Tempo da Bruxa

38 Serpente


Os galhos colhidos no auge do desenvolvimento, um tanto quanto verdes, estão dentro da bacia com água. Nora está sentada de lado no topo da escada, apoiando as costas na balaustrada lateral. As ferramentas estão espalhadas pela varanda, criando uma bagunça muito perigosa. Nora encontrou uma pequena caixa entre os livros da estante com agulhas e linhas grossas. Não por acaso.

A construção não é mera coincidência; é o local em que Revna e Circe se encontravam para praticar magia. E tudo permanece exatamente como era há centenas de anos. Isso é possível porque aquele lugar, aquela realidade que Circe era incapaz de nomear, não está sujeita ao tempo ou às mudanças. Esta realidade, que Revna definiu como limbo, é uma fina camada tecida a próprio gosto entre a realidade natural e espiritual. É a matéria sujeita aos caprichos do criador.

Não é uma terra para fluir. O tempo não corre de verdade naquele mundo. Todos os dias os pássaros cantam a mesma música. E a brisa balança as árvores da mesma forma. As frutas colhidas no dia anterior renascem nos mesmos galhos com o mesmo tamanho e sabor. Os poucos animais que decoram a realidade são repetitivos em todos os comportamentos. O dia foi cristalizado por Revna.

Todo o poder necessário para construir o capricho de Revna assusta Nora. As memórias de Circe são poucas, e Nora não faz ideia de quem Nur tenha sido. Porém, enquanto Eleonora sempre soube que a entidade é a existência mais antiga. Revna não precisou dizer; a presença arrebatadora e inquietante a impressionava. Mais do que isso, Nora percebe. Não era impressão o que sentia ao encontrá-lo. Nem mesmo coincidência; era a alma reconhecendo o antigo colega, o criador.

De toda a forma, Revna estava certo. A pseudo-realidade serve apenas para recuperar-se. Ou perder-se completamente. O caminho de Nora foi decidido na noite anterior, mesmo sem entender completamente o que aconteceu a Circe. Não importa. Não agora. Nesse momento, Nora assiste Selena correr descalça com os cachorros ao redor da casa. Ela grita, rola no chão e suja-se completamente entre risadas altas e latidos.

O tempo naquela realidade é capaz de curar Selena? Com certeza a garota não sabe que está morta. Nora firma o maxilar. A garota de oito anos foi submetida à inenarráveis situações. Ela não tem coragem de perguntar quais e também não precisa. Imagina que Lucien tenha a tratado de forma similar. Nora, contudo, é uma alma antiga e até mesmo pode confessar todos os pecados cometidos.

Revna a instruiu a preparar Selena para realizar a passagem em paz. A risada escapa pelo nariz como reclamação. Prepará-la para descansar. Para partir definitivamente. Nora observa o trabalho que as mãos fazem automaticamente: os galhos são umedecidos e se tornam maleáveis. Com cuidado, massageando de diferentes ângulos, Nora torce os galhos como se fossem cipós, trançando-os uns nos outros em formato oval. Galhos menores e mais finos, verdes como caules de flores, atravessam o círculo e são amarrados no aro. Se tivesse os materiais corretos, o apanhador de sonhos seria muito mais trabalhado.

Como Revna é capaz de sugerir que Nora prepare a filha para partir? E mais do que isso: Revna espera que Nora assista a filha realizar a passagem e siga vivendo. Entre todos, ela é quem devia atravessar para o pós-vida. Eris, todavia, a amaldiçoou a não morrer naquela encarnação. E os deuses anteriormente a amaldiçoaram a nunca descansar; fadada a incontáveis encarnações. A risada rouca escapa.

Os deuses erraram duas vezes: Nora morreu. E não reencarnou.

As penas colhidas entre os pinheiros-rasteiros foram escolhidas por Selena. Elas são preta ou marrom. A maioria das aves que migraram em busca de alimento ainda não retornaram. E nem retornarão. Existe pouquíssima diversidade. Ainda assim, a garota se empolgou ao tomar uma decisão tão importante, e Nora sorriu. Geralmente, o apanhador de sonhos também é decorado com pedras especiais que dificilmente serão encontradas em uma região inóspita e imutável.

Com a ponta da lâmina da pequena adaga, Nora entalha o animal que reivindicou quando viva. Ela franze o cenho e estranha o pensamento. A maldição de Eris não a matou. Diferente dos sanguessugas, o coração continuou batendo, a pele manteve-se quente e o sangue nunca parou de correr nas veias.

Algo mudou.

As memórias de Circe são poucas, e Nora não sabe nada de Nur. Lembra-se, todavia, de todos os detalhes de quando estava viva; de quando obedecia ao tempo como todos os outros seres mortais. As lágrimas ardem os olhos. Os desejos eram ardentes, como sempre foram. Ainda assim, a Nora, fruto do tempo e da mortalidade, era gentil e até mesmo tola. Mais do que isso: ela era temerosa. Temia à vida, o amor e as escolhas. As temia porque estava ciente de que cada decisão era acompanhada de uma igual responsabilidade. Talvez a Nora-fadada-a-morte nunca teria coragem de ceifar tantas almas; não teria nem mesmo tempo para cozer tantos desafetos. Não tomaria mais do que fosse proporcional. Não tomaria nada. Ela morreria quando a terra da família fosse invadida por homens carregando a palavra de Deus.

A ausência da morte a arrancou do mundo dos vivos; e Nora tem se arrastado entre os séculos sem ter a audácia de reconhecer que a morte era a única coisa que a impedia de ser ruim; era o último fio tênue de consciência. Desde que a liberdade a engoliu nada é mais importante do que os próprios desejos porque amanhã todos os outros estarão mortos, menos ela.

A serpente rastejante talhada no aro de madeira é desfeita com a ponta da faca. O novo desenho ainda representa o animal escamado, deus da transformação. Não está mais rastejante, sem propósito. A serpente é cuidadosamente entalhada em formato circular, mordendo a própria cauda. Pouco sangue é derramado para consagrar o símbolo a fim de proteger Selena dos maus espíritos.


(...)


Pai,
Revna me visita todas as noites e jura que o senhor está bem, que está indo buscar Selena com a ajuda do primo Vincenzo. E que mamãe está dormindo. Tudo isso é verdade? Não consigo parar de pensar em todos vocês, principalmente em Selena. Nesse ponto, é bem claro que toda essa desgraça aconteceu por minha causa. Eu nunca quis admitir, mas a verdade é que pensar que o senhor tinha aceitado a morte da minha mãe me encheu de uma raiva que nem sabia que era possível existir. Quando o senhor se casou com Madalena, eu senti que estava nos traindo. Traindo a mamãe. E Madalena era cheia de regras e rezas. Eu não suportava vê-la pela casa, mandando em todos o tempo todo. Todas essas coisas eram da minha mãe, não dela. Ainda não entendo porque o senhor se casou com ela. Inclusive, Madalena está de volta desde que mamãe foi atrás do senhor. E mudou pouca coisa. Ela continua mandando em todos, mas agora chora o tempo todo também. Às vezes, quando ela chora muito, diz que nunca perdoará a mamãe por ter tirado o bebê dela. Não sou mais uma criança. Sou capaz de entender o que Madalena diz. Só não consigo acreditar. Minha mãe não faria isso. Faria? De qualquer forma, é minha culpa também. Eu não sabia que seria ela. O senhor sabia? Sabia que Madalena esperava um bebê?Temos um prisioneiro na masmorra. Lucien. Revna cuida dele, mas não explica porquê. Todas as noites ele diz que não devo me preocupar. Gostaria de acreditar nele. Mas agora eu sou o senhor da casa, não sou? Não serei por muito tempo. E o senhor voltará em breve. O senhor, a mamãe e… Selena.É a minha culpa. O que aconteceu com Selena. Penso nisso o tempo todo e quase choro mais que Madalena. Mamãe disse que sou muito jovem para isso, mas acho que agora sou mais triste que vocês. Porque tudo isso é a minha culpa. Eu devia ter te ouvido. Quando o senhor pediu, mandou e gritou para que deixasse a mamãe descansar. Não te ouvi. Eu pensava que o senhor… Eu nem sei mais o que eu pensava. Pensando agora, não me importo se a mamãe tiver matado o bebê de Madalena. Eu matei a minha irmã. Eu matei Selena quando não ouvi o senhor. Quando continuei a incentivando a tentar coisas que eu nem mesmo sabia o que eram, muito menos ela. Penso nisso e acho que sou simplesmente ruim. Ruim. Selena tinha sete anos e confiava em mim. Talvez tudo não tenha passado de uma grande diversão para ela. Mas atraiu todas aquelas coisas terríveis. Atraiu a sua raiva. Eu te culpei. Acho que sempre te culparei em partes. Se o senhor não tivesse me empurrado para longe… Acho que o senhor sempre foi demais para mim. Acho que sempre senti isso. Durante toda a vida. Mas antes a mamãe estava aqui. E era mais fácil. Quando ficamos só nós… O senhor era demais. Era sempre muito sério. Sempre muito atento. Às vezes muito crítico, muito bravo.“Dante, segure o cavalo! Dante, não xingue Madalena! Dante, não chore tanto. Dante, por que você não para de chorar?! Quer um motivo para chorar?” Sim, papai. Sim, papai. Papai, como eu não choraria? Minha mãe morreu. Pai, não preciso de mais um motivo para chorar.Mas acho que te amo. Eu te amo porque o senhor sempre soube que eu só tinha um esconderijo e fingia não me achar para que eu ganhasse a brincadeira. Não era corajoso como o senhor. Não sou. Eu sou fraco. E chorão. Te amo porque o senhor me colocava no seu cavalo e me levava para passear por horas. Te amo porque o senhor separava as melhores laranjas para mim. E porque, mesmo quando eu não aprendia, o senhor me ensinava a escovar os cavalos. Eu te amo porque quando eu sumi o senhor me achou. E também achou a mamãe.Sinto muito. Sinto muito. Sinto muito. Eu me arrependo. Mas também não me arrependo. Porque a mamãe voltou. E em breve tudo estará resolvido.Me perdoe por Selena.Com arrependimento, seu filho Dante.



Adrian dobra a carta com cuidado, como se o papel fosse desfazer antes do dia amanhecer. Revna partiu pouco depois de entregar o envelope, lhe dando um pouco de privacidade. A poucos metros, Vincenzo dorme profundamente. Adrian aproveita a solidão para chorar.

Selena está morta.

A desconfiança surgiu na manhã anterior. Nenhuma memória enquanto animal retornou. As peças se encaixaram sozinhas. A confirmação, todavia, cria uma dor nunca experimentada antes. Talvez tenha sentido algo parecido quando soube que Eleonora estava morta e que não havia corpo para enterrar. A notícia o acertou como uma fatalidade inevitável, embora não soubesse todos os detalhes da morte dela. E também não procurou. Era incapaz de suportar. Selena, de qualquer forma, é pior.

A ideia de que a garotinha que segurou ao nascer, próxima ao peito, com tanto medo e cuidado, está morta arranca o ar dos pulmões. A tosse mistura-se às lágrimas, e Adrian arfa tão alto que não sabe como Vincenzo não desperta. A ardência no peito é um peso imensurável. A garotinha que fez dormir nos próprios braços; que cuidou com tanto esmero. A garotinha que ria alto como a mãe; que se divertia entre os cavalos e corria pela propriedade como Adrian fazia quando jovem.

Adrian cede quando os joelhos não suportam mais. Não é capaz de rezar. Não faria sentido. Não há nenhum deus para ele. A súplica reside no peito de qualquer forma. Leve-me, Senhor. Leve-me no lugar dela, eu imploro.

Não há resposta. As dúvidas, contudo, são muitas. Há quanto tempo Selena está morta? Como ela morreu? Por que Ginevra não contou? É claro que não contou. Selena estava sob os cuidados dela e morreu. A notícia definitivamente não seria bem recebida.

Madalena sabia?

Madalena estava grávida?

Adrian soluça. E Dante, por Deus. Dante acredita que causou a morte da irmã. De fato, o garoto pouco fez para facilitar a rotina depois que Eleonora morreu. Ele expôs a irmã a situações críticas e desconhecidas. No entanto, foi Adrian que a mandou para a propriedade de Ginevra. Eleonora tinha razão. Como teve coragem de mandar a filha para longe?

— Não é a sua culpa. — A voz feminina interrompe a quietude do alvorecer. — Sinto muito.

Adrian cai sentado no chão e recua. As lágrimas embaçam a visão, mas o cheiro de laranja, terra úmida e suor é familiar.

— Quem é você? — Adrian rosna.

— Fique calmo. — A mulher aproxima-se. Adrian se levanta. — Você me conhece.

— Não, eu não te conheço.

— Adrian, — Ela ergue as mãos e respira fundo. Adrian olha para a espada ao lado de Vincenzo, que ainda dorme muito profundamente considerando as mudanças ao redor. — Me deixe explicar, por favor. Não tenho intenção de prejudicá-lo.

— Quem é você?

— Meu nome é Yusra. E estou te procurando a vida toda.

Yusra é uma mulher de altura mediana, por volta de 1,70. A pele é marrom clara. O cabelo longo é escuro como a noite e liso. As sobrancelhas são densas e escuras. Os olhos pequenos são castanhos escuros, estreitos e têm a pálpebra superior pesada. O olhar é evidenciado pelo contorno marrom-escuro. Ela é esguia e movimenta-se como um gato muito elegante.

Muitas perguntas perturbam Adrian, e ele só é capaz de mencionar uma:

— Por quê?

Yusra exibe um sorriso breve.

— Você é um de nós.

— Não faço ideia do que está falando.

— Não se lembra? — Ela aproxima-se, e Adrian recua. — As últimas semanas, Adrian. — Ele nega veemente. Ela sorri, triste. — Eu desconfiei que não se lembraria, mas ainda é triste.

— Eu não… — Adrian para de falar e estreita os olhos. — Não estive sendo eu mesmo nas últimas semanas. Sinto muito. Talvez esteja me confundindo.

— Não. — Yusra é firme. — Nunca te confundiria. — O cheiro de terra úmida, laranja e suor é mais forte do que nunca. — Mas eu entendo que não se lembre. Tem pouco, quase nenhum, controle sobre o animal. Estávamos ao norte. — Ela olha as próprias mãos. — E eu não tinha essa aparência também.

O riso escapa pelo nariz.

— Impossível. Se o que você sugere é que temos a mesma maldição…

— Não é uma maldição.

— Não era a lua.

— Mas você estava lá.

— Não naturalmente. Era uma… — Adrian gesticula e para de falar.

— Magia, eu sei. Como a magia que te manteve longe de si mesmo durante esses anos. — Yusra pausa. — Esse é o problema de andar com feiticeiras.

— Não é uma feiticeira. — Adrian se afasta e começa a guardar os itens para seguirem viagem. — É uma bruxa.

— Ah, sim. Claro. Elas insistem que existe real diferença.

Adrian ri.

— Acredite em mim: existe. Ou um licantropo é um lobisomem?

Yusra resmunga.

— Eles são a verdadeira maldição do nosso povo. — Ele cutuca Vincenzo com o pé várias vezes. — Ele não vai acordar agora. — Adrian arqueia as sobrancelhas. — O sono é profundo porque o homem está exausto. Não é um cansaço comum. É o cansaço de um corpo que está lutando para manter duas almas. Ela gosta disso, não é? Invadir corpos aleatórios.

Adrian segura o espaço entre os olhos.

— Vá embora.

— Não vou te deixar. Não depois que te encontrei. — Yusra aproxima-se. — Admito que a bruxa fez um bom trabalho ao escondê-lo. Até mesmo o seu cheiro mudou.

Rapidamente Adrian presume que assim como a mulher tem o cheiro almiscarado de laranja e terra úmida, ele também exala um cheiro de licantropo bem específico que é sentido pelos iguais. Dante também tem um cheiro, mas é discreto como erva-doce e mel. Eleonora cheirava a cedro, lavanda e um pouco de cravo. Era suave e agradável, muito diferente do cheiro inebriante de Yusra.

Ele suspira bem alto.

— O que quer que tenha encontrado há semanas… — Adrian a encara. — Não existe mais. Não sou como você. Não tenho orgulho da minha raça.

— É porque você não entende. Você não teve a oportunidade de aprender. — Yusra para diante dele. — Anna se deixou levar pelo amor que sentia por Marco. — Ele range os dentes. Não chamaria de amor. Talvez obsessão. Não acha que Marco pudesse ser amável, querido ou até mesmo fácil. — Ela se afastou do povo e das próprias origens.

— Talvez ela não gostasse também.

— Anna não te ensinou nada.

— Anna morreu antes que eu pudesse falar uma frase completa com clareza. — Adrian resmunga. — E quer ouvir algo, Yusra? Não me importo. Não me importo com o que Anna deixou de me ensinar. Não me importo com o meu povo. Vocês não são nada para mim. — Ele enche os pulmões de ar. — Não importa o que eu seria se tivesse aprendido. Importa o que eu sou agora. — Adrian abre os braços. — E é isso que sou. Mais filho de Marco do que de Anna. E eu tenho… — A voz treme. — problemas maiores agora para pensar em vocês.

— Sinto muito por Selena.

— Vá embora. Não tenho nada para você.

Ela sorri triste.

— Gostaria que fosse verdade. Seria mais fácil. — Yusra aproxima-se. — Deixe-me acompanhá-lo.

— Não. — Adrian desiste de acordar Vincenzo. — Para quê? Me ajudar a abrir a cova? Não. — Ele a encara. Yusra ergue o queixo, firme. — Você pode ter a impressão de que me conhece porque passou alguns dias comigo enquanto eu era outra coisa. Mas eu era exatamente isso: outra coisa. Não sei o que pretende me pedir. E não quero saber também. Deixe-me ser claro. Tenho apenas duas preocupações agora: Dante e a minha mulher. E você é tola se pensa que vai me convencer de que ela é uma bruxa terrível, que me afastou da minha natureza ou qualquer coisa assim. Eu pedi por isso. Eu implorei para que ela fizesse. E farei novamente. De joelhos, se necessário.

— Ela te transmutou fora da lua. — Yusra rebate, ácida. — Mesmo sabendo do quão perigoso isso era. Havia uma chance de você não retornar, Adrian.

— É uma ironia que essa seja a sua preocupação, já que nos conhecemos dessa forma. E você estava se aproveitando disso.

— É diferente. — Yusra agarra os ombros dele. O toque é quente, firme e quase estala. Os olhos pequenos, contornados com delineado marrom-escuro, são fortes e bonitos. — A questão é que ela não pensará duas vezes em colocar a sua vida em risco desde que seja útil. Me escute, ao menos. Eu não te advirto porque quero algo de você. Sim, eu quero algo de você, mas eu te advirto porque a fama a precede. Nora não é conhecida por ser gentil, especialmente com o nosso povo. Você ao menos sabe o que foi necessário para a magia que evitou a sua transmutação todos esses anos? Sabe qual é o principal ingrediente para evitar que um licano se transmute? E sabe como ela o conseguiu?

— Não importa.

— Não importa?! — Yusra ri. — Você pensa que a conhece. Você pensa que ela nunca faria nada com você porque são amantes!

— Sim, é exatamente o que eu penso! — Adrian esbraveja. — Ela é a minha companheira. Temos filhos juntos! Somos uma família.

— E quanto ao deus? Ele faz parte da família também? — Adrian range os dentes. Yusra ergue as sobrancelhas.

— Revna não é a minha coisa favorita, mas devo reconhecer a ajuda que recebo.

— Não seja tolo. Ele não faz isso por você.

Adrian ri.

— Você que é tola! Acha que penso que Revna faz isso por mim?! Ou porque ele é bonzinho?! Acha que sou uma criança?!

— Revna é o pai das criaturas amaldiçoadas! O deus da noite! Da escuridão. — Yusra ergue a voz. — E Circe é a mãe de tudo que hoje se rasteja em nosso mundo. Vampiros! Demônios! Lobisomens! São proles deles. Revna a procura há séculos porque sozinho é incapaz de trazer a escuridão a esse mundo. Sozinho não pode se opor aos filhos e a Madora. Circe, Nur ou Nora, como preferir chamar, foi feita para ser o fim de tudo.

Adrian ri, esfrega os olhos e suspira.

— Eu acabei de saber que a minha filha está morta. — Ele a encara. — E o meu filho está sozinho há muitos quilômetros com uma pessoa que agora sei que não é confiável. Você é louca. Completamente louca. Então, por favor, me deixe em paz.

(...)

— Mamãe, — Selena chama enquanto esfrega o desenho entalhado no apanhador de sonhos. — o que é isso?

Nora senta-se na cama ao lado dela, ajeitando os travesseiros e as cobertas para que a noite seja confortável. Selena analisa todos os detalhes do apanhador antes de direcionar a atenção para ela. Nora exibe um pequeno sorriso e pega a escova para pentear o longo cabelo castanho-escuro da garotinha. Depois, faz duas tranças frouxas para que o cabelo não embarace durante o sono. Lembra-se de Kalina que mesmo com as mãos trêmulas pela velhice insistia em pentear e trançar o cabelo de Nora. Agora se pergunta se a mãe sabia que estava amaldiçoada por Eris, se percebia que não envelhecia como o irmão ou como os colegas da mesma idade. Nunca falaram sobre isso. Não teria coragem, de qualquer forma. E provavelmente Kalina se sentia como Nora agora se sente.

— É uma cobra engolindo o próprio rabo. Se chama ouroboros. — Selena a olha por cima do ombro, curiosa. — Representa a ausência do fim. — A voz é pesarosa. — A eternidade. — A garota prepara-se para fazer muitas questões. Nora prossegue: — Eu já era iniciada na magia quando tinha a sua idade. Um dia minha avó me pediu para que eu pensasse em um símbolo. Poderia ser uma combinação de runas ou um animal que representasse a minha pretensão. — Nora termina a trança, e Selena vira-se, a encarando com atenção. — Eu queria a borboleta. Ou algum pássaro.

— Eu gosto de borboletas! — Selena dispara. — E gosto de passarinhos também.

Nora sorri e acaricia o rosto dela.

— Sim, eu também. Mas minha avó disse: “Você quer viver tão pouco assim? Você é burra?”

— Ela te chamou de burra? — Nora assente. — Mas você não é burra, mamãe. Você é a pessoa mais inteligente do mundo todo. — Selena abre os braços. — Você é a melhor, mamãe.

— Obrigada, minha querida. Obrigada por me amar tanto. — É um esforço descomunal para não chorar. — A minha mãe também me achava muito esperta. — Selena sorri como se dissesse “veja só!”. — Minha avó era mais exigente. Nisso ela tinha razão. Temos que ter cuidado ao escolher. Como eu te disse: pode ser runas, algum animal ou outra combinação de elementos desde que represente o que você pretende expressar para o mundo e para si mesmo. Esse símbolo carrega e movimenta energias. Funciona como sigilo de proteção, desde que seja alimentado corretamente. — Selena assente. — Eu demorei muito tempo para decidir. Aposto que te ensinaram que a cobra é um animal detestável, não é? Te ensinaram que Jesus esmagou a serpente.

Selena arregala os olhos e assente.

— Mas esse é só um dos significados. Não significa o mesmo para todos. Sabe, Selena… — Nora a ajeita na cama com cuidado. — você não precisa acreditar em tudo que te ensinaram. Você sempre pode duvidar, questionar e escolher. O mundo é imenso. — Nora gesticula. — E existem muitas pessoas que pensam diferente, entende? Para o meu povo, a serpente não representa o mal. Representa a cura, a transformação e o renascimento. E também a proteção.

— Vai me proteger?

— Você confia em mim? — Selena assente. — Então eu prometo que sim.

Selena ajeita-se na cama, puxando a coberta até o pescoço.

— E eu, mamãe? — Nora inclina a cabeça. — Eu também vou ter isso quando crescer?

— Sim. — Nora soa muito firme. Muito decidida. — Eu prometo que sim. E assim como eu, você viverá muitos anos para conhecer quase tudo.

Selena sorri, toca o filtro e dorme em poucos instantes. Nora encara a serpente entalhada no filtro. A ideia ganha formas, cresce e se estabiliza. Então, Nora encontra o caderno que Revna fez para Circe na estante. Uma das penas que Selena colheu se transforma no instrumento de escrita, junto com a tinta feita de amoras. Revna surge da escuridão, silencioso e desconfiado. Nora não estranha quando a entidade resmunga:

— Selena não está preparada para fazer a passagem. — Revna para diante a poltrona que Nora está. — Você não está a preparando. Pelo contrário, está a enchendo de expectativas sobre uma vida que não existe. Ela está morta, Eleonora.

Nora termina de escrever e o encara.

— Eu também estava.

— O tempo está acabando. Adrian chegará em Génova em um dia.

— Ele deve exumar o corpo e levá-lo para casa.

— A vida nunca acontecerá aqui dentro. O que pretende é…

— Você não sabe o que pretendo.

— Então, me conte. — Nora o encara, sério. — Não. — Revna ri. — De jeito nenhum.

— Eu voltei, Revna. Anos depois.

— Não. — Revna se afasta. — Não faça essa comparação estúpida. Você era uma alma antiga, forte o suficiente para suportar o retorno mesmo depois de tanto tempo. Além disso, nós ainda não sabemos como você voltou. Na verdade, sabemos. — Nora arqueia as sobrancelhas. — Apenas uma alma é o pagamento justo para outra alma. A questão é: qual alma desceu à escuridão por você? E por quê?

— Não me importo. — Nora fecha o caderno. — A situação da Selena é diferente. A alma dela está entre nós. Mais do que isso: a alma dela está conosco, sob os nossos cuidados. Não é nem mesmo necessário barganhar por ela. — Revna molha os lábios, desvia os olhos. — Não, você não fará isso. Você não vai me dizer que é impossível. Porque não é. E mesmo se fosse, você não tem o direito.

— Não tenho?

— O que você sabe sobre isso? — Nora resmunga. — O que sabe sobre perder um filho?

— Eu perdi alguns.

— É diferente.

— É mesmo diferente, Eleonora?

— Me diga você, Revna. É igual? Algum dos seus filhos foi submetido ao que fizeram com Selena? Algum dos seus filhos foi desfeito desta forma? Algum deles teve que suportar inenarrável dor? Aos oito anos?! Eles foram amarrados em uma cadeira por um padre, espancados, submetidos a fome, frio e dor? Eles sangraram e mijaram no chão?! — Nora aumenta o tom de voz. — Me diga. Algum dos seus filhos morreu desta forma? Você teve algum dos seus filhos enviados para longe pelo próprio genitor, quando este deveria proteger, cuidar e até mesmo suportar, enquanto você estava fora?

Revna encara o chão.

— A alma da Selena ainda não partiu. Está entre nós, sob os nossos cuidados. — Revna repete. — Mas o corpo não. Eu ainda não o vi. E não é necessário ver para saber que está carcomido, inchado e podre. — Nora engole a seco. — A sua alma retornou, sim. Para outro corpo. Um corpo relativamente saudável, que o sangue corria normalmente. Entende como é diferente? — Nora assente. — Sim, nós podemos colocar a alma de Selena em outro corpo. Porém, lembra-se de como você se sentiu quando Eris movimentou a sua alma no corpo de Madalena? — Ela confirma. — Aqui está o nosso maior problema, Eleonora. Não serei tolo de questionar como você encontrará um corpo para Selena. Você iria até ao inferno para isso. Mas nós dois temos experiência para saber que não é qualquer corpo que suportará a alma de Selena. Deve-se lembrar que embora jovem, Selena carrega o seu sangue. Ou seja, o sangue das suas antecessoras, de Circe e eventualmente de Nur. Ela será tão forte quanto você. Talvez até mais, considerando que o pai é um licantropo selvagem. Temos outro problema: Selena é muito jovem. Não sabemos se ela consegue se adaptar em um novo corpo, se consegue se posicionar dentro dele. Não tenho dúvidas que você ensinará, mas escute a última questão que deve analisar: o corpo não suportará tanto tempo. Então, conforme Selena crescer teremos que encontrar novos corpos para ela. De três em três anos teremos que trocá-la de corpo. Eu sei que para você é um custo aceitável. Até mesmo insignificante. Mas e para Selena? Será que ela suportará existir sabendo o custo? Sabendo que matamos crianças, depois alguns jovens e, por fim, vários adultos para mantê-la? Não me diga que você suportará. Você nem sequer pensa sobre isso. Você não se preocupa com isso. Não serei falso e direi que eu me importo. O que eu te pergunto é: a Selena vai suportar?

Nora senta quando as pernas tremem.

— Essa é a minha preocupação. — Revna murmura. — Muito sangue será derramado para mantê-la. E não será qualquer sangue. Será sangue de outros seres como ela porque um corpo humano não a suportará. Se esqueceu do que fez para se manter no corpo de Madalena? Selena terá que fazer também. É isso que deseja para ela? Essa existência por sangue?

Ela seca as lágrimas.

— E o corpo dela?

Revna balança os ombros.

— O corpo dela é carne e sangue; feito de você e do Adrian. Isso, essa coisa… — Revna gesticula. — Não é possível de ser replicada. Não é assim que funciona, nem mesmo os deuses foram feitos assim. Se fosse possível criar corpos do zero, não acha que todos os demônios fariam ao invés de possuir corpos aleatórios?

— Você faz.

— Não faço. — Revna senta-se ao lado dela. — Veja, esse é o meu corpo verdadeiro. Madora o fez há muitas eras, assim como eu fiz o corpo dela. Nós usamos materiais que são impensáveis para vocês, seres-mortais. Restos de estrelas que explodiram, planetas que estavam se formando e até parte de diferentes universos foram sacrificados para que pudéssemos ter uma forma palpável. Talvez seja difícil para vocês entenderem, mas todas essas coisas são vida. Nós fomos feitos a partir da vida em outras formas. — Nora assente. — Nossos filhos foram gerados da nossa união, assim como vocês fazem. E vocês, mortais, foram gerados a partir da nossa própria carne. Nós tiramos da nossa carne para formar vocês fisicamente. Por isso, são a nossa imagem e semelhança, tão parecidos conosco. Nada foi feito do zero. Existe uma energia vital por trás de tudo. — Nora afunda o rosto nas mãos. — E todas as aparências que você me viu ter… Algumas eram imitações, como a aparência de Adrian. Outros corpos foram simplesmente tomados.

Nora massageia as têmporas.

— Não há nada que podemos fazer?

— É possível tentar recuperar o corpo de Selena. Essa é a melhor opção. Mas recuperar um corpo decomposto é muito diferente de recuperar um corpo ferido. É até mesmo diferente do seu corpo. — Nora estreita os olhos. — Você morreu. O seu corpo, porém, recebeu os cuidados necessários para que não se decompusesse. Não houve tempo para que o sangue parasse de fluir ou de irrigar o corpo. Imediatamente o seu corpo foi ocupado por outra alma. E a energia dessa alma, que está ancorada no mundo dos vivos, o manteve funcionando. — Revna faz uma pausa. — A situação de Selena é diferente. O corpo foi levado ao limite. Embora a alma ainda não tenha feito a travessia, não está mais ancorada no mundo dos vivos. Selena não reconhece a morte, mas o corpo e a alma já foram desvinculados. A alma dela não continuou alimentando o corpo, como aconteceu com o seu quando outra alma ocupou. Ela ficou restrita ao corpo morto porque não sabia que podia se afastar dele. Então, para recuperar o corpo é preciso retornar com essa vida. E eu não sei o que é preciso para que funcione melhor desta vez.

— Desta vez?

— Da última vez que tentaram, os vampiros foram criados.

Notas finais
Eu tinha escrito várias curiosidades desse capítulo aqui, mas por algum motivo o navegador fechou e eu perdi tudo! Então, la vai: Primeiro obrigada por lerem e comentarem! É um pouco redundante sempre dizer isso, mas é tão legal ter a sorte de escrever uma história que eu amo e ter pessoas que leem e gostam também! Muito, muito obrigada!!! Eu sei que sempre digo que estamos quase no final, mas é que realmente estamos quase... As vezes fico ansiosa, mas tento não me deixar levar por essa ansiedade e prejudicar o ritmo da história. Acredito que esse capítulo tenha esclarecido, indiretamente, porque Circe foi amaldiçoada rsrsrs. Me deixem saber se perceberam! Até o próximo!!