Tempo da Bruxa
7 Sangue
Sylvia aquece as mãos na lareira ao mesmo tempo em que o mingau cozinha no caldeirão. A caçada não foi bem sucedida, e Nora não esperava um resultado diferente. Ela apenas precisava colocar uma distância considerável entre elas antes que a discussão causasse mais desastres. E também precisava reavaliar a necessidade da ajuda de Sylvia. Ainda é difícil reconhecer que não tem outra pessoa a quem recorrer. O corpo frágil de Madalena não suporta nenhuma magia elaborada. Após tantos anos morta, Nora também não sabe quantas bruxas estão vivas. E das que estão vivas, quem a reconheceria? Quem acreditaria em seu retorno? E se o fizesse, quem aceitaria ajudá-la?
A resposta a faz continuar mexendo nas diversas estantes de Sylvia. Há muitos objetos mágicos, condutores essenciais para feiticeiras, ervas, cogumelos, adagas e poções que são guardadas em pequenos potes de vidro. Apesar do corpo de Madalena, Nora ainda consegue sentir a energia mágica de todos os itens que a possuem — e não são todos que o fazem. Até mesmo feiticeiras experientes podem ser enganadas pelos objetos. E esse talvez seja o maior gargalo da existência delas.
O esforço e o aprendizado são virtudes indispensáveis para todos os feiticeiros. O conhecimento teórico de feitiços, do poder que cada objeto têm, do uso de cada erva, das fases da lua e até mesmo da língua em que o feitiço é feito, é o caminho que pessoas como Sylvia precisam seguir. Longo e um tanto quanto doloroso. Homens que não podem expressar a magia pura, mas que descendem de bruxas, aceitam o percurso quando não conseguem encontrar outro sentido na vida. Para Nora é uma possibilidade aceitável aos homens. Para às mulheres, contudo, é quase um castigo.
As mulheres foram escolhidas pelos deuses para carregarem a magia; passando apenas às filhas. A magia que independe de objetos e ervas. A magia que transcorre as veias e se faz real pela intenção. Os objetos, de fato, são úteis em rituais, mas as bruxas não dependem deles como os feiticeiros. Elas não dependem porque a magia que possuem está em sua alma, de forma tão profunda, que espalha-se por todo o seu corpo e sangue.
Seres humanos comuns ao praticar a feitiçaria se contentam com jogos de adivinhação e receitas que curam resfriados. Eles se contentam em observar a mudança das estações e festejar, além de consagrar as colheitas e os rebanhos aos deuses associados à fertilidade e à bem-ventura. Ao menos, assim era antes das igrejas serem levantadas em tantos lugares. Seres humanos comuns se contentam em receber uma boa-ventura e rogar algum mal sentimento. E sentem-se completos e fortes.
Contudo, coisas como a Sylvia transitam entre a insignificância humana e o potencial dado pelo divino. Sylvia descende de uma família em que as mulheres carregam o dom da magia. Mulheres como as antepassadas de Nora, que lhe ensinaram boa parte do que sabe. As antepassadas de Sylvia, porém, não tiveram tanta assiduidade com o dom que carregavam. Trocaram o dom por coisas passageiras e insignificantes.
E Sylvia nada mais é que uma aberração; há um pouco de magia em sua alma e sangue. Nunca o suficiente para sustentá-la como bruxa, nem mesmo como uma bruxa de pouco alcance. É mais do que mestiça, é uma condenação: tão perto de sua origem ao ponto de carregá-la e tão distante de praticá-la em totalidade.
— Naquela noite… — Nora comenta, de repente. Sylvia a olha. — Naquela noite em que o médico definiu que não acordaria no dia seguinte… — Nora alcança uma adega aleatória, sentindo o metal frio. Desconfia que os crânios de animais e de pessoas estejam bem guardados. A prática de necromancia não a surpreende. Talvez seja a feitiçaria que mais movimenta energia. — Você realmente queria morrer?
Sylvia suspira alto.
— Morrer? Claro que não. Acho que ninguém quer morrer. Mas se essa era a vontade dos deuses…
Nora ri a interrompendo.
— Acha que os deuses tiveram parte nisso? — Nora devolve a adega à estante e alcança a próxima. — Acha que os deuses acompanham todos os seres com tamanho cuidado? — Sylvia arqueia as sobrancelhas. — Minha querida criança…
— Não sou uma criança.
Nora ignora.
— Os deuses nos deixaram. Todos nós, sem exceção, estamos entregues ao caos do universo. Éramos como uma… — Nora procura a melhor forma de descrever o que vivenciou com um deus. — Uma experiência. Havia potencial para todos, até mesmo para os humanos. Potencial o suficiente para diverti-los. Mas os deuses são inconstantes, Sylvia. Eles são como uma folha pendurada no galho; são levados conforme o vento do momento.
— Não blasfeme.
— É a verdade. Todos eles são assim. — Nora mexe em algumas poções. Todos os objetos têm o seu potencial, mas nenhum realmente chama a atenção. — Em um momento, éramos queridos. Talvez fôssemos mais queridos quando buscávamos pelos deuses com tantas aflições. Quando a nossa existência sem a figura deles era impensável. Mas as coisas mudaram. Talvez eles tenham amargurado porque as criaturas que criaram com livre arbítrio fizeram escolhas. — Nora debocha. — Porque as criaturas que eles fizeram escolheram outros deuses, inclusive o crucificado. Talvez amarguraram porque as bruxas, que tinham um propósito tão óbvio na criação, cansaram de serem escravas das vontades questionáveis dos deuses e preferiram os seus amores. Ou quando os licantropos esqueceram-se de quem eram e padeceram pelas mãos dos humanos. Ou quando aberrações como lobisomens, vampiros e feiticeiros apareceram. — Nora alcança os livros. A maioria é antigo e fede a mofo. Ainda assim, ela folheia a maioria. Sabe que tesouros não são escondidos à vista de todos. — Eu desisti de entender. Todas as possibilidades me assombram. A única coisa que eu sei é que os deuses se foram. E a vontade deles é insignificante. Sylvia, — Nora escolhe outro livro. — Do que acha que os deuses são feitos?
— Ora, Eleonora! Como eu poderia saber?
Nora sorri.
— Eles são feitos da mesma coisa que nós somos. Só estão vagando por mais tempo.
— Você não sabe de nada.
— Não, eu não sei. — Nora observa o lenço escondido atrás dos livros. Ela franze o cenho e não consegue alcançar ainda. — Mas você não me respondeu. Você realmente queria partir naquela noite? A morte ainda lhe é tão atrativa? Porque tenho pensado nisso desde o final da tarde. Se a sua grande mágoa é não ter morrido, por que ainda está aqui? — Sylvia arqueia as sobrancelhas grossas e abre a boca. — Eu lhe presenteei com saúde. Eu lhe curei. E a saúde plena produz frutos. O tempo, por exemplo, tem sido gentil com você. Quantos anos tem agora? Minha memória não está atualizada. Aposto que você não tem menos de 55 anos agora. A sua aparência? É a mesma de quando tinha vinte anos. Você é mais resistente que os seus pares. Você é mais forte e duradoura. Mas sabe uma coisa que você não é?
Sylvia revira os olhos, cruzando os braços.
— Você não é imortal. A doença não te alcança, mas eu te garanto que uma adega bem afiada findaria a sua vida. Então, eu lhe pergunto: se deseja tanto morrer, por que está aqui? Havia formas de finalizar o seu sofrimento.
Sylvia retira o caldeirão da lareira e evita a conversa. Nora aproveita da distração dela para alcançar o pano que envolve as duas adagas. Nora reconhece os itens imediatamente porque foi ela quem os encantou há décadas. Também é fácil sentir a própria magia vibrando do item; é como uma assinatura mágica.
— Uma lâmina como essa, com todo esse poder, encerraria o seu sofrimento.
— É esse o meu destino?! — Sylvia esbraveja. — Devo me contentar com isso? A minha única saída é essa? — Ela desiste de experimentar o mingau insosso. — Morrer de uma forma cruel e dolorosa porque a minha natureza foi tirada de mim à força?
— A sua natureza?
— Foi-me tirado o direito de partir naturalmente. — Nora discorda outra vez. — Você tem razão. Não tenho menos de cinco décadas na Terra. E ainda sou como antes. Para muitas pessoas isso é uma bênção. É o presente que você mesma descreve! Mas para mim não! Eu não me alegro ao ver o meu reflexo congelado, Eleonora. Eu me entristeço porque o meu rosto não carrega a minha experiência.
— Você é tão tola. O desejo da sua vida é envelhecer como seres humanos? — Nora debocha. — O seu desejo é perder a visão aos poucos? É sentir os ossos doerem conforme os anos se passam?
— Se esse for o desejo do meu coração, qual o maldito problema? Eu apenas sou digna de desejar se for de acordo com você?
Nora sorri de canto.
— Não, Sylvia. De forma alguma. — Nora deixa a adaga em cima da estante. Sylvia observa o objeto e recua um passo. — O seu desejo é justo, se é o que faz o seu coração vibrar. Agora eu vejo com clareza e me alegro por perceber que a mera morte não é o que acalenta o seu coração. Você quer ter a experiência de sofrer como um ser humano comum. Que digno! — Nora sorri. — Não cabe a mim julgá-la. Você tem razão. Eu errei ao decidir poupá-la. A escolha era sua. Então, que assim seja. Se esse é o desejo do seu coração, eu vou lhe conceder. — Sylvia arregala os olhos e abre a boca. — Se a coisa mais importante pra você é ter o direito de padecer com os anos, assim eu permitirei.
— Você…
— Se — Nora interrompe. — Você me ajudar agora.
Sylvia anda pela choupana.
— Não pode fazer isso. Você não consegue.
Nora arqueia as sobrancelhas.
— Acha que não posso retirar a bênção que eu mesma te dei? Acha que sou tão fraca que não tenho domínio sobre os meus próprios atos?
— Eu tentei! Eu tentei por anos e… Eu sei que eu não posso fazer isso. Não é necessário que lembre-me da minha posição. Estou ciente. Mas não fui a única a tentar. Mulheres como você tentaram. E todas concordaram que a sua bênção é definitiva.
Nora deixa o ar escapar pelo nariz.
— Sylvia, nenhuma outra pessoa pode revogar o que eu fiz. Não falta às minhas companheiras poder. Falta conhecimento. Assim como falta a você. No mínimo, falta desconfiança. Por que eu criaria algo que não posso reverter? Seria eu tão tola para tecer a minha própria derrota? Seria eu tão inocente ao ponto de criar algo mais extenso que a minha própria existência? Algo que eu não pudesse me arrepender e desfazer, se necessário?
Sylvia balança a cabeça e ri. Ela anda pela choupana, gesticula e puxa o próprio cabelo.
— O tempo todo… Durante todos os anos. Você sempre soube como desfazer e…
— Você nunca me pediu. Pediu?
Sylvia ergue o queixo, orgulhosa. Nora percebe as lágrimas nos olhos dela. Não sabe se é dor ou alívio. Independente do que seja, ambos os sentimentos são insignificantes naquele momento. Se Sylvia deseja padecer na própria miséria, que assim seja para todos. Se Sylvia prefere desistir de todo o conhecimento que poderia alcançar, que assim seja.
Nora a visitou por um único motivo. E há apenas uma razão para manter o corpo de Madalena vivo.
— O que você quer?
***
Sylvia observa o ambiente que preparou. A sálvia ainda queima, assim como outras ervas. O cheiro é familiar a Nora, assim como o próprio clima. Ela lembra-se das noites que passava na presença da avó, que lhe ensinava com cuidado tudo o que sabia sobre magia. Lembra-se também que a mãe não era tão adepta quanto às antecessoras. As críticas não eram evitadas, principalmente pela decisão de Natalia de criar o filho que os deuses lhe deram. Por isso, Nora sempre terá uma dívida com a mãe. O irmão, nascido segundos após Nora, foi a sua metade perfeita.
Todas as velas da choupana também foram acesas. Não há espaço para sombras em noites como aquelas. Sylvia repete encantos que não conhece com a incerteza de uma criança. Nora permanece sentada no banco, o único, analisando a adaga enquanto tenta prever o que acontecerá em seguida. Decide, então, que qualquer que seja o desfecho, não pode ser pior que a situação em que se encontra.
— Não tenho certeza… — Sylvia murmura outra vez. — Não é assim que faço.
Nora a analisa. Por um instante, vê em Sylvia tudo que encontrou anos atrás. Uma jovem insegura com muito potencial escorrendo pelos dedos. Nora, contudo, não se apaixonou pelo potencial, nem pela insegurança. Nora se apaixonou pelo sorriso que Sylvia dá quando está feliz; os olhos apertados e expressivos. Os dentes levemente desalinhados. Nora se apaixonou pela pele marrom-escura, vibrante e macia ao toque. Pelo cabelo extenso e escuro como a noite. E a voz suave, como uma cantiga antiga, que ocupava todas as noites. As risadinhas envergonhadas; os toques sutis; todas as confidências trocadas.
— Como?
— Não é assim que converso com eles. — Sylvia franze o cenho. — Pensei que não confiava nas almas.
Nora levanta-se.
— E eu não confio.
— Ainda assim, está se preparando para invocá-las.
Nora ri.
— De forma alguma, querida. Não tenho interesse no que almas perdidas e infelizes tem a me dizer. Desconfio inclusive que elas nem sabem o que está acontecendo. — Sylvia arqueia uma sobrancelha. — Nesta noite, vamos conversar com seres que acompanhavam o meu povo. Na minha tradição, há muitos seres poderosos no mundo. Não apenas os deuses mais populares. Esses deuses quase nunca escutam ninguém. Estão sempre ocupados. O meu povo cultuava os próprios deuses. É necessário cuidado, pois há seres mal intencionados, raivosas ou simplesmente inúteis.
Sylvia mantém os olhos bem abertos.
— E com quem vamos falar hoje?
— Com quem responder.
Sylvia recua.
— Não acho que eu seja a pessoa certa para isso. Ao menos, vamos tentar as runas e…
Nora a ignora e usa a adaga para realizar um corte na palma da mão. O sangue escorre, sujando o chão. Ela recita as palavras em sua língua materna, consagrando o sangue. As chamas da vela se tornam mais altas conforme o tom de voz de Nora sobe. Sylvia olha ao redor.
— Desenhe um círculo. — Nora instrui. — O que vem até nós, aqui fica.
Sylvia usa o sangue para desenhar o círculo. Nora instrui que desenhe outras runas antigas antes de adentrar o círculo. Sylvia demora, mas a imita. Elas se encaram. Sylvia mantém os olhos e os lábios bem abertos. Ainda assim, há um brilho esquecido no olhar. Algo como surpresa e curiosidade. Nora quase sorri. Contudo, concentra o resto de energia que o corpo humano de Madalena consegue sustentar e ensina a Sylvia a prece em sua língua materna. O ideal é que Nora fosse capaz de proferir o convite, mas sabe que o corpo de Madalena não suportará a energia canalizada.
— Isso é magia antiga. — Sylvia alerta. — Eu gostaria, mas não posso ir tão longe. E você… Esse nem é o seu corpo.
— Acha que a magia está apenas no corpo físico e literal? — Nora a confronta. Sylvia dá de ombros. — Sylvia, o corpo físico externaliza o que nossa alma é. Se o sangue é mágico, é porque nossa alma assim é. Acha que existimos apenas enquanto carne e sangue? Se assim fosse, por que há entidades e outras almas mágicas vagando por aí? Esse corpo não é meu. Não possui a força que o meu antigo corpo tinha. Nem mesmo esse sangue é meu. Mas a alma que ocupa essa casca é minha. E o sangue que jorra das minhas mãos é meu, vindo da alma, não de Madalena e suas crenças débeis.
Sylvia pretende prosseguir na discussão. Nora a interrompe e exige que continue a recitar os versos com firmeza enquanto o sangue que jorra de sua alma é a magia necessária para invocar as entidades.
Sylvia começa a suar a cada palavra dita. Ela fecha os olhos para concentrar-se no rito enquanto as chamas das velas sobem o suficiente para queimar toda a choupana. Mas não queimam. Sylvia utiliza a mão para secar a testa suada enquanto luta com o que chega. O corpo trêmula, e Nora teme que ela também não seja forte o suficiente para hospedar o que quer que seja. Sylvia fecha as mãos com força enquanto o corpo treme. Ela joga a cabeça para trás, suando e tremendo. Nora a ajuda a entoar o rito porque não pode recuar agora.
Sylvia resmunga palavras desconhecidas e lamenta-se enquanto o corpo estala por completo. A cabeça é inclinada para trás em um nível desproporcional. O corpo parece ser puxado e encolhido diversas vezes. O ar fica denso ao mesmo tempo que o cheiro de sálvia some, dando espaço ao cheiro da floresta durante o verão.
Sylvia urra antes do corpo cair no chão. Nora mantém os olhos fechados e a reza firme. As palavras são pronunciadas com altivez e segurança enquanto o sangue começa a escorrer pelo nariz, denunciando o esforço desproporcional ao corpo. O corpo de Sylvia trêmula no chão, se contorcendo novamente. Nora teme outra vez que Sylvia, mesmo abençoada, não suporte a intensidade do ritual.
As janelas que foram fechadas com pedaços de madeira, para manter a neve fora, se abrem bruscamente e se debatem com a brisa forte que preenche a choupana. O ambiente torna-se úmido como as florestas são no verão e o cheiro de orvalho aumenta.
O sangue do nariz de Madalena pinga no chão ao mesmo tempo que Nora sente os olhos sangrarem outra vez, sujando o seu rosto. Sylvia permanece resmungando palavras indecifráveis e emitindo sons desconfortáveis e abafados.
As velas se apagam ao mesmo tempo que a voz murmura. A voz densa não pertence a Sylvia. É como ouvir o vento balançar as folhas da floresta à noite. E a voz parece soar de todos os lugares ao mesmo tempo, inclusive dentro da cabeça de Nora.
— O que deseja, bruxa?
O sangue derramado no chão queima, iluminando o ambiente. Nora decide abrir os olhos e percebe que o corpo de Sylvia está ereto como nunca. Os olhos estão abertos, mas vazios. Há sangue no rosto de Sylvia também, tanto do nariz quanto dos olhos vazios.
— Quem está aí?
O ser usa o corpo de Sylvia para sorrir.
— Importa? — Nora a encara. — Se eu lhe responder o que deseja, importa quem eu sou?
— Eu não me importo com o que seja. Ou quem seja. — Nora resmunga, percebendo a energia conflitante do ser. — Qual o seu preço?
— O meu preço?
— Seres como você… Não fazem nada de graça.
O ser sorri outra vez.
— Você ainda é tão afiada quanto me lembro, bruxa. É uma pena que não me reconheça. — Ele levanta os braços, avaliando o corpo de Sylvia. — Está mesmo desesperada. Tão desesperada que me permite ocupar o corpo de sua amante.
— Eu não permiti que o fizesse.
— E também não impediu.
Nora estala a língua. Aos poucos as velas acendem outra vez. As chamas são tão altas quanto antes.
— Responda-me.
— Mas você não me perguntou nada. — O ser anda pelo círculo, avaliando. — É tão esperta quanto me lembro. E cuidadosa. É uma pena que tenha se descuidado nos últimos meses de vida, não? Ficou tão confortável que não percebeu a morte chegando. Ou melhor… Você pensou que poderia viver como um ser humano comum. Esqueceu-se de quem era. Mulheres… — A entidade aproxima-se, segurando o queixo de Nora. — por que sempre um homem?
Nora revira os olhos.
— Se sabe de tanto, sabe também que não foi por um homem.
O ser larga o queixo de Nora e sorri.
— Não, eu sei. Foi algo mais nobre.
O ser sai do corpo de Sylvia com facilidade. Nora acompanha os movimentos sutis do ser em sua forma original. Nada mais é senão um espectro escuro, movimentando-se como fumaça.
— Como eu morri?
A pergunta a assombra mais do que tudo. Ele ri, e a sua voz é como vento nas folhas.
— Ora, Eleonora. Eleonora… É assim que os seus amores te chamam. Por que se apresenta como Nora?
O corpo de Sylvia permanece em pé. Os olhos estão virados, apenas o branco do globo ocular aparece.
— Responda-me!
Ele diverte-se com a situação.
— Não. Você nem ao menos sabe quem eu sou.
— Você não é nada. — Nora rebate. — É a escuridão em si própria.
— Parece surpresa. Quem pensava que iria te responder?
Nora faz a mesma pergunta. Até mesmo os deuses antigos como o seu povo se foram. E os que permanecem, não iriam respondê-la de forma alguma. Ela cambaleia um pouco incerta. A escuridão permanece presente em sua forma inóspita. Escura como uma nuvem, fluída como vapor.
— Não vai me dizer o que aconteceu… — Nora percebe.
— Pensei que o ensinamento número um das bruxas era não invocar energias para perguntas óbvias. — Ele debocha. Nora revira os olhos e tenta afastá-lo com as mãos. A presença desfaz-se, e a Nora atravessa o nada em um movimento descoordenado. Então, o ser retorna transmutado na figura de Adrian. Nora estreita os olhos. — Lhe agrado mais assim? — Ele analisa o corpo. — Admito que entendo o apelo. É um homem atraente. Forte, alto, escuro… Gostei disso. Vou ficar assim.
— Pare com isso!
— Oh. Foi por isso que trocou a eternidade? — Ele desfila pelo espaço que o círculo de sangue define. — Eu admito. É até mais atraente que Sylvia. E tão passageiro quanto. É por ele que trocou tudo? — Nora decide ignorar as provocações. Ela realmente esqueceu-se que os seres são passiveis de um senso de humor questionável. — Não. Não foi por ele. É um homem bonito e há vários deles. Aposto que foi… — O ser transfigura a aparência. Nora reconhece Dante. — Foi por ele. Quanto amor! Eleonora, quanto amor!
— Cale-se! — Nora esbraveja. — Cansei das suas provocações. Você pode ter razão. É o único que ainda me responde. Ainda assim, foi invocado até aqui. E a sua natureza o domina. Está aqui por um trato. E eu lhe ofereço um. Diga-me o que aconteceu. Diga-me porque voltei. Diga-me porque estou nesse corpo?!
— O que você pode me oferecer? Nunca foi boa em cumprir tratos.
— O que você quer?
Ele retorna ao corpo de Adrian. Nora a odeia por isso.
— Deixe-me pensar… — A voz é do Adrian; os trejeitos são de Adrian. — Estou cansado de almas. Tenho o suficiente. Admito que a sua alma seria diferenciada, mas do que me serve a sua alma? Nada. — O ser olha ao redor. — Não há nenhuma miudeza que me interesse aqui. Esse tipo de acordo está ultrapassado também. Deixe-me pensar… — Até a forma de andar é como Adrian. Nora pergunta-se se ele esteve observando-os. — Eu vou lhe responder com o que você precisa saber. Não menos, não mais. E a sua dívida comigo… — O ser usa as mãos de Adrian para demonstrar o quão grande a dívida é. — está maior agora. Mas você tem a eternidade para pagar. E mesmo que se afaste outra vez, eu posso te encontrar de novo. — Nora desvia os olhos. — E de novo. E mais uma vez. Eleonora… — Ele cantarola com a voz de Adrian. — Eleonora! — Ele muda a entonação, divertindo-se. — Nora. — Continua testando a melhor forma de a chamar. — Qual o nome da sua alma? — Ele aproxima-se novamente, utilizando os dedos forjados para apertar a ponta do nariz de Nora. — Eu a conheci como Nora. Sinto-me traído. Mas tudo bem. Você é uma mulher de muitos amores… Posso esperar a minha vez.
Nora afasta ele outra vez.
— Responda-me.
— Tudo bem. A resposta que procura é…
O corpo de Adrian se desfaz como fumaça ao mesmo tempo que Sylvia cai no chão. A mulher mexe-se devagar, recuperando-se da possessão. Nora olha ao redor e percebe que o círculo de sangue foi desfeito. Então, socorre Sylvia, que enxuga o sangue com as mãos e repete: “Esse corpo não é seu”.
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