Dias depois...

Templo do Grande Mestre – ao cair da noite.

Sempre que o Sol se põe e dá permissão à noite para abrir seu majestoso manto escuro é que o milagre acontece. Isto porque nele está bordada, em uma miríade infinita de luzes coriscantes, a história do início de todas as coisas.

— Foi ali que tudo começou — disse Saga, cujos olhos voltados para o firmamento relampejavam em sincronia com os astros, acendendo e apagando incessantemente — nas estrelas.

Do lado dele, segurando firme em seu cajado, da grande janela do salão principal Gigars também olhava para o céu; e embora ele não fosse afetado pelo fenômeno cósmico que atingiria seu apogeu naquela noite, sentia-se paralisado por uma sensação avassaladora de medo e embevecimento ao mesmo tempo.

— Imagino quantos riram de Carl Sagan quando ele disse que nós, e tudo mais que existe no universo, viemos delas — continuou Saga, sem tirar os olhos do céu. — Isso para não dizer quantos o chamaram de louco varrido.

— Essa é uma visão demasiado científica, meu senhor — observou Gigars. — Não lhe caberia algo mais... professo?

Saga olhou para ele e o cantinho de seus lábios formou um arco para cima.

— Me diga, Gigars... o que você sente quando olha para as estrelas? — perguntou, e novamente voltou os olhos para o céu. — Em especial nesta noite, com as doze principais constelações do zodíaco alinhadas bem acima das nossas cabeças?

O secretário pensou por um momento.

— Eu sinto... — murmurou ele fazendo mais uma pausa, enquanto em sua única retina cansada eram refletidas as doze constelações que regiam os doze signos zodiacais —... eu acho que não sinto nada, meu senhor.

Saga deu um sorriso resignado acompanhado de um suspiro.

— É uma pena, já que há tanto o que sentir... — disse ele ainda flertando com os astros. — Talvez você seja como as anãs brancas, que já queimaram todo seu núcleo e agora apenas existem... Que triste! Digo...

Gigars, com certo embaraço, pigarreou e abriu mão da contemplação, então Saga, transbordando uma vivacidade ímpar em sua voz e gestos, emendou com sua oratória irretocável:

— Você queria uma visão professa sobre o que penso a respeito da criação? Da origem de todas as coisas? Pois bem... eu penso que do mesmo modo que Carl Sagan acreditava que nós surgimos a partir da morte de estrelas, há bilhões de anos, que espalharam na matéria escura, a qual hoje chamamos de universo, todos os elementos químicos necessários para tornar a vida possível, o hidrogênio, o nitrogênio, oxigênio, ferro, carbono, fósforo, enfim, todos, eu acredito que os deuses, em especial Atena, nortearam meus passos e me trouxeram até aqui... Se estou agora tendo essa conversa com você, a poucos momentos de viver na plenitude a minha primeira Euforia, se consegui o perdão da mulher que eu amo, dos amigos que prezo, e a cada dia que passa sinto estar mais próximo de conseguir o meu próprio perdão, é porque eles, os deuses, tornaram isso possível... E se o Caos, em toda sua fúria, trevas e confusão, conseguiu encontrar uma ordem para toda a discórdia que o assolava, e dessa ordem tornar possível toda a vida, então eu também posso fazer isso, eu posso encontrar uma ordem dentro do meu caos, porque eu sou parte dele, sou energia em ressonância com o universo... Todos viemos do Caos, ou como a ciência prefere pontuar, das estrelas.

— Com certeza uma visão bem mais apropriada para o Patriarca desse Santuário, meu senhor — disse Gigars com sua voz pigarrenta, depois forçando uma simpatia que lhe faltava pontuou: — Sei que gostaria de apreciar o céu até que pudesse cumprimentar a Lua Cheia assim que esta despontar detrás de Star Hill, mas é que os primeiros cavaleiros estão chegando, e os protocolos da noite da Euforia exigem que o Grande Mestre os receba no pátio da estátua da deusa.

Saga encarou Gigars por um instante com certa estranheza.

— Ah, homem, para que tanta formalidade? Parece até que comeu cimento — disse ele num tom repreendedor. — Pelos deuses, você está falando com um cara vestido num colant roxo ridículo e tão apertado que está estrangulando as minhas... as minhas entranhas, que dirá minhas bolas. Relaxe, Gigars! Hoje é uma noite especial! É noite de festa! — Abriu um largo sorriso que mostrava todos os dentes perfeitamente alinhados. — Por falar nisso... onde está o balde com gelo que pedi para você providenciar?

Depois de ter respondido em silêncio apontando com o indicador para o objeto de metal trazido da lavanderia e deixado sobre uma peça de madeira escura a poucos metros dali, Gigars viu Saga dirigir-se até ele com passos apressados e animados. Chegando lá o Patriarca apanhou uma fotografia ampliada de seu próprio rosto, deixada sobre a mesma peça, e para sua surpresa a colou no balde; e como se toda aquela excentricidade fosse ainda pouco, ele tirou da larga faixa de lycra púrpura que moldava-lhe a cintura, dois elásticos de cabelo com os quais amarrou, sem nenhum critério, as madeixas azuis fazendo duas marias-chiquinhas. Ao fim, o viu passar a mão no balde e virar-se para si com um sorriso estampado no rosto.

— Que tal? Estou bonitão? Digo, bonitona?

— Permita-me dizer, meu senhor — respondeu logo, com o único olho a fitar perplexo o geminiano, mas mesmo assim escolhendo as palavras a dedo — que quando estipulou o tema para a Euforia, eu imaginei que escolheria um traje que representasse a sua constelação protetora, para assim homenageá-la como manda a tradição, e não que se fantasiaria de...

Gigars tentava encontrar a palavra enquanto corria o olho pela figura à sua frente vestia num colant roxo claro de pernas e mangas longas, calçando botas de couro púrpura que iam até quase seus joelhos e que casavam com as luvas do mesmo tecido, compridas até os cotovelos. Estampado no peito havia um triangulo invertido com a letra J estilizada em amarelo.

— Afinal de contas, o senhor está vestido de quê? — perguntou por fim.

Saga deu uma sonora gargalhada.

— Era de se esperar que você não conhecesse, afinal não é da sua época... Meu caro Gigars, nesta noite eu não sou o Patriarca, eu sou um alienígena vindo do planeta Exor. Meu nome é Zan... ou melhor, Jayna, já que Zan é o meu irmão gêmeo aqui, que neste momento está na forma de cubos de gelo. Bem apropriado pra ele, diga-se de passagem e bem mais útil agora — disse, e levantou o balde com sua foto colada, na altura do rosto de Gigars, que parecia atônito. — Diga oi ao Zan, Gigars.

Um fraco soluço brotou na garganta do secretário em resposta.

Numa noite onde tudo era possível acontecer, em que tudo era imprevisto e todo instinto — daqueles cujo Cosmo regia o espírito e o corpo — era irrefreável, Gigars não podia esperar ponderação alguma vinda justamente do Patriarca, cujo histórico comportamental e de saúde mental eram bem diferenciados; mesmo assim não foi capaz de disfarçar o espanto.

Percebendo que Gigars ficara confuso, Saga tratou logo de encerrar aquela conversa.

— E Geisty? — perguntou ele.

— Ainda trancada a sete chaves em vossa suíte — respondeu o velho depois de pigarrear e recobrar o mínimo de concentração. — Eu bati à porta antes de me encaminhar para cá, na intenção de apressa-la, e ela então me ordenou que dissesse ao senhor que... bem... ela não o quer por lá, em hipótese alguma, ou irá se atrasar ainda mais.

Saga sorriu e deu um longo e farto suspiro.

— Permita-me novamente, meu senhor, mas essa mulher é um tanto quanto geniosa. Ela está lá há horas, e não me parece nada empenhada em apressar-se para estar ao seu lado na recepção dos cavaleiros. — se aprumava o quanto podia se apoiando em seu cajado apesar da corcunda volumosa enquanto destilava sua voz venenosa.

— Essa mulher tem nome, Gigars. É Geisty, o amor da minha vida, minha esposa, e portanto, sua mestre e patroa — disse Saga o encarando — Depois, você conhece algum ariano que se atrasa para seus compromissos? Eu tenho certeza que não. Arianos são pontuais por natureza... A culpa dela estar atrasada é toda minha, da Lua e dos astros, fomos nós quem a seguramos na minha cama até quase o Sol se pôr... Ah! Só os deuses é que sabem a força que terei que fazer esta noite para não abandonar a celebração e leva-la de volta para lá...

— É... — Gigars respirou fundo, sem esforçar-se para disfarçar a impaciência e o nó nas tripas que a presença da amazona lhe causava desde sempre — Parece que a influência da congruência astral dessa noite começou mais cedo do que o previsto. Eu já passei por uma Euforia, mas como não possuo Cosmo, em nada ela me afetou. Além do mais, haviam pouquíssimos cavaleiros de Ouro habitando o Santuário há 33 anos atrás... O senhor mesmo, Grande Mestre, como também Aiolos, Kanon e até Mu, eram jovens demais para sofrer os efeitos do fenômeno... Mas agora, com tantos cavaleiros de Ouro ocupando as 12 Casas, e em plena juventude e vigor hormonal, eu temo pelas consequências desta Euforia.

— Pois eu te digo que está se preocupando à toa, Gigars — disse Saga dando as costas a ele e caminhando em direção à saída do salão. Um sorriso ansioso e pacífico pairava em seu rosto animado enquanto se dirigia até o pátio da estátua da deusa munido de seu balde personalizado com gelo.

— Espero que o senhor esteja certo, Patriarca, ou teremos problemas com as crianças e os cavaleiros que são... comprometidos — disse o secretário o seguindo.

— Os tempos são outros, Gigars... A Era dos bacanais abençoados pela Lua Cheia que acontece só a cada 33 anos, quando as 12 constelações do zodíaco estão alinhadas, ficou no passado. Agora somos pessoas bem mais maduras e ajuizadas.

***

Casa de Peixes

— Maturidade e juízo? Aquenda! Não sei o que são essas coisas não... Você me ensina?

Afrodite falava ao celular com Camus, enquanto sentado de frente à penteadeira de seu quarto se arrumava para a celebração.

— Vai, princesa, não me cobra juízo justamente hoje e me fala logo como você tá vestido... humm... hummm... E a sua túnica tá bem curtinha?... Quanto?... Nossa que delícia, Camy... Ah, que safado!... E eu vou poder mergulhar dentro desse aquário?... Credo, fala de novo?... Hummmm... Tá bem apertadinha?... Óleo? Onde?... Mulher, você vai me matar assim, Camy... Hummm... Você me dá vinho e eu te dou leite!... Eu sei que gostou, você é um safado pervertido... gostoso... Aaaah... O QUÊ? DESLIGAR? NÃOOOO!... Camus, você não se atreva, bonita... O Andreas que espere... Fala para a gata que você está ocupado falando com o seu macho... Ah, nãoooo... Você sempre faz isso comigo, me provoca e depois diz que tem que desligar... Ai que ódio de você!... Também te amo, mon amour, até daqui a pouco.

Peixes desligou o aparelho e simplesmente o deixou cair sobre o carpete marfim. No instante seguinte, como se seu corpo fosse feito de cera e um calor assombroso lhe derretesse aos poucos, ele desabou todo molenga da banqueta onde estava sentado e esparramou-se por completo pelo chão. Rolou para um lado, depois para o outro, dando sufocados gemidinhos, até que ficou de bruços, completamente parado e mudo, como se tivesse virado pedra.

Passados dez minutos, por fim exclamou em voz alta:

— Levanta, viado, que as 389 escamas da sua fantasia não vão se colar nesse corpinho perfeito sozinhas. Alôca!

Já satisfatoriamente acalmado do furor que lhe queimava por dentro, Afrodite levantou-se do chão com um salto e correu de volta à penteadeira e à arrumação para o evento, ansiando pela hora em que veria com seus olhos o que Camus havia lhe descrito pelo celular.

***

Casa de Aquário

No dia anterior, quando chegou em seu templo e abriu o pacote com a encomenda trazida da Rússia, Camus duvidou que teria coragem o suficiente para usar qualquer um dos itens que estavam ali dentro. Questionando sua própria escolha, ele analisava as joias de ouro e o tecido tão fino que chegava a ser transparente, com um olhar perplexo.

Mas bastou o Sol começar a descer no horizonte daquela tarde para tudo mudar completamente.

Tomado por um entusiasmo tão inédito quanto irrefreável, Camus espalhou sobre a enorme cama, novinha em folha, todos os itens de sua fantasia, mal podendo esperar para ver-se no espelho usando cada um deles.

E era exatamente o que ele fazia quando um de seus vários celulares tocou. Como que hipnotizado por sua imagem refletida no espelho, ignorou o chamado, muito mais interessado em contemplar-se dentro daquela ‘personagem’ que sentia de modo avassalador ser mais fiel à si mesmo do que ele verdadeiramente era na vida real. Era como se aquela túnica grega de um ombro só e tecido fino não lhe vestisse apenas o corpo, mas também a alma. Na prática ela ficara bem mais curta do que imaginou que seria, tanto que se fosse no dia anterior talvez não a teria usado, mas hoje tudo estava diferente e ele não apenas não se incomodou como sorriu para si mesmo ao notar as coxas grossas quase totalmente à mostra. Também não se incomodou com o cinto dourado lhe marcando a cintura, nem com as exuberantes joias de ouro em seu pescoço e punhos. Ao contrário, ele estava certo de que havia nascido para usa-las, apenas quis a vida que fosse tudo diferente de suas vontades.

Fazendo uma pose elegante para o espelho, Camus analisou as sandálias gregas cujas tiras subiam até perto de seus joelhos e lamentou esta ser de sola rasteira. Certamente ficaria bem melhor num salto 15!

Aproximou-se para ajeitar a coroa de louros em sua cabeça, feita sob encomenda por um joalheiro russo que lhe devia dinheiro, e então nessa hora resolveu atender ao celular, que insistia em tocar.

— Oui, Andreas, o que foi? — disse Camus enquanto arrumava o cabelo com a mão que tinha livre — O cretino do Aliócha Fiódorovitch? E por que ele ainda está vivo?... Non... Andreas, non... você que resolva isso... Non, non posso fazer nada... Eu já deixei tudo sob o seu comando antes de vir para a Grécia justamente porque non posso tomar nenhuma decisão importante nesta noite...

Nessa hora, Hyoga entrou no quarto pegando Camus de surpresa, que ao olhar para ele arregalou os olhos espantado e tratou rapidamente de encerrar a conversa com Andreas, desligando o celular logo em seguida.

— Algum problema em Moscou? — perguntou o garotinho.

— Non, petit... nada importante — Camus respondeu com um sorriso.

— Tem certeza? O senhor estava falando no celular da Hello Kitty, e quando ligam para esse é problema na certa.

— Tenho, non há nada com o que se preocupar... Agora, venha cá, me explique que fantasia é essa. Você está de... bailarina?

— Gostou? — Hyoga perguntou sorrindo e fazendo uma pose de balé, levantando os braços acima da cabeça e ficando na pontinha dos pés. — Eu sou o Cisne Negro, do Lago dos Cisnes!

— Isso eu percebi — disse Camus tocando pequenas peninhas pretas coladas nas laterais dos olhos de Hyoga; estas faziam um desenho em direção às têmporas e misturavam-se aos cabelos. — Mas... por que bailarina e non bailarino?

O garoto abaixou os braços e inclinando-se ligeiramente para a frente passou as mãos pelo grande tutu de tule preto que o vestia. Por baixo deste ele usava um macacão de lycra da mesma cor.

— O senhor não reconheceu? Este é o tutu da mamãe! — disse o garoto com a voz um tanto macia. O alinhamento celeste o deixando mais emocional do que de costume. — Eu o achei num baú, no quarto onde o senhor guarda as coisas dela... Pedi para o tio Shaka arruma-lo para que eu pudesse usar hoje, mas... se o senhor não gostou eu tiro.

Camus estava ao mesmo tempo emocionado e um tanto transtornado, o que lhe custou um tempo pensativo, o suficiente para que sua mente resgatasse uma situação semelhante vivida por ele no passado: um pequeno garotinho ruivo brincando com as roupas da irmã e rodando alegre pelo quarto simples nos subúrbios de Paris, até a porta ser aberta com uma batida estrondosa. As imagens desapareceram de sua mente nessa hora, então suas mãos repentinamente ficaram frias e seu semblante ganhou um ar sombrio.

Apreensivo, Hyoga baixou a cabeça e girou o tutu em sua cintura para trazer para a frente os colchetes que Shaka havia instalado no cós da peça para que se ajustasse a sua pequena cintura e ele pudesse vesti-la, mas quando começou a abri-los Camus segurou em sua mão o impedindo.

— Eu adorei, mon petit — disse o aquariano quando os olhos azuis surpresos do garoto encontraram os seus — É uma homenagem linda. Natassia certamente estaria radiante de alegria em vê-lo assim... usando o tutu que concedeu à ela o título de primeira bailarina do Bolshoi.

Hyoga esboçou um sorriso ainda meio hesitante.

— Tem... certeza? — perguntou.

— Oui. Tenho sim... Além disso, escolheu uma bela maneira de homenagear também a sua futura constelação guardiã, porque é mais do que óbvio que você será o cavaleiro de Cisne dessa Era, já que eu sou o seu mestre — disse tão certo quanto convencido, afastando completamente da sua mente qualquer sombra do passado que ameaçasse escurecer a luz do presente radiante.

— Yes! — festejou Hyoga dando um saltinho e um soco no ar, depois abraçou a cintura de Camus e agradeceu: — Obrigado, pére. O senhor também está a própria imagem da sua constelação guardiã!

— Hum... Isso é um elogio, non?

— Claro que é!... Ok, não estou acostumado a vê-lo vestido assim, com joias e tanta pele à mostra, mas até que ficou bom!

Camus pigarreou meio sem graça, e para disfarçar o embaraço caminhou até a peça onde havia deixado um grande jarro de bronze. Do lado deste havia cerca de meia dúzia de garrafas do melhor vinho grego, ainda fechadas.

— Ah, bon... considerando que hoje é uma noite excepcional, tudo o que for fora do comum e do previsível é permitido... como, por exemplo, eu trocar a nossa vodca russa pelo vinho grego — disse ele abrindo uma das garrafas, depois olhou para Hyoga e emendou: — Me ajuda a encher esse jarro?

Hyoga sorriu para o pai e animadíssimo foi ajuda-lo a esvaziar as garrafas.

***

Casa de Virgem

Outra criaturinha que era pura animação era Kiki.

Ansioso e agitado como todo bom ariano, o pequeno lemuriano corria pela sala dando saltinhos e pondo em prova a resistência das próteses confeccionadas na última hora por Mu, para reproduzir pernas de carneiro.

O rebuliço na Sexta Casa tinha começo cedo naquele dia. Com a agenda de afazeres lotada, Shaka levantou antes do Sol, meditou por exatos trinta minutos, tomou banho e voltou ao leito para acordar Mu, porém trocou o despertador convencional, os beijos ternos no rosto e os sussurros de bom-dia, por mordidas cheias de atrevimento nas coxas nuas do ariano; isto por conta da terrível libido que o acometera com tal força naquela manhã que nem a meditação, tampouco o banho, deram conta de aliviar.

Mas, para a completa surpresa de Shaka, Mu despertou logo na segunda mordida; e como se já o estivesse esperando, Mu agarrou o marido pelos ombros e o atirou sobre os lençóis para no instante seguinte, com toda a força de sua alma, cobri-lo de beijos enquanto o tomava mais uma vez antes de iniciarem os trabalhos do dia, que não eram poucos.

A agenda do cavaleiro de Virgem de fato estava lotada. Feira nas primeiras horas da manhã, treinamento de seus pobres discípulos antes do almoço, preparação deste e faxina geral à tarde. Estava radiante por ter conseguido encaixar cada compromisso num espaço de tempo perfeito para sobrar-lhe ainda duas horas livres para o início da Euforia, afinal tinha escolhido com que traje ir à celebração apenas um dia antes, portanto precisaria de tempo para se arrumar, e não deixaria que nada atrapalhasse sua organização... nada, nem ninguém.

Assim, Shaka tratou logo de despachar Mu, Kiki e até o gato para a Casa de Áries logo após o almoço.

Mu até que tentou protestar alegando que desejava ajuda-lo com a faxina, mas Shaka sabia exatamente qual eram as verdadeiras intenções dele. Se já era difícil conter a libido do ariano em dias comuns de faxina, imagina na Euforia! Ainda mais quando se é regido por um signo de fogo. Não. Melhor mesmo ficarem separados até a noite. Ele precisava ter a casa limpa e o corpo íntegro, pelo menos até o ápice da congruência astral daquela noite.

Com isso, o dia passou sem maiores percalços, e para seu completo e individual deleite, Virgem conseguiu cumprir toda sua agenda com excelência.

Agora ele estava trancado em seu quarto se arrumando para a festa, enquanto ouvia Mu e Kiki fazendo a maior algazarra na sala. Até Saravá Ebó parecia miar alucinado.

Quando Saga escolheu o tema para aquela Euforia, Mu pensou bastante no que vestiria para representar seu signo. Como já esperava, a opinião unânime dos amigos e também do marido tinha sido para que fosse de carneirinho, mas esta estranhamente o irritou. Mu simplesmente não aguentava mais aquela visão "so cute" que todos tinham dele. Por isso mesmo decidiu inovar.

Conhecedor exímio da engenharia das armaduras, foi extremamente fácil para ele confeccionar uma prótese que reproduzisse exatamente as pernas traseiras de um ovino de modo que se encaixassem nas suas e lhe deixassem com o corpo perfeito de um hibrido. Tudo feito de metal. Seria um sátiro cibernético, não fosse pela lã felpuda e escura com a qual revestiu toda a prótese, deixando somente o casco fendido à mostra. Com a mesma lã costurou uma calça justa e de cós bem baixo. Sorte que não tinha pelos pubianos, ou até eles estariam à mostra... O carro chefe de sua fantasia, no entanto, eram sem dúvida o par de chifres de carneiro. Estes eram reais, belíssimos, e enormes. Ele os conseguiu com uma ida rápida às montanhas da América do Norte, lar dos carneiros selvagens, e também cemitério de inúmeras carcaças. Eram incrivelmente pesados, mas peso nunca era problema para um cavaleiro. Os prendeu em um arco e soltou os cabelos, de modo que pareciam nascer de seu próprio crânio.

Antes de subir para Virgem, já de banho tomado e vestido, Mu passou na Forja de Áries e meteu ambas as mãos na poeira negra de uma pilha de carvão. Passou aquele negrume espesso pelos ombros e também na parte superior do rosto, raiz do cabelo, testa e olhos. O contraste do escuro com o claro deixou em evidência seus lábios rosados e os dentes branquíssimos, conferindo a ele um ar feroz ao mesmo tempo que encantador.

O problema de toda aquela produção, pensada justamente para destacar sua faceta bravia de carneiro montanhês que de carneirinho doméstico não tinha nada, é que ela deu tão certo que Kiki rejeitou a fantasia de ovelha rechonchuda que haviam feito para ele. E como de bobo ele também não tinha nada, exigiu ser um sátiro imponente igual ao pai.

Ostentando seu título de rei da gambiarra, Mu trouxe para Virgem alguns materiais da sua forja e com eles improvisou próteses semelhantes às suas para Kiki. Não eram tão bem acabadas, por isso as cobriu totalmente com a lã branca da fantasia rejeitada de ovelha, colando tudo com cola quente. Usando telecinese e um pequeno martelo de moldar, confeccionou com metal bem leve dois pequenos chifres enroladinhos e os prendeu a uma tiara que ele mesmo usava às vezes. Com algumas tiras de couro, trançou braceletes e pulseiras e as colocou em Kiki e em si mesmo.

Mu fazia tudo com uma alegria e satisfação indescritíveis. E pensar que poucos meses atrás estava vivendo um inferno, temendo perder ao mesmo tempo o filho e o homem que amava. O tempo era mesmo um agente transformador; nem a tristeza constante que sentia desde a descoberta de seu passado parecia agora tão dura.

Prontos, pai e filho agora eram perfeitos sátiros da floresta à espera de...

— Papai, o Baba está demorando tanto... — reclamou um agitado e saltitante pequeno sátiro — como é a fantasia dele?

Mu, que estava terminando de modelar um punhado de borboletinhas em papel colorido, respondeu:

— Não faço ideia, filho. Ele fez o maior mistério... Por isso, só de pirraça, também não disse para ele como seria a minha.

— Hum... por isso o senhor está com o peito desnudo, né? O Baba não deixaria o senhor sair de casa com o peito desnudo se ele soubesse — observou, e muito bem observado.

— Exato! — disse Mu salvando uma borboletinha de ser iminentemente estraçalhada pelas garras peludas de um gato preto curioso. — E quando ele souber, será tarde demais!

— Ou talvez o Baba nem brigue, papai — disse Kiki indo apanhar sua flautinha de plástico deixada sobre o sofá — Ele está estranho hoje... Sabia que ele até comeu pastel na feira?

Mu olhou para Kiki de supetão, com os olhos arregalados.

— O quê? Ele comeu pastel na feira?

— Foi sim! Dois! E nem falou nada dos germes e da Manuela.

— É salmonela. — Mu o corrigiu aos risos, depois voltou-se para as borboletas de papel. — Puxa, esse evento cósmico é poderoso mesmo!

— E porque a festa de hoje só acontece a cada 33 anos, papai?

Mu suspirou e murmurou baixinho:

— Porque se acontecesse todo ano a gente ia morrer seco.

— O Kiki não ouviu.

O ariano então olhou para ele e riu da própria conclusão.

— É porque o tempo que leva para as doze constelações do zodíaco alinharem suas estrelas principais com o evento chamado Lua de Sangue, e ambos se posicionarem sobre o meridiano que marca a exata localização do Santuário na Terra, são exatos 33 anos... Nas Eras mitológicas, eles chamaram esse fenômeno de Euforia.

— O Kiki sabe o que é euforia, o Baba explicou para ele. É um sentimento, tipo a alegria, a felicidade, o entusiasmo, só que mais forte.

— Isso mesmo! É um sentimento tão forte que chega muitas vezes a ser exagerado e fora de controle, e por isso mesmo é difícil ser alcançando. Algumas pessoas até conseguem sentir euforia usando drogas, vencendo desafios, namorando...

— Namorando?

— É, bem... isso um dia você vai descobrir sozinho — disse um pouco acanhado — Mas a verdade é que através desses meios se consegue apenas breves momentos de euforia, que passam muito rápido, mas na noite de hoje, quando se é um cavaleiro, essa emoção pode durar horas. Tudo por causa do Cosmo!

— E o que tem o Cosmo a ver com isso, papai?

— O nosso poder vem das estrelas, como você sabe. Quanto maior o nosso Cosmo, maior a nossa ligação com elas, com seu poder infinito, e quando as 12 Constelações do Zodíaco alinham suas principais estrelas com a Lua de Sangue, elas... bem, elas ficam eufóricas!

— E por quê?

— Bom, imagina você passar 33 anos esperando para ‘ver’, quem sabe até ‘tocar’, o seu amigo de perto?

— Credo, é muito tempo!

— Sim, mas é no tempo das estrelas. O tempo delas é diferente do nosso tempo.

— Mesmo assim é tempo para caramba!

Mu riu divertido.

— Por isso mesmo quando Pólux e Unukalhai, as estrelas de Gêmeos e Serpente, Alrescha e Sadalsuud, as de Peixes e Aquário, e Hamal e Spica, as estrelas principais de Áries e Virgem se encontram, e não apenas essas, mas também todas as outras, a gente aqui na Terra fica meio maluco.

Kiki nessa hora deu uma alta gargalhada.

— O que foi?

— O senhor juntou as estrelas de Peixes e Aquário, mas o dindo não parece ir muito com a cara do tio Camus. Eles vivem brigando.

Mu arregalou os olhos e as maçãs de seu rosto ficaram imediatamente vermelhas.

— Ah! É mesmo, é? Eu... eu quis dizer Regulus! Alrescha e Regulus! As estrelas de Peixes e Leão.

— Mas a constelação protetora da tia Marin é Águia, então a estrela dela é a Altair, papai.

Mu sentiu o coração quase pular para fora.

— Tá vendo só como eu tô doidinho? Culpa delas, das estrelas, essas safadas! — disse, totalmente sem graça, e tratando logo de fugir daquele assunto juntou nas mãos todas as borboletas de papel que tinha feito. — Lá vai, heim!

Mu então as jogou para o alto e com sua telecinese as fez levitar em torno de suas cabeças, batendo as asas coloridas em sincronia, o que deu à fantasia deles um ar ainda mais fantástico.

— Papaaaai! Ficou muito legal! O Kiki adorou!

— É, e o Saravá Ebó também! — disse o ariano vendo o gato preto enlouquecido saltando pelo sofá na esperança de agarrar alguma borboletinha.

Eles ainda brincavam com o gato, os três correndo e saltando pela sala aos risos e gritos de alegria, quando Mu detectou a presença de Hyoga na entrada da Casa de Virgem.

— Eita, o Hyoga já chegou! — disse vibrante o lemuriano.

— Vamos, vamos! O Kiki quer mostrar a fantasia nova para ele!

Mal terminou de falar, Kiki já cruzava o pórtico que separava a sala do corredor que levava à saída do templo. O filhote de sátiro estava tão entusiasmado que Mu percebeu que ele não esperaria mais nenhum minuto pelo Baba, já que até para si estava difícil de conter a ansiedade.

E se em dias normais o perfeccionismo virginiano de Shaka muitas vezes batia de frente com sua urgência ariana, naquela noite ele sabia que não poderia encarar aquilo como um problema, já que a Euforia mexia diretamente com os instintos mais marcantes de cada signo do zodíaco.

Pensando assim, Mu julgou ser melhor não apressar Shaka — uma vez que já considerava uma vantagem tremenda o marido ter concordado em ir, e sem nenhum protesto ou crítica prévia — mas também não iria contrariar seus próprios impulsos arianos. E embora estive já enfastiado de tanto esperar, Mu não escondia o entusiasmo que lhe causava uma gostosa sensação de borboletas no estômago. Certamente Shaka estava caprichando na produção, enfeitando-se até não poder mais com as tantas joias com as quais o presenteara ao longo dos anos, perfumando-se como nunca, enrolando-se em tecidos macios e luxuosos...

Ah! Mu mal podia esperar para ver Shaka naquela noite! Deveria estar belíssimo! Um perfeito anjo, digno de representar sua constelação protetora.

Com um suspiro emocionado, Mu pendurou no pescoço uma flautinha de plástico igual a de Kiki e com telepatia avisou Shaka que subiria para o Templo do Grande Mestre junto do filho e de Hyoga, e que se encontrariam lá.

O cavaleiro de Virgem não se importou, respondendo que fossem, pois iria demorar ainda mais um pouquinho.

E se a produção já demandava tanto tempo do virginiano, que dirá a pesquisa minuciosa que ele fizera até finalmente bater o martelo.

Foram longos monólogos consigo mesmo enquanto cortava vegetais para o jantar, passando os vincos das calças de Mu, extraindo muco das pererecas amazônicas, limpando as caixas de areia do gato... “Que babaquice... Como vou de Virgem?... Devo ir de princesa presa na torre?... Freira? Santa? Anjo? Ah, tudo isso é tão clichê!”, pensava ele, e já estava a ponto de desistir de ir à festa, quando os dois grandes Oráculos que lhes davam sempre as respostas para as angustias mais mundanas — sua amada televisão e as não menos amadas novelas — lhes entregaram a solução de bandeja.

***

Templo do Grande Mestre

Na parte mais alta do monte zodiacal, o imenso pátio que servia de morada para a majestosa estátua da deusa Atena estava todo enfeitado. Flores de diversos tipos, cores e perfumes emolduravam tendas erguidas com tecidos finos azuis esvoaçantes, as quais abrigavam aconchegantes divãs e almofadas com as cores da bandeira grega. Na maior delas, uma farta bancada servia toda a sorte de frutas que se é possível conhecer, juntamente com pratos típicos da culinária grega, em especial ambrosia, muita ambrosia!

Em cada um dos quatro extremos do pátio, um telescópio noturno havia sido instalado para que se pudesse admirar o céu e ver de perto a congruência astral daquela noite, enquanto a animação estava ao encargo de um dos mais famosos Djs atenienses da atualidade, que aceitou de pronto ser levado vendado de helicóptero até o local da festa depois de receber um cachê três vezes maior do que o cobrado.

E, como não podia deixar de ser e mandava a tradição, muito vinho tinha sido encomendado para a ocasião. Barris e mais barris, que estavam distribuídos por todo o pátio para que os festeiros bebessem o quanto quisessem, ou aguentassem.

Era bem verdade que com o passar dos milênios e a ação do tempo sobre as civilizações, a farra da Euforia foi perdendo seu caráter mundano original para ganhar ares mais sóbrios. As orgias ao ar livre e os excessos deram lugar a celebrações cheias de entusiasmo, porém guardando algum recato. O único aspecto que permanecia imutável até hoje era o êxtase que essa data provocava em todos aqueles cujo Cosmo queimava em seu interior.

Êxtase este que podia ser notado de longe no rosto sorridente e surpreso de Saga ao recepcionar Mu, Camus, Kiki e Hyoga, que acabavam de chegar. Misty, Máscara da Morte e Shura já estavam ali com o geminiano, e os três se mostraram tão surpreendidos quanto ele, não apenas por verem Mu como um perfeito sátiro, uns bons centímetros mais alto do que realmente era, e também muito mais forte do que parecia quando estava devidamente vestido naquelas roupas largas do dia-a-dia, mas também porque Camus vinha ao lado dele... sorrindo.

— Bonsoir, chevaliers! Comment allez-vous? — cumprimentou o aquariano, deixando a todos chocados.

Máscara da Morte era de longe o mais perplexo. Dentro de seu humilde e despreocupado traje de caranguejo, o qual se tratava apenas de um macacão vermelho de malha com três tiras de pano coladas em cada lateral — as pernas do caranguejo — e um tiara onde esculpiu duas antenas em papelão com olhos nas pontas pintados da mesma cor, ele viu Camus tombar o jarro que trazia nos braços e encher até à boca o seu copo com vinho, então nessa hora um misto de emoções o arrebatou por completo. Sentiu-se especial, e ficou até um pouco emocionado, afinal tinha sido o primeiro a ser servido por ele, que depois também encheu o copo de Saga, de Shura e por fim de Misty. O Patriarca por sua vez, estava tão perplexo que até se esqueceu do extenuante debate do AA sobre as escapadinhas nas festas e deixou seu copo ser completado, então sobrou para Shura, que por sinal estava assombroso em sua fantasia que parecia uma mistura caótica de Baphomet com Ariel, a sereia, tirar o cavaleiro de Câncer daquele estado sensível de abstração lhe dando um cutucão nas costelas.

Já Misty não perdeu a oportunidade de puxar conversa com o francês.

— Nossa, Camus, nunca pensei que o veria assim! — disse ele com um sorriso cheio de más intenções.

— Assim, como? Nesses trajes? — Camus perguntou distraído.

— Não... feliz, descontraído, sorridente... Por sinal, o traje ficou perfeito em você.

Sempre atento, Camus correu rapidamente os olhos ao entorno. Viu que todos estavam curiosos demais com a fantasia de Mu, que lhes explicava como andava com aquelas próteses nas pernas, e que as crianças mal chegaram e já tinham saído correndo pelo pátio, então respondeu em voz baixa:

— Eu sou um homem feliz, Misty. Pode parecer que não, mas eu sou... A propósito, você está muito bem também!

Misty abriu um largo sorriso.

— Ah! Você gostou? — disse ele dando um voltinha em torno de si mesmo para exibir por inteiro a fantasia que reproduzia um lagarto, e que embora fosse bem excêntrica, exaltava ainda mais sua beleza natural. — Estou bonito?

— Sim, está muito bonito.

E como o acaso, juntamente com a coincidência, nunca dormem no ponto, eis que exatamente nessa hora Afrodite chegou ali, e para a surpresa de todos e do senso comum, mas especialmente para a surpresa de Camus, ele não estava vestido de sereia, mas de tritão, e estava deslumbrante!

Dias antes, Peixes havia pedido para Mu lhe forjar um item em metal dourado: um tridente. O resto ficaria ao seu próprio encargo. Como Hyoga estaria na festa, estava livre da obrigação de caracterizar-se como uma mulher, já que na pobre e manipulada cabeça do menino ele era uma amazona que fingia ser um cavaleiro, portanto sentiu-se livre para explorar sua faceta mais masculina, tomando alguns cuidados, claro, como não deixar o peito totalmente à mostra e cuidar de esconder bem o que tinha no meio das pernas. Sendo assim, colou escamas douradas, que ele mesmo esculpiu e pintou, desde os ombros e lateral externa dos braços até a cintura, certificando-se de que essas encobrissem muito bem seu peitoral deixando apenas o torso à mostra; vestiu uma calça de látex azul petróleo com uma trama especial que também imitava escamas e com maquiagem especial esculpiu guelras nas laterais do pescoço. Para dar a impressão de que tinha acabado de sair da água, não calçou sapatos e deixou os cabelos bem bagunçados, os finalizando com spray de brilho molhado.

Na hora em que bateu os olhos em Camus naqueles trajes de aguadeiro grego e milionário das eras mitológicas, Afrodite sentiu um calor terrível lhe subir pelas pernas. Sorte que, sabiamente, havia prendido à cintura um cinto cheio de balangandãs de contas, búzios, conchas e tiras grossas de tecido verde torcido que lembravam algas marinhas, justamente que escondessem o que não poderia aparecer de jeito nenhum; em qualquer outra ocasião comum, teria feito uso do ‘truque’, peça principal para transformar-se em Maman Di, mas a noite da Euforia não era uma ocasião comum.

— Oh là là! — disse Afrodite detendo os passos e batendo seu tridente no chão em frente a eles. — Esse aquário ruivo e deslumbrante é para peixe, ou para répteis de olhos grandes nascidos nos mangues do Tejo?

Misty revirou os olhos e suspirou.

— Tanto rancor assim vai te fazer mal para o fígado, Escamosa — disse com uma nuance de desdém, apesar do esforço para disfarçar a surpresa em ver que o pisciano conseguira ficar ainda mais bonito do que já era.

Afrodite encarou o francesinho e estalou os dedos no ar.

— Olha só quem fala! O fígado em pessoa! — disse ele.

Camus, já um pouco refeito do choque, porém não menos entusiasmado, deu um passo à frente colocando-se entre os dois.

— Mon Dieu, ma belle, você está uma delícia de peixão! — sussurrou ele correndo os olhos avelãs incendiados pelo peitoral coberto de escamas do sueco.

Afrodite mordeu os lábios diante da declaração inesperada.

— Porra, Camy, você também está um tesão — sussurrou de volta e sem perceber deu um passo à frente, quase o tocando — Não sei se vou aguentar até o fim da party para...

Súbito Misty arregalou os olhos para os amantes descontrolados e os interrompeu pegando no braço de Camus e o puxando para trás.

— Ei! Vocês ficaram loucos? — Chamou-lhes a atenção, também aos sussurros. — Eu sei que tá todo mundo eufórico, mas vocês estão dando pinta demais! O pessoal está logo ali... e... e tem alguém chegando. — apontou para o pórtico que dava acesso ao pátio.

Como se despertasse de repente de um transe, Camus piscou os olhos alarmado e rapidamente olhou para a direção apontada por Lagarto.

Afrodite fez o mesmo, virando-se para trás para ver quem vinha lá; mas até que a singular figura chegasse exatamente a poucos palmos de distância deles nenhum dos três foi capaz de reconhece-la. E quando ela abriu a boca para falar com eles, também nenhum dos três foi capaz de segurar as gargalhadas.

— Olá, guerreiros. Vim me juntar à vocês na Dungeon do Cerco à Cidadela do Patriarca Proxeneta ex-ébrio — disse ele, sério.

O que definitivamente não era nada sério era a fantasia escolhida pelo cavaleiro de Virgem; uma calça xadrez cujo cós era tão alto que chegava até quase o seu estômago e as barras tão curtas que batiam nas panturrilhas; estas encontravam-se com as meias brancas que vestiam o pés calçados por um par de sapatos pretos de couro envernizado e cadarços amarrados com laços exatamente na mesma forma e tamanho. Vestia uma camisa branca social de mangas curtas com o colarinho fechado e uma gravata borboleta azul. No bolso da camisa havia três canetas esferográficas e dois pequenos tubos de ensaio que ele pegou emprestado do laboratório improvisado em seu templo; um deles estava cheio com um líquido verde e exibia uma etiqueta onde lia-se “VIDA”, o outro ele encheu com um líquido azul, e nesse a etiqueta exibia a palavra “MANA”. O cabelo, sempre tão limpo, macio e cheio de viço, estava todo besuntado em gel e repartido ao meio. Ele puxou bem cada metade para os lados deixando o seu rosto todo à mostra, assim era possível ver as falsas acnes que salpicou na testa com lápis de contorno labial.

E para dar ainda mais veracidade ao traje escolhido, Shaka comprou na feira livre de Atenas, onde era possível achar de tudo e mais um pouco, um óculos de armação preta e quadrada com lentes falsas; estas eram tão grossas que deixavam seus olhos, naturalmente grandes, tão pequenininhos que pareciam duas bolinhas de gude azuis celeste. Ele mesmo customizou o acessório enrolando esparadrapo no aro acima do nariz. Na mesma feira achou outros dois itens que caíram como uma luva naquele visual caricato e peculiar: um aparelho ortodôntico falso, feito com plástico maleável pintado em tinta que imitava metal, e um fichário de cards com pelo menos 2 mil cartas Magic. “Não é à toa que são virgens!”. Pensou Shaka aos risos quando se olhou no espelho, pronto para a festa.

— DADÁ ME PUXAAAA! — Afrodite gritou às gargalhadas. — Ele veio de Beth, a Feia! Perfeito!

— Eu não sou a Beth, a Feia, Naga* néscia — resmungou Shaka — sou o mestre do jogo, e vou derrotar todos vocês... um por um.

— Me chamou de quê?

— De burro — Misty respondeu.

— Não, o que veio antes do burro — disse Afrodite distraidamente, mas no instante seguinte virou-se para Misty e o fuzilou com o olhar: — E eu não perguntei para você, ovo mole de reptiliano.

— Shaka, você está bem? — Camus perguntou aos risos.

— É claro que estou bem, mago. Por que não estaria?

— Será que é porque parece que você subiu as escadarias até aqui quicando com a cabeça? — disse Afrodite rindo — Não está falando coisa com coisa, meu bem.

— Ora, ora! Veja você, Naga, que fato insólito — disse Shaka olhando para o pisciano — Eu ainda nem usei a carta do espelho, mas você já está sofrendo as consequências dela sabendo como é estar no lugar das pessoas que são obrigadas a ouvir as sandices que você fala.

— Alôca! Vai me apodrecer já no começo da festa, viado?

— Não — Shaka respondeu ao mesmo tempo em que abria o fichário de cards e dele tirava uma carta. — Toma, pegue.

— O que é isso, Beth? — o sueco perguntou a tomando nas mãos.

— Esta carta me dá +10 de invisibilidade, ou seja, você não está me vendo, então não fale comigo.

— Eu estou te vendo sim — Peixes o provocou apontando o tridente para o peito dele e tocando suavemente com a ponta o mamilo coberto pela camisa.

Shaka imediatamente reagiu dando um tapa no artefato.

— Isso quem vai decidir é o dado.

— É quem, doida? — Afrodite perguntou aos risos.

— O dado.

Shaka então meteu a mão no bolso da calça e de dentro dele tirou um dado de 20 faces; o rolou sobre a superfície plana do fichário e sobre três pares de olhos tão curiosos quanto pasmos.

— Ah-há! Viu só? Você não está me vendo! — disse ele devolvendo o dado ao bolso — Regra é regra.

Dito isso Shaka separou-se deles e seguiu para o pátio sozinho, deixando os três cavaleiros pasmos com tamanha mudança de comportamento, já que, apesar daquela maluquice toda, ele nunca lhes pareceu tão simpático e comunicativo antes.

A Euforia realmente causava um rebuliço e tanto nas emoções dos cavaleiros.

Já no pátio, a primeira coisa que Shaka fez foi correr os olhos pelo salão à procura de Mu, que não foi nem um pouco difícil de encontrar, visto que a figura chamativa do lemuriano se destacava de longe, não apenas por ele estar muito mais alto, dado as próteses nas pernas e os chifres, mas por parecer uma criatura recém saída de um conto de fadas, e na sua perspectiva de marido e amante, um conto para maiores de dezoito.

— Mas que sem-vergonha! Está semi-desnudo! — murmurou mordendo a boca. Nunca imaginou, nem em suas mais mundanas fantasias, que Mu pudesse lhe parecer tão arrebatadoramente sexy e desejável como um híbrido de carneiro, e atribuiu à Euforia tal fetiche pitoresco.

Então com passos tímidos, e ignorando solenemente as risadas que chegavam aos seus ouvidos, sem conseguir tirar os olhos de seu objeto de desejo, Shaka caminhou até Mu e o surpreendeu com dois toques leves nas costas nuas; assim que o ariano se virou e seus olhos se encontraram eis que ele sorriu, exibindo seu aparelho ortodôntico medonho, e disse:

— Olá, senhor sátiro!

De tão surpreso, para não dizer perplexo, Mu abriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som.

Negrito – traduzido do russo

Naga* — uma raça de serpentes do mar humanoides e cobertas por escamas que compõem o universo de Word of Warcraft

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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

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