Tempo da Bruxa
39 Mar Mediterrâneo
O mar mediterrâneo o convenceu. O cheiro salgado que permeia todos os cantos da cidade; a brisa áspera que corre de dia e refresca às noites; a beleza ensolarada; as diversas atividades e até mesmo a variedade de peixes. Todas essas características, com ênfase no mar, o convenceram que o período de Selena sob os cuidados de Ginevra, na propriedade Conti, seria útil e bem aproveitado. Ainda mais que a propriedade Conti está localizada na colina mais alta e permite uma vista inebriante de toda a cidade e do mar que parece infinito. Adrian visitou o local algumas vezes, e sempre adorou abrir as janelas do quarto quando acordava para sentir a brisa salgada.
Pensou que Selena também aprenderia a gostar. Talvez o sol, o mar e até os peixes curariam a ausência da mãe. Talvez as primas emprestadas seriam uma companhia mais agradável e útil que Dante; talvez Ginevra soubesse cuidar de crianças melhor do que ele e até mesmo Madalena. E conforme crescesse, Selena teria a oportunidade de conhecer mais pessoas, quem sabe até mesmo interesses românticos. Coisas que Adrian, com o pouco jeito que tem para obrigações sociais, não poderia ofertar.
O litoral do mar mediterrâneo era a esperança e perspectiva de uma existência distante das esquisitices da família. Talvez, no final, tenha sido covarde. Tentou evitar que Selena tivesse contato com o sobrenatural, tentou criar uma vida em que Selena fosse apenas uma criança e, posteriormente, uma jovem dama comum. O desejo, percebe, não era dela. A decisão foi tomada para poupá-la da natureza que carregava; era o que Adrian gostaria que tivessem feito por ele quando criança.
E agora Selena está morta.
— Pretende chegar pela porta da frente? — Vincenzo sussurra. — Você tem o direito.
Adrian analisa os muros, os guardas e os portões que separam a propriedade Conti do resto do mundo.
— Sim, eu tenho. — Adrian responde sussurrando também. — Mas o que eu falaria se fizesse?
— A verdade. Você pode dizer que veio buscar a filha.
Adrian concorda.
— Sou incapaz de vê-los sem derramar sangue. E o momento não é adequado. Além disso, não tenho certeza se Ginevra ou até mesmo o marido estão na propriedade. — Vincenzo concorda com a cabeça. Adrian o examina por um segundo. Os olhos estão cercados por bolsas roxas e cansaço. Ele se esforça para se manter em cima da montaria, mas não suporta manter o corpo ereto por tanto tempo. Vincenzo fez o resto da viagem deitado no dorso do cavalo, dormindo. E a advertência da estranha Yusra tornou-se, muito rápido, uma certeza. — Vamos entrar à noite. Não quero dar explicações, nem mesmo ter confrontos. Selena descansa na terra atrás da propriedade.
— Como sabe?
— Eu a encontrei. Como lobo. — Adrian balança os ombros. — Não tenho lembranças vívidas. É só… A certeza de quem procurou antes. — Vincenzo esfrega os olhos inchados e concorda. — Vamos descansar até que seja a hora.
Vincenzo olha por cima do ombro.
— E a nossa nova companheira de viagem?
Adrian o imita. Não vê Yusra e não precisa. O cheiro forte que ela emana está impregnado por quilômetros, confirmando que a mulher insiste em acompanhá-los. Adrian não se deu ao trabalho de evitar. A carta de Dante o perturba tanto que mal viu a paisagem mudar ou as horas passarem. Toda a culpa, todo o lamento e o estranho tom de despedida. Adrian releu a carta várias vezes na tentativa de extirpar a impressão. Contudo, a angústia permeia o coração. Provavelmente advinda do luto por Selena, pela culpa que forma-se lentamente, todas as decisões estúpidas que o levou até ali, e o puro receio de perder mais um filho, se considerar que Madalena realmente estava grávida. As interações íntimas foram poucas, não inexistentes. Decerto a possibilidade existe. E se Madalena realmente carregava um bebê, Eleonora o matou? Como Dante recusa-se a considerar a possibilidade. As palavras da estranha, todavia, também foram enfáticas e perturbadoras.
— Não é bem-vinda. — Adrian resmunga ciente que Yusra está próxima o bastante para ouvi-los. — E estou tão incomodado quanto você. — Vincenzo estreita os olhos. — Ela é como eu. Aparentemente a encontrei enquanto estava transmutado em lobo. Não deveria significar tanto, eu sei. E não significa para mim.
Os olhos de Vincenzo permanecem estreitos. Os arbustos são movimentados, e Yusra aproxima-se sem demonstrar nenhum constrangimento.
— Você precisa descansar, cigano. — Yusra olha para Vincenzo. — Do contrário, o corpo cederá. Considerando que a sua ascendência mágica é distante, não sei como está suportando tanto tempo.
Vincenzo aperta os olhos e suspira.
— Preciso ir para casa, Adrian. Eu tenho uma esposa e um filho. Eu não posso… — As palavras se perdem. — Eles precisam de mim, mesmo que você me considere inútil.
Naquele momento Adrian não o considera mais inútil, mas ainda não admira Vincenzo o suficiente para dizer. Por isso, contenta-se em esfregar o espaço entre os olhos e calcular a rota.
— Essa noite. Quando Selena for retirada… — As palavras agarram na garganta. — Você deve ir para casa.
— E Nora?
— Vamos pedir que Revna a tire do seu corpo.
Vincenzo e Yusra arqueiam as sobrancelhas ao mesmo tempo. Adrian dá de ombros e guia o cavalo para a planície mais próxima. Vincenzo o segue. Não é capaz de sacrificar mais uma vida, nem mesmo por Eleonora, que parece ter derramado muito mais sangue que estava disposta a confessar.
Yusra sugere que caminhem mais um pouco para adentrarem completamente a floresta. A mulher tem um forte senso de direção e parece ter um mapa mental de todos os lugares que pisa. Por isso, com mais ou menos vinte minutos encontram uma fonte de água doce, na qual tanto os cavalos quanto eles se refrescam. A primavera na cidade de Génova é bem mais quente do que em Florença e todos estão exaustos. Não dormiram em nenhuma outra hospedagem além da primeira noite. Primeiro porque Adrian optou por uma rota menos convencional, mais rápida e com menos comodidades. Depois, Adrian não queria gastar todo o dinheiro que Revna trouxe. Vincenzo o seguiu sem questionar e quase em silêncio o tempo todo. Talvez estivesse esgotado por suportar duas almas dentro do corpo. Talvez estivesse pensando que faria o mesmo pelo filho, que Adrian ainda não sabe o nome.
Os cavalos aproveitam a nascente para se hidratarem e comem a grama mais verde que encontram. Adrian e Vincenzo dividem o último pão duro que compraram na tarde anterior. Yusra senta-se na grama, encostando as costas na primeira pedra de tamanho considerável que encontra, e descasca as últimas laranjas. Adrian pensa na dinâmica.
Provavelmente Selena foi enterrada em um caixão simples. É costume dos cristãos. O corpo está decomposto demais para ser retirado do caixão e por isso será transportado desta forma. A aceitação do caixão implica na conquista de uma carroça para transportá-lo, o que exige, ao menos, dois cavalos fortes e descansados. Vincenzo utilizará a montaria para retornar para casa. Portanto, Adrian tem um cavalo apto e deve encontrar uma carroça e mais um cavalo que suporte os muitos quilômetros até Florença.
Antes de partirem para casa, devem se alimentar com algo além de pão quase mofado e água. Descansar é completamente opcional, e Adrian não o fará mesmo que tenha chance. Pretende fazer o percurso o mais rápido possível, o que exigirá trocas de cavalos em hospedagens. Está feliz por ter economizado cada moeda porque serão necessárias.
— Te acompanharei até a sua casa. — Yusra comenta, de repente. — Posso encontrar uma carroça, se quiser. — Adrian estreita os olhos. Vincenzo deitou-se completamente na grama e entregou-se ao cansaço. A estranheza paira no ar tanto tempo que a mulher explica: — Posso sentir algumas de suas preocupações. — Ele mantém a desconfiança. — É uma coisa que nós, licanos, somos capazes de fazer.
— Licanos.
— É como nós nos chamamos.
— Por quê? — Yusra balança os ombros. Talvez a resposta não importe. — Vocês, licanos, saem por aí sentindo as preocupações alheias?
Ela solta o ar pelo nariz e lhe oferece uma laranja.
— Não é a primeira vez que vamos compartilhar uma refeição. — Adrian ri, incrédulo. — Vamos! Aceite. — Ele molha os lábios ao imaginar o quão suculenta a laranja está. — Não está envenenada.
Adrian sentiria o cheiro se estivesse. Ainda assim, não aceita a laranja. Recusa qualquer pequena interação que demonstre que está aceitando a presença da mulher. Porque não está. O cheiro dela é forte e causa espirros incontáveis. Os comentários são sempre carregados de um tom ácido e até crítico. E por todos os deuses, até mesmo por Revna, por que Adrian gostaria de compartilhar a desgraça com uma completa desconhecida com delírios tão fortes?
— A sua companhia não é necessária. Sou capaz de me cuidar sozinho.
— Não tenho dúvidas.
— Eu não quero que me acompanhe. — Adrian soa sério. — Eu não te conheço. Não sou modesto quando repito que também não tenho interesse em nada que você traz. Não menti quando disse que não participo da nossa cultura. Nem quando defini as minhas prioridades. E eu quero enfrentar a minha desgraça sozinho. Esse é o meu dever. E a minha necessidade.
— Mas gostaria que Nora estivesse aqui.
— Ela é a mãe de Selena.
— Eu não sinto preocupações alheias. — Yusra comenta. — Além de ser naturalmente impossível, seria enlouquecedor se pudéssemos sentir todas as preocupações que nos rodeiam.
— Ainda assim…
— Ainda assim, somos capazes de ler os nossos pares. Principalmente aqueles com quem temos maior… — Ela gesticula, e Adrian aperta tanto os olhos que quase os fecha. — vínculo.
— Vínculo. — Adrian repete. — Está sugerindo que temos um vínculo?
— Saiba que é uma completa perda de tempo tentar me envergonhar. — Yusra soa muito suave. — Não há nenhuma vergonha na minha natureza. Essa também é a sua natureza, mesmo que recuse. E a maioria dos vínculos não são escolhas conscientes.
— Nós não nos conhecemos.
— Você não se lembra. — Yusra se movimenta. — É compreensível. Estava na forma de lobo. Forma essa que não tem controle. Você sabe disso tanto quanto eu. E sabendo disso não devia dar o benefício da dúvida? Não pode negar o que não lembra.
— Você também estava na forma de lobo? — Yusra assente. — Como?
O sorriso dela é quase soberbo.
— Existem muitas lendas sobre o nosso povo. Talvez a maior delas seja a ideia de que somos escravos da lua. Se fôssemos escravos seríamos feras bestiais, incontroláveis. Seríamos como os lobisomens. Os licanos não são servos de ninguém. Nem mesmo dos nossos instintos. É natural que existam diferentes níveis de controle. A maioria dos licanos não consegue, nem deseja, evitar a transmutação sob a lua cheia. Faz parte de quem somos. É muito forte. E também muito prazeroso. Isso é uma das coisas que Anna devia ter te ensinado. Afinal, ela também era capaz de decidir quando se transmutar.
Adrian engole seco.
— Ela era?
Yusra sorri.
— Claro que era. Como você acha que ela passou tantos anos em Florença?
— Mas Vincenzo…
— Vincenzo a viu porque ela permitiu. — Adrian desvia o olhar. — Você realmente não sabe nada sobre Anna.
— E você sabe.
— Sei o que os anciões me permitiram saber. O que o pai dela me contou. Não houve um dia em que ele não lamentou a decisão da filha. Ainda mais quando soube de você. Você não é apenas o herdeiro do Marco. É a continuação da linhagem do seu avô materno. Deveria ter sido preparado para liderar o nosso povo desde jovem. — Adrian encara as mãos enquanto os batimentos cardíacos aumentam. Yusra suspira. — Não é o momento adequado de conversarmos sobre isso. Estou apenas tentando fazer a minha insistência soar menos estranha. Deixe-me encontrar uma carroça para você. Volto antes do anoitecer.
(...)
Naquela altura da tarde a água está gelada demais para que o banho seja confortável. Selena e os cachorros pensam o mesmo porque se mantêm distantes da orla do lago. Nora não dá atenção à filha. O mundo não apresenta real ameaça, e Selena não pode se machucar de verdade. Além disso, Nora está ajoelhada nos cascalhos. Os dedos das mãos estão enrugados pelo longo período em contato com a água. E antes que o sol se ponha, Nora estará tremendo.
Por isso, ela intensifica a tentativa. Embora a realidade que estejam seja imutável, é inspirada na região em que Circe vivia. E a decisão de procurar não surgiu do mero palpite. Os primeiros raios solares invadiram a choupana, e Nora sentiu o peito arder; uma mistura de pensamentos inquietantes e experiência. Não a experiência enquanto Eleonora, filha da Kalina. A experiência que a alma antiga e cansada adquiriu nas inúmeras existências. Talvez até mesmo a experiência e conhecimento de Circe.
Poderia pedir ao Revna. No entanto, o limbo em que estão foi tecido entre o mundo dos vivos e dos mortos com o poder de Revna. Não é uma realidade facilmente alcançada e principalmente não responde à lógica a que o mundo dos vivos é submetido. Decidida a escondê-la naquela realidade, não é seguro que o elemento, que funcionará como cápsula e condutor da magia, seja externo já que não sabe como reagirá sob o poder do criador.
A procura se estende até o fim da tarde. Selena está suada, descabelada e exausta quando pergunta se podem voltar para casa. Os cachorros têm o mesmo humor. Nora sorri, guarda os seixos e outros cristais dentro do cesto e assente. Selena agarra a mão enrugada de Nora enquanto caminham entre os arbustos altos e úmidos até adentrarem a parte mais densa da floresta. O céu está rosado e sem nuvens. Em poucos minutos a escuridão dominará. Selena parece temer o entardecer porque aperta a mão de Nora e anda muito mais próxima que o normal.
— Por que a sua mão está assim?
— Porque mexi muito tempo na água. — Nora explica. — A sua mão também fica assim quando demora no banho.
Nora desconfia da pergunta. Selena é esperta demais para estranhar o enrugamento da pele. Em seguida, Selena expressa a verdadeira dúvida.
— Por que passou toda a tarde mexendo no lago? O que estava procurando?
Antes que a escuridão domine, Nora procura por pedras adequadas enquanto atravessam a floresta. A dúvida de Selena dura muito no silêncio. Nora molha os lábios, estreita os olhos e enche os pulmões de ar várias vezes. Não sabe como abordará o assunto. Nem tem certeza se deve fazê-lo. Revna a advertiu sobre os riscos, e a decisão foi tomada depois que ele partiu.
Nora não é capaz de submeter Selena a incontáveis trocas de corpo. O custo é muito alto. Não, Nora não acha que o custo seja verdadeiramente alto. O custo é bem justo. Revna, todavia, tem razão. Para eles é fácil acreditar que o custo é viável quando a vida alheia é insignificante. Eles vivem mais que a maioria, para não dizer que viverão mais que todos. Nora, por exemplo, já viveu mais que os descendentes do irmão. O pensamento a faz parar de andar. Selena aperta a mão dela com força, temendo.
Eles.
O limite mortal está rompido.
— Eu estava procurando boas pedras. — Nora é honesta. — Porque quero guardar algo muito importante dentro da pedra.
Selena franze o cenho.
— Isso não é verdade. Pedras não podem…
Nora sorri. Na idade de Selena já sabia qual o cristal mais indicado para cada uso. Se não tivesse morrido a educação de Selena começaria cedo? Ensinaria sobre magia desde a tenra idade? Enquanto a gerava no ventre, sem ainda saber que era uma menina, Nora evitava pensar. Naquela época vivia como um ser-humano. Como se o marido não fosse um licantropo, assim como o filho. Como se não fosse uma bruxa amaldiçoada pelos deuses. Há um tempo, Revna a culpou por morrer. Talvez tivesse razão.
— As pedras, principalmente os cristais, têm energia própria. Esses elementos permaneceram por incontáveis anos no seio da terra, sendo forjados e alimentados até serem encontrados. São muito usados em magia como condutores de magia, embora para uma verdadeira bruxa não sejam indispensáveis.
— Existem bruxas de mentira? A tia Ginevra me disse que todas as bruxas são demônios.
— Ginevra é ignorante. — Nora soa mais ríspida do que gostaria. Porém, não consegue parar de pensar que Selena não teria tantas dúvidas se não tivesse convivido com Ginevra. E ela não teria convivido se Adrian não fosse tão fraco; tão manipulável e chorão. Ela também perdeu muitas pessoas. Enterrou toda a família. Enterrou até mesmo os filhos dos filhos do irmão. Ainda que tivesse que enterrar Adrian, até mesmo se tivesse que enterrar um dos filhos, Nora nunca mandaria a família para longe. Ela respira fundo, interrompe e se recrimina pelos pensamentos. Não está sendo justa. Não se tornou um ser mais benevolente ao ver todos que amava morrer, pelo contrário. — Minha querida, — Nora para de andar e se ajoelha. Selena inclina a cabeça. — preciso conversar com você. Preciso que me escute com muita atenção. Lembra quando eu te perguntei se confiava em mim e você disse que sim?
— Eu confio, mamãe.
— Então preciso que confie ainda mais agora. — Nora pondera. — O mundo é muito diverso. Não falo de personalidades, nem mesmo aparência. O mundo é composto por diferentes seres vivos. As plantas e os animais são alguns desses seres. E existem mais raças. Existe a raça-humana, que é a Ginevra. E existe, por exemplo, a raça das bruxas. A raça dos licantropos. Os seres feéricos. Eu sei, eu sei, — Nora enfatiza. — que te disseram que tudo é mentira, que tudo são histórias ou simplesmente demônios. Os demônios existem, sim. Mas todo o resto também. — Selena arrega os olhos e recua meio passo. — Até mesmo os deuses existem. Preciso que acredite nisso.
— Mas mamãe…
— Acredite nisso. — Nora interrompe. Selena assente, incerta. — Eu sou uma bruxa. Você também é uma bruxa.
— Por que está falando essas coisas? — Selena abraça o próprio corpo. — Estou com medo. Podemos ir pra casa?
Nora segura as mãos dela.
— Porque algumas coisas vão mudar. — Nora segura o rosto dela. — A nossa vida vai mudar, minha querida. Eu quero voltar para casa — Nora nem sabe onde é a verdadeira casa. — tanto quanto você. Sinto falta de Dante. Sinto falta do seu pai. E sim, vamos levar os cachorros. — Selena comemora. — Mas preciso que acredite no que vou te dizer. Precisa acreditar de todo o coração. — Nora senta-se no chão mesmo quando a noite chegou. — Muitas coisas aconteceram enquanto você estava com a tia Ginevra. E essas coisas precisam ser resolvidas.
— Que coisas?
Nora acaricia o rosto dela.
— São coisas de adulto. Eu prometo que te conto depois. — Selena desconfia e aceita. — Essas coisas… Eu preciso resolvê-las antes de te levar para casa. Sem resolvê-las você não pode voltar. Por isso, as coisas aqui vão mudar. Eu preciso ir antes. — Nora inclina a cabeça. — E você precisa ficar.
— Eu vou ficar sozinha?! Mamãe, eu…
Nora interrompe com um aceno de mão.
— Você gosta de borboletas, não é? — Selena franze o cenho e assente. — Você sabe que as borboletas são lagartas?
— Sim! Elas constroem um casulo e ficam um tempão dentro deles! — Selena se anima. — E as lagartas mudam dentro do casulo. Pouquinho a pouquinho. — Ela demonstra com os dedos. Nora concorda e sorri. — É uma sonecona. — Nora ri. — Mas quando saem estão bonitas e com asas!
— Então… — Nora coça a testa. — É mais ou menos isso que acontecerá com você. — Selena arregala os olhos. — Enquanto a mamãe e o papai resolvem as coisas, você vai ficar dentro de um casulo bem seguro. Vai poder dormir um montão. E também vai mudar muito. Como as borboletas fazem.
— Eu vou dormir para sempre?
— Não! Não mesmo. — Nora suspira. — A mamãe vai te colocar para dormir por alguns dias. Mas você não vai perceber, entende? Você não vai sentir nada. Sabe quando você corre o dia inteiro e fica muito cansada? — Selena assente. — E aí você come e se deita para dormir? — A garotinha concorda. — Mas está tão cansada que não consegue esperar pela história? — Selena reconhece a situação e sorri. — E está tão cansada que nem percebe que dormiu? Nem mesmo sonha? Então, é assim que vai ser! Você vai dormir depois de um dia que brincou muito e vai acordar quando eu vir te buscar. Eu prometo, minha querida, vai ser em um piscar de olhos pra você.
(...)
A fogueira é alimentada pelos pequenos ossos de coelho que Yusra arremessa. Marco não foi um bom pai, e Adrian teve questionáveis figuras educadoras. Não eram figuras ignorantes, nem incapazes. Só não eram caridosas. Os maiores discursos de amor, penitência e humildade apareciam apenas nas missas que era obrigado a ir aos domingos. Adrian foi batizado, crismado, até concluiu a eucarística e, ainda assim, aprendeu pouquíssimo da fé cristã. E sempre justificou a dificuldade de receber ou pedir ajuda como falta das primazias cristãs. Os frutos do espírito. A verdade, ele percebe enquanto analisa Yusra, é que odeia dever.
A ajuda é uma troca não dita. Nenhum cristão concordaria. Quem ajuda pode até não esperar que a retribuição seja imediata, mas espera que um dia, caso precise, a pessoa se lembre da dívida. E, deuses, Adrian está devendo muito. É incalculável tudo que deve a Vincenzo naquele ponto. O dinheiro será o bastante para ressarci-lo. Yusra, por outro lado, não aparenta desejar o ouro.
Yusra partiu pela manhã depois da estranha conversa. Adrian passou todo o dia se esforçando para não deixar que as dúvidas que ela plantou com tanto esmero cresçam. Optou por se preocupar com Dante, chorar por Selena e pensar em como explicar a Valentina sobre a possível morte de Vincenzo. Também teve tempo para pensar em Eleonora. Yusra retornou uma hora antes do sol se pôr. Além da carroça em bom estado, trouxe um novo cavalo e três coelhos. Em silêncio a mulher os limpou e preparou a fogueira para assá-los. Seria redundante dizer que Adrian não tem nenhum talento de sobrevivência. O conforto que as riquezas e posses que o pai possuía teoricamente o manteria longe da necessidade de sobreviver.
Ledo engano.
Agora Vincenzo descansa encostado na pedra. Ele arfa porque está cheio de carne de coelho e muito cansado. Adrian usa um graveto para riscar a terra enquanto contabiliza as dívidas. E Yusra morde os ossos, suga o tutano e depois os arremessa para o fogo.
— Devemos partir. — Adrian interrompe o silêncio. — O trajeto é longo até a propriedade. — Yusra se coloca de pé. — Você não vai.
— Você não vai sozinho. — Yusra define. Adrian olha para Vincenzo, que luta para se levantar. — E ele não vai de jeito nenhum.
— Eu posso… — Vincenzo começa a falar.
— Não. — Yusra interrompe. — Você está exausto. Não será de grande ajuda. Pior ainda: não consegue se defender.
Adrian não discorda. Vincenzo o encara como se esperasse permissão.
— Você fica. — Adrian aponta para o primo. — E você também. — Yusra range os dentes. — Sou capaz de me cuidar sozinho.
— Não tenho dúvidas que seja capaz, mas eu irei.
Adrian range os dentes também.
— A sua abnegação quase me constrange. — Adrian põe a mão no peito. Yusra suspira. Ele aproxima-se, cauteloso. — Eu apreciei a sua honestidade mais cedo. — Adrian a rodeia. Ela o examina. — Por que não aproveita e me conta logo o que quer?
— Acredite em mim: não quero desenterrar um morto. Boa coisa não atrai. Muito menos uma criança. — Adrian firma a mordida. — Mas a questão é lógica. Não é seguro que vá sozinho. Além de ficar exposto, vai demorar muito mais. Me deixe ir. — Ela suspira. — Nós somos cooperativos. Nosso povo.
— O seu povo.
— O nosso povo. Rejeitar a sua ascendência não a desfaz.
Adrian a encara e é encarado. A tensão entre eles cresce, inflando a noite. Ele fecha os punhos. Yusra passa a língua nos dentes repetidas vezes. Adrian tem a impressão de ver uma presa saltar na gengiva. Nenhum deles recua. Vincenzo parece dizer algo que ninguém escuta. Adrian sente os ombros queimarem. A mulher inspira profundamente. E a nova voz interrompe:
— Aqui estão vocês. — Todos olham em direção a voz encorpada. Adrian recua quando a reconhece. Os olhos alongados e expressivos são azuis escuros. A pele clara contrasta com o longo cabelo preto. A mulher aproxima-se com muita candura. — Foi difícil encontrá-los.
— Nora?! — Vincenzo é quem expressa a surpresa.
A mulher sorri. Não é tão natural quanto se lembra, e Adrian teme que os anos longe tenham o feito esquecer. Ele recua, trêmulo. Então, o cheiro forte de enxofre pesa no ar. Adrian e Yusra se encaram.
— Não tem tanta graça quando vocês dois — a figura aponta. — são licantropos. — A mulher cheira o próprio corpo. — É tão forte assim?
— Eu poderia sentir há quilômetros — Yusra resmunga.
— Mas não sentiu.
— Porque você não veio andando. Veio?
A mulher sorri. E os olhos azuis se tornam pretos muito rápido. Adrian rosna. Yusra se movimenta. Os olhos totalmente pretos focam na mulher.
— Por favor. Não se dê ao trabalho. — A coisa movimenta os dedos, e o braço de Yusra é retorcido até a adaga cair no chão. Adrian arregala os olhos. — Não machuque esse corpo. — A coisa usa as mãos do corpo para acariciá-lo, desenhando as curvas. — Além de útil, vale muito mais do que a sua vida.
— O que é você? — Adrian inquire. O corpo de Nora exibe um sorriso fraudulento. — E por que está aqui?
— Eu tenho muitos nomes. E posso ser o que você quiser. — O corpo se aproxima, e o cheiro de enxofre fica mais forte. — Mas prefiro que me chamem de Tahmon.
— Demônio — Yusra resmunga. — É um demônio.
O corpo de Nora sorri. Se Adrian não tivesse a capacidade de sentir o cheiro proeminente de enxofre, ainda assim saberia que não é a Eleonora porque o sorriso é muito estranho. Os lábios não se elevam de forma natural, exibindo os dentes alinhados. Eles parecem puxados por linhas invisíveis como acontece com as marionetes.
— Não precisa falar como se fosse uma ofensa.
— Mas é.
O demônio solta um suspiro alto, molha os lábios e organiza as palavras. Contudo, a boca permanece aberta. As sobrancelhas são erguidas, e os olhos completamente pretos se estreitam. O demônio recua dois ou três passos. E a figura de Revna se forma no local exato em que o demônio estava.
— Todo esse tempo. — Revna resmunga. — E era você.
Tahmon o cumprimenta com um breve manejo de cabeça. Adrian olha para Vincenzo, que permanece sentado e muito surpreso. Yusra mantém a pose como se fosse possível enfrentar um deus e um demônio.
— Meu senhor, não se encha de ódio. Pode entender como nós, demônios, somos. As tentações sempre nos vencem.
Adrian não vê o rosto de Revna daquele ângulo. A entidade soa bem crua:
— Foi você?
O demônio recua outro passo.
— Eu tinha uma dívida com os deuses. — A noite parece mais escura. Adrian olha para cima e nota que a lua crescente foi engolida por nuvens escuras e densas. — Ainda é o meu pai, mas não devo nada ao senhor.
— Você deve a vida.
— O senhor nunca me cobrou. Diferente de Madora.
— O que devia à Madora?
— Assuntos pessoais. — Revna avança um passo, e o demônio recua outro. — Todos os seus filhos foram criados para serem livres. Até mesmo os menos quistos. Nenhum de nós deve explicações, nem estamos sob o seu jugo.
— Talvez esse tenha sido o meu erro. Dei muitas escolhas a vocês. Muita liberdade. Muito poder.
— Não se lamente agora.
— Eu me lamento. Estou sendo enredado por todos os meus amores. — O sorriso que o demônio exibe no corpo de Nora é real e muito triste. — Me conte por quê. Depois de tantos anos.
— Demorou muito para Madora a notar. Havia algo a escondendo. Eu sei que não foi o senhor. Não é capaz de exercer tanto poder sobre a alma dela. — Revna assente. Adrian pisca, tentando acompanhar. É uma verdadeira gentileza que eles conversem no idioma comum. — Eris provavelmente. — A entidade concorda. — Madora eventualmente percebeu. O senhor sabe: Madora também não tem poder sobre a alma dela. — Revna assente. — E agora nem mesmo Moros. Se posso levantar uma suspeita… — A risadinha do demônio ecoa. Revna e o demônio chegam à mesma conclusão: — Eris.
Eris. Um nome nunca ouvido antes.
— Eu fui convocado para fazer o que se tornou inviável para os deuses. Acredito que nesse momento Madora percebeu que o tabuleiro celeste estava sendo movimentado há muito tempo. Havia dois suspeitos. Você foi rapidamente desclassificado. Eris, por outro lado, nunca aceitou o castigo aplicado na criação favorita. Nur era como uma criança gerada no próprio ventre. Por isso, Madora decidiu esperar o momento certo. Ela queria que Nora estivesse feliz, e Eris distraída.
Adrian engasga. Revna suspira.
— E você manteve a alma dela. Por isso, Nora não reencarnou. Por quê?
— Porque assim eu quis. — O demônio exibe um sorriso maldoso. — Madora decidiu quando matá-la, mas esqueceu-se de ser mais precisa sobre o destino da alma. Então, eu mantive a alma comigo porque era muito valiosa. Pensei que ou o senhor ou a Eris me procuraria para barganhar, mas não. Ninguém veio. Ninguém cogitou a possibilidade. Aceitaram a morte como um fato. Acho que o senhor aceitou a morte muito bem, inclusive. Aceitou e partiu daqui. Ouvi dizer que passou muito tempo na Nova América. É tudo isso que dizem? As almas são boas?
— Pensei que Nora reencarnaria. Como sempre foi. Imagino que Eris tenha pensado o mesmo. Até pior: agora vejo que não faço ideia do que a minha filha esteve fazendo nos últimos séculos. Tenho a impressão de que Circe ter reencarnado na mesma descendência após tantos anos não foi coincidência. Eris estava movimentando as peças. E se frustrou muito quando todo o trabalho duro e silencioso ruiu novamente, ainda mais que desta vez ela foi tão meticulosa.
O demônio sorri. Adrian gostaria de intervir, de fazer perguntas. Percebe, então, que o corpo é mantido imóvel por uma força amedrontadora. E os lábios estão colados.
— Bom… Mas não reencarnou.
— Quem barganhou pela alma?
O demônio sorri tanto que até o último dente da arcada aparece. Apesar de congelado, Adrian sente o coração arder muito. Algo como lágrima surge nos cantos dos olhos. Revna nega uma vez e repete o movimento por muito tempo.
— Pense comigo. Quem faria isso? Quem tentou contato com a Nora depois da morte? Tentou com tanta avidez que usou a própria irmãzinha. Dante é uma alma nobre, reconheço. Por isso, o presenteei com mais tempo. Sou bondoso como o senhor, pai. Quando convém. Mas vejo que ele não pôde aproveitar tanto a mãe. É uma pena. — O baque de Adrian caindo de joelhos interrompe a conversa. Ninguém olha para ele. E nem precisa. — Por isso, papai, traga Nora para mim. Eu tenho uma oferta para ela. E direi apenas para ela. Claro que é mera formalidade. Burocracia dos pactos. O senhor sabe, não é? Mão cortada, sangue misturado… — O demônio graceja e exibe uma postura de vencedor. — Porque eu já sei a resposta.
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