Tempo da Bruxa
16 Escuridão
O vestido resgatado do sótão foi escolhido propositalmente. A peça não serve tão bem no corpo compacto de Madalena, mas dá a Nora a falsa confiança que precisa para enfrentá-lo. Apesar do sacrifício feito na última lua-minguante, Nora não se sente como antes. Sabe que a oferta foi aceita porque o corpo recuperou a vitalidade, e ela consegue entoar magias complexas como a que foi desenhada no teto. Pensando nisso, Nora avalia o corte feito no interior do braço. Há muitas ferramentas e opções quando se fala de magia, e Nora ainda julga a magia conduzida pelo sangue a mais eficiente e também a mais cara.
Ela verifica o curativo feito com algodão, acende outra vela e encara o reflexo de Madalena no espelho. Sentiu-se desrespeitada quando soube que a devota alterou toda a decoração da casa ao ponto de retirar os espelhos. É terrível entendê-la cada vez mais. A mão que acendeu a vela paira sobre o ventre. Além do preço alto para recuperar a eficiência do corpo, restou também severas cicatrizes. Nora não se permite pensar muito sobre onde a alma de Madalena está. A resposta mais certeira é a mais infeliz. Ainda assim, pergunta-se o que acontecerá caso a alma retorne ao corpo; Madalena suportará a ideia de que foi possuída por uma alma de quase quatrocentos anos? E ela sabia que estava grávida? Se sim, como lidará com o fim trágico do bebê?
A perturbação dura menos do que deveria. Nora não tenta diminuir a gravidade do que fez ao arrancar o bebê do corpo e oferecê-lo ao luar. O que arde em seu peito não é necessariamente remorso. Quando se vive tantos anos é inevitável se tornar algo duro e quase indiferente.
De repente, lembra-se de Sylvia que tanto invocou nobreza e recusou ajudar no momento mais delicado. Ela nunca se recusaria a ajudá-la, apesar dos desentendimentos frequentes.
Nora apazigua o sofrimento ao decidir que caso a Madalena retorne ao corpo, a abençoará com fertilidade se o desejo de ser mãe retornar. Será justo também agradecê-la pelo esforço que fez por Selena e desculpar-se por ter tratado o corpo tão mal. Haverá uma dívida considerável entre elas.
Ela assiste as sombras formarem uma figura masculina pelo reflexo do espelho. São alguns segundos até que a imitação duvidosa de Adrian ande pelo quarto, avaliando a disposição dos móveis como se estivesse realmente interessado.
— Desculpe… — Revna murmura. — Desconfio que a minha visita não é oportuna. Há algum compromisso que Madalena deva estar?
Nora analisa o corpo trajado com o sofisticado vestido azul escuro. Era uma de suas peças favoritas e a vestia bem. Foi necessário regular o cumprimento e as mangas, além de dar alguns pontos no decote para não se tornar excessivo. O tecido é decorado com delicadas e valiosas pedras. As mangas foram bordadas a mão com tamanha delicadeza que Nora tem medo de desfazer se tocar.
— Se houvesse algum compromisso para Madalena, acha que ela iria assim?
— Você tem se esforçado consideravelmente para representá-la. Admito que estou curioso. — Revna para próximo às janelas. — Não vejo aquele ardor em sua alma mais. O que mudou? A convivência familiar amenizou a animosidade?
Nora o ignora e aproxima-se da mesa que sustenta o nobre vinho e as taças. Revna a observa com curiosidade. Ela abre o vinho e sente o aroma.
— Dionísio é uma de suas alcunhas?
— O quê?
Ela finge o sorriso.
— Sei que interpretou alguns deuses. Imagino que seja uma forma de afastar o tédio e conquistar almas com mais facilidade. Antes, é claro, havia povos como o meu. Eles possuíam um conhecimento que perdeu-se entre os séculos. E com o conhecimento perdido, você também se foi. Não vejo como seria procurado se ninguém sabe que existe.
— Eu já lhe disse, bruxa, almas não são tão especiais para mim.
— Mas ainda significam algo. Diga-me, corvo, minha suposição é infeliz? — Revna não a responde. O rosto da imitação é indiferente e vazio como um espantalho. — Imaginei que não estivesse errada. Tenho pensado, então, quais deuses fingiu ser. Hades soa redundante. Se o forjou, devo me perguntar onde está Perséfone? Conheci alguns deuses, mas não eles.
— E você não poderia.
Nora quase morde a isca. A curiosidade é o maior defeito que possui.
— Me lembrei da sua surpreendente admiração por bons vinhos. — Nora pega a taça e oferece. — O que me lembra Dionísio. Percebo agora que não é tão sociável quanto ele. Por favor, aceite uma taça como um pedido de desculpas por confundi-lo?
Sem avaliar e muito desconfiado, Revna aproxima-se e aceita a taça. Ele cheira o vinho, ri e não bebe.
— Você já foi mais astuta, bruxa. Pensou que eu não perceberia que batizou o vinho? — Ele cheira outra vez. — O que tem aqui? Qual o truque da vez?
Nora pega a garrafa e afasta-se. Revna pretende segui-la e é impedido de afastar-se da mesinha. Nora senta-se e encara o teto, sorrindo.
— No vinho não há nada. É de uma excelente safra por sinal. — Ela prova a bebida. — E o truque é sempre o mesmo. Considerando a nossa última experiência, é claro que me debrucei para aperfeiçoar as runas. Afinal, você não é qualquer visita. Sinta-se honrado. Preparei para você.
Revna só encara as runas desenhadas no teto quando percebe a última gota de sangue bater no tapete.
— Estou impressionado. Precisou de muito sangue para isso. — Nora assente. — Sabe que não vai durar para sempre. Admito, a magia em seu sangue é forte, mas só pode me aprisionar aqui por algumas horas e isso é tudo. Eu pessoalmente me preocuparia com o que acontecerá quando o sangue secar e a magia cessar.
— E o que acontecerá? — Revna não a responde. — Imagino que não aprecie estar preso como um bichinho. Ou ainda pior: como um demônio de pequena instância. Mas estou orgulhosa. Tenho pensado muito sobre isso. — Ela gesticula. — E sobre você. Não sei como você funciona por completo. A minha memória, porém, não é capaz de guardar tudo o que vive em quatro séculos. Agora só resta as coisas importantes. — Ela aponta para a testa de Madalena. — E eu percebi que você não estaria naquela floresta por coincidência. Minha avó nunca me contou tanto. Ela pensava que falar sobre você era como falar sobre Hades. E talvez seja. — Nora encara a garrafa. — Quem veio primeiro? Você ou ele?
— Está gastando o seu tempo com suposições insignificantes. Tenho certeza que poderíamos ter essa conversa sem essa desagradável situação.
— Você tem razão. Estou divagando. Pensei que tivesse curioso para entender como cheguei nisso. — Ela aponta para o teto. Revna está parado no meio do círculo traçado com runas. A expressão é vazia como um fantoche. Nora sabe que é questão de tempo para as sombras escaparem da borda do corpo. — É óbvio que a relação de deuses e mortais é desproporcional. Ainda assim, de alguma forma, nós, mortais, encontramos uma forma de nos assegurar. E se fôssemos completamente dispensáveis, vocês não se desgastariam fazendo tantos “favores insignificantes”. Esse raciocínio foi o suficiente para entender que você teve uma relação com o meu povo. A relação não terminou bem porque o meu povo não apenas te abandonou como também aprendeu a te repelir e até a te aprisionar. Por um breve período, é claro. Mas aqui estamos.
— A maioria dos deuses, Eleonora, existem enquanto os mortais acreditam neles. Quanto menos corações, menos força e vitalidade. Você tinha razão quando disse a Sylvia que os deuses não são tão diferentes de vocês. Eles foram gerados e nasceram. — Outra vez, é uma isca muito boa. Nora facilmente poderia esquecer-se de seu alvo e se distrair com todos os segredos que ele sussurra. — Eles foram pequenas crianças. E então crianças maiores. E adultos completos. Alguns envelheceram, outros se foram porque a fé neles também se foi. Não é porque se vive muito que se torna imortal. A vida pode ser extremamente longa e ainda ter um fim.
— Você também tem um fim?
Revna dá de ombros.
— Eu não sei. — Ele soa honesto. — Eu existo há tanto tempo que não sei quando surgi. Diferente da maioria dos deuses, eu não tive pai ou mãe. Mas fui pai de muitos, e mãe para alguns. — Nora abre a boca. — Sei que não dependo da fé de vocês como os deuses, mas tem razão em partes. A relação com vocês não é insignificante para mim. De alguma forma… Eu não sei. Já lhe disse antes: não é porque existo há tanto tempo que sei de tudo. Boa tarde disso também é confuso para mim. Não sou como Cristo; perfeito e eterno. Por isso, também suponho que muitas coisas que me foram escondidas. E eu acho que o poder nada mais é senão fé.
— Se o poder dos deuses nada é senão fé, qualquer coisa que conquiste fé o suficiente pode se tornar um deus?
— Talvez. — Revna pondera. — Percebo que o assunto desperta a sua curiosidade. Ainda é a mesma de sempre. E também percebo que não me prendeu em runas tão severas para me questionar sobre os deuses. Tic-tac. — Ele imita o relógio. — Faça a sua pergunta. Porque quando isso acabar…
A ameaça quase a estremece.
— Quero saber como eu morri. — Nora exige. — Onde está o meu corpo?
— Decomposto, presumo. Você parece se esquecer que está morta há quase uma década.
— Decomposto onde?
— Provavelmente na cripta do seu marido. Já perguntou a ele?
Nora nega.
— Eu saberia, Revna, se o meu corpo estivesse decompondo na cripta da família Palucci. Eu te garanto que saberia.
— Por que não pergunta a Adrian sobre a sua morte? Eu já lhe disse. Não sou onisciente.
— Porque ele não sabe de tudo. Você sabe.
— Por que tem tanta certeza?
— Na última vez que nos vimos, você se engrandeceu dizendo que conhece a minha alma desde que ela existe. — Nora levanta-se e aproxima-se dele. Não o suficiente para atrapalhar as runas. O suficiente para pressioná-lo. — Isso me perturbou demais. Pensei que as almas… — Nora perde o argumento e silencia-se por um segundo. — Você também confessou que morri porque me tornei frágil. Porque me esqueci de quem eu sou. E do que devo. Portanto, tenho plena percepção de que você não é onisciente. E que há muitas coisas que fogem do seu conhecimento. Mas não isso.
— Você não se lembra de nada? Não se lembra do que fez no seu último dia?
Nora recua um passo e pondera.
— Não. — Ela se afasta, conturbada. — Até mesmo as últimas semanas são confusas. Há apenas vultos em minha cabeça. Me lembro da minha filha. Ainda era uma bebê com menos de um ano. Lembro-me de Dante, um garotinho pequeno. Não são fatos organizados. Às vezes temo que estou imaginando parte delas.
— Você conseguiu o que queria. — Revna murmura após segundos de silêncio. — A vida típica que almejava. Ainda era uma das maiores bruxas que vagou pela Terra, mas estava se escondendo em Florença. — Ele gesticula. — E vivendo como um ser-humano. — Revna pausa. — Fui injusto com você. Enquanto estava aqui, você e a sua família estavam protegidos.— Nora senta-se porque a pressão que existia em seu peito se desfaz. — Já lhe disse. Talvez o seu maior pecado seja o coração. Você morreu por ele e nada mais.
Nora o encara com mágoa. Revna é capaz de crueldades difíceis de descrever.
— Você se apressou para partir quando a carta de Sylvia chegou. Afinal, após tantos anos te ignorando, uma carta não seria apenas para retornar o contato. Se te serve de consolo, ao menos posso dizer que Sylvia precisava de você naquele momento. É uma pena que ela não tenha sido tão prestativa quando Selena precisou. — Nora firma o maxilar. Revna sorri. — Neste momento, você foi tola. Todos os anos que passou aqui te fizeram esquecer quem você era e o que devia, sim. Não para a maioria das coisas com que lidou durante a sua vida. Você teria superado isso. Mas se esqueceu de quem te fez o que é.
Nora levanta-se e anda pelo quarto, absorvendo a situação. A memória ainda é infeliz e não há resquício dos últimos momentos de existência. Contudo, conforme Revna debocha e explica, a morte torna-se até previsível.
— Pensei nisso por muito tempo. — Revna murmura, sério. — Se você tivesse ficado seria poupada? Ou a dívida te encontraria de qualquer forma? Se você estivesse preparada, teria superado outra desafortuna viagem? — Nora observa as velas queimarem, ouvindo-o. — Talvez. Mas você não ficou, nem estava preparada. Por isso, eles te acharam com considerável facilidade. Estavam, é claro, te procurando. Você foi abençoada pelos deuses e os desprezou com uma rapidez impressionante. De alguma forma, você era uma pendência. Não é natural que algo como você viva por tanto tempo. E eles encontraram o momento oportuno para finalizar a questão que você se tornou.
Nora encara os dedos de Madalena. Após a suposta benção dos deuses, e da sua recusa imediata, Nora soube que a sua existência prolongada seria desafiadora todos os dias. As más-sortes naturais nunca seriam capazes de alcançá-la, assim como a maioria dos seres sobrenaturais. Os deuses, por outro lado, podem ser implacáveis.
Por isso, por muito tempo, Nora se isolou. Aproximar-se de qualquer pessoa seria convidar a tragédia. A relação com Sylvia durou tantos anos porque a feiticeira era tão astuta quanto Nora. A vida era simples e quase esquecida. Juntar-se a Adrian, contudo, a enfraqueceu. Ela foi mais do que tola; tornou-se esperançosa. Não tem dúvidas que os deuses sempre souberam onde estava e por algum tipo de crueldade esperaram o momento ideal para confrontá-la. Afinal, morrer não seria a sua maior tragédia. Morrer seria libertá-la da maldição. Perder a família que foi duramente construída, por outro lado, mostrou-se muito pior.
— E o meu corpo?
— Sylvia foi alertada por suas… amizades. — Ele se refere à relação da feiticeira com as almas. — E foi digna o suficiente para buscar por seu corpo. É claro que a jornada tornou-se infeliz. Ainda que digna, Sylvia é comum e fadada ao deslocamento. — Revna pondera. — Imagine o quão raro é o corpo de uma bruxa. Quatrocentos anos de magia vibrando. Quatrocentos anos de sangue enriquecido por uma magia que tornou-se tão rara. Eu também disputaria pelos seus restos mortais.
— Percebo o quão divertida a situação é para você.
Ele sorri.
— Bem, um demônio venceu a disputa. Demônios são ótimos em acordos duvidosos, mas magia natural não é permitido. E o número de bruxas verdadeiras dispostas a cooperar com os seus variados intentos é reduzido. Acredito que entenda o interesse desse ser nojento em um corpo mágico. — Revna contrai a feição. — Detesto demônios mais do que detesto vampiros. Vampiros contentam-se com o egoísmo desproporcional e sangue. Demônios, por outro lado, ainda tem a ilusão que vão conquistar o mundo. E para quê? Para deixarem tudo com cheiro de enxofre?
Nora pisca.
— Tem um demônio andando com o meu corpo por aí?!
— A última vez que soube estava na França. Imagine o quanto um corpo bem apresentável facilita as atividades desses seres. É quase um convite.
— França?! — Revna assente. — E você… — Ela estreita os olhos. — Há quanto tempo? E você não fez nada?
— Primeiro, eu não o vi pessoalmente. E o que deveria fazer?
— Talvez expulsá-lo e cremar os meus restos?! — Nora gesticula. — É o mínimo. É o mais próximo de respeito. Sei que de coisas como você é infelicidade esperar qualquer gesto de gentileza, mas pra algo que odeia tanto os demônios esperava um pouco mais de atitude.
— Falando em demônios, ficou sabendo das atividades do seu filho? Admito que fiquei tão surpreso quanto você. E parece ter sido o suficiente para perdoar o seu algoz. Ah, Eleonora, — Revna debocha. — os seus afetos são instáveis como você.
— Você vai encontrar o meu corpo.
Revna leva a mão para o peito.
— Eu vou? Ah, não. Demônios são como ratos. Eles são bons em se esconder.
— E vai trazê-lo de volta. — Ela ergue o dedo enquanto exige: — Limpo. Talvez eu possa retornar para o meu corpo e libertar essa coitada.
— Você não tem curiosidade se ela ainda está aí? Não acho que uma alma humana suportaria tantas infelicidades. Ao menos poderá entregar o corpo para ser enterrado com as devidas honrarias. Uma devota como Madalena seria contemplada se pudesse descansar sob uma bela árvore. E uma cruz, é claro. A cruz é parte essencial da estética.
Nora encara o corvo. A conversa descompromissada é uma tentativa de irritá-la. E irritá-la é o primeiro passo para perder a concentração nas runas que o aprisionam.
— Esse é o grande pecado de Lutero na minha opinião. Se desvincular de Roma é compreensível quando todos estão expostos às barbaridades cometidas pelo clero. Mas a Lutero falta um pouco de… Espero que entenda. Falta imensas esculturas de gesso para entoar nos corações frágeis a presença de Deus. Faltam colunas gregas ousadas. Tudo é tão austero.
— Cale-se.
Revna prossegue reclamando da ausência de estética do protestantismo enquanto Nora massageia a cabeça. Perceber que morreu no momento mais sagrado e delicado da sua vida, quando estava vivenciando tudo o que desejava, é doloroso e infeliz demais. Ela se afastou de casa para ajudar Sylvia, provavelmente movida por amor. Sylvia nem mesmo foi capaz de retribuir. Selena era apenas uma criança inocente, levada pelo luto insuportável e ousado do irmão. Independente dos motivos, Sylvia não tinha o direito de traí-la em sua maior necessidade. E o seu corpo, por fim, ocupado por algo tão sujo e nojento quanto um demônio, que aproveita-se do resto de magia que sustenta o corpo para corromper pessoas com propostas infelizes. Adrian, por outro lado, nem direito de enterrá-la com dignidade teve. Revna não lhe deu detalhes, mas Nora é capaz de terminar de formar a história: Adrian soube por Sylvia sobre a morte dela. Não lhe foi dado o direito de reconhecer o corpo e emoldurar o luto. E a sua partida foi feita por suposições confusas.
— Claro que tudo depende do tempo. Roma, por exemplo, não foi construída da noite pro dia… — Revna continua falando. — Infelizmente não me foi dado o talento de prever o futuro… — Ele prossegue. — … Quantas mudanças. Daqui a alguns séculos, quantas religiões vão existir? Qualquer um terá o direito de fundar a sua própria religião? Estou… — Nora tampa os ouvidos conforme as lágrimas surgem. O luto a aborda sem aviso prévio e a desestrutura. Se ela não tivesse partido, se tivesse pensado nos filhos, se… — Bruxa, quantas fés você pensa que…? Serão todas em Cristo, o crucificado? Soa um pouco… — Se ela tivesse ficado, os seus filhos também ficariam. — Gosto de pensar que as mulheres…
— Cale a boca! — Nora esbraveja, levantando. — Seu maldito infeliz! Olha o que fez comigo! — Nora grita. — O tempo todo, Revna. Você estava lá, não é? E você… — As lágrimas caem. — Você deixou tudo isso acontecer. Me deixou partir para ajudar Sylvia sabendo o que os deuses planejavam! — Nora encara a figura presa. — Afinal, são os seus frutos como você mesmo revelou. São os seus filhos! E o que eu sou? O que eu fui durante esses séculos? Um brinquedinho para eles. E para você! Você… — Nora aponta para a entidade. — Me aprisionou ao me convencer que conhecimento era tudo o que eu precisava. E o seu conhecimento me amaldiçoou. Agora eu entendo porque me persegue, porque nunca parte. Porque eu sou a última coisa viva que sabe que você existe! E o que você será quando se tornar insignificante para todos? — Revna mantém-se quieto. — Responda-me. Eu exijo que fale. É o mínimo que me deve.
A voz que atravessa o quarto, porém, não escapa da falsa figura presa dentro das runas.
Revna, ocupando o corpo que imita Adrian, sorri ao vê-lo. Adrian recua um passo quando se vê refletido naquela coisa nojenta.
— O que…?!
— Aí está. — Revna debocha. Nora afasta-se para secar o rosto e respirar. — O verdadeiro e único amor de Eleonora. Quatrocentos anos vagando por você, Adrian. Diga-me, lobinho, como se sente?
Adrian o ignora com propriedade e aproxima-se de Nora, a segurando com preocupação. Ele limpa o rosto dela com o lenço retirado do bolso enquanto implora para que respire e se acalme. Nora treme e quase perde as forças das pernas conforme a percepção da morte a atinge. O choro é doloroso e foi mantido por semanas.
Nora chorou o luto por todos os seus amores. E eles foram muitos. Nunca pensou que teria a oportunidade de chorar pela própria morte.
— Isso… — Adrian murmura tão preocupado quanto poderia. — Respire e se acalme. Por favor.
Revna, por outro lado, parece se divertir com a situação. Apesar do choro incontrolável, Nora sente a energia do ambiente mudar. A entidade não se sentiu querida ao ser aprisionada. A irritação era plausível e controlada. Aos poucos o ambiente escurece e torna-se pesado para a alma, e Nora pode sentir que está perdendo o controle da situação. É o suficiente para o luto cessar e ela erguer-se, encarando a coisa infeliz que Revna se transforma.
A aparência de Adrian ainda é imitada com dificuldade. O corpo se rompe lentamente de forma que as sombras, algo como a verdadeira aparência da entidade, escapa pelos contornos. Os olhos não são mais castanhos e expressivos. Tornam-se escuros como a noite. E a voz soa cada vez mais como o farfalhar das árvores na floresta.
— O que é isso? — Adrian sussurra.
A risada de Revna ecoa de todos os lugares. Adrian aperta a cabeça quando a dor o atinge.
— O que é isso? — O corvo o repete. — O que eu sou, bruxa? — A voz ecoa tanto que torna-se insuportável ouvir. Nora tampa os ouvidos. — A sua ousadia se estendeu o suficiente. — Revna soa dentro da cabeça dela. — Não torne a noite mais infeliz.
Nora entoa o sânscrito, lutando para equilibrar a sombra pesada que os cerca. Revna é uma presença forte e sufocante, e ela sente-se arrastada a cada nova tentativa. O sangue no teto ainda é forte e fresco, e Nora o fortalece cada vez mais.
— Isso é o que você é. — Nora observa as sombras escorrendo pelo quarto. — Consigo entender porque o meu povo te buscou. Facilmente seria honrado por seu conhecimento e força. Mas é tão severo e sufocante que torna-se insuportável. É um fardo, Revna. Por isso também entendo porque te recusaram.
Nora sabe que é inútil insistir quando a casca falsa se desfaz e a presença dele se torna um amontoado de sombras. As sombras são espessas e sobem até o teto, desfazendo as runas com certa demora. No momento seguinte, porém, Revna a aborda em sua forma infeliz. Não há forma, muito menos rosto. São sombras desconexas, e a energia é tão forte que Nora sente os joelhos cederem.
Ela grita quando a sombra a puxa para escuridão. Por vários minutos, Nora cai indefinidamente na escuridão. A sensação de vazio é insuportável ao mesmo tempo que é extenuante. Ela urra para que pare quando sente o corpo sendo desfeito; os braços são retirados, assim como as pernas. Até mesmo os olhos são retirados do corpo. A sensação é angustiante, mas não dói de verdade.
E quando o seu corpo se desfaz totalmente, Nora sente apenas a alma expandida na escuridão. Há o reflexo inútil de vomitar, mas não possui um corpo, muito menos órgãos. Ela também tenta gritar sem cordas vocais e sem língua.
O tempo é lento, e Nora não sabe presumir quanto tempo fica presa na escuridão. As suas tentativas de se libertar são árduas e intensas antes de aceitar-se na nova forma. Conforme aceita a temporária existência, a escuridão é contrastada pela própria alma. Nora gostaria de reluzir como ouro, mas é mais como um azul desgastado de chama.
“Você me matou”, Nora define.
“Não”, ele ainda soa como folhas na floresta.
“Você permitiu”.
“Não”.
A angústia enfraquece ainda mais a cor da sua alma, tornando-a cinza.
“Por quê? Por que fez isso comigo? Por que não buscou a minha alma como prometeu?”
“Eu não poderia nem se desejasse, bruxa. E eu nunca desejaria tomá-la de você”.
“Por quê?”
O silêncio a oprime por consideráveis instantes. Nora quase supõe que Revna a abandonou, desfeita, sem corpo e sem magia, no meio da escuridão.
“Você não me pertence”, ele responde, enfim. “A sua alma foi condenada a nunca descansar. A sua alma está fadada a nascer, viver e morrer em diferentes corpos, vidas e famílias indefinidamente. Essa não é a sua primeira vida e não será a última. É um ciclo eterno.” Há mais silêncio, “Gostaria de lhe dar descanso, mas de mim foi retirada a possibilidade. Sobre você, sobre a sua alma, tenho pouco ou nenhum poder. Muitas vezes só posso acompanhar e com verdadeira discrição”.
Nora está disposta a prosseguir com as perguntas até que toda a verdade seja dita. Contudo, a sua permanência dentro da escuridão se desfaz rapidamente. E ela desperta, com o corpo completo e machucado, a quilômetros de distância do palácio, dentro da floresta que viveu por anos. Nora demora para levantar a cabeça e enxergar ao redor. Quando o faz, percebe que o dia amanheceu e a permanência de Revna é impossível.
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