Tempo da Bruxa
6 Dom
Os movimentos são lentos e difíceis. Nora demora a livrar o corpo inútil de Madalena da manta pesada e sufocante. É ainda mais demorado sentar-se na cama. O corpo está suado, e a pele prega. Uma mistura da noite febril com a coberta pesada, feita com couro e pêlo animal; necessária para sobreviver em uma localidade tão instável quanto a floresta que Sylvia escolheu.
Nora olha ao redor, procurando pela feiticeira. Os olhos estão embaçados devido a claridade intensa que atravessa as janelas. Não é manhã, ela percebe sem dificuldades. É um pouco difícil empurrar as pernas para fora da cama e levantar-se. O braço repuxa, e Nora se assusta ao perceber que o pus da ferida se foi. A pele é rosada, e a coceira se deve ao fato que a ferida está, após duas semanas, cicatrizando.
— Não me lembro de ter adormecido. — Nora murmura quando aproxima-se de Sylvia. Ela está, como na noite anterior, sentada diante da lareira que funciona como um fogão. O caldeirão de pedra cozinha o guisado, e Nora nem precisa experimentar para saber que é insosso como o mingau da noite anterior. Sylvia cozinha geralmente bem, dominando especiarias e ervas que utiliza como tempero, um talento herdado do próprio povo. Quando elas dividiam a vida e a choupana, Sylvia era responsável pelas refeições enquanto Nora garantia que os insumos estivessem disponíveis. A caça não era uma atividade excepcionalmente masculina em seu povo, e Eleonora era boa na atividade. De qualquer forma, Sylvia sempre encontrou nas refeições uma forma de demonstrar o seu humor, já que nunca foi tão hábil com as palavras. — Quanto tempo eu dormi?
Sylvia dá de ombros.
— A noite toda. E boa parte do dia. — Sylvia a encara. Nora entende que o guisado é o jantar ao mesmo tempo que deseja perguntar se Sylvia aprendeu a caçar desde que ela se foi. — Você parecia exausta. Imagino que os últimos momentos despertos tenham se misturado aos sonhos.
Nora não discorda. Ela senta-se no banco de madeira que não foi esculpido com excelência, de forma que algumas áreas contém farpas visíveis. Ela observa a choupana outra vez, agora aproveitando o resto da luz do dia. É austera como Sylvia. Nora não conseguiu levar tudo o que acumulou em três séculos quando romperam. Agora questiona-se o que Sylvia fez com todos os objetos que cuidadosamente colecionou; vasos delicados feitos de argila e cerâmica; desenhos esboçados em folhas duras e carvão; alguns quadros que teve oportunidade de furtar e às vezes ganhar; os tecidos, alguns raros, feitos com técnicas que foram perdidas durante os anos e tecidos que não existem mais, e outros ordinários, mas belos.
Três séculos de existência.
Nora aposta que Sylvia queimou tudo. Um tanto quanto típico. A verdade é que Sylvia sempre achou desrespeitoso a existência extensa de Nora. E o hábito de colecionar sempre soou até como deboche para Sylvia. Nora nunca soube como mostrar que não era um desrespeito aos deuses e a vida. Era uma forma de permanecer. Aqueles objetos que Sylvia considerava insignificantes muitas vezes foram condutores de sanidade para Eleonora.
— Você tem tudo o que precisa aqui.
O comentário é despretensioso e óbvio. A choupana é tão rústica quanto poderia. Há uma cama; um banco e algo como uma mesa. As estantes não são bonitas, mas úteis para guardar todos os objetos. Não há cortinas nas janelas, nem nada parecido com tapeçaria. Há quatro caldeirões empilhados ao lado da lareira, e Nora imagina que eles são utilizados tanto para o preparo de alimentos quanto para os feitiços. A lareira, então, não é uma adaptação. É o projeto final.
— Só mantenho o que preciso. — Nora cutuca o banco rústico para disfarçar a desaprovação. — O que é útil. — Sylvia a encara. — Aposto que você tinha muito espaço naquele palácio. Bastante espaço para acumular todas as suas coisas. Não sei como o seu marido aguentava. —Ela debocha e franze o cenho. — Se bem que é isso que as mulheres da corte fazem, não é? Ajuntar todas essas miudezas. Você deve ter se sentido em casa na corte.
Nora revira os olhos.
— Eu não vivia em uma corte.
— Ele é um duque, Eleonora.
— Mas a nossa casa não era uma corte.
— Casa… — Sylvia ri. — Oh, sim. Aquela discreta casinha…
Eleonora bufa e levanta-se, impaciente. A cabeça roda, e ela lembra-se do corpo frágil. Ainda assim, mantém-se em pé próxima à janela. A neve continua caindo como espera-se da época. Nora preocupa-se com o cavalo que a trouxe e tenta planejar como partirá. Lembra-se dos motivos que a trouxeram até a Sylvia e divide-se outra vez. Talvez devesse ter ficado na casinha de Adrian, aproveitado o tempo que tinha com Dante. Nem sabe porque pensou que Sylvia poderia ajudá-la.
— Apesar de tantos anos, desde a minha partida até o tempo em que estive morta, você ainda lamenta.
— Lamento? Eu não vejo assim. Não é um lamento sobre quem você se tornou. Nem acho que você se tornou. Hoje vejo que é o que sempre foi.
— E quando tornou-se um problema? — Nora esbraveja. — Viveu comigo tempo o suficiente, dentro dessa cabana, para me conhecer por completo. Enquanto estava aqui não era um problema?! Eu me tornei desagradável quando a deixei? — Nora ri da própria pergunta. — Aliás, eu não a deixei. Você me deixou. Lembra-se disso?
— Todos os dias. — Sylvia a encara. — Eu deixei você? Não me deu muitas escolhas. Deu?
Nora revira os olhos.
— Sylvia, — Ela repreende e ri. — Deus. — Nora segura o próprio rosto. — O que estou fazendo aqui? Por que eu cogitei que você seria capaz de me ajudar? — Ela anda pela choupana, procurando pelo casaco que Dante lhe deu. Nora ri outra vez da situação. — Nem sei porque me deixou entrar, se mais lhe pareço um castigo que uma visita.
— Você é um castigo, Eleonora. — Sylvia rebate, severa. — Não pense que há qualquer sentimento em meu coração senão desprezo pela sua presença. Eu te suporto.
Nora gesticula.
— Por quê?! Eu não te obriguei a me acolher. Você me deixou entrar, você me alimentou, você me limpou porque assim quis!
— Porque assim eu devo. Eu devo isso a você! — Sylvia esbraveja outra vez. — Não há nenhuma alegria em meu coração ao revê-la, nem mesmo algo como saudade ou até, em últimos casos, arrependimento por como as coisas foram. Você ainda é para mim a mesma coisa. Um monstro.
— Um monstro? — Nora sente a cabeça latejar. — Eu sou um monstro?
— No mínimo uma aberração.
— Eu não escolhi, Sylvia! — A voz de Nora é austera. — Isso foi imputado a mim. Você conhece a história. Todos conhecem. Foi um presente dos deuses! — Nora aumenta a voz, debochando.
— Sim. Os deuses assim quiseram. Admito que nem eu entendo o porquê, mas eles quiseram que a sua existência fosse prolongada. Uma bênção. Você era única. Os anos não te afetam como afetam a maioria de nós. As doenças podem até mesmo te alcançar, mas sem permissão de se prolongar. Você foi elevada a uma posição nunca vista antes. E ainda assim…
— Uma benção? Uma benção! — Nora ri. — É assim que vê? Eu fui condenada, Sylvia. Eu fui amaldiçoada pelos próprios deuses! Não é nenhuma bênção viver tanto quando todos ao seu redor morrem! É fácil para os deuses viverem indefinidamente. É fácil! Porque eles permanecem iguais. E todos ao seu redor também. Eles vivem, eles não adoecem e não param de procriar! Mas os seus amores são eternos, assim como os seus filhos. — Nora apoia-se na mesa para respirar. — Eu sou a única mesmo. A minha família sempre viveu muito. Nosso sangue… — Nora bate no braço, demonstrando. — Era forte. Puro. Licantropos vivem muito, assim como os seus pares. E todo o resto de seres que são abençoados com mais anos que os humanos são sortudos, porque os seus pares também são. Mas eu sou a única! Eu assisti toda a minha ascendência e descendência morrer! Eu vi os meus amores padecerem de doenças ou de idade! E se eu não tivesse morrido, eu veria os meus filhos envelhecerem e morrerem também. Enquanto eu permaneço igual; intocada como você diz. E isso é uma bênção? Para quem?! — Nora nega. — Os deuses nunca quiseram me abençoar! Se quisessem me abençoar, teriam passado de mim esse cálice. Eu existo porque eles precisavam de alguém pra sempre limpar a bagunça deles!
— É uma pena que veja assim.
— Uma pena?! Não seja cínica!
— Você sofre porque não seguiu o seu propósito, Eleonora. A permanência não lhe foi dada para assistir todas as pessoas que ama morrer. Você tinha um propósito. E sofre porque o recusou. Sofre porque ainda perde tempo tentando viver como os mortais. Quando vai perceber que não é mais como nós?
— Eu não entendo porque você sofre. Afinal, a sua existência é mais duradoura que a dos seus pares. Não encontrou nenhum propósito nisso?!
Sylvia derruba o caldeirão com o guisado, irritada.
— Propósito? Eu não fui escolhida, muito menos abençoada pelos deuses. Eu nem mesmo nasci como uma criatura mágica como você. Eu era um ser humano comum, frágil e prestes a morrer.
— E nunca se contentou. Passou a vida toda buscando a magia que a sua família recusou por décadas!
— Eu tinha direito! — Sylvia grita. — Está no meu sangue, como esteve no sangue da minha mãe.
Nora ri.
— E nunca o suficiente. Porque a sua família preferiu o amor que o dom. Você, Sylvia, é o exemplo perfeito disso. Pode até haver um pouco de magia em seu sangue. Um rastro. Uma lembrança. Mas não o suficiente para ser uma bruxa. Apenas uma feiticeira. Esforçada, eu admito. Mas a magia não flui de você como flui por mim. A sua família? É mais misturada que os filhotes de cachorro pelas ruas. As suas antecessoras se orgulhavam dos homens com quem deitavam, seres humanos insignificantes! Elas se orgulhavam de procriar como cadelas de rua; parindo hordas de filhos mestiços até que se tornaram tão insignificantes quanto os seres humanos! E você, ao invés de aceitar como tal, passou toda a vida buscando uma magia que não pertence mais a sua família. E não há direito para reclamação. As suas antecessoras fizeram isso por você!
— Exato! — Sylvia berra mais alto. O rosto dela está vermelho como nunca. — Exatamente, Eleonora. Eu agradeço a gentileza de me descrever tão bem. Eu sou uma mestiça. A magia que há em mim é tão fraca que não encontrei nada senão a feitiçaria. E você ainda me tirou o direito de morrer como os meus pares! Você reclama tanto dos deuses, mas não fez diferente comigo naquela noite. Fez? E por quê? Você me amaldiçoou a viver apenas para não ter que me enterrar também.
Nora sente as lágrimas surgirem.
— Eu te amaldiçoei? Eu te curei! Você estava se desfazendo diante dos meus olhos. E morreria naquela noite se eu não te curasse.
— Você não me curou! Você me amaldiçoou.
— Não seja ingrata, curandeira. Eu salvei você. Eu lhe dei um dom. Antes, os humanos eram mais gratos. Quando eram abençoados com saúde, por uma bruxa como eu, eles se ajoelhavam aos meus pés e agradeciam pela bem-feitura. E o que você fez desde aquela noite? Tudo o que tem feito é me desrespeitar! — Nora aproxima, severa. — Deveria ser grata. Você morreria tão insignificante quanto viveu.
— Por escolha minha! — Sylvia a confronta. — Se morrer era o meu destino, que assim fosse. Ao menos seria natural. Você diz que me abençoou, me curou. De fato. Eu devo a você a minha vida. Você a salvou aquela noite. E por isso te recebi. Mas não tente me convencer que você fez o que fez por mim! Você fez o que fez porque não suportaria enterrar mais uma pessoa! — As lágrimas escorrem. — Você julga os deuses tão egoístas. E não é diferente, Eleonora. Você me amaldiçoou para ter companhia!
— Eu te amava. — Nora resmunga. — O que eu fiz foi por amor, Sylvia. Amor! — Nora gesticula. — Não por medo. Eu enterrei pessoas mais importantes que você. Com minhas próprias mãos, eu cavei a cova da minha metade! — Nora aumenta o tom de voz. — E de todas as minhas antepassadas! Você seria apenas mais uma. Eu te curei, eu te abençoei porque acreditava que você era especial demais para morrer de praga como qualquer um desses humanos. E você interpreta a minha bênção como medo? Com a minha tutela, você poderia ter se tornado algo além da curandeira do vilarejo. E o que você fez com minha compaixão? Me expulsou da sua vida. Jogou as minhas coisas fora. E me desrespeita desta forma. E você apenas o faz porque sabe que estou presa a esse corpo ridículo e insignificante. Porque não teria coragem de me confrontar desta forma se fosse eu, em meu corpo. E eu não permitiria tamanho desrespeito de uma das criaturas que eu criei. — Nora aponta o dedo para Sylvia. — Você é minha criação, e eu sou a sua criadora. Me respeite como tal! Eu estive nessa terra mais tempo que toda a sua família. E eu vou permanecer mais tempo que você. A sua linhagem acabará, assim como a linhagem de reis. E eu estarei aqui! Eu verei impérios nascerem, e escolherei quais vão permanecer, assim como a minha linhagem fez. Então, tenha o mínimo de respeito por mim. Ainda mais quando lhe procuro, humildemente, porque preciso da sua ajuda. Se você se sente tanto em dívida comigo, então a pague com humildade e não com desprezo. — Nora afasta-se dela quando sente o sangue escorrer pelo nariz. Ela estanca o sangramento como pode e percebe que a noite está chegando ao mesmo tempo que não há mais jantar. — Saia agora e encontre algo para o jantar. Não vou padecer por conta do seu gênio desprezível.
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