As pedras de quase um metro e meio formam o círculo perfeito que separa o mundo natural do mundo astral. Circe circula com as pontas dos dedos as runas que emanam energia e impedem a entrada de invasores, curiosos ou até mesmo desavisados. Os desenhos são profundos e foram gravados por seres que a antecederam há eras, quando a floresta e toda a região não era amaldiçoada pelo ceticismo.

A brisa daquela noite é forte e prenuncia a chuva torrencial comum para a região, embora nem sempre seja bem-vinda. Quando a chuva se transforma em tempestade e destrói todas as plantações, os deuses que não são mais cultuados são culpados, e a fome é uma certeza no rigoroso e extenso inverno. Embora o céu seja belo no começo do inverno, as diversas cores que dançam no céu ao norte são impressionantes, Circe se pergunta se a rotina ao sul é mais agradável; se é mais fácil viver; se as pessoas realmente são mais amigáveis e calorosas.

A lua estará cheia em duas noites. Ainda assim, é grande e brilhante o suficiente para iluminar o caminho até o círculo mágico. Defini-lo desta forma, como um portal entre o mundo natural e espiritual, não é o mais adequado. A magia não existe apenas dentro do círculo. Apesar disso, Circe nunca lidou com nenhum ser sobrenatural na região; não seriam bem-vindos de qualquer forma. Há muito anos a diversidade da região desfez-se, conforme diferentes clãs dominaram a região.

Ela nunca entendeu porque tantos conflitos se arrastaram entre as eras. Ainda estejam consideravelmente distantes do extremo norte, e a rotina é desafiadora. A maioria sustenta-se com o cultivo próprio, se a plantação não for destruída por qualquer imprevisto, e principalmente a caça e coleta. A vida é pouco próspera. Se fosse um homem, e pensasse como um homem, talvez entendesse porque brigar pelo território é tão importante. E se fosse um homem forte e saudável, Circe, por outro lado, guiaria a família para as promessas do Sul; onde o sol arde no verão e queima a pele.

Circe afasta os pensamentos e derrama uma gota de sangue para atravessar o local. Do outro lado, ainda é a floresta que aprendeu a reconhecer enquanto crescia. Porém, em outra dimensão, com outros significados e até mesmo cheiros. A grama é verde e sempre úmida, como se todos os dias chovesse pela manhã. O cheiro de lavanda é forte. A brisa, por outro lado, é sempre suave e causa cócegas na pele. Naquele lugar, embora o tempo transcorra normalmente, nada realmente muda. Belo e inóspito na mesma proporção.

Todas as noites Circe gasta exatamente doze minutos para chegar à choupana. À medida que se aproxima, é possível notar todos os desenhos, mais símbolos mágicos, desenhados nos troncos dos pinheiros. Pinheiros e bétulas são, essencialmente, as únicas árvores que suportam a região de solo difícil e pouca variedade. O sangue misturado à arruda é o principal ingrediente para os desenhos. Este sangue, contudo, não é comum entre os mortais; a coloração é forte; tão escura quanto à noite.

Sangue dos deuses.

Sangue do corvo.

Circe ainda não sabe se acredita. Enquanto é noite, e tudo acontece diante os seus olhos, Circe é facilmente o segundo ser mais crédulo de toda a região, perdendo apenas para ele. No entanto, quando tropeça para voltar para casa antes que o marido acorde, as memórias que eram certezas se parecem muito com sonhos profundos e assustadores.

— Está atrasada. — Não é uma repreensão. É uma observação.

Ela deixa a pequena bolsa de couro em cima da cadeira e encolhe os ombros. O homem permanece sentado próximo a lareira, costurando a capa de couro ao redor das folhas feitas de cascas de árvore, um pouco de tecido e bambu. Circe ainda não acredita que cozer tudo, esmagar e peneirar diversas vezes realmente cria as folhas que se esforça para escrever entre as pausas do dia.

— Sinto muito. — Ela aproxima-se. O caderno é apertado contra o peito. Circe mantém a cabeça baixa como se pudesse fugir da atenção dele. Ou pior: como se olhá-lo no rosto fosse criar outro hematoma. — Hoje ele estava pior. Demorou muito para adormecer, mesmo com a valeriana.

Circe oferece o caderno. Revna, porém, o ignora e segura o queixo dela, a obrigando a olhá-lo. Circe desvia os olhos, e a pele queima como se a mão pesada estivesse machucando a pele de novo.

— Por quê?

Circe sorri, e as mãos começam a tremer.

— Importa? — Revna estala os lábios. — Não é necessário nenhum motivo. Na verdade, tudo é um motivo. Qualquer coisa.

Revna pega o caderno e folheia as páginas com atenção. Ele passa os dedos nas palavras que Circe esforçou-se para escrever nos três idiomas diferentes. A letra é trêmula por dois motivos: ainda está se acostumando a escrever e o tremor tem piorado.

— Você tem melhorado. Muito rápido. — O sorriso exibe os dentes bem alinhados e brancos. Os olhos verdes, como as folhas das árvores, se apertam levemente. E Circe sempre sorri de volta ao ver a covinha que surge no lado direito do rosto dele, embora o seu próprio sorriso não seja digno de ser exibido. Além da ausência de dois dentes em cantos diferentes da boca, os dentes da lateral são apinhados. — Em breve escrever será comum.

Circe olha ao redor e nega.

— Nunca. — Revna franze o cenho. — Talvez seja. Para o senhor. Para alguém como eu, — Circe apoia a mão no peito. — nunca será comum. Nunca. É mais do que um privilégio. Ninguém da minha família teve essa chance. E temo que não haverá. Para mim é o mais próximo dos presentes dos deuses que um dia terei.

— Não seja pessimista. Não acha que os deuses são capazes de mais?

— Para pessoas como o senhor, sem dúvidas. — Circe afasta-se para olhar as duas estantes que estão lotadas de diferentes livros. A maioria dos seus conhecidos nunca verão tantos livros, nem mesmo entenderão porque são importantes. Circe, contudo, os toca com mais devoção do que usaria para tocar um deus em carne. É assustador, terrível e tão belo saber que pessoas que a antecederam foram capazes de organizar toda a experiência e conhecimento para escrever tantas páginas sem ganhar bolhas nos dedos. Pessoas que ela nunca conhecerá pessoalmente. E, ainda assim, as conhece tão intimamente. — Pessoas como o senhor sempre são ouvidos pelos deuses, milorde. Ainda mais considerando o seu… — Circe procura a palavra correta para explicar aquela floresta que é uma cópia da floresta real, localizada entre a realidade e outro mundo indescritível. — Talento. O seu poder. O senhor é muito poderoso. Atravessará os séculos dessa forma. Às vezes penso que estou enlouquecendo, que tudo isso acontece aqui. — Circe toca a testa. — E todas as manhãs apenas acordo desses sonhos. E a vida real, o mundo real, está me esperando.

— Como pode duvidar quando isso também arde dentro de você? A magia. Eu sei que agora a sente.

Desde que o conheceu, Circe sente-se diferente. Como se algo dentro dela tivesse acordado ou até mesmo nascido. Pode descrever, inicialmente, como uma coceira incapaz de saciar porque acontece além da pele; a coceira espalha-se pelo corpo através do sangue, que agora é mais quente e parece sempre queimar por dentro. E, de repente, uma gota do seu sangue é o suficiente para abrir portais mágicos e sustentar magias.

— Nunca como o senhor. — Ela ri de si mesma. — Nunca serei capaz de fazer isso. — Circe refere-se àquele mundo que ainda não sabe bem nomear. — O senhor sabe… Isso não existe lá do outro lado.

Revna balança a cabeça e nega.

— Existe, sim. A magia existe em todos os lugares. Ainda que não seja usada. Ainda que tenha sido ignorada por décadas, por incontáveis gerações. É o que aconteceu. — Circe aproxima-se, sentando-se aos pés dele. É a única honra capaz de servi-lo. Revna, porém, senta-se ao lado dela e volta a costurar o caderno com mãos habilidosas. — É o que aconteceu com o seu povo. Há muitos anos, muito antes da sua antecessora mais antiga existir, a magia do seu povo era tão forte que era capaz de dobrar parte da realidade. Algo parecido com esse lugar que estamos. Afinal, o seu povo descende da primeira bruxa feita pelos deuses. Ela foi nomeada Nur. Sabe por quê? — Circe nega. — Significa Luz. Não apenas luz como uma fogueira, uma iluminação. É uma chama alta, forte e espiritual. Ela foi criada pelo próprio deus do oculto, com ajuda da sua filha preferida. Cada detalhe de Nur foi pensado pelos deuses porque eles sabiam que a sua obra era boa. Quando Nur tinha idade o suficiente, a deusa da magia, Eris, disse: vá e conheça o mundo. E o pai de Eris acrescentou: seja boa.

— E Nur?

Revna sorri.

— Nur obedeceu aos criadores com alegria. Naquela época, dizem os sábios, que o mundo era diferente. Primeiro, o mundo não era tão distante. E os seres mortais viviam mais do que hoje. Muito mais. Por isso, Nur foi capaz de conhecer toda a criação. Ela também conheceu as outras criaturas feitas pelos deuses, como os licantropos e os feéricos. Entre todas as novas criaturas, Nur era a mais curiosa. Antes de aprender a transformar o mundo com magia, Nur quis entendê-lo. Muitas vezes Nur buscava conhecimento com Eris, que se tornou a sua tutora. Às vezes, o pai dos deuses também surgia para ajudá-la. Em algumas décadas, Nur se tornou um dos seres mais poderosos, além dos criadores. Então, se apaixonou. E todas as filhas, mulheres, herdaram o poder dela, que descendia diretamente dos deuses. Por muito tempo, as filhas de Nur reinaram sobre o mundo. Isso encheu de inveja muitos corações. Conforme as outras espécies se tornavam fortes, as brigas cresceram. — Revna termina de costurar o caderno. — O resto da história você conhece, mas é importante entender que, apesar dos fortes conflitos, a magia nunca deixou de existir. Principalmente na linhagem direta de Nur. Ainda que o seu povo não tenha se dedicado a aprender magia, ainda que hoje seja mal-visto entre o seu povo, o sangue mágico é transmitido de mãe para filha e será assim até o fim dos dias. A magia nunca acabará, Circe.

Circe pisca, impressionada.

— Como sabe de tudo isso?

Revna franze o nariz.

— Os sábios me ensinaram. Tive muito tempo para estudar. — Circe o avalia. É incapaz de definir a idade do homem. A sua aparência é jovem, mas não infantil. É um homem alto, com corpo bem distribuído e equilibrado. O cabelo é loiro escuro e combina com os olhos verdes. Ele não tem barba, muito diferente dos homens da região. E apesar do forte físico, não há calos nas mãos que indicam trabalho pesado. Circe desconfia que ele tenha entre 28 e incontáveis anos. O homem é um sacerdote muito sábio e tem o conhecimento necessário para atravessar as décadas preservando a saúde e aparência. Ao menos é o que Circe pensa. — Veja, aqui está.

Circe pega o caderno costurado com cuidado.

— Ainda tenho muitas folhas.

— É para a sua filha. — Circe arqueia as sobrancelhas. — Não quer ensiná-la também?

— Eu não… — Ainda assim, ela aperta o caderno contra o peito. — Aelle… — Circe sorri, triste. — Não posso. Aelle ficará tão feliz que contará ao pai. E isso…

Revna torna-se muito sério.

— Deixe ele. — Ela ri e desvia os olhos, assustada. — Circe… — Revna segura o rosto dela, obrigando-a a olhá-lo. — Ele não te ama.

Circe escapa.

— É claro que não, Revna. Eu não sou tola. — Circe levanta-se e anda pela choupana. — Eu não o amo. Nunca o amei. Eu fiz isso… — As mãos tremem muito. — Eu devia isso aos meus pais. Como eu poderia me recusar quando eles tinham tantas outras preocupações? Tantas outras crianças para cuidar. Eu era um peso. Uma boca a mais.

— Isso é ridículo.

— Para o senhor. Isso… — Circe desvia os olhos. — É assim que as coisas são.

— A sua família não precisa mais ser salva.

— Não mesmo. Esse tempo passou. — Ela aproxima-se das janelas para avaliar a altura da lua. — O senhor é um homem muito estudado. Tenho certeza que a sua criação foi outra. Mais do que isso, o senhor é o que é. Homem. O senhor é livre para ir, se quiser. Assim como ele é livre para me deixar. Mas eu… — Circe encara as mãos trêmulas. — Essa magia que o senhor fala… Pode me livrar dele?

— Se a sua magia não fizer, eu o farei. Basta pedir.

Circe recua, pondera e nega, mordendo os nós dos dedos.

— Não. — Define. — Para onde eu iria? Como eu criaria minha filha?

— Minha querida, — Revna aproxima-se e segura o rosto dela com carinho, desenhando padrões indefinidos nas bochechas. — Minha querida, olhe ao redor. — Circe faz. — Farei uma dessa para você. Onde desejar. Ao sul, se assim quiser… — Ela fecha os olhos, inclina a cabeça na direção da mão dele e por meio segundo, aceita. — Não se preocupe com essas questões mundanas. São insignificantes, contornáveis.

— Eu… — Circe se desvencilha. — Ainda que eu pudesse, por quê? — Revna está prestes a responder, mas Circe gesticula, interrompendo. — Não. Não me encha dessas loucuras. Não me engane ainda mais. Eu não sou tola, meu senhor. Ainda que seja, comparada ao senhor, incapaz e estúpida, não sou tola. O que o senhor, um homem como o senhor, quer comigo?

(...)

Os cavalos estão próximos às margens do lago de médio porte. O ambiente é fresco e úmido, muito diferente do calor que os sufoca desde que começaram a cavalgar. Os animais se refrescam e brincam ao mesmo tempo, como se fossem velhos conhecidos ou até mesmo família. Adrian ajeita-se, escorando as costas no tronco da árvore. As folhas criam uma área de sombra perfeita para descanso antes de retornarem para a estrada. Fingindo-se de distraído, porque ele tem uma forte noção de tudo que acontece ao seu redor o tempo todo, Adrian acompanha a dinâmica dos animais e a luta pessoal de Vincenzo, que não encontra nenhum lugar confortável para se esconder do sol do meio dia.

Adrian finge não ver os olhares pidões de Vincenzo e ocupa toda a sombra. Ao mesmo tempo, para evitar prestar atenção nos resmungos do companheiro, ele pensa nos próprios cavalos. Embora os servos sejam de confiança, Adrian teme que nenhum deles tenha tanta paciência com a égua mordaz. Eleonora também não pode ajudá-lo, considerando que está, de alguma forma, dentro de Vincenzo.

E Dante?

Adrian engole a seco. Os últimos anos não foram amigáveis para eles. O luto de Dante era tão forte quanto sufocante, e Adrian nunca o repreendeu pela dor. Como poderia quando se sentia da mesma forma? Também não fez muito para suportar ou dividir a carga com o filho. Os olhos ardem, e Adrian esfrega o rosto como se fosse poeira. Não se envergonha de chorar por Dante, pelos pecados e enganos. Porém, não nos braços de Vincenzo. Não mesmo.

Boa parte de todo o problema não existiria se Adrian fosse mais forte. Como Eleonora é. Se ele fosse capaz de manter-se inteiro para os filhos. Ele rosna sozinho. É um engano. Um castigo auto-imposto. Adrian nunca foi, nem é, tão estóico quanto ela. Tão firme. Tão óbvio. E tão constante.

Constante.

Adrian nasceu dividido entre as existências, incerto de como ser. Não havia, é um fato, uma forma de agradar Marco. O genitor era mais do que insensível, era indiferente. E dentro de si, desde que entende-se como um ser pensante, Adrian sempre lutou contra as identidades. Ele encara as mãos. Como homem é capaz de ser digno. Talvez fosse capaz de ser íntegro como Vincenzo se não houvesse aquele tremor no peito. A ânsia. A raiva. As obrigações. E os desejos.

— Você não é o único que quer descansar. — Vincenzo resmunga, empurrando Adrian com os pés para sentar-se.

Adrian tenta evitar a companhia do primo. Funciona pouco. Por um tempo considerável, a disputa para escorar as costas no tronco ocorre em silêncio, com beliscões, empurrões e resmungos inaudíveis. Adrian desiste, cede o tronco e mantém-se sob a sombra da árvore.

— Você é bem inconveniente, não?

Vincenzo revira os olhos como uma criança.

— Nós somos ridículos. Pensei que havíamos concordado.

— Nós? — Adrian debocha. — Fale por você.

Vincenzo revira os olhos, ajeita as costas no tronco da árvore e demora um tempo para escolher de qual lado morderá a maçã. Adrian arqueia ambas sobrancelhas e ri.

— Você é um homem ou uma garotinha? Quanta frescura! — Vincenzo o ignora. — Ainda não acredito que se casou. Com uma mulher. Ou vocês invertem os papéis?

— Por quê? Está interessado em participar?

Adrian o repreende com um tapa relativamente forte.

— Com você? Prefiro beijar a bunda do capeta.

Vincenzo ri, e Adrian se assusta.

— No que está pensando? — Adrian pisca diversas vezes, inclina a cabeça e franze o cenho. — Você está quieto desde que acordou. Está pensativo, senão triste.

Adrian recusa-se a confessar que está angustiado. Não para Vincenzo. Nunca para Vincenzo. Ainda assim, ele se entrega e pensa nos filhos por mais tempo do que é normal em uma conversa.

— Estou pensando no que aquele cara disse. — Vincenzo inclina a cabeça. — Revna.

— Oh, sim. — Vincenzo usa os dedos para fazer aspas. — Aquele “cara”. É um deus.

— É um zé ninguém.

Vincenzo ri de novo, e Adrian estranha mais uma vez. Depois, ele balança a cabeça e suspira. Por um segundo, ou menos do que isso, Adrian pondera em compartilhar com o primo as preocupações. São tantas. Não apenas preocupações. Há algo pior crescendo no peito, que dificulta a respiração. É como culpa. É ainda pior.

— Você é cigano?

Vincenzo pisca.

— Eu não sei. — Vincenzo soa brutalmente honesto. — Não entendo tudo o que isso significa. Ettore, o meu pai, era filho de ciganos. Ambos os pais eram. — Adrian arregala os olhos. — Por um tempo, Ettore viveu como os ciganos que vemos nos centros das cidades. A minha avó era mais do que cigana. Ela era… Algo como Nora.

— Uma bruxa.

Vincenzo balança os ombros.

— Talvez. Ela não… — Vincenzo segura a própria cabeça. — Não era algo que discutíamos em casa. Era mais como um passado bem distante, como se nem mesmo pertencesse a nós. E a minha avó nunca se apresentou como uma bruxa, mas… Bem, sim. — Vincenzo coça a testa. — Talvez fosse a tradição da família dela. Talvez essas coisas mudem entre as culturas. Minha avó não fazia grandes magias para alterar o mundo. Acho que hoje a grande maioria das bruxas não faz. O dom dela era clarividência. Dom é uma gentileza da minha parte. Era mais como uma maldição.

— Por quê?

— As minhas memórias não são tão confiáveis, veja. Minha mãe não gostava que falássemos sobre isso. Assim como Marco, ela era bem cética e apegada à fé cristã. E a minha avó se tornou também uma grande devota de Cristo. Os meus pais só se conheceram porque os meus avós se converteram.

— Por que fizeram isso?

— São muitos motivos, penso eu. A vida é difícil para todos que não são cristãos, sabe disso. E os ciganos sempre foram perseguidos e detestados por todos os lugares que passaram. A má fama não acompanha, de fato, os hábitos reais das famílias ciganas. É um povo muito diverso, inclusive. — Vincenzo faz uma pausa, encarando a maçã. — Mas não acredito que tenha sido esse o grande motivo. A verdade é que a vovó era perseguida pelos mortos. E pelo futuro. — Adrian arregala os olhos. — Antes, ela era capaz de prever o futuro nas linhas das mãos e nas borras de chá. Era uma habilidade muito interessante. E em algum momento, não sei quando ou como… Veja, a minha avó sussurrava essas histórias escondida de Abigail. Em algum momento, os mortos perceberam que ela era capaz de vê-los, de ouví-los, e começaram a persegui-la em busca de ajuda. Ou coisa pior.

Adrian sente o arrepio surgir nos braços e subir até a nuca.

— Eu entendo. Por um tempo, minha… — Adrian se interrompe. Vincenzo espera tanto que ele se vê obrigado a completar: — A igreja. Foi a única coisa que manteve essas coisas longe para mim.

— Bem, — Vincenzo se levanta. — o mesmo para a minha avó. — Eles se olham. — Acredito que por isso me tornei o hospedeiro de Nora. Não tenho nenhuma habilidade sobrenatural. Ao menos, não que eu saiba. — Vincenzo franze o cenho. — Mas a minha irmã, que Deus a tenha, tinha.

— A magia só é expressada pelas mulheres. — Adrian comenta. — Acredito que os homens herdam o sangue mágico, mas são incapazes de exercer a magia de forma tão completa. Eleonora me dizia que a magia era um presente dos deuses destinado às mulheres. — Vincenzo agacha-se perto do rio e encara o próprio reflexo. — Talvez faça sentido. — Adrian admite, a contragosto. — O sangue mágico da sua avó foi transmitido para você. Você, como homem, é incapaz de fazer magia natural. Mas o sangue ainda é mágico e te torna capaz de sustentar a alma dela.

— Revna foi honesto, então.

— Ainda assim, — Vincenzo lava o rosto, os braços e as mãos. — não acredito que Abigail casou-se com um cigano.

— O seu pai se casou com uma licantropa. Acredito que estamos na mesma página.

Adrian solta o ar pelo nariz numa quase risada. Todavia antes que seja capaz de elaborar uma resposta, o cheiro almiscarado de terra úmida, laranja e suor enche o seu nariz. É tão forte que ele espirra várias vezes. Depois, olha ao redor, tentando enxergar algo, ou alguém, suspeito.

— Tem algo aqui.

Vincenzo congela e sussurra:

O quê?

Adrian balança os ombros e cheira, tentando captar mais informações. Os cavalos relincham, como se percebessem também.

— Não sei. — Adrian prepara a montaria com pressa. — E não quero descobrir. Não agora. — Eles montam os cavalos. — Vamos. Rápido.

(...)

As pequenas mãos estão manchadas de vermelho. A cor foi feita com as framboesas mais bonitas que Nora encontrou durante o passeio da tarde. O verde, um tanto quanto aguado, foi feito com muitas folhas, grama e capim. O marrom surgiu do punhado de terra ocre que viu atrás da cabana. As folhas são nada mais do que cascas de madeira arrancadas com a faca que Nora sempre mantém por perto. Por fim, os pincéis foram substituídos pelos dedos infantis.

Selena divide-se entre comer o ensopado feito com cenouras, cogumelos e carne de coelho e continuar o desenho. Os traços iniciais foram feitos com carvão com a ajuda pontual de Nora. Selena não é naturalmente hábil como o irmão e não parece ter se dedicado ao desenho e à pintura antes. O que surpreende Nora, a enchendo de sorrisos bobos, é que a garota não se importa. Com a língua entre os lábios, ela pinta os três borzois, com muita ênfase nos narizes longos e escolhe cores fantasias.

Os borzois foram desenhados no meio da floresta. Há muitas árvores, quase pinheiros completos, muita grama e muitas pedras. Não há sol, céu, nem nuvens. Além dos animais e da paisagem, Selena se concentra para desenhar pessoas. Aos poucos, Nora entende que é a própria família. Selena e Dante estão no meio. Adrian é desenhado com traços muito simples, pessoas feitas de palitos, do lado esquerdo deles. E Nora, por fim, é feita ao lado direito. Não existe proporção para Nora: as pernas são muito longas, a deixando maior que todos. Os braços, porém, são curtos. O cabelo preto e longo é desenhado com cuidado, tampando um pouco o olho esquerdo.

Nora ri, de repente.

— É assim que eu sou?

Selena a olha, franzindo o cenho.

— Não gostou?

— Eu amei.

Selena analisa o próprio desenho.

— Não sou tão boa com isso. — É uma constatação óbvia; não um lamento. — Por isso tá todo mundo meio feio.

Nora gargalha.

— Até eu?

— Até você, mamãe.

— E o papai? — Selena morde a língua e alcança a última lasca de carvão para acrescentar orelhas pontudas na cabeça de Adrian. Nora franze o cenho. — O que é isso?

Selena balança os ombros.

— O papai faz “auuu”, não faz?

Nora estreita os olhos.

— Quem te contou isso?

A garota não a olha e finge estar desenhando.

— O papai.

— O papai? — Nora insiste. — Tem certeza?

Nora esteve ausente pelos últimos oito anos. Não faz ideia de tudo e do quanto que Adrian e Selena conversaram. E também não consegue imaginar ele contando com facilidade sobre a natureza licantropa. Ainda mais tão cedo. Dante, de fato, descobriu antes porque seguiu o pai em uma noite de lua-cheia, muito pequeno e inocente para entender a necessidade do genitor em se ausentar.

Selena, por outro lado, nasceu quando Adrian era capaz de evitar a transmutação.

— Hum… — Ela mordisca o lábio inferior, inclinando a cabeça. Elas estão juntas por dois dias completos, e Nora sabe, assim como o céu é azul, que Selena está mentindo. Aquela garotinha foi gerada por nove meses dentro dela. Mais do que isso, todos os detalhes de Selena são muito familiares. Os olhos pequenos e redondos, como os do pai. A forma como ela inclina a cabeça e mordisca os lábios quando está com dúvida. Os silêncios longos quando está pensando excessivamente. O olhar agitado. É como se Nora a conhecesse a vida toda. — O papai, sim.

Nora apoia a mão no ombro dela. Selena ergue os olhos. Elas se olham.

— Você tem medo de mim?

— Não, mamãe!

— Por que não me conta a verdade, então?

Selena se encolhe, mordisca os lábios e desvia os olhos. As mãos sujas coçam o rosto.

— Não quero que fique chateada. — Nora sustenta o olhar. — E também… — Selena encara o desenho. — Não é certo, eu sei. Isso é muito, muito errado.

— Ainda que não seja certo, não vou ficar chateada. Só quero entender.

Selena inclina a cabeça.

— Foi a vovó. — Nora recua. — A vovó Anna.

— E quando você viu a vovó?

— Em casa. — A expressão de Nora se torna séria. Selena volta a desenhar. — Às vezes a vovó Anna aparecia para me ver. Eu gostava.

— É mesmo? Por quê?

Selena balança os ombros.

— Ela dizia que me amava. Não só eu. — Selena aponta para si mesma. — Mas o papai e o Dante também. Mamãe, — Selena agarra o rosto dela, criando uma mancha marrom, a mistura de tantas cores, na pele pálida. — não fique brava. Você prometeu.

Nora abraça Selena e apoia o queixo na testa dela.

— Não estou brava. Estou preocupada.

— A vovó Anna era minha amiga. Sinto falta dela. E ela mandava os outros embora.

— Os outros?

Selena esconde o rosto no peito de Nora.

— Não quero falar disso. Não quero que voltem.

— Não voltarão. Nunca mais. — Selena a olha, curiosa. — Amanhã eu vou te mostrar como mandar essas coisas embora.

— Sério? — Nora assente. — Me ensine agora!

Nora ri e levanta-se, pegando Selena no colo. A garota se assusta, ri e a abraça.

— Agora precisamos limpar essa bagunça.

(...)

— Pensei que fosse uma pintura. — Nora dispara, de repente. Aparentemente, ela é a única que está desperta. Os três cachorros, que Selena ainda não decidiu os nomes, dividem a cama com a garotinha. — Mas eu não paro de mudar. Aqui. — Nora coloca a mão no peito. — Bem aqui.

Revna forma-se da escuridão.

— Você quem definiu como pintura. Eu disse que é um lugar para se curar.

— Não acho que esteja me curando.

— Nem um pouco?

Nora nega.

— Pensei que a tristeza me engoliria. Pensei que esse seria o meu maior monstro. Conviver com Selena sabendo que é temporário. Sabendo do que aconteceu. Pensei que não suportaria. — Revna permanece quieto. — Sinto tristeza. Boa parte do tempo. O que me consome é algo pior, contudo. — Nora se vira e o encara. — Eu não sairei daqui para ser alguém melhor, Revna. Não deveria me deixar sair.

— Não é uma prisão. Já lhe disse antes, minha querida, não tenho poder sobre a sua alma.

A discussão é inútil. Por isso, Nora se acomoda na poltrona desbotada e esfarrapada. A choupana é a mesma que surgiu nos sonhos. Ou devia chamar de lembranças? As duas estantes cheias de livro também, assim como as mesas. O tapete e a poltrona, todavia, são da vida de Eleonora.

— Nur. — Ela comenta, de repente. Revna franze o cenho. — Talvez seja a versão mais rudimentar do nome. Hoje a variação mais popular é Elena. Os helênicos, é claro. E também existe, principalmente ao norte: Lenora, Leonor e até mesmo Alionor. E Eleonora, é claro. O significado mantém-se parecido: luz. Iluminação. Nur, porém, era um pouco mais. Era a claridade associada à sabedoria. — A expressão de Revna é vazia. Nora molha os lábios. — O senso de humor dos deuses é peculiar. Sou a sua criação.

— Não.

— Circe era muito tola, mas eu não sou. Não mais.

— Circe não era tola. — Revna aproxima-se, agachando-se perto da poltrona. Nora o encara. — Circe não tinha conhecimento. Não porque era tola, mas porque não foi instruída. Ela nasceu em um período muito peculiar.

— Essa alma…

— A sua alma.

— Ela está amaldiçoada desde a criação?

Revna sorri.

— Não. — Ele senta-se no chão, aos pés dela. — Nur não foi amaldiçoada. Muitos contam que Nur morreu de velhice. Eu não acompanhei tudo, embora tenha trabalhado na criação dela… Não é assim que funciona, Eleonora.

— Então me diga como é.

— Por muito tempo, Eris e eu nos dedicamos exclusivamente à criação da sua raça. — Nora assente. — Gostávamos da ideia de ter uma raça capaz de manipular a matéria e energia. De uma forma bem parecida com o que os deuses fazem. E quando criamos Nur, pensamos mais nas características físicas, biológicas e mágicas que os seres da sua raça precisavam ter para suportar esse nível de alteração da realidade. Todos os seres foram criados à imagem e semelhança dos deuses, no sentido que são capazes de sentir tudo o que nós sentimos. Vocês podem sentir, desejar, imaginar, criar da forma como os deuses fazem. Podem até mesmo odiar como nós. Porém, não pensamos, por exemplo, em definir a personalidade de Nur detalhe por detalhe. Eris e eu concordamos que Nur devia conhecer, experimentar e decidir quem queria ser. Talvez Nur tenha sido a única que pôde realmente escolher, sem interferências, na história da existência mortal. Esse talvez tenha sido o nosso maior presente para a sua antecessora. Nem eu, nem mesmo Eris, a fez para agradar de uma forma tão pessoal.

Nora enxuga as lágrimas. Revna toca a mão dela e acrescenta:

— A alma de Nur não foi amaldiçoada. Ela morreu em paz. Eu, pessoalmente, acho que ela escolheu morrer porque não aguentava mais os filhos, netos e bisnetos. — Nora ri alto. E Revna exibe o sorriso que cria a covinha. — Nur escolheu reencarnar porque sempre foi muito curiosa. À medida que a alma dela amadureceu, ela entendia que essa era a forma de viver para sempre como os deuses. Ao menos, é o que Eris pensava. Eu preferia pensar que Nur queria experimentar tudo. Nem todos têm tamanha disposição. Nur teve.

— E então? Como Nur se tornou Circe?

— Preciso admitir que não fui um criador tão presente. Não que eu não quisesse. Acho que não fazia sentido. Se eu ficasse a acompanhando a cada passo, poderia interferir no desenvolvimento dela. Eris a acompanhou mais. Acho que para Eris a Nur era como uma filha. Mas aos poucos Eris também a perdeu de vista. — Nora assente, curiosa. Revna ri como se sentisse o interesse dela. Talvez sinta. — E eras se passaram. Outras coisas aconteceram. Coisas no mundo, na criação. E coisas em nosso convívio como família. Posso dizer que eu estava como Nur, ansioso para morrer e escapar de todo o drama familiar. — Nora ri de novo. — Como ainda não sabia como morrer, eu decidi vagar o mundo para entender o que a humanidade construiu após os milênios. E assim conheci Circe. Era a primeira vez em muitos anos, centenas e milhares de anos, que encontrava a alma de Nur. Imagine a minha surpresa por vê-la encarnada na própria linhagem. Ao mesmo tempo, o mundo não era favorável às bruxas. Sempre pensei que Nur escolheu reencarnar naquela época numa tentativa de salvar a própria raça. Veja só, a alma fora do plano material é capaz de compreender todas as existências que teve. Mas essa compreensão acaba quando a alma retorna ao corpo material. No final, pouco se carrega de outras vidas. Nur era Circe naquele momento, mas Circe não era Nur.

— E eu sou? Nur ou Circe?

— Você é selvagem como Nur. — Revna ajeita o cabelo dela. — Mas é fisicamente parecida com Circe.

— E Circe foi amaldiçoada pelos deuses. Amaldiçoada a reencarnar. Por quê?

— A maldição de Circe não tem a ver exclusivamente com a reencarnação. Até porque Circe era Nur. E Nur tinha interesse em reencarnar. E o fez muitas vezes. A maldição é um pouco mais… cruel. Antes, Nur podia escolher se e quando reencarnaria. Para Nur sempre houve a possibilidade de fazer a passagem completa, de se desvincular da existência mortal. Circe, por outro lado, tornou-se obrigada a reencarnar vez após outra, sem intervalo. Sem descanso. Até o fim. É cruel, essencialmente. Principalmente porque a vida não é sempre fácil. Mas acho que os deuses não queriam que Circe tomasse consciência de quem era. Sem esse tempo para se recuperar fora do plano material, Circe nunca entenderia o que aconteceu. E nunca poderia se vingar. A maioria das reencarnações de Nur, desde Circe, tem sido infelizes e muito breves.

— Até eu.

— Até você. — Nora arqueia as sobrancelhas. — Nur viveu por mais de quinhentos anos. — Ela arregala os olhos. — Era diferente antes. O tempo. O envelhecimento.

— Por que Circe foi amaldiçoada?

— A história é muito longa. — Revna suspira. — Você parece estar acessando as memórias de Circe. Talvez se lembre sozinha. Posso contar, de qualquer forma. Em outra oportunidade. — Nora não insiste porque precisa descansar e absorver toda a história. — Circe fez magia proibida. Circe criou algo… antinatural.

— Magia proibida?

Revna faz uma careta e pondera.

— Esse foi o fundamento usado para a decisão dos deuses.

— A decisão dos deuses. — Nora repete. — Sua decisão também?

— Não. Eu estava sendo julgado também.

Nora arregala os olhos. Revna sorri sem mostrar os dentes.

— Vou deixá-la descansar. — Ele se prepara para levantar. Nora segura o pulso dele, mantendo-o agachado. — Precisa de algo?

Nora toca o rosto dele com cuidado, analisando todos os detalhes que são tão familiares que a sufocam. Nada é dito, e ela não se lembra de mais nada. No entanto, sabe nas entranhas da alma que Revna a ajudou a criar algo muito feio. E também sabe nas entranhas qual eram os sentimentos de Circe. Ou talvez os sentimentos a pertençam também. Por isso, ela contorna os lábios dele. Revna permanece quieto e calmo, curioso também. Os olhos se tornam mais escuros quando Nora o beija. O beijo é tão breve que pode ser descrito como casto. Não é casto. Não para Nora, nem para Revna. É uma promessa. Um acordo selado entre os silêncios e os segredos.

Nora não será melhor quando voltar.

Notas finais
Curiosidade: Nur é a versão arabe para Nora. Também existe Noor. E são nomes unissex! Elaine/Eliane também são variantes de Elena e por consequencia de Eleonora. E eu admito que existe certa ironia dos deuses (autora) porque a filha da eleonora se chama sElena haha. Selena, por sua vez, é associada a mitologia grega como deusa da lua. Mas também carrega o significado de brilho/luz Espero que gostem!