Tempo da Bruxa

8 Princípios


Esse corpo não é seu.

A frase é repetida diversas vezes. Nora ampara Sylvia da forma que é capaz, usando retalhos de algodão para limpar o rosto delicado da feiticeira. Há muito sangue e agora lágrimas. Sylvia está abraçada no próprio corpo, balançando-o para frente e para trás sem um momento de pausa. Nora esfrega as costas dela quando termina de limpar o rosto. Depois, Nora joga os retalhos de algodão na lareira, aumentando o fogo brevemente enquanto queima as evidências do que aconteceu.

Há um peso nas costas dela. O peso pouco se deve a situação de Sylvia. Embora a presença da entidade tenha sido intensa, e Nora nem pode supor, nada grave realmente aconteceu. A entidade, inclusive, encontrou mais diversão em tomar outras formas. A revelação que Sylvia reluta em lhe dar também não a incomoda tanto. Há ansiedade para entender, é claro. Contudo, enquanto assiste o fogo consumir o tecido, Nora preocupa-se com as pendências que teceu com a entidade.

Essas pendências não eram as suas prioridades. Na verdade, Eleonora pensou que após recusar o presente dos deuses, a entidade também a desprezaria. Não acha que a entidade lhe dedique nenhum sentimento agradável. Entre eles não há nada senão os encontros ocasionais e indiferentes que a longa existência de Nora lhe permitiu ter.

E as pendências.

Dívidas, como ele debochou.

Nora reluta em admitir que ficou confortável demais. Esqueceu-se do que acumulou durante a sua passagem na Terra; esqueceu-se de quem era e o que fez a tantos; coisas boas e ruins. Todos os altos e baixos. Nada daquilo importou em seus últimos anos de existência. Até mesmo a magia, que costumava se orgulhar, ficou de lado. A prioridade de Nora, apesar das provocações da entidade, nunca foi Adrian. Dante, sim.

E ela entende a mãe agora, que optou pelo filho à magia.

— …? — Nora não percebe que Sylvia requisita a sua atenção. — …?! — Ela inspira e vira-se para a feiticeira, pronta para questioná-la. Sylvia está de pé, enrolada na coberta de pelos. Os olhos estão bem abertos e há rugas por todo o rosto dela. Nora demora uns instantes para perceber que Sylvia estava falando há um tempo considerável. — Ao menos está me ouvindo?!

— Desconfio que até os mortos estão te ouvindo, Sylvia. — Nora limpa as mãos em outro pedaço de tecido. — Sente-se melhor agora?

Sylvia gesticula definitivamente melhor.

— Se estou melhor? — A feiticeira debocha. — Considerando que quase morri…

Nora estreita os olhos.

— Pensei que esse fosse o seu desejo.

— Não seja cínica. A situação não lhe permite. — Sylvia arruma a postura, erguendo o queixo fino. Nora mordisca a língua. — Não me disse o que aconteceria. Não me disse que isso viria por mim.

— Eu não sabia. — Nora é honesta. — Também não esperei por isso. Não esperei que fosse ele a atender. — Ela balança a cabeça. — Não mesmo. Eu esperava por algum ancião ansioso para ajudar. Uma mentora irritada... Esperava por uma presença mais agradável.

Sylvia arqueia a sobrancelha.

— Ele? Quem é ele?

— Ou ela. — Nora dá de ombros. — Não tenho certeza se entidades se prendem a conceitos tão tolos quanto gênero. Talvez sim, talvez não. — Ela franze o cenho. — Nunca perguntei, honestamente.

Sylvia mantém os olhos arregalados. Aos poucos, o rosto ganha a cor normal. Então, torna-se vermelho muito rápido. Nora percebe que está divagando demais.

— Eleonora! — Sylvia esbraveja, andando pela choupana. — Preciso admitir: ainda que a minha existência seja maior do que o esperado, ainda não aprendi o suficiente. Inclusive sobre você. Talvez eu saiba, mas ainda me recuso a acreditar. Eu me recuso a acreditar porque ainda estou surpresa que me usou outra vez. Como uma ferramenta.

Nora revira os olhos.

— Essa visita nunca foi por saudosismo. Você sabe que vim porque precisava da sua ajuda. Você disse, inclusive, que foi alertada quanto a isso. — Sylvia revira os olhos e desvia o olhar. — Agora quanto a presença, estou sendo honesta quando digo que também não esperava por uma entidade.

Sylvia esfrega os braços, aproxima-se da lareira e encara o fogo. Nora afasta-se.

— Quem ela é?

Nora solta o ar pelo nariz.

— Isso importa?

— Eu senti, Eleonora. Eu senti tudo. — Sylvia gesticula e bate os dedos da mão direita no braço esquerdo. — Escorrendo dentro de mim, espreitando através de mim. Eu senti quando chegou e percebi quando perdi o controle da minha própria boca. Todo o meu ser foi preenchido por… — Ela aperta os olhos. — E de repente… Não havia nada. Não houve repouso, nem mesmo dor. Não houve desespero, nem alegria. Eu… — Nora a olha interessada. Sylvia seca as lágrimas. — Eu desapareci dentro da escuridão. E eu senti a minha alma… — Ela toca o peito. — ser desfeita e virar fumaça até desaparecer. E depois… Não houve nada.

Nora suspira alto e senta-se no banquinho. Não sabe como explicar o que aquilo é. Nora sabe de muitas coisas, mas não de tudo.

— Não sei completamente o que essa entidade é. — Nora fala baixinho. — Não acho que tenha um único nome como os outros deuses, nem mesmo um início. Eu… — Nora encara a lareira. — Minhas antepassadas nunca falaram muito sobre porque não era uma coisa com a qual precisávamos nos preocupar. Eu ouvi algumas coisas, sim. — Sylvia a encara com atenção. — Não o suficiente. Minha avó me dizia que o mundo não começou com a vida. A vida aconteceu em algum momento, desafiando o que ocupava não apenas o mundo, mas tudo. O vazio. A escuridão. A não existência. É o que ele é. Existe antes de nós. — Nora sorri com a lembrança. Sylvia a questiona. — Minha avó contava para as crianças, em noite de lua cheia… Ela dizia que isso, a escuridão, e algo como a própria vida nasceram juntos. E se pertenciam como companheiros, como a Lua e o Sol. Porém, a vida não estava satisfeita com o vazio. Não havia nada, nem tristeza, nem alegria. A vida, então, criou tudo o que conhecemos. Mas a escuridão se encheu de inveja e amaldiçoou a criação da sua companheira. A escuridão jurou buscar tudo o que a vida criar. Ela disse: “Não importa o quanto vivam. Todos pertencem a mim no final”.

— Como… — Sylvia testa as palavras. — Como a própria morte.

Nora sorri.

— É uma história para crianças, Sylvia. É uma forma de explicar às crianças que tudo morre. — Nora levanta-se. — O que veio hoje é uma entidade. E somos insignificantes para ele.

— E mesmo assim, veio até você. — Sylvia debocha. — Ou não somos tão insignificantes ou você é realmente especial.

— Não seja tola. — Nora repreende. — Desde quando ter uma dívida é ser especial? Sou apenas uma alma que pertence à escuridão, assim como muitas outras. Muitas pessoas por aí trocam a alma por desejos tolos. Comigo não foi diferente. — Sylvia abre a boca, prestes a enchê-la de pergunta. Nora nunca disse a ninguém sobre aquilo. Ela viveu por certo tempo pensando que a presença não passava de uma alucinação ou até mesmo uma brincadeira de mal gosto dos deuses. — Chega dessas conversas tolas. São histórias para crianças! — Nora coloca mais lenha na lareira, temendo a escuridão. — Agora, diga-me. Diga-me o que a entidade lhe disse. E não minta, Sylvia.

Sylvia parece se lembrar do motivo da visita de Nora. A expressão de curiosidade se desfaz, e a severidade ocupa o rosto dela. Ela move-se outra vez, inquieta. São minutos até que pare de andar em círculos e balançar a cabeça. Nora espera.

— Esse corpo não é seu. — Sylvia murmura. — E deve deixá-lo o quanto antes.

Nora franze o cenho.

— É tudo o que ele te disse?

Sylvia desvia os olhos.

— Você sabe que isso é errado. Os mortos não deviam voltar. Ao menos, não assim.

— Eu não escolhi voltar. Muito menos voltar no corpo de Madalena! — Nora resmunga. — Acha que estou me divertindo?!

A pergunta não é endereçada à Sylvia. Nora não sente a entidade, assim como não o sentiu em todos os anos que viveu. E pensou que estava segura e distante o suficiente. Percebe a idiotice e enche-se de raiva.

— A entidade não me disse porque você voltou. Só me disse que o problema é o corpo. — Sylvia enrola-se na coberta outra vez, sentando-se no banquinho próximo a lareira. Nora sabe que ela precisará de alguns dias para recuperar-se totalmente. — O corpo e a sua alma. O corpo é de um ser humano comum. A sua alma é pesada demais para o corpo. Há muita energia na alma. Muita magia. E o corpo não suporta.

— Faz sentido. Eu imaginei que o corpo de Madalena não suportaria. Ainda assim… — Nora balança a cabeça. — Eu me sinto tão mal o tempo todo que nem sou capaz de diferenciar tudo o que acontece. Mas eu… — Nora segura a cabeça de Madalena, virando as costas para Sylvia. — Me sinto exausta o tempo todo. Não acho que minha alma seja tão pesada assim…

É um comentário despretensioso para amenizar as emoções. Sylvia não se diverte, e Nora não espera que ela o faça. Mas Sylvia nem mesmo a repreende, o que é típico. A feiticeira morde o lábio e encolhe os ombros. Ela observa os dedos como se todo o segredo do universo estivesse nas cutículas cutucadas. Nora estreita os olhos.

— Sylvia, eu quero a verdade.

Sylvia nega.

— Essa é a verdade.

— Não toda. — Nora aproxima-se enquanto Sylvia se encolhe. — Eu te conheço há muito tempo para perceber. O que há? Conte-me!

— Eleonora, por favor… — Sylvia implora. E ela é orgulhosa demais para isso. Nora sente o coração disparar. — Prometa-me que vai deixar esse corpo. Isso não te pertence. Isso é maior que você. É quase… sagrado. E você já…

Nora agarra os ombros de Sylvia e a sacode.

— Diga-me!

Sylvia solta-se e anda pelo espaço.

— Madalena… — Sylvia demora-se na construção da frase. E Nora está prestes a sacudi-la de novo. — Você não está sozinha nesse corpo. — Nora ri. Ela ri até desconfiar do que Sylvia sugere. — Madalena está carregando um bebê. E o bebê é como o pai. — Nora sente as pernas do corpo tremer. — E gestações como essa demandam muito da mãe. Muitas mulheres, mulheres comuns, não sobrevivem porque o bebê consome tudo.

Nora senta-se.

— Madalena está grávida. — Ela repete a notícia, acostumando-se. — E o bebê é um licantropo também. — E pende a cabeça para trás. — E eu sou como uma fonte de energia infinita. — Nora toca a barriga de Madalena e não sente nada, diferente de quando estava gerando Selena. Ela a sentiu desde o começo; sentiu inclusive a magia da filha pulsando. Ela esfrega o rosto, incrédula. Aos poucos percebe tudo. A relação de Adrian e Madalena não se limitava a um casamento arranjado para ambas as famílias. Eles viviam como um casal. — Deuses, isso está me sugando.

— Isso? — Sylvia ri, incrédula. — É um bebê. Um bebê sendo gerado pela mãe, como deve ser.

Nora morde os nós dos dedos.

— É por isso que estou me desfazendo. Ele está me sugando… — Ela levanta-se em um rompante, andando em círculos como Sylvia. Sylvia, porém, permanece parada próxima a lareira. — Não devia ser possível. É até mesmo perigoso.

— Sim, é perigoso. É um desequilíbrio.

— Exato. — Nora concorda. — Não pode continuar. — Sylvia vibra ao mesmo tempo que Nora pede: — Preciso resolver isso. O que deve ser feito?

— Você deve sair do corpo. Não é óbvio?! — Nora não demonstra nada. — Eleonora! — Sylvia repreende. — Você… — Ela gesticula. — Esse corpo não é seu! São duas vidas. Duas! Duas vidas! O que você… — Nora permanece quieta. Não há nenhum orgulho na situação. E nenhum arrependimento também. — Não. — Sylvia afasta-se. — Não! Eu não vou…

— Não seria a primeira vez.

— Não!

— Não seja hipócrita. — Ela repreende. — É por isso que você é conhecida. Você é procurada por várias mulheres para resolver imprevistos como esse.

— É diferente! — Sylvia grita. — É diferente! As mulheres que me procuram estão em seus próprios corpos! Elas têm direito de escolher se querem ou não gerar o bebê! É o corpo delas! Você não está no seu corpo! Não seja idiota! Não seja… — Sylvia para de falar e nega, esfregando o rosto. — Você não é tola. Você sabe muito bem de tudo o que falo. Você nem sequer considerou. Nem sequer considerou! Como pode ser tão egoísta? Como?!

Nora nega com a cabeça. Ela abre e fecha a boca várias vezes. Não procura por justificativas. Não há nenhuma.

— Eu não posso ir agora, Sylvia. Você sabe disso. Não posso.

— Eu sei?! Não, eu não sei! — Ela esbraveja, severa. — Você pode e deve ir agora! Você morreu! Morreu! — Ela aumenta ainda mais o tom de voz. — Aceite o seu destino! Independente do que Madalena seja, nada justifica! É o corpo dela! O filho dela!

— E é o meu filho! — Nora esbraveja também. — É o meu filho também! — Ela treme. — E ele precisa de mim. Sylvia, eu aceito partir. Você tem razão. Esse corpo não é meu. E eu não tenho direito sobre ele. Não pense que a minha decisão é tomada por puro prazer. Não é! Mas é o meu filho! Ele precisa de mim por inteira! E eu não vou sacrificá-lo, não vou machucá-lo, nem abandoná-lo, por uma coisa que nem é tocável! Esse bebê… — Nora debocha. — Esse bebê não duraria muito sem a minha alma nesse corpo, sustentando-o com magia!

— Você não sabe disso! Simplesmente não sabe.

— Não, eu não sei. E eu não me importo. Não vou escolher entre uma coisa que nem existe e o meu filho, que está sofrendo de verdade!

Sylvia ri.

— Essa coisa que você acha que não existe está, bem agora, se desenvolvendo dentro do corpo da mãe! Como pode ser tão cruel?

— Esse bebê não nasceu. Ele não sofre, nem se alegra. Ele não tem percepção da própria existência. Portanto, a inexistência também será insignificante. Por outro lado, Sylvia, o Dante existe! Ele é um garoto lindo! — Nora sente os olhos arderem. — Ele é criativo, inteligente e muito gentil! — A voz embarga. — Ele ri, ele chora e ele sente! Porque ele está aqui. Como a dor de um bebê que mal existe é mais importante que a dor de uma criança que está entre nós?!

— Dante não é uma criança! — Sylvia esbraveja. — E também não é o seu filho. — Ela aproxima-se de Nora. — O que pretende fazer? — Sylvia estreita os olhos. — O que está acontecendo com Dante para deixá-la tão aflita?

Nora afasta-se, negando com a cabeça.

— Ele é o meu filho.

— Não, ele não é. Ele é filho do Adrian, assim como esse… — Sylvia para de falar, percebendo. Ela sorri e nega. — É pior do que pensei. Dante, assim como esse bebê, é como o pai. E está prestes a descobrir a sua verdadeira natureza. Talvez já até saiba. E você está prestes a alterar isso também. É por isso que precisa desse corpo. É por isso que veio.

Nora repete-se:

— Dante é o meu filho.

— Você não se cansa, Eleonora?! — Sylvia rebate, severa. — Você não aprende com os seus erros? Você não sente vergonha?! — Sylvia balança a cabeça. — Não, é claro que não! Nada disso! Você se orgulha! Você se orgulha de desrespeitar tudo o que existe. Você é como uma erva-daninha!

— Ele é o meu filho! — Nora grita. — O que quer que eu faça? Quer que eu me sente, enquanto minha alma é sugada por essa aberração, e veja ele sofrendo enquanto passa por tudo sozinho?! Sozinho!

— É a natureza dele! Dante nasceu licantropo, assim como o pai. Devia se orgulhar de quem é! E não tentar alterar a própria natureza! Isso não é certo. Você não recebeu o seu dom para isso! — Sylvia encurrala Nora contra a estante. — Você é uma bruxa. A sua ancestralidade é tão forte quanto a dos deuses! Você foi escolhida! Abençoada pelos deuses pessoalmente! E o que você fez com tudo isso? — Sylvia aproxima-se mais. — Todas as bênçãos. Todo o potencial. Você usa tudo isso para desrespeitar a ordem natural das coisas. Primeiro, rebelou-se contra os deuses. Depois, juntou-se a um licantropo que recusa a própria natureza. Até então é uma narrativa até que esperada. Mas não contente, você alterou a própria natureza para evitar que Adrian seja o que é! Você adulterou a própria existência! A própria realidade para poupá-lo!

— Porque eu o amo! — Nora empurra Sylvia e limpa as lágrimas. Ela se recompõe. — E porque não é uma bênção se você está sofrendo. E tudo o que essa natureza deu ao Adrian foi sofrimento! A cada lua-cheia, a cada transmutação, a cada tragédia! Adrian nunca se conectou com a sua origem. Isso foi tirado dele, Sylvia! Não por escolha. Ele foi impedido de conhecer a família e aprender sobre quem é e quem deveria ser enquanto uma criatura sobrenatural! E esse dom se transformou em uma maldição! Ou era isso ou ele morreria!

— Então que morresse! — Sylvia grita enquanto gesticula. — Se ele não conseguia lidar com o próprio dom ao ponto de morrer, então que morresse! O mesmo para o Dante! Nada justifica, Eleonora, você ir contra os princípios da natureza! Nenhuma situação! E para quê? Você morreu, e Adrian encontrou outra mulher! É isso que chama de amor? Esse é o seu amor? — Nora sente o corpo tremer. — E agora condenará o garoto também! — Nora fecha os olhos, tentando respirar. — E não só o garoto, como a Madalena e o bebê! E para quê? Para quê?! — A cabeça de Nora lateja. Ao mesmo tempo, as janelas se abrem novamente com o vento rígido que vem da floresta. — Você é ridícula. E não merece o que lhe foi dado. Honestamente? — Sylvia encara Nora. — Está mais do que na hora de você e todas as outras bruxas morrerem. Vocês desrespeitam a criação! Vocês se sentem superiores a todos nós! Vocês acham que podem alterar até a realidade conforme os próprios desejos! Não tem domínio próprio. Não há reverência aos deuses, nem mesmo respeito aos outros! São nojentas, vis e cruéis! A sua raça é a verdadeira aberração! — Sylvia define. — E eu não vejo a hora de acabar! Todas vocês, sem exceção.

O vento forte apaga todas as velas da choupana, inclusive a lareira. Nora não sente mais o corpo frágil de Madalena. E por uns instantes, ela pensa que está morta de novo. Quando abre os olhos e enxerga o vulto de Sylvia, iluminada pela lua, Nora entende que ainda está viva.

— Você não entende. — A voz é densa, diferente da voz da Madalena. — E nunca entenderá. Todas essas ofensas… Todas as palavras perversas que escapam da sua boca, vindas do coração… São um lamento, uma dor e um luto nunca superado. A minha existência, assim como a existência de minhas irmãs, ofende você e a meia dúzia de aberrações que se esgueiram pelo mundo. — Nora anda pelo ambiente, alcançando alguns livros na estante. — Vocês se ofendem porque percebem o lugar que ocupam no mundo. A existência de vocês é uma ofensa maior que as minhas escolhas. Eu posso até mesmo me orgulhar dos feiticeiros que conseguem manter o sangue quente observando os estudos. Mas de feiticeiras? — A risada de Nora parece ecoar por toda a choupana e se estender pela floresta. — São mulheres incapazes de executar a única coisa pela qual foram criadas! São coisas que se rastejam pelo mundo sem aceitarem que são tão insignificantes quanto os humanos. — De repente, a lareira se acende. Porém, o fogo é mais alto e mais selvagem do que antes, ao ponto de algumas brasas caírem no chão. — Você nunca será uma bruxa, Sylvia. E desejar que a minha raça seja eliminada não muda isso, mas piora as coisas para você.

As velas se acendem também. A chama é mais alta do que deveria. Sylvia recua quando percebe o que está acontecendo. Nora, por outro lado, escolhe com tranquilidade os livros que julga necessários.

— Pare com isso. — Sylvia alerta. — Você veio até mim.

— E você aproveitou-se da minha fragilidade para me desrespeitar. E não só me desrespeitar, como a minha família e o que eu sou. Tudo por quê? Mágoa? — Nora inclina a cabeça. — Ainda está magoada? Você tem razão sobre uma coisa…

As brasas queimam o chão de madeira. As chamas se espalham.

— Apague o fogo, Eleonora!

Nora alcança a adaga que encantou há anos, guardando-a também.

— Eu realmente me orgulho. — A casa de pedra e madeira é altamente inflamável. Sylvia pretende fugir, mas está petrificada no local. Nora percebe a aflição no rosto dela e não pretende deixá-la escapar. Não desta vez. — Você terá o que me pediu desta vez, Sylvia. Você terá o que lhe esperava naquela noite. — Sylvia arregala os olhos e resmunga coisas que Nora nem se dá ao trabalho de ouvir. Ela concentra-se em alcançar o casaco quente, os livros e a adega. — E eu devia ter te deixado morrer. Esse era o seu destino. Mas eu não percebi. Não percebi o que você era. Estava cega, por medo ou por amor. Não importa mais.

— Me deixe ir. — Sylvia implora. As lágrimas escorrem pelo rosto enquanto as chamas crescem e consomem a choupana. — Eleonora, por favor. Me deixe ir. Eu estava errada. Eu… — Sylvia cai de joelhos. — Por favor. Eu fui tola. Eu estou tão magoada. — Nora se afasta. — Nora! Por favor! Não me deixe aqui! — Sylvia berra. — Não me deixe aqui!

Nora para de andar e observa Sylvia no centro da choupana. Ela está presa na armadilha mais antiga de todas; runas desenhadas no chão. Nora sentiu-se extremamente exagerada quando as desenhou com o próprio sangue enquanto Sylvia estava absorta. Contudo, a crítica da entidade foi recebida com atenção. Tornou-se desleixada. Por isso morreu.

— Ele é o meu filho, Sylvia. — Nora murmura. — Talvez você nunca entenda. Eu vaguei por aí por muito tempo. Ocupei muitas casas e fui muitas coisas para várias pessoas. Mas Dante se tornou o meu lar. Eu tenho certeza que voltei para ele. Ainda não sei como, nem porquê. Mas o amor dele me trouxe de volta. E eu não vou deixá-lo sozinho. Não quando ele mais precisa de mim. — O crepitar da cabana é angustiante. Sylvia chora compulsivamente. Nora a olha a última vez. — Bom… — Ela sorri, irônica. — Uma bruxa sairia desta situação, mas dada a sua natureza insignificante… — O sorriso é triste agora. — Adeus, Sylvia.

Nora escuta os berros de Sylvia por muitos minutos enquanto caminha para fora da floresta. A luz da lua quase cheia ilumina o seu caminho. Desta vez, a floresta não parece tão intransponível quanto antes. Nora seca o que escorre dos olhos com o casaco; uma mistura de lágrimas salgadas e sangue. O sangue também escapa do nariz, definindo o intenso esforço que fez. Por um minuto, ela para de andar e considera buscar Sylvia. O pensamento dura pouco; dura apenas o suficiente para lembrar-se de tudo que Sylvia lhe disse naquela noite. Além disso, Sylvia sabe muito bem como salvar-se. E está na hora de decidir se realmente foi amaldiçoada ou se deseja viver.

O cavalo completamente negro a espera fora da floresta. Nora não precisa avaliar para saber o que, ou quem, deixou a montaria pronta. Ela sobe no cavalo, tremendo, e parte. O cavalo é forte e rápido, correndo para longe. Nora olha para trás e vê a fumaça subir do meio da floresta; a localização exata da choupana. Enquanto a paisagem muda, Nora escuta o farfalhar da noite: “estou surpreso. E orgulhoso”. Nora revira os olhos e resmunga: “Vá embora, Revna”. A noite ri. “Revna, Revna, Revna”. O som ecoa por toda noite, e Nora teme que todo o mundo o escute. “Quanto tempo não ouço isso, Eleonora”. Outra risada e outro lembrete: “Mais uma dívida. Não se preocupe, querida. Você tem a eternidade. E eu também”.