Tempo da Bruxa

30 Alma vermelha


O barulho do chicote de couro contra a pele humana é um assobio escandaloso. Embora Lucien tenha resistido silenciosamente às investidas anteriores, a disposição desfaz-se com repetição e paciência. A cela, que pouca ventilação tem, ganha um cheiro rançoso de sangue, suor e excrementos. E Nora pouco se perturba.

O homem geme alto quando o chicote é recolhido, esperançoso que tenha acabado. Nora observa o chicote com atenção. O couro é novo, firme e sujo do sangue imundo do homem. Ela franze o cenho e encara Lucien despido e desfeito. O corpo é tão feio quanto poderia; a barriga é protuberante e há muitos pêlos corporais. Por um momento, ela analisa as genitais e tenta decidir se um dos testículos é o equivalente ao seio dilacerado de Madalena.

— É a primeira vez que esse chicote é usado. — Nora comenta. O homem mantém os olhos fechados. O corpo dele permanece esticado pelos pulsos e pelos tornozelos. — Foi comprado para domar cavalos difíceis, mas Adrian nunca gostou da ideia. — Ela o encara. — Você não é um cavalo difícil. É algo pior. — Lucien não a olha. — Olhe para mim.

Ele não obedece. E Nora utiliza o chicote até convencê-lo.

— Eu posso fazer isso o dia inteiro. — Nora afasta-se e encontra a garrafa de vodca. Lucien grita quando a bebida é derrubada nas feridas. Nora guarda um gole para o final da noite. — Mais do que todo o dia… — Ela senta-se na cadeira que trouxe. — Por toda vida. Toda vez que estiver prestes a morrer vou curá-lo. E me empenhar ainda mais nos dias que se seguirão. E quando estiver desfalecendo novamente…

O padre ri.

— Não sou o primeiro soldado de Cristo que é ferido. Pode desfazer o meu corpo quantas vezes lhe agradar, mas nunca tocará no meu espírito.

Nora sorri e estala a língua.

— Acha que a sua alma é intocável?

— A minha alma pertence a Deus. E quando Ele a buscar, você nada poderá.

Ela ri.

— Você realmente acredita que Deus buscará a sua alma? Depois de tudo o que fez? — Nora levanta-se e confere as ferramentas disponíveis na mesa improvisada com outra cadeira. Nenhuma opção a agrada. — Não só comigo. O senhor se mostrou muito experiente. Tenho certeza que passou toda a vida desfazendo corpos e espíritos mais frágeis. Acha que é Deus quem te espera?

— Nada fiz sem a permissão de Deus.

As unhas foram retiradas na tarde passada. Os membros estão bem estendidos, garantindo desconforto extremo. Lucien não bebe ou come desde que Revna o encontrou e é obrigado a realizar as necessidades fisiológicas no chão enquanto o corpo permanece pendurado . As noites de sono também são turbulentas e incompletas.

— Permissão de Deus. — Ela debocha. — O senhor realmente acredita nisso?

Lucien se agita, balançando as correntes.

— Acha que sou capaz de encontrar algum prazer nisso? Por mim mesmo?!

— E o senhor realmente acredita que o seu Deus pediu por isso? Por toda a dor? — Nora franze o cenho. — Eu acredito que o seu Senhor se apraz na dor. Não seria o primeiro deus a fazê-lo. Mas que tipo de homem você é que encontra descanso em um deus capaz de tantas atrocidades?

— Não há prazer na dor, bruxa tola! A dor é apenas o salário do pecado.

Nora retira uma vela do castiçal.

— O salário do senhor será alto, então.

— Eu estou remido no sangue do Senhor Jesus Cristo e…

Lucien continua falando até a primeira gota de cera acertar o seu ombro. O resmungo é baixo, e Nora é paciente. A constância fere a pele em vários locais diferentes. Lucien sua e geme antes do sol se colocar no topo do céu, e Nora diverte-se escrevendo com cera EM NOME DE DEUS nas costas do homem. Contudo, Lucien movimenta-se muito, dificultando o processo. Nora avalia. A pele pálida e suja reage rapidamente às queimaduras, enchendo-se de bolhas. E Nora estoura todas com a ponta da adaga. O cheiro de cera, suor e sangue a enoja, enfim.

— Da próxima vou queimar a sua língua. — Nora senta-se e encara o homem. Ainda não há lágrimas. E ela sabe que é questão de tempo. Ela analisa o cume da adaga com cuidado. Não é a adaga encantada que roubou de Sylvia. Essa desapareceu no dia em que foi capturada por Lucien. — Os seus excessos não são novidade para mim. — Lucien está vermelho e tenso como nunca. Nora usa o resto de vodca para diminuir a queimação na pele. Lucien berra. Ela retorna a sentar-se, conferindo o ponto da adaga. — Não é o primeiro homem que cruza diversas terras trazendo destruição em nome de deus. Há algo em vocês… Nascem sem nenhuma dor e precisam encontrar algo para morrer. E os deuses são sempre os culpados. — Nora solta o ar pelo nariz. — Como se os deuses não houvessem partido há muito.

Após a aflição, Lucien resmunga entre dentes:

— Não há nenhum deus para você? — Ele cospe uma mistura de saliva e sangue. — Nem mesmo o anjo caído?

Nora ri.

— Lúcifer? — Ela ri e levanta-se para cutucá-lo com a adaga. — O quão pequena é a sua imaginação? Sabendo da vastidão do mundo, da vastidão de pessoas, credos e possibilidades que existem, Lúcifer é a sua aposta? — Ela afasta-se. — A vida é uma performance. E a performance humana é deprimente. — O sangue dos ombros corre quando a ponta da adaga fere a pele. É um incômodo breve. — Lúcifer realmente existe? — Nora revira os olhos. — Por favor. É claro que existe pra você. Mas é realmente o anjo caído ou um demônio qualquer divertindo-se à custa do temor espalhado pela igreja? Demônios são criaturas… — Nora estala a língua. — insuportáveis, no mínimo.

— Ao menos reconhece a existência deles.

Nora limpa a adaga no vestido, ignorando-o.

— Apenas um tolo não reconheceria. — Nora analisa o homem. — A maioria passa a existência realizando desejos idiotas em troca de sangue. Criaturas ridículas e cansativas. — Nora decide que precisa banhar-se antes de encontrar Dante no almoço. — São poucos os que têm poder para realizar grandes alterações na realidade. Esses, porém, só aceitam as almas como pagamentos. — Ela sorri com a ideia. — Quando me cansar de você, talvez eu dê a sua alma imunda a um demônio. — O padre se atribula, balançando as correntes. Nora arqueia as sobrancelhas. — Não gosta da possibilidade?

— Você não tem poder sobre a minha alma, bruxa imunda!

Nora aproxima-se de Lucien e agarra o queixo dele.

— Eu garanto que descobriremos em breve.

(...)

As mangas da camisa estão dobradas, assim como a barra da calça. Os movimentos não são tão fluídos quanto os de Adrian, mas o esforço de Dante para escovar a égua favorita do pai é notado no suor que impregna mechas do cabelo castanho na testa, na nuca e nas bochechas vermelhas.

O estábulo está vazio porque todos os servos estão almoçando. Nora aproxima-se da baía com passos cuidadosos, evitando assustá-los. Ela apoia os cotovelos no portão da baía e assiste a cena em silêncio. Ainda é um pouco perturbador vê-lo tão independente e adulto, e Nora sente-se enojada com a própria repetição.

— Não me diga que se esqueceu de mim.

Dante a olha por cima do ombro, e Nora percebe que o garoto a notou assim que adentrou no estábulo.

— Não estou com fome.

— Vai levá-la para cavalgar?

Dante se interrompe por um breve instante. As sobrancelhas se franzem, e ele molha os lábios antes de responder:

— Não parece adequado.

— Por quê?

Ele balança os ombros. A resposta demora tanto que Nora quase esquece o assunto.

— Se ele estivesse aqui, eu não montaria na égua dele. Não quero agir como se…

— Como se ele não estivesse aqui.

Dante assente. Nora apoia o queixo nas mãos e pondera.

— É temporário.

Ele suspira e não responde. Após escovar todo o pelo, Dante encontra a tesoura mais adequada para aparar a crista e o rabo da égua. Desta vez, os movimentos são mais firmes e precisos. Até mesmo decorados. E a égua, geralmente desconfiada, aceita o manejo com muita tranquilidade.

— Quando você… — Nora se engasga nas próprias palavras. — Tudo isso é tão estranho pra mim. E eu sou tão repetitiva que me sinto nojenta. — Dante a olha. — Vê-lo aqui, cuidando de um cavalo desse porte. São coisas corriqueiras pra vocês, mas pra mim… — Nora toca a testa com o dedo indicador. — é a certeza do tempo que passou. Do tempo que estive morta.

Dante finaliza a franja da égua e apoia a tesoura no banco. Ele limpa as mãos nas calças, assim como o pai, e empurra o cabelo para trás antes de suspirar e balançar os ombros.

— Eu sou incapaz de imaginar o quão estranho é, mamãe. — Nora sorri, porém. Dante pondera. — Você… Posso fazer uma pergunta esquisita? — Nora permite. — Você sabia que estava morta?

Nora observa a égua e tenta se lembrar dos anos em que esteve morta. A resposta é preparada em diversas configurações e nenhuma a satisfaz.

— Talvez. — Dante arqueia as sobrancelhas. — Há muitas versões sobre o que acontece depois que morremos. Hoje boa parte das pessoas acreditam que nossas ações durante a vida definem nosso destino. Se assim fosse, talvez eu devesse estar sofrendo. Mas se eu afirmar isso, estarei mentindo. Não havia nada pra mim do outro lado. Era só… — Nora morde a bochecha. — a escuridão. E o silêncio. E acho que enquanto estava morta eu não tinha essa percepção. Eu não sabia que estava morta. Faz sentido? — Dante balança os ombros. Nora suspira. — Eu só percebi que morri porque voltei a viver.

A égua relincha e movimenta a cabeça em busca do carinho do Dante. Porém, ele não a responde. Por um longo momento, Dante encara a tesoura e as próprias mãos.

— Está muito preocupado com o seu pai. — Nora supõe. — Posso ver em seu rosto.

Dante pisca e coça a nuca.

— Acho que sim. — Ele acaricia a égua. — Mãe, você acha que é assim para todos? — Nora franze o cenho. — A morte. Acha que tudo que existe do outro lado é a escuridão?

Nora abre e fecha a boca diversas vezes.

— Por que perturba o seu espírito com esses assuntos? Dante, você é jovem demais pra isso.

— Eu só… — Dante esfrega o rosto, sujando-o com um pouco de terra. — Tenho pensado nisso. Acho que não estou dormindo como gostaria.

Nora solta o ar preso nos pulmões, desvia o olhar e coça a ruga que surge na testa.

— Eu sinto muito.

Dante guarda as tesouras e termina de limpar-se antes de sair da baía. Nora é envolvida em um abraço apertado e quase angustiado. Ela o retribuí com toda a força que tem, acariciando as costas do garoto com movimentos circulares.

— Mamãe, — ele chama baixinho exatamente como fazia quando despertava de um pesadelo intenso. O coração de Nora se aperta tanto que se torna incapaz de bombear sangue. Ela o abraça com mais intensidade, tentando sugar toda a tristeza inquietante que o rodeia. — Eu… — A voz de Dante embarga. Nora se afasta e agarra o rosto dele com cuidado, avaliando-o. — Eu só…

— O que está acontecendo?

Dante se afasta.

— Nada. — Ele esfrega o rosto e a observa. — Às vezes… — Ele força um sorriso frágil. — Às vezes eu quase não acredito que você realmente está aqui.

— Bom, — Nora alcança as mãos dele. — eu estou. — O sorriso dela também é frágil. — Eu estou, sim. Não sei como. — Dante desvia os olhos. — nem porquê. Mas estou aqui.

Dante inspira, estica os ombros e se reergue aos poucos.

— Vou me lavar. E podemos comer. Agora estou com fome.

Ele se afasta, e Nora nota que a ausência de Adrian afetou Dante muito mais do que esperava.

(...)

O mapa é posicionado no chão, sendo apoiado nas quatro pontas com diferentes cristais. Nora escreve o nome completo de Adrian em todas as velas antes de acendê-las e posicioná-las ao redor do mapa. O punhado de pelo preto é retirado da pequena bolsa de couro, que tem as iniciais de Nora gravadas. Por um momento, ela recorda-se de como conseguiu o punhado de pelo na última transmutação que Adrian sofreu.

Uma parte de si estava convicta que nunca precisaria do pelo. Afinal, Adrian seria para sempre um homem, e ela guarda a mecha do cabelo dele com muito cuidado. Por outro lado, no fundo Nora sabia que nada dura para sempre, nem mesmo as pedras.

O que mais a surpreende, porém, é boa parte de suas coisas terem sobrevivido aos anos em que esteve morta e à Madalena. O pensamento amarga muito mais do que é permitido. Até mesmo Madalena lhe deu um pouco de respeito, diferente de Sylvia que além de expulsá-la da cabana ainda jogou todas as coisas foras. E não contente, a entregou para Lucien.

Ela range os dentes, afasta os pensamentos e posiciona parte do pelo em cima do mapa. Não parece adequado queimar tudo o que tem porque pode ser necessário rastreá-lo de novo.

Esvaziando a mente, Nora murmura as palavras do encantamento com os olhos fechados. Algumas repetições são necessárias até as chamas das velas aumentarem, indicando o momento ideal para prosseguir. Com as lágrimas da vela central, em que o nome dele foi gravado com mais cuidado, Nora umedece o pêlo enquanto murmura o encantamento.

Inicialmente, as lágrimas da vela permanecem no pelo. Nora suspira ao desconfiar de certa resistência do animal. Por fim, adiciona uma gota de sangue. A mistura do sangue com a cera da vela, que não se resseca, percorre o mapa devagar, demonstrando todo o percurso que Adrian fez desde que saiu do castelo.

Em cima de Vicenza a lágrima de sangue resseca. E Nora arqueia as sobrancelhas porque Vicenza é consideravelmente distante da residência da sra. Conti. Com um pouco mais de sangue, Nora inicia outro encantamento na tentativa de contactar Adrian.

Embora todas as janelas e portas estejam fechadas, as chamas das velas balançam e diminuem. Nora sente a gota de suor escorrer da testa e fecha os olhos, tentando ver Adrian em forma de lobo. Porém, tudo o que ela é capaz de ver é a escuridão densa que apenas uma floresta fechada é capaz de causar.

Um pouco mais de sangue é necessário para sustentar a magia. Nora escuta o farfalhar das folhas misturado ao canto distante de uma cigarra insistente. De repente, uma sombra densa atravessa a sua visão. Ela acompanha a sombra até perceber que é um morcego voando baixo.

— Por que você… — Nora resmunga entre os esforços para manter a magia. — está se escondendo de mim? — O rosnado soa dentro do cérebro de Nora, e ela instintivamente recua. — Você não vai fugir de mim. — O farfalhar das folhas aumenta. — O que está fazendo? Eu te disse para encontrar a Selena. O que… — O animal balança a cabeça, e Nora quase é expulsa. Ela agarra-se com as unhas e insiste: — Adrian! Encontre a Selena!

O mapa queima ao mesmo tempo que ela é empurrada para fora da floresta. As velas se apagam em seguida. Nora treme enquanto tenta acender as velas novamente, incrédula que Adrian foi capaz de expulsá-la com tanta raiva. As velas iluminam o ambiente novamente, e Nora percebe que a sombra densa não pertencia à floresta.

— O que…?! — Ela recua com o corpo até bater as costas na parede. — O que você…?

Eris aproxima-se, inclinando a cabeça. Nora é incapaz de se recolher mais. Então, alcança o primeiro objeto pesado como se fosse o suficiente para se defender de uma deusa milenar. Eris, por outro lado, mal parece perceber o seu estado de espírito. Sem parcimônia, Eris encosta a mão no peito de Nora. O toque é firme e são alguns segundos até Nora sentir a mão adentrar o corpo de Madalena e tocar a sua alma.

— Deuses… — Eris murmura. A mão ainda está atravessada dentro do corpo de Madalena. Nora olha para baixo e não há sangue. — É você.

Eris retira a mão muito rápido. Antes de vomitar e desmaiar, Nora é capaz de ver a mão dela resplandecer um tom vermelho vivo. E descobre que essa é a cor de sua alma.

(...)

— Todo esse tempo… — Nora escuta as vozes distantes. — O que você está fazendo?! O que pensa que está fazendo?

— Eu…

— E você não me contou!

— E como eu poderia?! — Eris soa distante também. — Como eu poderia? Afinal, você tem sido bom em se esgueirar por aí, se escondendo de mim. Se escondendo de todos!

— Todo esse tempo, Eris. Não foi o suficiente me roubar uma vez?

— Eu estava tentando consertar!

Nora se esforça muito para movimentar o corpo. Contudo, os membros não a respondem adequadamente. As mãos, os braços, as pernas e os pés estão formigando tanto que ela sente necessidade de coçar. Os olhos estão grudentos, e Nora também não suporta a luz suave das velas sem sentir o gosto de bile na boca novamente. Em poucos instantes, o estômago e a garganta se contraem, e o vômito a sufoca.

Nora não é capaz de virar o corpo, e os olhos ardem quando o oxigênio falta. A tosse é fraca e desesperada. Por sorte, os espectadores estão atentos, e o corpo de Madalena é movimentado com rapidez. Várias batidas nas costas são necessárias para Nora expelir todo o vômito.

Ela agarra os braços de quem a suporta com paciência e aperta com tanta força que as unhas atravessam a pele. A tosse persiste. A cabeça lateja assim que a iluminação do ambiente atravessa as pálpebras dela. São várias tentativas até abrir os olhos.

— O que…? — Nora tem muita dificuldade para juntar as sílabas. — Eu…

O corpo de Madalena é posicionado no sofá com cuidado, sentado. O cheiro de vômito, suor e sangue enoja Nora, quase causando outra contração no estômago. As velas são afastadas, e Nora, enfim, enxerga Revna.

Revna está ajoelhado diante do sofá, prestando atenção em cada movimento. Nora esfrega o peito com angústia antes de perceber Eris a alguns metros. A deusa está quieta e séria como nunca. Nora sua muito para conseguir erguer o braço e apontar para ela. Revna encara Eris.

— Ela… — Nora desiste de falar. Entre os seios a ferida não é física, nem literal. Ainda assim, Nora sente a dor constante; ela sente a carne desfeita e a invasão severa de Eris à alma. — Minha alma…

Nora esfrega o local repetidamente.

E Revna é muito cuidadoso ao deitá-la no sofá de novo. Ele murmura algo que Nora não entende, mas assente. Então, a parte superior do vestido é desfeita, exibindo-a em roupas íntimas. O toque dele é leve e morno, massageando a região que Eris atravessou. Nora é incapaz de erguer o tronco para acompanhar a avaliação, mas desconfia que a região esteja avermelhada de tanto que dói.

— Você poderia ter a matado. — Revna repreende, e Nora quase não o reconhece. A entidade não soa esnobe, cruel ou irritadiça. A repreensão é severa e firme. E é exatamente o tom que Nora usaria para repreender Dante ou Selena. — Quantas vezes eu lhe adverti, Eris… — Ele encara Eris. — A alma é a parte mais delicada na composição deles. Não estão acostumados a serem revirados dessa forma. Você poderia ter a matado.

— Pai, eu não… — Eris para de falar. — Não era essa a minha intenção.

Pai.

Pai.

Revna suspira alto.

Pai?

E Nora luta para erguer o tronco para vê-los.

Pai!

Revna, porém, a mantém deitada. Nora é incapaz de vencê-lo.

— Não sou capaz de ver boas intenções em sua atitude, porém.

Eris aproxima-se, e Nora se agita.

— Não seja tão cruel comigo. — Eris choraminga como uma criança. — Eu fiquei incrédula ao senti-la de novo. E precisei me certificar que não era um engano.

— E para quê?

Nora agarra o pulso de Revna com força. Revna desfaz o aperto e acolhe a mão dela, massageando o dorso. A respiração de Nora torna-se entrecortada conforme a percepção de sua fragilidade cresce. Os olhos ardem, e o suor volta a escorrer da testa.

— Eleonora, — Revna chama, baixinho. Nora não o escuta nos ouvidos. Ela o ouve soar de dentro da cabeça. — será desconfortável, mas passageiro. Feche os olhos, querida. — Nora nega, incapaz de falar. Revna suspira. — Me ajude a segurá-la. Está mal posicionada. — Eris ajoelha-se ao lado do sofá e posiciona as mãos nos ombros de Madalena. Nora se agita, tentando se libertar. As lágrimas pingam do rosto e misturam-se ao resto de vômito que sujou o pescoço. — Feche os olhos.

Nora resmunga palavras incompreensíveis e luta para se soltar. Contudo, cada movimento severo parece a revirar por completo, e a necessidade de vomitar surge novamente. Eris é forte e cuidadosa, mantendo-a imobilizada como pode. E Nora é tão insistente quanto perturbadora, balançando as pernas e lutando para soltar os braços.

Por fim, Revna posiciona uma mão no ombro da Nora, mostrando-se muito mais pesado e firme do que Eris. A outra mão massageia a região entre os seios, no esterno. Nora chora mais e morde o lábio com tanta força que sangra.

— Revna… Por favor. — Nora implora. — Por favor. Por favor. — Ela se agita. — Minha alma. Por favor.

Revna a ignora, todavia. A mão posicionada no esterno não é física, Nora nota ao erguer minimamente o pescoço. As sombras se sobrepõem enquanto adentram a carne de Madalena. Desta vez, a ardência é menos incômoda. Nora ainda soa, geme e saliva demais. No entanto, se torna imóvel quando a mão de Revna envolve a alma completamente.

Nora encara o teto e sente os membros amolecerem aos poucos. Ela escuta o farfalhar das folhas e sente o cheiro de terra úmida após uma forte tempestade. As lágrimas escorrem e secam, finalmente.

— Deuses, — Revna resmunga. — quem colocou essa alma aqui?

Os momentos são longos e angustiantes, ao menos é o que ela supõe. A verdadeira noção de tempo se desfez assim que Revna a atravessou. As lágrimas não se formam mais, assim como as palavras. Os membros do corpo, como pernas e braços, estão desfeitos. Tudo o que Nora sente é a mão delicada de Revna ao redor de sua alma, que aparenta ter um formato arredondado, embora não tenha capacidade intelectual para analisar.

— Não sei como esse corpo é capaz de abrigá-la. — Eris comenta. — Foi um trabalho minucioso.

O som da água correndo preenche o cômodo, de repente. Ela nota que os seres estão conversando, mas é incapaz de ouvi-los. Os olhos vagam, e a visão do teto é completamente substituída pela escuridão.

Notas finais
Admito que estava com esse capítulo pronto há dias... Espero que gostem! Estou fazendo um verdadeiro esforço pra coser esse final. Obrigada a todos que dedicam um tempo lendo! Vocês são incríveis!