Templo das Bacantes Vol. 3
49 Verão de 1978
Verão de 1978 — Saturnia, Itália.
Pela ampla janela de madeira, o calor do dia ensolarado invadia o cômodo de pedras que datavam da era renascentista, trazendo consigo o barulho convidativo da cascata de águas doces do lado de fora do chalé; uma comunhão perfeita que agitava e já enchia de expectativas a pequena menina de cinco anos, que em polvorosa dava saltinhos sobre o colchão de molas encapado por lençóis brancos cheirando à lavanda, enquanto as mãos hábeis da mãe tentavam lhe prender os fartos cabelos negros em uma maria-chiquinha.
— Fica parada, Geisty! — pediu enérgica a mulher de cabelos escuros e rosto gentil.
— Eu quero ir pra água, eu quero ir pra água! — disse a menina buscando com os olhos brilhantes o rosto do pai. — Papai vai nadar comigo, não vai papai?
Silêncio.
— Papai? Papai?
— Giuseppe... Giuseppe, está ouvindo? — chamou-lhe a atenção a esposa.
Do lado da enorme janela, sentado sobre a urna da armadura de Serpente, o homem alto e de porte físico atlético, vestido apenas com um calção de banho vermelho, saiu de seu devaneio e olhou espantado para as duas. Na mesma hora ele procurou afastar a expressão de preocupação que lhe tomava o rosto de traços masculinos marcados pelo sol e ensaiou um sorriso receptivo:
— Oi?
— Sua filha está falando com você — disse a mulher de olhos azuis e cabelos negros, a qual mais parecia uma cópia adulta da pequena menina que pulava animada sobre cama.
— Diga, princesa? — perguntou solícito o homem.
— Você me prometeu que hoje ia me ensinar a nadar — disse sorridente a garotinha.
— Sim, o papai vai ensinar sim — respondeu ele com um sorriso que não convenceu em nada a esposa.
Assim que terminou com os cabelos da pequena, ela caminhou até ele e lhe disse em voz baixa:
— Giuseppe, nós viemos em férias para passarmos um tempo em família... Você me prometeu... Longe de problemas, lembra?
— Sim, Ângela, eu sei o que te prometi... — respondeu aos sussurros.
— Então por que trouxe esse trambolho até aqui? — disse ela desviando o olhar nada amistoso para a urna de prata da armadura.
— Porque ela ainda é minha... é minha responsabilidade.
— Deixasse na nossa casa.
— Está louca? — ele disse espantado, balançando as mãos no ar bem ao modo italiano.
— Não estou louca, estou cansada! — Ângela suspirou. — Só queria um pouco de... paz.
Giuseppe respirou fundo passando as mãos nos cabelos fartos.
— Eu sou um cavaleiro de Atena, preciso sempre estar prevenido... aonde eu for ela irá comigo — disse pousando a mão sobre o símbolo talhado na lateral da urna — Além do mais, estaria colocando toda a sua família em risco caso a tivesse deixado em casa, já que poderiam ir atrás dela.
— Você é quem deve estar louco! — retrucou Ângela — Quem em sã consciência ia querer roubar isso? Ser cavaleiro para arriscar a vida em vão?
— Em vão? — Giuseppe pareceu ofendido. — Lutar por Atena e sua causa nunca será uma luta em vão, Ângela! É meu dever de cavaleiro ajudar a nossa deusa a manter a paz na Terra!
— Deuses pagãos não existem, Giuseppe!
— Ah, não me venha com essa sua ignorância cristã, Ângela!
— Não é ignorância, Giuseppe! — insistiu ela. — Só existe um verdadeiro Deus, e ele deu a vida de seu filho por nós... ao contrário desses supostos deuses pagãos que você serve cegamente e arrisca a vida, nesse meio de violência desproporcional, tudo em nome de uma paz que eles nem mesmo são capazes de manter, nem na Terra e nem entre si.
— Deuses não. Eu sirvo apenas à Atena! — retrucou enfático com o dedo em riste no ar.
Ângela fez um muxoxo e deu de ombros.
— Hum... Atena... Pelo visto esse agora é o nome poético para máfia soviética, não é? — ironizou Ângela com um misto de desgosto.
— Não — disse o italiano se levantando contrariado e encarando firme o rosto belíssimo da esposa — não, claro que não!... Parece até que você não sabe que foi justamente por isso que eu tomei a decisão de deixar o Santuário... e pedir a minha exoneração do Exército de Atena.
— Sim, e me parece que esse foi o único motivo, Giuseppe.
— O que quer dizer, mulher?
— Quero dizer que em momento algum foi por nós, pela sua família... — ela ergueu o tom de voz assim como seu queixo.
— Ângela, não diga isso...
— Você sabe que é verdade.
— Você está sendo injusta... Quando nos conhecemos, eu encontrei a minha verdadeira razão de viver... Você e a nossa filha são a minha felicidade e as únicas que ocuparam todo o espaço vazio que eu tinha em meu coração — disse ele acariciando os braços nus da esposa. — Mas, antes de ser um homem, um pai de família e um marido, eu sou um cavaleiro de Atena e devo obediência à ela enquanto servi-la.
— Então a deixe logo, Giuseppe! De uma vez por todas! — disse em aparente desespero a italiana.
— Ângela!
— Essa sua deusa não parece estar disposta a reclamar os servos dela, Giuseppe... Faça isso por você e por nós... antes que seja tarde demais.
— Sim, eu farei. — Ele respirou fundo. — Eu fiz uma promessa a você e à nossa pequena Geisty. Vocês têm a minha palavra... só peço que tenha um pouco mais de paciência, Ângela. As coisas não são tão simples como parecem.
Sobre a cama, em silêncio a menina agora estava imóvel. Atenta à discussão dos pais, ela mal piscava, e ainda que não pudesse entender o teor do que era dito, sentia nitidamente a apreensão que emanava de ambos, em especial de Giuseppe, com quem sempre tivera uma ligação mais sensorial. Esta, todavia, o italiano mantinha em segredo da esposa, pois sabia que a filha tinha potencial para se tornar uma poderosa amazona, mas Ângela nutria verdadeira ojeriza de tudo o que representava o mundo místico que envolvia o Santuário de Atena, fazendo questão de deixar claro que jamais permitiria o envolvimento da filha em nada que dissesse respeito àquele lugar. Ela queria protegê-la a todo o custo, da violência, do sofrimento e da amargura que acompanhavam o serviço à deusa pagã da sabedoria e da guerra estratégica.
Quando percebeu uma brecha na discussão, a menina espontaneamente perguntou:
— Mamãe, papai, a gente ainda vai nadar?
Giuseppe limpou a garganta, trocou um rápido olhar com a esposa em um pedido mudo de trégua, depois se mostrando animado respondeu com um sorriso:
— Claro que vamos, princesa! Vá na frente com a mamãe que o papai logo vai... Hoje nós vamos aprender a nadar como os golfinhos!
— Golfinhos! — Ela bateu palmas voltando a saltar animada sobre colchão. — Eu quero nadar como os golfinhos!
Ângela esforçou-se para mandar toda e qualquer preocupação embora enquanto caminhava até a cômoda para pegar a máquina fotográfica; a pendurou no pescoço e em seguida foi buscar Geisty já lhe estendendo a mão.
— Vamos, filha, vamos indo... — disse ela.
Elas seguiram para a porta de saída de mãos dadas. A menininha ia toda serelepe na frente puxando Ângela, que antes de deixar o quarto virou-se para trás e encarou os olhos violetas do marido uma última vez.
***
Os minutos passaram breves naquele dia para a menina. A diversão nas quentes águas das fontes sulfurosas de Saturnia, um pequeno paraíso incrustado no interior da Toscana, era extasiante, porém não o suficiente para distrai-la por muito tempo da ausência do pai.
Aproveitando-se de um momento de distração da mãe, que concentrada tirava fotos do local, Geisty deixou a água e correu descalça, em meio às pedras que rodeavam as fontes, de volta ao chalé onde estavam hospedados. Não encontrando Giuseppe ali, a menina dedicou sua atenção ao Cosmo dele e logo que o sentiu correu para a direção de onde ele vinha. Quando finalmente ela avistou o pai, nos fundos da construção que compunha aquele resort, um espanto tremendo a tomou de assalto.
Giuseppe não estava sozinho. Assim como ele, trajando armaduras reluzentes em diversos formatos e cores, um agrupamento de homens discutia em uma língua que ela não era capaz de compreender, embora já tivesse ouvido o pai falar naquele idioma inúmeras vezes. Não fosse por ordem da mãe, ele já a teria ensinado, mas tudo o que sabia era apenas que se tratava da língua falada na Grécia, o grego.
Escondida atrás de uma parede, Geisty passou a acompanhar a reunião. Ela havia contado uns dez homens, que lhe pareceram bem exaltados. Seu coraçãozinho deu pulos assustados no peito quando um deles gritando bateu com a ponta do dedo no peitoral da armadura de seu pai. Parecia ameaça-lo, e estava muito zangado, ao ponto de outro homem precisar intervir e segura-lo pelos braços.
Mesmo não entendendo o idioma, Geisty conseguia ler Giuseppe perfeitamente. Ele estava extremamente irritado, revoltado até, como se não quisesse a presença daqueles cavaleiros ali, afinal havia tirado férias com a família para ficar longe deles, e parecia mandá-los embora.
Nessa hora ela recordou-se da discussão de mais cedo no quarto.
“Será que são deles que a mamãe não gosta?... Eu também não gostei dos amigos do trabalho do papai.” Pensou ela, quando de repente algo inusitado aconteceu.
Contrariando toda ordem natural, de forma brusca e inesperada o ar quente e o mormaço que abrangiam aquele local foram engolidos por um frio tão intenso que fez a menina encolher os ombros e bater os dentes involuntariamente. Assustada, ela olhou para o chão e viu quando as pedras sob seus pezinhos começaram a ser cobertas por uma fina camada de gelo. Ela encolheu os dedinhos em reflexo, e bem nessa hora sentiu um vento gelado soprar atrás de si, arrepiando sua nuca e lhe chacoalhando os cabelos.
Quando ela olhou para o lado, com os olhos vidrados como se visse um fantasma, uma figura trajando uma armadura dourada e capa branca esvoaçante a encarou de volta. Seu olhar era cinza e gélido como inverno.
Geisty sentiu sua alma tremer e assustada correu para o pai, aos gritos:
— Papai! Papai!
O apinhado de cavaleiros reunidos ali foram tomados de impactante surpresa, não apenas pelos gritos cheios de desespero da menina, mas pela presença do homem que certamente era a última pessoa no mundo que qualquer um deles desejaria ver.
Imediatamente todos se puseram em posição de guarda, menos Giuseppe, que permaneceu estático, como que em choque.
Nem eu seus piores pesadelos o cavaleiro de Serpente podia imaginar tão aterrorizante cenário. Ele sentia seus ossos tremerem, não exatamente pelo frio intenso que chegara junto com cavaleiro de Aquário, mas por ver a filha de apenas cinco anos correndo em pânico na sua direção.
Geisty não deveria estar ali. Aqueles cavaleiros amotinados não deveriam estar ali. Yuri Yuriaiev Volkov não deveria estar ali. Aquilo não podia estar acontecendo.
— Papaaai!
O grito da filha despertou Giuseppe e seu instinto de proteção o fez correr em direção a ela e a tomar nos braços.
— Geisty, minha filha, você não deveria estar aqui... falei para ficar com sua mãe — disse ele em desespero procurando com os olhos pela esposa, numa ação aflita e irracional, pois tudo no que pensava era apenas tirar a menina dali — onde ela está? Onde está Ângela?
No colo do pai, bem agarrada ao seu pescoço, Geisty percebeu que a discussão acalorada entre os cavaleiros agora tinha novo foco. Eles não mais se dirigiam ao seu pai, mas ao homem que trouxera o frio consigo. Este por sua vez, os escutava sem emitir uma só palavra.
No entanto, em pouquíssimos minutos a discussão ganhou um tom bem mais agressivo; vozes se elevavam cada vez mais, ânimos se exaltavam, punhos eram sacudidos no ar, e em meio a isso tudo Giuseppe só pensava em proteger a filha em seu colo, enquanto parecendo ser o único ali a conservar algum bom senso pedia calma aos homens, seus irmãos de armas da patente de Prata. Mas foi em vão.
Por sorte, ou talvez azar, Ângela apareceu ali naquele exato instante. Estava à procura de Geisty, e quando a viu no colo de Giuseppe, em meio àquela concentração de cavaleiros visivelmente prestes a se digladiarem, ela não pensou duas vezes. Correu em direção a eles já estendendo os braços para tomar a filha e tira-la dali.
— Geisty!
A voz da esposa soou para Giuseppe como uma graça atendida. Imediatamente ele olhou para ela, virou-se em sua direção e colocou Geisty no chão, a indicando que corresse de encontro para a mãe.
Assim que Ângela tomou a filha nos braços, ela trocou um olhar aflito com o marido e na mesma hora lhe deu as costas partindo em retirada, mas foi somente o tempo de dar meia dúzia de passos para que a tragédia anunciada acontecesse.
Tão rápido quanto um piscar de olhos ligeiro, sob uma nuvem pavorosa de gritos e ofensas urradas, alguns dos cavaleiros de Prata, os mais exaltados, atacaram o cavaleiro de Aquário, que num movimento apenas defensivo, porém na velocidade da Luz, deu cabo daquela investida com facilidade. A ação, contudo, provocou um forte clarão, e Geisty, que ainda mantinha os olhos fixos à figura do pai ao longe, teve a visão cegada por alguns instantes.
Instantes estes em que ela sentiu um impacto violento arremessar a si mesma e a mãe ao chão. Então, na mesma hora em que percebia a gravidade puxando-as para baixo, a menina ouviu ao longe o grito terrível do pai. Reconheceu em pânico a voz dele em meio a tantas outras, igualmente alteradas, mas não lhe sobrou tempo para gritar de volta. Uma pancada brusca em suas costas silenciou e escureceu o mundo a sua volta.
Algum tempo depois, sem saber se muito ou pouco, Geisty despertou experimentando um gosto ferroso na boca e muita dificuldade para respirar; algo pesado estava caído sobre si. Tentou se movimentar entre o peso que a comprimia e o chão frio de terra áspera, arrastando-se para trás e sentindo as pequenas pedras maltratarem a sua pele e carne. Num determinado momento em que executava essa árdua ação, ela percebeu que não haviam mais vozes, nem estrondos ou gritos, somente o silêncio assustador. Seus olhos vidrados ergueram-se para o ponto onde antes estavam os cavaleiros e seu pai, mas tudo o que viu foi uma névoa expeça, como uma fria cortina de cristais de gelo. E eis que enfim ela percebeu que o volume, que agora comprimia apenas um de seus pezinhos, era sua mãe.
Desesperada, Geisty puxou a perna livrando-se por inteiro do peso e imediatamente agarrou o braço de Ângela o sacudindo.
— MAMÃE! MAMÃE!
Ela chamava alucinada, aos prantos, e quanto mais sacudia, mais ela sentia o sangue quente e molhado se espalhar em seu redor, levantando um cheiro ferroso que fazia arder seu narizinho e lhe embrulhar o estômago.
— PAPAI! PAPAI! A MAMÃE PRECISA DE AJUDA... PAPAI, AJUDA A GENTE, PAPAI!
A voz da menina saia rouca, abafada e suplicante em meio ao choro desesperado. Mesmo assim, a ajuda do pai, que tanto esperava, não chegou, mas outra veio em seu lugar.
Enquanto olhava para o rosto hirto da mãe, na esperança de ver nele qualquer sinal de reação, Geisty percebeu que alguém se aproximava. Seus olhos, cobertos por um véu grosso de lágrimas, a princípio conseguiram apenas enxergar os pés calçados por um par de sandálias gregas de couro e emoldurados por vestes muito escuras esvoaçantes. Em pânico, seu primeiro pensamento foi fugir dali e correr para o pai, mas não conseguia vê-lo em meio a névoa gélida. Ela então gritou por ele novamente, num desespero ainda mais aterrador, pois que a figura que se aproximava agora estava diante de si. Uma paralisia causada pelo medo possibilitou à menininha apenas levantar os olhos para olhar para ela, e o que viu lhe causou ainda mais temor.
Não sabia dizer se era homem ou mulher, tampouco se o que via pertencia à esse mundo. Era uma criatura muito alta, muito mais do que se lembrava ter visto alguma vez em sua breve vida; um vultoso manto escuro cobria suas formas por completo, e contra o sol, encoberto pela névoa, o elmo em sua cabeça reluzia como ouro. Este, por sinal, era assustador; no topo havia um animal alado, e encobria-lhe quase todo o rosto, mas não o suficiente para ocultar os cabelos claros revoltos que desciam em madeixas longuíssimas, a pele vincada e os olhos imensos e brilhantes, os quais a encaravam com espanto.
Para o completo terror da menina, a criatura se abaixou e a ergueu do chão como se ela fosse feita de plumas, não valendo de nada seus protestos e gritos a plenos pulmões. Chamava pelo pai, pela mãe, implorava por sua própria vida, até que sentiu seu corpo de repente ser invadido por uma energia cálida como mormaço de verão; esta mandou embora todo aquele frio tétrico que a feria, e aquecida ela percebeu seus sentidos aos poucos indo embora. Apática ela agora não mais reagia, apenas encarava os olhos imensos de íris rosadas que marejados a fitavam tão profusamente que pareciam enxergar sua alma. Sua mente começou a nublar, e antes que pudesse pensar em qualquer reação ela viu a criatura encostar a testa dela na sua, então nessa hora ouviu uma voz melodiosa falar-lhe diretamente em seus pensamentos:
“Padeço-me de ti, pequena. És mais uma vítima da estupidez humana... Esses homens estultos selaram seus destinos ao investirem contra um cavaleiro de Ouro cujo desígnio era tão somente apaziguar os ânimos. O passamento dos teus genitores foi um medonho efeito colateral... mas este não deve acometer a ti, criança. A filha do cavaleiro de Serpente, agora é minha filha! Enquanto estiveres sob os meus cuidados, eu jamais a desampararei. Tens a minha palavra. Protegê-la-ei, e dar-te-ei uma família no lugar da que te foi tomada. Terás um irmão que irá ama-la e protege-la pela vida toda. Vida esta que dedicarás à Atena de todo o teu coração. Para tal, esquecerás qualquer lembrança de dor.”
Uma sonolência ímpar acometeu a menina, que com as pálpebras pesadas ainda olhava para os olhos rosados diante dos seus enquanto as memórias da fatalidade recém-ocorrida desmanchavam-se feito nuvem soprada pelo vento. Pouco a pouco sua mente ficava em branco, restando apenas impressões sensoriais; ela tinha consciência de que estava em um lugar desconhecido, que era arenoso, quente e que tinha um odor que nunca sentira antes. Letárgica percebeu ser carregada por um corredor escuro e depois posta sentada sobre um chão acarpetado cuja cor não sabia identificar. Sentiu de repente o toque aconchegante de uma toalha muito macia lhe envolvendo o corpo pequenino e dolorido. Estava assustada, sentia medo, mas não sabia bem de quê. Também tinha a impressão de que alguma coisa lhe faltava... e talvez essa fosse a sua sensação mais nítida.
Desorientada ela chorava, encolhida e agarrada aos próprios joelhos já que não podia agarrar-se a qualquer lembrança, quando de repente percebeu que era observada de perto.
Geisty levantou a cabeça com certo receito, e eis que o que viu diante dela, a pouco mais de dois palmos de distância apenas, a surpreendeu ao mesmo tempo que encantou.
A princípio ela soube se tratar de uma criança, pois que era apenas um pouco maior que seu tamanho e tinha feições infantis, mas era diferente de todas que já tinha visto antes. Sua pele era muito clara, os olhos eram os maiores e mais brilhantes que já vira na vida, de um verde translúcido e indecifrável. Os cabelos até os ombros tinham a cor dos deliciosos algodões-doces que por alguma razão sabia gostar, mas dos quais não se recordava de quando havia comido. Um cheiro gostoso de lavanda e lençóis limpos exalava das roupas alinhadas que cobriam seu corpo.
Geisty piscou os olhos para aprumar a visão e ter certeza do que via, e embora a figura lhe sorrisse com o mais gentil e bondoso sorriso que já recebera, ela sentiu medo e encolheu-se ainda mais onde estava.
Vendo que ela estava muito assustada, a criança agachou para que seus olhares se encontrassem no mesmo nível, então tirou de dentro de sua bata tibetana um saquinho com jujubas e ofereceu uma a ela.
Ainda que hesitante, a menininha aceitou. Na verdade estava com muita fome e se lembrava de gostar doces.
Uma após a outra ela foi aceitando e comendo, até que apenas as vermelhas passaram a ser oferecidas, já que de algum modo ela deixara claro serem as suas preferidas.
De repente, ela ouviu uma voz sorridente e amistosa lhe falar diretamente em seus pensamentos:
— Seja bem vinda à nossa casa. Eu me chamo Mu. Qual o seu nome?
Nome...
Ela pensou um pouco, mas felizmente ainda se lembrava de seu nome.
— Geisty — respondeu ela com a boca cheia de jujubas. Ainda soluçava e chorava baixinho.
— Oi Geisty, você gosta de jujubas vermelhas, né? Tem mais delas na cozinha. As tias escondem, mas eu sei onde estão. Vamos lá pegar? — disse ele estendendo a mão para ela, mas ela hesitou.
Mu então sentou-se ao lado dela e esperou seu tempo, que não levou mais do que mais algumas jujubas.
— Não precisa ter medo — disse ele fazendo uma nova tentativa — tudo vai ficar bem, eu te prometo. Venha conhecer a sua casa.
— Casa? — Ela perguntou sem compreender bem o que ele queria dizer com aquilo.
— Sim, essa agora é a sua casa — verbalizou ele sorrindo.
Geisty piscou os olhos parecendo confusa.
— Mas... eu...
Ela tentava se lembrar daquela ou de outra casa, mas nada vinha à sua mente.
— Eu sei que deve estar confusa. Mestre Shion disse que você bateu forte com a cabeça. Não se esforce para lembrar de nada agora, tudo bem? — disse Mu.
— Mestre Shion? — Ela perguntou curiosa tomando a mão dele e se levantando.
— Sim, o meu tutor e mestre, e agora o seu tutor também. Por isso, agora nós dois somos irmãos! — disse Mu com visível empolgação, já a puxando pela mão em direção a cozinha.
A menina chacoalhou a cabeça, confusa.
— Irmãos?
— Sim! Não é o máximo? Sabe, eu também era sozinho, como você. Sem irmãos, primos, tios, nada. Aí chegaram os aprendizes e eu fiz amizade com eles... e agora o mestre Shion me trouxe também uma irmã. — Mu riu sem conseguir disfarçar a empolgação que transbordava de dentro de si — Um irmão de criação não é muito melhor do que um amigo? Eu acho que sim, e como seu irmão maior, eu vou cuidar de você e te proteger — disse feliz e com um enorme sorriso — Nós três juntos formamos uma família!
De repente Geisty parou de andar, e sem soltar a mão de Mu perguntou:
— Mu... quem é mestre Shion?
O pequeno lemuriano olhou para trás, bem nos olhos dela, e respondeu com certa propriedade:
— Mestre Shion é o nosso tutor. — Mu olhou para ela e bateu o dedo no queixo, pensativo, buscando uma forma de explicar à menininha as coisas de um jeito fácil. — Assim como eu sou seu irmão de criação, ele é como se fosse o nosso pai, entendeu? Ele vai cuidar de você pessoalmente, assim como cuida de mim. Ele também é o regente desse Santuário, a quem nós chamamos de Patriarca, ou, Grande Mestre. Ele parece ser severo e bravo, mas não se engane, é só o jeitão dele... deve ser porque já é um ancião de muita idade — concluiu por si mesmo fazendo uma pausa. — Para ser sincero, mestre Shion é a pessoa mais bondosa e amorosa do mundo, e você vai concordar comigo — explicou, mas de repente pareceu tão confuso quanto ela, então emendou uma pergunta a seguir: — Foi ele quem trouxe você para cá, não se lembra disso também?
Geisty respondeu com um aceno negativo, depois levantou os olhos e os correndo pelo local onde estavam perguntou:
— O que é um... Santuário?
Mu sorriu para a pergunta dela. A pobrezinha estava mesmo perdida.
— Puxa, deve ter sido uma pancada e tanto — disse ele levando a mão à franja do cabelo dela, a bagunçando para descontrair — Não se preocupe, irmãzinha, aos poucos tenho certeza de que se lembrará de tudo.
Eles então voltaram a caminhar em direção à cozinha, atrás das jujubas vermelhas, mas a curiosidade de Geisty persistia.
— E onde está o mestre Shion, Mu? — ela perguntou.
— Ele precisou convocar uma reunião extraordinária e urgente com outros cavaleiros. Estão agora no salão do Grande Mestre e nós não podemos interrompe-los. Parece que houve uma rebelião envolvendo cavaleiros de Prata insubordinados... mas não é assunto para crianças, certo? Crianças devem se preocupar com coisas muito mais importantes, como... jujubas!
Nessa hora eles adentraram a cozinha e Mu fez levitar até as mãozinhas de Geisty um pote enorme cheio com jujubas, para assim distrai-la.
— Nossa, como você fez isso? — ela perguntou espantada.
— Mágica! — disse ele abrindo o pote nas mãos dela e pegando uma jujuba para levar à boca.
— Me ensina?
— Claro!
Mu conseguiu fazer a menina sorrir e distrair-se de toda a confusão que a assolava. Logo, o doce sabor das jujubas e a companhia carinhosa de Mu era tudo o que importava para ela.
Ah! Quem dera sua vida tivesse sido sempre doce como aqueles seus primeiros dias no Santuário e ela nunca viesse a experimentar o amargor de seu passado, como Shion assim desejou um dia.
...
Templo das Bacantes, 10:00am
Sentados lado a lado, com as mãos dadas, as testas unidas e os olhos fechados, dos quais grossas lágrimas vertiam incessantes, Mu e Geisty agora retornavam de uma viagem catártica às memórias perdidas da amazona.
As amarras deixadas por Shion na mente dela, ao final não foram difíceis de serem desfeitas, uma vez que ele deixara orientações em um de seus diários como quebra-las, porém foi extremamente doloroso para Geisty revive-las.
Já para Mu, além de vivenciar em conjunto o sofrimento da amiga, lutava com o grande repúdio que sentia frente a mais uma atitude reprovável de seu mestre, a qual, não diferente das outras que descobrira recentemente nas leituras dos diários, também o escandalizou. Privar uma pessoa de suas lembranças era um ato desumano que beirava à tirania, um crime hediondo, ainda que Shion o tenha feito na melhor das intenções... como parecia ser de praxe.
No entanto, mais uma vez Mu via-se dividido e afogado em um dilema que, pelo jeito, jamais conseguiria encerrar. Como condenar seu mestre por escolhas tão impróprias? Assim, como esperar que uma criança pudesse lidar com tamanha violência e desgraça na vida?
Além do mais, como poderia Shion explicar à uma menina civil, de apenas cinco anos, as intrincadas reviravoltas de um golpe militar mal estruturado que culminou naquela tragédia pessoal?
Talvez ele não pudesse.
Talvez o mesmo desespero que o levou a mentir e o privar do convívio com Atla e seu irmão mais velho, também o levou a apagar as memórias de Geisty e esconder sua origem para, quem sabe, dar a ela a chance de construir uma nova história, mais digna e suportável, do que ter de viver com o peso de ser a filha de um desertor insurgente que acabou por provocar a morte da própria esposa.
Emocionalmente em frangalhos, as mãos de Mu não eram o suficiente para acolher a italiana, que no abraço caloroso e receptivo dele procurava amparo para seu choro convulso.
— Chore, minha irmã... desabafe — murmurou ele a abraçando forte e encostando seu rosto no dela — acredite, ninguém aqui entende melhor do que eu a dor que está sentindo agora... O mundo desabou sobre mim também quando descobri a verdade sobre meus pais e a minha família.
Ao ouvir Mu dizer aquilo, uma expressão de espanto tomou as feições de Afrodite.
— Viado, acho que o meu coágulo fez “Ploc”! — disse ele coçando o ouvido com o indicador — Ele disse “meus pais”? Pais? Tipo, pai e mãe?
Do lado dele, Saga lhe deu dois tapinhas no ombros e soltou um longo suspiro.
— É, ele disse isso sim, você não ouviu errado, Afrodite — falou o geminiano — Mas uma coisa de cada vez... Depois ele te conta toda a história.
— Babado!
Já Geisty, estava tão perturbada e emocionada com tudo o que tinha acabado de reviver que nem se ateve àquele detalhe.
— Dói, Mu... dói muito... — disse ela entre soluços, num tom quase inaudível.
— Sim, eu sei.
— Por que?... Por que tudo isso?... Por que comigo?
Sem ter uma resposta para dar à ela, Mu levantou os olhos nublados trocando um olhar cheio de pesar e melancolia com Saga e também com Afrodite, que acompanhavam a tudo calados e cheios de angústia. Gêmeos já tinha consciência de que algo terrível sinalava o passado de Geisty, mas se nem ela sabia não havia como ele descobrir. Peixes já roía as unhas e em silêncio rogava à Atena que desse força a seus amigos para suportar mais aquele golpe da vida, já que, não apenas pelo estado em que Geisty estava agora, mas também pelo de Mu, que estava abatido e visivelmente triste, ficava claro que o passado de ambos escondia segredos terríveis que agora vieram à tona.
Na sua total desorientação dos fatos, Saga se agachou do lado da esposa e enquanto acariciava suas costas perguntou aflito:
— Mu, o que você fez com ela?
Áries olhou para ele, ficou em silêncio por um momento e então enxugando um dos olhos respondeu:
— Geisty possuía um bloqueio em sua mente, colocado pelo Mestre Shion.
— Sim, eu sei disso. Ela me disse que descobriu esse bloqueio anos atrás durante uma sessão de meditação guiada com o Shaka, que aliás, disse que era impossível quebrar sem causar danos irreparáveis à mente dela, mas... não me diga que...
— Sim, eu quebrei o bloqueio — disse Mu acariciando o rosto da amiga.
Nessa hora Afrodite deu um grito e praticamente jogou-se de joelhos na frente dos três, tomando ambas as mãos de Geisty e as chacoalhando para ver como ela reagia.
— Dadá misericordioso, Mu! Me fala que ela não vai virar uma abobrinha de franja, por favor! Mosca? Mosca, tá me ouvindo? Tá me vendo? — pedia aflito, estando os dedos na frente dos olhos dela.
— Não, ela não vai — disse Mu — eu não invadi a mente dela, nem manipulei suas memórias... eu apenas a deixei abrir as portas que estavam trancadas, mas a decisão de abri-las foi dela. Não forcei nada... Ela agora só precisará de tempo para reorganizar seus pensamentos e para lidar com os novos sentimentos que surgirão, agora que essas novas memórias farão parte de seu acervo mental. Isso não é uma tarefa fácil.
Os três cavaleiros trocaram olhares silenciosos, então Afrodite, com os olhos marejados e os lábios trêmulos, puxou Mu, Geisty e Saga, todos de uma vez, para seus braços, os apertando com força contra o peito.
— Olha, ainda não sei o que aconteceu, mas deve ter sido uma merda bem uó para deixar vocês dois tombados desse jeito e o Miolo Mole com essa cara de enterro às sete da manhã em dia de chuva, mas, seja lá o que tenha sido, quero dizer que sinto muito e que podem contar comigo — disse o pisciano.
Geisty murmurou um “muito obrigada” e ficou ainda por um tempo ali, acolhida e protegida pelos três até se acalmar minimamente, então quando enfim conseguiu respirar mais calma e conter os soluços ela desfez o abraço coletivo, limpou o rosto com as mãos trêmulas e na mesma hora perguntou:
— Por quê? Por que mataram os meus pais? Por que eles tiveram que morrer?
Afrodite arregalou os olhos, surpreso.
— Aquenda! Mataram os seus pais? Espera aí? Seu pai não tinha sido morto em combate e sua mãe de tifo?
— De onde você tirou que minha mãe morreu de tifo, bicha maluca? — disse Geisty chorosa enquanto aceitava um lenço branquíssimo de algodão que Mu, precavido, lhe oferecia para enxugar o nariz.
— Ele é assim. Quando ele não sabe alguma coisa, ele simplesmente inventa — disse Saga lançando um olhar reprovador para o pisciano, ao mesmo tempo em que tentava se acomodar melhor no chão, ao lado da esposa.
— Eu heim, doida! — disse Peixes.
— A minha mãe... ela era só uma civil... ela morreu para me proteger... — disse Geisty, que nessa hora voltou a chorar, num misto de inconformismo e tristeza.
Mu então deu um longo suspiro e passou os dedos sobre o diário que havia trazido consigo.
— Mestre Shion deixou nesse diário uma breve explicação sobre as articulações que levaram à fatalidade ocorrida em Saturnia, o dia em que os pais da Geisty foram mortos... temendo que ele mesmo não tivesse tempo para isso.
— Pela deusa, Mu, não me esconda nada. Eu quero saber de tudo! — disse a amazona atenta.
— Não vou esconder. Eu já ia procurar você para termos essa conversa, mas já que estava atrás da porta ouvindo minha conversa com o Saga...
Mu fez uma pausa no que pareceu conter um riso meio sem graça, então Afrodite se antecipou tomando a palavra:
— Quero deixar claro que foi totalmente intencional e que foi ideia da Mosca, mas infelizmente a gente chegou tarde e pegou só o final do babado.
— Pelo corno peludo do Hades! A sua cara nem queima, Afrodite? — murmurou indignado Saga, que mantinha sua tarefa de amparar a esposa.
— Eu heim! — disse Peixes encarando o geminiano — O sujo falando do mal lavado!
— Tudo bem, depois eu conto tudo o que descobri lendo os diários do meu mestre, mas agora só a verdade sobre a morte dos pais da Geisty é o que de fato importa — disse Mu, olhando nos olhos dela. — Pouco tempo antes de tudo acontecer, Mestre Shion teve uma visão. Ele previu a própria morte, que seria prematura, o que o levou a acelerar a escrita dos diários... Foi a forma que ele encontrou de espiar, digamos assim, os seus pecados, já que ele não teria tempo para isso em vida. Um desses... pecados... foi o aliança que ele fez com a máfia russa, a Vory v Zakone, que teve como intermediário o cavaleiro de Aquário, Yuri Yuriaiev Volkov, segundo Vor da máfia e irmão do Dimitri.
— Madonna mia! — fez Geisty, que tinha o rosto lívido e os olhos violetas vidrados no rosto de Mu.
— Calma, amore mio! A coisa vai ficar pior... calma — disse Saga segurando a mão da italiana entre as suas, na tentativa de tranquiliza-la e também a si. Em vão.
— O Santuário estava na miséria, e até mesmo a fome começava a ser uma ameaça, então Yuri fez uma proposta ao Patriarca. Uma aliança com a Vory v Zakone, já que Dimitri era dono de uma fortuna. Tanto Yuri, quanto Shion, presidiram todas as negociações com os russos para garantirem não haver abusos de ambos os lados, e também para que tudo fosse feito sob sigilo absoluto, já que esta era uma medida desesperada tomada pelo Grande Mestre que certamente encontraria oposição entre os cavaleiros, e Shion queria que ter tempo para prepara-los para essa informação. Ele precisava desse tempo para ganhar a confiança deles e provar que também podiam confiar no cavaleiro de Aquário... A princípio tudo correu bem. Yuri, diferente de Dimitri, se mostrou um homem honrado e leal ao Santuário, impedindo que a Vory quebrasse qualquer cláusula do acordo... mas então a informação vazou.
— Vazou foi o meu edi, né gay? — disse Afrodite nervoso. — É obvio que foi a cacura malassombrada do Dimitri que cagou a informação, e do jeito que ele quis, aposto.
— Provavelmente sim — concordou Mu — porque um grupo de cavaleiros de Prata acreditou que o Santuário então passaria a atuar como um exército de mercenários financiados pela máfia russa, e obviamente se rebelaram... seu pai era um deles, Geisty.
— Olha aí a merda! Dadá sobre as águas! — disse Afrodite cobrindo a boca com a mão.
Saga, de tão nervoso com aquela conversa, e preocupado com a esposa, suava em bicas.
— Sem terem conhecimento real das cláusulas do acordo, e estranhando o silêncio do Grande Mestre, esses cavaleiros se amotinaram e, como nós dois vimos nas suas memórias desbloqueadas, eles planejavam uma insurreição contra o Patriarca, mas na última hora o seu pai hesitou... foi quando ele se afastou do Santuário e levou você e sua mãe para Saturnia. Talvez tenha passado na cabeça dele que Shion nunca tomaria uma atitude de tamanha desonra. Talvez ele tivesse até pensado em procura-lo para ouvir o que ele tinha a dizer antes de tomar qualquer decisão, mas isso nós jamais saberemos... Só o que sabemos é que seu pai tentou evitar a todo custo que as tensões do Santuário chegassem até a família dele... Infelizmente ele não conseguiu. Os cavaleiros de Prata estavam decididos, e exigiam o posicionamento dele, por isso foram busca-lo em Saturnia... Shion já vinha monitorando esses cavaleiros há algum tempo, e quando soube que estavam reunidos na Itália ele ordenou a Yuri que fosse até lá para resolver a situação de uma vez por todas.
— Resolver a situação de uma vez por todas? Mantando todo mundo, inclusive a minha mãe? — disse Geisty desesperada.
— Não — explicou Mu — Shion mandou Yuri para que ele pudesse esclarecer os termos do pacto com a Vory. E de fato Aquário pretendia deixar tudo às claras, explicando as cláusulas e dando garantias de que a autonomia do Santuário não seria ameaçada...
— Não foi nada inteligente o velho ter mandado justamente o Yuri. Porra de erro crasso! — disse Saga agitado. — Russos não resolvem desentendimentos, russos criam desentendimentos, ainda mais se forem problemas envolvendo o lado deles.
— E ele ia mandar quem, Miolo Mole? Você, que nem pelo no saco tinha ainda, mas o juízo já era prejudicado? O olho junto do Kanon?
— Ora, ele que fosse pessoalmente! — concluiu Saga.
Mu nessa hora levou a mão à testa e esfregou as pintinhas lemurianas com os dedos, depois suspirou cansado e disse:
— É, mas Yuri conhecia todas as cláusulas do contrato, algumas delas ele mesmo redigiu, e Shion então acreditou que ninguém melhor do que ele para resolver esse problema, só que... Yuri não teve tempo de dizer nada... No relatório da missão ele disse que foi recebido com hostilidade pelos cavaleiros de Prata, que já inflamados por uma discussão entre eles acabaram por ataca-lo antes mesmo que ele pudesse dizer-lhes por que estava ali... Na primeira investida ele apenas defendeu-se dos golpes, mas então... — Mu fez uma pausa e olhando nos olhos encharcados de Geisty engoliu em seco antes de continuar: — Yuri relatou que o seu pai, o cavaleiro de Serpente, em determinado momento se afastou do bando, e diferente de todos os outros ele não o atacava, até que de repente algo aconteceu, ele mudou, e como se um demônio cheio de ódio tivesse se apoderado dele e o feito enlouquecer, ele juntou-se aos outros. O combate então foi inevitável, assim como era inevitável a derrota dos cavaleiros de Prata para um cavaleiro de Ouro... Depois de matar a todos, Aquário vasculhou o perímetro... então ele encontrou a sua mãe e entendeu o motivo da súbita e brutal mudança do cavaleiro de Serpente. Sua mãe, Geisty, foi atingida pelo golpe de um dos cavaleiros de Prata, que ricocheteou na defesa de Yuri... O seu pai, a vendo caída no chão com uma ferida mortal nas costas, enlouqueceu pensando ter perdido a ambas, esposa e filha... ele entrou na batalha para matar ou morrer... Mas você estava viva! Yuri então chamou Shion e deixou a cargo do Patriarca decidir o que fazer com você, a única sobrevivente daquela catastrófica missão... O resto aconteceu como você conhece e se lembra. Se por culpa ou por conta de seus instintos paternais, que estavam cada vez mais fortes desde que eu apareci na vida dele, Shion decidiu se tornar responsável por sua criação, proteção e torna-la uma amazona.
Geisty ouviu a tudo atenta; quase sem respirar e piscar os olhos, que só não secaram por conta das lágrimas que não deixavam de escorrer por seu rosto atônito. Ao final do relato de Mu ela as enxugou sem muita delicadeza, borrando a maquiagem sem se importar, usou o lencinho branco para assoar o nariz e depois rendeu-se ao encosto da cadeira e ao cafuné que Saga lhe fazia nos cabelos. Sua cabeça ainda dava voltas e seus miolos pareciam ser moídos dentro de um pilão.
— Instinto paternal... mas eu tinha pais... — disse ela, e suas palavras tinham um tom um tanto amargo — a vida em algum momento desistiu de ser gentil comigo...
— Ah, Mosca, eu sinto muito por isso — disse Afrodite apoiando o queixo nos joelhos dela enquanto a olhava de baixo para cima cheio de pesar — tão novinha, uma larvinha franjuda ainda, e já passando por um babado pesado desse. Ai que ódio!
— Se não fosse pelo Shion eu não estaria hoje aqui... talvez eu nunca precisasse estar aqui.
Saga arregalou os olhos.
— Amore mio, não diga uma coisa dessas, pelos deuses! — disse ele preocupado, logo a amparando em um abraço, já que ela parecia estar afundando em um poço profundo de melancolia.
— Saga está certo — disse Mu sem pestanejar — o seu lugar é aqui, com sua família, ou, com a família que a vida te deu... Olha, você ainda ficará um tempo confusa. São muitos sentimentos e memórias a serem digeridas. Eu quebrei a barreira mental e você acessou apenas a mais recente delas, justamente a mais pesada, mas acredite, há também muitas outras além dessa. Quem sabe você até se lembre de algum parente seu!
— Parente? — Geisty perguntou surpresa.
— Sim... eu sei que era ainda muito novinha, e que é difícil a gente se lembrar dos nossos primeiros anos de vida, mas...
De repente Afrodite interrompeu.
— Ah, eu não! Eu me lembro de tudo, principalmente do afofi rançoso que exalava da bruxa velha da dona Birgitta. Era um cheiro de bunda lavada com água de colônia e batom seboso. Quando ela entrava no quarto da minha mãe, aquele cheiro ficava lá por uns três dias, era uó!
Mu precisou conter o riso e Geisty suspirou.
— Eu acho que não tenho uma memória tão boa assim... Não me lembro ainda de nada de antes de ser trazida para cá.
— Não tenha pressa — disse Mu — isso vai acontecer naturalmente. Mesmo flashes de memória ainda poderão ser acessados, basta ter calma, paciência, e principalmente considerar que a vida não é feita só de lembranças ruins... Tem muita lembrança boa que você vai conseguir acessar, eu tenho certeza. Não é, pessoal? — disse por fim tentando animar as caras de velório dos amigos.
— Claro que sim! — disse Saga animado, e procurando animar a esposa emendou: — Eu vou levar você no meu médico! Doutor Aerophólius também é hipnólogo, além de terapeuta. Se ele consegue me ajudar a xeretar as minhas lembranças, que são um verdadeiro pardieiro, por ordem na sua mente vai ser fácil. Ele vai tirar de letra!
Geisty de repente lançou um olhar confuso e preocupado para ele, no que Saga imediatamente corrigiu-se:
— Quer dizer, isso se você quiser ir, óbvio. Óbvio!
A amazona deu um longo suspiro.
— Passei tantos anos repetindo que o melhor que eu podia fazer por mim era não guardar lembranças, que era melhor esquecer... Fazer o processo oposto é um tanto estranho.
— Você já fez coisa bem pior e nem achou estranho — disse Afrodite.
— Afrodite, agora não é hora! — disse Saga chamando a atenção dele, ao mesmo tempo em que o encarava com os olhos arregalados.
— Alôca!
— Ele está certo, Saga — disse Geisty se levantando da cadeira ao mesmo tempo que os outros dois cavaleiros — Eu já passei por muita coisa ruim na vida e ainda estou aqui.
Mu também levantou-se. Nessa hora ele retirou do meio das páginas do diário um envelope amarelo, o qual entregou nas mãos da irmã amazona.
— Isto estava junto deste diário. Acho que deve ficar com você... pode te ajudar.
Com as mãos ligeiramente trêmulas, ela abriu o envelope e de dentro algumas poucas fotos brotaram, com suas cores já consumidas pelo tempo. Ela então passou os dedos trêmulos pelos rostos saudosos congelados na eternidade daquela imagem, e num rompante de emoção trouxe os papeis velhos até as bochechas, os comprimindo contra elas.
Os três cavaleiros apenas a observavam silenciosos e consternados.
De repente ela se lembrou daquelas fotografias. Como um tiro certeiro reviveu em suas memórias o exato momento daquele clique.
E não apenas aquela lembrança voltava à tona. Ela agora conseguia se lembrar, ainda que vagamente, pertencer a uma vasta família de muitos membros, como manda o protocolo das famílias tradicionais italianas. Lembrava da mesa ampla repleta de comida, e das vozes desconexas em volumes altíssimos. Mas os rostos, esses ainda lhe eram negados; somente se recordava daqueles dois rostos sorridentes impressos no papel fotográfico.
Junto com a memória veio a saudade, a falta, mas se esse era o preço para se lembrar, ela pagaria sem arrependimentos.
— Obrigada, Mu — disse Geisty abraçando o irmão de criação — Obrigada por estar aqui por mim.
Mu a apertou forte contra seu peito.
— Eu lamento não ter estado muito antes... O tempo passou, a gente se desconectou e...
— A vida nos desconectou — corrigiu ela — Mas o que importa é que nos reencontramos e nos reconectamos... e eu não sei o que faria sem você... sem vocês todos.
Emocionado, Afrodite abraçou a ambos os amigos, puxando Saga para junto logo depois.
— Amigos servem para isso, não só para ir ao shopping e ao cabeleireiro — disse ele, que depois de uma breve pausa emendou: — Se bem que uma ida ao salão agora seria babado para trazer a sua dignidade de volta, Mosca. Olha aí, tá que é puro ranho.
— Uma ideia tão merda só poderia vir mesmo de você, né Afrodite — disse Saga repreendendo o pisciano, depois voltou-se para a amazona e lhe tomou a mão carinhosamente — Não está vendo que ela está triste? Ela precisa lavar o rosto, comer algo gostoso, descansar... Amore mio, vamos subir para o quarto que tenho reservado aqui?
— Cruzes, Saga! — berrou Afrodite. — Zona não é lugar de curar ferida não, gata. É lugar de se ferir, tá boa, santa? E ainda diz que quem tem ideia merda sou eu.
— Se você quiser, Geisty, pode ir lá para casa. A essa hora o Shaka deve estar acabando de preparar o almoço. Pode almoçar com a gente... vocês também podem ir — disse Mu solícito.
— Ah, não! Eu sou contra — disse Saga de pronto — chegar na casa daquele maluco assim, sem avisar? E ainda para almoçar? Você parece que não conhece o estrupício com quem você casou, Mu.
— Ora, Saga, justamente por conhece-lo melhor do que ninguém é que estou convidando vocês... Vocês fazem muito mal juízo do Shaka.
— Não. Eu sei bem o que estou dizendo. Pode até não parecer, mas ainda me resta bom senso e a mínima noção de perigo — disse Saga — melhor irmos para a minha casa mesmo, para Gêmeos.
— Eu tenho casa, vocês sabiam? — disse Geisty os interrompendo.
— Cruzes! Ela deve estar com febre... Chamar aquela maloca afofenta na Vila das Amazonas de casa só pode ser delírio — disse Afrodite rindo.
— Pelo amor da Atena, Geisty! Isso é desnecessário, já falei tantas vezes que Gêmeos é o nosso lar e você insiste em ficar sozinha naquele casebre? — resmungou Saga injuriado.
— Não é bom você ficar sozinha agora... não acho uma boa ideia — disse Mu.
— Sim, Mosca — reforçou Afrodite. — Você está triste, deprimida, inchada... se for para lá, a sua imunidade vai baixar e vai te dar sapinho.
O rosto de Geisty contorceu-se numa careta de espano e asco ao pensar naquilo.
— O convite para o almoço está de pé — disse Mu recolhendo os papéis que tinha deixado sobre a mesa — tenho certeza que o Shaka vai gostar de receber todos vocês. Depois podemos conversar mais um pouco e tomar chai.
— É... eu acho que hoje eu gostaria, então, de ir para o Templo do Grande Mestre... — disse Geisty. A oferta do chai foi decisiva para aquela escolha. — Pode ser, amore mio?
— Claro que sim! — respondeu Saga de imediato, dando um beijo suave sobre os dedos da mão dela.
— Ótimo! — disse Geisty — Assim eu tomo um banho, descanso um pouco e... se você me der permissão, gostaria de pesquisar nos arquivos do Décimo Terceiro Templo, as fichas dos cavaleiros de Prata da geração do meu pai... eu quero verificar se nos dados dele existe alguma informação sobre mim e a minha família.
— É claro que tem a minha permissão, mas... não acha melhor fazer isso um outro dia, amore mio? Você está abalada, está fragilizada... — dizia o grego quando ela o interrompeu.
— Não! Quanto mais cedo, melhor! Preciso saber se há alguém vivo ainda porque sinto que só assim vou conseguir encontrar a minha própria paz.
— Entendo — disse Saga — ajudarei você na sua busca. Já desmarquei todos os meus compromissos para hoje mesmo.
— Bom, já que vai estar bem acompanhada, acho que não preciso me preocupar com você... por hoje — disse Mu, em tom cordial, amistoso, porém deixando claro que apensar das pazes feitas com Gêmeos, não deixaria de zelar pela amazona.
Saga recebeu bem o recado. Eles apertaram as mãos selando as pazes e depois de uma breve despedida de Afrodite, que ficou no Templo de Baco para os trabalhos do dia, os três subiram juntos as escadarias das 12 Casas.
Depois de despedirem-se de Mu em Virgem, Saga e Geisty seguiram sozinhos para o cume da montanha. O geminiano de tudo fazia para afastar a tristeza do rosto da amada; ela em seu turno, se esforçava para rascunhar um sorriso.
A mente de Geisty jamais se cansaria de buscar, até nos recantos mais escondidos, as lembranças amigáveis de um tempo que a vida ainda lhe sorria gentil.
Negrito— traduzido do italiano
Verão de 1978 — Saturnia, Itália.
Pela ampla janela de madeira, o calor do dia ensolarado invadia o cômodo de pedras que datavam da era renascentista, trazendo consigo o barulho convidativo da cascata de águas doces do lado de fora do chalé; uma comunhão perfeita que agitava e já enchia de expectativas a pequena menina de cinco anos, que em polvorosa dava saltinhos sobre o colchão de molas encapado por lençóis brancos cheirando à lavanda, enquanto as mãos hábeis da mãe tentavam lhe prender os fartos cabelos negros em uma maria-chiquinha.
— Fica parada, Geisty! — pediu enérgica a mulher de cabelos escuros e rosto gentil.
— Eu quero ir pra água, eu quero ir pra água! — disse a menina buscando com os olhos brilhantes o rosto do pai. — Papai vai nadar comigo, não vai papai?
Silêncio.
— Papai? Papai?
— Giuseppe... Giuseppe, está ouvindo? — chamou-lhe a atenção a esposa.
Do lado da enorme janela, sentado sobre a urna da armadura de Serpente, o homem alto e de porte físico atlético, vestido apenas com um calção de banho vermelho, saiu de seu devaneio e olhou espantado para as duas. Na mesma hora ele procurou afastar a expressão de preocupação que lhe tomava o rosto de traços masculinos marcados pelo sol e ensaiou um sorriso receptivo:
— Oi?
— Sua filha está falando com você — disse a mulher de olhos azuis e cabelos negros, a qual mais parecia uma cópia adulta da pequena menina que pulava animada sobre cama.
— Diga, princesa? — perguntou solícito o homem.
— Você me prometeu que hoje ia me ensinar a nadar — disse sorridente a garotinha.
— Sim, o papai vai ensinar sim — respondeu ele com um sorriso que não convenceu em nada a esposa.
Assim que terminou com os cabelos da pequena, ela caminhou até ele e lhe disse em voz baixa:
— Giuseppe, nós viemos em férias para passarmos um tempo em família... Você me prometeu... Longe de problemas, lembra?
— Sim, Ângela, eu sei o que te prometi... — respondeu aos sussurros.
— Então por que trouxe esse trambolho até aqui? — disse ela desviando o olhar nada amistoso para a urna de prata da armadura.
— Porque ela ainda é minha... é minha responsabilidade.
— Deixasse na nossa casa.
— Está louca? — ele disse espantado, balançando as mãos no ar bem ao modo italiano.
— Não estou louca, estou cansada! — Ângela suspirou. — Só queria um pouco de... paz.
Giuseppe respirou fundo passando as mãos nos cabelos fartos.
— Eu sou um cavaleiro de Atena, preciso sempre estar prevenido... aonde eu for ela irá comigo — disse pousando a mão sobre o símbolo talhado na lateral da urna — Além do mais, estaria colocando toda a sua família em risco caso a tivesse deixado em casa, já que poderiam ir atrás dela.
— Você é quem deve estar louco! — retrucou Ângela — Quem em sã consciência ia querer roubar isso? Ser cavaleiro para arriscar a vida em vão?
— Em vão? — Giuseppe pareceu ofendido. — Lutar por Atena e sua causa nunca será uma luta em vão, Ângela! É meu dever de cavaleiro ajudar a nossa deusa a manter a paz na Terra!
— Deuses pagãos não existem, Giuseppe!
— Ah, não me venha com essa sua ignorância cristã, Ângela!
— Não é ignorância, Giuseppe! — insistiu ela. — Só existe um verdadeiro Deus, e ele deu a vida de seu filho por nós... ao contrário desses supostos deuses pagãos que você serve cegamente e arrisca a vida, nesse meio de violência desproporcional, tudo em nome de uma paz que eles nem mesmo são capazes de manter, nem na Terra e nem entre si.
— Deuses não. Eu sirvo apenas à Atena! — retrucou enfático com o dedo em riste no ar.
Ângela fez um muxoxo e deu de ombros.
— Hum... Atena... Pelo visto esse agora é o nome poético para máfia soviética, não é? — ironizou Ângela com um misto de desgosto.
— Não — disse o italiano se levantando contrariado e encarando firme o rosto belíssimo da esposa — não, claro que não!... Parece até que você não sabe que foi justamente por isso que eu tomei a decisão de deixar o Santuário... e pedir a minha exoneração do Exército de Atena.
— Sim, e me parece que esse foi o único motivo, Giuseppe.
— O que quer dizer, mulher?
— Quero dizer que em momento algum foi por nós, pela sua família... — ela ergueu o tom de voz assim como seu queixo.
— Ângela, não diga isso...
— Você sabe que é verdade.
— Você está sendo injusta... Quando nos conhecemos, eu encontrei a minha verdadeira razão de viver... Você e a nossa filha são a minha felicidade e as únicas que ocuparam todo o espaço vazio que eu tinha em meu coração — disse ele acariciando os braços nus da esposa. — Mas, antes de ser um homem, um pai de família e um marido, eu sou um cavaleiro de Atena e devo obediência à ela enquanto servi-la.
— Então a deixe logo, Giuseppe! De uma vez por todas! — disse em aparente desespero a italiana.
— Ângela!
— Essa sua deusa não parece estar disposta a reclamar os servos dela, Giuseppe... Faça isso por você e por nós... antes que seja tarde demais.
— Sim, eu farei. — Ele respirou fundo. — Eu fiz uma promessa a você e à nossa pequena Geisty. Vocês têm a minha palavra... só peço que tenha um pouco mais de paciência, Ângela. As coisas não são tão simples como parecem.
Sobre a cama, em silêncio a menina agora estava imóvel. Atenta à discussão dos pais, ela mal piscava, e ainda que não pudesse entender o teor do que era dito, sentia nitidamente a apreensão que emanava de ambos, em especial de Giuseppe, com quem sempre tivera uma ligação mais sensorial. Esta, todavia, o italiano mantinha em segredo da esposa, pois sabia que a filha tinha potencial para se tornar uma poderosa amazona, mas Ângela nutria verdadeira ojeriza de tudo o que representava o mundo místico que envolvia o Santuário de Atena, fazendo questão de deixar claro que jamais permitiria o envolvimento da filha em nada que dissesse respeito àquele lugar. Ela queria protegê-la a todo o custo, da violência, do sofrimento e da amargura que acompanhavam o serviço à deusa pagã da sabedoria e da guerra estratégica.
Quando percebeu uma brecha na discussão, a menina espontaneamente perguntou:
— Mamãe, papai, a gente ainda vai nadar?
Giuseppe limpou a garganta, trocou um rápido olhar com a esposa em um pedido mudo de trégua, depois se mostrando animado respondeu com um sorriso:
— Claro que vamos, princesa! Vá na frente com a mamãe que o papai logo vai... Hoje nós vamos aprender a nadar como os golfinhos!
— Golfinhos! — Ela bateu palmas voltando a saltar animada sobre colchão. — Eu quero nadar como os golfinhos!
Ângela esforçou-se para mandar toda e qualquer preocupação embora enquanto caminhava até a cômoda para pegar a máquina fotográfica; a pendurou no pescoço e em seguida foi buscar Geisty já lhe estendendo a mão.
— Vamos, filha, vamos indo... — disse ela.
Elas seguiram para a porta de saída de mãos dadas. A menininha ia toda serelepe na frente puxando Ângela, que antes de deixar o quarto virou-se para trás e encarou os olhos violetas do marido uma última vez.
***
Os minutos passaram breves naquele dia para a menina. A diversão nas quentes águas das fontes sulfurosas de Saturnia, um pequeno paraíso incrustado no interior da Toscana, era extasiante, porém não o suficiente para distrai-la por muito tempo da ausência do pai.
Aproveitando-se de um momento de distração da mãe, que concentrada tirava fotos do local, Geisty deixou a água e correu descalça, em meio às pedras que rodeavam as fontes, de volta ao chalé onde estavam hospedados. Não encontrando Giuseppe ali, a menina dedicou sua atenção ao Cosmo dele e logo que o sentiu correu para a direção de onde ele vinha. Quando finalmente ela avistou o pai, nos fundos da construção que compunha aquele resort, um espanto tremendo a tomou de assalto.
Giuseppe não estava sozinho. Assim como ele, trajando armaduras reluzentes em diversos formatos e cores, um agrupamento de homens discutia em uma língua que ela não era capaz de compreender, embora já tivesse ouvido o pai falar naquele idioma inúmeras vezes. Não fosse por ordem da mãe, ele já a teria ensinado, mas tudo o que sabia era apenas que se tratava da língua falada na Grécia, o grego.
Escondida atrás de uma parede, Geisty passou a acompanhar a reunião. Ela havia contado uns dez homens, que lhe pareceram bem exaltados. Seu coraçãozinho deu pulos assustados no peito quando um deles gritando bateu com a ponta do dedo no peitoral da armadura de seu pai. Parecia ameaça-lo, e estava muito zangado, ao ponto de outro homem precisar intervir e segura-lo pelos braços.
Mesmo não entendendo o idioma, Geisty conseguia ler Giuseppe perfeitamente. Ele estava extremamente irritado, revoltado até, como se não quisesse a presença daqueles cavaleiros ali, afinal havia tirado férias com a família para ficar longe deles, e parecia mandá-los embora.
Nessa hora ela recordou-se da discussão de mais cedo no quarto.
“Será que são deles que a mamãe não gosta?... Eu também não gostei dos amigos do trabalho do papai.” Pensou ela, quando de repente algo inusitado aconteceu.
Contrariando toda ordem natural, de forma brusca e inesperada o ar quente e o mormaço que abrangiam aquele local foram engolidos por um frio tão intenso que fez a menina encolher os ombros e bater os dentes involuntariamente. Assustada, ela olhou para o chão e viu quando as pedras sob seus pezinhos começaram a ser cobertas por uma fina camada de gelo. Ela encolheu os dedinhos em reflexo, e bem nessa hora sentiu um vento gelado soprar atrás de si, arrepiando sua nuca e lhe chacoalhando os cabelos.
Quando ela olhou para o lado, com os olhos vidrados como se visse um fantasma, uma figura trajando uma armadura dourada e capa branca esvoaçante a encarou de volta. Seu olhar era cinza e gélido como inverno.
Geisty sentiu sua alma tremer e assustada correu para o pai, aos gritos:
— Papai! Papai!
O apinhado de cavaleiros reunidos ali foram tomados de impactante surpresa, não apenas pelos gritos cheios de desespero da menina, mas pela presença do homem que certamente era a última pessoa no mundo que qualquer um deles desejaria ver.
Imediatamente todos se puseram em posição de guarda, menos Giuseppe, que permaneceu estático, como que em choque.
Nem eu seus piores pesadelos o cavaleiro de Serpente podia imaginar tão aterrorizante cenário. Ele sentia seus ossos tremerem, não exatamente pelo frio intenso que chegara junto com cavaleiro de Aquário, mas por ver a filha de apenas cinco anos correndo em pânico na sua direção.
Geisty não deveria estar ali. Aqueles cavaleiros amotinados não deveriam estar ali. Yuri Yuriaiev Volkov não deveria estar ali. Aquilo não podia estar acontecendo.
— Papaaai!
O grito da filha despertou Giuseppe e seu instinto de proteção o fez correr em direção a ela e a tomar nos braços.
— Geisty, minha filha, você não deveria estar aqui... falei para ficar com sua mãe — disse ele em desespero procurando com os olhos pela esposa, numa ação aflita e irracional, pois tudo no que pensava era apenas tirar a menina dali — onde ela está? Onde está Ângela?
No colo do pai, bem agarrada ao seu pescoço, Geisty percebeu que a discussão acalorada entre os cavaleiros agora tinha novo foco. Eles não mais se dirigiam ao seu pai, mas ao homem que trouxera o frio consigo. Este por sua vez, os escutava sem emitir uma só palavra.
No entanto, em pouquíssimos minutos a discussão ganhou um tom bem mais agressivo; vozes se elevavam cada vez mais, ânimos se exaltavam, punhos eram sacudidos no ar, e em meio a isso tudo Giuseppe só pensava em proteger a filha em seu colo, enquanto parecendo ser o único ali a conservar algum bom senso pedia calma aos homens, seus irmãos de armas da patente de Prata. Mas foi em vão.
Por sorte, ou talvez azar, Ângela apareceu ali naquele exato instante. Estava à procura de Geisty, e quando a viu no colo de Giuseppe, em meio àquela concentração de cavaleiros visivelmente prestes a se digladiarem, ela não pensou duas vezes. Correu em direção a eles já estendendo os braços para tomar a filha e tira-la dali.
— Geisty!
A voz da esposa soou para Giuseppe como uma graça atendida. Imediatamente ele olhou para ela, virou-se em sua direção e colocou Geisty no chão, a indicando que corresse de encontro para a mãe.
Assim que Ângela tomou a filha nos braços, ela trocou um olhar aflito com o marido e na mesma hora lhe deu as costas partindo em retirada, mas foi somente o tempo de dar meia dúzia de passos para que a tragédia anunciada acontecesse.
Tão rápido quanto um piscar de olhos ligeiro, sob uma nuvem pavorosa de gritos e ofensas urradas, alguns dos cavaleiros de Prata, os mais exaltados, atacaram o cavaleiro de Aquário, que num movimento apenas defensivo, porém na velocidade da Luz, deu cabo daquela investida com facilidade. A ação, contudo, provocou um forte clarão, e Geisty, que ainda mantinha os olhos fixos à figura do pai ao longe, teve a visão cegada por alguns instantes.
Instantes estes em que ela sentiu um impacto violento arremessar a si mesma e a mãe ao chão. Então, na mesma hora em que percebia a gravidade puxando-as para baixo, a menina ouviu ao longe o grito terrível do pai. Reconheceu em pânico a voz dele em meio a tantas outras, igualmente alteradas, mas não lhe sobrou tempo para gritar de volta. Uma pancada brusca em suas costas silenciou e escureceu o mundo a sua volta.
Algum tempo depois, sem saber se muito ou pouco, Geisty despertou experimentando um gosto ferroso na boca e muita dificuldade para respirar; algo pesado estava caído sobre si. Tentou se movimentar entre o peso que a comprimia e o chão frio de terra áspera, arrastando-se para trás e sentindo as pequenas pedras maltratarem a sua pele e carne. Num determinado momento em que executava essa árdua ação, ela percebeu que não haviam mais vozes, nem estrondos ou gritos, somente o silêncio assustador. Seus olhos vidrados ergueram-se para o ponto onde antes estavam os cavaleiros e seu pai, mas tudo o que viu foi uma névoa expeça, como uma fria cortina de cristais de gelo. E eis que enfim ela percebeu que o volume, que agora comprimia apenas um de seus pezinhos, era sua mãe.
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— MAMÃE! MAMÃE!
Ela chamava alucinada, aos prantos, e quanto mais sacudia, mais ela sentia o sangue quente e molhado se espalhar em seu redor, levantando um cheiro ferroso que fazia arder seu narizinho e lhe embrulhar o estômago.
— PAPAI! PAPAI! A MAMÃE PRECISA DE AJUDA... PAPAI, AJUDA A GENTE, PAPAI!
A voz da menina saia rouca, abafada e suplicante em meio ao choro desesperado. Mesmo assim, a ajuda do pai, que tanto esperava, não chegou, mas outra veio em seu lugar.
Enquanto olhava para o rosto hirto da mãe, na esperança de ver nele qualquer sinal de reação, Geisty percebeu que alguém se aproximava. Seus olhos, cobertos por um véu grosso de lágrimas, a princípio conseguiram apenas enxergar os pés calçados por um par de sandálias gregas de couro e emoldurados por vestes muito escuras esvoaçantes. Em pânico, seu primeiro pensamento foi fugir dali e correr para o pai, mas não conseguia vê-lo em meio a névoa gélida. Ela então gritou por ele novamente, num desespero ainda mais aterrador, pois que a figura que se aproximava agora estava diante de si. Uma paralisia causada pelo medo possibilitou à menininha apenas levantar os olhos para olhar para ela, e o que viu lhe causou ainda mais temor.
Não sabia dizer se era homem ou mulher, tampouco se o que via pertencia à esse mundo. Era uma criatura muito alta, muito mais do que se lembrava ter visto alguma vez em sua breve vida; um vultoso manto escuro cobria suas formas por completo, e contra o sol, encoberto pela névoa, o elmo em sua cabeça reluzia como ouro. Este, por sinal, era assustador; no topo havia um animal alado, e encobria-lhe quase todo o rosto, mas não o suficiente para ocultar os cabelos claros revoltos que desciam em madeixas longuíssimas, a pele vincada e os olhos imensos e brilhantes, os quais a encaravam com espanto.
Para o completo terror da menina, a criatura se abaixou e a ergueu do chão como se ela fosse feita de plumas, não valendo de nada seus protestos e gritos a plenos pulmões. Chamava pelo pai, pela mãe, implorava por sua própria vida, até que sentiu seu corpo de repente ser invadido por uma energia cálida como mormaço de verão; esta mandou embora todo aquele frio tétrico que a feria, e aquecida ela percebeu seus sentidos aos poucos indo embora. Apática ela agora não mais reagia, apenas encarava os olhos imensos de íris rosadas que marejados a fitavam tão profusamente que pareciam enxergar sua alma. Sua mente começou a nublar, e antes que pudesse pensar em qualquer reação ela viu a criatura encostar a testa dela na sua, então nessa hora ouviu uma voz melodiosa falar-lhe diretamente em seus pensamentos:
“Padeço-me de ti, pequena. És mais uma vítima da estupidez humana... Esses homens estultos selaram seus destinos ao investirem contra um cavaleiro de Ouro cujo desígnio era tão somente apaziguar os ânimos. O passamento dos teus genitores foi um medonho efeito colateral... mas este não deve acometer a ti, criança. A filha do cavaleiro de Serpente, agora é minha filha! Enquanto estiveres sob os meus cuidados, eu jamais a desampararei. Tens a minha palavra. Protegê-la-ei, e dar-te-ei uma família no lugar da que te foi tomada. Terás um irmão que irá ama-la e protege-la pela vida toda. Vida esta que dedicarás à Atena de todo o teu coração. Para tal, esquecerás qualquer lembrança de dor.”
Uma sonolência ímpar acometeu a menina, que com as pálpebras pesadas ainda olhava para os olhos rosados diante dos seus enquanto as memórias da fatalidade recém-ocorrida desmanchavam-se feito nuvem soprada pelo vento. Pouco a pouco sua mente ficava em branco, restando apenas impressões sensoriais; ela tinha consciência de que estava em um lugar desconhecido, que era arenoso, quente e que tinha um odor que nunca sentira antes. Letárgica percebeu ser carregada por um corredor escuro e depois posta sentada sobre um chão acarpetado cuja cor não sabia identificar. Sentiu de repente o toque aconchegante de uma toalha muito macia lhe envolvendo o corpo pequenino e dolorido. Estava assustada, sentia medo, mas não sabia bem de quê. Também tinha a impressão de que alguma coisa lhe faltava... e talvez essa fosse a sua sensação mais nítida.
Desorientada ela chorava, encolhida e agarrada aos próprios joelhos já que não podia agarrar-se a qualquer lembrança, quando de repente percebeu que era observada de perto.
Geisty levantou a cabeça com certo receito, e eis que o que viu diante dela, a pouco mais de dois palmos de distância apenas, a surpreendeu ao mesmo tempo que encantou.
A princípio ela soube se tratar de uma criança, pois que era apenas um pouco maior que seu tamanho e tinha feições infantis, mas era diferente de todas que já tinha visto antes. Sua pele era muito clara, os olhos eram os maiores e mais brilhantes que já vira na vida, de um verde translúcido e indecifrável. Os cabelos até os ombros tinham a cor dos deliciosos algodões-doces que por alguma razão sabia gostar, mas dos quais não se recordava de quando havia comido. Um cheiro gostoso de lavanda e lençóis limpos exalava das roupas alinhadas que cobriam seu corpo.
Geisty piscou os olhos para aprumar a visão e ter certeza do que via, e embora a figura lhe sorrisse com o mais gentil e bondoso sorriso que já recebera, ela sentiu medo e encolheu-se ainda mais onde estava.
Vendo que ela estava muito assustada, a criança agachou para que seus olhares se encontrassem no mesmo nível, então tirou de dentro de sua bata tibetana um saquinho com jujubas e ofereceu uma a ela.
Ainda que hesitante, a menininha aceitou. Na verdade estava com muita fome e se lembrava de gostar doces.
Uma após a outra ela foi aceitando e comendo, até que apenas as vermelhas passaram a ser oferecidas, já que de algum modo ela deixara claro serem as suas preferidas.
De repente, ela ouviu uma voz sorridente e amistosa lhe falar diretamente em seus pensamentos:
— Seja bem vinda à nossa casa. Eu me chamo Mu. Qual o seu nome?
Nome...
Ela pensou um pouco, mas felizmente ainda se lembrava de seu nome.
— Geisty — respondeu ela com a boca cheia de jujubas. Ainda soluçava e chorava baixinho.
— Oi Geisty, você gosta de jujubas vermelhas, né? Tem mais delas na cozinha. As tias escondem, mas eu sei onde estão. Vamos lá pegar? — disse ele estendendo a mão para ela, mas ela hesitou.
Mu então sentou-se ao lado dela e esperou seu tempo, que não levou mais do que mais algumas jujubas.
— Não precisa ter medo — disse ele fazendo uma nova tentativa — tudo vai ficar bem, eu te prometo. Venha conhecer a sua casa.
— Casa? — Ela perguntou sem compreender bem o que ele queria dizer com aquilo.
— Sim, essa agora é a sua casa — verbalizou ele sorrindo.
Geisty piscou os olhos parecendo confusa.
— Mas... eu...
Ela tentava se lembrar daquela ou de outra casa, mas nada vinha à sua mente.
— Eu sei que deve estar confusa. Mestre Shion disse que você bateu forte com a cabeça. Não se esforce para lembrar de nada agora, tudo bem? — disse Mu.
— Mestre Shion? — Ela perguntou curiosa tomando a mão dele e se levantando.
— Sim, o meu tutor e mestre, e agora o seu tutor também. Por isso, agora nós dois somos irmãos! — disse Mu com visível empolgação, já a puxando pela mão em direção a cozinha.
A menina chacoalhou a cabeça, confusa.
— Irmãos?
— Sim! Não é o máximo? Sabe, eu também era sozinho, como você. Sem irmãos, primos, tios, nada. Aí chegaram os aprendizes e eu fiz amizade com eles... e agora o mestre Shion me trouxe também uma irmã. — Mu riu sem conseguir disfarçar a empolgação que transbordava de dentro de si — Um irmão de criação não é muito melhor do que um amigo? Eu acho que sim, e como seu irmão maior, eu vou cuidar de você e te proteger — disse feliz e com um enorme sorriso — Nós três juntos formamos uma família!
De repente Geisty parou de andar, e sem soltar a mão de Mu perguntou:
— Mu... quem é mestre Shion?
O pequeno lemuriano olhou para trás, bem nos olhos dela, e respondeu com certa propriedade:
— Mestre Shion é o nosso tutor. — Mu olhou para ela e bateu o dedo no queixo, pensativo, buscando uma forma de explicar à menininha as coisas de um jeito fácil. — Assim como eu sou seu irmão de criação, ele é como se fosse o nosso pai, entendeu? Ele vai cuidar de você pessoalmente, assim como cuida de mim. Ele também é o regente desse Santuário, a quem nós chamamos de Patriarca, ou, Grande Mestre. Ele parece ser severo e bravo, mas não se engane, é só o jeitão dele... deve ser porque já é um ancião de muita idade — concluiu por si mesmo fazendo uma pausa. — Para ser sincero, mestre Shion é a pessoa mais bondosa e amorosa do mundo, e você vai concordar comigo — explicou, mas de repente pareceu tão confuso quanto ela, então emendou uma pergunta a seguir: — Foi ele quem trouxe você para cá, não se lembra disso também?
Geisty respondeu com um aceno negativo, depois levantou os olhos e os correndo pelo local onde estavam perguntou:
— O que é um... Santuário?
Mu sorriu para a pergunta dela. A pobrezinha estava mesmo perdida.
— Puxa, deve ter sido uma pancada e tanto — disse ele levando a mão à franja do cabelo dela, a bagunçando para descontrair — Não se preocupe, irmãzinha, aos poucos tenho certeza de que se lembrará de tudo.
Eles então voltaram a caminhar em direção à cozinha, atrás das jujubas vermelhas, mas a curiosidade de Geisty persistia.
— E onde está o mestre Shion, Mu? — ela perguntou.
— Ele precisou convocar uma reunião extraordinária e urgente com outros cavaleiros. Estão agora no salão do Grande Mestre e nós não podemos interrompe-los. Parece que houve uma rebelião envolvendo cavaleiros de Prata insubordinados... mas não é assunto para crianças, certo? Crianças devem se preocupar com coisas muito mais importantes, como... jujubas!
Nessa hora eles adentraram a cozinha e Mu fez levitar até as mãozinhas de Geisty um pote enorme cheio com jujubas, para assim distrai-la.
— Nossa, como você fez isso? — ela perguntou espantada.
— Mágica! — disse ele abrindo o pote nas mãos dela e pegando uma jujuba para levar à boca.
— Me ensina?
— Claro!
Mu conseguiu fazer a menina sorrir e distrair-se de toda a confusão que a assolava. Logo, o doce sabor das jujubas e a companhia carinhosa de Mu era tudo o que importava para ela.
Ah! Quem dera sua vida tivesse sido sempre doce como aqueles seus primeiros dias no Santuário e ela nunca viesse a experimentar o amargor de seu passado, como Shion assim desejou um dia.
...
Templo das Bacantes, 10:00am
Sentados lado a lado, com as mãos dadas, as testas unidas e os olhos fechados, dos quais grossas lágrimas vertiam incessantes, Mu e Geisty agora retornavam de uma viagem catártica às memórias perdidas da amazona.
As amarras deixadas por Shion na mente dela, ao final não foram difíceis de serem desfeitas, uma vez que ele deixara orientações em um de seus diários como quebra-las, porém foi extremamente doloroso para Geisty revive-las.
Já para Mu, além de vivenciar em conjunto o sofrimento da amiga, lutava com o grande repúdio que sentia frente a mais uma atitude reprovável de seu mestre, a qual, não diferente das outras que descobrira recentemente nas leituras dos diários, também o escandalizou. Privar uma pessoa de suas lembranças era um ato desumano que beirava à tirania, um crime hediondo, ainda que Shion o tenha feito na melhor das intenções... como parecia ser de praxe.
No entanto, mais uma vez Mu via-se dividido e afogado em um dilema que, pelo jeito, jamais conseguiria encerrar. Como condenar seu mestre por escolhas tão impróprias? Assim, como esperar que uma criança pudesse lidar com tamanha violência e desgraça na vida?
Além do mais, como poderia Shion explicar à uma menina civil, de apenas cinco anos, as intrincadas reviravoltas de um golpe militar mal estruturado que culminou naquela tragédia pessoal?
Talvez ele não pudesse.
Talvez o mesmo desespero que o levou a mentir e o privar do convívio com Atla e seu irmão mais velho, também o levou a apagar as memórias de Geisty e esconder sua origem para, quem sabe, dar a ela a chance de construir uma nova história, mais digna e suportável, do que ter de viver com o peso de ser a filha de um desertor insurgente que acabou por provocar a morte da própria esposa.
Emocionalmente em frangalhos, as mãos de Mu não eram o suficiente para acolher a italiana, que no abraço caloroso e receptivo dele procurava amparo para seu choro convulso.
— Chore, minha irmã... desabafe — murmurou ele a abraçando forte e encostando seu rosto no dela — acredite, ninguém aqui entende melhor do que eu a dor que está sentindo agora... O mundo desabou sobre mim também quando descobri a verdade sobre meus pais e a minha família.
Ao ouvir Mu dizer aquilo, uma expressão de espanto tomou as feições de Afrodite.
— Viado, acho que o meu coágulo fez “Ploc”! — disse ele coçando o ouvido com o indicador — Ele disse “meus pais”? Pais? Tipo, pai e mãe?
Do lado dele, Saga lhe deu dois tapinhas no ombros e soltou um longo suspiro.
— É, ele disse isso sim, você não ouviu errado, Afrodite — falou o geminiano — Mas uma coisa de cada vez... Depois ele te conta toda a história.
— Babado!
Já Geisty, estava tão perturbada e emocionada com tudo o que tinha acabado de reviver que nem se ateve àquele detalhe.
— Dói, Mu... dói muito... — disse ela entre soluços, num tom quase inaudível.
— Sim, eu sei.
— Por que?... Por que tudo isso?... Por que comigo?
Sem ter uma resposta para dar à ela, Mu levantou os olhos nublados trocando um olhar cheio de pesar e melancolia com Saga e também com Afrodite, que acompanhavam a tudo calados e cheios de angústia. Gêmeos já tinha consciência de que algo terrível sinalava o passado de Geisty, mas se nem ela sabia não havia como ele descobrir. Peixes já roía as unhas e em silêncio rogava à Atena que desse força a seus amigos para suportar mais aquele golpe da vida, já que, não apenas pelo estado em que Geisty estava agora, mas também pelo de Mu, que estava abatido e visivelmente triste, ficava claro que o passado de ambos escondia segredos terríveis que agora vieram à tona.
Na sua total desorientação dos fatos, Saga se agachou do lado da esposa e enquanto acariciava suas costas perguntou aflito:
— Mu, o que você fez com ela?
Áries olhou para ele, ficou em silêncio por um momento e então enxugando um dos olhos respondeu:
— Geisty possuía um bloqueio em sua mente, colocado pelo Mestre Shion.
— Sim, eu sei disso. Ela me disse que descobriu esse bloqueio anos atrás durante uma sessão de meditação guiada com o Shaka, que aliás, disse que era impossível quebrar sem causar danos irreparáveis à mente dela, mas... não me diga que...
— Sim, eu quebrei o bloqueio — disse Mu acariciando o rosto da amiga.
Nessa hora Afrodite deu um grito e praticamente jogou-se de joelhos na frente dos três, tomando ambas as mãos de Geisty e as chacoalhando para ver como ela reagia.
— Dadá misericordioso, Mu! Me fala que ela não vai virar uma abobrinha de franja, por favor! Mosca? Mosca, tá me ouvindo? Tá me vendo? — pedia aflito, estando os dedos na frente dos olhos dela.
— Não, ela não vai — disse Mu — eu não invadi a mente dela, nem manipulei suas memórias... eu apenas a deixei abrir as portas que estavam trancadas, mas a decisão de abri-las foi dela. Não forcei nada... Ela agora só precisará de tempo para reorganizar seus pensamentos e para lidar com os novos sentimentos que surgirão, agora que essas novas memórias farão parte de seu acervo mental. Isso não é uma tarefa fácil.
Os três cavaleiros trocaram olhares silenciosos, então Afrodite, com os olhos marejados e os lábios trêmulos, puxou Mu, Geisty e Saga, todos de uma vez, para seus braços, os apertando com força contra o peito.
— Olha, ainda não sei o que aconteceu, mas deve ter sido uma merda bem uó para deixar vocês dois tombados desse jeito e o Miolo Mole com essa cara de enterro às sete da manhã em dia de chuva, mas, seja lá o que tenha sido, quero dizer que sinto muito e que podem contar comigo — disse o pisciano.
Geisty murmurou um “muito obrigada” e ficou ainda por um tempo ali, acolhida e protegida pelos três até se acalmar minimamente, então quando enfim conseguiu respirar mais calma e conter os soluços ela desfez o abraço coletivo, limpou o rosto com as mãos trêmulas e na mesma hora perguntou:
— Por quê? Por que mataram os meus pais? Por que eles tiveram que morrer?
Afrodite arregalou os olhos, surpreso.
— Aquenda! Mataram os seus pais? Espera aí? Seu pai não tinha sido morto em combate e sua mãe de tifo?
— De onde você tirou que minha mãe morreu de tifo, bicha maluca? — disse Geisty chorosa enquanto aceitava um lenço branquíssimo de algodão que Mu, precavido, lhe oferecia para enxugar o nariz.
— Ele é assim. Quando ele não sabe alguma coisa, ele simplesmente inventa — disse Saga lançando um olhar reprovador para o pisciano, ao mesmo tempo em que tentava se acomodar melhor no chão, ao lado da esposa.
— Eu heim, doida! — disse Peixes.
— A minha mãe... ela era só uma civil... ela morreu para me proteger... — disse Geisty, que nessa hora voltou a chorar, num misto de inconformismo e tristeza.
Mu então deu um longo suspiro e passou os dedos sobre o diário que havia trazido consigo.
— Mestre Shion deixou nesse diário uma breve explicação sobre as articulações que levaram à fatalidade ocorrida em Saturnia, o dia em que os pais da Geisty foram mortos... temendo que ele mesmo não tivesse tempo para isso.
— Pela deusa, Mu, não me esconda nada. Eu quero saber de tudo! — disse a amazona atenta.
— Não vou esconder. Eu já ia procurar você para termos essa conversa, mas já que estava atrás da porta ouvindo minha conversa com o Saga...
Mu fez uma pausa no que pareceu conter um riso meio sem graça, então Afrodite se antecipou tomando a palavra:
— Quero deixar claro que foi totalmente intencional e que foi ideia da Mosca, mas infelizmente a gente chegou tarde e pegou só o final do babado.
— Pelo corno peludo do Hades! A sua cara nem queima, Afrodite? — murmurou indignado Saga, que mantinha sua tarefa de amparar a esposa.
— Eu heim! — disse Peixes encarando o geminiano — O sujo falando do mal lavado!
— Tudo bem, depois eu conto tudo o que descobri lendo os diários do meu mestre, mas agora só a verdade sobre a morte dos pais da Geisty é o que de fato importa — disse Mu, olhando nos olhos dela. — Pouco tempo antes de tudo acontecer, Mestre Shion teve uma visão. Ele previu a própria morte, que seria prematura, o que o levou a acelerar a escrita dos diários... Foi a forma que ele encontrou de espiar, digamos assim, os seus pecados, já que ele não teria tempo para isso em vida. Um desses... pecados... foi o aliança que ele fez com a máfia russa, a Vory v Zakone, que teve como intermediário o cavaleiro de Aquário, Yuri Yuriaiev Volkov, segundo Vor da máfia e irmão do Dimitri.
— Madonna mia! — fez Geisty, que tinha o rosto lívido e os olhos violetas vidrados no rosto de Mu.
— Calma, amore mio! A coisa vai ficar pior... calma — disse Saga segurando a mão da italiana entre as suas, na tentativa de tranquiliza-la e também a si. Em vão.
— O Santuário estava na miséria, e até mesmo a fome começava a ser uma ameaça, então Yuri fez uma proposta ao Patriarca. Uma aliança com a Vory v Zakone, já que Dimitri era dono de uma fortuna. Tanto Yuri, quanto Shion, presidiram todas as negociações com os russos para garantirem não haver abusos de ambos os lados, e também para que tudo fosse feito sob sigilo absoluto, já que esta era uma medida desesperada tomada pelo Grande Mestre que certamente encontraria oposição entre os cavaleiros, e Shion queria que ter tempo para prepara-los para essa informação. Ele precisava desse tempo para ganhar a confiança deles e provar que também podiam confiar no cavaleiro de Aquário... A princípio tudo correu bem. Yuri, diferente de Dimitri, se mostrou um homem honrado e leal ao Santuário, impedindo que a Vory quebrasse qualquer cláusula do acordo... mas então a informação vazou.
— Vazou foi o meu edi, né gay? — disse Afrodite nervoso. — É obvio que foi a cacura malassombrada do Dimitri que cagou a informação, e do jeito que ele quis, aposto.
— Provavelmente sim — concordou Mu — porque um grupo de cavaleiros de Prata acreditou que o Santuário então passaria a atuar como um exército de mercenários financiados pela máfia russa, e obviamente se rebelaram... seu pai era um deles, Geisty.
— Olha aí a merda! Dadá sobre as águas! — disse Afrodite cobrindo a boca com a mão.
Saga, de tão nervoso com aquela conversa, e preocupado com a esposa, suava em bicas.
— Sem terem conhecimento real das cláusulas do acordo, e estranhando o silêncio do Grande Mestre, esses cavaleiros se amotinaram e, como nós dois vimos nas suas memórias desbloqueadas, eles planejavam uma insurreição contra o Patriarca, mas na última hora o seu pai hesitou... foi quando ele se afastou do Santuário e levou você e sua mãe para Saturnia. Talvez tenha passado na cabeça dele que Shion nunca tomaria uma atitude de tamanha desonra. Talvez ele tivesse até pensado em procura-lo para ouvir o que ele tinha a dizer antes de tomar qualquer decisão, mas isso nós jamais saberemos... Só o que sabemos é que seu pai tentou evitar a todo custo que as tensões do Santuário chegassem até a família dele... Infelizmente ele não conseguiu. Os cavaleiros de Prata estavam decididos, e exigiam o posicionamento dele, por isso foram busca-lo em Saturnia... Shion já vinha monitorando esses cavaleiros há algum tempo, e quando soube que estavam reunidos na Itália ele ordenou a Yuri que fosse até lá para resolver a situação de uma vez por todas.
— Resolver a situação de uma vez por todas? Mantando todo mundo, inclusive a minha mãe? — disse Geisty desesperada.
— Não — explicou Mu — Shion mandou Yuri para que ele pudesse esclarecer os termos do pacto com a Vory. E de fato Aquário pretendia deixar tudo às claras, explicando as cláusulas e dando garantias de que a autonomia do Santuário não seria ameaçada...
— Não foi nada inteligente o velho ter mandado justamente o Yuri. Porra de erro crasso! — disse Saga agitado. — Russos não resolvem desentendimentos, russos criam desentendimentos, ainda mais se forem problemas envolvendo o lado deles.
— E ele ia mandar quem, Miolo Mole? Você, que nem pelo no saco tinha ainda, mas o juízo já era prejudicado? O olho junto do Kanon?
— Ora, ele que fosse pessoalmente! — concluiu Saga.
Mu nessa hora levou a mão à testa e esfregou as pintinhas lemurianas com os dedos, depois suspirou cansado e disse:
— É, mas Yuri conhecia todas as cláusulas do contrato, algumas delas ele mesmo redigiu, e Shion então acreditou que ninguém melhor do que ele para resolver esse problema, só que... Yuri não teve tempo de dizer nada... No relatório da missão ele disse que foi recebido com hostilidade pelos cavaleiros de Prata, que já inflamados por uma discussão entre eles acabaram por ataca-lo antes mesmo que ele pudesse dizer-lhes por que estava ali... Na primeira investida ele apenas defendeu-se dos golpes, mas então... — Mu fez uma pausa e olhando nos olhos encharcados de Geisty engoliu em seco antes de continuar: — Yuri relatou que o seu pai, o cavaleiro de Serpente, em determinado momento se afastou do bando, e diferente de todos os outros ele não o atacava, até que de repente algo aconteceu, ele mudou, e como se um demônio cheio de ódio tivesse se apoderado dele e o feito enlouquecer, ele juntou-se aos outros. O combate então foi inevitável, assim como era inevitável a derrota dos cavaleiros de Prata para um cavaleiro de Ouro... Depois de matar a todos, Aquário vasculhou o perímetro... então ele encontrou a sua mãe e entendeu o motivo da súbita e brutal mudança do cavaleiro de Serpente. Sua mãe, Geisty, foi atingida pelo golpe de um dos cavaleiros de Prata, que ricocheteou na defesa de Yuri... O seu pai, a vendo caída no chão com uma ferida mortal nas costas, enlouqueceu pensando ter perdido a ambas, esposa e filha... ele entrou na batalha para matar ou morrer... Mas você estava viva! Yuri então chamou Shion e deixou a cargo do Patriarca decidir o que fazer com você, a única sobrevivente daquela catastrófica missão... O resto aconteceu como você conhece e se lembra. Se por culpa ou por conta de seus instintos paternais, que estavam cada vez mais fortes desde que eu apareci na vida dele, Shion decidiu se tornar responsável por sua criação, proteção e torna-la uma amazona.
Geisty ouviu a tudo atenta; quase sem respirar e piscar os olhos, que só não secaram por conta das lágrimas que não deixavam de escorrer por seu rosto atônito. Ao final do relato de Mu ela as enxugou sem muita delicadeza, borrando a maquiagem sem se importar, usou o lencinho branco para assoar o nariz e depois rendeu-se ao encosto da cadeira e ao cafuné que Saga lhe fazia nos cabelos. Sua cabeça ainda dava voltas e seus miolos pareciam ser moídos dentro de um pilão.
— Instinto paternal... mas eu tinha pais... — disse ela, e suas palavras tinham um tom um tanto amargo — a vida em algum momento desistiu de ser gentil comigo...
— Ah, Mosca, eu sinto muito por isso — disse Afrodite apoiando o queixo nos joelhos dela enquanto a olhava de baixo para cima cheio de pesar — tão novinha, uma larvinha franjuda ainda, e já passando por um babado pesado desse. Ai que ódio!
— Se não fosse pelo Shion eu não estaria hoje aqui... talvez eu nunca precisasse estar aqui.
Saga arregalou os olhos.
— Amore mio, não diga uma coisa dessas, pelos deuses! — disse ele preocupado, logo a amparando em um abraço, já que ela parecia estar afundando em um poço profundo de melancolia.
— Saga está certo — disse Mu sem pestanejar — o seu lugar é aqui, com sua família, ou, com a família que a vida te deu... Olha, você ainda ficará um tempo confusa. São muitos sentimentos e memórias a serem digeridas. Eu quebrei a barreira mental e você acessou apenas a mais recente delas, justamente a mais pesada, mas acredite, há também muitas outras além dessa. Quem sabe você até se lembre de algum parente seu!
— Parente? — Geisty perguntou surpresa.
— Sim... eu sei que era ainda muito novinha, e que é difícil a gente se lembrar dos nossos primeiros anos de vida, mas...
De repente Afrodite interrompeu.
— Ah, eu não! Eu me lembro de tudo, principalmente do afofi rançoso que exalava da bruxa velha da dona Birgitta. Era um cheiro de bunda lavada com água de colônia e batom seboso. Quando ela entrava no quarto da minha mãe, aquele cheiro ficava lá por uns três dias, era uó!
Mu precisou conter o riso e Geisty suspirou.
— Eu acho que não tenho uma memória tão boa assim... Não me lembro ainda de nada de antes de ser trazida para cá.
— Não tenha pressa — disse Mu — isso vai acontecer naturalmente. Mesmo flashes de memória ainda poderão ser acessados, basta ter calma, paciência, e principalmente considerar que a vida não é feita só de lembranças ruins... Tem muita lembrança boa que você vai conseguir acessar, eu tenho certeza. Não é, pessoal? — disse por fim tentando animar as caras de velório dos amigos.
— Claro que sim! — disse Saga animado, e procurando animar a esposa emendou: — Eu vou levar você no meu médico! Doutor Aerophólius também é hipnólogo, além de terapeuta. Se ele consegue me ajudar a xeretar as minhas lembranças, que são um verdadeiro pardieiro, por ordem na sua mente vai ser fácil. Ele vai tirar de letra!
Geisty de repente lançou um olhar confuso e preocupado para ele, no que Saga imediatamente corrigiu-se:
— Quer dizer, isso se você quiser ir, óbvio. Óbvio!
A amazona deu um longo suspiro.
— Passei tantos anos repetindo que o melhor que eu podia fazer por mim era não guardar lembranças, que era melhor esquecer... Fazer o processo oposto é um tanto estranho.
— Você já fez coisa bem pior e nem achou estranho — disse Afrodite.
— Afrodite, agora não é hora! — disse Saga chamando a atenção dele, ao mesmo tempo em que o encarava com os olhos arregalados.
— Alôca!
— Ele está certo, Saga — disse Geisty se levantando da cadeira ao mesmo tempo que os outros dois cavaleiros — Eu já passei por muita coisa ruim na vida e ainda estou aqui.
Mu também levantou-se. Nessa hora ele retirou do meio das páginas do diário um envelope amarelo, o qual entregou nas mãos da irmã amazona.
— Isto estava junto deste diário. Acho que deve ficar com você... pode te ajudar.
Com as mãos ligeiramente trêmulas, ela abriu o envelope e de dentro algumas poucas fotos brotaram, com suas cores já consumidas pelo tempo. Ela então passou os dedos trêmulos pelos rostos saudosos congelados na eternidade daquela imagem, e num rompante de emoção trouxe os papeis velhos até as bochechas, os comprimindo contra elas.
Os três cavaleiros apenas a observavam silenciosos e consternados.
De repente ela se lembrou daquelas fotografias. Como um tiro certeiro reviveu em suas memórias o exato momento daquele clique.
E não apenas aquela lembrança voltava à tona. Ela agora conseguia se lembrar, ainda que vagamente, pertencer a uma vasta família de muitos membros, como manda o protocolo das famílias tradicionais italianas. Lembrava da mesa ampla repleta de comida, e das vozes desconexas em volumes altíssimos. Mas os rostos, esses ainda lhe eram negados; somente se recordava daqueles dois rostos sorridentes impressos no papel fotográfico.
Junto com a memória veio a saudade, a falta, mas se esse era o preço para se lembrar, ela pagaria sem arrependimentos.
— Obrigada, Mu — disse Geisty abraçando o irmão de criação — Obrigada por estar aqui por mim.
Mu a apertou forte contra seu peito.
— Eu lamento não ter estado muito antes... O tempo passou, a gente se desconectou e...
— A vida nos desconectou — corrigiu ela — Mas o que importa é que nos reencontramos e nos reconectamos... e eu não sei o que faria sem você... sem vocês todos.
Emocionado, Afrodite abraçou a ambos os amigos, puxando Saga para junto logo depois.
— Amigos servem para isso, não só para ir ao shopping e ao cabeleireiro — disse ele, que depois de uma breve pausa emendou: — Se bem que uma ida ao salão agora seria babado para trazer a sua dignidade de volta, Mosca. Olha aí, tá que é puro ranho.
— Uma ideia tão merda só poderia vir mesmo de você, né Afrodite — disse Saga repreendendo o pisciano, depois voltou-se para a amazona e lhe tomou a mão carinhosamente — Não está vendo que ela está triste? Ela precisa lavar o rosto, comer algo gostoso, descansar... Amore mio, vamos subir para o quarto que tenho reservado aqui?
— Cruzes, Saga! — berrou Afrodite. — Zona não é lugar de curar ferida não, gata. É lugar de se ferir, tá boa, santa? E ainda diz que quem tem ideia merda sou eu.
— Se você quiser, Geisty, pode ir lá para casa. A essa hora o Shaka deve estar acabando de preparar o almoço. Pode almoçar com a gente... vocês também podem ir — disse Mu solícito.
— Ah, não! Eu sou contra — disse Saga de pronto — chegar na casa daquele maluco assim, sem avisar? E ainda para almoçar? Você parece que não conhece o estrupício com quem você casou, Mu.
— Ora, Saga, justamente por conhece-lo melhor do que ninguém é que estou convidando vocês... Vocês fazem muito mal juízo do Shaka.
— Não. Eu sei bem o que estou dizendo. Pode até não parecer, mas ainda me resta bom senso e a mínima noção de perigo — disse Saga — melhor irmos para a minha casa mesmo, para Gêmeos.
— Eu tenho casa, vocês sabiam? — disse Geisty os interrompendo.
— Cruzes! Ela deve estar com febre... Chamar aquela maloca afofenta na Vila das Amazonas de casa só pode ser delírio — disse Afrodite rindo.
— Pelo amor da Atena, Geisty! Isso é desnecessário, já falei tantas vezes que Gêmeos é o nosso lar e você insiste em ficar sozinha naquele casebre? — resmungou Saga injuriado.
— Não é bom você ficar sozinha agora... não acho uma boa ideia — disse Mu.
— Sim, Mosca — reforçou Afrodite. — Você está triste, deprimida, inchada... se for para lá, a sua imunidade vai baixar e vai te dar sapinho.
O rosto de Geisty contorceu-se numa careta de espano e asco ao pensar naquilo.
— O convite para o almoço está de pé — disse Mu recolhendo os papéis que tinha deixado sobre a mesa — tenho certeza que o Shaka vai gostar de receber todos vocês. Depois podemos conversar mais um pouco e tomar chai.
— É... eu acho que hoje eu gostaria, então, de ir para o Templo do Grande Mestre... — disse Geisty. A oferta do chai foi decisiva para aquela escolha. — Pode ser, amore mio?
— Claro que sim! — respondeu Saga de imediato, dando um beijo suave sobre os dedos da mão dela.
— Ótimo! — disse Geisty — Assim eu tomo um banho, descanso um pouco e... se você me der permissão, gostaria de pesquisar nos arquivos do Décimo Terceiro Templo, as fichas dos cavaleiros de Prata da geração do meu pai... eu quero verificar se nos dados dele existe alguma informação sobre mim e a minha família.
— É claro que tem a minha permissão, mas... não acha melhor fazer isso um outro dia, amore mio? Você está abalada, está fragilizada... — dizia o grego quando ela o interrompeu.
— Não! Quanto mais cedo, melhor! Preciso saber se há alguém vivo ainda porque sinto que só assim vou conseguir encontrar a minha própria paz.
— Entendo — disse Saga — ajudarei você na sua busca. Já desmarquei todos os meus compromissos para hoje mesmo.
— Bom, já que vai estar bem acompanhada, acho que não preciso me preocupar com você... por hoje — disse Mu, em tom cordial, amistoso, porém deixando claro que apensar das pazes feitas com Gêmeos, não deixaria de zelar pela amazona.
Saga recebeu bem o recado. Eles apertaram as mãos selando as pazes e depois de uma breve despedida de Afrodite, que ficou no Templo de Baco para os trabalhos do dia, os três subiram juntos as escadarias das 12 Casas.
Depois de despedirem-se de Mu em Virgem, Saga e Geisty seguiram sozinhos para o cume da montanha. O geminiano de tudo fazia para afastar a tristeza do rosto da amada; ela em seu turno, se esforçava para rascunhar um sorriso.
A mente de Geisty jamais se cansaria de buscar, até nos recantos mais escondidos, as lembranças amigáveis de um tempo que a vida ainda lhe sorria gentil.
Negrito— traduzido do italiano
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
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