1545

Os olhos embaçados pouco veem. O barulho que as pontas dos dedos batendo no chão causa é cada vez mais irregular e espaçado conforme a consciência se esvai. O corpo não está mais esticado desde que o trinco do teto rompeu com a movimentação intensa. As correntes enfeitiçadas por Sylvia estão mantendo as mãos cada vez mais finas e rançosas unidas na frente do corpo. Os pés não estão mais presos no gancho também. Nora não julga a decisão de Lucien como descuido. Simplesmente não há mais necessidade de mantê-la tão acorrentada. O corpo jovem e franzido de Madalena nutrido por um severo sacrifício se desfez após as investidas longas, cansativas e repetitivas do homem que atua em nome de Deus.

A percepção da morte cresce a cada momento. O corpo já fragilizado enfrenta febre considerável desde que o mamilo esquerdo foi mutilado. A cordialidade de Lucien foi breve e contentou-se em improvisar um curativo com trapos velhos. A infecção é uma realidade crescente. A alma, gerada por um ventre mágico, não é mais tão forte ao ponto de lentamente curar as feridas do corpo humano, e Nora teme que o sangue mágico tenha secado nas veias, restando apenas o sangue natural que também é escasso devido ao excesso de ferimentos e sangramentos.

O tempo desfez-se completamente. Nora não sabe há quantos dias, semanas ou meses está à mercê de Lucien. É outro tipo de morte ainda mais cruel que a primeira, tecida por uma criatura duvidosa. A morte anterior foi tão traumática que Nora não guardou nenhuma lembrança. O pós-vida foi vazio e insignificante. Não houve castigo, muito menos recompensa. E embora a sua alma esteja fadada a reencarnar eternamente, outro nascimento não lhe foi preparado.

Nora, todavia, não quer gastar os últimos instantes de lucidez supondo. O movimento dos dedos é mantido. As memórias, os sonhos e as sessões se misturaram entre os picos febris e as noites gélidas. Portanto, os dedos sem unha são o último resquício de realidade que ela se agarra. Ao mesmo tempo, ela se permite afastar-se emocionalmente da deprimente situação ao agarrar-se às lembranças que ainda pode evocar.

Por muito tempo, Nora tenta se lembrar de todos os detalhes da primeira família que teve. Os pais, o irmão gêmeo e a avó eram os principais personagens desta época. Os rostos, as vozes e os trejeitos deles se desfizeram no último século. Sabe, porém, que herdou os olhos azuis-escuros do pai, assim como o cabelo escuro e a altura. Também se lembra que os olhos de Nikita eram esverdeados como os da mãe. Não sabe qual era o formato dos olhos, nem do rosto. Desconfia, ou projeta, que Nikita tinha o cabelo num tom castanho-claro quase mel. O rosto talvez fosse longo com as maçãs do rosto projetadas. Talvez Nikita parecesse mais com a mãe deles e por isso se tornou tão facilmente uma de suas pessoas favoritas. Ou talvez Nikita fosse idêntico ao pai, o que daria a Bryda outro motivo — irrelevante, é claro — para desprezá-lo. Talvez…

Nora fecha os olhos, apertando as lágrimas que surgem. Toda a família, todos que de alguma forma a teceram naqueles tons exclusivos, agora estão mortos há mais tempo que estiveram vivos. Nora enterrou um, depois outro, por fim todos. E permaneceu por tanto tempo que a sua existência se desprendeu do tempo. E talvez finalmente seja a hora de partir também. Quase quatro séculos é muito; é ousado demais até para os vampiros.

A ideia de partir é facilmente aceita quando pensa na primeira família. E torna-se absurda quando lembra-se dos filhos, que de alguma forma esperam por ela. Quando lembra-se de Adrian e até mesmo de Revna. As aparências deles estão gravadas em sua mente como ferro na pele; ela se lembra de cada detalhe e de todas as nuances. E também inventa e deseja muitos detalhes a Selena, com quem conviveu por pouco tempo.

A esperança é frágil e também falsa, mas a mantém um pouco mais. Nora não aceita morrer sem rever a filha. Ao menos precisa de uma hora para gravar todos os detalhes, para senti-la e ouvi-la. Nenhum tempo do mundo será suficiente e ainda é melhor que nada. Após tanto tempo, Nora presume que Selena esteja em casa. E os deuses poderiam, uma vez em toda a existência, lhe estenderem um pouco de misericórdia.

A porta é destrancada. Nora é incapaz de mover-se; a dor que irradia do peito esquerdo é incapacitante. Fecha os olhos porque não suporta que Lucien seja a sua última visão na Terra. Os passos, contudo, não são pesados como os de Lucien. A aproximação é lenta e muito barulhenta. A voz feminina choraminga ao contemplar o estado que o corpo de Madalena foi levado. Nora demora a reconhecer a serva.

— Maria, mãe de Deus… — A mulher murmura outra vez. Nora franze o cenho. A boca da serva continua se movendo, mas as palavras são irreconhecíveis. — Vamos. Preciso que me ajude.

Nora percebe a força aplicada no corpo de Madalena. A serva a movimenta até sentá-la. O esforço para manter a postura é considerável. Nora observa a tigela de mingau e a água. Não tem certeza se foi alimentada desde que chegou. O mingau não desperta nada, nem mesmo enjoo. A serva não se interessa em saber do apetite dela e enfia colheres de mingau em sua boca, sempre suplicando para que engula devagar para não se engasgar. Nora é incapaz de resistir. O mingau é insosso como a comida de Sylvia, e Nora a amaldiçoa pelo que pensa ser a última vez.

Em vez de saciar a fome, o mingau cai pesado em seu estômago e causa dor. Nora imagina que seja a reação normal do corpo após tantos dias de inanição. Apesar dos resmungos dela, a serva a alimenta com todo o mingau disponível. Ela clama por Maria toda vez que vê toda a violência que Lucien causou. O mamilo não precisa estar exposto para causar repulsa. A serva foi obrigada a limpar toda a sujeira e com certeza jogou os restos do corpo de Madalena fora.

— Onde ele está?

Nora não reconhece a voz que escapa da boca de Madalena. É arrastada, rouca e frágil. A serva molha o tecido de algodão no balde de água e esforça-se para limpar minimamente o corpo de Madalena. Nora quase não suporta a fricção do tecido contra a pele ao mesmo tempo que sente-se menos insuportável.

— Saiu para ir a cidade. — A serve mordisca o lábio e faz várias caretas. Nora percebe que ela está em dúvida se lhe dá mais detalhes ou não. — Imagino que tenha ido encontrar a sua irmã.

Nora solta o ar pelo nariz e nega.

— Ela não é a minha irmã.

A mulher franze as sobrancelhas.

— Então, é verdade? É mesmo o que o monsenhor lhe acusa?

Nora inclina levemente a cabeça. É a primeira vez em muitos dias que pode movimentar o corpo. E o preço por isso é alto, considerando todas as lesões feitas pelo estiramento excessivo.

— A senhora tinha alguma dúvida? — A resposta da senhora é dispensável. Por isso, Nora prossegue: — Não sou Madalena, de fato. E também não sou o que o seu senhor diz. Não sou um demônio.

— Ele não é o meu senhor.

— Não?

A mulher abaixa os olhos.

— Pouco importa o que você realmente é. — Ela resmunga, enfim. Nora franze o cenho diante da mudança de temperamento. — Você está prestes a morrer. — Nora solta o ar pelo nariz. — Ao menos que tenha um pouco de dignidade.

— A senhora acha que eu devo morrer?

— Não sou eu que decido sobre a sua vida. É o Nosso Senhor. — A mulher levanta-se, juntando os panos utilizados para limpar brevemente o corpo. Nora observa a tigela utilizada para transportar o mingau. Depois, distrai-se com a barra do vestido da serva. O tecido está sujo de lama e foi ajustado para não ultrapassar o calcanhar. Em sequência, Nora verifica se o círculo mágico está completo. — Mas eu… — A mulher balança a cabeça e silencia-se. Nora não gasta o pouco de forças que lhe resta para pressioná-la. A mulher encontra o caminho sozinha: — Nunca vi nada durar tanto quanto você.

A serva prepara-se para se afastar.

— A senhora tem razão. — Nora murmura antes que ela saia do círculo. — A minha morte é iminente. E a senhora me deu um pouco de dignidade para realizar a passagem. Seria capaz de me deixar um pouco de água?

A serva franze o cenho, mordisca os lábios e balança as mãos. São muitas dúvidas para um pedido tão simples. Nora não pode criticá-la. Os avisos de Lucien foram severos e lhe servir mingau e limpar as suas feridas já foi muita bondade.

— Não quero sentir sede antes de ir. — Nora insiste. — Devo partir antes que Lucien retorne. E a senhora pode desfazer-se do copo.

A mulher demora muito até sair do círculo, ainda sem rompê-lo, e alcançar o copo de latão que Lucien utiliza. Ela serve o resto de vinho que sobrou na jarra sob a mesa do padre. Nora arqueia as sobrancelhas, surpresa. A serva posiciona o copo dentro do círculo mágico com um cuidado impressionante.

— Esse é o sangue do Nosso Senhor, capaz de redimir todos os pecados. Arrependa-se e seja salva.

Ela surpreende-se com a tentativa da senhora em congregá-la em Jesus Cristo. Por um instante, ela se questiona se seria capaz de negar tudo o que acreditou durante a sua existência, ainda que falsamente, para salvar-se. A serva deixa o cômodo e aparenta não trancar a porta, confiante que Nora morrerá antes do retorno de Lucien.

Nora encara o copo de vinho posicionado dentro do círculo e arrasta o corpo até que seja possível alcançar o copo. O vinho é rançoso e não cheira bem. Nora não se surpreenderia se estivesse misturado com vinagre. É irônico perceber o quanto Lucien aprendeu com os torturadores do salvador.

As mãos são mantidas próximas com o uso das correntes feitas por Sylvia. Porém, os ganchos que antes mantinham o corpo estirado e imóvel não suportaram os excessos de Lucien. Desta forma, o corpo de Madalena tem sido mantido no chão de madeira há duas luas. Os pés também são mantidos unidos, dificultando a marcha, com correntes comuns. O círculo mágico foi feito com sangue, e Nora não é capaz de rompê-lo com magia porque as correntes a impedem. Ela também não é capaz de rompê-lo fisicamente sendo o alvo do círculo mágico. O círculo é enfraquecido a cada entrada e saída feita por Lucien ou pela serva, e Nora sabe que ambos foram cuidadosos nas movimentações, não rompendo o círculo.

Ainda assim, Nora diverte-se e enche-se de prepotência quando percebe que os esforços para resistir não foram em vão. Lucien, afinal, tinha razão. Nenhum tipo de misericórdia devia ter sido oferecida se pretendiam matá-la. Ela não é como um demônio, mas portar-se com clemência nunca foi parte de sua existência. Por isso, aproveita-se do vinho que a serva consagrou a Jesus e, sem perceber, transformou em algo mágico.

O vinho remido em Jesus é derramado na linha feita de sangue que delimita os movimentos de Nora. Sem usar a própria magia, aproveitando-se do momento bondoso da serva, Nora esfrega o vinho consagrado no sangue ressecado até que desfaça o círculo. Incapaz de andar, ela arrasta-se pela primeira vez desde que chegou para fora do círculo. As mãos imobilizadas a impedem de usar magia, e os pés presos em correntes impedem a marcha eficaz. Todavia, Nora lembra-se dos filhos; lembra-se de Adrian, Revna e até mesmo Sylvia. Não padecerá de forma tão insuportável outra vez; silenciosamente teceu muitas promessas. Então, ela continua arrastando-se até alcançar a porta que a serva não trancou, confiando na morte iminente, e deixa o cômodo.

1188

— Que alegria é recebê-la novamente, srta. Wolf. — O nosferatu murmura ao servir o vinho na taça pincelada com ouro. Nora observa as unhas excessivamente grandes, que mais se assemelham a garras, e pondera sobre o poder que a ferramenta tem. — Admito que me surpreendeu.

Desta vez, Nora não está tão amedrontada quanto estava no primeiro encontro com o ser imundo. A presença do vampiro ainda é tão desconcertante quanto antes; os pés dele parecem pesar toneladas e causam muitos ruídos durante a marcha. Como no primeiro encontro, o nosferatu utiliza uma capa pesada de couro e pêlo de animais, discrepante do clima primaveril externo.

Um pouco menos secreto, certo de ter vencido a disputa, o vampiro se exibe mais. A pele é clara e levemente azulada, como a pele dos que partem. O cabelo é espesso e louro, caindo em leves ondas. O bigode também é denso e decora a feição da coisa. Os olhos, contudo, exibem a morte óbvia; são transparentes e oblíquos. Ainda assim, Nora estuda o corpo longo e forte, imaginando o que ele era antes da existência que transita entre a morte e a vida.

— Meu senhor, — Nora se porta considerando a nobreza da besta. E beberica o vinho também pensando nisso. Depois, os dedos tornam-se agitados, batucando as unhas na mesa. — por que eu o surpreendo?

O conde encara a movimentação dos dedos. Nora não pretende fingir confiança diante da situação. Embora o nervosismo surja por outros motivos, ela percebe que é uma fragilidade boa a se exibir, oferecendo ao nosferatu vantagem e domínio sobre a situação.

— Pensei que recusaria a minha oferta.

Nora ocupa a boca com o vinho enquanto verifica as respostas disponíveis. A roupa escolhida não é confortável e provavelmente será problemática quando precisar partir. Ela evita os pensamentos, repetindo mentalmente as palavras desconhecidas que compõem a magia.

— Eu desejei. — A resposta o surpreende. Nora deixa a taça na mesa e abaixa o olhar, encarando as veias que aparecem nos pulsos. Nunca pensou muito sobre o sangue que corre em seu corpo, apesar de Bryda ter gasto boa parte da vida enfatizando a honra que Nora carregava. — Mas como poderia?

Ele emite um som que está entre uma risada irônica e um resmungo.

— A senhorita vem a mim essa noite como uma ovelha condenada que aceita o destino. Vem a mim como alguém que se sacrifica. É tão deprimente quanto frustrante.

Nora mordisca o lábio. Boa parte do sucesso reside na capacidade de não ceder às provocações. Portanto, ela volta a batucar as unhas contra a mesa. Como na noite anterior, o jantar está servido. O conde não solicita que Nora se alimente, porém.

— E como eu deveria vir, milorde?

Os pés pesados se arrastam pelo cômodo. Nora encara a coisa.

— Como alguém que está grato. — Nora franze o cenho. — Não há nenhum tipo de sacrifício no que hoje se dispõe a fazer. De forma nenhuma eu tomo de você o seu direito de recusa. Lhe ofereço, porque bondoso sou, algo em troca. — Ele gesticula. — E a senhorita está disposta a aceitar. Algo como você — Nora quase se retrai quando a ponta da unha toca a sua bochecha esquerda. Ela segura a respiração. — não se contentaria com a vida que tem. Mas que outra escolha teria? É uma selvagem com pouca instrução. O que sabe do mundo, srta. Wolf? Não me surpreendo se essa for a primeira vez que escapa da prisão que Bryda fez para você.

Nora sente o peito queimar e afasta a mão dele com um movimento brusco, levantando-se em seguida. Ela anda pelo cômodo, fechando e abrindo as mãos como se pudesse canalizar a irritação que arde em todo o seu corpo. O riso dele é discreto e nasal. Nora recusa-se a olhá-lo porque sabe que encontrará algum tipo de vitória nos olhos opacos.

— Uma selvagem. — Ela resmunga, severa. — É o que sou. E quão bondoso o senhor é por me permitir aprender! — O deboche é latente, assim como a raiva. — Diga-me, meu bondoso senhor, que me oferece tanto por uma taça de sangue… — A raiva cresce. — Um sangue que deve ser tão insignificante quanto a minha origem. Ainda assim, aqui está o senhor, uma coisa que antecede o tempo e até mesmo essas pessoas, disposto a ceder por mim… — As presas afiadas da coisa aparecem e apenas aumentam a raiva dela. — Diga-me! Porque claramente eu desconheço sobre mim mesma! Eu desconheço a minha origem e ainda mais: desconheço a minha própria família! Que prisão Bryda teceu para mim?!

— Não finja não perceber. — O conde diverte-se com a situação, andando pelo cômodo e movimentando as mãos. — Ora. — Ele murmura. — Ora! — A voz pesada é elevada em êxtase. O sorriso é nojento e marcado pelos dentes em forma de serras. — Senhorita Wolf, — Ele enfatiza o sobrenome. — que sobrenome mais curioso, considerando a região que nasceu e cresceu. Sei que não pertence a Kalina. Me surpreende que Bryda tenha permitido que você o carregasse, considerando a origem.

— E qual o problema de manter o meu pai comigo?

— Não há problema em honrar as suas origens. Apenas suponho que deva ser angustiante pouco saber sobre a família do seu pai. Wolf é um sobrenome típico da Germânia. Há, é claro, uma excelente ironia quase ridícula de quem o nomeou assim, considerando que o seu genitor não herdou a licantropia. Ao menos, herdou o vulgo. — Nora recua até as costas baterem na estante. — Bryda, é claro, tentou impedir a união de duas espécies de todas as formas possíveis. Ela não foi capaz de acorrentar a filha em casa, que fugiu para unir-se a um quase licantropo. — Ela nega com a cabeça, incrédula. — Quando soube que eram gêmeos, não tive dúvidas que você seria como as suas ascendentes. Me decepciono, porém, ao saber que o seu irmão também não herdou o dom da licantropia.

— E muito me surpreende o quão criativo o senhor é.

A aproximação do vampiro é ágil e silenciosa. Nora treme quando ele agarra o pulso dela. A tentativa de fuga é inútil porque ele é mais forte. Ela pode se proteger murmurando poucas palavras, mas esqueceu-se de todas.

— Por que eu lhe contaria mentiras? — Ele a confronta. — Que alegria poderia me trazer? — Ela é incapaz de responder. — De forma alguma me importo com os dissabores que Bryda teve em sua existência desprezível. Para mim a vida dela mostra-se, nesse momento, extensa demais. Insisto nesse assunto, minha querida, não para perturbá-la com inseguranças. Insisto nesse assunto para enchê-la de certeza sobre a escolha que está prestes a fazer. Não posso tomar de você. De livre e espontânea vontade deve me oferecer. E não deve me oferecer porque é uma jovem com fortes tendências a se sacrificar. Eu desejo que me ofereça, senhorita, porque algo em troca obterá. Sei que se ofende ao perceber o quão inapta ainda é porque considera-se muito estudada. Em momento nenhum desconfio de suas habilidades enquanto bruxa. Em momento nenhum questiono o sangue que corre em suas veias. Porém, deve ser lúcida e admitir que pouco da vida conhece. Quantos anos tem? Não são mais de três décadas, eu sei. E foram quase três décadas gastas entre o seu povo.

— Eu não fui infeliz.

— Também não questiono se era feliz, mas deve concordar comigo, Eleonora, — Ela se retrai ao ouvir o próprio nome. — que não lhe ofereceram outras opções. Eu sou o primeiro a fazê-lo. Por um segundo, minha querida, pense no quão pouco sabe considerando de onde vem. Com o sangue que possui, tão forte, tão nobre, é vergonhoso que seja uma serva qualquer.

— Eu não sou serva de ninguém!

— Mas não conhece mais do que uma serva! — Ele rebate. — Se não fosse a ocasionalidade de Eris abandonar o próprio povo e Floare implorar por ajuda, a senhorita morreria no mesmo lugar que nasceu! E quanto potencial! — Ele aumenta o tom de voz e sorri, exibindo as presas. Desta vez, o toque no rosto não é breve e sutil. O vampiro agarra o rosto dela com força, e as pontas das unhas quase rasgam a pele. — Quanto potencial desperdiçado. E vai quebrar o meu coração se me disser que não há desejo por mais! Vai quebrar o meu orgulho se me provar que a minha cordialidade, que a minha oferta, é insignificante e não lhe atrai! Toda a vida que pode ter. Todo o conhecimento que pode construir. Todas as experiências! — Ele solta o rosto dela. — E pouco digo sobre bruxaria! É claro que aprenderá muito mais enquanto bruxa! Mas e a arte? E o belo? — Ele aproxima-se de novo. — E o desejo? E o apetite?! Bryda arrancou de você tudo isso! Ela te podou como um padre poda e domina todos os tolos e incapazes!

— E o que você é?! — Nora esbraveja também, sentindo o coração bater tão forte que quase escapa do peito. — Um mestre? Um ser que apesar de escolhas escusas e nojentas, tem objetivos nobres?! Ora, meu senhor, não me diga que também é um artista?

Ele ri, rouco.

— Eu sou um apetite. Nada mais.

Nora sente todo o corpo queimar. Ela se afasta para respirar na tentativa de organizar a mente. O conde, porém, a cerca. A presença dele é intensa e quase confusa. Ela aproxima-se, chocando os corpos. E afasta-se imediatamente, prestes a fugir do castelo. Talvez Nikita tenha razão. Talvez devessem partir o quanto antes.

Mas para quê?

Para voltar para casa? Para a tutoria intensa e desconfortável de Bryda? Para a rotina monótona? Ao menos, por um tempo se distrairá com os preparativos para o casamento de Nikita. Todavia, quando o irmão unir-se à esposa o que restará? Para Nora existem poucas opções, considerando que Bryda rejeitou a maioria e a proibiu de relacionar-se com outras pessoas.

Bryda a podou. Bryda preparou para ela uma prisão. Um cabresto!

A queimação no corpo a domina completamente. Nora esquece-se de todo o encantamento decorado em palavras que nem sabe o significado. Ela também desiste de preocupar-se com isso e decide que não mencionará ninguém além de Nikita.

Nora choca-se com o ser com facilidade. Enquanto eles se fundem de uma forma impensável e quase imperdoável, ela implora, entre os gemidos que escapam, para que o nosferatu crave as presas em seu pescoço e beba.

Notas finais
Devo dizer que inicialmente não planejei a cena final, mas não me arrependo de ter a adicionado porque trará uma nuance muito interessante para a personagem, embora eu tenho certeza que eu seria facilmente cancelada no tribunal de pequenissimas causas do twitter. Mas, gente, é UM ROLE GOTICO ISSO AQUI!! Esquisitices fazem parte!!! E eu amo!!!!!!!! As vezes a Nora fala com tanto asco da religão cristã que eu me preocupo kkk, mas não sinto que ela odeia a figura de Jesus. Ela odeia todos os excessos que foram cometidos em nome dele. Sobre esse vampiro: Drácula é o texto base óbvio aqui. Estamos falando de um vampiro, que era um nobre, na transilvania que quer tocar o terror em todo mundo kk. E Nosferatu 2024 agrega muito visualmente falando. Ainda assim, sinto que essa coisa que está sendo construída aqui não é nem um nem o outro. Estou tentando pensar em um nome adequado, porque Orlok não é uma possibilidade (direitos autorais e principalmente NÃO É O ORLOK. E Drácula não tenho certeza. Talvez permaneça sem nome por enquanto porque também acho que desenha muito bem a situação; apesar do envolvimento sexual que aconteceu, há tanto desprezo por parte dela que o nome dessa coisa não é nem sequer lembrada. Enfim... Me deixem saber o que estão achando, se é que tem alguém além d Lari lendo... (Te adoro, obrigada por tudo. Surte cmg no zip zop