Tempo da Bruxa

17 Reencarnação


Nora não é capaz de guardar todas as memórias que construiu durante todos os seus anos de existência. Anotar e escrever coisas importantes foi uma forma que ela encontrou para preservar todo o conhecimento que adquiriu. Porém, nem mesmo os melhores papiros ou as tintas extraídas dos melhores materiais são o suficiente para manter tudo. O tempo, no final, desfaz até as pedras e seca os mares. E permanecer é mais do que resistir, é desrespeitar.

Ela fecha o grimório com cuidado e encara o próprio nome entalhado no couro da capa. É o caderno mais antigo e divide-se entre ser extremamente iniciante e esconder segredos sussurrados pela avó em momentos de descontração. Na época, mesmo se quisesse, Nora nunca poderia entendê-los. Não se sente exatamente diferente agora. Há muitas anotações que o contexto e os verdadeiros significados se perderam.

Nora bebe mais conhaque enquanto analisa todos os livros que retirou do sótão para estudar. Os encontros com Revna geralmente são um misto de descoberta, aprendizado e raiva. Ele nunca a responde sem evocar mais questões, e todas as conversas causam a Nora a vergonhosa sensação de incapacidade. Incapacidade não é a melhor definição. Nora levou muitas décadas para provar-se capaz. Sente-se pior, algo que não depende exclusivamente dos seus esforços; sente-se inexperiente e imatura.

Se quatrocentos anos a moldou inexperiente, o que resta aos humanos que se contentam, com sorte, com menos de um século? A maioria não vive mais que cinco décadas.

Quatrocentos anos não a ensinou muito sobre reencarnações. A possibilidade sempre foi discutida entre as bruxas, estudiosos da feitiçaria e filósofos. Nora pode preparar uma lista considerável de povos e crenças que falam sobre reencarnação como os sacerdotes árias, os egípcios, os nativos do extremo norte e os gregos. Entretanto, Nora nunca lidou com uma reencarnação. Para o seu povo não era uma possibilidade. A maioria acreditava que a alma era única e descansava, dependendo dos seus atos em vida, eternamente. Alguns, por outro lado, lidavam melhor com a inexistência pós-morte.

Todas as almas reencarnam? As almas reencarnam em diferentes corpos ou tendem a manter o gênero? A ideia nem faz sentido, Nora observa. A personalidade se mantém, como acredita-se o budismo? Há algum fator que interfere na próxima reencarnação? As teorias são diversas e excêntricas. Todavia, a reencarnação não acontece por falta de almas disponíveis para ocupar novos corpos; a reencarnação, para a maioria dos crédulos, é uma parte do percurso para elevação espiritual. Trata-se de um caminho para o descanso glorioso.

Até então Nora tinha a certeza que após morrer a sua alma, enfim, descansaria; uma versão alinhada à inexistência proposta por Revna anteriormente. Agora preocupa-se com o tempo que a sua alma está reencarnando. A entidade afirmou que foi amaldiçoada a reencarnar sempre e para sempre. Desde quando? E por quê? Qual grande erro, pecado e blasfêmia que cometeu para viver em um ciclo de mortes e nascimentos?

— Mãe?

Dante aproxima-se até parar diante da poltrona que Nora ocupa. Ele encara o pé inchado apoiado em cima da mesinha de centro. Nora sabe que serão alguns dias para o calcanhar se recuperar da torção que a queda na floresta causou.

— Dante, oi. — Ela fecha os grimórios e os organiza na mesinha de apoio. — Precisa de algo?

A expressão de Dante é enrugada. Nora percebe que desde que soube das tentativas de a invocar não tem conversado com o garoto. Primeiro, estava magoada demais. Adrian pediu para que se acalmasse antes de conversar com Dante, argumentou que não havia mais motivos para se exceder. Por outro lado, Nora também precisava se ausentar para absorver tudo; tanto as atitudes questionáveis do filho quanto a própria situação no mundo.

— Não. — Mas ele permanece parado próximo da poltrona. — O que aconteceu?

Nora analisa o calcanhar.

— Torci o pé.

Dante assente e não se move. Nora espera tempo o suficiente para que ele encontre coragem e fale. Não acontece. Por isso, ela acena para que ele se sente na poltrona mais próxima. O garoto reluta antes de obedecer.

— Você parece… — Nora procura pela palavra certa. — Abalado. Por quê?

O garoto pisca e desvia os olhos.

— Abalado? Não, eu… — Dante se perde nas tentativas de se justificar. Nora aguarda. — Parece estar com raiva de mim.

Nora bebe o conhaque e espera o ardor sumir da boca.

— Não é raiva. É outra coisa. — Eles se olham. — Talvez decepção. E preocupação. — Dante abaixa os olhos. — Por que mentiu para mim?

— Eu não… — Dante tenta. Nora mantém o olhar sério. O garoto se mexe na poltrona como se quisesse se fundir ao tecido. Nora aguarda e aguarda. Ao mesmo tempo que as mudanças físicas são perceptíveis, Nora é obrigada a perceber que a mente não acompanha o corpo na mesma rapidez. Ela se agarra ao pensamento para evitar que a raiva se exceda. — Eu não queria mentir. Eu só… — Dante aperta o rosto. — Eu não sei. Fiquei com medo. Fiquei com medo do que faria quando soubesse.

— Não acha que piorou as coisas? Porque agora além de brava, estou magoada.

— Eu não queria te magoar, mamãe.

— Você me escondeu várias coisas, Dante. Disse que não entendia porque o seu pai estava agindo diferente com você; acusou a Madalena de ser uma pessoa detestável e ainda se fingiu de desentendido quando questionei sobre a ausência de Selena. E você sabia de tudo. Desde o começo sabia de tudo porque foi você quem fez. — Dante mantém o olhar baixo enquanto brinca com os dedos. — Eu quero acreditar que mentiu por vergonha. Por culpa. Eu preciso acreditar nisso porque a outra opção é que você mentiu por benefício próprio. E isso é detestável.

— Eu tinha medo do que você falaria se soubesse. Tinha medo de me odiar.

— Eu não te odeio. Isso é impossível para mim, Dante, porque você é o meu filho. Você nasceu aqui, — Nora repousa a mão no coração. — e eu nunca vou me esquecer disso.

— Eu pensei que conseguiria falar com você. Eu não sabia que aquilo poderia afetar a Selena. Eu nunca quis machucá-la. Ela é a minha irmã, e nós somos amigos. Eu só… — Dante gesticula até se cansar. — Não quis te contar porque não queria te decepcionar. Porque eu tenho até vergonha de pensar que fiz isso.

— A sua irmã é muito jovem para ser exposta a essas coisas. Ela não tem o menor preparo ou conhecimento.

— Eu sei.

— E não funciona desta forma. Nem sempre a alma da pessoa está do outro lado, disponível. A gente não sabe o que realmente acontece com as almas. Além disso, muitos demônios se divertem brincando com as pessoas em um momento muito delicado.

— Eu não sabia, mamãe. Como eu iria saber de tudo isso?

— Você tem razão: não tinha como saber o que aconteceria. — Dante suspira aliviado. — Mas não justifica as outras coisas que fez. Por que tem destratado o seu pai? Porque ele foi severo e te repreendeu. Mas o que ele deveria ter feito? Você se expôs e expôs a sua irmã. Tem percepção do que poderia ter trazido para si? E do que trouxe para ela? Por pouco não a matou! Como você esperava que o seu pai reagisse ao descobrir que a filha quase morreu? E que você poderia ter morrido também? — Ele firma o maxilar. — Dante, eu sei que me perdeu. E nem imagino o quanto sofreu. Mas a sua irmã também me perdeu. E o seu pai também. — Dante abaixa o olhar. — O seu pai pode ter se excedido, eu concordo. Mas agora percebo que você não foi compreensível com ele, muito menos obediente. Adrian mandou a sua irmã para longe porque teve medo de você não o ouvir e continuar a expondo. E com certeza tornou-se duro quando percebeu que você não estava inclinado a reconhecer os erros. — Nora observa o calcanhar. — Quando eu vi vocês discutindo, fiquei horrorizada. Pensei e me questionei sobre quem Adrian se tornou. Mas agora eu entendo porque ele ficou tão nervoso e foi tão severo. Entendo até porque ele te arrancou da choupana daquela forma.

— Mamãe, — A voz dele torna-se embargada. Ele leva uns minutos para se acalmar. — eu sei que errei. Eu não sabia na época. Eu não imaginava que as coisas eram assim. Mas eu entendi quando vi a minha irmã daquele jeito. Eu entendi! E sinto muito! — Nora mantém a expressão vazia. Dante se desculpa mais uma vez. E outra vez. — Me desculpe! — Ele insiste. — O que quer que eu faça? Quer que me sinta culpado?

— Não. O que eu farei com a sua culpa? — Nora rebate. — O que a Selena fará com a sua culpa? E o seu pai? Sentir culpa não é o suficiente. Não é nem a parte mais importante.

— Eu não sei o que fazer! — Dante se exalta. — Eu gostaria de voltar, sabendo do que sei agora, e fazer as coisas diferentes. Mas eu não posso. Posso? Isso não é possível.

— Não, não é. — Dante franze o cenho e gesticula. Nora observa a expressão dele se transformar, passando de confusão, para culpa e tristeza. — Se arrepender é o primeiro passo, mas o arrependimento, por si só, não produz nada senão culpa. Sabe, Dante, alguns erros na vida são definitivos e a única coisa que você poderá fazer é aprender a não cometê-los de novo e encontrar uma forma de prosseguir. Por um tempo, será um fardo a se carregar. Talvez esse fardo permaneça o resto da vida, dependendo do erro. Mas cabe a nós aprendermos a lidar com isso. — Ele encara os dedos enquanto ouve. — Porém, há outros erros que são passíveis de correção. Se o arrependimento produz culpa, a culpa deve produzir responsabilidade. Entende? Cabe a nós entendermos como e porquê erramos e nos responsabilizarmos para reduzir os danos. Apenas chorar não resolve nada. Quando o choro passa, devemos entender qual a nossa parte nisso e tentar consertar se for possível, senão passaremos a vida nos sentindo mal e culpando a todos, menos nós mesmos.

Dante silencia-se por muitos minutos, e Nora organiza os livros dispostos na mesa.

— Você acha que sou uma pessoa ruim?

— Não. Nem por um minuto pensei nisso. — Eles se olham. — Eu entendo o que te levou a buscar essas alternativas e sei que parte disso é a minha culpa. Eu devia ter ensinado mais, alertado mais. Pensei que sempre estaria aqui e que a minha presença seria o necessário para poupá-los. E também sei que se arrepende por ter exposto a sua irmã. Mas acho que tentou fugir da responsabilidade ao mentir para mim. Você preferiu me deixar pensar que o seu pai estava completamente descontrolado do que assumir que errou.

Dante segura o rosto com as mãos.

— Eu tive medo do que você pensaria.

— Eu sei. Sentir medo faz parte. E é muito difícil assumir para si e para todos o que fez de errado. A maioria das pessoas passa a vida sem nem pensar nisso porque dói. Mas você é o meu filho, e eu não vou aceitar que se acovarde desta forma. Eu quero que seja mais do que isso, quero que seja forte, corajoso e justo. Justo o suficiente para olhar para si e dizer “Isso é a minha culpa. O que posso fazer com isso?”. — Nora escolhe outro grimório. — E não quero que pense nisso para me agradar ou para agradar ao seu pai. Quero que pense nisso porque a sua permanência no mundo deve ser digna.

Dante morde o lábio. Nora folheia o último grimório que escreveu antes de morrer.

— Eu vou melhorar.

Nora o olha e sorri.

— Eu sei que vai. — O sorriso dele é breve. — Sabe, Dante, eu não me esqueci da promessa que fiz. — Nora mostra o grimório. — Eu sei que temos vivido muitas coisas nas últimas semanas, mas não me esqueci. Eu farei o que for possível para que você não seja obrigado a enfrentar uma transmutação para qual ainda está pronto. Vou trabalhar nisso na próxima lua e tenho confiança que funcionará. — Dante encara o grimório com surpresa. — Imagino que esse seja novo para você. — Ele assente. — Eu o guardei com mais cuidado porque aqui está a magia que fiz para o seu pai. E é um conhecimento que não deve ser exposto para todos. Nós nunca sabemos as intenções das pessoas.

— Eu entendo agora.

Nora sorri.

— Espero que sim. — Nora alcança a mão do rapaz, apertando com cuidado. — Ainda assim, preciso alertá-lo. Não tem como eu garantir que funcionará. É a segunda vez na vida que farei isso. — Dante assente. — E se não funcionar, preciso que seja forte e corajoso para enfrentar as mudanças. Por isso, preciso que entenda porque é importante sermos dignos e honestos. É isso que o guiará. — Dante molha os lábios e assente, tenso. — Se funcionar, você sabe que será nossa responsabilidade, enquanto família, guardar esse tipo de magia. Como eu disse: nem sempre as intenções são puras. — Dante franze o cenho. — Agora eu noto que cometi mais erros do que gostaria. Sei que fui uma boa mãe.

— O tempo todo.

Nora sorri.

— Mas fui uma péssima tutora. — Dante estreita os olhos. — Porque agi como as minhas antepassadas. Você sabe que a magia é destinada às mulheres, eu já te expliquei. — Ele concorda. — Mas não é justo que tire de vocês, garotos, o direito de entender. E nem mesmo a obrigação de manter a nossa tradição. Mesmo que você e os seus filhos não possam praticar, você, como o meu filho, tem a responsabilidade de zelar por isso. E zelar quer dizer que não vai tentar praticar coisas que são erradas, muito menos entregar esses segredos aos outros. Porque agora você entende o que temos aqui: é capaz de mudar vidas. E nós somos responsáveis por isso. Eu, você e a sua irmã. E depois os filhos de vocês. E então, os filhos dos seus filhos. E assim enquanto existirmos. — Ele mantém o olhar fixo em Nora. Ela sorri brevemente. — Você e a sua irmã sempre carregaram esse fardo, tanto da minha parte quanto da parte do seu pai. Vocês sempre vão transitar entre os dois mundos. É difícil e confuso, eu sei. Mas é o que vocês são, e eu sei que vão encontrar uma forma de equilibrar tudo porque acredito em vocês.

***

O breve toque no ombro é o suficiente para despertá-la assustada. Nora salta na poltrona, sente as costas doerem e as pernas formigarem. Demora alguns segundos para perceber que adormeceu enquanto estudava o grimório e planejava como interceder por Dante na próxima lua, considerando, por exemplo, quais elementos usaria, o melhor horário e como conseguir a lágrima de licantropo.

A resposta a assustou ao mesmo tempo que tornou-se clara e infeliz. Na última vez, o item mais delicado e demorado de se encontrar foi a lágrima. Afinal, a lágrima não pode ser obtida enquanto o ser está em sua forma humana. O grande desafio é que os licantropos, transmutados em lobos, são seres grandes, fortes e de difícil trato. E não há grandes motivos que o façam chorar, senão dor extrema.

— Adrian…

Adrian inclina a cabeça e pega o grimório, analisando.

— Está decidida a tentar?

Nora suspira.

— Eu tenho que fazer. — Ela junta os grimórios e outros livros de estudo. — Espero que Lady Conti não tenha procurado por Madalena. Não sei quanto tempo vou conseguir manter a farsa, mas agora não é o momento ideal para ela descobrir. — Adrian devolve o grimório a pilha. — Só tenho a próxima lua Nova para trabalhar antes da transmutação de Dante. — Nora ajeita o cabelo louro como palha. — São suposições, eu sei. Ninguém fez isso antes e não tem como eu buscar respostas. Desconfio, porém, que será mais fácil contê-lo se nunca passou pela transmutação. — Adrian ouve e permanece quieto. — A cada lua o lobo torna-se mais forte e intrínseco. E contê-lo é como conter metade da própria alma. Eu nem sei como você não morreu. Quando penso nisso…

Adrian solta o ar pelo nariz.

— Não pense nisso. Eu não morri. — Ele aperta o ombro dela com cuidado. — E Lady Conti não a procurou. Esteve ocupada durante o dia. Imagino que está tentando descobrir a melhor forma de trazer Selena para cá, considerando o clima. — Nora olha para a janela. É metade de Fevereiro, e o inverno ainda é rigoroso. — Você está aqui o dia inteiro. É melhor descansar.

A discordância da Nora dura segundos. Os olhos estão pesados e o corpo dolorido. Infelizmente, a bênção dos deuses não a livrou dos afazeres mortais como dormir, comer e evacuar. Também não a impede de se machucar, nem obter cicatrizes. O processo de cura é mais rápido e é improvável que uma ferida, ainda que complexa, a mate.

Nora tentou diversas coisas quando viver se tornou insuportável. Venenos, quedas brutas, machucados, ausência de oxigênio e sangramentos extensos. Nada praticado contra si mesmo é o suficiente. E arrancar o coração ou a cabeça do seu corpo, assim como os vampiros, parece ser a única possibilidade.

— Vamos. — Adrian insiste. — Me deixa te ajudar.

Ela permite. Adrian segue as orientações para guardar os grimórios e livros em locais seguros e encantados. Depois, ele a sustenta enquanto Nora levanta, evitando pisar no calcanhar machucado. Ela apoia-se nele na caminhada pelo corredor.

— Deuses, — Nora murmura. — Está gelado como pedra.

Ele solta o riso pelo nariz.

— Precisei verificar os cavalos. Estavam agitados. — Nora ergue as sobrancelhas. — Ainda está bem frio. Não vejo um inverno como esse há anos.

— Eu não vejo nada há anos.

A risada é breve, e Nora observa o perfil dele. Adrian a olha também.

— Você realmente sentiu a minha falta? — Adrian arqueia as sobrancelhas. — Eu sei que sim. Não sou tola. E acredito no que vivemos, eu estava lá. — Nora para de andar, mas permanece se apoiando nele. — Mas eu estive morta por quase uma década. É tempo o suficiente para chorar, se lamentar e seguir em frente.

— É, é tempo o suficiente.

— Ainda assim…

— Não posso negar que houve outras companhias, Eleonora. É tempo o suficiente, você mesma diz. — Ela sente o estômago formigar. — Ainda assim…

Nora inclina a cabeça, e Adrian ensaia um sorriso breve antes de prosseguir. A aproximação os interrompe.

— Eleonora? — Adrian aproxima-se, questionando.

Nora demora poucos segundos para perceber a presença deles. Imediatamente ela afasta-se da figura de Adrian que a sustenta. Esse Adrian inclina a cabeça, confuso, enquanto a expressão do outro torna-se severa.

— Isso de novo? — Adrian resmunga. — Não entendo se a imitação é uma provocação a mim ou a Eleonora.

— Ora, não seja dissimulado, coisa. — O Adrian que encontrou Nora primeiro resmunga. — Como tem coragem de retornar aqui depois do que fez?!

Nora estreita os olhos, incapaz de perceber qual deles é a imitação barata.

O que se aproximou depois solta o ar pelo nariz, revira os olhos e franze a testa.

— Por favor, não seja tão dissimulado! Eleonora, — Ele a encara. — olhe pra mim. É claro que ele é a farsa aqui!

O primeiro Adrian gesticula abertamente e o sotaque regional torna-se mais forte que o comum:

— Eu sou a farsa?! — Ele aponta para si mesmo. — Eu?! Olhe para você. Mal consegue se manter dentro dessa casca! — Nora encara a segunda presença, tentando identificar possíveis sombras. Não há nada em nenhum deles. — Que tipo de coisa você é? Encontra diversão imitando outras pessoas?! E para quê? — Os gestos são amplos e típicos do Adrian. — Não está satisfeito? Quer machucá-la mais?!

Nora segura a cabeça, tentando raciocinar. Antes que possa prová-los, o som de saltos contra o piso preenche os corredores. Ela não precisa vê-la para reconhecer. A voz a apresenta.

— Madalena?

— Deuses! — Nora exaspera. — Revna, — Nora agarra o ser que apareceu depois. — fique quieto e se esconda.

Ele arregala os olhos, e Nora o empurra para o canto do corredor que não é bem iluminado. Um ser da escuridão facilmente pode se esconder no escuro. Antes de Ginevra chegar, Madalena e Adrian se aprumam.

— Aí estão vocês! — Ginevra comenta, observando-os. Ela olha o calcanhar inchado de Nora. — Ainda estou tentando entender onde se machucou, irmã.

Nora inspira e lembra-se que ainda não pode revelar a verdadeira identidade.

— Já lhe disse… — Madalena soa mais severa do que deveria. — Torci o pé ao me levantar.

Ginevra estreita os olhos.

— Entendo… — Lady Conti encara o Adrian. Ele mantém a expressão vazia. Nora não olha em direção ao Revna. — Meu senhor, preciso saber se já tomou as providências necessárias para receber os seus entes.

Nora encara Adrian.

— Entes? — Nora dispara. — Que entes?

— Ora, — Ginevra os observa. — pensei que soubesse, Madalena. Vejo que estou me antecipando mais uma vez, mas que sorte a nossa, não é?! — Nora luta para abrandar a expressão. — Do contrário, não estaríamos preparados para recebê-los. Minha irmã, entendo que a sua fragilidade seja um grande desafio. Ainda assim, como senhora da casa, é sua responsabilidade cuidar desses detalhes e orientar as servas sobre os preparos e cuidados com os convidados. Ainda mais considerando o momento delicado que a família Baccari está enfrentando. — Ginevra faz o gesto da cruz. — Que Deus receba a alma de Isabel. Inclusive, cabe ao senhor, — Lady Conti encara Adrian. — a cortesia e gentileza de preparar a cripta para receber a sua prima. Não acho que seria adequado esperar que cheguem com o corpo para organizar os detalhes fúnebres. Entrarei em contato com o padre amanhã cedo para marcar a missa.

Nora sente o corpo fraquejar.

— Isabel morreu? — Ela exaspera. — Ela era uma criança e…

Ginevra franze o cenho.

— Isabel não é uma criança há anos.

— Eu… — Nora segura a cabeça. — O que aconteceu?

Lady Conti faz menção de aproximar-se para começar o interrogatório. E Nora está ocupada demais absorvendo a notícia para perceber a movimentação do ser ao seu lado. De repente, os olhos de Ginevra tornam-se completamente escuros. E o Adrian parado ao lado de Nora murmura:

— Vá para cama e durma até o amanhecer. Amanhã as lembranças desse encontro serão confusas.

Lady Conti concorda e afasta-se. Nora arregala os olhos e afasta-se da imitação ao mesmo tempo que Adrian aproxima-se.

— Você me confundiu com isso! — Adrian gesticula. — Eleonora, como você pôde?!

— Revna! — Nora ignora Adrian e repreende a entidade. — Também quero entender qual a diversão que encontra em criar essas situações! — Ela lembra-se da conversa que estavam traçando antes que o verdadeiro Adrian se aproximasse. O rosto arde. — É divertido me enganar?

— Apesar da aparência falsa, — Revna murmura. — minhas palavras foram honestas.

— Palavras? — Adrian estreita os olhos ao perceber o olhar de Revna e o rosto vermelho de Madalena. — O que está acontecendo aqui?

Nora gesticula por vários momentos. Os dois a encaram.

— Isabel morreu?

— Sim. — Adrian responde. — Eu soube hoje. Abigail deseja enterrar a filha na cripta da família. — Nora arqueia as sobrancelhas. — Portanto, Abigail, Vincenzo e o corpo estão vindo para cá. Claro que isso é uma forma singela de dizer que eles não têm dinheiro para o funeral.

— Adrian! — Nora repreende. — Não seja cruel.

— É a verdade! O imprestável do Ettore gastou todo o dinheiro da família em apostas! — Adrian esbraveja. — E o Vincenzo é delicado demais para trabalhar.

— Ora, ora, — Revna debocha. — Não sabia que o lobinho tinha ciúmes do primo. — Nora repreende a entidade. Adrian fecha os punhos, severo. — Não sou muito dado aos assuntos dos mortais. Apesar do casamento de Abigail com Ettore Baccari, ela ainda é a sua tia e herdeira. Irmã do seu pai, não é?

— Ele é doutor da lei também? — Adrian resmunga.

Nora encara os dois, ambos Adrian, enquanto entende que Isabel faleceu.

— Na sua ausência e na impossibilidade de Dante assumir, você sabe que Vincenzo Baccari é o seu herdeiro legítimo, não é? — A expressão de Adrian se fecha imediatamente. Nora coloca-se entre eles, antecipando a discussão que surgirá. Ao mesmo tempo, sente-se muito tola porque Revna não é frágil. — Imagine. Tudo o que te pertence caindo no colo do seu primo, alguém que você mesmo descreveu como hostil ao trabalho.

Adrian faz menção de alcançar Revna. Nora o mantém no lugar.

— Eleonora…

— Revna, você já fez o suficiente. Vá embora!

— Por quê? Oh, certo. Estou sentindo. O lobinho está nervoso.

Adrian contorna Nora para alcançar o Revna, e a entidade se desfaz em sombras e desaparece, rindo. Adrian bagunça o cabelo, gesticula e suspira:

— Quando vai me contar o que está acontecendo?

Nora se mexe e percebe que o calcanhar está curado. Apesar disso, Adrian mantém as sobrancelhas encurvadas e os lábios repuxados.

— Eu vou contar, mas não hoje. — Adrian estreita os olhos. — A sua prima morreu. E a sua família está vindo para enterrá-la. Temos assuntos mais urgentes do que o Revna.