Tempo da Bruxa
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A dor pungente próximo ao seio esquerdo a desperta. Ainda sonolenta, sem identificar onde está, Nora coça a ferida com a ponta das unhas. As casquinhas de sangue ressecado se soltam com facilidade e abrem a ferida. Ela esfrega a ponta dos dedos na pele e encara o sangue viscoso. Sem se importar com a qualidade e valor dos lençóis finos, Nora os usa para conter o pequeno sangramento enquanto as memórias retornam enevoadas.
A queimação no rosto, que se espalha por todo o corpo, é a reação mais próxima de vergonha e arrependimento que surge. Ela senta-se na cama e observa o quarto. Durante o dia é possível analisar tudo o que compõe o castelo com mais clareza. As cortinas balançam levemente com o vento gelado e também são de tecido fino. As janelas do cômodo são arredondadas. Ela não precisa aproximar-se para verificar o rio que corre a muitos metros; o viu quando chegou, mas principalmente devido ao silêncio sepulcral é capaz de escutar a água correr.
As paredes são brutas, constituídas por blocos de concreto. Há adereços que compõem a sofisticação que o conde gabou-se na noite anterior, como os castiçais de ouro, as cortinas de tecido nobre, assim como o tapete, a bacia de prata, os vasos que foram pintados com fios de ouro. Porém, não há nenhum espelho no ambiente. Nora nem cogita procurar em outros cômodos; ouviu dizer que coisas como o conde não suportam espelhos.
Por isso, ela contenta-se em tocar a ferida. Enevoada, repleta de dúvidas e completamente enganada pelas provocações banais da coisa, Nora permitiu que ele mordesse o seu pescoço em busca de sangue. A coisa lhe mordiscou e beijou a região, arrancando suspiros que agora Nora se envergonha. O sangue foi retirado da mordida feita na região do coração enquanto Nora arranhava a pele pálida e firme do conde. A dor misturou-se ao prazer, e Nora não nega que entregou-se naquele momento.
Ela afunda as mãos no cabelo, desembaraçando-o com os dedos. Rejeitar a noite anterior é tolice. A pele está marcada pelo contato motivado por desejo, raiva e mágoa. A raiva e mágoa surgiram da percepção do que Bryda lhe submeteu desde que nasceu. Ao irmão gêmeo a rejeição foi a melhor coisa que poderia acontecer. Porque junto com a rejeição, Nikita conquistou a liberdade para compor-se da forma que lhe agradava. Nora, mesmo que protegida pelo amor intenso dos pais, estava à mercê dos caprichos de Bryda. O desejo quase sufocante da anciã em lhe tornar uma bruxa concisa a sufocou, a podou e a impediu. De repente, Nora não sabe se tornou-se uma aprendiz tão devota porque é apaixonada pela magia ou porque nunca teve outras oportunidades.
E o que seria, senão bruxa? Muitas mulheres recusam o dom herdado e optam por imitar os seres humanos, contentando-se em se casarem e ter muitos descendentes. A ideia também pouco atraí Nora. Filhos é um desejo moroso. Se houvesse tanta paixão imediata para gerar, Nora não teria interrompido antes. O fez porque não havia a possibilidade de gerar o bebê sem a presença questionável do genitor, e ela nunca se contentaria em cozinhar refeições e colher hortaliças.
Tornar-se bruxa foi a única escolha que restou porque o conde tem razão: não lhe foi apresentado nada da vida. Ela identifica o ouro, a prata e o cobre. Mas pouco entende da delicadeza que compõem a arte. O trabalho moroso para confeccionar tecidos de alta qualidade é óbvio, e Nora não sabe apreciá-los por completo. O mesmo sobre o vinho, sobre a arte, sobre a música. Todas as suas referências são do seu próprio povo, que lhe acompanhará enquanto viver. Mas Nora não existe fora deles.
Até a noite passada Nora nunca pensou que poderia existir de outras formas. O mundo de Bryda lhe foi imposto desde que se entende por gente. Enquanto o irmão e todos os seus amigos se divertiam no rio, Nora era ensinada a diferenciar pedras preciosas que podem ser úteis na prática da magia. Nikita entendia-se enquanto pessoa no mundo, provando e testando, e Nora era testada contra demônios e fantasmas. Não lhe foi permitido nem mesmo saber com profundidade sobre a origem do pai.
Nunca foi dito. A relação distante do genitor com a avó era perceptível, e em algum momento Nora e o irmão perceberam que não tinham contato com ninguém da família do pai e tornou-se fácil supor que o genitor não pertencia ao mesmo povo da mãe. Contudo, nunca foi mencionado que ele, embora sem expressar, carrega o dom da licantropia.
Nora afasta os pensamentos porque percebe que Bryda não foi a única a mentir e esconder. Não suporta tecer mágoa contra os pais, porém. Convence-se que Bryda não permitiu que as raízes paternas fossem abordadas. Afinal, enquanto anciã e referência da comunidade, deve ser complicado ostentar uma filha que se recusou a desenvolver o dom herdado e optou por um forasteiro ao próprio povo.
A porta range ao ser aberta. Nora não sabe o que esperar, porque o Sol está no topo do céu e não pretende ver o conde fora dos aposentos; descansando na terra em que foi enterrado na primeira morte. A aproximação da mulher de meia idade a surpreende mais. A serva traz uma bandeja de prata com o desjejum composto por frutas frescas, pão e algo que se assemelha a mingau. Nora usa o lençol para esconder o corpo por mero reflexo, e a mulher não aparenta se incomodar com a nudez.
— Com licença, milady. — A bandeja de prata é cuidadosamente colocada em cima da cama. Nora observa a bandeja, a mulher e o cômodo. — Imagino que esteja acostumada com um desjejum diferente. Posso preparar o que desejar, milady.
— Eu não… — Nora encara a bandeja. Até então estava convencida que o nosferatu ocupava o castelo sozinho. — Não sou uma lady.
O sorriso da senhora é mais astuto, assim como o olhar. Ela afasta-se meio passo, mantendo a postura erguida. Nora analisa as vestes da mulher; a forma como o cabelo é preso no penteado e os brincos que, embora discretos, são feitos de ouro. A mulher não é uma serva. Nora disfarça a curiosidade escolhendo o que comer primeiro.
— Como deseja ser chamada, então? — A cortesia a surpreende e a envergonha também. Sem nem sair do castelo do conde, Nora lembra-se de como foi tratada e enxergada durante toda a viagem até os Cárpatos; uma serva acompanhando o marido. A errônea associação não é o que lhe perturba, mas a percepção de que fora do seu povo Nora nada é prova facilmente as acusações do vampiro. — O quarto lhe agrada? O sol da manhã é forte aqui. Pergunto porque os seus aposentos devem agradá-la por completo.
Nora pisca, abre e fecha a boca várias vezes. Muitas coisas estão subentendidas na breve conversa.
— Me chame como preferir. Sou Nora. — A apresentação é austera para combinar com o que é. Ela rejeita o desjejum e arrasta-se para fora da cama. — Eu devo…
Ela não tem certeza do que fazer. Percebe que Nikita e Floare esperam por ela, provavelmente ansiosos. A visita ao conde não devia ser tão comprometedora e longa. Ela procura pelas vestes da noite anterior sem sucesso. A mulher a observa, e Nora quase a repreende.
— Não se apresse, senhorita. — A mulher murmura, gentil. — O Conde agora descansa, mas pessoalmente me instruiu sobre os cuidados com a senhorita. Estou aqui para servi-la como desejar. Me alegro, na verdade, em saber que teremos companhia.
Nora segura a cabeça por um momento, absorvendo todas as informações.
— A senhora…? — A pergunta é interrompida pelo riso incrédulo. — A senhora sabe?
O sorriso é sutil e divertido.
— Sobre a natureza do Conde? — A confirmação é discreta, e Nora estreita os olhos. — Não possuo o mesmo dom, se é o que lhe perturba. — Dom. Nora quase ri. — Todavia, acompanho o meu senhor desde os seus primeiros passos.
— Primeiros passos? — Nora ri. — Deuses… Eu estou delirando. — O delírio, porém, permanece no cômodo. Nora a evita por tanto tempo que torna-se constrangedor. — O que você é?
— Tive a honra de servir a ordem dos Drakul por duas gerações. Miklos foi o único menino entre as irmãs. E o último de sua linhagem também. O mantive aquecido e nutrido bem aqui, — Ela refere-se ao peito. — com mais atenção e cuidado do que dediquei aos meus próprios filhos. — O sorriso é largo e orgulhoso. Nora percebe que Miklos é o nome do conde. — Em sua primeira vida, foi um homem forte de mente astuta que dedicou-se a diferentes habilidades, desde a força física à feitiçaria. Com sua força inabalável, trouxe vitória para o seu povo contra os turcos. Em sua segunda e atual vida, exibe poderes de necromancia, além de interferir nos ventos e dominar os lobos, entre outros animais. — O sorriso orgulhoso permanece presente. — Quanto a mim? Não sou como Miklos, é claro. Minha juventude não continua intacta com o passar dos anos. Contudo, há muitas formas de permanecer por mais tempo. Tive a sorte de receber uma parcela desse dom para que possa continuar servindo o meu mestre.
Nora não é capaz de tecer uma resposta diante tantas revelações e detalhes. Floare não lhe disse nada sobre a origem do nosferatu, e Nora nem supôs que era possível ele ter um nome. E mais do que um nome próprio; uma vida cheia de conquistas antes da maldição. A senhora ao perceber o silêncio demorado, prossegue:
— E a senhorita… — A mulher a ronda. — que bela senhorita é. Formidável e alvo da atenção do meu senhor. Portanto, o que posso fazer senão servi-la também? Venha. Vejo que o desjejum pouco lhe agradou. Deixe-me preparar o seu banho. Enquanto conhece melhor o castelo, hei de orientar as servas sobre o seu almoço.
(...)
Nora tenta não encará-lo tanto. O homem senta-se à cabeceira da mesa e divide a atenção entre ela e o livro. Ela nem supõe do que se trata a leitura porque não reconhece o idioma. E mesmo se reconhecesse, não teria curiosidade o suficiente. Nora finge comer e beber para justificar o comportamento distante e ansioso. O conde, por outro lado, mostra-se silencioso, tranquilo e jovial.
A pele antes acinzentada está viscosa e dourada como se o conde passasse todas as manhãs da primavera no sol. Os lábios são avermelhados e arredondados. As maçãs do rosto são altas e coradas. Desde que ele se juntou a ela no jantar, pouco falou. Porém, Nora tem a forte impressão de que os dentes dele são menos desprezíveis do que na primeira noite em que se encontraram.
— Não me diga que a sua inquietação é arrependimento.
Nora percebe que os dedos estão batendo contra a cadeira.
— Não. — A resposta não convence ninguém. Nora a mantém, porém. — Meu nervosismo é apenas constrangimento.
O vampiro marca a página antes de fechar o livro e a observa. A opacidade dos olhos dele diminuiu, e o tom castanho-esverdeado se sobressai. Nora desvia os olhos, balança a cabeça e solta o ar pelo nariz.
— Diga-me o que lhe constrange. — Nora afasta a cadeira da mesa ao mesmo tempo que a serva, uma moça jovem e silenciosa, aproxima-se para retirar a louça da refeição anterior. — Não quero pensar que a sra. Ileana tenha sido uma companhia infeliz. Eu a instruí com bastante cuidado para que fosse o mais cortês possível.
Além da serva que cuida dos talheres, Nora observou muitas outras pessoas que trabalham soturnamente.
— Quem são essas pessoas?
Ele olha ao redor e sorri, disfarçando o deboche.
— Eles são servos. Famílias nobres…
— Não me trate como tola. — Nora rebate. — Porque eu não sou. Sei muito bem o significado de servo. Afinal, o senhor me comparou a um. — Ela para de falar quando se escuta raivosa e agressiva. Nora enche a boca de vinho, balança as mãos e suspira. O vampiro aguarda, debochado e paciente. — Todos eles são…?
— Como eu? — Ele solta o ar pelo nariz como se realmente respirasse. — De forma alguma.
— Eles são como a sra. Ileana?
— Poucos.
— O que…?
— Veja o quão curiosa a senhorita é…
O vampiro afastou-se da feição sombria e esquisita que tinha há semanas. O sangue de Nora o preencheu, o rejuvenesceu e o fortaleceu. A pele pálida se foi, assim como os olhos opacos. O cabelo dourado é cheio, ondulado e maior do que antes. Até mesmo as presas tenebrosas se encolheram, transformando-se em uma dentição comum. A percepção de que coisas como ele podem transitar no mundo sem serem facilmente identificados a enche de pavor pela primeira vez.
— Não é esse o nosso acordo? — Nora encontra coragem para rebater. — Eu lhe dei muito mais do que uma pequena taça de sangue. E veja só, meu senhor, o quão jovial e fresco acordou hoje. Suponho que essa era a sua aparência antes de partir de sua primeira vida. — Ele a acompanha com os olhos ferinos. — Por outro lado, aqui estou eu. Sei tanto quanto ontem. Talvez até menos.
— Que péssimo anfitrião eu sou. Permita-me corrigir o meu erro. — Miklos ajeita-se na cadeira. — Não ouso transmitir a qualquer um o que sou. Para a maioria, como as bruxas, o que carrego é uma maldição. Sou uma ofensa à ordem natural das coisas. — A pausa desperta mais curiosidade em Nora, que vira a cadeira na direção dele. — Não vejo desta forma. A imortalidade não é um castigo. E o sangue é vida. E esse dom só deve ser oferecido a quem realmente merece. E nenhum servo merece. — Ela quase revira os olhos. O desprezo do conde é irritante. — Mas preciso reconhecer e agraciar os servos que mostram-se leais. — Nora franze o cenho. — E um pouco do meu sangue é capaz de curá-los de suas feridas e doenças. Uma taça do meu sangue é o suficiente para estender a breve vida deles sem transformá-los completamente. Eles envelhecem tão lentamente que podem atravessar os séculos.
— E o que é necessário para criar outros vampiros?
Ele exibe um sorriso de canto e também vira a cadeira na direção dela.
— Primeiro, o alvo deve ser sugado até que não reste nenhuma gota do sangue antigo. É um processo desafiador. O alvo deve beber o novo sangue, que lhe dará a segunda vida, antes que morra completamente. — Nora mordisca o lábio inferior. — Agora eu lhe vejo. — O nosferatu murmura. Nora une as sobrancelhas. — Há pouco estava perdida em suas sombras. Imagino que Bryda ressoe dentro de você de forma angustiante. — Ele usa o indicador para apontar a cabeça. — Mas a sua sede é mais implacável que a minha. — Nora se retrai. — A ideia nunca lhe perturbou? Imortalidade. Ter todo o tempo do mundo. Para sempre. A menos que esteja em uma dieta restritiva, não morrerá como a maioria. A doença não lhe alcança, nem mesmo a fraqueza pela qual muitos padecem. O tempo, — Ele gesticula. — torna-se um amuleto que você escolhe usar ou não. Tudo passa, menos você. — Nora desvia os olhos porque sabe que confessará a dúvida que surge em seu peito. — Minha querida, você é tão jovem. E mesmo tendo uma vida longa e plena, não será capaz de conhecer tudo que existe. Como é possível viver sabendo que a cada segundo está mais próxima do fim?
Nora molha os lábios.
— Como você vive? — A angústia é genuína. — Meu senhor, seja bondoso comigo e me presenteie com a sua honestidade absoluta. Como você vive? Eu posso imaginar que os primeiros anos são brilhantes e curiosos. As primeiras décadas também. Mas os primeiros séculos? Quando todos que amam se vão, como você vive?
— Tudo passa, Eleonora. E até mesmo as rochas se desfazem. Imagine o amor.
A resposta arranca o ar dela. Nora levanta-se, indignada. A sala de jantar, contudo, não é grande o suficiente. O nosferatu levanta-se também e a observa por instantes.
— O meu amor não passa.
O sorriso é breve e descrente. Ele recupera-se antes de abordá-la novamente:
— Não sofra com antecedência. A sua vida será longa, e a sua beleza próspera, antes que precise decidir. — O nosferatu aproxima-se, agarrando o queixo dela novamente. As unhas não são extensas como na noite anterior, mas ainda são firmes e afiadas como garras. Nora segura o ar nos pulmões. — Ocupe-se com outros pensamentos. A sua jovialidade é acompanhada de muito desconhecimento. Como é capaz de se decidir se não tem nenhuma outra vivência? Que comparação é viável? — A conversa acontece como na noite anterior. — Ontem a senhorita cumpriu a sua parte no acordo. Mais do que foi solicitado, mas sei que o fez por desejo próprio. — Nora não o contradiz. Observando-o agora, tão próximo do que foi enquanto era vivo, é capaz de entender porque escorregou com tanta facilidade. O pensamento a assusta, mas o conde não a deixa fugir. Ele é, de repente, um convite. Mais do que um convite; é um apetite. O ser não disfarça as intenções ou prepotências. Não se desenha em outras formas. Nora envergonha-se porque identifica o próprio apetite queimar e não se reconhece mais. — Portanto, deixe-me cumprir a minha parte. A sua alma é curiosa, e eu sinto-me honrado por ser capaz de cessar parte desse interesse. Na minha ausência, porém, sinta-se à vontade para explorar. O castelo e os servos estão à sua disposição. Alguns cômodos, é claro, são privados e sei que a senhorita entende. — Nora concorda sem entender bem. — E a cada descoberta, aproveite para pensar no quanto existe lá fora e está fora do seu alcance até então. Peço que aguce a sua curiosidade porque sou capaz de saná-la se a senhorita concordar em me acompanhar. Sou capaz de satisfazer todos os seus mais variados desejos, Eleonora. Até mesmo os que ainda não vê. Fique comigo e me deixe te mostrar tudo.
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