Tempo da Bruxa
18 Lavandas
Naquela tarde a neve não cai por respeito, e até mesmo os cavalos mantêm a quietude enquanto puxam a charrete com o caixão. Enquanto andam em direção a cripta, Nora observa os detalhes entalhados na madeira e imagina o quão caro o caixão foi. Não culpa a família por gastar os últimos recursos naquilo; escolher o caixão é a última coisa que pode ser feito pelo ente que se foi.
Atrás da charrete caminham lado a lado Vincenzo, Abigail e Valentina. Caminhar não é a descrição ideal para Abigail. Ela agarra-se em Vincenzo, que luta para mantê-la em pé durante a procissão discreta. Valentina, a esposa de Vincenzo, firma-se sozinha na neve apesar da desenvolvida gestação. Ela é serena e discreta de uma forma muito respeitosa. O choro de Abigail transforma-se durante o percurso. Às vezes soa imperceptível. Na maioria do tempo é alto e muito sofrido. Tão sofrido que causa lágrimas à Nora, que mantém Dante por perto como se pudesse perdê-lo também. O garoto não diz nada; os olhos são sérios e distantes. Agarra-se a ela ciente de todos os sentimentos que percorrem o momento.
Adrian é tão sério quanto poderia. Ele caminha ao lado de Dante com a mesma sensação que perturba Nora. Ela não precisa olhá-lo para lê-lo. Tantos anos juntos construíram uma compreensão mútua e silenciosa. E é tão mútua que ambos pensam em Selena e sofrem pelo demorado retorno.
A entrada da cripta é consideravelmente distante do local em que Isabel foi velada, e o percurso é interrompido quando Abigail não é capaz de sustentar o corpo. O choro intenso pela filha a desestrutura completamente, a levando para o chão. Nora desvia o olhar e não permite que Dante veja a situação. Apesar do próprio sofrimento, evidenciado pelo rosto e olhos vermelhos, é Vincenzo quem a ampara outra vez. Abigail permanece ajoelhada sobre a neve e ergue os olhos para o céu, questionando porquê Deus a desamparou. O silêncio é a única resposta. Nora se esforça para esconder as próprias lágrimas. Não tem direito de sofrer mais do que a família de Isabel; não tem direito de sofrer por si mesma. Ainda assim, quando Abigail volta a andar, Adrian contorna Dante e aproxima-se de Nora, tocando o seu braço com cuidado. Ela o olha e as lágrimas escorrem. Ele a ampara enquanto caminham, e Nora implora:
— Eu preciso que ela venha para casa.
Nora é invadida por algo tão infeliz quanto o funeral e o coração dispara. Embora tenha passado os primeiros meses com Selena, Nora não a conhece mais. Não sabe como o cabelo dela é; não sabe se é escuro e liso como o de Adrian ou se é ondulado como o seu. Os olhos de Selena eram castanhos como os do pai, mas e o olhar? E como são os dentes? E como ela sorri? E a voz? Desde que se foi, Selena ganhou mais pintinhas pelo rosto? Qual a altura de Selena?
Adrian se afasta de Nora apenas para ajudar Vincenzo a transferir o caixão de Isabel para a câmara mortuária. O padre aproxima-se, abrindo a bíblia. Nora e Dante acendem as velas que se apagaram. Ginevra aproxima-se de Valentina para se certificar que ela está bem. Abigail senta-se em uma das cadeiras dispostas para ouvir as últimas palavras do padre, e Vincenzo mantém-se perto da mãe, impossibilitado de tecer o próprio luto.
O último momento com o padre é o pior porque a percepção da morte atinge toda a família. Para Nora essa sempre será a parte mais complexa. A certeza da partida, da despedida, é incapacitante. A percepção de que o ente, de fato, morreu é sufocante. Ela enterrou toda a família. Primeiro, o pai. Depois, a mãe. Por fim, o irmão. Não havia criptas ou câmaras mortuárias. Também não teve procissão e ajuda. Ela cavou todas as covas sozinha, e o irmão a ajudou a posicionar ambos os pais na terra. Quando ele também se foi, idoso e cansado, Nora o colocou na terra e chorou até amanhecer de novo, quando teve certeza que estava sozinha no mundo pela primeira vez.
Séculos se passaram até encontrar outro lar para si. Ela observa Adrian e Dante enquanto o padre fala. O garoto permanece perto do pai, impressionado com tudo. Adrian o abraça, apertando-o. Dante afunda o rosto no peito dele, e Nora promete para si que não vai enterrá-los também. Desta vez, ao menos desta vez, ela não vai ficar sozinha mais.
Valentina é a primeira a retornar porque os primeiros flocos de neve caem. Adrian decide que é o momento de levar Dante também e convence Abigail, que está exausta e desfeita, a acompanhá-los. Vincenzo permanece parado ao lado do caixão, quieto e imóvel. Nora também fica porque não vai deixá-lo sozinho em um momento tão delicado. Está escurecendo quando o homem se mexe, secando as últimas lágrimas antes de tocar o caixão. Nora aproxima-se, apertando o ombro dele. Ele a olha, e os olhos estão inchados e vazios.
— Eu ainda não acredito. — Vincenzo murmura. — Não acredito que isso aconteceu de novo. Foi tudo tão rápido, tão… Isabel estava bem. E…
Nora aperta mais o ombro dele.
— Eu sinto muito.
Vincenzo chora por uns instantes. Sozinho ele se acalma e se ergue o máximo que lhe é permitido. Eles se olham, e Vincenzo parece perceber com quem está falando. Nora aproveita para retirar o saquinho de veludo de dentro do bolso e posiciona ao lado do caixão. Ele franze o cenho.
— No meu povo — Nora murmura. — as ervas tem um significado diferente. Em um momento como esse colhemos as lavandas, o jasmim e o alecrim. São ervas que trazem tranquilidade, proteção e paz. Fazemos isso para que as almas, mesmo tristes por partirem, saibam que é o momento de descansar. E também é uma promessa de que nós, os que ficamos, vamos honrá-los até o fim. E vamos continuar. Por eles.
***
— Precisa comer algo. — Nora comenta ao se aproximar outra vez de Vincenzo. Ele pisca várias vezes até assimilar a presença dela. — Sou incapaz de imaginar o quão desgastante a viagem foi.
O suspiro é longo.
— E, ainda assim, nada me apetece.
Apesar da recusa, Nora oferece o copo de conhaque com leite. A mistura é típica da época, capaz de espantar o frio desafiador. Ela também acredita que o drinque pode despertar a fome dele. Vincenzo aceita e toma um longo gole. No final ele faz uma careta e limpa a garganta. Nora sorri, discreta.
— É forte.
— Um pouco, sim.
Ele se mexe devagar, procurando uma posição menos desconfortável. A família chegou poucos momentos antes do sol surgir. A viagem levou dias, e o corpo de Isabel não suportaria esperar mais para a cerimônia. Nora certificou-se de organizar tudo para recebê-los, desde os quartos, à comida e principalmente o funeral, atendo-se à fé católica compartilhada por eles.
O silêncio perdura. Vincenzo distrai-se com o conhaque enquanto Nora observa os presentes distribuídos pelo espaçoso cômodo. Abigail e Valentina estão sentadas nas poltronas próximas à lareira, aquecendo-se com chás quentes e biscoitos de leite. Nesse ponto, Ginevra mostra-se uma excelente companhia, distraindo Abigail com conversas mornas. Eventualmente, a mulher se entristece quando percebe o que a trouxe de volta à casa que viveu até os dezesseis anos. As visitas após o casamento com Ettore Baccari tornaram-se raras. Em partes devido a distância física. Por outro lado, as discussões entre Ettore, Abigail e Marco se intensificaram consideravelmente conforme Vincenzo e Adrian cresciam. Os primos mantêm idades próximas, sendo Vincenzo três anos mais velho. Apesar disso, a relação entre eles não foi amável.
— Não pensei que voltaria aqui. — Vincenzo comenta. Nora o analisa. — Muito menos nessas circunstâncias. — Ele observa a mãe conversando com Ginevra. — Mas ela insistiu. Não sei se trazer Isabel para cá é uma forma de se consolar. Gosto de pensar que sim, mas não ficaria surpreso se houvesse outras intenções.
— Outras intenções?
Vincenzo dá de ombros.
— Minha mãe ainda se ressente com a última conversa que teve com Marco. E ela ainda pensa que tudo isso… — Vincenzo gesticula. — de alguma forma também é nosso.
— E o que você pensa?
Vincenzo solta o ar pelo nariz.
— Eu não sei. — Ele encara o resto de conhaque no copo. — É a casa que ela cresceu, compartilhou a vida com os pais e o irmão aqui. — Nora concorda. — Mas minha mãe casou-se.
Ela espera que Vincenzo continue a falar, mas não há nada. A conclusão do casamento desenha muito bem a situação. Abigail dificilmente se tornaria herdeira na ausência de Marco. Porém, a existência do sobrinho, Adrian, filho legítimo de Marco, tornou a esperança dela ainda mais ridícula.
Vincenzo é discreto demais para compartilhar tudo o que a genitora pensa. Adrian, por outro lado, nunca escondeu as severas discussões que permearam a vida deles conforme cresciam. Abigail acreditava que o sobrinho não era digno para herdar toda a riqueza da família. Enquanto viva, possuindo o seu próprio corpo, Nora encontrou-se com Abigail duas ou três vezes em visitas ocasionais. A mulher nunca se esforçou para ser agradável, e Nora também não se importou em participar.
A mágoa de Adrian, porém, com os entes sempre foi calorosa. O fato da mãe dele ser estrangeira era, para Abigail, um motivo significativo para rejeitá-lo. A similaridade com a genitora também prejudicou consideravelmente a relação familiar. Afinal, pode esconder a linhagem de licantropos com a magia certa, mas não pode arrancar a pele marrom escura que herdou; não pode se desfazer do nariz adunco, dos olhos pequenos e amendoados, nem das sobrancelhas grossas e cheias. Até mesmo o cabelo escuro como a noite o denuncia.
Nora o observa escolhendo os biscoitos favoritos e sorri, admirando-o. Ele ainda é tão belo quanto o dia que o conheceu na floresta, quando retornou à forma humana após uivar por duas noites próximo a choupana que ela vivia. Naquela época, Nora estava decidida a existir sem nenhuma relação profunda. Sylvia ainda ardia em sua mente, assim como o término infeliz. Dante, é claro, a conquistou com facilidade porque Nora sempre adorou crianças. E embora tenha admirado Adrian desde o primeiro momento, Nora o rejeitou por muito tempo ciente de que algo como ele a levaria à lugares questionáveis.
Ela afasta os devaneios e observa Vincenzo. O tempo também foi gentil com ele. A pele clara está claramente machucada pelo frio insuportável. Pequenas rugas nasceram ao redor dos olhos castanhos, mas apenas adiciona maturidade à ele. O cabelo castanho-claro cresceu o suficiente para formar cachos suaves. A infeliz situação e a longa viagem o impediram de se barbear, o que o envelhece um pouco.
— E você se casou. — Nora murmura, observando Valentina. — É uma mulher adorável.
O sorriso é discreto e verdadeiro.
— Preciso admitir que não tinha mais expectativas que acontecesse.
Ela solta o riso pelo nariz.
— Você sempre foi muito pessimista. — Ela acusa. — Devido a todas as circunstâncias, os encontros que tivemos foram raros. Mesmo assim, lembro-me que a presença do senhor causava considerável alvoroço entre as nobres. — O rosto dele torna-se vermelho muito rápido. Nora ri, incrédula. — E ainda é tão tímido quanto poderia.
O comentário só piora a situação para Vincenzo. O vermelho do rosto não se desfaz com facilidade. Nora se diverte, incrédula que um homem de linhagem nobre e aparência adequada, agora casado, constranja-se tão fácil. Ao mesmo tempo é como reencontrar um antigo amigo e perceber que tudo ainda é óbvio e familiar.
— Por isso as minhas expectativas sempre foram pequenas. — Vincenzo rebate após fingir beber o resto do conhaque. — Ainda estou tentando entender o que aconteceu com você… — Nora inclina a cabeça. — Mas não sou tão tolo para pensar que Adrian teve a sorte de se casar com uma mulher tão parecida com a falecida. — Ela sorri. — E eu tenho certeza que você se lembra do quão… — Ele gesticula, desajeitado. — canhestro eu era para isso. — Ele observa as mãos vazias. — Ainda sou, é claro. Valentina, por outro lado, é uma mulher muito bondosa e paciente, que encontrou alegria em me aceitar ao seu lado.
— Ah, Deus… — Adrian aproxima-se, interrompendo-os. Ele força Vincenzo a aceitar um copo de uísque. — A sua desproporcional humildade é tão constrangedora. — Nora observa a dinâmica se formar. — Ainda se lamenta como se fosse a opção mais infeliz de toda a Europa. Afinal, que donzela suportaria se casar com um jovem herdeiro, de aparência tão afeiçoada e personalidade tão cativante? — Adrian bebe a própria bebida e revira os olhos. — Está se tornando velho demais para sentir tanta pena de si mesmo.
— De forma alguma, primo, não é pena o que me motiva. Reconheço apenas que nunca tive a mesma competência que você quando o assunto é cortejos.
Adrian encara Vincenzo de cima a baixo.
— Você nem precisaria abrir a boca, Vincenzo. Na verdade, o seu problema começa quando abre a boca. Tudo o que eu ouço é: “Ai, Deus, coitado de mim! Sou tão inadequado!”. — Adrian olha para si próprio. — “Vejam e comentem. Apesar de todos os esforços de minha amada mãe, eu não cresci! Sou tão indefeso”. — Vincenzo revira os olhos com as provocações do primo. Nora primeiro ri, depois repreende Adrian com o olhar. Este, por sua vez, dá de ombros. — Ao menos tem razão sobre uma coisa. Que grande sorte a sua de encontrar uma esposa tão agradável que suporte a sua autopiedade. Nem Jesus te aguentaria!
Vincenzo desvia os olhos, nega com a cabeça e quase sorri.
— Vejo que os seus sentimentos por mim ainda são intensos.
— Eu ainda te desprezo, sim. — Adrian rebate. — Você me enoja.
— Eu, por outro lado, lamento que nossa relação seja tão infeliz ainda. Você tem razão, sou velho demais para autopiedade. O que também te torna muito vivido para provocações tão infantis. — Nora solta ar pelo nariz conforme a expressão de Adrian se fecha. Vincenzo sorri, vitorioso em sua provocação. — Inclusive estou tão admirado em reencontrar Dante porque nós, querido primo, podemos nos perder em nossas divagações. Dante, porém, é a representação perfeita da passagem de tempo. Ele é quase um homem completo. — Vincenzo é gentil nesse comentário e oferece a Nora um sorriso. — Conversei um pouco com ele quando cheguei. É tão gentil quanto a mãe era. Por isso, tenho certeza que será um homem bem sucedido e afetuoso.
Adrian se divide entre ranger os dentes e se alegrar pelo filho. Nora aperta o braço dele, desfazendo toda a tensão. Adrian a olha, e ela sorri para Vincenzo.
— Obrigada pela gentileza. — Vincenzo sorri de volta. — Sou muito grata por ter sido escolhida por ele. — Adrian desfaz-se de todas as provocações e torna-se afetuoso com Nora, a envolvendo em um abraço gentil. — Peço que desculpe Adrian. Apesar de velho, ainda ladra muito. — Vincenzo ri. — E imagino que esteja ansioso para receber o seu bebê. Vocês serão ótimos pais.
Vincenzo agradece e desfaz-se do copo de uísque para aproximar-se da esposa. Nora admira a cena por uns instantes, feliz com o desfecho do gentil homem. Adrian, por outro lado, a encara.
— Eu ainda ladro muito?
Nora ri e o observa.
— Você é um bom cachorro, não sei porque insiste em morder.
Ele revira os olhos.
— E você ainda é uma mulher admirável. — Adrian agarra as mãos dela, a surpreendendo. Ele é gentil beijando os dorsos. — E eu tive a sorte de conhecê-la primeiro. Do contrário, dúvido que Vincenzo seria tão canhestro assim.
Nora usa as mãos para segurar os ombros dele, rindo.
— Não seja tolo. — Eles se olham. — Diferente de vocês, eu nunca seria disputada. Não sou desse mundo, sei que entende. Por isso tenho muita sorte por ter você e por tudo que me deu.
***
Nora acende a última vela em memória a Isabel Baccari. O costume não foi ensinado pela avó. Todavia, em todos os anos de existência, Nora tornou-se capaz de adquirir os hábitos, forjando para si uma prática única e crédula em muitas possibilidades. Além disso, há um pouco de tranquilidade em assistir a vela queimar lentamente enquanto revisa todos os acontecimentos do longo e cansativo dia.
Adrian estava no quarto há poucos momentos. Abigail solicitou a presença dele, e Nora não ousou perguntar o que eles iriam discutir porque a falência da família Baccari era previsível há anos devido aos gastos questionáveis e vícios infelizes do falecido Ettore Baccari.
Para ser justa, Nora não participa mais de conversas mundanas sobre riquezas, terras e poder. O assunto deixou de ser uma preocupação quando a única bisneta do irmão faleceu sem filhos. O futuro dos filhos também não a perturba. Sabe que a riqueza de Adrian garantirá o conforto de muitas gerações. E se o dinheiro dele não for suficiente, Nora será. Há poucas coisas que não se sabe sobre o mundo típico dos humanos aos quase quatrocentos anos de vida.
Nora percebe que não sabe se o corpo de Madalena será capaz de resistir tanto quanto o seu corpo anterior. Afinal, os deuses abençoaram e amaldiçoaram com uma existência longa o pacote completo de Nora; alma e corpo. De qualquer forma, não recuperar o corpo que nasceu não é uma possibilidade. Quando garantir o bem-estar dos filhos, Nora lidará com o demônio que a roubou.
Pela primeira vez em muitos encontros, a chegada de Revna é suave como o farfalhar das folhas no final do verão. Nora não o olha e sente o estômago se contrair. Por isso, gasta mais tempo que o necessário com as velas e preces tolas. Quando finalmente se olham, Nora o percebe próximo a escrivaninha, analisando os desenhos de Selena.
— Alguns são perturbadores. — Nora diz. — Mas ainda é mais do que tive nos últimos anos.
Revna a olha por cima do ombro. Ele mantém a aparência física de Adrian, e Nora o despreza ainda mais pela escolha.
— Sei que está ansiosa para conhecê-la.
Nora arqueia as sobrancelhas.
— Passo boa parte do dia pensando nisso. — Ele sorri. Nora também o faz. — Adrian me disse que Selena é muito parecida comigo. Isso me alegra e me perturba ao mesmo tempo.
— Por quê?
Nora senta-se na poltrona e balança os ombros.
— Tenho medo do que acontecerá. — Ela massageia a própria nuca. — Sei que ela não é eu, nem o Adrian. Ela é uma pessoa única. Ela é quem ela é. — Revna assente. — Mas não se pode negar de onde vêm por muito tempo. Em uma ou outra coisa, puxamos nossos antepassados. E o mundo não é mais tão bonito para coisas como nós.
— Vocês não são uma coisa.
— Não nascemos coisa, Revna. Mas fomos colocados nesta posição. Você vaga pelo mundo há muito mais tempo do que eu e sabe tanto quanto eu que o mundo mudou. Antes, era natural que bruxas, licantropos, fadas e outros seres convivessem com os humanos. Da minha família agora só resta eu e a minha filha. Sei que existem outras bruxas. Elas precisam existir. — Nora pausa e considera o argumento. — Mas mesmo que existam, são poucas. Então, eu e Selena estamos sozinhas. Da mesma forma que Adrian e Dante estão sozinhos.
— Da mesma forma que existem bruxas pelo mundo, ainda que poucas, também existem licantropos que resistem.
— Eu sei. — Nora desfaz as tranças do cabelo. — É o que eu mais desejo.
Revna assiste o cabelo louro ser penteado.
— Você acha que haverá um tempo em que os seres humanos serão os únicos a existir?
— Não sei. Tenho certeza que coisas como vampiros e demônios são capazes de resistir. — Revna revira os olhos, e Nora ri. Eles concordam sobre isso. — Feiticeiros também. Imagino que se tornarão cada vez mais fracos. Terão que depender exclusivamente de ervas, de objetos encantados, de pedras naturais. Qualquer coisa que ainda carregue um pouco de magia pura. E a magia, como existe em mim hoje, acabará. É questão de tempo.
— E os deuses?
Nora se surpreende.
— O que você pensa? Você sabe mais sobre os deuses do que eu.
— Os deuses também são capazes de morrer. — Ele revela. — Muitos já morreram.
— E quanto a você?
— Quanto a mim eu não sei. — Revna soa sério e honesto. — Diferente dos deuses, eu não conheço o que me gerou, nem mesmo sei se fui gerado ou se fui um acidente do acaso. Também não sei há quanto tempo existo. Posso ter existido por séculos, por dezenas de milhares de anos, por incontáveis milênios sem nem mesmo ter desenvolvido a percepção disso. — Nora o olha impressionada. — Eu realmente não sei. — Ele sorri sem graça. — Mas se tudo morre, eu também devo morrer, mesmo que demore um pouco mais.
— Isso te assusta?
Revna nega.
— Imagino que morrer, para mim, seja o mesmo que nunca ter existido. Não acho que terei a percepção de que morri. Entende?
Nora concorda.
— Você… — Ela para de falar, insegura. Revna, porém, aproxima-se mais tranquilo que o normal. Nora o analisa um instante. — Já desejou morrer?
Ele solta o ar pelo nariz que não inspira ar de verdade. Nora admite que a imitação de um ser mortal é estranhamente boa. Presume que Revna conviveu por milênios com os seres mortais, aperfeiçoando-se e afeiçoando-se também. Não o vê como uma coisa insensível pela existência alheia; muito pelo contrário. Revna, em momentos raros como aquele, reflete uma absurda curiosidade e admiração por tudo. E também muita preocupação com o futuro.
— Sim. — Ele franze o cenho, sentando-se na poltrona próxima a ela. — Não acho que desejei morrer. Acho que desejei não existir. É diferente. Morrer é acabar com algo que aconteceu, que foi palpável. Não existir é… — Ele gesticula. — Não existir é não acontecer.
— Por quê?
— Mesmo que eu anteceda boa parte das coisas, eu não fui poupado de nada. — Nora abre a boca e desiste de questionar. Revna demora um pouco para prosseguir. — Em suas próprias proporções, e ambientado no caos, eu também existi de muitas maneiras, Eleonora. Isto é, eu me alegrei. E eu sofri. E eu errei. Muitas vezes. Não há perfeição nenhuma em coisas como eu. Muito pelo contrário. Minha longa existência talvez me faça muito mais corrupto e nojento que todos.
— Não acho.
Ele se surpreende e soa divertido:
— Por quê?
— Nunca conheci outra coisa como você. Da forma que você fala, desconfio que exista uma coisa parecida. — Ele não recusa a ideia. — Mas conheci muitos deuses que existem há menos tempo que você. Conheci muitas bruxas. Muitos licantropos. Vários demônios nojentos e vampiros tenebrosos. — Ele sorri. — E todos eles existem há menos tempo. Muitos deles, por outro lado, são muito mais corruptos e nojentos do que você jamais será.
— Você fala com muita certeza. Ou talvez seja esperança.
— Nem um, nem outro. — Nora rebate. — A maioria desses seres passaram pelo mundo sem tirar um dia sequer para avaliarem o que fizeram aqui. Eles se tornam insensíveis, ignorantes e vazios. A existência longa causa isso à maioria. Por isso acho que os deuses são tão cruéis. Eles parecem se esquecer que a dor ainda é dor, mesmo que seja de um mortal. E que o amor ainda é amor, mesmo que breve. Acho que perdem a referência porque amanhã será outro dia. E depois de amanhã, mais um dia.
Revna a olha. Nora molha os lábios antes de prosseguir:
— Você não. — Nora pausa para encontrar coragem. — Nesta vida, — Ele arqueia as sobrancelhas, surpreso. — eu conheço você há mais de trezentos anos. Eu tinha um pouco mais de quatorze anos quando você foi até mim na floresta e me abençoou com um conhecimento inquietante. Você tem razão: eu desejei isso. O sofrimento é uma parte do preço do conhecimento. — Ela pondera. — E nesses anos que nos encontramos, nos afastamos e nos esbarramos, eu vi você de muitas formas. Há muita petulância, é claro. Insensibilidade também. Não posso te culpar pela raiva porque não sou muito diferente. Mas também há uma bondade e muita curiosidade sobre tudo. Há gentileza. E muito arrependimento. E quem se arrepende, Revna, quem tem a sorte de se arrepender, não é a coisa mais vil da existência.
Nora nunca saberá definir se o que ela vê são lágrimas. Talvez seja apenas o reflexo das velas no rosto dele. Ainda assim, Revna esfrega os olhos e suspira. Por muitos minutos ninguém diz nada. Nora também não encontra coragem para desviar os olhos da figura. Quando percebe isso, e a confissão que fez, o coração dispara. Ela levanta-se, anda pelo cômodo e gesticula muito antes de elaborar qualquer coisa.
— Preciso ser honesta. Estou evitando pensar nisso. — Revna inclina a cabeça. — Primeiro, por medo. Porque percebo que tudo que eu sei ainda é pouco. Minha existência, embora maior que a de muitos, é tão breve quanto um suspiro dos deuses. Eu não sei de nada. E isso me assombra porque saber alguma coisa foi o que me confortou por tantos anos. Depois, evito pensar nisso porque há muitas coisas acontecendo. Você sabe disso porque tem se mostrado uma presença contínua. — Nora para de falar para respirar e molhar os lábios. — Eu preciso, antes de tudo, garantir que os meus filhos estejam seguros e bem. Preciso que Selena volte para casa o quanto antes. E preciso me concentrar no ritual para garantir ao Dante uma escolha sobre a própria natureza.
— Eu sei disso, Eleonora. E de você eu não esperaria nada de diferente.
Ela sente-se grata por isso.
— E também há o meu corpo sendo ocupado por um demônio nojento. — Revna ri. — E a minha morte ainda me perturba.
— Compreensível.
— É. — Nora o encara. — E apesar de tudo isso, não consigo ignorar, muito menos esquecer, as conversas que temos tido nas últimas semanas. Você nunca escondeu de mim o conhecimento. Sempre respondeu a maioria das minhas dúvidas, embora tenha se feito de surdo para outras.
— Há outras que não posso dizer.
— Eu sei, Revna. Eu sei. — Ela anda mais pelo quarto, angustiada. — Tudo isso, tudo o que estou tentando dizer… — As palavras fogem, mas Revna é um interlocutor paciente. — Estou tentando dizer que percebo que essa não é a primeira vez que lida com a minha alma. Pelo contrário, você mesmo diz que conhece a minha alma muito mais do que eu.
— Você tem razão.
— Eu também percebo que há coisas que não me diz ainda. Agora eu não posso saber o que é. Eu não suporto lidar com outra revelação. Preciso me concentrar para lidar com esses problemas antes. — Revna concorda outra vez. — Mas eu sei. — Ela treme quando percebe. — Agora eu sei que não me encontrou naquela floresta há três séculos por coincidência. E também sei que todas as gentilezas, todas as coisas que fez por mim, tudo o que facilitou para mim, não é porque me deu conhecimento, muito menos por um pacto que nunca existiu. — Nora se cala enquanto Revna parece lutar para se manter dentro daquela casca. — Eu não sei como, nem consigo cogitar porquê ou quando. Mas agora eu percebo… — Ela ri incrédula. — Por que não me disse antes? Por que não veio até mim antes? Antes mesmo de Adrian e até Sylvia.
— Eu não poderia. — Revna soa como a floresta à noite. — Eu não podia.
Nora perde as palavras por um momento. A visão se torna turva devido às lágrimas.
— Há quanto tempo?
— Milênios.
— Por quanto tempo?
— Séculos.
Nora senta-se quando perde as forças do corpo. Revna demora, mas aproxima-se. A presença dele naquele instante é muito mais forte e familiar do que em todos os encontros anteriores. Nora sente-se confusa, suja e enganada. Ela divide-se entre manter a distância entre os corpos, ambos falsos, e agarrar-se aquela criatura que a conhece há mais de séculos.
— Por quê?
— É uma história muito longa. E muito infeliz também.
— Vai me contar?
— Um dia, sim. Quando puder ouvir.
Nora mantém-se quieta por quase uma hora completa. E Revna mantém-se parado ao seu lado, perdendo todos os movimentos humanos recém-aprendidos. Ela lida com a percepção que aquela criatura existe há milênios e que a alma dela é muito mais antiga e familiar do que imaginava.
— Revna, — Nora chama, chorosa. Ele a olha. — qual o nome da minha alma?
As sombras dele rompem com a casca de Adrian. Nora o analisa naquela existência abstrata e incapaz de alcançar.
— Circe.
Ela chora e ri ao mesmo tempo.
— Isso… É uma deusa, não é?
— Essa Circe que se refere é apenas uma história. Uma história mais recente que o nascimento da sua alma.
Nora segura a própria cabeça, incapaz de mantê-la.
— Se tudo que me diz é verdade…
— Por que eu mentiria?
O silêncio de Nora mina qualquer dúvida que resiste. Por que Revna mentiria?
— Não venha mais como ele. — Nora exige. — Se tudo isso é verdade, se a minha alma é mais antiga do que eu sei, se você me conhece há muito mais tempo… — Ela pondera. — Venha como é.
— Isso… — A voz dele ecoa pelo quarto. — É o que eu sou.
— Eu sei. Isso… — Ela gesticula. — Venha como eu te conheci. — Nora implora: — Não minta mais para mim, não deboche mais de mim. Me deixe ter… Me deixe ao menos saber.
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