Tempo da Bruxa

15 Demônios


— Ainda não consigo entender o que mudou. — Ginevra murmura.

A porta do escritório está entreaberta. Nora posiciona-se de forma que consegue ver Ginevra sentada na espaçosa poltrona de couro de frente para a lareira. Ela segura uma xícara delicada, provavelmente pintada a mão. Pela porta escapa uma corrente breve de ar gelado, advinda das janelas do cômodo. Da posição em que está, Nora não consegue ver o interlocutor de Ginevra. Não é necessário um grande esforço para supor que seja Adrian. Ele confirma a suspeita muito rápido:

— Por outro lado, lady Conti, não entendo porque é necessário que me justifique. — Ginevra estala a língua e beberica o líquido. — Eu desejo que Selena volte para casa. Por que essa decisão lhe perturba tanto?

— Perturbar? — Ginevra deixa a xícara na mesa. Nora segura o ar nos pulmões como se a respiração baixa fosse interromper a conversa. — De forma alguma, Vossa Alteza. Me surpreende, é claro. Vossa Alteza demorou tanto a aceitar a sugestão que pensei que fosse definitiva. E há poucas semanas Vossa Alteza tinha outra opinião. Escreveu-me agradecendo por recebê-la e confirmou que era a melhor decisão.

— O momento era diferente. — Adrian rebate. — Eu permiti que Selena passasse algum tempo sob a sua custódia porque aqui não era o ambiente adequado. E admito que o tempo com a senhora e as suas filhas aparentemente a fez bem. Afinal, elas têm idades próximas. Com certeza encontraram assuntos em comum. — Lady Conti assente. — Mas o que a senhora pensou? — Adrian torna-se debochado. — A senhora pensou que deixaria a minha filha sob os seus cuidados até que atingisse a idade adulta? A senhora acreditou que Selena cresceria longe da casa que a pertence? — Ele ri da própria suposição. — Lady Conti, eu vejo todos os meus erros com absurda clareza neste momento. Gostaria que me fosse permitido retornar e tomar todas as decisões contrárias ao que fiz até agora. Não é possível, infelizmente. Posso apenas me agarrar à possibilidade de consertar tantas falhas. Portanto, apesar do clima desafiador, espero que a senhora agilize a viagem de Selena. Do contrário, quero que saiba que pessoalmente terei que buscá-la. E não vejo como essa viagem poderia ser agradável para nós.

A conversa se encerra por quase cinco minutos. O silêncio é tão incômodo que Nora prepara-se para invadir o ambiente. Ela não o faz porque sabe que entrará no escritório como mãe e não como a madrasta que o seu corpo é.

— A minha irmã está ciente sobre a sua decisão?

Adrian deixa o ar escapar pelo nariz e anda pelo escritório.

— A senhora deseja que eu peça permissão à Madalena?

— Permissão? Não. Mas é a sua esposa. Madalena deve ser ao menos informada.

— E por quê? Madalena é a minha esposa, sim. Mas Selena e Dante antecedem ao nosso casamento. — Adrian balança os ombros. — E eu não preciso conversar com a sua irmã para saber a opinião dela. A senhora deve concordar comigo: Madalena nunca teve tato com eles. Às vezes temo que ela não tenha jeito com nenhuma criança. E que sorte a nossa, não acha? — Ginevra não responde. — Não tivemos filhos.

Ginevra levanta-se da poltrona com altivez.

— E isso diverte o senhor?

— Não há nenhuma diversão no fato, Ginevra. Há alívio. — Ginevra nega com a cabeça. — A relação de Madalena com as crianças é conturbada o suficiente. Outra criança não tornaria a situação menos difícil. E a senhora sabe que a sua irmã não é a pessoa mais indicada para ter filhos. O humor e o ânimo são instáveis. Temo pela vida de Madalena. E pela vida de um bebê hipotético.

— E ainda assim casou-se com ela. — Ginevra resmunga e sorri ao mesmo tempo. — É bom, Adrian, finalmente conversamos claramente. É bom rever a sua verdadeira face. Eu quase acreditei. Por um breve período, eu quase acreditei que a idade tivesse lhe proporcionado, ao menos, mais sabedoria. Sinto-me tola. Não há nada de sábio. É algo mais vil, mais traiçoeiro. Casou-se com Madalena para amenizar os ânimos do meu pai, mas nunca pretendeu tê-la como uma esposa, muito menos mãe de seus filhos. E agora a mantém aqui e quando alguém questiona sobre os filhos, você a culpa.

Nora não vê a expressão deles. Imagina que Ginevra esteja irritada e quase magoada enquanto Adrian beira à confissão e a ironia. A possibilidade a satisfaz.

— Traga Selena para casa.

Ginevra não o responde. Nora esconde-se no vão do corredor quando a mulher sai do escritório a passos rápidos e pesados, batendo a porta do cômodo tão forte que as janelas tremem. Ela espera que Ginevra suba as escadas para adentrar o cômodo, fechando a porta e a trancando.

— Aparentemente a conversa não foi agradável para a Lady Conti.

Adrian não se surpreende ao vê-la. Ele serve conhaque com leite quente e aproxima-se, oferecendo-a. Nora encara o copo por uns segundos, lembrando-se de quando compartilharam o primeiro conhaque no inverno. Ela ainda era apenas uma visita ocasional, embora a relação entre eles já se mostrava mais complexa.

— Geralmente não é.

Nora beberica o drinque enquanto pondera.

— Ginevra está resistente sobre a vinda de Selena. Por quê?

Adrian senta-se na poltrona que há pouco tempo a mulher ocupava. Ele também bebe e pensa, franzindo o cenho.

— Eu não sei. Talvez Ginevra pense que a presença de Selena atrapalhe. — Ele sorri de canto. — Talvez ela pense que as crianças me lembram constantemente de você. E enquanto me lembrar de você, Madalena não é uma possibilidade. — Adrian deixa o copo na mesa. — Ou talvez Ginevra seja mesquinha de natureza.

— Talvez. — As possibilidades são muitas, e Nora não tem tempo de avaliá-las. Há tantos assuntos rodeando a sua mente que ela mal suporta o barulho constante dos pensamentos. Enquanto encara Adrian, Nora pensa em Dante, Selena e nas conversas cada vez mais difíceis que têm com Revna. — Nada disso estaria acontecendo se não tivesse permitido que Selena fosse.

— Você tem razão. — Eles se olham. — Mas era necessário. Ao menos, naquele momento. Não vejo como a permanência de Selena nessa casa seria boa.

— É a casa dela. Não há outro lugar para se estar. — Adrian inclina a cabeça e não a responde. Nora estreita os olhos e sente-se tão desatenta. Quantos detalhes tem deixado passar? Não apenas detalhes relacionados aos filhos, mas com Revna. Revna fala entre sussurros, e Adrian se ausenta em cada resposta. Nora, por sua vez, parece não saber elaborar as perguntas certas. A morte a deixou lenta e frágil. — Você não mandaria Selena para Toscana apenas por passeio. Por quê? — Nora pergunta, enfim. Então, senta-se na outra poltrona e suspira. — Adrian, há muitas coisas aqui. — Ela aponta para a própria cabeça. — Boa parte do tempo eu não sei se são reais. Você sabe quanto tempo estive fora. Tente entender como me sinto. — Ele assente. — Então, fale comigo claramente. Conte-me tudo o que preciso saber. Estou cansada de supor e a cada dia que passa percebo que o nosso filho não foi tão sincero quanto eu gostaria.

— Cada um conta o que pode, Eleonora.

— Mas não você. — Nora não pede. Ela não sugere. Ela exige: — Você não tem o direito de me contar o que pode, Adrian. Você precisa me contar tudo. Você me deve isso.

Ele inclina a cabeça e sorri:

— Eu devo? Quem morreu foi você, apesar das promessas.

Ela gesticula.

— Acredite: a minha morte me surpreendeu tanto quanto te assustou.

Adrian desvia os olhos. Os dedos esfregam o vidro do copo. A expressão se modifica várias vezes; as sobrancelhas se arqueiam e se fecham repetidamente, formando rugas. Os lábios se contraem e se abrem. Ele pisca, suspira e balança os ombros. Nora percebe o quão bom Revna se tornou em imitá-lo.

— Não preciso dizer que a sua morte surpreendeu a todos. Não vou tentar atenuar o que a sua ausência me causou. São mentiras tolas e desnecessárias. E também não vejo porque competir com Dante o luto por você. E quero que saiba disso: havia muito sofrimento em Dante. Por muito tempo. E o tempo todo. — Adrian nega. — Por um tempo, ele teve que entender porque a mãe que lhe deu a vida não o acompanhou nessa experiência. E ele estava se acostumando à ideia de ter você quando te perdeu. — Nora abaixa os olhos. — Em algum momento a tristeza se transformou. Não era mais apenas a dor incapacitante, nem os lamentos por sua ausência. A tristeza continuou e juntou-se a algo como indignação. À indignação juntou-se às perguntas. E às perguntas juntaram-se às tentativas. — Nora franze o cenho, confusa. — Conforme Dante crescia, ele entendeu o que você era. Ao mesmo tempo, descobrimos que Selena é como você. — Nora sente o coração disparar. — E… — Ela estreita os olhos. — Selena estava curiosa, confusa e também amedrontada. Eu admito que não sabia quem procurar para ajudá-la. Achei que Sylvia fosse uma possibilidade… E não foi. — Adrian pausa e pondera. — É claro. Havia a presença de Madalena. Novamente eu insisto: Madalena não era como a irmã. E apesar da falta de jeito, ela nunca foi cruel com Dante ou Selena. E não era preciso: Dante já tinha decidido que não a suportava. Selena geralmente era neutra. Às vezes ela buscava em Madalena algum reflexo de mãe. E de você Selena sabia apenas histórias. — Nora seca as lágrimas antes de escorrerem no rosto. — Dante nunca aceitou Madalena porque sempre acreditou que você voltaria. Quando pequeno ainda não entendia a complexidade da morte. E conforme crescia, Dante parou de aceitar a determinação da morte.

— O que…? — Nora segura a cabeça enquanto tenta organizar todos os fatos. — Você buscou Sylvia para ajudá-lo com Selena? — Adrian assente. — E ela não veio. — Ele assente outra vez. — É claro que não. Ela nunca viria. — Nora levanta-se e anda pelo escritório. — E Selena estava sozinha enquanto descobria que era uma bruxa. O que sobrou de mim? — Nora ironiza. — Nem uma pintura. Apenas… livros e grimórios velhos. E eu pensei que você tinha se desfeito deles.

Adrian nega.

— Eu não teria coragem. — Ela sorri sem mostrar os dentes. — E de alguma forma Selena também te encontrou nos livros e nos cadernos velhos. Foi muito bom porque ela percebeu que você não era uma história contada. Você era uma pessoa real, que a amava. — Nora se vira para chorar sem interromper Adrian. — Os grimórios mais antigos eram impossíveis de ler. Eu nem sei que língua é aquela. — Nora ri enquanto chora. Ele a olha com pesar. — Por outro lado, tornou-se um problema. Parte disso é minha culpa. Eu devia ter sido mais atento. Eu devia ter cogitado, desconfiado e ao menos conferido o conteúdo dos grimórios. Deus, — Adrian levanta-se e anda pelo cômodo também. — eu fui tão tolo. Você era uma bruxa de quatro séculos de existência. É muito tempo andando pela Terra. Tempo o suficiente para aprender muito, senão tudo. E muito desse conhecimento estava nos grimórios.

Nora firma o maxilar enquanto as possibilidades a perturbam. Em quatrocentos anos ela, de fato, aprendeu muito. Não anotou tudo nos cadernos porque nunca haveria tinta e folhas o suficiente. Havia desde encantamentos tolos e cotidianos, como atrair a pessoa que ama, como curar desconforto estomacal, até invocação de espíritos e transmutação de licantropos.

— Há muitas anotações. E boa parte é complexa demais. E Dante… — Nora nega com a cabeça. — Ele nunca poderia entoar nada daquilo. Ele é um garoto. E a magia é para as mulheres. Foi dado a minha avó, a minha mãe, a mim e a minha filha. — Eles se encaram. — Selena é jovem demais. Ela não… Eu jamais deixaria… — As frases nascem e morrem muito rápido. — Selena é uma criança! Boa parte daquilo é severo e pesado demais. O máximo que ela poderia fazer é rogar boa sorte e… Eu estudei anos! — Nora dispara. — Anos antes de proferir qualquer coisa mais complexa! Qualquer coisa diferente disso poderia ter me arruinado! Me enlouquecido! Sem a proteção adequada, sem o preparo adequado… Você pode atrair qualquer tipo de coisa imunda que vaga pelos mundos e… — Nora senta-se quando as pernas perdem a força. — Por quê? — Ela nega. — O que ela estava tentando?

— Dante pensava que podia te encontrar desta forma. — Adrian revela. — E Selena… Ela estava ansiosa para conhecê-la. Não tinha percepção do que era tudo aquilo. É uma criança, Eleonora. Como você mesma diz. Para Selena era tudo uma brincadeira. — Adrian pausa. — É claro que houve consequências. Todo tipo de coisa imunda que vaga pelos mundos… — Ele a repete. — Foi atraída nas tentativas de falar com você. — Nora abre e fecha a boca várias vezes. Ela pode listar o quão perigoso, desaconselhado e infeliz são tentativas de falar com os mortos. Há pouco tempo repreendeu Sylvia, uma mulher adulta e experiente, por ouvi-los. — Hoje percebo que Dante também era uma criança. Com certeza ele tinha mais percepção do que a irmã, mas…

— Isso poderia ter a matado. — Nora é severa. — Selena é uma criança de sete anos! Sete anos! Ela não é capaz de entender o que estava fazendo! Como Dante sugeriu isso? O que Dante estava pensando? Ele expôs a irmã de sete anos! E por quê?! Pelo quê?! — A voz dela ecoa pelo escritório. — Ele não tinha o direito. Não há nenhuma tristeza, nenhum luto, nada justifica o que ele fez! E eu tenho certeza que foi de Dante a ideia porque a Selena… — A voz some por segundos. — Ela mal sabe ler!

Adrian abaixa a cabeça. Nora resmunga, repreende e xinga por muitos minutos. Ele permanece quieto, ouvindo e assentindo.

— Ele mentiu para mim! — Nora resmunga, enfim. — Ele me disse que havia encontrado os meus grimórios. Até mesmo me mostrou um. Não era um grimório particularmente complicado. Dante confessou que havia convencido a irmã a praticar a magia perturbando Madalena, mas eu não… — Nora segura a cabeça. — Eu não percebi! Eu devia ter percebido! O quanto Dante usou a irmã?! Primeiro para perseguir Madalena, não tenho dúvidas. E depois invocando todo tipo de desgraça!

— Eleonora, ele estava…

— Não! — Nora o interrompe e levanta um dedo. — Você pode ter encontrado espaço para perdoá-lo porque esbravejou muito, tenho certeza. Mas eu ainda não. — Ela anda pelo cômodo, negando. — Agora eu entendo. Entendo porque a relação de vocês mudou. Entendo porque ele fala de você daquela forma. Eu consigo até mesmo entender porque o esbofeteou naquela tarde!

— Eu errei.

— Não, você não errou! Dante errou!

— Eleonora, eu errei. E Dante também errou. — Adrian aproxima-se, segurando-a pelos ombros. — Me escute, por favor. — Nora o observa. — Dante era um garoto de doze, treze anos. Ele não tinha ao seu favor nem o conhecimento, muito menos a própria memória. E o pouco que tinha com certeza se lembrava de você conjurando coisas. Ele foi tolo. Foi estúpido. E quase custou a vida da irmã, eu concordo. — Nora tenta se afastar. Adrian não permite. — Me escute. Dante fez o que fez porque não conhecia os perigos e as complicações. Ele não sabia. E como poderia saber? — Nora sente as lágrimas surgirem. — Ele errou, sim. Selena é uma criança que mal sabe ler. Mas Dante também é uma criança. — Adrian seca o rosto dela. — O meu erro foi ainda pior. Eu errei porque não acompanhei eles. Eu devia estar lá. Eu devia estar com eles enquanto mexiam nas suas coisas. Eu devia ter analisado todos os cadernos e escolhido os que condiziam com as idades deles. — Ela se afasta. — Mas eu não estava porque tudo era muito você. Eu fiquei feliz porque eles te encontraram nas suas coisas, mas me tornei miserável porque não suportava. O meu erro é inadmissível. O de Dante não. Ele era só uma criança.

Nora precisa de mais uma dose de conhaque com leite e alguns minutos para se acalmar.

— Você errou porque não estava com eles. — Nora concorda. — Mas não errou ao repreendê-lo, Adrian. Não é porque está sofrendo que deve ser escusado de todas as coisas. Ele é jovem, sim. Mas se não for corrigido, se não for lapidado agora, quando será? — Adrian desvia os olhos, confuso. — Ele está cada dia mais forte, mais alto. E se eu não for bem sucedida em meus intentos, o sangue da família de vocês vai arder nele na próxima lua. E então, o que ele será? — O silêncio pesa entre eles. Nora levanta-se, enxuga o rosto e para próxima da janela. — Eu consigo perdoar a decisão estúpida de tentar invocar o meu espírito. Você tem razão. Eram duas crianças tolas e solitárias. Mas e as mentiras? — Nora o encara. — Eu o busquei tantas vezes, Adrian. Eu tentei entender o que aconteceu entre vocês, com a irmã dele e até mesmo com Madalena. Dante mentiu o tempo todo. — Adrian firma o maxilar. — Dante disse que você mudou. E agora eu não sei se você mudou mesmo ou se você apenas o repreendeu em seus erros. Ele disse que você mandou Selena para longe sem motivo. Sem motivo! — Nora frisa. — Eu queria me iludir e pensar que as tentativas de Selena, motivadas pelo irmão, foram infrutíferas. Mas não sou tão tola. Se o que arde em mim é parecido com o que arde nela, tenho certeza que tudo quanto obsessor veio até ela. Não para ajudá-la. Não para conectar minha alma à eles. É claro que não! Esse tipo de coisa não ajuda em nada. Esse tipo de coisa suga a magia e a alma de quem os atrai. E Selena é muito jovem. Muito jovem! Ela poderia ter morrido!

Adrian novamente escuta quieto. Desta vez, Nora o observa e percebe que o silêncio não é discordância. Ele mantém-se quieto para lhe dar o direito de esbravejar. E porque a entende em cada resmungo. Nora sente-se horrível conforme percebe o quão injusta foi. Acusou Adrian de ser um pai detestável e ausente, capaz de enviar a filha para longe. Mas que escolhas tinha se Dante foi capaz de usá-la para entoar magia?

— O que aconteceu depois?

Adrian suspira.

— Todo o tipo de coisa imunda veio até ela. — Ele senta-se outra vez. — Primeiro, os pesadelos começaram. Eu pensei que fosse coisa da idade. Dante também teve a sua vez até você protegê-lo com um caçador dos sonhos. Ele se prontificou a emprestar o caçador para a irmã, mas não funcionou. Até então eu não sabia o que eles tinham feito. Dante fez Selena prometer que não contaria para ninguém. — Nora franze o cenho, incrédula. — E Selena era apaixonada por Dante. — Adrian sorri. — Ela faria qualquer coisa por ele. — Nora aperta os olhos para conter as lágrimas de novo. — Depois, começaram os vultos. Inicialmente tudo isso perturbava apenas Selena. Conforme o tempo passou, essas coisas começaram a acontecer com todos nós. Houve vultos, vozes, aparições, coisas se mexendo, se quebrando. Selena começou a acordar toda arranhada e machucada, sangrando. — Nora morde os nós dos dedos porque não pode suportar. — Foi então que procurei por Sylvia outra vez. Ela nem me ouviu, embora tenha dito que sabia o que rondava a casa e lamentava por Selena.

— Aquela maldita! — Nora esbraveja. — Ela saberia o que fazer. Eu ensinei a ela tantas vezes!

— Devia ter me ensinando também. — O comentário é sutil e quase divertido. Nora, porém, sofre. — Por fim, Madalena também voltou a ter crises. Eu te falei, não? — Ele franze o cenho. — Quando conversamos no estábulo, eu comentei que Madalena tinha tido uma infância difícil. Você supôs que eram fantasmas ou demônios. Agora penso que eram os dois. — Adrian coça o rosto. — O problema é que eu não sabia onde procurar ajuda. Além de você, havia Sylvia. Também tentei com outras bruxas e curandeiras, mas nada funcionou. Acho que o que estava atrás de Selena se intensificou tanto que não aceitava partir.

— É. Provavelmente um demônio. — Nora suspira. — Não são todos, mas alguns têm esse péssimo hábito. Eles criam um tipo de ligação e dependência com o alvo. É claro que fazem isso para sugar toda a energia vital e magia. A intenção é perturbar porque isso os fortalece. E se alguém tenta ajudar, eles ameaçam e perseguem também. Por isso é tão difícil encontrar ajuda.

— Eu aprendi isso de alguma forma.

— Oh, Adrian. — Nora lamenta. — Eu fui tão tola, tão estúpida. — Adrian franze o cenho. — Eu sempre dei a minha existência por eterna. Nunca me preocupei em ensinar nada a você, nem ao Dante, porque tinha certeza que estaria aqui quando vocês precisassem. E olha o que causei!

— Você não esperava morrer. E nem eu achei que isso poderia acontecer.

— Eu morri porque me esqueci que podia morrer a qualquer momento. Fiquei confortável demais. Devia ter me lembrado que apesar da “bênção” — Nora faz aspas com os dedos. — dos deuses, eu tinha que lutar por minha vida todos os dias até o fim. Foi isso que me trouxe tão longe.

— Você não podia imaginar.

— É, acho que não. — Ela se ajeita na poltrona. — Como resolveram isso?

— Você não vai gostar disso. Eu também não gostei, Eleonora. Eu fui contra até o último momento. Mas percebi que ou era isso ou Selena morreria. — A pausa é dramática e Nora faz a sua aposta. — Madalena chamou um padre.

— Selena não foi possuída. Seres sobrenaturais, como nós, não podem ser possuídos. Mas isso não impede os demônios de tentarem arrancar algo. — Adrian a olha com interesse. — Os que podem ser possuídos, seres humanos, geralmente recorrem aos padres porque é muito difícil achar bruxas dispostas a ajudar. Padres são boas alternativas nesses casos. O problema começa quando eles pensam que toda magia é fruto dos demônios.

— Bom saber que não cometi outro erro, então.

Nora sorri.

— Não, não foi um erro.

— Foram dias difíceis. E eu permaneci incrédulo por muito tempo. — Adrian desvia o olhar. — Acho que foi nessa época que percebi que Madalena não era como a família. Ela tem, é claro, os seus defeitos. Mas não teve nem uma madrugada que ela não passou rezando no quarto de Selena. Nem uma, Eleonora. Tinha noites que eu mesmo não suportava e dormia. Acordava de madrugada, assustado e temeroso. Dante não permitia que Madalena entrasse em seu quarto, mas ela o fazia, rezava e deixava o terço. E eu geralmente a encontrava pernoitando por Selena. Uma noite a questionei, e ela me disse que não permitiria que Selena passasse o mesmo que ela. — Adrian para de falar por um longo período. — As coisas só melhoraram após muitas visitas do padre e as rezas noturnas de Madalena. Depois disso não suportei mais os excessos de Dante com ela.

Nora desvia os olhos, envergonhada.

— É ainda mais duro para mim admitir, mas Madalena fez o que era necessário. Vocês só tinham essa alternativa. — Nora se constrange ainda mais quando lembra-se da gravidez. — Devo isso a ela.

— Eu também. — Adrian levanta-se e aproxima-se da mesa. Ele mexe nas gavetas por muito tempo. — Depois disso passei a respeitá-la ainda mais. Até mesmo aceitei acompanhá-la em algumas missas. Foi Madalena, sim, quem sugeriu que enviasse Selena à irmã. E eu aceitei porque tinha medo do que aconteceria se ela ficasse. Tinha medo daquilo voltar e a perseguir de novo. E mais medo ainda de Dante continuar usando a magia dela. — Adrian aproxima-se com muitos papéis. — E eu não quis mais saber sobre magia e qualquer outro assunto desse dentro de casa. Não porque eu recuso o que somos, Eleonora. Mas porque… Isso quase matou a minha filha. Você não estava aqui para ensiná-la, nem protegê-la. E eu, como você sabe, não tenho competência. Achei melhor evitar o contato deles com isso. — Nora o encara sem capacidade de argumentar. — Nessa época Selena desenhava bastante. — Adrian entrega os papéis. — Alguns desenhos são da época em que ela estava sendo perseguida por isso. Não se assuste se forem perturbadores. Eu pensei em jogar fora. Ao mesmo tempo pensei que devia mantê-los como um lembrete. A maioria dos desenhos, porém, são só os desenhos da sua filha. — Nora olha os papéis e percebe as lágrimas escorrerem pelo rosto. Adrian aperta o ombro dela com delicadeza. — Você vai ficar feliz em conhecê-la. São muito parecidas.