Tempo da Bruxa

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A refeição esfria sobre a mesa. O barulho dos talheres ecoa pelo cômodo. A lenha crepita na lareira enquanto a neve insiste em cair em excesso, impossibilitando qualquer atividade externa. Nora enrola-se no cobertor como se estivesse com frio. Ela mantém o olhar fixo no exterior porque sabe que a Lady Conti procura pela oportunidade de iniciar outra conversa cansativa. De vez em quando, ela beberica a água ao invés do vinho porque foi alertada por Adrian que Madalena era uma mulher exemplar.

— Ao menos tente. — Ginevra resmunga, enfim. Nora imediatamente confere as horas no relógio. A mulher conseguiu manter o silêncio por apenas dez minutos. — É cordeiro. O seu prato favorito.

Concorda com Madalena em uma coisa. Carneiro é uma carne saborosa. A noite inquieta, porém, roubou todo o seu apetite. A conversa com o corvo começou inofensiva, apesar de provocativa, e terminou tão infeliz que Nora nem sabe descrever. As ofensas trocadas foram insignificantes para a entidade, mas cruéis para ela. A suspeita confirmou-se da pior forma possível; as visitas de Revna não são por mero deleite em sua desgraça. A entidade recusa-se a esclarecer ao mesmo tempo que confessa que há muitas entrelinhas. Tantas possibilidades que dão a Nora um enjoo e uma vergonha indescritível.

Acostumada com a longa existência, Nora mantém a altivez com a maioria dos seres com que lida. Nem mesmo os deuses a assombram mais. Ela sente-se algo pior e mais degenerado que eles; não foi feita para ser imortal e não era uma possibilidade real. Ainda assim, lhe foi imputado, e aprender a lidar com o tempo infinito é uma tarefa tão enlouquecedora que, após concluí-la, poucas coisas realmente são difíceis.

Mas Revna é.

Deuses mais antigos e mais cultuados têm uma energia intimidadora. A personalidade varia. Nora conheceu deuses extremamente amáveis que a fizeram acreditar que o criador da vida só poderia ser masculino. Por outro lado, encontrou deusas desafiadoras, e Nora temeu que muitas mães eram devotas às deusas intransigentes, o que justifica tantas filhos infelizes. Logo também conheceu deusas amáveis e deuses cruéis, injustificando qualquer tentativa de criar uma regra.

De qualquer forma, o corvo é outro tipo de coisa.

A entidade antecede os deuses mais antigos. A sua origem é indescritível, e a sua existência perde-se na própria realidade. A energia tende a ser mais densa. Ao mesmo tempo, também pode ser brando como a brisa de verão. A maioria dos deuses, independente do panteão, são reconhecidos por suas personalidades e se mantêm fiéis à descrição.

Revna é outra coisa. Instável e surpreendente. É tão complexo quanto os seres que gosta de debochar. Às vezes Nora pensa — e teme pela possibilidade. Sente-se como Madalena blasfemando. — que Revna é o verdadeiro criador de tudo, diferente da lenda em que Revna é a escuridão indisposta a suportar a existência da vida, que por inveja persegue todas as criaturas a fim de humilhá-las com a inexistência.

O corvo a faz sentir minúscula e tola. Todos os séculos que percorreu na Terra tornam-se um passeio insignificante de uma criança que mal sabe desenhar letras. Todo o custoso conhecimento acumulado nada é senão histórias perpassadas de pais para filhos. E toda a sua existência é resumida em birras e desejos vãos e insignificantes.

Ainda assim, Nora buscou Revna sem arrependimento verdadeiro todas as vezes em que precisou porque nunca precisou implorar para ele; diferente da maioria dos outros deuses que parecem se divertir com a miséria dos seres que eles mesmos criaram. Criaram, brincaram e enjoaram como a maioria dos seres imortais fazem.

— Exagerei no desjejum. — Nora se força a falar quando lembra-se da presença de Ginevra. — E estou satisfeita. Por enquanto. — Ginevra suspira. — Inclusive, não desci para o almoço por isso.

— Da forma que fala até me sinto inconveniente. — Nora nega, mentindo. Ginevra termina o vinho, limpa os dentes e considera. — Está realmente satisfeita ou está evitando o seu marido? Se quer saber, ele não estava presente no almoço.

— Por que eu estaria o evitando?

A Lady Conti procura as palavras por muito tempo.

— Minha irmã… — Soa como um lamento. — Eu sei que as paredes escutam. Em todos os lugares é assim. Mas aqui, nesse quarto, somos apenas nós. Não há necessidade de encobrir nada. — Nora não responde e é o suficiente para que a lady prossiga. — Sei que esse casamento nunca a fez feliz. A verdade é que mamãe tinha razão. O único esposo que você sempre desejou foi o nosso Senhor. — Nora se esforça para manter a expressão neutra. A risada permanece presa em sua garganta. — Foi Ele quem te salvou. Diversas vezes. — Ginevra soa extremamente materna. Nora mexe-se, desconfortável. — Mas a sua união com o sir. Palucci não podia ser mais desejada. E infeliz para você. Eu cumpriria esse papel sem tanto sofrimento, mas…

— Mas você não cumpriu.

— Não. — Ginevra estala a língua e bebe mais vinho. Nora estreita os olhos. — Na época, papai pensou que a existência do bastardo seria uma ofensa muito grande para a mim. Papai nunca admitirá, mas esse foi, talvez, o seu maior erro. Se ele não tivesse feito tantas exigências, seria mais fácil convencer Adrian. Depois seria questão de tempo até convencê-lo, enquanto sua esposa, a enviar Dante para um excelente colégio. E os nossos filhos, — Ginevra sorri. — os meus filhos seriam os herdeiros de tudo isso. — Nora firma o maxilar. — Os seus filhos também podem herdar tudo isso. Dante não é uma possibilidade. E Selena… — A mulher encara a garrafa de vinho por tempo considerável. Nora está prestes a agarrá-la e descobrir sobre a filha. — É uma garotinha doce. — Nora sente o corpo relaxar. — Mas é amaldiçoada como nós. Uma mulher. Nada herdará do pai, senão o amor.

— Não somos amaldiçoadas.

Ginevra sorri, falsa.

— Não, minha irmã. Não mesmo. Deus pensou em nós, mulheres, para um propósito diferente. Eu entendo. — Ginevra faz uma pausa, tentando se convencer disso. — E aos homens deu todo o resto. E nós precisamos… — Ela ri sozinha. — Aceitar. — Ginevra levanta-se. Nora a acompanha com os olhos. — Aceitar que a nossa maior dádiva é parir quantos bebês possíveis. De preferência meninos. Como se pudéssemos realmente escolher. Se eu pudesse escolher, — Ginevra serve mais vinho. — acha mesmo que teria escolhido parir três meninas? Tudo o que meu senhor faz é me lembrar que precisamos de um herdeiro. Como se eu ao menos quisesse estar no mesmo quarto com ele. — Nora mantém-se quieta porque o desabafo de Ginevra é tão inacreditável que a entrete. Problemas humanos são sempre dramáticos. — Nisso você teve sorte. Embora não possua nenhum interesse por homens, ao menos o seu marido é mais… agradável. Gerar herdeiros não parece uma preocupação para ele. É claro que não. Para Adrian, Dante é o seu herdeiro irrevogável. O homem cegou-se no próprio amor. Admirável, vindo de um homem. E tão tolo quanto uma mulher. — Ginevra apoia-se na janela. — Qualquer um sabe que Dante não é um herdeiro legítimo. Ainda que tenha sido criado como um lorde, ele é um bastardo.

Nora encara Ginevra em sua totalidade pela primeira vez. Embora infeliz e traiçoeira, ela prefere a versão crua da mulher. Até mesmo as queixas são críveis e relacionáveis. O mundo não é bom para as mulheres. Não para mulheres como Madalena e Ginevra. Nora advém de um lugar em que as mulheres são desejadas porque são condutoras legítimas e únicas de magia.

— Por isso, minha irmã… — Ginevra retoma o raciocínio. — Precisa cumprir o seu papel nesse mundo. — Nora desvia os olhos. — Já faz tempo o suficiente, Madalena. As más línguas sussurram que você é seca. Incapaz, é o que dizem. Às vezes me preocupo com isso. Não acho que seja seca. Mas incapaz, sim. Incapaz de agradar o próprio marido. Me pergunto se ele procura companhia em outros lugares porque sei que não encontra em você. E como poderia? — Ginevra gesticula. — Olhe esse quarto. — A mulher reprova com a cabeça. — Reze o quanto quiser, eu já lhe disse. Se assim desejar, reze enquanto ele te toca. Reze enquanto ele entra em você. Reze o tempo todo. Mas faça o que deve ser feito. — Nora arqueia as sobrancelhas. — Não me olhe assim. A verdade, Madalena, é que você teve sorte. Outro homem não aceitaria tantas recusas. Outro homem tomaria o que é dele na primeira noite.

— Adrian não é assim.

— Eu sei. — Ela suspira. — E eu lamento por isso. — Nora solta o ar pelo nariz, incrédula. — Eu lamento porque você precisa de alguém para te manter em ordem. Se ele não fosse tão… — A palavra é omitida. — Não estaríamos nessa circunstância. — Ginevra ri. — E a situação não poderia ser mais agradável para ele. Casou-se com você para conseguir o apoio da nossa família, para validar a sua autoridade entre os nobres. Mas não cumpre o papel como o marido. E ninguém cogita que a culpa seja dele. É claro que não. A culpa é sua por ser tão frígida. E assim ele continua desprezando a nossa família silenciosamente, recusando-se a deitar-se com você como marido. Como se nós não fôssemos o suficiente para agradá-lo. — Ginevra se exalta e ri, magoada. — É tão cínico da parte dele. É tão humilhante. Ele me recusou. Ele te recusa. Mas não encontrou nenhum problema em deitar-se com aquela mulher desprezível.

Nora desvia o rosto para disfarçar o sorriso. Ginevra anda pelo quarto até se acalmar. Quando o faz, retorna com a falsa amabilidade:

— Por que estavam discutindo ontem? — Ela pisca várias vezes. — Eu estava exausta. Não tive disposição de ficar ouvindo atrás da porta, mas ouvi Adrian em seu quarto à noite. Nem preciso perguntar com que intenção ele te procurou porque é óbvio que não foi como homem.

Nora não se encontrou com Adrian à noite. Ela discutiu com Revna.

— Dante. — Madalena mente. — O garoto é inapropriado.

Ginevra revira os olhos e afasta-se, joga-se na cama e encerra a conversa.

***

— Licantropos e lobisomens são coisas diferentes.

Nora desvia os olhos do grimório e observa Dante sentado no sofá diante da janela. Ela permanece ocupando a poltrona próxima a lareira, aquecendo o corpo enquanto finge procurar alguma magia antiga anotada nas páginas. Não há nada realmente importante naquele caderno. É o disfarce perfeito para reavaliar a discursão com Revna e absorver o desabafo de Ginevra Conti.

— São sim.

— E os licantropos foram criados pelos próprios deuses.

— Sim, assim como tudo que existe. — Ela encurta a história da criação dos deuses. Não quer que Dante saiba da existência de outras coisas como Revna. — Digo, assim como as bruxas, as druidas, as fadas e a maioria das criaturas.

— Mas os lobisomens não?

Nora desiste do grimório.

— Não. Lobisomens não.

— Nem as feiticeiras.

Nora ri.

— Qual a sua dúvida?

Dante gesticula, confuso.

— Como os lobisomens surgiram? E as feiticeiras?

Nora beberica o chá quente e pondera.

— Feiticeiras são mulheres que nasceram da união de bruxas com seres humanos. — Dante ouve com atenção. — A história dos lobisomens é um pouco mais… infeliz, eu acho. — O garoto senta-se ao lado dela. Nora prepara-se para contar: — Eu não sei tanto quanto gostaria. Os licantropos são muito reservados com a sua existência. Esse tipo de história é passada de pai para filho, assim como as bruxas passam para as suas descendentes todo o conhecimento que têm. — Dante quase não pisca. — Ao menos assim deveria ser. O seu pai não sabe quase nada sobre a própria origem. Mas ele não teve convívio nenhum com a família.

— Por que não?

Nora ri.

— Quantas perguntas… — Ela ajeita o cabelo dele. — Por que não pergunta a ele? — Dante faz uma careta que garante que a conversa não é uma possibilidade. — O seu avô não era um licantropo. Ele era um ser humano comum. E a sua avó carregava a linhagem. Uma linhagem tão pura e forte que foi capaz de gerar um filho licantropo apesar do marido não ser.

— Meu pai nunca me falou sobre o meu avô.

Nora sorri triste.

— Ele não foi alguém que merece ser lembrado.

— E a minha avó?

— Oh, querido. — Nora franze o cenho. — Ela morreu quando o seu pai ainda era muito pequeno. Ele nunca falou sobre porque não se lembra de nada. Ele não a conheceu de verdade. E por não ter a conhecido não aprendeu nada sobre quem é.

Dante abaixa os olhos enquanto absorve.

— E o meu avô não sabia também?

Nora suspira.

— Não sei. Eu não o conheci também. — Nora ajeita-se na poltrona. — Talvez soubesse. Talvez não soubesse. A verdade é que o seu avô nunca quis ter contato com a família da esposa.

O garoto franze o cenho.

— E por que ela se casou com um homem assim?

Nora estala a língua.

— Eu também não sei. — A resposta é quase um lamento. Adrian passou boa parte da vida tentando entender como a mãe foi capaz de casar-se com alguém como Marco Palucci. Nora nunca comentou porque o machucaria demais, mas desconfia que a genitora dele não era tão diferente do companheiro. Se fosse, não teria se casado com um ser-humano. Licantropos são exigentes sobre os seus companheiros porque a linhagem é ainda mais ameaçada que as bruxas, o que soa quase improvável. Ao menos, as bruxas encontraram uma forma de prosseguir enquanto feiticeiras. Os licantropos não. — Gostaria de responder essas dúvidas, mas eu não sei. Como eu disse, não conheci a sua avó, nem o seu avô. — Dante permanece pensativo. — Sobre os lobisomens… — Nora se ajeita na poltrona. — Entre muitas gerações de licantropos, houve um licantropo que enlouqueceu. Alguns dizem que era uma criança normal boa parte do tempo. Outros já contam que desde cedo era uma criança diferente. Há muitas versões para a vida dele, mas há apenas uma história do que ele fez. Licantropos não são criados. Assim como as bruxas, ou você nasce licantropo ou não nasce. Quando ambos os pais são licantropos é óbvio que o bebê será como eles. Mas se um dos pais não é, então há uma chance dos filhos não serem. Mas não é isso que criou os lobisomens, diferente das feiticeiras.

— A minha mãe era um ser-humano comum?

— Sim, era. Por isso, tanto eu quanto o seu pai pensávamos que você não era um licantropo. Eu dizia que se você fosse sentiria a sua energia. É diferente, sabe? A energia de seres humanos, bruxas, licantropos… — Dante concorda. — Esse homem… Ele tinha o grande desejo de ser pai. E encontrou a sua companheira cedo, também disposta a ser mãe. Apesar do desejo de ambos, não aconteceu. Eles tentaram muito, mas não tiveram filhos. A mulher o deixou, e ele juntou-se a muitas outras companheiras.

— E não teve nenhum bebê?

— Não. Não teve. — Dante surpreende-se, e Nora ri. — Cansado de tentar, esse homem decidiu formar a própria família de outro jeito. Ele achava que podia criar outros licantropos. Mas, como te disse, ou você nasce ou não nasce. Não pode ser criado depois de adulto. Os anciãos o alertaram sobre o desejo do coração. Todos sabiam, desde pequenos, que não era permitido morder humanos e deixá-los vivos. As consequências eram terríveis e se espalhavam muito rápido. Mas esse homem não ouviu os seus sábios. E na noite de lua cheia, transmutou-se com a certeza do que faria. — Dante arregala os olhos, e Nora molha os lábios. — Ele atacou duas pessoas diferentes. Um garoto e uma mulher. O garoto não sobreviveu ao ataque. A mulher sim. Não era perceptível a luz do dia, nem à luz das outras luas. Mas quando a próxima lua cheia chegou, o resultado foi horrível. A mulher não se transmutou em um lobo completo. Era uma transmutação pela metade. Os membros não eram do mesmo tamanho, e o corpo estava desajustado. Ela não tinha quatro membros; tinha seis. Quatro pernas com patas e dois braços humanos. A pele dela se rasgou, e a cabeça do lobo saiu do seu crânio. O crânio humano não transmutou totalmente. Permaneceu desfeito e assustador dentro da mandíbula do lobo. O corpo era imenso e humanóide, totalmente diferente do que os licantropos são às luas cheias. As costelas visíveis e o pelo ralo. Uma aberração completa.

— Isso ainda existe?!

Nora assente.

— Infelizmente, sim. Os anciãos caçaram essa aberração, mas o licantropo fugiu e criou outros. Ele ficou deslumbrado com a própria criação e os julgou mais belos e perfeitos que a própria espécie. — Nora lamenta. — Licantropos são uma raça que anda pela Terra tanto tempo quanto às bruxas. Eles vivem isolados porque os seres humanos não nos suportam, mas preservam a sua existência entre o seu povo. Transmutar à lua não é um castigo para eles. É uma honra. Desde pequeninos eles são ensinados que são duas coisas, não uma. Eles são homem e lobo. Ou mulher e lobo. — Nora sorri. — E aprendem a honrar isso. Sair às noites de lua cheia como fera, como lobo, é uma honra. Eles se conectam à terra e aos criadores. — Dante mantém as sobrancelhas arqueadas. — E são totalmente cientes do que são. Eles não perdem a humanidade, nem a percepção do mundo, enquanto feras. Ao menos, não os licantropos que são inseridos desde jovens no assunto. Licantropos como o seu pai sofrem porque não tiveram ninguém para ensiná-los. Eles não aprendem a controlar a sua metade, não aprendem a ouvi-la nem a apreciá-la. São feras completas quase tão descontroladas quanto os lobisomens. — Dante encara os próprios dedos, pensativo. — Os lobisomens ainda são piores. Eles são pessoas comuns que foram amaldiçoadas, mordidas, e toda noite de lua cheia são obrigados a se transformar em uma aberração descontrolada, agressiva e muito vil. São agressivos e fortes. São coisas horríveis, mas que se espalham como uma praga porque basta um arranhão.

Dante olha para o braço que arranhou.

— Não se preocupe. Você não é um lobisomem. — Ela o tranquiliza. — Um arranhão também não é o suficiente para criar um lobisomem quando você é um licantropo. É um processo mais… vil. Mas quando se é lobisomem, você já está infectado. É mais fácil espalhar essa doença por aí.

— Isso é horrível. Horrível! Por que ele fez isso? Por que…? — Nora encolhe os ombros. — Há muitos lobisomens por aí?

— Muito mais que licantropos puros. A sua raça é caçada há centenas de anos, apesar da boa convivência com outras espécies.

— Por quê?

— Sinto muito, querido… — Nora lamenta. — Eu não sei. Os seres humanos aumentam com uma rapidez impressionante. E não demorou muito para decidirem que qualquer coisa diferente era uma ameaça. Nós… Nossos antepassados não eram uma ameaça. Nossos antepassados defenderam as suas famílias e as suas terras dos humanos por muitos anos porque eles nunca estavam satisfeitos. Quanto mais tinham, mais queriam. — Nora dá de ombros. — Muitos desentendimentos aconteceram, inclusive entre nossas raças. Isso sempre foi comum. A diferença é que nossos povos nunca perseguiam um ao outro com a intenção de matar todos. Mesmo quando discordavam, mesmo quando brigavam por terra. Nós nunca nos matamos desse jeito, nem mesmo matamos os humanos. — Nora acolhe Dante e suspira. — Esse é o defeito dessa raça. Eles pensam que valem mais que todos os outros.