Tempo da Bruxa
3 Linhagem
Dante a encara com uma expressão severa. A postura corporal também não é amigável. Nora não consegue levantar-se. A surpresa a enfraqueceu duplamente. Ela segura o grimório contra o peito como se não fosse sobreviver se o soltasse.
— Está mexendo nas minhas coisas? — Dante resmunga, aproximando-se com agressividade. Ele tenta puxar o grimório dela. Nora não solta o caderno que ela mesma costurou as páginas. O garoto é bem mais forte do que ela se lembra, embora não esteja em condição de avaliar nada. O corpo humano é frágil em excesso ao ponto de Nora não saber mais diferenciar se o cansaço extremo é uma doença ou o padrão. De qualquer forma, ela não solta o grimório. — Solte isso! — Dante exige. — Não é seu! Isso não é seu! — A voz engrossa a cada frase. — Por que está no meu quarto?! — Dante puxa o grimório ao mesmo tempo que Nora luta por ele. A disputa é tão intensa que Nora escuta o frágil caderno rasgar, apesar da capa de couro. — Sua maldita!
— Dante, pare com isso! — Nora exige também.
O garoto se afasta, e ela levanta-se, apoiando-se no baú. Ela mantém o grimório apertado contra o peito. Há muitos outros cadernos no baú, mas Nora reconhece a importância diferenciada daquele grimório que protege com disposição.
— Pare você com isso! Você prometeu, Madalena! — A voz dele é como um rosnado irritado. Nora não o reconhece. — Prometeu ao Adrian que ficaria longe de mim! Solte isso! — Dante avança no grimório outra vez, puxando-o com violência. — Não é seu!
Nora puxa o grimório também.
— Muito menos seu!
Dante ri, chocado.
— É mais meu do que seu! — Dante toma o grimório com violência. Nora franze o cenho. — Saia daqui agora! Saia daqui!
— O que aconteceu com você? — Ela se aproxima, e Dante foge do confronto. — Diga-me. O que aconteceu com você? — Dante é tão alto quanto o pai. E Madalena é tão baixa quanto poderia ser. Ainda assim, o garoto evita encará-la exatamente como um cachorro faz para cessar o confronto. — Responda-me, garoto! — Nora exige, severa como apenas uma mãe atribulada pode ser. — Você não é mais mudo!
— Saia do meu quarto! Aqui não é o seu lugar.
Nora o agarra pelos ombros e o sacode. O aperto em seu peito é tão angustiante que ela se exacerba e reconhece. Porém, não pode desistir. Se pressioná-lo é o único caminho para a verdade, que assim seja.
Inicialmente, Dante é frágil como Nora se lembra. Como o garoto que deixou quando faleceu. Ele se deixa ser sacudido por poucos instantes. Quando a pouca paciência acaba, Dante a empurra com agressividade e resmunga algo que Nora, devido a experiência, reconhece como um rosnado de alerta.
O braço arde e sangra imediatamente devido ao corte que as unhas dele fizeram. Nora não desvia os olhos do garoto porque precisa certificar-se que o que brilha no fim de tarde são presas afiadas.
— Dante…
É um lamento. É um suspiro.
— Eu disse pra me deixar!
O garoto chora copiosamente, agitando-se. Ele encara as unhas pontudas que excederam-se devido ao nervosismo. Nora interrompe a distância entre eles e obriga o garoto a deixá-la examinar as gengivas vermelhas. O canino excessivo retrai-se conforme ele se acalma. Nora tem tempo de esfregá-lo, para certificar-se que o corpo frágil não está alucinando, e sente quão afiado a presa é.
— Você é como o seu pai… — Nora comenta, absorta. Se Dante responde, ela não escuta. A única coisa que pensa é quantas vezes Adrian lhe garantiu que não havia a possibilidade de Dante ser como ele; afinal, a genitora do garoto era apenas uma humana qualquer. Porém, Nora foi tola em acreditar. Nem sabe porquê o fez. O genitor de Adrian era um humano qualquer, até mesmo típico. Ainda assim, a forte linhagem prevaleceu. — Eu pensei que não haveria mais de vocês. Deus… — Nora segura o rosto do garoto. — Meu filho, você é quase um milagre.
Nora esquece-se que está presa ao corpo de Madalena e quase se ofende quando Dante foge. Ela o cerca novamente, desta vez sem a ira.
— Garotinho, sou eu… — Nora implora. — Eu sei que faz tempo. Quando o deixei, era apenas um garotinho. Já me esqueceu? — Dante desvia o olhar. Nora segura o rosto dele. — Sou eu, querido. Babayaga, lembra-se? Casa apoiada em pés de galinha, hein? — Dante arregala os olhos, ainda resistente. Nora inclina a cabeça. — E fechadura com dentes.
— Você me prometeu que não era uma baba yaga.
Nora ri e o abraça com força. Com toda força que o seu corpo frágil. Dante joga-se nela como se ainda fosse uma criança de oito anos. Nora não tem mais forças para sustentá-los e agacha-se, sentando-se. O choro dele é baixo e doloroso. Por alguns minutos, nada concreto é dito. Nora pensa em garantir que não é, nem nunca foi, uma Baba Yaga. Até mesmo pensa em contar de algumas Baba Yagas que conheceu. Nada escapa da sua boca. Ela aperta Dante na mesma intensidade que o garoto chora o luto reprimido. Ela não consegue chorar também. Não tem o direito. Enquanto Dante crescia, Nora estava ausente. E ela prometeu que nunca o deixaria.
Nora falhou. Outra vez.
A noite chega, e Dante acalma-se. O quarto está escuro devido a ausência de velas acesas. Nora concentra-se para invocar o fogo. Antes, ela seria capaz de queimar uma clareira. Agora contenta-se em acender três velas próximas a eles. É o suficiente para Dante acreditar em seu retorno ao mesmo tempo que Nora sente a cabeça rodar e percebe que é incapaz de executar qualquer outro ato mágico um pouco mais elaborado. Tem certeza que morrerá se o fizer. Ao menos, o corpo de Madalena o fará.
— Como fez isso? — Dante questiona, franzindo o cenho. — Como voltou?
Nora balança os ombros.
— Me pergunto o mesmo.
Dante agarra as mãos dela.
— Há quanto tempo?
Ela balança os ombros de novo.
— Não tenho certeza.
— Aquela manhã…? — Nora assente. — Por que não me disse, mamãe?
É estranho ouvi-lo a chamar de uma forma tão carinhosa, principalmente porque estava acostumada a lidar com um garotinho franzido e nada parecido com o pai até então.
— Eu disse!
Dante encolhe os ombros, envergonhado. Depois, a encara. Os olhos brilham. Mais lágrimas e abraços apertados. Nora não os recusa. Precisa de cada um deles para se manter sã.
— Quando você veio até mim… — Nora murmura, acariciando o cabelo dele. — Pensei em lhe assustar com uma casa com dentes na porta. — Dante funga. — Não tive coragem. Você era apenas um garotinho pequeno e perdido. Não falava nada…
Dante deita a cabeça no colo dela. Nora apoia as costas no baú.
— E então?
Dante ouviu a história centenas de vezes. Na maioria das noites antes de dormir, ele solicitava que Nora contasse de novo. Desta vez, ele chora enquanto Nora fala.
— Eu sabia que não devia. — Nora volta a contar. — Você era um garotinho muito bem apessoado para ser um garoto qualquer. Não me dizia o seu nome. E nem precisava. Eu sabia que era filho de um nobre. Eu o levei para dentro. A charneca era longe, mas uma mãe iria a qualquer lugar para encontrar o filho. Mas ninguém veio. E você também parecia não sentir falta. — Nora sorri enquanto se lembra dos detalhes. — Você brincava com os cachorros enquanto eu sabia que podia encontrar os seus pais. Eu só precisava de uma mecha do seu cabelo. Era queimado pelo sol antes. — Nora observa o cabelo escuro dele agora. — Mas não o fiz. A cada noite eu me convencia que não havia ninguém por você lá fora. Mas eu cuidaria de você. E se você não falasse nunca mais, eu lhe ensinaria a se comunicar de outra forma.
A pausa é longa. Nora apoia a cabeça no baú enquanto sente o corpo doer. Dante acalma-se também.
— Então, era a primeira noite de lua cheia. Eu não gostava que você brincasse lá fora nesses dias. — Eles se olham. — E eu sentia que algo aconteceria. E naquela noite, os cachorros latiram sem parar. Eu sabia que havia algo lá e também sabia que não ousaria me perturbar. — Nora encara o teto e quase sorri. — Então, os uivos começaram. Sabe uma coisa sobre lobos? — Dante nega. — Eles vivem em grandes famílias. Eles precisam um dos outros para sobreviverem. Mas aquele lobo estava sozinho. E uivava, uivava e uivava. — Dante a encara com verdadeira curiosidade. E Nora percebe que faz anos que ele não ouve a história. Provavelmente esqueceu-se de boa parte dos detalhes. — Eu sabia que aquele lobo não poderia causar nenhum mal. Ele não tinha permissão para pisar naquele solo consagrado. Mas os uivos? Irritantes. — Dante ri. — Eu queria dormir.
— Mamãe! Fale sério!
Nora ri também.
— Mas eu estou! — Dante a repreende. — Tudo bem. Então, eu saí da charneca e o vi. Era grande demais para ser lobo ou lobisomem. Eu soube na hora que era um licantropo. É uma linhagem pura, diferente dos lobisomens. — Nora comenta. Dante concorda. — Então, eu disse: “Vá embora! Nada aqui é seu!”.
— Você realmente falou isso?
Nora assente.
— Claro.
— E não sentiu medo?
Nora dá de ombros.
— O tempo todo. Eu só pensava: “Deus, eu roubei um filhote!”. — Dante gargalha. — Mas eu não deixaria ele te levar desta forma! Ora! O que ele pensava? Que eu te tiraria da cama e lhe entregaria como uma prenda? De forma alguma. Você não iria a lugar nenhum no meio da noite. — Dante senta-se também e a observa. — Mas o lobo não foi embora. Passou dia e noite ao redor da charneca. Até que a lua mudasse. E assim conheci o seu pai.
Dante pondera. Nora o observa, tentando absorver todas as mudanças.
— Eu sou como ele, não sou?
Nora suspira.
— Sim.
— E você sabia?
— De forma alguma. O seu pai garantiu que você não era licantropo. E eu acreditei. Porque se fosse, eu sentiria. E eu nunca senti nada.
— Então, eu não sou?
Nora pondera.
— Acho que minha preocupação de mãe me cegou para o óbvio.
Dante levanta-se e acende as outras velas. Depois, senta-se na cama.
— Machuquei você.
— Não. — Nora olha o corte. — É apenas um arranhão.
Dante segura a própria cabeça.
— Não sei o que está acontecendo comigo. Acho que Madalena tem razão. Estou possuído.
Nora levanta-se também.
— Meu filho, não seja tolo! — Nora senta-se ao lado dele. — Isso não é possessão. É o seu dom.
— Dom?! Não parece um dom, mamãe. Meu pai nunca falou disso como um dom!
Ela desvia os olhos.
— É diferente. Para o seu pai foi diferente. Ele não teve ninguém para ensiná-lo. Foi separado da família.
— E eu tenho? — Nora não responde. Ela sabe que a resposta é dura. Adrian não teve contato com a família que lhe transmitiu o dom da licantropia. Por isso, nunca soube nada de si mesmo. Foi entregue a besta interior sem nenhuma preparação; dominado e desfeito a cada lua-cheia. Não pode ensinar ao filho o que também não sabe. E Nora conviveu com lobos puros, mas é o tipo de conhecimento que não é compartilhado com pessoas de fora. — É uma maldição.
— Não, não é. — Nora alcança as mãos dele. — Escute, querido, eu nem posso imaginar o quão difícil esteja sendo. Eu nunca vou saber porque não sou como vocês. Eu li tudo o que eu podia sobre. E só posso presumir que esse período seja o pior; as emoções à flor da pele, o corpo se transformando, tudo mais intenso do que é… — Dante desvia os olhos. — Mas não é uma maldição. Lobisomens são amaldiçoados. Você, não. A sua linhagem? Não.
— Eu não quero. Da mesma forma que Adrian não quis, eu não quero.
Nora não pode discutir, nem discordar.
— Não se preocupe. Eu não vou permitir que passe por nada que não queira. — Nora o encara. — É uma promessa. Me ouviu? É uma promessa.
Dante assente e não a questiona mais por alguns segundos. Quando o faz, reclama exatamente da mesma coisa que Nora:
— Por que a Madalena, mãe?!
Nora ri e encolhe os ombros.
— Não faço ideia. Eu nem sabia que isso era possível. Eu ouvi falar de fantasmas, sim. Mas fantasmas possuindo corpos alheios? Tanto tempo depois? Não mesmo. — Dante demonstra o seu desprezo a figura de Madalena. Nora observa. — Querido, quanto tempo faz? Você sabe o que aconteceu?
— Alguns anos. Seis. — Dante suspira. — Não sei. Adrian nunca me contou. Você só não voltou mais para casa.
— E o meu corpo?
Dante dá de ombros.
— Eu não sei. Enterramos um caixão, mas não sei. Adrian não me deixou ver.
— Adrian? — Nora franze o cenho. — Desde quando o chama assim?
Dante levanta-se.
— É o nome dele. Qual o problema?
— É o seu pai. E você o amava. E ele te ama. Não tenho dúvidas.
— Ama? — Dante debocha. — Mamãe, muito tempo se passou. Tempo o suficiente para eu ter dúvidas.
Nora perde as palavras. Conversar com Dante é diferente. Antes, ele era uma criança pequena e amorosa. Agora é um homem quase feito e magoado. As respostas variam entre amor, mágoa e algo ainda pior, algo parecido com ira.
— Quantos anos você está?
— Quinze.
Nora calcula.
— Estou morta há sete anos. — Nora lamenta. — O que aconteceu? Cadê a sua irmã? Por que Madalena está dentro dessa casa? Por que há tantas cruzes? Você já…
Dante nega.
— Ainda não.
Ela se alivia.
— Certo. A primeira transmutação deve acontecer na primeira lua cheia durante a quaresma após a pessoa completar quinze sóis. — Dante arqueia as sobrancelhas. — Em que mês estamos? Janeiro? — Dante assente, surpreso. Até mesmo Nora se surpreende com o palpite. — Temos um pouco mais de dois ciclos lunares. — Nora o alcança. — Nós vamos resolver. Eu prometo. Você não passará por nada que não deseja. Eu prometo, garotinho.
Dante o abraça. Nora o conforta.
— Mamãe? — Ela responde. — Converse com Adrian.
— Eu farei. — Nora pondera. — Mas preciso que mantenha isso entre nós. Tudo bem? — Dante inclina a cabeça. — Não quero que ninguém saiba que isso está acontecendo. Nem mesmo Adrian. — Ele a questiona com os olhos. — Eu preciso entender primeiro, querido. Eu preciso ao menos entender tudo o que mudou enquanto estive… Morta. Inclusive, entender o quanto o seu pai mudou.
***
— Adrian… — Adrian arqueia as sobrancelhas e derruba um pouco de café na toalha de mesa. Nora o analisa antes de aproximar-se. Sentado à mesa de dois lugares, disposta na varanda da biblioteca, ele parece surpreso ao ver Madalena se aproximar. Nora também se surpreende por vê-lo consumir o desjejum isolado. Antes, era comum que todos comessem juntos à mesa. — Parece assustado.
Ele limpa a boca e ganha tempo para retrucá-la. Nora para diante à mesa, mas não se senta.
— Assustado? — Ele nega com a cabeça. — Surpreso, apenas. Parece bem disposta.
Nora estreita os olhos.
— Está surpreso por que pareço bem disposta?
Adrian franze o cenho.
— Não, é claro que não. Estou aliviado que esteja se recuperando, minha senhora. — Nora une as mãos em frente ao corpo como presume que uma nobre dama como Madalena faça. É um verdadeiro esforço para manter o rosto neutro. — Onde está a Lady Rossi?
Nora encara o lugar vazio da mesa.
— Não vai convidar a sua esposa para sentar-se?
A suposição o espanta ainda mais. Um tanto quanto desajeitado, Adrian levanta-se e puxa a cadeira para Madalena. Nora senta-se e avalia que a mesa está disposta para servir apenas uma pessoa.
— Madalena, — ele chama, sério. — estou preocupado. Sente-se realmente melhor?
Nora suspira, dividindo-se entre tentar entender a dinâmica da situação e fingir ser Madalena. É difícil porque Madalena lhe parece desagradável e Nora não conversou mais que dois minutos com a mulher. Ao mesmo tempo, Adrian definitivamente não é o mais atento.
— Agradeço a preocupação. — Nora presume que isso é o que Madalena diria. — Me sinto melhor, sim. O senhor tinha razão. Sair um pouco do quarto me fez bem. A Lady Rossi sentiu a necessidade de ir à igreja.
— E não quis acompanhá-la?
— Não desta vez. Talvez eu me sentiria mais disposta se o senhor aceitasse me acompanhar. — A expressão dele é neutra, e Nora se esqueceu do quão indiferente ele pode ser. — Me sinto melhor, é um fato. E devo a Deus essa melhora. Ao mesmo tempo, não me sinto confiante o suficiente para sair sozinha.
— Não estaria sozinha. A Lady Rossi está aqui exatamente para acompanhá-la.
— A companhia de uma dama não é como a companhia de um marido. — Adrian arqueia a sobrancelha. — Desculpe. — Nora esfrega o rosto. — Acho que esse tempo doente me deixou um tanto quanto… sensível. Me perdoe se me excedi.
— Não consigo te acompanhar durante a semana. Porém, se ainda estiver disposta, podemos ir à missa domingo. Foi o que combinamos, não?
— Oh, sim! — Nora esconde a surpresa. — Sinto que estive tanto tempo doente que ainda não consigo acompanhar as coisas. — Adrian lhe oferece um sorriso sutil. — E isso me preocupa. Não sei o que aconteceu. — Ela abraça o próprio corpo. — Temo padecer novamente. O que o médico disse?
— O sr. Bianchi acredita que tenha padecido de uma gripe forte. Algo nos pulmões.
— Deus! — Nora não acredita que uma gripe deixaria um corpo tão frágil, ainda que seja um corpo humano. — Espero que a minha recuperação seja completa.
— Eu também espero.
— Nem sei quanto tempo estive doente. Algumas semanas? — Adrian assente. — Foi uma gripe forte, então. Graças a Deus… — Nora ri no meio da frase. E arregala os olhos quando percebe a risada. O rosto queima. Adrian franze o cenho também. — Desculpe. — Ela tampa a boca e tosse. Nora se esforça para manter a seriedade, mas como é possível que Madalena exista daquela forma? — Ainda não estou bem. Só agradeço a Deus pela melhora. Espero que não se repita. — Adrian concorda outra vez. Madalena enche os pulmões de ar. — Passei muito tempo doente. Imagino que tenha acontecido muitas coisas. Tem notícias de Selena?
É uma pergunta arriscada. Contudo, Nora não suporta mais a incerteza. Ela sabe que a filha está viva. Ao menos, torce para isso. E se não tivesse, Dante teria lhe alertado. É um detalhe importante para quem pretende manter a farsa por alguns dias.
— Selena? — Adrian arqueia as sobrancelhas. — Preciso admitir que a senhora tinha razão. A instrução da Lady Conti e a companhia das primas parece ter a ajudado. Preciso confessar o meu erro… — Adrian desvia os olhos. Nora segura o ar nos pulmões com tanta força que os queima. — Durante o tempo que esteve padecida, precisei ler as suas cartas. Não tenho intenção de invadir a sua relação com sua irmã, mas precisava ter notícias de Selena. — “É claro”, Nora parece responder. Não se escuta. Não de verdade. A única coisa que escuta são as batidas pesadas do coração. Altas e intensas. — Os pesadelos diminuíram, e os ânimos se acalmaram. Acredito que aqui, de alguma forma, impressionava Selena. É uma criança muito pequena. A imaginação é extensa. E as histórias são muitas. Alertei aos servos quanto a isso. Não desejo ouvir mais sobre essas crendices. Tenho problemas… Problemas de verdade para resolver.
O sorriso é irônico, mas Adrian não percebe.
— O senhor tem razão. As crendices assustam as crianças. — Nora mantém o olhar baixo enquanto tenta se tranquilizar. Selena está viva e aparentemente bem, embora distante de casa. Ela não tem certeza de que tipo de sonhos ou pesadelos Selena sofre, nem se era excesso de criatividade. Nora precisa se lembrar que Selena é sua descendente. É esperado que seja como toda a família. E não é bom que esteja longe de casa; muito menos com cristãos. As manifestações são mais intensas quando não são instruídas. E… Nora percebe a piora do humor quando sente o vento intenso atingi-los. É um vento forte o suficiente para balançar a toalha da mesa, levar todos os lenços e derrubar louças vazias. — Fico feliz que o senhor tenha aceitado a sugestão.
A xícara de Adrian treme também, derrubando um pouco de líquido. Adrian olha ao redor, tentando entender a mudança brusca de tempo. Depois, ele a encara. Nora segura a xícara antes que ela caia da mesa.
— Já que o senhor aparenta estar tão… — Nora devolve a xícara para o lugar enquanto tenta se acalmar. É um pouco difícil para ela perceber que está causando toda a situação. Sente-se adolescente outra vez, quando há muitas centenas de anos não era capaz de dominar o temperamento. A avó lhe dizia que era a forte linhagem que elas possuíam. — Aberto a conselhos… — Nora debocha, perdendo toda a gentileza que Madalena aparenta ter. — Por favor, aceite um: acho que faria bem a Selena voltar para casa.
— O seu nariz… — Adrian franze o cenho. Ela toca a pele e sente o líquido viscoso e quente. Adrian apressa-se para lhe oferecer um lenço. — Madalena, por Deus! O que há com você? Vou chamar o senhor…
Nora levanta-se bruscamente e sente a cabeça girar. Ela apoia-se na mesa ao mesmo tempo que Adrian a segura também. Ele posiciona o lenço no nariz sangrento. Nora o detesta e se esforça para empurrá-lo, esquecendo-se do corpo inútil de Madalena.
— Deixe-me! — Nora exige, severa. E a sua voz parece distorcida. Adrian a mantém com firmeza. Ela luta para soltar-se. — Me solte!
— Madalena! — A repreensão é tão severa quanto às exigências dela. — Você…
Nora agarra a roupa do Adrian com raiva, sujando a camisa de sangue.
— Como você fez isso?! — Nora esbraveja. — Solte-me! Não encoste em mim! Você… — Nora gesticula e ri quando o pensamento surge. — É um traidor. Deus, — Ela segura a cabeça. — eu devia saber. Eu… — A visão é turva. Nora tenta sair da varanda. — Me usou! Todo esse tempo… Eu preciso…
A última coisa que ela escuta, não necessariamente sente, é o barulho do corpo batendo contra o chão.
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