O crepitar da lenha na lareira abafa a conversa um tanto quanto exaltada que acontece entre o médico e Adrian no corredor. Se estivesse um pouco mais disposta, Nora se esforçaria para participar. Desconfia que o mal que assola o frágil corpo de Madalena não pode ser curado por médicos comuns e práticos, nem mesmo pelas rezas insistentes da Lady Rossi.

Nora encara as mãos frágeis e sem cor dispostas no colo. O corte, causado pela disputa com Dante, não está nem perto de cicatrizar. O corpo é incapaz de lidar com a ferida, que sangra quase o tempo todo. Em comparação, o sangramento do nariz cessou. Nora, ao menos, sabe a origem deste sangramento e percebe que não pode se exceder. O corpo não suporta nenhum tipo de magia.

O corpo mal se suporta. Madalena estava morrendo?

Nora observa a bíblia disposta em seu colo; sugestão da Lady Rossi. Nora nem tem forças para se livrar do livro e ir para o sofá, que é bem mais confortável que a cadeira de rodas. Ela também evita se olhar no reflexo do imenso espelho da sala. Durante toda a sua passagem na Terra, Nora feriu-se gravemente várias vezes. E nunca esteve tão debilitada assim. Ela sabe que o reflexo não a pertence. Sabe que o corpo adoecido é de Madalena. Contudo, é Nora quem está presa na cadeira de rodas, dependendo da generosidade alheia para levá-la de um cômodo a outro porque os braços são fracos demais para mover as rodas, e as pernas não sustentam o corpo mirrado.

— É esse? — Dante questiona, mostrando-a o grimório. Nora reconhece a capa e pega o caderno feito em papiro e couro. É um pouco menor que a versão extensa da bíblia, por isso Nora posiciona o caderno dentro do livro cristão. Ela folheia algumas páginas, reconhecendo a própria letra. O grimório foi escrito em diferentes idiomas. O principal é o seu idioma natal com foco nas runas antigas. — Você consegue ler isso? — Nora observa Dante e assente. Ele arqueia mais as sobrancelhas. — Que língua é essa? Não entendo nem as letras.

Nora solta o ar pelo nariz e olha ao redor. A Lady Rossi ainda está ocupada com as preces, e Adrian discute a saúde da esposa com o médico, que parece cada vez mais atordoado.

— Ajude-me sentar em um lugar mais confortável.

Dante é prestativo como ninguém, quase disposto a carregá-la até a poltrona. Nora apoia todo o peso do corpo nele porque as pernas são frágeis demais naquela tarde excessivamente fria. O garoto tem o cuidado de cobri-la também. Nora o observa um tanto quanto fascinada. Ainda é estranho perceber que o rapaz alto, com cabelo na altura do ombro e ondulado é o garotinho que achou perdido na floresta. Os olhos são os mesmos, porém. Grandes e expressivos, com cílios cheios.

Nora o convida para sentar-se ao seu lado. Dante receia e aceita, mantendo alguma distância. Ela opta por não questionar e mostra o grimório. Nora sabe que o caderno foi folheado diversas vezes e incentiva Dante a folhear mais uma, um pouco mais atento a todos sigilos e signos incompreensíveis para boa parte do mundo.

— É a língua das bruxas. — Nora responde, e Dante arregala os olhos. Nora ri. — Na verdade, era a língua que o meu povo falava há muitos anos. — Ela franze o cenho. — Centenas de anos atrás. É algo mais rudimentar, que originou algumas das línguas que vocês conhecem agora.

Dante parece impressionado. Para Nora é difícil perceber que todos aqueles detalhes — que para ela são comuns e óbvios — são novidade para o garoto.

— Quantos anos?

— Mais de quatro séculos.

Dante abre e fecha a boca diversas vezes. Nora ri.

— Você nasceu lá? — Ele coça o rosto. — Você estava lá há quatro séculos? Quantos anos você tem?

— Mais ou menos. — É a resposta para todas as perguntas. — Eu nasci na região que hoje vocês chamam de Moscóvia. — Dante concorda, impressionado. — Não tenho certeza de quantos anos eu teria hoje… Mas eu tinha um pouco mais de 370 quando morri.

— Mentira! — Dante responde alto demais.

Nora ri e o cutuca com o cotovelo.

— Por que eu mentiria?

— Ninguém vive tanto tempo.

— Isso é o que contaram pra vocês? — Ele franze o cenho. — Esses cristãos? — Dante assente. — É mentira. Eles não sabem de nada. Estão aqui há pouquíssimo tempo e acham que tudo pertence a eles. Ao deus deles. O deus deles nem existe de verdade.

— Mamãe… Isso é blasfêmia.

Nora ri.

— Isso é a verdade. Há muitos deuses por aí, querido. Tantos que não poderíamos saber os nomes de todos eles. Mas esse deus, o deus da Madalena, é uma mentira dos homens para perseguir as pessoas que são diferentes.

— Pessoas diferentes?

Nora assente.

— Qualquer um que ouse ser diferente. — Dante silencia-se, pensativo. — Bruxas podem viver muito tempo. Hoje são raras as bruxas que vivem tanto. As coisas mudaram. — Nora lamenta. — Mas antes elas viviam tanto que eram sacerdotisas de templos. E podiam até se tornar deusas para os humanos. — Dante arqueia as sobrancelhas. — A sua família também vivia muito. Os Licantropos e as Bruxas eram povos amigos, antes dos falsos deuses e da maldade dos homens. — Dante morde o lábio inferior, agitado. — Mas isso é assunto para outro momento. Agora, — Nora vira o corpo frágil em direção ao garoto. — conte-me. — Dante inclina a cabeça. — Você é quase homem agora. Tanta coisa mudou. E eu não acompanhei nada. — Nora lamenta. — Conte-me.

— Não é a sua culpa. Você não escolheu morrer.

Nora lamenta.

— Não, não mesmo. — Ela desvia os olhos. É um esforço para não deixar a conversa os angustiar outra vez. — Mas diga-me. Não é mais uma criancinha. Estou me acostumando com isso. E estou tentando pensar em perguntas que você não julgue bobas.

— Você não é boba, mamãe.

Nora sorri.

— Mas as coisas mudaram. — Dante concorda. — E os seus interesses também. Aposto que não tem mais desejo de encontrar dragões. — Ele gargalha. — Imagino que os seus interesses agora sejam… — Nora pondera. — Em belas damas.

O rosto dele fica vermelho muito rápido. Nora ri.

— Mamãe, não…

Nora estreita os olhos, incrédula.

— Talvez belos rapazes?

— Mãe! — Dante a repreende, severo. O tapa que ele dá em seu braço é leve; algo que apenas um rapaz envergonhado faria. Nora gargalha. — Você sabe que isso não é natural.

Nora revira os olhos.

— Não seja tolo, Dante. Como não seria natural se as pessoas são assim desde sempre? — Dante arqueia as sobrancelhas. — Essa é apenas outra mentira que as pessoas dizem por aí. Não há nada de anormal. Não é nem mesmo algo que podemos escolher.

Dante abaixa o olhar, e Nora teme o que o perturba. Nora teme, na verdade, todo o tempo que Madalena teve com os filhos para perturbá-los com todas as besteiras cristãs que acredita.

— Mamãe… — Dante chama baixinho, olhando para o braço de Nora. Ela percebe o curativo improvisado sujo de sangue. — É muito sangue.

Nora pressiona o curativo e resmunga baixo. O mero toque de Dante foi o suficiente para abrir a ferida de novo.

— Preciso que pegue…

Dante move-se antes que Nora termine de orientá-lo. Ela ainda se esquece que o garoto não é mais uma criança inexperiente. Em poucos instantes, Dante retorna com um retalho de tecido limpo. Ele apressa-se para desfazer o curativo improvisado. As mãos são ágeis e delicadas na limpeza da ferida. Nora sente o cheiro desagradável, que indica infecção. Dante também sente, duas ou três vezes mais forte, e faz uma careta. Ela garante que cuidará daquilo em breve e pede para que ele refaça o curativo ao mesmo tempo que a Lady Rossi aproxima-se agressivamente, puxando o garoto para longe.

Dante estava agachado diante da poltrona, apoiando-se nos joelhos. Por isso, a abordagem da lady é o suficiente para desestabilizá-lo, caindo sentado no chão. O baque chama a atenção de Adrian e do médico.

— O que está fazendo, garoto? Outra vez?! — Lady Rossi puxa o braço de Madalena, avaliando a ferida. — Você fez isso?! — Dante tenta falar, mas o nervosismo atrapalha. — Está fazendo isso de novo? O que pretende? — Rossi é tão agressiva quanto poderia. Dante levanta-se e gesticula. — Está infeccionado! É por isso que Madalena não melhora! Você…

— Eu não…

Dante perde as palavras. Ele é tão frágil quanto Nora se lembra. As lágrimas aparecem.

— Pare com isso. — Nora exige, mas não tem forças de levantar-se. — Lady Rossi! É um garoto! Pare com isso!

— É um garoto?! — Ela rebate. — Que seja. A pouca idade não o ausenta de maldade. Madalena, não é a primeira vez! Não é um garoto. É um assassino!

Nora arregala os olhos e perde as palavras. A raiva arde em seu peito.

— O que está acontecendo? — Adrian esbraveja, empurrando a lady para se aproximar de Madalena. Ele puxa o braço dela com força e avalia o machucado. Ele reconhece as marcas com facilidade. Afinal, ele mesmo deixou várias por muitos lugares. — Dante…

— Está vendo, Adrian? — Rossi resmunga. — O problema é esse garoto. O senhor garantiria que não haveria outros incidentes!

— Incidente? — Nora exige. — O que está acontecendo? Dante…

Ele é frágil como uma criança e tenta falar entre soluços.

— Eu não fiz isso! Não fiz!

— Você fez, sim! Como da última vez!

— Lady Rossi! — Nora repreende, severa. Não é ouvida. — O que está acontecendo?

— Eu disse ao senhor… — Lady Rossi tenta piorar a situação.

Adrian para de avaliar a ferida e aproxima-se de Dante, segurando-o pelo ombro. Não há cordialidade.

— Tínhamos um combinado.

— Mas, pai, eu…

— Por que continua se comportando tão mal, Dante? — Adrian esbraveja, impaciente. — Outra vez! Eu lhe alertei do que aconteceria se insistisse nessa loucura! Não pode… — Adrian gesticula e ri, incrédulo. — Dante, você deveria se comportar como o homem que se tornou. Não é mais uma criança mimada. Por que insiste em machucar as pessoas? É o que pretende se tornar? Age como um animal irracional! Ou algo pior. Eu deveria…

— Deveria? — O choro é substituído por raiva. — O senhor deveria?! O quê? — Dante esbraveja, gesticulando. — Vamos, papai. Diga-me o que o senhor deveria fazer.

— Pare com isso.

— É o que o senhor está tentando há tanto tempo! — Dante aproxima-se de Adrian. Adrian não se afasta, piorando a tensão. — Eu devo ser realmente uma presença muito desagradável para o senhor. A cada dia que passa mais certeza eu tenho. O senhor nunca me suportou! Se pudesse, teria me deixado morrer na noite que nasci! A verdade, papai… — Dante sorri, maldoso. — é o que o senhor me suportou enquanto minha mãe estava viva para agradá-la! O senhor nunca me amou! — Dante aponta o dedo para Adrian. — O senhor, sim, amou Eleonora. E suportou a mim por ela.

Adrian o agride ao mesmo tempo que Nora levanta-se, tropeçando.

— Coloque-se no seu lugar…

— Adrian! — Nora agarra ele pelo colarinho, berrando. — Você está louco?! — Nora berra tanto que a garganta dói. Dante recupera-se, apoiando-se no móvel. O único motivo para que a briga entre eles não se exceda é porque Nora segura Adrian pelo colarinho como faria com um cachorro. — Você enlouqueceu! — Nora o sacode. As lágrimas escorrem. E são lágrimas de sangue. — É o seu filho! É o seu filho!

— É um garoto desrespeitoso.

Nora o solta e ri, incrédula. Dante levanta-se e pretende defendê-la. Ela ordena que Dante suba para o quarto. Ele resiste, mas a obedece. Nora afasta-se de Adrian, avaliando-o ao mesmo tempo que não o reconhece.

— Madalena… — A Lady Rossi sussurra. Nora percebe o líquido viscoso escorrendo por seu rosto, sujando o chão e o vestido. — Você…

Nora aponta o dedo trêmulo para Adrian.

— Você vai sofrer por isso. — Ela jura, cuspindo aos pés dele. — Eu te amaldiçoo hoje. E essa maldição vai te perseguir enquanto eu viver. Toda a dor que causar ao sangue do seu sangue, sentirá duas vezes mais. Eu juro que assim será.

Adrian ri e abre os braços.

— Já é assim! Como você não percebe?! — Nora afasta-se. — Você não percebe, Eleonora? — Adrian grita, tentando a seguir. O médico o segura. — Eleonora!

***

O choro ressentido de Dante dura vários instantes. Nora não pretende interrompê-lo, nem mesmo acalmá-lo. Seria injusto reprimi-lo considerando a gravidade da situação. Adrian bate na porta do quarto diversas vezes, solicitando conversar com Dante ou com ela. Ambos o ignoram porque a ferida é recente e grave demais. Nora repassa toda a discussão na mente enquanto canta para o garoto. Os próximos passos são inevitáveis, mas quase cruéis.

— É a primeira vez que isso acontece? — Nora questiona minutos depois.

Dante seca o rosto e a olha, um tanto quanto perturbado. Embora Nora tenha se esforçado para limpar o sangue que escorreu dos olhos, é o tipo de líquido que dura demais. Ela reconhece a gravidade da situação ao mesmo tempo que aceita a sua impotência.

— Não. — Nora arqueia as sobrancelhas. Dante senta-se, pensativo. — É a primeira vez que ele se excede dessa forma, mas… — As palavras se perdem. — Desde que Madalena chegou. — Dante nega o que ele mesmo diz. — Eu me excedi também.

Nora o encara.

— Quero a verdade, Dante. Independente do quão desagradável seja.

Dante encara as próprias mãos por vários minutos. A agonia no peito de Nora cresce e a sufoca. As acusações da Lady Rossi e a reação do Adrian foram severas, e as acusações são quase inacreditáveis.

— Eu não fui um bom anfitrião à Madalena.

Nora estreita os olhos.

— O que você fez?

Dante mantém os olhos baixos, envergonhado.

— Esse não é o lugar dela.

— Eu concordo. Mas o que você fez?

Ele permanece quieto e imóvel. Nora escuta as batidas do coração ecoarem nos ouvidos enquanto as mãos suam. Agora todo o corpo está febril, e Nora sabe que é devido a ferida infeccionada. Não há tempo para repouso, contudo. Dante levanta-se e mexe no baú por alguns instantes. Quando retorna, traz um caderno fino. Nora reconhece o grimório, e Dante mostra a página utilizada. Ela arqueia as sobrancelhas.

— Você tentou enfeitiçar ela? — É difícil conter a risada. Dante mantém os olhos baixos. Nora percebe. — Não. Não foi você, foi? — Dante se encolhe ainda mais. — Selena?!

— Mãe, eu…

— Ah! — Nora suspira. É difícil fingir repreensão. — É por isso que o seu pai a mandou para longe. Dante… — Nora nega e avalia o feitiço. Foi algo que escreveu há muitos anos para lidar com pessoas desagradáveis. É simples e tão acessível que até um feiticeiro iniciante pode fazer. — É por isso que a Lady Rossi está tão inquieta.

Dante segura a mão dela.

— É por isso que você está doente?

Nora ri.

— Dificilmente. — Ela fecha o grimório. — Um feitiço como esse, feito por uma jovem bruxa, não pode causar muita coisa.

— Eu também tentei…

Nora suspira e nega com a cabeça.

— Eu quero acreditar que você não faria isso apenas para vê-la sofrer. Eu quero, Dante, e eu vou acreditar que Madalena não foi uma boa companhia pra vocês. — Dante abaixa os olhos, envergonhado. — Estou errada?

Dante não a responde. E quando fala, o assunto é mais difícil:

— Eu disse a você… Ele não me suporta mais.

Nora o abraça. Nada que disser irá expressar a dor que o conflito entre Adrian e Dante lhe causou. Dante, embora irritado, ainda é um garoto um tanto quanto assustado. E se ele é tão intratável quanto é acusado, a culpa não é de ninguém além de Adrian que, entre todos os erros, trouxe uma mulher incompatível para dentro da casa, obrigando-o os filhos a aceitá-la.

— Preciso que faça algo pra mim… — Dante a olha, confuso. — Essa noite. Preciso que me prepare um bom cavalo.

— Mãe…

Nora o interrompe.

— E encontre boas roupas para mim.

— Mãe… Você está doente!

— E eu preciso saber porquê.

— Deixe-me acompanhá-la, então.

— Não!

— Mãe! Eu não posso ficar! Você…

— Dante, não. — Nora proíbe. — De forma alguma. Eu preciso fazer isso sozinha. Não há outro caminho.