Tempo da Bruxa

25 Cadernos


A porta abobadada não cede aos esforços contínuos de Nora. Ela afasta-se um passo, analisa a porta e suspira. A porta é a única que dá acesso ao pátio, e o pátio por sua vez dá acesso aos portões que separa o exterior da propriedade do conde. Ela lembra-se de como a porta deslizou-se para recebê-la. O conde a esperava a alguns metros, e o breve movimento de dedos foi o suficiente para que a porta se fechasse outra vez. Naquela noite, Nora estava tão ansiosa e preocupada que não deu a devida atenção.

O peso nos ombros é o primeiro sinal de desconforto. Nora afasta-se da porta e analisa as janelas feitas nos blocos de concreto. Além de serem esguias, de forma que apenas um gato miúdo passaria, há grades que impedem qualquer tentativa.

Nora tenta a porta pesada outra vez e decide verificar as janelas do andar de cima. Porém, as janelas que encontra dão vista para o desfiladeiro. Consciente da construção, Nora sabe que há janelas que dão acesso ao rio posicionadas nos cômodos que estão trancados. Ela força as portas até perceber que os cadeados simples não são o maior impedimento. Ao analisar melhor as maçanetas, Nora identifica a energia densa e range os dentes.

O conde lhe alertou que alguns cômodos seriam inacessíveis. A justificativa foi evasiva, e Nora nem cogitou que quase todos os cômodos fossem selados com feitiçaria. A queimação que surgiu no estômago sobe até estourar em sua cabeça. Miklos lhe ofereceu conhecimento pelo seu sangue. Agora ele repousa na terra tão entupido de sangue que é capaz de hibernar, e Nora deve se contentar em observar os criados, que tem um aspecto severo e sempre silencioso, e frequentar a biblioteca.

Miklos tem a provocado há noites, lembrando-a do quão pouco conhece do mundo. As provocações aos poucos se transformaram em convites sutis. Antes, o acordo era de que Nora ofereceria uma taça de sangue a cada primavera. Ela não é capaz de medir o quanto ele tomou na noite em que estiveram juntos, e o seu corpo não está severamente enfraquecido, mas sabe que foi mais do que uma taça. Além disso, na noite anterior, o vampiro sugeriu que Nora o acompanhasse. O tempo não foi estabelecido, e Nora não é tão tola quanto ele supõe e percebe as entrelinhas; Miklos a convida para ficar indeterminadamente. Em troca terá acesso a todo o conhecimento e experiências inenarráveis.

Contudo, Nora não tem liberdade nem para vagar pelo castelo.

— Srta. Wolf! — A sra. Ileana a aborda, unindo as mãos em frente ao corpo. Nora percebe que a mulher está mais vívida que no dia anterior e cerra os dentes. O nosferatu conseguiu sangue o suficiente para partilhar com os seus servos. — O castelo é muito grande e confuso. É esperado que a senhorita erre as portas. Por favor, me permita acompanhá-la até a biblioteca.

Nora não tem interesse real na biblioteca. Obter conhecimento nas páginas é imprendestível e pouquíssimo diferente do que tem feito com Bryda. É técnico, é teórico e pouco palpável. Nora segue a senhora, que não aparenta mais ter tanta experiência de vida, até o cômodo que ocupa quase todo o andar. As prateleiras são incontáveis e repletas por livros com diferentes tipos de encadernações. Ela arqueia as sobrancelhas e aproxima-se, tocando as diferentes lombadas.

Muitos títulos estão dispostos em mais de um idioma. As obras são organizadas por ordem alfabética e depois tamanho. Não há a poeira típica de bibliotecas. As janelas estão abertas e trazem o frescor da primavera. O sol do fim da manhã é ameno, e muitas poltronas estão dispostas pelo cômodo, convidando à leitura.

— O conde sempre foi um leitor ávido. — A sra. Ileana comenta com orgulho, tocando algumas lombadas. — Leu todos os livros que estão aqui.

— Ele com certeza teve tempo.

O comentário é atrevido, e o sorriso da senhora é sutil. Nora percebe que a mulher além de disposta está mais altiva. Os brincos discretos e de ouro foram substituídos por peças maiores. O vestido que no dia anterior era austero e ausente de decotes e detalhes elaborados foi abandonado. A mulher recém refeita optou por uma peça de tecido vermelho nobre com detalhes bordados nas mangas. O decote é valorizado pelo colar longo.

— O tempo torna-se um detalhe, minha querida.

— A senhora também vê assim? — Ela assente. — Não sou capaz de imaginar como é passar toda a existência orbitando alguém. — Nora provoca sutilmente. — Presumo que a relação da senhora com o conde seja intensa. Ele parece te estimar.

— Eu o conheço desde a sua primeira respiração. Aqui, — Ela usa as mãos para tocar os seios. — eu o aninhei. Eu o alimentei como se fosse o meu filho. Nada mais natural que o conde tenha consideração por mim. Fui a mãe dele, já que o destino o roubou muito cedo.

— E agora é tão jovem quanto ele.

— O conde é excessivamente generoso com quem é leal. — Sra. Ileana garante. — Além disso, ele não pode me perder. Sou a única pessoa que o conhece de verdade. Sem mim o que ele seria? Estaria perdido.

— A senhora tem razão.

Nora se esforça para manter a expressão suave. Para isso, finge procurar um título específico entre os livros. A mulher permanece no cômodo, a estudando. Nora a olha também e estreita os olhos. A sra. Ileana enche os pulmões de ar, melhora a postura e usa de sua cordialidade para sugerir:

— Agora, porém, você chegou. — Ileana ajeita o colar no pescoço. — Devo admitir que é diferente das mulheres que costumavam acompanhar o conde.

— É mesmo? Pensei que o conde havia se casado com uma bruxa como eu.

Ileana estala a língua.

— Percebo que Miklos lhe contou bastante. — Nora firma o maxilar. — Mas não tudo. O que posso dizer é que Oltia serviu ao seu propósito. E agora — Ela leva a mão para o peito. — ele tem a mim. — Nora se arrepia quando a possibilidade surge em sua mente. A mulher não se esforça para corrigir a impressão causada. — Não se desgaste pensando no passado, minha querida. A esposa do conde está morta a mais tempo que viveu. — Ileana sorri para amenizar o comentário. Nora arqueia as sobrancelhas. A sugestão é feita com cuidado e advertência: — Aproveite a benfeitoria do conde e explore a biblioteca. Peço, por favor, que não tente entrar em cômodos privados novamente. Há motivos para serem privados. Além disso, não acredito que o conde gostará de saber do seu atrevimento.

A mulher afasta-se, fechando as portas da biblioteca. Por quase cinco minutos, Nora permanece imóvel no centro do cômodo. A percepção da possível relação entre o conde e a mulher que o amamentou a enoja. Ainda pior é perceber que o seu sangue foi utilizado para rejuvenescer a senhora também. A impressão de que estava presa torna-se uma certeza, e Nora demora a se acalmar.

A biblioteca é ainda mais desinteressante. Ela vê e acessa o que eles permitem. De repente, todos os cômodos trancados com feitiçaria são justificáveis. A queimação pouco se dá a primeira percepção de traição; Nora reverbera porque tornou-se uma prisioneira.

A raiva, para muitos, funciona como um gatilho para perder a concentração e percepção da realidade. Para Nora é a motivação mais nobre e forte que existe. Alguns minutos são necessários até que ela possa entender e desfazer a feitiçaria que mantêm tantos cômodos inacessíveis.

Os dois primeiros cômodos não poderiam ser mais casuais. O primeiro claramente é o quarto que a sra. Ileana ocupa. Grande, robusto e bem decorado demais para uma serva, o que confirma ainda mais a suspeita de Nora. Porém, conforme o dia passa, Nora não desperdiça tempo revirando as coisas da mulher.

O segundo cômodo a assombra. Os móveis estão completamente cobertos por lençóis que uma vez foram brancos. A maioria além de amarelado também foi desfeito por traças e outras pragas. Há bolor de mofos nas paredes, e o cheiro entope o nariz dela. De forma rápida, Nora vasculha o quarto até perceber que era os aposentos da Oltia, bruxa que o Conde Drácula foi casado.

Embora cheio de memórias e informações, Nora não tem muito tempo e invade o terceiro cômodo. Antes mesmo de abrir as gavetas, mexer nos cadernos e revirar outros itens ela percebe que é, ou era, o aposento do conde.

O livro da noite anterior está na escrivaninha. Em cima do móvel também estão dispostos muitos cadernos, cartas e outros escritos menores. Nora verifica que boa parte dos cadernos são diários através dos séculos de existência daquela coisa. Há escritos que quase se assemelham a grimórios, descrevendo diferentes feitiços. Ela não é capaz de ler nada porque foram escritos na língua materna dele.

Minutos antes do sol se pôr, Nora encontra um caderno de aspecto diferente. As folhas são amareladas, grossas e marcadas pelo tempo. A caligrafia é delicada, diferente dos escritos anteriores. Nora reconhece o dialeto germânico e assusta-se por ser a mesma língua que usa para conversar com o Conde.

Ela rouba o caderno e apressa-se para selar os cômodos antes que o nosferatu desperte.

(...)

Outra vez o conde está dividindo a atenção entre a convidada e o livro. A tranquilidade anterior, porém, desfez-se. Os ombros estão altivos e tensos, e os lábios levemente repuxados. As mãos apertam o livro com mais força do que o necessário. Nora mexe na comida sem interesse de provar. O caderno roubado está escondido em sua cintura, lembrando-a constantemente da transgressão.

— O seu humor inconstante me perturba.

O nosferatu fecha o livro sem marcar a página. Nora ergue os olhos sem movimentar o rosto, analisando-o.

— Concordo com o senhor. — As palavras não soam com a confiança que Nora gostaria de ter. A verdade é que ela é tão insegura quanto uma criança; a inexperiência não poderia forjá-la de outra forma. O fato do ser sentado à cabeceira da mesa vagar pela Terra por séculos é desconcertante também. E o caderno, é claro. — A minha presença não é a ideal. Meu humor é instável. Por outro lado, devo lembrá-lo que a minha permanência depende exclusivamente do senhor. Posso partir, se assim desejar. — Ele franze o cenho. Nora precisa de uns instantes antes de prosseguir: — Acredito que a sra. Ileana será uma companhia mais adequada.

— Está recusando a minha proposta? — Nora o encara, quieta. A resposta está subentendida e desperta a indignação do conde: — Eu pensei que fosse diferente das suas antecessoras. Mais astuta, talvez. O que causou tamanha reviravolta?

— Eu nunca aceitei.

— De fato. E também não demonstrou recusa. Afinal, ainda está aqui.

A risadinha escapa antes que Nora possa evitar.

— Ora, meu senhor… — Nora debocha. — Percebo que esqueceu-se da porta principal trancada. Um feitiço elaborado, inclusive. Eu teria prazer em ler as suas anotações de feitiçaria, se é que tem.

— A porta… — Ele gesticula. — É uma questão de segurança. Não quero que a minha hóspede se machuque em minha ausência.

— Segurança. — Nora o repete. — É claro que sim. Eu quase me esqueci do quão atencioso o senhor é. Peço que me perdoe pelo meu humor instável. É a primeira vez que sou mantida como um animal: eventualmente alimentada e sempre na corrente.

— Não seja ingrata. — Nora arrasta a cadeira com violência e levanta-se. — Eu estou sendo generoso. Se não fosse a minha bondade…

— A sua bondade?!

— O que mais quer, Eleonora? Eu lhe ofereci o que mais desejava: conhecimento. E desconfio que nem teve interesse em visitar a biblioteca.

— Essa é a sua oferta? — Ela ergue o tom de voz. — Todo o conhecimento será adquirido pelos livros da sua biblioteca? Muito me surpreende o desprezo que o senhor nutre por Bryda. São tão parecidos.

— Não me desrespeite dessa forma. A senhorita é…

— Uma gaiola de ouro ainda é uma gaiola. — Nora o interrompe e aproxima-se das janelas do cômodo. A queda daquela altura é fatal, principalmente porque o chão está repleto de pedras. — Entre todas as características questionáveis que o senhor orgulhosamente sustenta, a hipocrisia é a mais desprezível. — Ele arrasta a cadeira e levanta-se. A aproximação é lenta e pesarosa. Nora não permite que a coisa se aproxime tanto. Não é um animal que pode ser capturado e submetido por meio da força. — O senhor despreza Bryda. Despreza os servos. Despreza o desconhecimento. Despreza o fingimento. E é o melhor em muitas dessas categorias.

A sombra do nosferatu é um ser a parte. É mais rápida e quase segura Nora com a ponta das garras. Ela sente a queimação surgir no estômago, temerosa de como a noite terminará. A morte é a libertação de todos os que sofrem. Portanto, o medo é rapidamente transformado em irreverência sustentada pela posição ridícula que o conde a condenou.

— Minha querida, — Ela o despreza mais do que antes e não disfarça mais. — ao menos me diga o que te amargura desta forma.

Nora desvia os olhos e pondera. Um comentário longo demais apontará para a invasão que cometeu há menos de uma hora. Portanto, ela opta por reclamar de um acontecimento que tem certeza de que se desenrolou fora dos cômodos privados.

— O senhor tem razão sobre o sangue. Pouca quantidade é o necessário para curar as mazelas que a existência nos obriga a enfrentar. — Miklos permanece próximo à lareira, assim como a sombra dele. — Inclusive, que bela senhora a Ileana é. Ela demonstrou muita devoção ao senhor. O senhor devia ter me avisado.

Miklos recua meio passo, mas não cede completamente:

— Do que está falando?

Nora treme antes de testar a teoria:

— Devia ter me dito que a sra. Ileana é mais do que uma serva devota que te viu crescer. É mais do que a ama de leite. — Nora força o sorriso nervoso. — É uma mãe, é claro que sim. E também é uma mulher para o senhor. — Ela o assiste vacilar pela primeira vez. — E o que o senhor ousa chamar de convite, o que o senhor ousa chamar de acordo, nada mais é do que uma prisão. Eu vi, vampiro, eu vejo o que o meu sangue é capaz de fazer com coisas nojentas como você. — Ele cerra as mandíbulas. — E o quão tola o senhor deve ter me achado. Não são tão jovem, mas com certeza estúpida! Muito estúpida! Todos os questionamentos, as sugestões e as propostas disfarçadas de obrigações. Não há nada para mim se eu permanecer. O senhor me transformará em uma serva. Uma serva de sangue. Para você e para a sua mulher.

O nosferatu avança rapidamente, agarrando Nora pelo pescoço. Os pés são suspensos do chão, e Nora segura a mão dele como se pudesse aliviar o aperto. O baque do corpo dela contra a parede percorre todo o castelo. Nora morde o lábio inferior e quase sente as lágrimas escorrerem quando o ar falta. Ela fecha os olhos, inspira e lembra-se dos ensinamentos de Bryda.

A intenção de livrar-se do nosferatu é suficiente para invocar uma queimação severa na mão do ser. Ele assusta-se, geme e a solta. Nora cai no chão e usa os braços para erguer o tronco. Miklos pretende agarrá-la novamente. Nora o afasta com um murmúrio em sua língua materna. Ela ergue-se do chão e ajeita a postura, olhando ao redor. Os avanços do nosferatu são impedidos pelo encantamento sussurrado. O ser, porém, tenta quebrar a película de magia que os afasta com movimentos brutos como o de um animal selvagem. Nora o olha pela primeira vez por completo.

— Foi isso que fez com sua esposa. — Nora comenta. — Oltia. Alimentou-se do sangue mágico dela até matá-la. Aproveitou-se para também entupir a sua vagabunda.

Ele exibe as presas nojentas, rindo.

— É isso que pensa?! — Miklos eleva a voz. — É isso que realmente pensa?! — Ele acalma-se antes de prosseguir. — Admito que você é mais esperta do que presumi. Percebo que não está aqui porque a porta está enfeitiçada. Afinal, você invadiu o meu quarto. — Nora sorri, orgulhosa. — E fez as próprias suposições.

— O senhor realmente pensou que algo como eu se contentaria com uma biblioteca? — Nora debocha. — Meu senhor, coisas maiores que você me deram mais.

A mera lembrança de Revna a enche de uma convicção diferente. Portanto, quando o nosferatu atravessa a película mágica que a protege, Nora o domina sem contato físico. O movimento das mãos o tira do chão. O conde debate-se para escapar da magia. Nora, por outro lado, o retorce com mais ódio, estalando todos os ossos dele. Ele só geme quando os ombros são deslocados devido ao excessivo estiramento.

— Você é uma criança! — Miklos berra. — Não é capaz de me matar! Eu sou imortal!

O conde resiste com muita violência, e Nora concentra-se para não deixá-lo escapar. Sabe que não é capaz de matá-lo, mas ele facilmente a desfará por completo. Incapaz de reagir fisicamente, o conde exige que os ventos abram as janelas. Os ventos obedecem. Nora escuta os uivos distantes surgirem. Ele exibe um sorriso feroz, e Nora o pressiona mais, quebrando outro membro. O vampiro não demonstra nada conforme os ossos são esmagados.

Ela afasta os pensamentos e divide-se entre manter o conde suspenso e estirado, incapaz de reagir fisicamente, e encontrar uma adaga adequada. O corte no pulso jorra muito sangue, o que deixa o vampiro ainda mais violento. Nora sente a cabeça latejar com o esforço feito para mantê-lo. É a primeira vez que confronta algo tão antigo e poderoso.

Com o próprio sangue, Nora desenha as runas no chão para aprisionar o vampiro. Com os últimos esforços, ela arrasta Miklos para dentro do círculo mágico. Ele resiste conforme os uivos dos lobos aumentam. Nora direciona parte da magia para fechar as janelas e portas. O vampiro agita-se dentro do círculo, tentando encontrar alguma brecha para fugir. Nora prestou atenção quando a sra. Ileana elogiou a mente astuta do monstro. Por isso, desdobra-se mais do que sente que é capaz para fortalecer o círculo. Ela sente a cabeça girar e o nariz arder devido ao sangramento.

— Acha que vai me prender aqui? — Ele urra. — Por quanto tempo?! — Ele projeta energia contra o círculo, quase o desfazendo. Por um momento, ele para de se debater e a encara. — Olhe para você. Eu fui tolo, de fato. Pensei que era uma criança. Pensei que poderia dobrá-la conforme as minhas vontades. Pensei que seria o seu mestre.

— Eu não tenho mestre. — Nora resmunga. — E se tivesse, não seria você.

Ele ri, rouco.

— Ainda assim, deitou-se comigo.

Nora sorri de canto.

— Não pense que foi paixão. Eu sou um apetite. Nada mais.

Ela não pretendia executar a magia à noite. Por isso, não está com o rascunho que foi escrito com folhas de cedro e sangue. As palavras, contudo, se gravaram na mente dela como ferro quente. Por isso, enquanto investe magia no círculo mágico, Nora provoca mais sangramento no pulso para usar o líquido vermelho como tinta. Aos poucos, as runas são desenhadas ao redor do círculo mágico. O vampiro resmunga, crítica e questiona. Nora pouca atenção lhe devota. Os uivos dos lobos estão mais próximos, e Nora sorri quando percebe:

— Esqueceu-se de abrir as portas.

Mesmo que o vampiro tente, o círculo mágico não permite que ele lance feitiços. Os lobos rosnam e se agitam no pátio do castelo. Os socos na porta assustam Nora, mas a voz estridente da sra. Ileana a reconforta. A mulher ameaça dar o corpo de Nora para os lobos.

— O que é isso?

Ele está ajoelhado, tentando decifrar as runas antigas.

— Não pertence a você.

Nora afasta-se meio passo para alcançar algumas velas. Inicialmente ela pensou em solicitar ajuda dos espíritos que acompanham o seu povo. Porém, não preparou o ambiente adequadamente para invocá-los. Antes de murmurar as runas mais antigas que o próprio povo, Nora pede discernimento e força para Revna em uma reza breve.

Conforme vocaliza cada runa, Nora entende o significado. É incapaz de explicar, é como se fosse um sistema mágico que só existe para ela. Ela afasta os pensamentos e concentra-se na execução do encantamento.

O vampiro é indiferente nos primeiros instantes, e Nora quase desiste porque o círculo mágico e o encantamento demandam muita energia. Ela nunca conduziu um ritual tão denso sozinha. E o Miklos é uma resistência constante, investindo a energia que lhe resta para romper o círculo mágico.

Nora olha para o teto, enche os pulmões de ar e invoca o encantamento com força. Na terceira repetição, as runas desenhadas com sangue se incendeiam e iluminam a sala. O nosferatu resmunga, se debate e parece gemer. Nora fecha os olhos e concentra-se em repetir o encantamento decorado com ainda mais ênfase. Aos poucos, a magia queima e ocupa todo o seu corpo, fortalecendo-a.

Miklos está de joelhos quando a tosse surge. Ele tosse, tosse e tosse. Nora mantém os olhos fechados enquanto invoca as runas até que a tosse se transforme em escarro sangrento. O escarro transforma-se em vômito vermelho. Conforme o sangue mágico, que sustenta o vampiro, é puxado para fora do corpo, Miklos padece.

A pele dourada volta a ser acinzentada. Os olhos tornam-se oblíquos novamente. A pele resseca e apodrece, e o mau-cheiro enche o cômodo. Do lado de fora, a sra. Ileana também agoniza. O nosferatu finca as garras no chão, tentando resistir à magia. Nora, porém, insiste até que todo o sangue seja retirado do ser.

Ele despenca no chão, decrépito e enfraquecido. Vivo também.

As runas ainda queimam quando Nora condena o nosferatu a viver preso dentro do próprio castelo. Para concretizar a maldição, Nora desenha as runas que aprisionam o ser na pele cadavérica dele com o próprio sangue. As runas ardem e marcam a pele, e ele urra.

— Todo dia antes do galo cantar, deve retornar para a terra que recebeu o seu corpo na primeira morte. — Nora relembra a tradição. — Do contrário, padecerá quando o sol raiar. — Ela sorri e ordena: — Se arraste para o seu caixão.

O círculo mágico se desfaz. Embora enfraquecido e ressecado, o nosferatu é capaz de reagir violentamente. Todavia, os primeiros raios de sol surgem no horizonte. Ele urra como um animal raivoso e arrasta-se em direção às janelas, descendo o castelo pelo exterior como um lagarto na parede. Nora o assiste se arrastar de volta para a cripta que guarda o caixão.

Ela queima o sangue que foi retirado do nosferatu para impedir que ele volte a se alimentar. Do lado de fora da sala de jantar, a sra. Ileana está esperando. É incapaz de reagir porque está mais envelhecida do que era quando Nora a viu pela primeira vez.

A porta que dá acesso ao pátio está aberta. Os lobos se foram. Nora observa o contraste do castelo de paredes escuras contra o raiar do novo dia e suspira. As pernas tremem, e ela acha que desmaiará em breve. Ainda assim, lembra-se de que o ritual não está completo. Com a faca roubada do conde, Nora sangra novamente para desenhar as runas nas paredes dos pátios, até no portão que dá acesso ao exterior. Desta vez, ela liga as runas ao astro rei de forma que a magia será alimentada todo dia que o sol nascer.

Fora do castelo, ela sorri e define:

— Assim será até que o seu amor volte dos mortos!

A ironia a diverte porque não há amor para coisas como o vampiro. Portanto, a prisão será eterna enquanto o sol durar. E o dia que o sol se for, todos estarão mortos também. Se assim for, o conde poderá concluir o seu maior desejo e reinar sob os cadáveres.

Notas finais
Eu fui demitida! E espero terminar essa história antes do meu seguro acabar! Enfim, aqui concluo o arco do nosferatu. Estou orgulhosa disso porque primeiro acho que constrói a Nora de 1545 em muitas formas. Depois porque consegui desenvolver exatamente como queria! Terceiro, haverá mais flashbacks porque preciso construir a personagem em mais direções. O próximo capítulo será voltado para encerrar completamente o arco de 1188 e totalmente necessário para entendermos como a Nora se tornou um ser imortal. Spoiler: conheceremos uma deusa! Estou ansiosa para isso rs. Enfim, espero que gostem!