cuspir. Nora ri, e o resto da framboesa escapa da boca. Selena encara. — É muito ruim.
Nora agarra Selena e a aconchega no colo. A garota resiste muito pouco. Nora escolhe novas framboesas.
— Tudo bem não gostar do sabor. — Nora comenta. — Mas sabe o que dá pra fazer com framboesas? — Selena nega. — Dá pra fazer tinta vermelha bem escura. Dependendo quase roxa. Gosta de pintar?
— O Dante gosta!
— Sim, o seu irmão adora.
Selena franze o cenho.
— Você ensinou isso pra ele, mamãe? — Nora assente. — E ele gostou?
— Muito.
Selena dá de ombros, pensativa. Nora permite que Selena agarre a sua mão e brinque com os dedos por um tempo. Ela apoia o queixo no topo da cabeça da menina.
— Sinto falta dele. — Selena confessa e a olha. — Do Dante. E do meu papai. — Nora concorda. — Posso te perguntar uma coisa?
— Tudo o que quiser.
— Podemos ir pra casa?
Nora engole a seco, desvia os olhos e pondera.
— Sim. — A mentira a consome muito rápido. Nora olha para cima para conter as lágrimas. — Podemos tentar.
— Podemos levar os cachorros? Eu gostei.
Ela ri, enxuga as lágrimas e assente, chorosa.
— Vamos tentar. Eu prometo.
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