Tempo da Bruxa

19 Cristo Crucificado


A respiração de Nora próxima às portas embaça os vidros, dificultando a visão completa do pátio frontal. Em poucos dias Fevereiro se encerrará, e o inverno chegará ao fim antes de Abril. Apesar da previsão, as temperaturas ainda são baixas e a neve insiste em cair durante a noite. Por isso, Nora admira a disposição de Abigail e Vincenzo Baccari em retornarem para casa, a incontáveis quilômetros de distância, tão rápido. De fato, Adrian não é o anfitrião mais cordial da região e jamais convenceria o primo a permanecer mais alguns dias. O surpreendente é o quão fácil Abigail aceita a rejeição do sobrinho. Se o ânimo fosse outro, Nora entenderia melhor a dinâmica familiar. Os próprios problemas a bastam, porém.

Com o dorso da mão, Nora limpa o vidro para assistir os servos carregando a carruagem com a bagagem e o suprimento necessário para a viagem de volta. Os cavalos estão inquietos e não aceitam o manuseio dos cocheiros. A distância não permite que Nora escute a conversa dos servos, mas desconfia que todos estão desconfortáveis com a viagem.

Ela encosta a testa no vidro como se a superfície gelada pudesse tranquilizar os pensamentos. Os cocheiros continuam trabalhando, os cavalos mantêm-se inquietos e Abigail analisa o processo durante um tempo. Nora permanece na pequena sala; o ambiente foi feito para que se assemelhasse a uma biblioteca privada e nunca foi usado para tal. O cômodo está imerso na escuridão, apesar do dia ter acabado de começar. Para Nora o tempo agora é dúbio. A noite não lhe caiu bem, e ela não percebeu exatamente quando o sol surgiu porque as nuvens são espessas e sombrias. Portanto, não se surpreenderia se Revna surgisse às costas, debochando de alguma casualidade.

Revna partiu antes da noite acabar. Não houve despedida, muito menos deboches e provocações. Nora exigiu e exigiu. Em silêncio Revna assentiu e assentiu, e a presença forte tornou-se amena até desaparecer. A solidão a engoliu muito rápido, o que não é comum quando se considera quantos séculos vagou acompanhada apenas das memórias.

Revna alegou conhecê-la a milênios. A memória de Nora, contudo, se estende a menos de quatro séculos. A vida que pensava ser única é apenas mais uma entre centenas de reencarnação. Tudo foi dito entre as linhas confusas e angustiantes. Nora implorou para que assim fosse porque sabe que não consegue lidar com toda a complexidade da sua existência no momento. Evitar o assunto não livrou os ombros do peso sufocante, nem mesmo impediu que a sua imaginação tentasse preencher as lacunas milenares.

A relação com Revna a intriga. É perceptível que o envolvimento deles foi infeliz; Revna lhe confirmou que a história é longa e muito desgraçada. E como não seria? Nora não vê nenhuma realidade em que uma relação entre um ser-mortal e um ser como Revna pudesse prosperar. O próprio tempo, a própria vida, conspira contra a possibilidade. Além disso, independente do que tenha sido em todas as vidas que forjou para si, Nora, enquanto um ser-mortal comum, nunca poderia ser tão complexa ao ponto de entreter Revna e arrastá-lo para um sentimento complexo durante vários séculos e muitas reencarnações.

— Eleonora… — Adrian chama ao entrar no cômodo. — Tudo bem?

Nora percebe que os vidros estão todos embaçados e se afasta, esfregando o rosto antes de encarar o homem. Ele inclina a cabeça. As pontas da orelha e do nariz estão vermelhas, indicando a exposição prolongada ao frio. Nora percebe que ele está trajado para enfrentar o mundo exterior e franze o cenho. Adrian suspira ao perceber a confusão dela.

— Preciso ir a casa da moeda. — Nora arqueia as sobrancelhas. O suspiro dele é ainda mais alto desta vez. Adrian gesticula, esfrega o rosto e gesticula novamente. — Estou tão desconfortável quanto você.

Nora, contudo, precisa de mais tempo para entender o que está acontecendo.

— Abigail solicitou dinheiro. — Nora percebe. — E não me parece ser pouco porque você precisará ir presencialmente à casa.

— Não é pouco. — Adrian aproxima-se para ver o que estava atraindo a atenção dela. Daquela posição só é possível visualizar a carruagem e os cavalos prontos para partirem. Os servos, contudo, se esconderam dentro de casa. — Eu estava ciente que a situação da família não era favorável. O sr. Baccari, porém, os deixou com mais pendências do que é correto perante Deus. Em vida o sir. Baccari perdeu boa parte das propriedades herdadas. Também não fez bons investimentos. Não me surpreende que Ettore não ouviu os alertas da esposa. O que me surpreende é a destreza que Abigail tem sobre os assuntos. Ela está muito sã da situação financeira que o marido a deixou e fala do assunto com uma mágoa impressionante. A mágoa é tão forte que se humilhou me pedindo ajuda.

— Não me surpreendo com isso. Abigail fará qualquer coisa para manter a vida que tem. O que realmente me intriga é você estar disposto a se deslocar até o banco e ceder um valor considerável para a mulher que nunca foi gentil.

Adrian range os dentes e firma a expressão. Nora o analisa.

— Não o faço por desejo. — Ele resmunga. — Faço por obrigação.

— Não visualizo qual obrigação você se refere. — Eles se olham. — Digo, é claro que é inviável manter o padrão de vida que Abigail está acostumada e as alternativas não são muitas quando já se perdeu tanto, mas a propriedade que moram é muito bem avaliada e uma família rica se alegraria por ter a chance de comprar. Além disso, não acho que Vincenzo se ofenderia em encontrar uma ocupação que possa dignificar a família.

— Não discordo. Porém, há duas questões. — Ele mostra dois dedos. — Primeiro, parte disso a pertence. Os costumes não são favoráveis, eu sei, mas Abigail é tão filha quanto Marco era. Não é justo que eu a submeta a pobreza quando há recursos. Também me assombra pensar que essa pode ser a situação de Selena eventualmente.

— Não será. Nunca será.

Adrian concorda.

— Depois, — Ele retorna às justificativas. — A situação familiar é ainda mais infeliz do que aparenta. A saúde da esposa de Vincenzo requer muitos cuidados, além do habitual para grávidas. E os cuidados são excessivamente caros.

Nora perde a expressão conforme entende. Ela franze o cenho, molha os lábios e pondera.

— De que má sorte estamos falando?

Adrian balança os ombros.

— Eu não tenho certeza. Abigail tentou ser discreta sobre o assunto e disse que os pulmões não são tão fortes quanto deveriam. Valentina parece sofrer com constante falta de ar e tosse excessiva. Com a piora do inverno a tosse ganhou escarros vermelhos.

— Peste?

— Não acho que seja. Se fosse Peste Valentina não estaria viva.

— Isabel também padeceu disso?

— Desconfio que sim. — Adrian afunda a mão no cabelo, pondera e lamenta: — Valentina nem sempre teve problemas desse tipo. Abigail disse que começou quando a mulher se dedicou aos cuidados da cunhada.

— Vincenzo sabe?

Adrian dá de ombros outra vez.

— Não acho que saiba. Se ele soubesse que a esposa grávida tem a mesma doença que acabou de matar a irmã não estaria tão tranquilo.

Tranquilo não é a palavra que Nora usaria para descrever o homem, mas concorda.

— Valentina não contou da piora. Provavelmente deseja poupá-lo de mais preocupações. Só contou à sogra, que agora pede a sua ajuda.

Adrian assente.

— E eu não consigo negar.

— Não espero que aja de outra forma.

Adrian a analisa.

— E não parece otimista com a possibilidade.

— É bom que Valentina esteja acompanhada de excelentes doutores.

— Mas não acha que será o suficiente.

— Tenho visto essa moléstia há muitos anos. — Nora explica-se. — A tosse se estende por muito tempo antes do sangue surgir, mas quando o sangue surge… A doença está muito avançada. — Adrian segura o ar nos pulmões. — O tratamento é variado. Algumas pessoas são curadas com certas plantas, mas não é de conhecimento comum à maioria.

— Imagino que seja questão de tempo, então. Que tragédia a vida do Vincenzo.

Nora solta o ar pelo nariz e segura os ombros dele, apertando levemente. Adrian inclina a cabeça e o pesar estampado no rosto desaparece. Ele a analisa, atento e curioso.

— Não se preocupe. Vou visitá-la e ajudá-la.

Adrian alcança as mãos dela e as segura, envolvendo os dedos deles.

— Às vezes me esqueço disso.

— Do quê?

— Que é você. — Ele murmura. — E para você esse problema grave não é nada senão um pequeno desvio de caminho.

— É uma moléstia que mata muitos. — Nora o repreende, rindo. — Mas que tipo de bruxa eu seria se não fosse capaz de curar algo tão comum aos mortais?

Adrian pondera uns instantes.

— Você curou muitas pessoas durante a sua vida?

Ela franze o cenho e estala a língua.

— Antes de ser amaldiçoada, quando eu era apenas uma bruxa vivendo entre o meu povo, eu ajudava o máximo de pessoas que conseguia. Durante um tempo, eu recebi pessoas de muito, muito longe que buscavam ajuda. — Adrian mantém os olhos bem abertos e atentos, e Nora o adora por tanta curiosidade. — Essas pessoas que vinham de longe tinham situações muito mais complexas.

— E você ajudou todas?

— Eu tentei. — Nora sorri sem graça. — Como não faria? Muitas daquelas pessoas viajaram por meses, atravessando todo o tipo de má sorte. Era a minha obrigação ao menos tentar. E eu me sentia… — Nora dá de ombros. — fazia sentido para mim. Ainda mais quando as pessoas voltavam tão bem para casa. Eu não podia garantir, é claro, que a morte não encontraria essas pessoas de outra forma, mas eu podia fornecer um pouco de dignidade antes do fim. Uma chance de aproveitarem. — Ela franze o cenho. — É tão cruel saber que os deuses criaram tudo isso e depois se esqueceram, deixando todos nós ao acaso. Então, eu fiz o que pude enquanto foi possível.

— Essa era a sua vida?

Nora ri.

— Parece incrédulo.

— Não, de forma alguma. — Ele coça o rosto, envergonhado. — Você sempre me contou muitas histórias…

— Mas falei pouco de quando era só uma bruxa?

Adrian concorda.

— Na verdade, é estranho perceber que por um tempo, há muito tempo, era a sua primeira vez em muitas situações. Fico imaginando como você era.

— Ora, você está surpreso que eu não nasci adulta e imortal?

O rosto dele se torna vermelho muito rápido.

— Não, eu não…

Nora ri e agarra o rosto de Adrian, distribuindo beijos pelas bochechas. Ele recupera-se, sorrindo sem graça.

— Eu era normal. E a minha vida era normal. — Ela o abraça, o analisando. — Eu gastava muito tempo estudando. Era o que eu mais gostava de fazer. E quando não estava aprendendo mais sobre magia, eu era tão comum quanto poderia. Eu tinha amigas. Tinha outros interesses, como flores e música. Eu também tinha interesses românticos.

— Mas não se casou? — Nora nega. — E por quê?

— Não havia ninguém.

Adrian solta-se do carinho apenas para discutir.

— Nisso — ele dá ênfase. — eu não acredito.

Nora ri.

— Por quê?!

— Imagino que era jovem e não tinha tanta experiência. Ainda assim… — Adrian gesticula por tempo considerável. — Não acho que era uma jovem desajustada ao ponto de não ter ninguém interessado em você. E ainda que fosse muito dedicada aos estudos, como ainda é, também sou incapaz de imaginar que o ápice da sua rotina era aprender uma nova magia. — Nora gargalha, surpresa. — Tenho certeza que era adorável e disputada.

— Você me lisonjeia demais. E me adora mais do que a maioria.

— Sim, eu adoro você. — Ele confessa com muita facilidade. — É fácil te adorar, Eleonora.

— Agora talvez seja. — Nora não acredita nisso. — Mas eu era outra coisa. Eu era uma garota!

Ele usa o dedo indicador para negar. Nora gargalha e agarra o dedo dele, impedindo que continue com o movimento. Ela permite que o corpo de Madalena se incline na direção do homem, e Adrian a recebe com carinho.

— A sua humildade é mais constrangedora que a de Vincenzo. É impressionante como você fala como se eu não conhecesse a sua aparência.

É a primeira vez que Nora ri por tanto tempo desde que voltou.

— O que quer ouvir? Havia pessoas interessadas em mim, sim. Nada tão forte e recíproco para que me comprometesse com tamanha seriedade.

— Essa versão é muito mais crível.

Nora pousa a cabeça no peito dele, recuperando-se da risada. Adrian ainda cheira a sândalo e é tão receptivo quanto antes, abraçando-a com delicadeza. A barba dele esfrega-se levemente na testa de Nora, e ela o admira daquele ângulo. Antes, quando estava em seu corpo real, Nora era tão alta quando ele e a sua visão era diferente. Madalena, por outro lado, é de baixa estatura, e o topo da cabeça dela não alcança mais que o pescoço dele. Por isso, Nora precisa esperar que Adrian a olhe para tentar alcançar os lábios dele.

O encontro dos lábios é breve e muito casto. Ela segura o rosto dele antes de aprofundar o beijo, acariciando a pele.

— Mesmo depois de morrer, você ainda me faz muito feliz.

Adrian ri e nega ao mesmo tempo. A aproximação de Dante impede que eles se beijem novamente, mas Nora não se afasta de Adrian. O garoto franze o cenho, inclina a cabeça e analisa.

— Mãe, — Dante cumprimenta. — pai. — Ele pondera. — Vocês sabem que isso é estranho, não é? Quero dizer, eu nunca pensei em ver Madalena abraçada ao meu pai desta forma. Estou quase constrangido.

Nora solta-se de Adrian para abraçar o filho.

— Não seja tolo, garoto. — Ela o repreende falsamente. Dante é carinhoso também. Nora se afasta ao ver o traje do filho. — Percebo que também tem compromissos fora de casa.

Dante olha para Adrian.

— Meu pai me chamou para ir ao banco.

Nora surpreende-se por ouvir “meu pai” da boca de Dante, que há pouco referia-se ao genitor pelo nome.

— Penso que é bom que vá para aprender.

Nora analisa os dois, incerta de quando a tensão se amenizou. Decide não perguntar quando ou como porque entende que há muitas coisas que não pode acompanhar de perto. Também a alegra saber que eles encontraram uma forma sem que precisasse interceder.

— É uma ótima ideia. — Nora concorda. — É bom também para que o seu pai não vá sozinho.

— Mas você vai ficar sozinha. — Dante rebate. — Talvez eu…

— Não. — Ela interrompe. — Eu quero que você vá. Estarei em casa, ansiosa para o retorno de vocês.

Dante aceita a decisão com facilidade, o que faz Nora pensar que ele também deseja a aproximação com o pai. A mera ideia enche o seu peito de estalos alegres. Adrian concorda com a definição e aproxima-se.

— É melhor irmos. Quero retornar antes do final do dia. — Dante assente, despede-se e afasta-se. — Quando resolvermos isso, — ele refere-se aos Baccari. — vou pessoalmente buscar Selena. — Nora arqueia as sobrancelhas e quase perde o equilíbrio. — Você tem razão. É tempo demais para se estar longe de casa.

Antes de partir, Adrian a abraça e deposita outro singelo beijo em seus lábios. Nora corre para as portas de vidro para assistir a ida deles.

***

O sótão é tão abafado que o suor escorre pela lateral do rosto. Nora prende o longo cabelo loiro em um coque improvisado e limpa o suor impregnado na nuca. As velas posicionadas no castiçal estão quase no final, limitando o tempo para encontrar o cristal ideal. Todavia, o sótão é grande e há muitas coisas, inclusive de grande volume, escondidas no ambiente.

Ao menos, ela pensa enquanto recupera o fôlego, Adrian não jogou todas as suas coisas fora. O pensamento breve é o suficiente para enchê-la de mágoa. Aos quase quatrocentos anos, Nora deveria saber que homens e mulheres têm a mesma capacidade de serem cruéis. Mesmo assim, ela esperava que Sylvia fosse diferente.

O relacionamento delas durou quase duas décadas. Sylvia tinha dezenove anos quando chegou ao vilarejo. O costume do povo de Sylvia era de não estabelecer moradia fixa, optando por passar períodos, de acordo com o clima e a disponibilidade de recursos, em diferentes localidades. Portanto, Nora não acreditou quando a garota disse que deixaria a família e se casaria.

Sylvia, que nunca demonstrou nenhum interesse por homens, estava disposta a casar-se com um, que não pertencia ao seu povo e provavelmente seria cristão, apenas para ter uma casa fixa. Ela parecia cansada de movimentar-se tanto e despedir-se ainda mais. Nora na época era apenas uma consulente que Sylvia conquistou na feira do vilarejo e a alertou muitas vezes sobre a escolha precipitada. Sylvia era jovem, teimosa e muito decidida. O tempo em que a família permaneceu no vilarejo foi o suficiente para que Sylvia conquistasse dois pretendentes. Ela optou por casar-se às pressas na paróquia com o pretendente mais adequado. Isto é, ele tinha uma padaria e parecia tão típico que seria tedioso.

O casamento durou três anos. Não foi infeliz, nem mesmo feliz. Era repetitivo e óbvio. Sylvia cumpria com as obrigações enquanto mulher e esposa, e ele também o fazia enquanto homem e marido. Nora não se lembra mais do nome dele, mas nunca se esquecerá da expressão que ele fez quando as encontrou nuas, entre beijos desesperados, no quarto do casal. Depois, Sylvia partiu com Nora para a choupana e viveram até a fatídica noite em que Nora não permitiu que Sylvia morresse.

Enquanto estavam juntas, Nora se convencia dia após dia que Sylvia era alguém por quem lutar. Talvez fosse na época. Ou talvez Nora tenha se deixado levar pela óbvia solidão e carência que permeavam os seus dias. Olhando agora, sendo uma pessoa tão diferente, não sabe definir o que realmente aconteceu. Também não importa mais. Há uma possibilidade considerável de Sylvia ter falecido quando a choupana queimou. Se essa é a realidade, os assuntos e pendências entre elas estão resolvidos.

Nora encontra boa parte dos objetos em caixas bem distantes das roupas e dos livros. Trata-se de cristais, pedras, adagas, runas, moedas enfeitiçadas e toda a sorte de objetos mágicos que Nora conseguiu adquirir e produzir em toda a existência. A coleção era mais extensa antes de separar-se, já que Sylvia usurpou uma quantidade considerável, e Nora não teve interesse de repô-los porque a sua atuação como bruxa havia diminuído drasticamente.

Restam apenas duas velas acesas, e Nora concentra-se em encontrar o que precisa para a magia que pretende. No dia seguinte, quando Valentina estiver bem e no caminho para casa, Nora retornará ao sótão e analisará tudo com mais atenção. Por isso, ela escolhe o melhor quartzo rutilado disponível. Por precaução também esconde dentro dos bolsos uma pequena pedra de turmalina negra. Antes de levantar-se e sair do cômodo, Nora vê a adaga de prata encantada por Revna. É uma arma pequena, discreta e pouco ofensiva para os seres humanos. Porém, foi o que carregou consigo durante as movimentações pelo mundo e definitivamente a salvou muitas vezes.

Infelizmente Nora não julga necessário levar a adaga consigo. Afinal, ela está em casa e não há ameaças que justifiquem o armamento.

O toque na porta é breve, e Vincenzo dispensa a visita duas vezes antes de ceder. Ele surpreende-se ao perceber que não é uma serva. Ainda assim, reluta em permitir a entrada de Nora. Ela escuta Valentina tossir duas ou três vezes seguidas e empurra o homem, forçando a entrada. Ele a segue resmungando e gesticulando, vermelho, inquieto e claramente nervoso.

— O que me surpreende… — Nora murmura ao ver Valentina disposta na cama. — é a insistência de vocês em partirem tão cedo. — Valentina se esforça para sentar-se na cama como se pudesse fingir um estado de saúde melhor. O rosto, contudo, não tem cor nenhuma. Os lábios estão descascados e vermelhos devido ao sangue. Os olhos são fundos e tristes. — Deuses, — Nora lamenta. — eu não devo ter te olhado com atenção, menina.

— Sra. Palucci, — Apesar da fragilidade do momento, Vincenzo mantém-se cortês. — fico honrado por sua visita, mas não acho que o momento seja ideal. Minha senhora deseja descansar antes de começarmos a viagem de retorno.

Os olhos de Vincenzo estão vermelhos, indicando o choro recente.

— Alguns doutores do corpo aconselham os doentes com tosse insistente a viverem no campo com altitude elevada. — Nora comenta, olhando para Valentina. — Não sou mestre nessa arte, mas desconfio que a mera altitude não é o suficiente para curar o que acontece aqui. — Nora posiciona a mão no pulmão. Valentina mordisca o lábio inferior. — Há quanto tempo?

A voz é baixinha e suave:

— Piorou no último ano.

— O que o médico disse?

Valentina sorri.

— Que o campo me faria bem.

Vincenzo aproxima-se da cama, segurando a mão da esposa. Ela o olha e sorri, mostrando os dentes sujos de sangue. Ele finge sorrir e limpa os dentes dela com o paninho sujo de sangue. Adrian não era capaz de lhe dar detalhes, mas Nora também desconfia que Abigail atenuou parte dos sintomas.

— E o escarro vermelho?

Valentina tosse tanto que o rosto fica vermelho. Vincenzo se retorce, agonizando.

— Duas ou três semanas.

— Valentina! — Vincenzo a repreende. — Por que não me contou?! — O tom de voz dele aumenta. — Você me disse que era apenas uma tosse por causa do tempo seco. Eu nunca teria vindo para cá se soubesse. Eu…

— Por isso não te contei. — Valentina rebate. — Você não viria enterrar Isabel.

— Não! Eu não viria. E não deixaria que fizesse uma viagem tão longa durante o inverno!

Vincenzo a repreende, e a discussão prossegue por quase cinco minutos. Nora espera que ambos desabafem porque é óbvio que os nervos estão à flor da pele. Quando Valentina se encolhe chorosa e arrependida, e Vincenzo afasta-se para limpar as lágrimas, Nora intervém.

— Nessa tarde eu não consigo fazer o que seria ideal. — Nora puxa uma cadeira para sentar-se ao lado da cama. — E também acho que é melhor ter o seu bebê antes. — Valentina franze o cenho. — Quando o seu bebê estiver saudável e grandinho, venha até mim que tirarei isso do seu peito de uma vez por todas. Sei que a sua saúde é delicada e não pode esperar tanto tempo. Por isso… — Nora alcança a mão dela e coloca o quartzo rutilado. — Durante todos os dias, use-o próximo do peito. E durante às noites, sem exceção, o coloque sob o luar. O cristal vai absorver a moléstia do seu peito. E a lua, a Escuridão, purificará o cristal à noite. Se o cristal estiver carregado não funcionará. E nunca, em hipótese nenhuma, o use quando estiver carregado próximo do peito, senão a doença se espalhará por todo o corpo. — Valentina aperta o cristal. — Reze todas as noites para que a Escuridão purifique o cristal e o limpe da doença.

Se há dúvidas ou incredulidade, Valentina não as externiza. Ela aperta o cristal com força contra o peito, e Nora assiste a pequena pedra com riscos dourados tingir-se levemente de preto. Valentina arregala os olhos quando percebe, e Vincenzo suspira alto.

— Esse cristal está encantado com magia para que funcione assim. — Nora adverte, levantando-se. — Quando a magia enfraquecer, o cristal quebrará e será a hora de me procurar porque a sua doença, sem o cristal, piorará. — Valentina arregala os olhos. — Mas não se preocupe agora. Funcionará por tempo suficiente para que vocês retornem e tragam o bebê para eu conhecer.

Valentina observa o cristal sugar a doença dos pulmões cansados. Nora nunca sofreu com a moléstia, mas imagina que a falta de ar é o sintoma típico que antecede a morte. E também imagina que o alívio da pressão no peito é grande o suficiente para causar o choro intenso na mulher. Ela se desdobra em agradecimentos, e Nora recusa todos porque usar a magia para curá-la nada é senão obrigação. Apesar disso, Vincenzo a aborda quando saem do quarto:

— Como posso te pagar por isso?

— Não estou te cobrando. — Ele insiste por tempo considerável. Nora suspira, desvia os olhos e dá de ombros. — Não é uma dívida, Vincenzo. Eu fiz porque é certo. Apenas se alegre. É o suficiente. — Os ombros tensos descansam, e ele torna-se choroso de novo. — E se um dia eu precisar, por favor, lembre-se disso.

O dia escurece, e Nora ressente-se com a ausência de Adrian e Dante. Sabe, porém, que o percurso até o banco é longo, e a neve ainda é densa. Ela se tranquiliza ao pensar que todos estarão de volta ao amanhecer. Então, solicita que o jantar e o vinho sejam servidos no quarto quando anoitecer. Ela pretende aproveitar-se da ausência de Adrian para conversar outra vez com Revna. E para preparar-se para a conversa, Nora planeja acender a lareira e aquecer-se. No caminho para o quarto, contudo, encontra-se com Ginevra segurando Cristo Crucificado em porcelana.

— Minha irmã, — Nora chama, debochando. — o que é isso?

Ginevra a avalia. Nora percebe o tremor da mulher e o suor escorrendo pelo rosto, apesar da baixa temperatura.

— Madalena, minha irmã, me diga que é você.

Sem perceber a armadilha, Nora aproxima-se quase se divertindo.

— Ginevra, o que está acontecendo? Será que a febre também te acometeu?

Tudo acontece muito rápido, e Nora se sentirá extremamente tola quando perceber. Ginevra solta o Cristo de porcelana e a ataca com o pequeno punhal. A mulher não tem força, ou intenção, para empalá-la, mas Nora sente que o coração de Madalena é quase atravessado. Ela urra quando a dor a atravessa. Ginevra a segura nos braços, chorando e tremendo. Aos poucos, Nora sente todo o corpo se enrijecer e percebe que a adaga está encantada. Antes de desmaiar, Nora escuta Ginevra murmurar:

— Me perdoe, minha irmã! Me perdoe! — A mulher leva o corpo enrijecido até o chão. — Vou livrar o seu corpo desse demônio imundo. Eu juro que vou.

Notas finais
Tenho obrigação de dizer que as coisas ficarão ainda mais punk depois desse cap. bjss