Tempo da Bruxa

40 Ciclo da vida


Não houve nenhuma mudança perceptível quando Revna surgiu. O cheiro do jantar ainda estava forte. Os borzois estavam espalhados pela choupana e não notaram nada de diferente. A pequena Selena estava abraçada na boneca improvisada enquanto Eleonora percorria o longo cabelo escuro com movimentos cuidadosos. O sono da garotinha era suave e recente, e Nora havia acabado de decidir que precisava de mais tempo antes de colocar Selena para dormir por tempo indeterminado.

O toque no ombro foi rápido e nada sutil. A região ainda arde como se estivesse gravemente ferida. A primeira respiração dentro do corpo físico causa forte enjoo. A noite está empestada com o cheiro de coelho assado e enxofre. Os olhos ardem muito, e o corpo físico não suporta a presença da alma. Por isso, continua esparramado no chão. Os membros lentamente formigam. Nora aperta os olhos, enche os pulmões físicos de ar e molha os lábios repetidas vezes.

O crepitar da madeira cheia de lodo embala o silêncio noturno. Nora encara o chão enquanto abre os olhos com dificuldade. A visão não está clara. Ela coça os olhos várias vezes até perceber que é impossível ficar melhor. A barba cheia pinica as palmas das mãos. Nora olha as mãos masculinas e franze o cenho. Ao mesmo tempo, Revna a ajuda a levantar. Fragilizada, Nora luta sem sucesso.

— O que você fez?! — Revna comprime os lábios. — Não era a hora.

— Eleonora… — Revna lamenta.

— Não era a hora!

— As coisas mudaram.

Nora recua um passo e tropeça na pedra que Vincenzo dormia. O rosto é esfregado duas vezes antes de ser possível diferenciar as figuras próximas. Adrian é notado primeiro. A aparência não é saudável, muito menos agradável. Mas é um homem. A magia funcionou, afinal. O rosto enrugado confessa a culpa, a confusão e o luto. Nora é incapaz de manter o olhar. A mulher próxima a Adrian é completamente ignorada porque Nora vê o próprio corpo.

O corpo está exatamente como refletia nos espelhos anteriormente. O cabelo preto é extremamente longo e ondulado nas pontas. Os olhos são retangulares e azuis escuros. As sobrancelhas são pouco arqueadas e cheias. A pele não demonstra a passagem dos anos. E ainda é pálida como um cadáver.

A tentativa de recuar é interrompida por Revna. Ele segura o braço do corpo de Vincenzo e a olha com seriedade. Nora nega, franze o cenho e observa todos os presentes de novo.

— O que… — A pergunta se perde. — Henry?

O corpo sorri, e Nora arrepia.

— Henry, é claro. — A voz é grossa. — Vocês estavam negociando. Devo admirar a audácia de Henry negociar o que não tinha… Pensando bem, — A pausa é breve. — É típico. Não negociamos o que temos em mãos. Negociamos o que podemos tornar real. — Nora, no corpo de Vincenzo, estreita os olhos. A pele continua arrepiada, e o raciocínio está claramente prejudicado. — É claro que o desrespeito de Henry foi devidamente punido. Não se preocupe, querida. Ele é capaz de suportar.

Nora engole a seco. Revna recua meio passo. Adrian está quieto, encarando o chão. Os olhos estreitos estão vermelhos e inchados. A mulher desconhecida tem muitas rugas na testa e a postura rígida e ameaçada.

— Tahmon. — O demônio prossegue. É horrível ver o próprio corpo daquele ângulo. O movimento dos membros, da boca e até mesmo o piscar dos olhos não é natural. — Você não me conhece. Poucos conhecem. Revna é o meu pai. — Nora encara a entidade, que assente lentamente. — É claro que ele não foi um pai tão presente para mim quanto foi para os meus irmãos divinos. Presumo que seja natural.

Nora esfrega as têmporas de Vincenzo na tola tentativa de evitar a forte dor de cabeça.

— Tahmon. — Nora repete, vagamente. — Era um anjo…

O demônio gargalha.

— Não chegou nessa parte da história, papai? — Revna estreita os olhos. — Nenhum demônio foi um anjo. Somos criaturas diferentes. Os demônios são, essencialmente, filhos da escuridão. Os principais demônios descendem diretamente do deus da escuridão. E esses grandes demônios criaram demônios menores, como Henry. — Os olhos azuis de Nora se tornam pretos. — Não gosto dessa definição: anjos e demônios. É muito popular agora com o advento do cristianismo, mas somos mais velhos do que a fé cristã. — O corpo de Nora anda um pouco. — Anjos, por outro lado, são filhos da luz, da Madora. Somos naturalmente contrários, assim como os nossos pais. — A risada é amarga. — É claro que os filhos de Madora são honrados, fortes guerreiros e bons demais para se misturar. Veja os licanos… — O demônio aponta para a mulher desconhecida. — Criação de Madora e de Moros. Definitivamente fortes. Cheios de energia e disposição. Honram o costume da Grande Mãe. — O demônio cospe no chão. — Grande Mãe. — Debocha. — Para quem? — Tahmon olha para Revna. — Sabe de uma coisa? Tenho incontáveis reclamações sobre ela. — Nora estranha a quietude extrema de Adrian e da desconhecida. — Mas sempre me irritou como Madora se autodenomina mãe de todos os seres existentes. Madora tentou evitar o nascimento de muitas espécies que considerava inferiores ou questionáveis. Depois passou o resto da vida nos empurrando para esse buraco. — O cheiro de enxofre se torna mais forte conforme o humor de Tahmon piora. — Nossos talentos… — As mãos verdadeiras de Nora produzem uma névoa translúcida e brilhante. — Sempre foram insignificantes para a grande mãe. Quantos de nós não imploramos aos pés da grande mãe por uma chance?!

— As suas mágoas não são desconhecidas por mim, Tahmon. E não são exclusivas suas.

— Ainda assim, nunca fez nada por nós, papai.

— O que eu deveria ter feito? Iniciado uma disputa que acabaria com todos?

— Talvez. — Revna recua meio passo. — Eu nunca soube se a sua ausência era amor ou medo. O senhor temia a reação de Madora? Temia perder tudo que construiu? Temia destinar inúmeras existências ao sofrimento? — Os olhos de Revna escurecem também. — Ou era amor? Ela ainda é a sua primeira companheira. A mais antiga. E talvez a mais especial. Por quantos milênios existiu apenas vocês? São essas as memórias que o impedem de agir?

Nora silencia também. Todos os olhares voltam para Revna. Esse recua outro passo, desvia o olhar e suspira tão forte que todas as árvores próximas balançam.

— Os dois podem coexistir. — Revna assume. Tahmon aponta o dedo indicador para ele. — Mas não estamos aqui para discutir a nossa família.

— Não mesmo. — Tahmon olha para o horizonte. — Estava apenas ganhando tempo. — Nora assiste o rosa característico do nascer do dia surgir. — Não quero que o senhor interfira na minha negociação.

Revna avança em Tahmon com um movimento severo. O demônio recua até encontrar um curto e fraco feixe de luz. Revna para, impedido de se aproximar mais. A entidade range os dentes, resmunga palavras em um idioma desconhecido e determina:

— A noite é certa como o nascer do sol.

Tahmon assente lentamente.

— Não preciso de outra noite. — O demônio coloca a mão no sol. — Tudo acaba hoje.

A natureza de Revna é forte demais. Conforme a claridade domina, Revna recua e recua até que esteja encurralado contra a árvore. O sol alcança primeiro os pés dele, que se desfazem em sombra imediatamente. O resto do corpo não é atingido porque a entidade parte antes, resmungando “Tahmon, seu maldito” tão alto que toda a cidade de Génova o escuta.

— Agora, minha querida, podemos conversar.

Nora limpa o suor do rosto de Vincenzo, observa Adrian e a mulher e sinaliza.

— Eles estão bem?

Tahmon os observa.

— Ah, sim.

O demônio estala os dedos.

— Eleonora! — Adrian extravasa. — É o Dante. Ele…

Tahman estala os dedos novamente, quebrando o pescoço de Adrian e da mulher. Nora sabe que para os licantropos a torção causa apenas um desmaio temporário.

— Não quero ser interrompido. Nem mesmo quero que saiba por outro. — Nora sente os ombros de Vincenzo se tornarem muito pesados. A visão turva a obriga a apoiar-se na pedra. A respiração dobra, e o suor volta a escorrer. — Sim, é sobre o Dante.

Nora range os dentes. Não ataca Tahmon porque reconhece a própria incapacidade.

— Não quero ser mais dramático do que o necessário, mãe. — Nora arregala os olhos. Tahmon exibe um sorriso frágil. — Revna não foi tão honesto quanto deveria, não é?

— Não. — Nora nega veemente. — Não. É impossível.

O demônio soa muito sutil:

— Você é Nur.

Nora ri.

— Nur é uma criança perto de você! Você é um demônio milenar.

— Nur foi a primeira criação depois dos deuses principais. — Tahmon suspira. — A situação não é adequada para a conversa que teremos, mas não tenho outra escolha. Madora foi muito sagaz na maldição. Estamos tentando… — O demônio movimenta as mãos. — Há muito tempo.

Nora desiste de manter o corpo em pé e senta-se, abraçando os joelhos de Vincenzo. As lágrimas embaçam a visão.

— Tudo isso… — A voz falha. — Eu não entendo. Eu sou só… Filha da Kalina.

— Nesta vida, sim. A sua existência, por outro lado, é bem mais longa do que é capaz de se lembrar. E você foi muitas coisas.

— Nur… Ela era apenas uma bruxa.

Tahmon nega e senta-se também.

— Nur era uma deusa menor. — Nora arqueia as sobrancelhas. — Os primeiros eram mais do que novas espécies. Bem mais do que isso. Foram criados à imagem e semelhança dos deuses. Sabe o que significa? Os deuses cederam a própria matéria para criar cada nova espécie. E se você carrega a parte de um deus, o que você é senão um deus menor? Todas as primeiras criações ganharam a matéria dos criadores. Não era possível que fossem gerados de outra forma. O primeiro licano foi feito da matéria de Madora e Moros. Iris da mesma forma criou o primeiro ser feérico. E Eris, por sua vez…

— Criou Nur a partir da própria matéria. — Nora presume. — E Eris é filha das entidades mais antigas que conhecemos, Revna e Madora.

Tahmon concorda.

— Eris foi uma criadora muito dedicada. Diferente das outras criaturas, Nur não foi gerada apenas para ser a matriarca de uma nova raça; foi criada também para atravessar os séculos. Às vezes penso que Eris a criou, ainda que inconscientemente, como possível companhia para Revna. Talvez ela soubesse que as diferenças entre os pais eram irreconciliáveis já nos primórdios.

Nora desvia os olhos, absorvendo.

— Então, Nur e Revna…

— Tiveram filhos, sim. — Tahmon explica. — Nur não se apaixonou apenas por Revna durante a longa vida. Ela gerou muitos filhos de diferentes pais, assim como todos os outros primeiros geraram. Por isso hoje existem tantas diferentes linhagens dentro da mesma raça.

— Mas os filhos de Nur e Revna eram outra coisa.

— Exatamente. Vamos dizer que eram uma nova raça.

— Os demônios.

— Não éramos chamados assim. — Nora não discute. — Madora também gerou filhos com outros deuses. Assim como os demônios, os filhos de Madora ganharam muitos nomes entre os milênios. E também se tornaram diversos.

— Certo. — Nora pressiona a cabeça. — Em algum momento a descendência de Nur e Revna foi subjugada por Madora. — Tahmon assente. — Não posso duvidar. Quanto mais eu vivo, mais sou assombrada com a realidade de que nada sei. Não sei nada, nem mesmo de mim.

— Isso não é natural.

— Porque fui amaldiçoada enquanto Circe.

— Principalmente, sim.

Nora estreita os olhos. Principalmente. Há outra coisa não dita. É incapaz de questionar.

— Pode me dizer como esse extenso passado faz conexão com o Dante?

Tahmon exibe o sorriso triste de novo.

— Dante se sacrificou por você. — Nora nega a cabeça várias vezes. Tahmon gesticula. — Esse não é o triste desfecho que imagina, minha querida. Dante foi uma burocracia necessária para que as regras anteriormente definidas não fossem desrespeitadas. Uma alma só equivale a outra alma de igual peso. Não há outro pagamento justo. Até mesmo os criadores estão sujeitos às regras, quem dirá nós. — Nora afunda o rosto nas mãos, chorando. — Não se desespere tão cedo. Não tenho a intenção de buscar a alma de Dante. Dante, na verdade, para mim é insignificante. Como quase tudo das suas vidas terrenas. Porém, as regras são claras…

— Você quer uma alma. — Nora interrompe. — Quer uma alma em troca da alma de Dante.

— É um pouco mais complexo, Nora. — Tahmon suspira. — Essencialmente eu quero uma alma. Não qualquer alma. Nem mesmo uma alma licana. Seria tão fácil, não é? Poderia matá-la. — Tahmon indica a mulher com a cabeça. — Mas não é. Eu quero uma alma, sim. Porém, a alma que eu quero mudará todo o jogo celestial. Não quero passar o resto da existência vivendo de pactos, subjugado por Madora e as crias. Eu quero viver como o que sou, com o que eu tenho direito. Sou filho de Revna também. O meu pai, porém, não luta por nós. Mas uma mãe é sempre uma mãe. Você não se lembra, não faz sentido e nem acredita. Então, vou te dar a motivação necessária: Dante. Dante será a motivação. E apenas a alma de Moros será o pagamento adequado.

— Moros?

— Moros é o primogênito de Madora e Revna. — Nora treme. Tahmon suspira. — Moros é o filho mais forte. E está totalmente alinhado com Madora. Não apenas alinhado; a força de Moros é o que permite que Madora subjugue não apenas a minha raça, mas também Revna e você. — Nora arregala os olhos. — Revna hoje é um animal acorrentado por Madora e pelos próprios filhos. Não é, nem de longe, o que era antes. Não tem a força, nem o poder, que tinha no alvorecer.

— Por quê? Por que Revna foi subjugado?

— Existem duas respostas. — Nora inclina a cabeça. — A verdade é que Madora sempre tentou subjugá-lo. Muitos insistem que Madora foi motivada por ciúmes. Um pouco, talvez. Madora, contudo, não é tão dada às paixões. A questão é que Madora e Revna nunca concordaram sobre o futuro da criação. Ambos tinham visões muito diferentes sobre a vida. Mas Revna era mais antigo, mais forte e muito mais pacífico. Sozinha, Madora não poderia subjugá-lo. E os filhos nunca aceitariam se não houvesse um bom motivo. Ele era bem quisto. — Nora pode presumir como Revna era querido pela família. — Então, Nur eventualmente reencarnou como Circe. E Circe era miserável. Além de todas as desgraças, tinha uma filha doente que padeceu. Sensibilizado pelo sofrimento intenso de Circe, Revna aceitou ajudá-la mesmo sabendo que não era adequado. Revna e Circe dificilmente seriam punidos se tivessem vencido a morte. Pelo contrário: seriam elevados a um novo patamar.

— Mas não venceram.

— Depende do ponto de vista. Para mim, eles venceram. — Nora estreita os olhos. — Aella voltou. Não como a bruxa que era, muito menos como humana.

— Ela voltou como vampira.

Tahmon sorri.

— Você pode imaginar como foi problemático criar uma nova raça que dependia do sangue das outras para sobreviver. Madora encontrou a justificativa perfeita para punir Revna. Para muitos, Madora agiu como uma juíza buscando manter o equilíbrio da natureza. Para as criaturas como eu, Madora simplesmente foi esperta. A vampira era um horror, incapaz de sobreviver à luz do dia. Mas, veja só, Revna também é assim. Ele não bebe sangue, é claro. De qualquer forma, a comoção foi intensa. Moros imediatamente concordou com Madora. Iris, geralmente neutra, também se sentiu ameaçada. Até mesmo Eris recriminou o pai. Foi necessário a união de Madora e todos os filhos para puni-lo. Por isso, Eris e Revna não conversam mais. Ele se sentiu pessoalmente traído por Eris. Por Moros, era óbvio. Mas Eris? — Nora relembra a convivência hostil deles. — Hoje, Iris está reclusa com os feéricos. Isto é, se ela estiver viva. Ninguém conferiu. Moros ajuda a conduzir o universo conforme os desejos questionáveis e a doutrina rígida de Madora. Eris se arrependeu assim que notou o que fez. E o Revna, bem, você o conhece. Tem muitas limitações questionáveis para uma entidade. E quanto ao restante de nós, criaturas menos brilhantes e iluminadas, estamos sujeitos à lama. Subjugados como nossos pais.

— A morte de Moros enfraquece Madora. E vocês terão a oportunidade de se vingarem.

— Nos vingar, não. A vingança pertence a você e ao Revna. Nós queremos a liberdade. Acha que viver no submundo é agradável? Acha que queríamos passar a eternidade perturbando almas que nem conhecemos? — O demônio ri. — Fazemos porque essas almas são nossa fonte de poder. É simplesmente necessário. Alguns gostam, sim. Não todos. Nem mesmo a maioria. Antes de Revna ser condenado tínhamos outros interesses. Sabe?

Nora não consegue imaginar.

— A morte de Moros causará uma guerra.

— Bom, a alma de Dante com certeza é bem poderosa. Farei algum proveito, acho. — Ela range os dentes. — Não há outro caminho. Talvez você pense que não faz parte disso. Talvez pense que os seus maiores problemas são Dante, Adrian e Selena. Mas você é o que é, é quem é. E eu aposto que também quer ser livre. Mesmo que seja para morrer. — Nora engole a seco. — Porque nem isso você pode.

— Por que vocês mesmos não o matam? — Nora rebate. — São muitos.

— Ele é o nosso carcereiro. Nosso senhor. Moros segura nossos grilhões. Somos incapazes. Literalmente. — Tahmon levanta-se. — Enquanto Moros existir, também somos inúteis contra a Madora. Ele a protege acima de tudo, inquestionavelmente. É um soldado. — Tahmon ri. — Mais do que isso, é um devoto.

Nora ergue o corpo de Vincenzo também.

— Volte ao amanhecer. — Tahmon franze o cenho. — Não pode esperar que a resposta seja imediata. Preciso pensar. — Nora observa Adrian e a mulher desmaiados. — E preciso ter certeza que não está mentindo para mim.

— Você ainda é sagaz. — O demônio se afasta. — Não conte ao Revna. Isso é entre você e eu.

(...)

A cabeça de Adrian está apoiada no casaco dobrado que cheira a laranja e terra úmida. O sol está no topo do céu, e ele esfrega os olhos doloridos enquanto tenta se organizar. Bem ao fundo há a vida acontecendo; as folhas das árvores balançando, o cheiro salgado empesteando o ar, os relinchos soltos do cavalo. Adrian tenta sentar-se, mas a dor no pescoço é incapacitante. Ele arfa várias vezes até Yusra surgir no campo de visão.

— Vai demorar um pouco para melhorar.

Adrian massageia o local, rangendo os dentes.

— O que… — Ele tenta olhar ao redor. — Cadê Eleonora?

Yusra balança os ombros lentamente.

— Não está aqui. Nem ela, nem Vincenzo, nem mesmo a carroça. Sobrou apenas um cavalo.

Adrian escuta o cavalo esfregar a pata contra a grama enquanto pasta. Apesar da forte dor que queima desde o pescoço até o final da coluna, senta-se para enxergar o mundo. O sol no alto do céu indica que ficou fora por muito mais tempo do que deveria. Provavelmente passa do meio-dia. A boca está seca. O estômago dói. Yusra mantém as mãos apoiadas na cintura, avaliando. O cheiro de enxofre é enjoativo e forte. Adrian tosse, escarra no chão e esfrega o suor da testa. A dor no peito surge conforme as memórias retornam; o retorno de Eleonora dos mortos só foi possível porque Dante pagou com a própria alma.

Onde Adrian estava quando aconteceu? De repente, toda a angústia perdida entre as linhas da carta se justifica. Dante sabia que estava prestes a partir e estava se despedindo, em uma tentativa de ir em paz. Como ele foi capaz de arriscar tanto? E pelo quê? Para conviver com a mãe por pouquíssimas semanas. Nenhum tempo do mundo é suficiente quando o preço é tão alto.

Adrian seca as lágrimas que escorrem enquanto pensa na alma de Dante condenada pela eternidade. Em um movimento brusco levanta-se cambaleante. Os passos são difíceis e tortos. Adrian move-se em círculos insignificantes. Yusra o acompanha.

— Adrian… — A mulher repreende. — o que está fazendo?

Adrian ri.

— Aquela coisa… — Eles se encaram. — que estava no corpo de Eleonora. Aquele demônio. — Yusra assente. — Sabe como trazê-lo aqui?

Yusra estreita os olhos.

— No que está pensando?

— Você sabe ou não?

— E para quê?

— Tenho certeza, Yusra, que ouvimos a mesma coisa. Dante ofereceu a alma para salvar Eleonora. A alma do meu filho está condenada.

— E o que você pensa que pode fazer sobre isso? — Ela desdenha. — Não me diga que pretende barganhar pela alma de Dante. — O silêncio de Adrian confirma a suspeita. Yusra gargalha. — Não. Não mesmo!

— Você age como se a sua opinião significasse alguma coisa para mim.

Yusra o impede de se afastar, agarrando-o pelos ombros.

— Todos vocês são loucos! — Yusra repreende. — Dante barganhou para salvar a mãe. E agora você está disposto a barganhar para salvar Dante. Esse ciclo nunca tem fim?

Adrian a empurra.

— Você espera que eu aceite com tranquilidade. — Ela nega com a cabeça. — Eu não vou perder os meus dois filhos! — Adrian aumenta o tom de voz. — E eu prefiro morrer e passar o resto da existência no pior lugar que existe do que enterrar o Dante! — A voz treme. — É o meu filho! Meu filho! — As lágrimas escorrem. — Você não tem noção do que isso significa. Não tem a mínima noção! Que tipo de pessoa eu seria se assistisse tudo acontecer com tanta indiferença?! — Yusra recua e abaixa a cabeça. — Saia do caminho se não for ajudar!

— Adrian, eu não quis dizer que…

— Eu sei muito bem o que disse. Você pensa que Dante deve arcar com as consequências. — Yusra desvia os olhos. — Que ele deve pagar pelo erro com a própria alma. O quão insensível você é? Ele é um garoto! — As lágrimas escorrem de novo. — Ele tem quatorze anos! Ele… — Adrian recua, chorando. — Dante é tudo o que tenho. Desde que nasceu. Desde a primeira respiração. O primeiro choro. Eu o segurei aqui! — Adrian demonstra o peito. — Como segurei Selena. E eu a perdi. — Adrian eleva a voz. — Eu matei a minha filha! Se alguém merece punição, definitivamente não é o Dante. Sou eu!

Yusra encara o chão até Adrian se acalmar. Ele junta o resto das coisas espalhadas, pronto para partir. Não sabe, contudo, para onde ir. Se pudesse atravessar a distância entre Génova e Florença com um piscar de olhos faria mesmo que custasse tudo. Precisa ver Dante. Precisa implorar por perdão; garantir que entende tudo agora.

— Tahmon não tem interesse em barganhar com você. — Yusra murmura, enfim. Adrian a olha por cima do ombro. — Se tivesse interesse, teria feito. Tenho a impressão que ele nem mesmo tem interesse em manter a alma de Dante. Dante é apenas uma moeda de troca para conseguir algo muito maior. É a ameaça perfeita para convencer você e Nora a aceitarem qualquer coisa. Entende porque é absurdo que vocês cogitem barganhar com ele agora? Vocês dois estão fragilizados. Aceitarão qualquer coisa para poupar Dante, mesmo que custe muito. Mesmo que custe tudo!

— Nada custa muito quando estamos falando de Dante.

— Adrian, — Yusra aproxima-se, agarrando-o pelos ombros. — me escute, por favor. Por favor. — Implora. — Eu sei que vocês perderam uma filha. Sei que estão fragilizados, sei que não suportam perder nada mais. Mas eu tenho certeza que o que Tahmon quer é caro demais. Vai custar tudo. Tudo. Não apenas a sua alma, nem mesmo a alma de Nora. Custará muito para todos nós. — Adrian para por um momento. — Você está mesmo disposto a sacrificar todos pelo Dante?

Adrian sela o último cavalo disponível. Yusra continua a repreendê-lo citando as possíveis consequências de aceitar qualquer barganha para salvar a alma de Dante. Ele não a escuta mais. O raciocínio retorna aos poucos. Yusra tem razão em um único ponto: Tahmon não tem interesse em barganhar com Adrian. Tem interesse em barganhar com Eleonora. E Eleonora com certeza foi buscar a Selena.

(...)

Nora nunca gostou da ideia de ser enterrada. O retorno à terra é natural e necessário. O corpo falecido paga à natureza com gratidão por todos os anos que consumiu tantos recursos, possibilitando a continuidade da vida por outras formas. O pai a ensinou assim. Por isso, Nora cavou a cova de todos os familiares com coragem e respeito.

Evitou em pensar na própria morte desde o dia que Eris a amaldiçoou na região dos Cárpatos após lidar com Miklos, o vampiro mais antigo e sedutor que conheceu durante toda a existência. Apesar de ter a possibilidade de não padecer, Nora tinha certeza que se acontecesse, independente de quando ou como, o corpo não teria nenhum cuidado póstumo. Não conhecia ninguém para instruir sobre os desejos pós-morte. E provavelmente o corpo apodreceria em céu aberto até que fedesse tanto que um desconhecido passando se incomodasse e lhe desse um fim; na água, no fogo ou na terra.

Então, Nora conheceu Adrian. Evitou o assunto tanto quanto podia até a noite em que sussurrou que gostaria de ter o corpo limpo com lavanda, alecrim e anis estrelado. Após as devidas despedidas gostaria que o corpo fosse cremado, e as cinzas espalhadas no ar. Adrian a escutou, sério. E provavelmente nunca mais pensou naquilo porque Nora simplesmente não morreria antes dele.

Até que morreu.

O corpo não foi preparado. Não houve despedida, nem uma cova. E o corpo também não apodreceu.

— Aqui estou. — A voz suave de Eris interrompe o silêncio típico do cemitério. Nora está sentada próxima da árvore, sem identificar o túmulo de Selena. Sabe que Adrian a encontrará em breve. Juntos irão lidar com a filha. Porém, precisava de privacidade para pensar na proposta de Tahmon. Eris acrescenta com perceptível surpresa: — Você me chamou.

— Você é a minha criadora.

Eris olha ao redor. Ao final da tarde a deusa é tão exuberante quanto antes. O cabelo cacheado e da cor de ouro cai pelas costas e contrasta com a pele escura. As vestes não pertencem à época nenhuma, mas são de tecido nobre e bem adornadas com jóias. Elas se encaram. Eris pisca os olhos tão dourados quanto o mel, o ouro e o trigo. Uma característica tipicamente impossível entre os mortais.

— Eu sou.

Nora encara as próprias mãos antes de contar resumidamente a história que ouviu de Tahmon. Quando termina, ambas inspiram fundo.

— É verdade? — Nora inquere. — Tudo isso é verdade?

— Essencialmente sim. — Nora segura o ar nos pulmões. — Os detalhes variam de memória para memória, mas sim: é verdade.

Nora analisa a deusa e refaz toda a trajetória que sempre acreditou ser uma vida azarada. Desde de Bryda, a avó carrasca que defendia a morte do próprio neto, o definindo como perda de recursos e tempo, até a viagem para os Cárpatos, Floare, Miklos, o primeiro encontro com Eris e a transformação da existência enquanto mortal.

— Não é uma coincidência. É?

Eris senta-se ao lado de Nora. Ela emana um calor diferente de tudo que Nora já sentiu antes. Eris é aconchegante como o sol de final de tarde na primavera. Ela cheira a alecrim. A pele escura é brilhante como o cabelo cor de ouro, como uma noite estrelada. Os olhos são pequenos, expressivos e amarelos como os de lobo. A deusa é estranha para os padrões mortais e principalmente para os padrões humanos. Mas é linda e familiar para a Nora. Um reconhecimento que, enfim, atravessa as eras.

— A sua vida atual? — Nora assente. — Não. Com exceção de Adrian, nada do que te aconteceu é acaso. — Nora inclina a cabeça. — Eu assisti a sua alma reencarnar por centenas de vezes. Após a punição, depois que Circe quebrou as regras criando a primeira vampira, eu inicialmente pensei que era justo. O tempo se passou, e as vidas se acumularam. Eu percebi que as reencarnações de sua alma não eram aleatórias. Não era acaso. Madora, a minha mãe, foi proíbida de interferir. A exigência foi feita por Revna, na tentativa de te poupar de mais sofrimento. Mais do que isso, uma tentativa tola de manter a impessoalidade da punição. — Nora fecha os olhos. — Madora cumpriu o acordo, mas aproveitou-se das brechas não estipuladas. Ela não interferiu diretamente em suas reencarnações. Moros, sim.

— Moros, o seu irmão.

Eris assente.

— Moros é o primogênito. Temos muitos irmãos, na verdade. Alguns já não estão conosco, por tragédia ou escolha. Porém, inicialmente éramos três filhos: Moros, eu e a minha gêmea, Iris. Nos tornamos os deuses principais, a quem nossos pais abençoou com mais cuidado e mais responsabilidade. Aos outros irmãos foi dado terras, preciosidades e diversos poderes. A maioria está espalhada pelo mundo, sendo engrandecidos por seus povos como “os únicos deuses verdadeiros”. — Eris ri. Nora exibe um quase sorriso. — Acho que eles nem se lembram de nós. Faz tanto tempo. — Eris toca a cabeça de Vincenzo, e Nora reconhece o carinho na alma. — Eu fiquei muito magoada quando percebi o que Madora estava fazendo. Eu era mais tola do que hoje sou. Pensei que a minha mãe se contentaria com a sua maldição e a punição do papai. Hoje percebo que ela esperava que Revna voltasse à família, implorando para ser perdoado e liberto ao mesmo tempo que se submeteria a ela. — Eris suspira alto. — Não aconteceu. Revna prefere carregar os grilhões pela eternidade.

— É tão ruim assim? Revna parece tão…

— Forte, não é? É porque você não se lembra do que ele era capaz antes. Quando a noite chegava, papai vinha como um estrondo que todo o mundo ouvia, independente de onde estivesse. Ele era forte e perigoso. Poderia transformar o dia em noite sempre que quisesse. Mas também era amável e gentil conosco. E com os que o adoravam. — Eris suspira, saudosa. — Enfim, já que Madora estava interferindo, eu decidi interferir também. Preparei uma família para que a sua alma encarnasse. Uma família descendente de Nur, que priorizasse a pureza da magia, apesar dos altos custos. — Nora pensa em Bryda. — Não podemos controlar tudo. Kalina se apaixonou pelo seu pai, um mestiço de licano e humano. Nikita foi uma surpresa boa, apesar de Bryda não o suportar. — Nora sente as primeiras lágrimas. — As cruzadas também foram outro acaso, desta vez infeliz, que trouxe morte ao seu povo.

— Bryda sempre soube.

— Sim. Bryda sabia desde que era criança. A mãe de Bryda também sabia. — Eris supira. — Não foi um acaso. Nem mesmo uma tentativa de te dar uma reencarnação melhor. Eu escolhi o melhor sangue e o lapidei por anos, por muitas gerações. Eu queria que o seu sangue fosse o mais forte possível, o mais mágico e mais parecido com o de Nur. A bênção que você sempre interpretou como maldição foi porque eu sabia que uma vida típica de bruxa não seria o suficiente para que aprendesse tudo o que precisava, para que se tornasse tão forte e poderosa como deveria. — Eris a encara como se pudesse ver através da carne de Vincenzo. — É claro que você criou os próprios desvios. Mas eu nunca fui como Madora, que exige devoção acima de tudo. Fiz isso com Bryda e foi tão terrível quanto poderia. Eu sempre fui muito mais como o meu pai. Vocês são livres. Acima de tudo são livres. E ter uma família, um marido e filhos, uma vida quase comum, não era ruim. Era uma pausa necessária. Era uma alegria que você merecia. Por isso, não interferi. Queria que fosse feliz porque isso te fortaleceria. Ao mesmo tempo, quando abrimos mão do controle absoluto, a vida acontece de formas inimagináveis. Um grande dilema, não é?

— O que você queria? — Eris franze o cenho. — Quando diz que nada foi um acaso? Quando diz que essa vida não era uma mera reencarnação mais agradável?

— Oh, sim. — Eris se apruma. — Quero que se liberte. Eu não te criei para ser escrava. E agora percebo que errei quando ajudei Madora e os meus irmãos a punirem você e Revna. Madora nunca esteve interessada em manter o equilíbrio da natureza. A verdade é que a minha mãe precisava que Revna estivesse frágil demais para se opor às decisões que tomaria. E o mundo hoje… — O suspiro de Eris é extenso. — é muito diferente do que sonhamos. É muito pior. A sua raça, por exemplo, quase não existe mais. Os licanos tem uma projeção um pouquinho melhor, mas ainda assim estão sendo dominados pelos lobisomens. E eu nem sei mais se os seres feéricos existem, já que Iris sumiu… Se continuarmos assim, em poucos séculos todas as raças estarão extintas. Apenas os seres-humanos sobreviverão. E talvez os vampiros. — Eris pensa por meio segundo. — Os vampiros com certeza. Foram amaldiçoados ao nascer, mas agora são mais como uma ferramenta para manter o equilíbrio, considerando que os seres-humanos não param de se reproduzir. No final acho que todos nós, até mesmo as criaturas desprezíveis, fazemos parte do ciclo muito maior, que não compreendemos totalmente.

Notas finais
Todas as criaturas desse universo têm limitações. Isso é normal. Ao mesmo tempo, muitas vezes vimos que o Revna tinha excessivas limitações. Ninguém nunca me questionou diretamente. E eu sempre soube que era contraditório termos uma entidade que existe antes da criação do mundo e que pouco faz pra resolver as coisas. Espero que agora faça sentido! Eu também sempre tive medo que Nora fosse excessivamente poderosa enquanto eu repetia que ela era apenas uma bruxa. Então também espero que agora tudo se encaixe! É engraçado porque ao mesmo tempo que isso é um encerramento também é um novo começo. Acho que fica muito claro sobre o que será a próxima história! Obrigada por todos que tiram um tempo para lerem e comentarem! Espero que gostem tanto quanto eu!