Tempo da Bruxa

29 Dez luas


Notas iniciais
Hoje eu quase morri.

A lareira está acesa para ocupar a escuridão e o silêncio. Dante permanece sentado, silencioso e imóvel. Nora utiliza a manta que decorava o sofá para limpar a mistura de sangue, terra e suor que está grudada na pele. A lua andando no céu é minguante como supôs. A próxima lua cheia acontecerá em vinte dias. Adrian tem vinte dias para encontrar Selena e retornar para casa.

E vinte dias é muito tempo para permanecer na forma lupina, Nora considera enquanto mordisca as unhas recém recuperadas. É tempo o suficiente para enlouquecer ou perder-se completamente. Ter o obrigado a transmutar fora da lua cheia não torna a situação mais agradável. Que escolhia tinha, porém? Selena está a mais de duzentos quilômetros ao norte de Florença. A primavera esquenta e refaz o mundo, e o percurso à cavalo levaria mais tempo do que Nora suporta. Lobos, contudo, são criaturas fortes, ágeis e capazes de percorrer cem quilômetros em um único dia. Além disso, Adrian mostrou-se capaz de permanecer na forma lupina por dias quando Dante desapareceu há anos.

Dez luas é o tempo máximo que Nora aguardará antes de intervir. Dez luas dá tempo a Adrian para deslocar-se, alimentar-se e até mesmo perder-se. Também é o limite que Nora é capaz de suportar sem notícias deles. Se pudesse, se tivesse uma montaria adequada, forte o suficiente, ela cavalgava por horas incontáveis até a filha. Ela faria pactos para ter asas; para se teletransportar de um local ao outro. Contudo, essas alternativas são ilusões tolas.

— O que você fez?

Dante levanta-se quando a figura de Revna se forma no centro do cômodo. O choque que assolava o garoto se transforma em confusão e desconfiança muito rápido. Revna o ignora por completo, aproximando-se de Nora muito rápido. Ela se esgueira no último segundo, evitando o contato nada gentil que a entidade traz.

— Fiz o que era necessário.

Revna estreita os olhos.

— Mãe…?

Nora aproxima-se do filho, acolhendo-o. Revna os encara.

— Poderia ter morrido.

— Eu não morri.

— Você pariu algo incontrolável. Percebe isso?

— Você não sabe disso.

— Eu não sei? — Revna soa mais severo do que Nora esperava. Dante tenta afastar-se. — Na época propícia, Adrian era no mínimo instável. Agressivo, incontrolável. — Revna aproxima-se. — Não foi por isso que o poupou? — Nora desvia os olhos. — Fora da lua o transmutou. Após anos sendo apenas um homem. Bruxa, você não é tola. Não presuma que as consequências não existirão. E não se surpreenda se for impossível trazê-lo para casa.

— Mãe?! — Dante exaspera. Os olhos estão arregalados e as mãos trêmulas. — Isso é verdade?

Nora encara o garoto e Revna respectivamente.

— Não.

— Ao menos tenha a decência de não mentir para o garoto.

— Não é mentira! — Nora esbraveja. — Você não sabe do que fala. São apenas suposições.

— Você também não sabe! Não é o natural. Não é o adequado. — Revna anda pelo cômodo. Dante o acompanha com os olhos. — Isso nunca foi feito, Eleonora. Nem eu, nem você podemos supor o que acontecerá. Porém, a quantidade de energia movimentada… — Ele sorri, amargo. — É impossível passar despercebido.

Nora estreita os olhos.

— Não se esconda atrás da preocupação impertinente que agora tece. Nunca foi afeito ao Adrian. Não é o futuro dele que te perturba. — Nora acusa. — Também não acredito que a preocupação advém do meu estado. Afinal, eu estou aqui. — Revna silencia-se. — O que é, então? Por favor, não me diga que está se sufocando em despeito.

— Despeito? — A risada ecoa pelo cômodo e estremece os vidros. Nora nota que a casca, que é mais natural e original que a imitação de Adrian, também pouco suporta a forma final daquele ser. — Por que algo como você me causaria despeito?

— Dante, é melhor se banhar agora. — O garoto prepara-se para discordar. — Por favor.

Dante reluta em obedecê-la. Nora estuda a presença da entidade quando o filho sobe as escadas. Revna resmunga coisas inaudíveis e anda pelo cômodo, inquieto.

— Algo como eu. — Nora o imita. — Minha insignificância é eventualmente relembrada. E embora eu concorde, não poderia estar mais confusa. Nós dois sabemos que você é capaz de estar em qualquer lugar. Portanto…

— Você deveria estar morta. — Nora ri, incrédula. — Mas não está. Deveria, ao menos, ser discreta sobre o seu retorno. Em vez disso, opta por transmutar um licantropo fora da lunação correta. Novamente alterando a ordem natural das coisas. Você alterou a realidade antes. E a desgraça lhe acompanhou. O que acontecerá agora?

— Acha que serei punida? — Nora ri de novo. — Por quem? Pela ordem natural das coisas? A mãe natureza! — Ela debocha. — Se houvesse algum equilíbrio a ser mantido, eu não estaria aqui. Se houvesse alguma mãe, olhando por nós, eu estaria descansando! Eu não nasci assim, Revna! — Ela aumenta o tom de voz. — Eu era uma coisa comum! Eu era uma bruxa comum. E eu estava satisfeita. Não havia em mim nenhum desejo de me arrastar pelos séculos. Eu fui condenada! Amaldiçoada!

— Não há mãe nenhuma olhando para vocês. Há apenas um rei.

— Um rei. — Nora amarga com a definição. — Que assim seja. — Nora afasta dele. — Eu fui condenada a isso. É um fardo que carrego. Para você é mais um ano, mais uma década e mais um século. Tudo o que você é persiste. Você é capaz de entender o que aconteceu aqui? — Nora aponta para a cabeça. — Tudo o que eu era e tudo o que eu conhecia se foi. E nós somos feitos a partir do outro, Revna. Em contraste com o outro. Nem mesmo você existiu de forma singular. — Nora suspira. — Eles são a minha família. E são tudo o que eu tenho. Eles me deram algo que você é incapaz de entender. Eu me tornei alguém além da minha maldição. E eu farei tudo por eles. Não me importo se é desrespeitoso, indevido ou anti-natural. Não me importo se haverá consequências. Não me importo com quanta energia foi movimentada, nem se isso chamará a atenção dos meus algozes novamente. Se o meu retorno incomoda os deuses, eles podem vir até mim outra vez. Mas agora não estarei à revelia.

Ambos absorvem a conversa durante o silêncio. Nora mordisca os lábios, movimenta-se e considera:

— Eu não tive outra opção. — Ela murmura. Revna franze o cenho. — Eu preciso que Selena venha para casa. Não tenho capacidade de buscá-la nos termos que estou. Não com a necessidade que porto. E talvez Adrian nunca me perdoe. Talvez não tenha sido correto. — Nora pondera. — Mas de alguma forma ele é a minha criação. E que tipo de bruxa eu seria se não pudesse controlar o que as minhas mãos fizeram? Que tipo de criatura é mais forte que o seu mestre?

— Você é uma criatura que escapou do mestre.

Nora desfaz-se por um momento. A possibilidade a assombra.

— Mas Adrian não.

Revna se silencia, e Nora senta-se outra vez. A cabeça dói, e o corpo pesa. A alteração da realidade é uma atividade que demanda muito mais energia do que Revna sentiu; Nora seria capaz de morrer por dentro naquela noite. Apesar disso, ela o encara parado no meio da sala. O quase riso escapa das narinas. Ele franze o cenho, questionando-a.

— Às vezes você se esquece que tem uma forma física.

— O quê? — Revna aproxima-se. — Por quê?

— Está imóvel há um tempo considerável.

— Não passo muito tempo assim.

Revna para próximo a janela também. Nora o avalia até encontrar disposição para perguntar:

— Você será verdadeiro desta vez?

Ele inclina a cabeça.

— Eu sou.

— Não, não é. Você é como… areia escorrendo entre os dedos. O que você julga como companhia para mim é escárnio.

— Escárnio?

— Naquela noite… Na noite em que cuidou de mim. — Revna assente. — Você foi amável e sincero. Mas não é assim. Você nunca me responde. Não me responde de verdade. — Ele permanece quieto. Nora se entristece. — Nesses três séculos você perambulou por mim. Não pretendo negar que as suas bem-feitorias me alcançaram muitas vezes. Mas eis o que é: uma presença inconstante. É uma assombração. Um tormento. — Ela mordisca as unhas. — Uma parte de mim pensa que sou uma diversão para você. Uma história para se acompanhar. Você deixou claro ser um bom espectador das coisas corriqueiras.

— E a outra parte?

— A outra parte se lembra da noite em que disse que conhece minha alma há milênios.

— Eu conheço.

Nora segura a cabeça pesada.

— Essa parte… — Ela para de falar. — Há coisas aqui dentro. Não tenho tempo ou energia para desvendá-las agora. Quando Lucien se excedia, eu sonhava. Eu lembrava. — O sorriso é pesaroso. — Me lembrei de Nikita, o meu irmão. E me lembrei de Transilvânia. Do nosferatu. — Revna assente. — Quando acordei, palavras que não entendo estavam em minha mente. Em minha boca. — Nora mordisca as dobras dos dedos, inquieta. — E memórias que não são minhas estavam em meu coração. Eu era outra coisa. E havia uma criança. E um homem. Um marido. — Nora fala tão baixo que quase não se escuta. — Revna, — ela o alcança. — Lucien estava me enlouquecendo?

— Sim. — Nora franze o cenho e se ressente. — Mas não são devaneios do seu sofrimento. São lembranças do que foi um dia. De uma de suas vidas.

— Você estava lá?

— Eu estava.

— E o que…? — A pergunta morre antes que Nora seja consumida pelas possibilidades. Bruscamente ela levanta-se e anda pelo cômodo. Revna a analisa. — Não. Não suporto outro sofrimento. Não agora. Não me diga nada.

Revna aproxima-se.

— Não lhe darei nada que não esteja pronta. — Ele soa como uma promessa. — Mas me deixe saber se um dia mudar de ideia.

— Um dia.

— Deve descansar. — Revna sugere. — Não há mais nada a ser feito agora.

Nora não reluta, mas também não se move. Revna espera.

— Lucien.

— Não se atormente mais com esse assunto.

— Eu quero que me traga Lucien. Sei que pode encontrá-lo.

Revna suspira.

— Se pretende castigá-lo, acredite em mim: também encontro prazer na atividade.

— Não terá mais prazer do que eu. — Nora determina. — Ele deve sofrer pelas minhas mãos. Não me tire isso.

***

Sentado à mesa do pai, Dante é mais velho do que deveria. O suposto futuro perturba Nora porque não parece correto que o rapaz já ocupe a posição. Quieta ela permanece na porta, sem coragem de interromper a pesquisa de Dante nos diversos diários de Adrian. Eventualmente, entre as trocas de página, Dante a nota e esconde o caderno com pressa.

— Há quanto tempo está aí?! — Dante exaspera.

Nora adentra o cômodo com cuidado. É o segundo dia sem a presença de Adrian, e um quase arrependimento já a consome. Embora herdada de pai para filho através dos séculos, o castelo é feito unicamente da personalidade dele. As cores dos cômodos, assim como os quadros e os tapetes. A disposição dos móveis, as pequenas e variadas esculturas e até os vasos de plantas. Com cuidado, Nora toca a lombada de alguns dos vários livros que ocupam as quatro estantes. Até mesmo os exemplares são pessoais demais.

— Cheguei agora. — Nora para diante a escrivaninha. — E você?

Dante encolhe os ombros, confessando a culpa. Nora não evita o sorriso discreto.

— Não se preocupe. Eu não vou contar para ele.

O rosto do garoto se torna vermelho.

— E-eu não… — Ele desiste e posiciona o diário em cima da mesa. — É estranho. Isso.

Nora encara o caderno também.

— Por quê?

— Os pensamentos. — Dante pondera. — E os sentimentos. É estranho vê-lo desta forma.

— Por quê?

Dante dá de ombros e testa várias respostas até desistir e bufar. Nora sabe exatamente o que ele quer dizer, mas não acha que deva interrompê-lo. Eventualmente ele diz:

— Eu não achava que o meu pai pensava em algumas coisas. Eu não… — Ele coça a testa. — Não sabia que ele tinha medo.

Nora solta o ar pelo nariz.

— Todos nós temos medo, Dante. O tempo todo.

Dante abaixa os olhos, estala os dedos e suspira. São minutos até que a pergunta se forme:

— Você acha que ele está com medo agora?

Nora desvia os olhos.

— Um pouco, sim.

O silêncio a constrange.

— Por quê? — Dante pergunta, enfim. — Por que fez isso com ele?

Nora mordisca os nós dos dedos e demora a elaborar a resposta. Nunca pensou que seria confrontada dessa forma por Dante. O teme pela primeira vez ao mesmo tempo que faíscas de orgulho queimam no peito. Vê-lo forte ao ponto de questioná-la a emociona.

— Eu preciso trazer Selena para casa.

— Essa era a única forma?

— Não. Não era a única forma. Era a forma mais rápida.

Dante folheia o diário.

— Ele sentiu dor. — Não é uma pergunta. — Foi… — O lábio treme. — Foi horrível. É sempre assim?

— Para o seu pai? Sim. — Dante encolhe os ombros. — Para todos os licantropos? Acho improvável. Eu acredito que alguns têm mais facilidade nesse momento. Também acho que ter o conhecimento adequado e o apoio adequado faz a diferença. Eu queria… — Nora esfrega a ruga que aparece na própria testa. — Eu queria poder te responder com mais certeza, Dante. Infelizmente não é um assunto que os livros discutem.

A resposta não o conforta. Então, Nora aguarda um momento, encontra o anel encantado dentro do bolso do casaco e o deixa em cima do diário de Adrian. Dante encara o anel, se encolhe e suspira alto.

— Eu sei que o nosso tempo acabou. E eu falhei. — Nora encara o céu pelos vidros da porta. — Antes da lua adequada para a magia, você enfrentará a primeira transmutação. Não é do jeito que eu imaginei. Nem mesmo me agrada os termos. Contudo, o anel está encantado. E você será poupado nessa lua.

— E quanto ao meu pai?

— Ele já está transmutado. Não precisará do anel. — Dante arqueia as sobrancelhas. — E eu ganharei mais tempo para trabalhar no seu anel. No próximo ciclo, vocês dois terão a possibilidade de escolher se desejam ou não transmutar.

Finalmente, Dante alcança o anel. A joia carrega o brasão da família, e é do tamanho adequado para o dedo mindinho do Adrian. No dedo de Dante, o anel fica um pouco grande. Ainda assim, Nora se assombra com a prova cabal do crescimento do garoto.

— Mãe, — Dante segura o anel. Os olhos estão pesarosos, e as sobrancelhas encurvadas. — meu pai vai voltar pra casa?

Nora se apressa para acolhê-lo com um abraço. A resistência é breve.

— Sim. Claro que sim. — Dante suspira. Nora segura o rosto dele. — Dante, eu sei que foi assustador e eu também não estou satisfeita com a situação. Porém, eu nunca faria algo que deixaria você e a sua irmã sem o pai. Nunca. — Ele desvia os olhos. Nora aperta os ombros dele. — O seu pai vai voltar antes da lua cheia. Eu juro.

— E se ele não voltar?

— Ele vai.

— Mas e se algo acontecer? — Dante exaspera. — E se ele se machucar? E se até mesmo um caçador de lobos…

— Dante. — Nora o interrompe. — O seu pai não é um lobo como os que conhecemos. Ele, e você, são criaturas mágicas e mais fortes que os animais comuns. Mesmo que ele enfrente desafios, não será abatido com facilidade. Eu nunca o colocaria em uma situação em que ele não pudesse se proteger. — A tensão permanece. — Para você é tudo muito novo. Porém, eu já lidei com outros licantropos transmutados. E eles são… — Dante inclina a cabeça. — Vigorosos, no mínimo.

— Mais fortes que você?

— Eu não sou forte.

Dante ri, incrédulo.

— Mãe, você arrastou o meu pai que nem um cachorro…

Nora sente o rosto queimar, envergonhando-se. Não é a imagem de família que Nora gostaria de tecer.

— O seu pai estava na forma humana. — Nora é honesta. — E boa parte da minha força vem da minha magia. Do meu sangue que se torna mais forte a cada ano. — Dante assente. A tensão se esvai, e a curiosidade surge. Dante é muito parecido com Nora, sempre sedento por mais informações. — Eu não faço ideia do quão forte o seu pai pode ser transmutado. Nós nunca… Brigamos desse jeito. — Dante se ajeita na cadeira. Nora ri. — Mas eu já apanhei muito de outros licantropos. Então…

Dante arregala os olhos.

— Isso é sério? Quando?!

Nora ri.

— Era outra vida. Antes de conhecer o seu pai. — Nora observa o sol diminuir no céu. — Faz muitos anos. Era um lobo enorme, com pelagem rajada. — Ela pausa e pondera. — Quanto mais velho, mais forte e grande os licantropos são. A raça de vocês envelhece mais devagar e, portanto, vive muito mais do que os seres humanos. Alguns licantropos já chegaram aos 190 anos. — Dante arregala os olhos. — E quanto mais tempo se vive…

— Mais forte se torna.

— Exato. — Nora aperta o queixo dele com carinho. — Provavelmente era o lobo dominante da alcateia. E eu estava invadindo o território deles. — Dante estreita os olhos, a julgando. Nora ri. — Em uma lua cheia. E num período em que havia muitos bebês e mulheres grávidas no povoado.

— Mãe!

Nora encolhe os ombros.

— Veja só… — Nora se ajeita. — Os licantropos são uma raça antiga, poderosa e muito orgulhosa. Muito conhecimento e segredos são resguardados por eles; passando de geração para geração. Eles não praticam a magia como as bruxas. Não desta forma. Ainda assim, eles têm a própria tradição e são capazes de rituais de cura, de proteção, de fertilidade. Esses rituais geralmente são feitos com plantas e ervas sagradas, que, novamente, apenas os integrantes têm acesso. Honestamente? Eu nem sei do que eles são capazes nesse sentido. — Nora franze o cenho. — Alguns dizem que eles aprenderam muito com os feéricos. Pra mim é um absurdo.

Dante arregala os olhos.

— Feéricos? Isso existe?

— Claro que existe. — Nora revira os olhos. — Mas não são confiáveis. Por isso, eu não entendo como os licantropos estreitaram laços com os seres feéricos, mas são incapazes de cordialidade com nós, bruxas. — Dante está chocado. — De qualquer forma, eu estava no território deles por esse motivo. E não fui bem recebida, é claro. O confronto foi inevitável. Não sei como sobrevivi. Ele me mordeu… — Nora leva a mão para o ombro. — Aqui. — Dante olha o ombro de Madalena. — No meu corpo de verdade. E além de ter saído me arrastando, sem o que pretendia, eu permaneci miserável por semanas até o meu corpo diluir o veneno e minha pele cicatrizar.

Dante abre a boca, chocado. Nora dá de ombros e repete:

— Licantropos são vigorosos…

— Você quase morreu. — Nora assente. Dante pondera, franze a testa e pergunta: — Mãe, um dia eu vou poder aprender sobre o meu povo?

Nora arqueia as sobrancelhas.

— Você gostaria?

— Acho que sim. — Adrian nunca cogitou a possibilidade. A licantropia sempre lhe soou como maldição. — Eu gostaria de saber o que sou. E o que posso ser.

Nora ajeita o cabelo de Dante com carinho.

— Quando tudo isso se resolver, nós podemos procurar o seu povo. — Ela deposita um beijo na testa dele. — Não há motivos para te rejeitarem.

A perspectiva o surpreende. Após avaliar as possibilidades, Dante finaliza:

— Vai ser melhor o papai me acompanhar. Você não parece ser querida por eles.

Nora ri. E concorda.

***

— Você tem certeza? — O homem largado no chão tenta se sentar, mas Revna coloca o pé sobre o peito dele. A cabeça está coberta por um saco de algodão sujo. A roupa, que muito parece uma túnica, também está suja de sangue, terra e algo que parece ser esterco devido ao cheiro insuportável. — Eu garanto que posso fazê-lo sofrer.

— Não. — Nora observa a entidade. — Só eu sei o que ele fez comigo.

Nora adentra a cela e franze o cenho. Até poucas horas, ela não sabia que havia uma masmorra no último andar da região mais afastada do castelo, embora agora pareça óbvio e necessário. Ainda assim, o ambiente rançoso, com paredes úmidas e nenhuma ventilação, não parece ser usado desde que Adrian assumiu como senhor.

— Traga ele aqui. — Nora solicita. Revna obedece e rapidamente prende o homem pelos braços. Nora ajeita as correntes para garantir que o homem permaneça suspenso. Em poucos dias, os membros estarão sobrecarregados e a dor será insuportável. A ideia arranca um sorriso verdadeiro, e Revna franze as sobrancelhas. — Obrigada pela gentileza de trazê-lo.

— Nunca pensei que encontraria prazer nessa atividade. — Revna comenta. — Vejo que o tempo com Adrian realmente lhe forjou como uma nobre cruel.

Nora nega.

— Considerando que me conhece desde a minha juventude, sabe que a minha crueldade não foi construída por ele. Inclusive, — ela aponta com o dedo para o padre. — acho Adrian incapaz disso.

Revna solta o ar pelo nariz, e a ação sempre a choca. Desta vez, ela ri.

— Você nem respira.

Ele demora a entender.

— É claro que respiro.

Nora toca o peito dele.

— Não há nada aqui dentro. Você é oco.

— Venha e escute o meu coração.

Ela abre e fecha a boca várias vezes. A provocação é astuta e a envergonha mais do que deveria, considerando a sua longa existência. Nora inspira, recupera a postura e debocha:

— A sua sugestão, meu senhor, é inapropriada.

Revna ri, e Nora se assusta porque não é do feitio dele. Na verdade, tudo a assombra naquele momento. Durante a vida, ele apresentou-se com muitas faces, inclusive imitando Adrian. E com certeza riu em outros momentos. Porém, eram imitações, falsas pretensões de soar menos divino. Agora, além de ser a primeira vez que o vê naquelas formas, tudo parece ser muito peculiar e único.

E muito familiar.

Nora desvia os olhos quando se vê observando a discreta covinha que surge no lado direito do rosto. Revna se empertiga, olha para o céu e define:

— Devo partir.

— Falta muito para o amanhecer.

— Tenho outros afazeres.

Nora estranha, mas opta por não questionar. Desta vez, ele sai da cela e vira no corredor antes de desfazer-se em sombras. Ela se demoraria imaginando quais os compromissos da entidade se o padre não gemesse com tanta ênfase.

Nora revira os olhos e aproxima-se dele, arrancando o saco da cabeça. Lucien arregala os olhos ao vê-la. Há um pano velho enfiado na boca do homem, o impedindo de falar. Ainda assim, ele geme tanto que a baba escorre. Nora rasga a túnica e analisa as feridas recentes no corpo dele. Revna, de fato, foi uma excelente companhia.

— Veja só, padre Lucien, o senhor foi tocado por deus. — Nora sorri, falsa. — É tão bom revê-lo. Enquanto estive em sua companhia, o senhor se esforçou muito para me ensinar sobre deus. Foi uma experiência… — Nora procura a palavra. — transformadora, no mínimo. Por isso, sou grata ao senhor. Tão grata que me sinto em dívida. Por favor, me permita também falar sobre a palavra do meu deus.

Notas finais
Hoje eu quase fui vítima fatal de uma carreta desgovernada que invadiu minha empresa rsrs. E eu ficaria muito brava se morresse antes do almoço ou antes de postar o meu capítulo. Portanto, aqui estou. Talvez nesse capítulo existam mais erros do que o normal, mas conto com a compreensão de todos considerando os últimos eventos. Curiosidades: Lobos cinzentos são capazes de percorrer até 200km em único dia para proteger o próprio território OU durante uma caça. Imagine lobos mágicos rsrs. E eu demorei tempo considerável para calcular todas as variáveis daqui, principalmente as viagens à cavalo. E elas são realmente demoradas. Embora resistentes, os animais só conseguem suportar certo percurso considerando a carga sem literalmente caírem mortos no final do dia. Eu genuinamente imaginava que esse seria um capítulo mais denso e infeliz. Porém, encontrei certos alivios temporários. Espero que se encontrem também. Aproveito para dizer que estamos, definitivamente, em reta final - e ainda tem muita coisa acontecendo rsrs.