Tempo da Bruxa
14 Trinco
O cheiro característico do estábulo é amenizado pela corrente de ar que atravessa o ambiente. Enquanto aproxima-se, observando a movimentação dos servos para retirar os dejetos dos animais, Nora aperta o casaco contra o corpo para manter o conforto térmico. Os servos que veem o corpo de Madalena andando pelo ambiente demonstram surpresa honesta, mas são ágeis em reverenciá-la.
Nora o encontra dentro da baia, sentado no banquinho para limpar os cascos do cavalo antes de colocar a ferradura. Por minutos significativos, ela o observa trabalhar distraído. As mãos são ágeis, e os movimentos decorados. A sujeira dos cascos mancha o tecido nobre que foi utilizado para compor as roupas do duque. As mangas da camisa, o paletó para proteger do frio está pendurado na porta da baia, estão dobradas em uma tentativa de não comprometer toda a roupa. É uma decisão estúpida e antiga.
O cavalo permanece quieto, aguardando que os cascos sejam limpos adequadamente. Com dificuldade, Nora reconhece o animal. Dante o ganhou de presente no aniversário de oito anos poucas semanas antes de Nora partir. A memória é tão forte que ela quase acredita que poucas semanas se passaram.
— Ainda não encontrou nenhum servo hábil para o serviço?
Adrian se assusta e perde o canivete que utiliza na limpeza. O cavalo solta o ar pelo nariz e repousa a pata no chão, movimentando-se brevemente. Adrian a olha por cima dos ombros, arqueando as sobrancelhas densas e escuras. Nora se aproveita do ângulo para tentar visualizar a passagem dos anos na face dele, mas os olhos são pequenos e escuros como sempre. O nariz é adunco e se torna mais protuberante quando Adrian sorri. A pele, apesar de desbotada, permanece marrom-escura. Nora procura cabelos brancos ou excesso de rugas ao redor dos olhos, nariz e boca. Mas o tempo pouco passou para ele.
— Eu… — Adrian se perde na resposta e balança a cabeça. Ele recolhe o canivete antes de limpar as mãos na calça, apesar do pano destinado a isso. O esforço desfez o penteado dele, e os dias difíceis aumentaram a barba. — Me surpreende a sua visita. .
Nora esboça um sorriso debochado.
— Não é aceitável que converse com o meu marido?
Adrian observa a barra do vestido e os sapatos de Madalena sujos de barro e dejetos de cavalo. Nora ignora a sujeira tanto quanto ele e odeia o fato porque percebe que ainda são feitos de coisas parecidas. Antes de perder os resquícios de amenidade entre eles, ela agarra-se à suposição do que teriam sido se Adrian não fosse o herdeiro, se não fosse tão apegado à origem e a farsa que construiu para si.
— Presumo que seja um assunto que não pode esperar o meu retorno.
Nora balança os ombros e olha ao redor. O mero olhar de Adrian é o suficiente para dissipar os ouvintes presentes. Ela espera uns segundos antes de iniciar a conversa.
— Devo dizer que a presença da Lady Conti tem sido surpreendente.
— Faz muito tempo que não visita a sua irmã. Imagino que tenham muitos assuntos pendentes. — Nora firma o maxilar, e ele quase sorri. — Diga-me, esposa, o que a surpreende?
— Depois de todos os anos, eu realmente não esperava descobrir que a minha irmã ainda se ressente sobre o senhor. — Adrian arqueia as sobrancelhas. — Ao mesmo tempo em que ela aparenta aprovar a nossa união, ela tem severas dúvidas. E essas dúvidas, meu senhor, me perturbam também. Mais do que nunca. — O silêncio dura alguns segundos. Adrian mantém a expressão neutra, mas Nora percebe o suave tique de sobrancelha que sempre aparece quando ele morde a língua para conter uma resposta severa. Ela puxa ar para os pulmões antes de prosseguir: — Minha irmã se preocupa sobre a natureza da nossa união. E a minha memória não é tão aguçada quanto eu gostaria que fosse. Portanto, espero que entenda a angústia que essa situação tem me causado. Não tenho sido uma boa esposa?
Nora assiste a paciência de Adrian se encerrar.
— Fale comigo, Eleonora, com a sua clareza habitual.
— Por quê? — Ainda é a única pergunta que Nora consegue elaborar. Adrian desvia os olhos. — Por que Madalena? Peço que também fale comigo com a clareza que costumava me dedicar.
Adrian evita a responder enquanto finge finalizar a limpeza do casco. Nora não tem pressa e aguarda.
— Madalena não é como a irmã. — Eles se olham. — Espero que isso a responda.
— Eu consigo entender, Adrian. Eu me esforço para compreender as motivações que o levaram a contrair outro matrimônio. — Nora desvia o olhar. — É um homem jovem. E eu… Eu não fui a escolha ideal. Havia muita expectativa sobre o seu casamento. Boa parte do tempo você não se porta como tal. Ainda assim, é o duque. É a figura mais próxima de Deus que eles têm. — Adrian solta a risada pelo nariz. — Se ainda posso me defender, eu sempre soube que não era uma boa ideia. Eu não era… — As palavras somem. A conversa é repetitiva. — Se casar com alguém como eu não seria bem aceito. Eu lhe disse tantas vezes. A única coisa que poderia lhe oferecer era uma companhia…
— Você morreu. — Adrian a interrompe. — Esteve morta por quase uma década. Por motivos incompreensíveis, retornou nesse corpo. E a sua maior preocupação é retornar nesse assunto? — Nora abre a boca. Adrian não a permite continuar: — Você me disse vezes o suficiente que não era a esposa ideal. Eu entendi da primeira vez. E nunca houve, Eleonora, nada parecido com arrependimento. Nem por um segundo. Não estou sendo fantasioso e dizendo que não houve consequências. O sir. Moretti, mais do que qualquer outro nobre, se esforçou consideravelmente para que as consequências fossem severas. E você ainda estava aqui quando o sir. Moretti retirou todo o apoio que Marco conquistou.
— Você recusou o casamento com a lady mais desejada da região. Pense como um pai se sentiria.
— A recusa a Ginevra nunca foi o verdadeiro motivo para a repreensão dele. — Nora estala a língua. — O ressentimento surgiu, antes de tudo, porque não foi escolhido como duque. Tantos anos de esforço, tanto trabalho árduo, tantas coisas envolvidas. Ele foi desprezado porque não teve um herdeiro. — Ela pensa em Selena e Dante. — E a minha união com a lady Moretti era a única alternativa para o sir. Moretti ascender ao poder oficialmente. — Adrian solta o ar pelo nariz. — Na ausência de Marco, o sir. Moretti estava pronto para ser o mentor que eu precisava, é claro.
— Eu me lembro bem da reação do sir. Moretti quando casou-se comigo. E você me garante que não houve nem um segundo de arrependimento.
— Não, não houve.
— Ainda assim, casou-se com Madalena. Entendo que essa união tenha acontecido para recuperar o apoio do sir. Moretti e dos nobres que o apoiavam. — Adrian assente. — Mas nós resistimos muito tempo às investidas severas da família Moretti. E eu me lembro, você ainda mantinha boa relação com um número conveniente de nobres. Número alto o suficiente para que o sir. Moretti fingisse amigabilidade conosco.
— E a amigabilidade do sir. Moretti e da maioria dos outros nobres se desfez em sua ausência. — Nora o encara. — Talvez eu tenha me tornado uma má referência. Nunca cumpri todas as expectativas da nobreza, eu reconheço. O sangue da minha mãe ainda arde em mim. Porém, desconfio que enquanto estava aqui, mesmo que não cumprisse o ideal, mesmo que não fosse a nobre da linhagem mais pura, você ainda era a minha esposa. Diante Deus e da maioria dos nobres. Portanto, havia a esperança de que eu geraria mais herdeiros legítimos e manteria o ducado na família. A maior preocupação dos nobres é que surja outra disputa em relação ao ducado. Outra disputa enfraqueceria toda a região e poderia desfazer alianças que foram tecidas nesses anos. Nós estaríamos expostos novamente e toda a independência que foi lentamente construída poderia se desfazer.
— O sir. Moretti aproveitou-se da minha morte para levantar desconfianças sobre a sua sucessão. — Nora solta o ar pelo nariz. — Imagino que a mera ideia de Dante se tornar o seu herdeiro legítimo causou bastante desconforto. E na indisponibilidade de Dante herdar, Selena é a única sucessora. E essa era exatamente a mesma situação do sir. Moretti. Os nobres não concordaram com a reivindicação dele como duque porque só teve filhas.
— E o sir. Moretti nunca concordaria com isso. Se o fato de não ter herdeiros legítimos o impediu de assumir o ducado, não poderia ser diferente comigo. Os nobres concordaram sem exceção. Apesar do meu luto, eles estavam ansiosos para que a situação fosse resolvida. E em pouco tempo as agitações começaram porque houve boatos de que algumas famílias estavam dispostas a resolver o problema por conta própria. E sem o apoio da maioria dos nobres…
— Então, casou-se com Madalena para recuperar o apoio dos Moretti e resolver a questão da sucessão.
— Em partes, sim. Eu me casei porque precisava colocar um fim nos boatos que surgiam. Se houvesse qualquer tentativa de usurpação, o que eu nunca duvidei porque reconheço a fragilidade do meu ducado, eu teria pouquíssimo apoio. E sem apoio não haveria futuro caso a situação se agravasse ainda mais. É irônico como o poder funciona. Você só é o que é enquanto os outros concordam que seja. — Nora mantém o olhar baixo enquanto absorve a conversa. — Eu podia ter me casado com qualquer nobre com a família devidamente influente, mas optei por me casar com Madalena. Talvez porque a família Moretti ainda é expoente. O motivo principal, porém, é porque eu sabia que se me casasse com qualquer outra lady teria obrigações enquanto marido. Com Madalena não.
Nora franze o cenho.
— O quê? — Ela balança a cabeça. — Por quê?
Adrian dá de ombros.
— Madalena sente-se diferente sobre homens.
Nora estreita os olhos.
— Sente-se diferente? O que… — Ela arregala os olhos. Adrian ri. — Ela te confessou isso? — Adrian assente. — Essa possibilidade nunca teria me ocorrido. Madalena sempre foi tão… típica. Uma católica fervorosa. E o catolicismo nunca foi receptivo a esse tipo de coisa.
— Madalena nunca lidou bem com a possibilidade. Ela me confessou isso em uma noite que não estava totalmente sóbria. Talvez ela encontre na religião um tipo de expurgo para o que é.
— Não há nada a se expurgar. Não há nada de errado em se sentir diferente sobre os homens.
— A maioria das pessoas não vê a situação dessa forma. Madalena nunca foi gentil consigo mesma. — Nora apoia-se na estrutura da baia. — Madalena também tinha outros problemas. Não foi uma criança tranquila, nem mesmo arteira. Era uma coisa pior: completamente perturbada. Ela se sentia perseguida por… — Adrian gesticula. — Presenças desconcertantes. E a fervorosa fé afastou essas presenças.
— Demônios? Fantasmas?
— Não tenho tantos detalhes. Ela nunca se sentiu confortável para contar mais. — Nora nega com a cabeça. — Ela aceitou se casar comigo porque não havia a possibilidade de permanecer sozinha. Ou ela se casava comigo ou teria que se casar com qualquer outro homem que com certeza exigiria os direitos enquanto marido.
— E você nunca exigiu?
— E eu poderia? Primeiro, estava chorando por você. Depois, eu prometi a ela que nunca o faria.
Nora não acredita. Madalena estava grávida, e Sylvia foi certeira sobre a origem do bebê.
— Adrian, está me dizendo que você nunca a tocou? — Ele mordisca o lábio e desvia os olhos. — Não me esconda nada, por favor. Tudo já é perturbador o suficiente.
— Nos deitamos algumas vezes. — Nora arqueia as sobrancelhas. — Poucas vezes. — Ele frisa. — Em algum momento, Madalena decidiu que gostaria de ter a experiência. Imagino que tenha sido pressionada a dar mais detalhes para Ginevra. Também penso que ela estava tentando descobrir se realmente se sentia diferente sobre os homens.
— E você não negou.
— Eu não poderia. — Nora cruza os braços. — Eleonora, veja só. Eu já tinha obrigado a garota a se casar comigo.
— Você não a obrigou…
— Tudo bem. Não a obriguei. — Adrian gesticula. — Mas ela casou-se comigo e a família estava a pressionando. Além disso, não acha que a Madalena tinha o direito de saber o que era e como era?
— Oh, Deus. Você sempre tão gentil. Não me diga que foi muito difícil para você. — Adrian revira os olhos. — Tudo bem. Posso entender a primeira vez. Eu conversei com Ginevra e posso imaginar o quanto Madalena estava sendo pressionada. E ela tinha o direito de sanar as próprias dúvidas. Madalena não procuraria outra pessoa. É católica demais. — Ele assente. — Mas e as outras vezes?
Adrian afasta-se.
— Vamos realmente discutir?
Nora o persegue.
— Me responda. E as outras vezes?
— Eu não sei, Eleonora. Talvez eu estivesse simplesmente triste.
— Mas não triste o suficiente para procurar uma mulher que não o deseja. Adrian, você sempre foi muito orgulhoso. Por que se deitou com ela outras vezes?
— Eu me casei com ela. Aconteceria em algum momento. — Nora cruza os braços. — É um assunto desconfortável. Não entendo porque é interessante para você. — Ela mantém a expressão severa e a postura fechada. Adrian lava as mãos na água fria antes de suspirar alto e confessar: — Eu não sei! — Adrian esbraveja. — Eu estava miserável e bêbado boa parte do tempo.
— E Madalena te encontrou miserável e bêbado. E Deus, quão bondosa ela é! — Nora ironiza. — Te acolheu entre os seios macios, quentes…
Adrian é severo:
— Pare com isso.
Nora ri e esfrega o rosto.
— Você não percebe, não é? — Eles se encaram. — Não tenho dúvidas que Madalena despreza homens. Me surpreendo porque não cogitei antes. E casar-se com você com certeza a poupou de outro casamento que seria agressivo e miserável. Ainda assim, ela tem obrigações. Se não com você, com a família. Afinal, do que adianta para o Moretti um casamento que não produz herdeiros?
Adrian precisa de alguns instantes para perceber e aceitar.
— Talvez tenha razão. Mas não importa mais. — Adrian dá de ombros. — Os raros encontros com Madalena não produziram nenhum herdeiro, como pode perceber. — Nora desvia o olhar. — E não pretendo mudar isso. Aliás, pretendo viver o suficiente para enterrar Moretti e todos os que insistem em questionar Dante como o meu sucessor. Porque ele é. Talvez ele não suporte a ideia. Quanto mais penso sobre o meu filho, mais percebo o quão parecido com Marco me tornei. — Adrian afunda as mãos no cabelo. — A ideia me perturba. Quando conheci Dante a única coisa que senti foi culpa. A mãe dela havia acabado de padecer. E eu? — Ele gesticula. — O que poderia oferecer a ele?
— Você o manteve.
— Porque pensei que conseguiria ser melhor que Marco foi. E agora não sou. Desconfio que tenha me tornado algo ainda pior. — Nora nega. — Não consigo parar de pensar se fiz a melhor escolha. Talvez nisso Marco tivesse razão: Dante seria mais feliz se tivesse a chance de ter um pai melhor do que eu. Até isso tirei dele.
Nora encurta a distância entre eles e o segura pelos ombros. Ela está prestes a questionar sobre todos os erros que cometeu e porquê cometeu. E também está pronta para acolhê-lo porque mal pode suportar a tristeza que o invade toda vez que fala do pai. Sente-se tola porque Adrian causou tristeza semelhante ao filho. Marco, por sua vez, nunca fomentou nenhum arrependimento, muito menos tentativa de corrigir tantos pecados. Nora, então, se permite acreditar que Adrian é diferente.
Porém, a aproximação da Lady Conti, acompanhada de duas acompanhantes, a interrompe.
— Minha irmã! — Lady Conti é escandalosa ao mesmo tempo que avalia a proximidade deles. — Estava preocupada! Te procurei por todos os cômodos e me assombrei quando soube que estava no estábulo. Posso perguntar porquê decidiram se encontrar aqui?
Nora fecha as mãos em punho. Aos poucos, o papel que desempenha torna-se cada vez menos convincente. Por um instante, Nora considera encerrar todo o fingimento e lidar com Ginevra da forma que realmente deseja. Adrian, contudo, toca o seu ombro e murmura:
— Eu a convidei.
— Quanta gentileza, Vossa Alteza! — Ginevra soa tão estridente quanto falsa. — Fico satisfeita ao ver que Vossa Alteza considera a companhia da minha irmã tão proveitosa. Percebo que as coisas melhoraram tanto que Madalena até superou o medo dos cavalos… — Adrian prepara-se para rebater. Ginevra prossegue: — Apesar disso, também vim convidar a minha irmã. Imagino que esteja ansiosa para ir à missa após tantas semanas de enfermidade.
— De forma alguma. — Adrian intercede rapidamente, aproximando-se de Ginevra. — Não tenho dúvidas que Madalena esteja ansiosa para voltar à rotina, mas não acredito que seja a melhor opção expô-la a um percurso tão cansativo quando o tempo é tão rigoroso. Lembre-se, Lady Conti, a sua irmã está se recuperando dos pulmões. Quer mesmo testá-los tão cedo? — Ginevra abre a boca para rebater. — Não vou permitir que ela vá hoje.
— Vossa Alteza, a sua atenção com Madalena me satisfaz. Vejo que todas as minhas preocupações eram infundadas porque apesar do comportamento inaceitável do seu filho, o senhor está se dedicando a minha irmã com verdadeiro cuidado. — O sorriso dela é fingido. Nora não se esforça para imitar a possível reação de Madalena. — Concordo que não é a melhor opção expor Madalena a esse tempo infeliz. Porém, acredito que ela se alegrará em se juntar conosco à vigília esta noite.
Adrian encara Nora, apertando os olhos. As tentativas são intensas, mas ele não pode poupá-la de tudo. Não quando Madalena é uma devota tão severa de Cristo.
— Uma vigília! — Nora finge surpresa. — Excelente ideia.
***
— As janelas… — Lady Rossi murmura ao mesmo tempo que o vento gélido invade o cômodo e ameaça apagar todas as chamas que iluminam o pequeno quartinho de oração. Nora, porém, não permite que as chamas se apaguem porque sabe que as mulheres são incapazes de acendê-las novamente. — Abriu outra vez.
Nora interrompe a prece cristã para observar a conversa acontecer entre as mulheres.
— Você não travou?
— Travei! — Ginevra franze o cenho, descrente. — Minha senhora, eu travei duas vezes. Tenho certeza.
Apesar das garantias, o vento continua adentrando o cômodo. É tão severo que causa um assobio perturbador enquanto as janelas batem com força. Nada é dito e muito é suposto. Lady Rossi é tão temerosa quanto demonstrou. O seu desconforto é o suficiente para perturbar as outras duas mulheres que insistem na vigília.
— O trinco deve estar estragado. — Ginevra supõe. — Solicitarei que seja arrumado pela manhã.
— Minha senhora… — Lady Rossi retorna a falar, interrompendo novamente as preces baixas. Nora desiste de manter os olhos fechados e assiste a situação se formar. — Espero que a sua solicitação seja atendida ao amanhecer, mas não acredito que o problema das janelas seja as travas. Elas estão em perfeito estado. Ainda assim, as janelas abrem como se alguém girasse os trincos assim que eu me afasto. Alguém ou algo.
As outras duas mulheres, nobres acompanhantes da Lady Conti, se encaram.
— Algo? — A lady questiona. Nora ainda não aprendeu o nome desta. — O quê…?
— Eu ouvi histórias. — Lady Guzmán interrompe a sua companheira, ansiosa.
— Que histórias?
— Histórias sobre o que ronda a propriedade. — Lady Guzmán sussurra. — O espírito da falecida.
— Não seja tola, milady. — Ginevra repreende. — São histórias que os servos contam para assustar as criancinhas.
— De fato, milady, são histórias de servos. — Lady Guzmán sussurra. — Mas muitas vezes os servos veem coisas que nós não percebemos. E eles dizem, muito deles, que o espírito da falecida retorna toda noite de lua crescente e perturba a todos. Ela não aceita estar morta e clama pelo marido, solicitando que ele a acompanhe do outro lado. E cada vez que Sua Alteza recusa, a falecida se revolta e machuca alguém.
— Maria, mãe de Jesus. — Lady Rossi se apressa para clamar. Nora arqueia as sobrancelhas. — Tento não dar ouvidos às conversas de servos…
— Faz bem! — Ginevra resmunga. — Muitas vezes eles não sabem o que falam.
— Ainda assim, vi muitas coisas inexplicáveis acontecendo nesses cômodos. Por isso, Lady Conti, expressei a minha preocupação. Se a falecida está aqui, vagando entre os corredores e paredes desse lugar, nenhum bem deseja à Madalena. Afinal…
— Minhas senhoras… — Madalena interrompe. — Por favor. Não vamos perder de vista o nosso objetivo nesta noite. Se há algum espírito que não encontrou paz vagando por esse lugar, tudo o que podemos fazer é clamar para que Maria, mãe de Jesus, interceda a nosso favor. — Todas concordam imediatamente. — E essa janela tem o jeito certo de fechar. — É mentira. Nora nunca utilizou aquele cômodo antes. — Vou tentar desta vez. Continuem rogando.
Nora se afasta para que possa rir das crendices que assustam as mulheres. Ela lidou com muitos fantasmas obsessivos que se recusaram a partir. Contudo, Nora definitivamente não era um desses. Ela saberia se fosse.
As janelas, de fato, estão abertas. Devido ao forte vento, Nora tem um pouco de dificuldade de segurá-las juntas enquanto passa o trinco outra vez. Ela certifica-se de fazê-lo com força enquanto o sussurro escorre pelo ambiente:
— Você esteve atormentando essas pobres mulheres? — A voz soa como farfalhar de folhas. Demora uns segundos para que a figura falsa de Adrian se materialize em sua frente. — Consigo imaginá-la passeando pelos corredores, assustando as servas e clamando por Adrian.
— Você estava soltando o trinco. — Nora supõe, e a entidade não nega. — Por quê? — Ela nega a cabeça com a própria pergunta e completa: — Você veio. Pensei que, finalmente, havia encontrado outra distração.
A entidade anda pelo pequeno espaço sem causar nenhum barulho. Nora percebe que a prece das mulheres cessou. Ela estreita os olhos, Revna sorri e confessa:
— Elas precisam descansar um pouco. Maria não é surda, eu garanto.
— E você a conhece, por acaso? — A forma como Revna balança os ombros impressiona Nora. — Você a conhece!
— Ela não é como imaginam, assim como o filho. — Nora prepara-se para enchê-lo de perguntas. Revna não permite. — Eu vim. Não encontrei nenhuma distração. Estive a evitando.
— Como a mãe de Deus é?!
— Esperei que me chamasse. É a verdade. Mas você nunca chama.
— Por que eu o chamaria? As suas visitas são muito perturbadoras e pouco esclarecedoras.
— Sinto muito. Muitas de suas perguntas não posso responder, embora esteja disposto a ajudá-la.
— Por quê? — Revna não responde. — Eu estive pensando, corvo. — Nora retorna para a sala de oração. As mulheres estão inertes, enfeitiçadas pela entidade. Ela deixa o cômodo e caminha para o quarto. Revna a segue mantendo a forma de Adrian. — Estive pensando em todas as suas visitas desde que retornei. E em todas as suas ausências propositais. Por um tempo, pensei que fosse você o responsável pelo meu retorno. Mas não é. Também desconfiei que fosse o responsável pela minha morte. Você é? — Revna nega. — Aparentemente você não consegue ter nenhuma influência em minha alma. — Nora adentra o quarto de Madalena. Revna a acompanha e tranca a porta antes de aproximar-se. — Ao mesmo tempo, você me cobra por um pacto antigo.
— A vida do seu irmão, sim.
— Sim. Eu ofereci a minha alma para poupar a vida do meu irmão. — Revna assente. — E você nunca veio buscar a minha alma. Por quê? — A pergunta é retórica. — Porque não pode. Não vejo outra alternativa. Por que uma entidade demoraria centenas de anos para buscar a sua parte? Ainda mais quando você é o que antecede todos os deuses. Por quê?
— Você já respondeu.
— Nunca houve nenhum pacto. — Nora percebe. — Ainda assim, poupou o meu irmão. E não posso negar que veio ao meu encontro todas as vezes que pedi. A troco de quê? Não é por minha alma, que claramente não consegue alcançar.
— Vai amanhecer em breve. — Revna observa o céu através das cortinas. — Não posso ficar. Pertenço à escuridão.
— Você é o que diz ser?
— O que eu digo ser?
Nora gesticula.
— Você… O que você é?
— Você sabe o que eu sou. Não seja redundante.
— Eu pensei que sabia. Não tenho mais certeza. — Ele permanece perto da janela. Aos poucos o dia amanhece. — Quanto tempo conhece a minha alma?
— Muito tempo.
— Dezenas? Centenas? Milhares de anos?
Revna sorri.
— Quanto tempo acha que a sua alma existe? — Conforme o dia surge, Revna desfaz-se. — Esse é todo o tempo que a conheço.
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