Tempo da Bruxa

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Os pés tocam o chão sujo com uma mistura de barro e resquícios de neve. O corpo doente fraqueja. Nora apoia-se no dorso do cavalo enquanto olha ao redor. A neve típica do meio de Janeiro cobriu parte considerável da paisagem. A viagem foi mais extensa do que ela supôs, e a sua sobrevivência deve-se à escolha certeira de Dante do cavalo e das roupas adequadas, inclusive a pesada capa de pelos.

Ela olha ao redor, verificando as possibilidades. Insegura, Nora amarra o cavalo a um toco podre. Ela percebe que as chances de perder a forte montaria são grandes, seja pela ocasião ou pelo mal tempo. A nevasca diminuiu nos últimos dias, mas as consequências estão presentes: não há nenhum lago que não esteja congelado na região ao mesmo tempo que toda a grama, que poderia servir de alimento para o cavalo, está desfeita também.

Contudo, a floresta é fechada e infeliz. As árvores são densas e muito próximas. Nora também não tem certeza do caminho exato; faz anos que partiu, além dos anos em que esteve morta. Portanto, levar a montaria a tiracolo não é uma opção. Nora precisa de uns minutos para convencer-se da decisão.

A neve ainda está quase intocada pelo sol, de forma que as botas que ela calça afundam enquanto o corpo se arrasta pela floresta. As árvores são densas e unidas como a memória lhe contou, mas ela não se lembrava dos galhos cortantes. A capa que usa para aquecer o corpo rasga duas ou três vezes. E ela precisa usar as mãos trêmulas para afastar os galhos secos enquanto tenta não pisar em nenhum buraco.

O percurso é doloroso. Embora Dante tenha preparado suprimentos, Nora sente o estômago doer intensamente. O braço lateja na região que o corte foi feito. Nora perdeu sangue nos últimos dias e não se importou. Não havia mais nada a ser feito, e ela considerou até mesmo decepar o braço se isso o fizesse parar de doer.

O céu não é visto devido a densidade das árvores, e Nora percebe as mesmas árvores pela terceira vez. Não tem consciência clara o suficiente para distinguir se está andando em voltas ou se tudo é tão parecido durante um clima tão rigoroso.

É terrível cogitar morrer de um jeito tão estúpido. Nora foi criada em ambientes mais desafiadores. Nora sobreviveu a lugares mais inóspitos. A região de Toscana sempre lhe pareceu ensolarada até nos dias mais gelados. Mas não naquele fim de tarde.

Ela sabe que não pode parar de se mover. O frio aumenta à medida que o corpo se enrijece. É questão de tempo até que o corpo frágil não resista mais. O seu desejo é prosseguir. E a fragilidade a abate da pior forma possível. Em seu peito não arde apenas a necessidade de continuar o percurso e alcançar a choupana. Em seu peito arde, antes de tudo, a raiva por ter retornado em um corpo tão imprestável quanto de Madalena.

Por fim, Nora apenas encontra o caminho quando a noite cai. As estrelas se escondem também. E o que a guia é a fumaça que sai da chaminé da choupana. Ela não ousa se apressar e também não teme não encontrar Sylvia. O seu desconforto existe exatamente pela necessidade de reencontrá-la tantos anos depois e tantos desafetos registrados.

A choupana permanece a mesma. A construção é bruta e de pedra, escondendo o confortável interior. O jardim ao redor foi desfeito devido ao inverno, mas Nora percebe que a lenha é mantida no mesmo lugar.

Ela resiste em aproximar-se da porta. As janelas são iluminadas pelas velas e lareira acesa. Nora poderia até mesmo sentir a presença de Sylvia se não estivesse lutando para sobreviver. De repente, ela percebe que todo o percurso foi um erro. Não há a menor possibilidade de Sylvia ser cortês, e o resto do seu tempo deveria ser gasto para se despedir de Dante e lamentar a ausência de Selena.

— Você está atrasada. — Sylvia resmunga, parada à porta. A mulher permaneceu tanto quanto a choupana. Nora, contudo, observa como a pele marrom-escuro está pálida e sabe que é ocasional. O cabelo escuro, da cor do céu noturno, está solto e é menor do que se lembra. — O mingau esfriou.

Nora adentra a choupana sem dizer nada. Ela não se livra do manto porque ainda sente frio. Sylvia fecha a porta e aproxima-se do fogo, levando a panela de pedra para a lareira novamente. Nora permanece em pé, apertando o casaco contra si, e tentando imaginar o que dizer.

— Preciso que busque o…

— O cavalo cumpriu o seu papel. Agora ele repousa. — Nora franze o cenho. — Assim como você deveria, Eleonora.

Não há nenhuma cordialidade. Nora desiste de esperar por ela e senta-se próxima a lareira. O cheiro do mingau faz o seu estômago doer, mas não o suficiente para que implore por alimento. Sylvia mantém-se concentrada em aquecer o mingau. Nora analisa a disposição interior da choupana.

A maioria dos móveis não existe mais. Há apenas os bancos próximos à lareira e a cama, no fundo da choupana. O espaço é majoritariamente ocupado por plantas, mesas e muitos livros dispostos em todos os lugares possíveis. Há três estantes cheias de especiarias, desde pedras raras, runas até ervas secas ao sol. Há objetos sagrados e objetos consagrados. Nora reconhece poucos.

— A sua coleção aumentou.

Sylvia olha ao redor e dá de ombros. Ela envolve a tigela de barro em um pano grosso antes de oferecer à Nora. Nora encara o mingau com receio. O estômago dói há tanto tempo que ela teme que o órgão não suporte mais uma refeição. São vários instantes até Nora comer. O mingau é insosso como apenas Sylvia é capaz de fazer; uma forma sutil de demonstrar os ânimos em revê-la. Um lembrete que está sendo cortês apenas para não ter que carregar o corpo morto para fora.

— Estava me esperando. — Nora comenta quando termina de comer. Sylvia cutuca a lenha na lareira e não a olha. — Estou surpresa que você, entre todos, seja a única a me perceber.

Sylvia a encara.

— Eu reconheceria a sua alma em qualquer lugar. Independente de quanto tempo se passasse. — Nora segura a respiração. Sylvia a olha pela primeira vez. — Admito que esperava uma escolha um pouco mais agradável.

Nora olha para o próprio corpo.

— Eu não escolhi isso. — Sylvia franze o cenho e sorri de canto. Nora desvia o olhar. — Pensei que iria embora da região.

— Eu desejei…

Sylvia não fala mais nada. Nora não questiona também. As duas permanecem sentadas de frente à lareira, tentando sobreviver a outra noite intensa de inverno. Após vários minutos, Nora testa as palavras em sua mente. Ela tenta encontrar a melhor abordagem. Não há nenhuma. Então, desiste.

— Você morreu. — Sylvia relembra. — Por que está aqui?

— Sei menos que você nesse momento.

Sylvia encara o braço machucado de Nora. O curativo e o tecido da roupa disfarçam o sangue. Ainda assim, a mulher aproxima-se com confiança e encontra a ferida.

— Está morrendo outra vez. — Sylvia debocha. — Lobisomem? — Nora nega. Sylvia arqueia as sobrancelhas. — Adrian? Pensei que ele…

— A ferida infeccionou. — Nora interrompe. — Esse corpo não suporta muita coisa.

Sylvia ri.

— É um corpo forte. — O tom é ácido. — Mas não foi feito para ser invadido desta forma. — Nora desvia o olhar e evita responder. Nora deve manter a cordialidade porque a feiticeira é a única que pode lhe ajudar. Sylvia levanta-se e procura por algo entre as prateleiras. Quando retorna está munida de ervas, agulha e tecido limpo. Nora segura os gemidos enquanto a feiticeira cuida da ferida com atenção. — Então… Você morreu. — Elas se olham. Nora franze o cenho. — Como é o outro lado?

Nora abre e fecha a boca diversas vezes. O tempo escorre. Sylvia cuida da ferida. A resposta é tardia:

— Não há nada.

Sylvia ri e termina a costura na pele. Ela faz uma pasta de ervas e esfrega na costura antes de cobri-la com tecido limpo.

— Nada? — Sylvia levanta-se, levando os instrumentos de trabalho. — Eu duvido.

Nora realmente tenta lembrar-se de qualquer coisa da experiência de morte.

— Não há nada. — Nora insiste. — Eu só percebi que morri porque voltei. Se não o fizesse, nunca saberia nem que vivi.

Sylvia a encara.

— Não é o que me contam.

Nora ajeita-se no banco.

— Não? E o que te contaram? — Antes que Sylvia possa responder, Nora completa com certa ironia: — Quem te contou? Há outros mortos voltando à vida?

Sylvia revira os olhos e serve uma dose de bebida.

— Você é uma exceção. Os mortos permanecem mortos.

— E você ainda os ouve… — Nora presume. Sylvia encara a bebida enquanto Nora desvia o olhar. Ela concentra-se na própria respiração e no som da lenha crepitando. Ela tenta imaginar o desfecho de seu cavalo e até mesmo se a neve continua caindo. Nora realmente se esforça para mudar o seu foco. O comentário, contudo, escapa. — Sylvia, eu já lhe alertei. Essas coisas…

— Não são coisas, Eleonora. São almas. São pessoas!

Nora ri, debochada.

— Eram pessoas! E morreram!

— Elas partiram deste plano, sim. Mas as almas são eternas. Elas não se desfazem. Há algo depois desta vida.

— Eu estive lá e lhe digo: não há nada.

— Há para todos! Todos me dizem isso!

— Ora! — Nora esbraveja. — Que assim seja! Que sejam almas, se assim os define. — Nora também não tem coragem de cogitar outras possibilidades. — São almas! Mas não são pessoas. E essas… coisas não são bem intencionadas. O que elas querem com o mundo dos vivos? Uma alma não pode ser bem intencionada se não aceita que está morta! Se não aceita que a sua passagem e o seu tempo acabou! Uma alma que não aceita o fim é uma alma que sofre! Porque ela nada pode fazer, senão causar dor aos que ficam! E a cada dia, cada semana, cada mês e ano que elas permanecem, menos pessoas e mais coisas são!

— Você não sabe de nada!

— Não, eu não sei.

— Você não os ouve. — Sylvia sorri. — Às vezes, antes de dormir, eu me pergunto se você nunca os ouviu ou se apenas não se importou…

— Se eu os ouvi, eu os ignorei. Porque não há nada que eu possa fazer. O mundo dos mortos, Sylvia, sempre esteve fora do meu poder. Do meu poder e de qualquer outra bruxa. Às vezes, eu receio que o mundo dos mortos esteja fora do alcance da maioria dos deuses!

Sylvia caminha pela charneca, agitando aos mãos e a cabeça.

— Você sempre achou que eu fosse louca por ouvi-los.

— Não! Eu nunca lhe julguei como louca! Sylvia, eu lhe imploro, me ouça. Mas me ouça nas palavras que digo, como elas são. E não como você as entende! — Nora gesticula. — Eu não acho que essas coisas são seguras! A morte é uma experiência muito traumática para a maioria dos seres! Todos! As pessoas que encontram paz em sua partida, após uma vida que se orgulham, não ficam perambulando por aí e conversando com os vivos! Há um motivo para essas coisas perambularem por aí! Elas estão presas! Não conseguem descansar! E isso os corrompe. Não são confiáveis!

— Você está errada. — Sylvia é calma e severa. — Há muitas almas afetadas, desfeitas e desconfiguradas. E eu sei reconhecer. Porém, muitas almas permanecem por outros motivos.

— Outros motivos?

— Algumas almas encontram o caminho para o descanso. E escolhem não segui-lo porque precisam terminar a sua missão na Terra. — Sylvia se aproxima. — Olhe para mim, Eleonora. Eu não envelheci muito. Não como deveria. E você é a responsável por isso. Não há perdão para tamanho desrespeito. Contudo, é ainda mais ofensivo pensar que todos esses anos perambulando entre os vivos foram insignificantes. Assim como você, eu estudei. Eu me aperfeiçoei. Não me julgue, você, entre todas, por não entender o meu dom. — Sylvia afasta-se, ajeitando as coisas pela choupana. — Eu conheci pessoas que você não pode imaginar. São almas luminosas, eu assim sinto. E não aceito que me questione ou que me julgue como louca. Eu não o fiz, embora você merecesse. A verdade é que você cegou-se em si mesma. Acha que existe apenas a sua magia. Ou existia. — Sylvia observa. — Mas há muitas verdades por aí. Você me ensinou isso! Por que desconsidera a minha experiência?

— Quem são essas pessoas? Essas almas?

— Depende. — Sylvia balança os ombros. — Há muitas almas com diversas motivações. Elas escolhem permanecer porque têm assuntos pendentes. Esses assuntos podem ser relacionados à família, aos amores, à busca de justiça… Há outras almas que permanecem porque temem o que há após a passagem… — Nora pondera nas informações. — E também há bruxas que procuram os seus descendentes para ensiná-los.

— Você tem uma mentora.

Ela não confirma, nem nega.

— Foram eles que me contaram sobre a sua chegada. Eu não acreditei. Não quis acreditar. Você, mais do que ninguém, me ensinou que os mortos permanecem mortos se forem sortudos. Acho que você errou.

— Eu não errei, Sylvia. Se eu fosse sortuda, eu estaria morta.

— Mas você não está. — Nora concorda. — Por quê?

— Diga-me você! Você tem amigos do outro lado. Aposto que eles sabem bem mais do que eu.

Sylvia sorri.

— Eles sabem, sim. — Ela suspira. — Mas nem tudo me é permitido saber. — Nora se impede de revirar os olhos. — Não ainda, ao menos. Mas sei porque veio… — Sylvia a observa. — Esse corpo está morrendo. E você está desesperada.