Notas iniciais
E as emoções continuam na festa que mal começou...

— Olá, senhor sátiro!

De tão surpreso, para não dizer perplexo, Mu abriu a boca, mas não conseguiu pensar em nada para dizer. Nem mesmo uma banal onomatopeia soluçada que traduzisse seu espanto.

— O que foi? — Shaka perguntou, segurando uma imensa vontade de rir da cara de perplexidade dele, mas conteve-se sem muito esforço. — Oh! Não me diga que algum sacerdote das sombras o silenciou com um feitiço?

— Oi? — interrogou Mu ainda mais atônito.

— Ufa! — Shaka suspirou, encenando estar aliviado. — Todavia, isso não seria um problema, já que eu tenho a carta que quebra o feitiço do silêncio, e ela me custa apenas 2 pontos de Mana, acredita?

— PELOS DEUSES, SHAKA! — Mu praticamente gritou enquanto percorria a figura à sua frente da cabeça aos pés, com os olhos arregalados e pasmos. — EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO!

Shaka finalmente riu da reação dele.

— É bom acreditar, porque eu poderia estar em casa aumentando o meu XP ou escrevendo uma fanfic bem quente do fandom que faço parte, mas decidi participar dessa Dungeon só por sua causa... Não mereço um beijinho por isso? — disse e ao fim fechou os olhos, ergueu o queixo e fez um bico.

Passado o baque inicial, como quase toda criatura que é regida pelo signo de Áries, Mu comprou a brincadeira do marido na mesma hora. Não podia negar que a princípio ficou um bocado decepcionado — para não dizer frustrado de verdade — quando viu Shaka naqueles trajes que em nada correspondiam às suas tão altas expectativas, já que estava ansioso por vê-lo coberto de joias e tecidos de luxo que exaltassem ainda mais sua beleza majestosa, entretanto, a criatividade e proposta da fantasia que ele escolhera, em poucos segundos suprimiram sua decepção e o encheram de entusiasmo.

— Seu danado! Por isso fez tanto segredo! — disse Mu enfim dando uma longa e sonora gargalhada.

O cavaleiro de Virgem nessa hora abriu os olhos e as duas bolinhas de gude azuis celestes encararam Áries com um olhar penetrante.

— O que foi? Não gostou da minha Skin?

— Pelo contrário! — Mu respondeu. — Está perfeita, Luz da minha vida! Eu não acredito que nem suspeitei.

— Ah, e como poderia suspeitar? O senhor dorme nos capítulos da novela, senhor sátiro, caso contrário, saberia que me inspirei no Kabidhe, de Azevinhas do Destino.

— Sim, o Kabidhe! O nerd jogador de RPG! — disse Mu eufórico.

— Ele mesmo, o fã de Pokemon. — Shaka respondeu com uma piscadinha e um beliscão no mamilo exposto dele, o que fez Mu arrepiar-se e encolher os ombros em reflexo.

— Aow... Virgem em essência! — disse Mu rindo. — Mais perfeito que isso impossível.

— O senhor também está perfeito, senhor sátiro — disse Shaka dando um passo à frente. — Eu esperava encontrar uma ovelha fofa e rechonchuda e acabei me deparando com um carneiro sem-vergonha.

— Gostou?

— Sim... gostei muito!

— Então parece que eu não sou o único sem-vergonha aqui.

Shaka deu um risinho cheio de malícia e plásticos pintados com tinta que imitava metal, depois voltou a perguntar fazendo um bico:

— E o meu beijo?

Então Mu finalmente o abraçou e inclinou-se na intenção de beija-lo, mas toda vez que encarava seu rosto era obrigado a recuar acometido por um ataque incontrolável de risadas.

— Não dá, Sha... a barreira que está protegendo a sua virgindade é forte demais — disse ele quase chorando de tanto rir.

— Ela é nível 100! — Shaka respondeu. — Mas eu sei que o senhor pode quebra-la.

Mu fez uma nova tentativa; conseguiu encostar os lábios nos dele, mas no exato momento Shaka sorriu exibindo o aparelho odontológico falso e o fazendo recuar às gargalhadas.

— Não, ela é forte demais para mim, eu não consigo... Pelos deuses, Sha, olha o seu cabelo, que horror!

Bem nessa hora, um tinido metálico e ritmado que lembravam os passos de um maratonista na reta de chegada, chamaram a atenção de Shaka e o fizeram virar-se para trás. Foi só o tempo de olhar para pequena criatura que se aproximava e abrir os braços para recebe-la em seu colo.

— Babaaaaaaaaa — disse exultante Kiki enquanto abraçava o pai indiano com cuidado para não acerta-lo com a flauta que trazia em uma mão e nem com o copo de refrigerante que trazia na outra. — O senhor veio de Kabidhe!

Shaka abaixou a cabeça e olhou para Mu por cima da armação preta dos óculos; suas sobrancelhas finas formaram um arco.

— Ah! Tão mais jovem que o seu pai, e tão mais sagaz! — disse debochando do marido em tom de brincadeira, depois voltou-se para Kiki e emendou: — Olha só para você! A minha pequena ovelhinha atingiu sua primeira evolução e agora é um mini sátiro! Que orgulho!

— O Kiki tem pernas de carneiro igual do papai!

— Estou vendo! Você está incrível, filho!

— E o Baba está engraçado — disse Kiki rindo, depois perguntou: — Por que veio de Kabidhe para o bacanal?

Mu, que estava ao lado deles, caso não estivesse bem firme e confortável no alto de suas próteses, teria caído com o soco que sentiu no peito quando ouviu o filho fazer aquela pergunta.

— Que isso, meu filho? — disse constrangido o ariano, suas bochechas ganhando um tom rosado forte — Quem te falou que isso aqui é um... é isso aí que você disse?

— O Baba — Kiki respondeu tranquilamente.

Mu suspirou e lançou um olhar reprovador para Shaka, que a que a essa altura estava mais vermelho do que o vinho nas taças dos convidados.

— Por que eu não estou surpreso? — disse ele.

Shaka defendeu-se.

— Ele ouviu isso do Baiacu Beijoqueiro e me perguntou o que era e eu disse a verdade, oras... que era uma festa cheia de gente bacana — falou, depois olhou sério para Kiki. — Mas eu também disse que não era para o pequeno sátiro ficar falando essa palavra, porque ela é chula. Lembra?

— Bacanal? — disse Kiki rindo.

— Kirian!

— E por que ela é chula, Baba?

— Porque sim, porque eu quero e porque eu mandei não dizer. E parou por aqui — disse Shaka encerrando o assunto.

Mu suspirou.

— E por que o Baba veio de Kabidhe? Aliás, por que o Kabidhe representa a constelação de Virgem?

Não vendo saída, e também para não correr o risco de dar mais uma resposta absurda para os constrangedores questionamentos que Kiki sempre lhe fazia, Shaka o passou para o colo de Mu e ensaiou uma saída à francesa.

— Toma, pegue a sua cria, senhor sátiro, e por favor complete essa Quest para mim que eu vou pegar uma poção mágica dessas que estão distribuindo para os guerreiros, depois vou cumprimentar o líder da cidadela — disse deixando os dois ali para ir atrás de uma taça de vinho.

Sozinhos, Mu e Kiki se entreolharam sérios. O pequeno esperando sua resposta e o cavaleiro buscando o jeito mais simples, didático e menos constrangedor de dá-la.

— Bom... então... — começou ele — você sabe que virgem é a palavra usada para designar uma dama ou uma santa, algumas deusas, como Ártemis e Atena, por exemplo... isso porque, bem... — fez uma pausa e então mudou de direção: — Filhote, lembra quando papai explicou sobre os meninos e as meninas e como nascem os bebês? Que a menina tem um vasinho dentro do corpo dela e o menino tem as sementinhas dentro do dele, e então o menino planta a sementinha dele no vasinho da menina e...

— Papai, o nome disso é coito.

Mu arregalou os olhos, e Kiki sem cerimônia alguma prosseguiu:

— O Kiki sabe como os bebês são feitos.

— Ah, sabe é?

— Sim. O Hyoga contou para ele.

— Epa! Eu achava que vocês conversavam sobre Mario Bros e aqueles desenhos japoneses barulhentos onde os caras vencem as batalhas no grito.

— A gente conversa disso também — disse Kiki — Mas o que tem a ver o coito com o Baba estar de Kabidhe?

— Ah, bom... é que... é que virgem também é o nome que se dá para uma pessoa que nunca praticou o coito.

— Por que?

— Bem... por vários motivos, porque ela é jovem demais ainda para isso, que é o seu caso e eu espero por todos os deuses que também seja o do Hyoga... ou porque só escolheu não fazer.

— Por que?

— Ah, filhote, porque... por vários motivos, tipo, escolha pessoal, religião e crença, porque está esperando para fazer com a pessoa certa na hora certa... ou... porque ficou anos isolado sozinho numa torre no Himalaia...

Parecendo pensativo, Kiki olhou para Shaka enquanto este apanhava um copo com suco de uva da bandeja de um dos servos que naquela noite estava ali para atender aos pedidos dos convidados, então momentos depois de uma breve análise, na qual uniu as informações novas dada pelo pai com as que já tinha em seu acervo mental, concluiu:

— O Kiki entendeu, papai... vestido daquele jeito e parecendo um doido, ninguém ia querer praticar o coito com o Baba, por isso ele tá de virgem.

Mu deu uma sonora risada.

— Exatamente! — disse ele pondo Kiki no chão. — Agora vá aproveitar a sua primeira Euforia porque a próxima só daqui a 33 anos!

Nem foi preciso dizer. Mal seus casquinhos de metal tocaram o chão, o serelepe filhote de sátiro saiu saltitando pelo pátio tocando sua flautinha. Foi em direção a Afrodite, que o recebeu com passinhos de dança ao som desafinado do instrumento tocado sem nenhuma aptidão e com uma saraivada de beijos em ambas as bochechas. Peixes compensava em Kiki todo o amor e afeto que também desejava dar a Hyoga mas não podia. Não em público.

Ver Hyoga vestido com o tutu de Natássia, e radiante de alegria como se tivesse mesmo trazido a mãe para aquela celebração com ele, deixou Afrodite exultante de felicidade. Era uma homenagem inocente, pura, cheia de amor, como desejava que fosse a vida de Hyoga. O amor pleno ele sabia que podia garantir, já o resto...

Em contrapartida, para Hyoga não havia criatura mais pura nesse mundo que aquela que seu coração escolheu como mãe. Não importava que esta estivesse vestida numa lindíssima, porém masculina, fantasia de tritão que infelizmente, porém necessariamente, ocultava o que ela tinha de mais doce, sua feminilidade e meiguice. De certa forma, Hyoga pensava que deveria ser grato à misoginia e ao machismo das tradições milenares gregas que perduraram até os dias atuais, pois que assim, toda pureza e doçura femininas de Afrodite eram privilégios só seus e de Camus, embora ele sonhava em um dia tornar-se Patriarca apenas para poder derrubar aquela convenção estúpida que impedia o ingresso de mulheres na seleta hierarquia mais nobre dos exércitos de Atena.

Era nisso que Hyoga pensava enquanto via Afrodite caminhar em sua direção junto de Kiki, ambos sorridentes e festivos. Quando chegaram onde estava, ele cumprimentou a “amazona” com um sorriso formal e uma sutil mesura, elogiando a fantasia escolhida e o quão bem a vestia, mas foi surpreendido por um abraço forte e uma fungada longa em seus cabelos.

— Maman! — Hyoga cochichou próximo ao ouvido da “amazona” enquanto era espremido por ela. — O que está fazendo?

— Nem um terço do que eu gostaria realmente de fazer — Peixes cochichou de volta — que seria cobrir de beijos esse meu cisne fofucho, gostoso, cheiroso, ai Dadá me segura! Você está a coisa mais lindinha desse mundo, filho!

A risada alegre de Kiki ao lado deles despertou o juízo de Afrodite, que imediatamente soltou Hyoga e tentou disfarçar:

— Desculpa, miniatura de Camus, mas é que vocês dois estão tão fofos que não resisti — riu sem graça e em seguida tratou logo de arrumar uma desculpa para sair dali — Bem, eu... eu vou dar um pivô e ver como tá a caçação*. Juízo, heim, crianças!... Fui!

O melhor a fazer mesmo era manter-se longe de Hyoga e de Camus durante a noite toda para não cair em tentação, e pensando justamente nisso Afrodite respirou fundo e caminhou pelo pátio, a princípio sem rumo, mas com os olhos colados em Camus ao longe, que surpreendentemente sorridente servia vinho de seu jarro de bronze para os colegas, depois observando os convidados recém-chegados. Viu Aiolia ostentando uma belíssima fantasia que parecia remeter a Alexandre III, o rei da Macedônia, ou como ficou conhecido na História, Alexandre o Grande. Não podia negar que o personagem casou perfeitamente ao vaidoso e orgulhoso guardião da 5ª Casa; uma cabeça de leão, com sua vultosa juba dourada, cobria-lhe a parte superior do rosto e descia pelas costas e ombros, estes adornados com luxuosas joias de ouro puro. O metal reluzente também estava presente nos braceletes e num cinto que segurava um saiote grego branco, a única peça de tecido que lhe cobria o corpo perfeitamente esculpido por anos de treinamento e autoestima invejável. Ao seu lado, e de mãos dadas, Marin vinha bem menos presunçosa. Estava lindíssima dentro de um vestido branco justo que marcava sua silhueta vigorosa de amazona, mas sem deixar de lado a delicadeza feminina. Este tinha uma cauda longa que lembrava a de uma águia em pleno voo e que casava com as mangas que imitavam asas. O tecido todo bordado com cristais a faziam brilhar como um diamante raro, ainda que o elemento de maior brilho na composição fosse seu olhar de genuína felicidade.

O casal parou para cumprimentar Máscara da Morte, Shura e mais alguns cavaleiros de Prata; Afrodite não conseguiu deixar de reparar na formalidade com que se davam tais cumprimentos. Parecia que a hostilidade de Leão com Capricórnio nunca deixaria de existir mesmo. Bem diferente do que acontecia com as duas figuras mais ao fundo.

Saga não se lembrava como era dar uma boa gargalhada desde que voltou a ser dono de si mesmo, quando recuperou sua consciência usurpada pelo que existia de pior dentro de sua mente. Era certo que muitas vezes até evitava rir com demasiado entusiasmo, para não assustar Geisty, que dizia sentir arrepios de suas gargalhadas insanas, já que essas eram frequentes quando era o Outro que estava “no comando”, e também para não causar o mesmo sentimento nos amigos e colocar em dúvida sua melhora. Mas ver Shaka naquela noite foi demais. Nem que lhe rebocassem a boca com dez quilos de cimento ele seria capaz de segurar as gargalhadas arrepiantes.

— Pelo corno chifrudo do Hades e todos os traíras mais sujos da bosta do Cocito! — disse o Patriarca enquanto seu riso insano ecoava pelo pátio. Seus olhos arregalados não conseguiam desviar da figura de pé em sua frente, que permanecia séria e serena — Mas é o virgem dos virgens! O suprassumo do cabaço!

Shaka ajeitou, no rosto impassível, os óculos de lentes fundo de garrafa, deu um gole no suco de uva que trazia na mão e disse:

— Antes virgem do que ébrio e desequilibrado, afinal, virgindade tem solução.

Saga levantou o balde com gelo, que trazia consigo uma foto sua colada e que fazia parte de sua fantasia, até quase à altura do rosto de Shaka.

— Para o seu governo, vício também tem solução, e ébrio é a sua bunda de grilo! Tá vendo alguma bebida alcoólica aqui, seu impertinente? — disse apontando para as várias garrafinhas de chá e refrigerante metidas no gelo triturado dentro do balde. — Eu não bebo mais, como você bem sabe, logo, não pode mais me chamar de ébrio.

— E de desequilibrado? — disse Shaka.

— Também não. Estou em tratamento, e pelo que estou vendo, ando mais são do que você.

Shaka estreitou os olhos o encarando firme, então para a surpresa de Saga ele tirou o dado D20 do bolso da calça e fez o grego segurar seu fichário de cartas Magic na horizontal para poder joga-lo sobre ele. Rolou o dado duas vezes.

— Hum... exatamente como eu esperava — disse Shaka olhando muito sério para o número tirado.

— O quê? — Saga perguntou curioso.

— Deu 11 nas duas jogadas, o que contabiliza 22, o número do louco.

— Vá para o caralho, Shaka!

— Ora, não sou eu que estou dizendo, Patriarca da Cidadela, é o dado, e a lei do dado é cânone e universal. Isso quer dizer que você pode até estar bebendo dessa poção sem feitiço etílico, o que faz de você abstêmio, porém continua sendo louco.

Saga estava boquiaberto.

— Hã? — fez ele sem entender nada e estranhando o comportamento do virginiano.

Shaka pegou de volta seu fichário, guardou o dado no bolso da calça e novamente ajeitou os óculos no rosto.

— Bem, aproveite enquanto pode essa confraternização, porque assim que chegar a ladina de Serpente e o meu time estiver completo, as suas horas estarão contadas. Mas... até que a batalha se inicie... — fez uma pausa no que abriu o fichário e tirou dele uma carta, a entregando a Saga. — Fique com essa carta.

Gêmeos a apanhou meio receoso. A preocupação, no entanto, não vinha do objeto em si, tampouco da pseudo ameaça de Shaka, mas de seu comportamento para lá de esquisito e incomum, para não falar daquele discurso de maluco completo.

— Enquanto estiver de posse desta carta, todo feitiço de discórdia, discussões irrisórias ou mal entendidos serão anulados, porque ela te dá +3 de Carisma.

Saga olhou para a carta em sua mão, depois para Shaka e repetiu a ação outras duas vezes antes de desatinar a rir novamente.

— Se eu não te conhecesse bem, Shaka, até diria que o bêbado hoje aqui é você, mas quando você era criança você adorava brincar de criar histórias na sua cabeça e interpretar papéis dentro delas, lembra disso? — disse Saga guardando a carta dentro de sua faixa na cintura. — Teve até uma vez que você inventou uma história de piratas em que o Kanon era o navio inimigo e você era o canhão que precisava derruba-lo, então toda vez que você o via atirava pedras nele. — Saga riu alto, chacoalhando os ombros — Ah, ele ficava louco de raiva!

— Bom... eu não estava de todo errado, não é mesmo? — disse Shaka rindo junto dele. — Nem quanto a ele ser o inimigo, tampouco quanto a ser um escamoteador pérfido do capital alheio.

— Não só do capital, mas da mulher alheia também — Saga concluiu com um suspiro. — Mas, não falemos dos mortos hoje e sim dos vivos... Eu te agradeço por me fazer resgatar uma memória do passado tão querida, e fico feliz em vê-lo assim animado, descontraído, mais próximo do que seria uma pessoa normal mesmo, e tudo sem precisar de uma gota de álcool, penso eu.

— Meu caro, diferente de você, eu não tenho vício etílico nenhum... Ademais, como Mestre desse jogo, não posso deixar que entorpecente nenhum prejudique a minha cognição e consequentemente o andamento da partida, mas... — fez uma pausa dramática no que inclinou-se para a frente e emendou num sussurro: — Você está certo! A minha desenvoltura esta noite advém, sim, de um artifício à parte.

Saga arregalou os olhos, já exultante de curiosidade.

— Sabia! Você não me engana, Virgem! — disse ele como se comemorasse um gol da seleção grega na EuroCopa. — E qual é?

Shaka aproximou-se mais, guardou o fichados de cards debaixo do braço e pediu a ele que se inclinasse para poder cochichar em seu ouvido.

— Se prometer não contar a ninguém eu revelo a você o meu segredo — disse.

Saga esfregou as mãos impaciente, que àquela altura já suavam em expectativa.

— Não conto! Prometo!

— Ok... — disse Shaka, então ajeitou com a língua o falso aparelho em seus dentes, apenas para deixar o grego ainda mais ansioso, depois aproximou a boca da orelha dele e usando a mão para insinuar que não queria ninguém lendo seus lábios, sussurrou: — Eu estou sem ceroulas, porque por baixo da minha calça estou usando os Calçotes Hipnóticos do Enganador, que está encantado com O Pacto da Versatilidade. Me custou mil Cinzas da Alma e dez gemas prismáticas, mas que no fim valeu a pena porque aumenta em 90% o meu espírito.

Saga endireitou a postura e lançou para ele um olhar que causaria medo ao próprio Hades no Submundo.

— Para o inferno, Shaka de Virgem, seu... seu... — esbravejou querendo poder xinga-lo de corno, sua ofensa preferida, mas não bastasse soar apenas como uma palavra jogada ao vento, uma vez que tinha certeza que Shaka nunca seria corno, também tinha apresso à própria vida; por fim desabafou: — Seu esquisito! Vá te catar!

Shaka desatinou a rir e bem nessa hora Mu chegou ali e o puxou pela cintura.

— Deixa que eu cato ele — disse o lemuriano, que finalmente, e depois de rir muito já, conseguiu dar um selinho nos lábios levemente mais grossos devido ao aparelho falso. — Pronto. Uma bitoquinha é o máximo que consigo penetrar na barreira que protege a sua virgindade hoje.

— Ah, eu sei que pode mais do que isso — provocou o virginiano passando a língua nos dentes cobertos pelo aparelho falso medonho — vamos, cadê sua bravura?

— Se quiser mais do que isso vai ter que se desfazer de alguns itens lendários, em especial desses Lunettes na sua cara e da Arcada Dentária do Abominito, ou então pode esperar até que o Gênio que mora no álcool turve a visão deste pobre sátiro sedento.

Saga respirou fundo e rindo de chacoalhar os ombros concluiu em voz alta:

— Ah pronto!... Eu vou é tratar de ficar longe de vocês dois essa noite. Eu tomo remédios controlados para me manter na realidade e vocês estão querendo me tirar dela.

Mal Saga virou-se para seguir para uma outra parte do pátio, a chegada da figura mais esperada por ele naquela noite fez seus dedos amolecerem e deixar o balde que carregava consigo cair, os pés enraizarem no chão, o coração saltar dentro do peito, o estômago gelar de tal maneira como só sentiu algumas vezes quando era adolescente, e os olhos brilharem; Geisty acabava de chegar.

***

Minutos antes, nos aposentos do Grande Mestre...

Com as pernas separadas, os pés equilibrados em um par de saltos agulha e as palmas das mãos coladas no chão, Geisty prendia o ar e se mantinha firme na posição, seguindo aplicadamente as instruções do personal stylist, nas horas vagas, Ágador, o servo pessoal de Afrodite. Fora o próprio sueco quem o indicara, isso porque, além de servo, Ágador ocasionalmente atuava também como seu costureiro, estilista, entusiasta de moda, exímio maquiador, além de competentíssimo cabelereiro. Não podendo ele mesmo ajudar a amiga amazona a se arrumar naquela noite, pois que tinha suas 398 escamas para colar no próprio corpo, seu servo multifacetado tornou-se a melhor, e única, opção.

Geisty por sua vez, aceitou sem titubear, embora sentira-se bastante inclinada a dispensar o rapaz assim que ele chegou ali para dar início aos trabalhos. Isto porque ele estava praticamente nu. A amazona já o conhecia há bastante tempo, da Casa de Peixes, tanto ele quanto a tanguinha vermelha minúscula fio-dental que usava como uniforme de trabalho, portanto sua surpresa não vinha desta, mas do fato de parecer uma sina com a qual precisaria lidar, pelo visto, a vida toda: gente com problemas com roupas, a começar com o próprio marido.

E problemas com roupas era exatamente o que ela tinha naquele momento. A escolha da fantasia que representava sua constelação exigia dela o contorcionismo próprio das serpentes para ser vestida, e embora para ela isso não fosse exatamente um problema, ainda assim era preciso apelar para outros artifícios extras, como besuntar o corpo todo com hidratante à base de óleo essencial de rosas para conseguir deslizar para dentro daquela segunda pele púrpura tecida em renda finíssima e bordada com escamas prismáticas que imitavam couro de cobra. Mesmo já dentro da fantasia, haviam partes que só poderiam ser costuradas no corpo, e aí é que entrava o talento nato de Ágador, que com uma agulha vinha cingindo o traje desde os pés até as pontinhas dos dedos das mãos e todo o pescoço, deixando de fora somente a cabeça. Uma tarefa nada simples, que exigia concentração do servo e paciência da amazona, ainda mais nos últimos centímetros que faltavam para fechar as costas do traje, na altura da coluna lombar, onde tamanha era a dificuldade e demora que falar que aquilo estava sendo uma Odisseia seria considerado um elogio.

— Prende a respiração, aperta as tetas no lugar e empina bem a bunda, já estou quase terminando — disse Ágador, que suava em bicas, os cabelos pretos levemente encaracolados da franja grudando na testa.

— Uhum...

— Ai, não está fechando, mulher.... vou dar mais uma puxadinha aqui atrás — avisou depois de já ter dado o puxão.

— Aaaaaaiii! — Geisty reclamou, injuriada, olhando entre as próprias pernas na esperança de trocar um olhar com Ágador e através deste lhe pedir clemência, mas tudo o que viu foi a tanga vermelho bombeiro lhe dando “oi” à queima-roupa. Ela fechou os olhos imediatamente e lamentou: — Estou no meu limite... se puxar mais do que isso vou sentir o gosto da renda!

— Não fala, gata, ou a roupa não fechãn!... Ain, será que tomei as suas medidas erradas?

— Mmmmmm...

— Benza Atena, que traseiro enorme! O Grande Mestre tá mais do que bem servido!

— Pelo amor da deusa, só termina logo com isso... — suplicou a amazona com o rosto rubro voltado para o chão.

— Pronto, terminei!

— Atena seja louvada! — Geisty suspirou endireitando-se e já caminhando apressada para a penteadeira. — Já estou mais do que atrasada!

Ágador a ajudava agora a ajeitar a franja e a enorme e volumosa trança, caprichosamente aplicada em seus cabelos, que abandonaram temporariamente o visual Chanel e que somado à maquiagem perfeita em tons de grafite, roxo, púrpura e verde iridescente dava ao seu rosto um ar soturno e provocante, exatamente como pedia a sua constelação. Composições que depois de prontas imprimiram em Geisty a sensação de mal conseguir reconhecer-se no reflexo do espelho.

— E então, tá babado não tá? — Ágador perguntou animado, mantendo os pulsos dobrados apoiados à cintura nua.

— Está... incrível! — disse Geisty analisando seu reflexo enquanto corria as mãos pelo corpo sentindo o toque da renda fina e das escamas, as quais ajustadas milimetricamente pareciam até coladas em sua pele, escondendo somente o essencial, os mamilos e sua intimidade, protegida por baixo por um tecido nude apenas. — Afrodite estava certo, você tem muito talento!

— Quem tem talento é ela, meu bem! Eu só aprimorei o que a bicha me ensinou por anos — disse Ágador com um suspiro. — Ai, bons tempos quando Afrodite era uma safada...

Geisty riu.

— Continua sendo, né... só que agora é a safada exclusiva do cafajeste que banca ele com o dinheiro da esposa baranga e doente... — disse ela, e voltou-se para seu reflexo no espelho. — Mas, eu sinceramente espero que os bons tempos sejam aqueles que começarão a partir de agora.

Eles trocaram um olhar e um sorriso amistoso. Ágador sabia bem ao que ela se referia. E ali, no Santuário, quem é que não sabia? Havia, em especial naquela noite, um desejo de todos de que o passado de Saga e de Geisty ficasse de uma vez nos dias conturbados e sombrios que já se foram, e que o presente pudesse ser um abre-alas auspicioso para as alegrias e conquistas futuras.

Querendo mudar de assunto rapidamente para não dar chance à melancolia, Geisty falou animada:

— Parece que eu estou pelada... em outra cor e em couro de cobra, mas ainda assim pelada — riu de si mesma.

— Assim que é bom! Abaixo à ditadura das roupas e dos sapatos! Eu nunca quero vestir uma calça na minha vida! — disse Ágador.

— Saga concorda com você. Ele só não anda pelado por aí porque graças à deusa ainda existe uma faísca de juízo naquela cabeça doida dele.

— O que é uma pena... — Ágador lamentou, e na mesma hora, embaraçado por ter dito o que não devia, desconversou: — Ai pelos deuses! Eu já ia me esquecendo do toque final!

O toque final era um elmo lindíssimo esculpido em metal dourado no formado de uma cabeça de serpente com uma bocarra aberta, o qual fora comprado em uma loja de antiguidades, e um gizo feito com o próprio chocalho da cauda de uma cascavel. Este Ágador prendeu na ponta da trança do cabelo de Geisty.

— Agora sim, está um luxo! — disse o servo.

— Obrigada, mas... Ágador, não estou conseguindo encontrar o fecho — disse a amazona tateando as costas.

— Fecho?

— Sim, o fecho da roupa, para abrir... e fechar...

— Não tem fecho — disse ele com o rosto lívido.

— Não tem fecho?! — Ela se voltou para ele espantada. — Como assim, não tem fecho? Como eu vou abrir essa roupa?

— Ué! Como assim, você vai abrir? Rasgando, igual embalagem de presente.

— Quê?! Misericórdia!... Ágador, e para mijar? Como eu vou tirar a roupa para mijar? Porque uma hora eu vou precisar mijar, porque eu pretendo entornar hoje, sair daqui pior do que em dia de promoção de happy hour no Piriquitão, às quintas-feiras — agitava as mãos no ar como se pudesse com elas também expressar seu desespero.

Os dois se olharam perplexos.

— Eu não... não pensei nisso.

— Pela deusa, você deve ser um irmão do Afrodite separado na maternidade! — Ela suspirou, resignada. — Enfim... seja o que os deuses quiserem! Tem uma festa lá fora me esperando e eu já estou mais do que atrasada. É só eu não beber muito e está tudo certo. Muito obrigada por seus serviços, e que Atena me ajude nessa!

Apressada, Geisty deixou o quarto já correndo em direção ao corredor que levava ao pátio, onde praticamente todos já estavam. Ao chegar lá, tudo estava surpreendentemente melhor do que imaginara, a música animada, a energia contagiante do ambiente e a alegria exalando de todos, assim como dela própria. Aquela era uma noite especial para todos, mas para ela e Saga tinha um significado ainda mais estimado, era uma comemoração íntima que selava um novo marco em suas vidas, e que preferiram manter em segredo por enquanto, mas com a certeza de que não podiam ter escolhido melhor data.

Alegre, ela correu os olhos pelo ambiente e por um tempo ficou só a observar exultante cada amigo seu que ali estava, sentindo um amor imenso aqueça-la por dentro, até que de repente percebeu-se atraída por uma energia ímpar já tão conhecida sua. Na outra ponta do salão, em meio ao tumulto de gente, luzes, cores e sorrisos o de Saga se destacava, estampado no rosto que transbordava felicidade. Seus olhos violetas então encontraram os verde jade que olhavam para si com tanta paixão e admiração que não pôde deixar de se contagiar; em resposta devolveu a ele os mesmos sentimentos através do sorriso delineado nos lábios tintos em batom púrpura. Sem desmancha-lo ela seguiu na direção dele, com passos charmosos, enquanto Saga se mantinha congelado no mesmo lugar, apaixonado demais para ser capaz de mexer-se.

Quando chegou até ele só então Geisty conseguiu ver com mais clareza sua fantasia. De longe, e talvez por influência dos astros, apenas tinha notado o quanto ele estava atraente, sexy e irresistível naquela lycra lhe marcando todos os músculos, mas ao chegar bem perto reparou nas maria-chiquinhas desalinhadas, no escudo desenhado no peito, nas botas e luvas engraçadas e então matou a charada. O marido não perdia a mania de surpreende-la em suas escolhas toscas para fantasias. Talvez fosse um talento nato do qual ele se orgulhava, e que sempre arrancava risadas de todos e suas.

— Amore mio, Jayna?! — Ela disse às gargalhadas. — Dessa vez você se superou!

Saga devolveu a risada.

— Gostou? — disse fazendo a pose da heroína, erguendo o punho.

— Ma che porca madonna, é claro que gostei! Está linda! — brincou.

— Linda está você, pelos deuses! Ou melhor, conseguiu ficar ainda mais linda do que sempre foi! — Ele disse correndo os olhos pelo corpo esculpido estampado em renda. — Eu nunca imaginei que a Constelação de Serpente um dia fosse me dar um presente belíssimo desse.

Saga então a abraçou pela cintura e a apertou forte contra seu peito, encostando seus narizes como que para certificar-se de que ela era mesmo real, de que não se tratava de uma miragem ou um delírio de sua cabeça confusa. Por fim deu um beijo apaixonado nos lábios dela sendo correspondido à altura.

— Hmmm... deuses eu quero ir embora dessa festa e passar o resto da noite desfrutando dessa constelação maravilhosa, na nossa casa. — Gêmeos sussurrou ainda junto aos lábios dela. Sentia corpo trêmulo de excitação.

— Ainda não, meu querido Super Gêmeo — respondeu Geisty num tom envolvente — acabei de chegar e quero aproveitar a festa. Poxa, ela só acontece a cada trinta e três anos! Mais tarde faremos nossa própria comemoração, em casa, do jeito que só nós dois sabemos fazer... — pontuou, dando uma mordiscada no queixo perfumado recém-barbeado.

— Ah... não faz assim, eu estou de colant e começando a ficar numa situação difícil aqui — murmurou Saga, que não resistindo desceu as mãos para as nádegas dela e deu um forte apertão.

— Eu sei... eu estou sentindo! — disse Geisty dando uma risada e sentindo um calor fora do comum subir-lhe pelas pernas.

— Cacete! Você está tão gostosa nessa roupa... Humm, dá para sentir sua pele todinha...

— Pela deusa, embora esta roupa esteja hilária em você, você também está um tesão, Saga. — Ela disse entre suspiros percebendo o coração acelerar e os mamilos formigarem excitados.

Antes que cometesse uma loucura e colocasse o geminiano em maus lençóis, Geisty desvencilhou-se dele recuando um passo, apenas segurando em sua mão. Saga entendeu prontamente o recado e respirou fundo, esquecendo momentaneamente do reboliço hormonal que o acometia. A amazona tentou então desviar o foco puxando qualquer outro assunto que não alimentasse o voraz apetite sexual de ambos.

— Ma cazzo, eu tenho até medo de perguntar, mas cadê o seu gêmeo? Porque se tem uma Jayna tem que ter um Zan!

— Ah! Que bom que você perguntou! Deixa te apresentar o meu gêmeo — disse ele e alegre abaixou-se recolhendo do chão o balde esquecido e o erguendo na altura do rosto dela. — Amore mio, diga oi para o Zan!

A amazona não conteve a gargalhada.

— Madonna mia, Saga! Não! Não, acredito!

— Acredite!

— Você é mesmo o rei das ideias toscas! — disse ela, e reparou na foto colada no balde. — É a sua cara no balde!

— Minha não, do Zan! E ele é um balde de gelo muito útil, porque mantem as minhas bebidas sempre geladas. Aceita um chá de pêssego geladinho? Uma Coca-Cola?

— Não, obrigada. — Ela respondeu ainda às gargalhadas. — Eu prefiro não manter muito contato com nada que venha do Zan, sabe. Aceito uma taça de vinho!

— Uma taça de vinho... sim, eu peguei uma a pouco tempo pensando em você, amore mio, mas não lembro onde a deixei... — disse olhando em sua volta procurando pelo item — mas já aconteceram muitas coisas enquanto você não chegava, sabe?

— Você bebeu vinho, Saga? — questionou a italiana tentando disfarçar a pontada de preocupação.

— Claro que não! Eu só perdi mesmo, mas não tem problema. A gente pega mais direto na fonte... Camus! — disse ele gritando e acenando para o aquariano que passava perto dali, para surpresa total de Geisty.

— Ah, não! — Ela o repreendeu dramaticamente. — Por que está chamando aquele porco para cá?

— Porque a fantasia dele é do aguador, e dentro daquele jarro está o melhor vinho da festa!... Eu não provei, claro, mas soube por fontes mais do que seguras!

— Hum, deixa eu adivinhar... Mu, Máscara da Morte e Shura.

— Pois é, depois o único bêbado desse Santuário sou eu...

Geisty riu da expressão de inconformismo que tomou o rosto dele.

— Bem, pode até ser o melhor vinho, mas ainda assim eu prefiro o servido pelo garçom mesmo — disse ela já erguendo a mão de longas unhas esmaltadas em púrpura.

Saga pegou na mão dela e abaixo-lhe gentilmente o braço a trazendo para perto de si.

— Me desculpe — disse ele olhando profundamente nos olhos dela enquanto lhe acariciava o rosto — eu me deixei levar pelo entusiasmo e acabei desrespeitando você, os seus sentimentos... Eu finalmente ter me acertado com o Camus nesses últimos dias não apaga da minha memória que fui conivente com o que ele fez a você no passado, e me condeno tanto por isso... Eu sinto muito mesmo... Apenas quis que, como uma apreciadora de vinhos, você provasse o que ele trouxe para a festa.

Geisty inclinou-se para junto dele e beijou delicadamente seus lábios.

— Pois não se condene, não mais — disse com um sorriso sincero — eu sei que você, Saga, o garoto que conheci quando ainda nem pensava em um dia tirar a minha máscara e me permitir amar alguém de verdade, teria feito tudo diferente... No passado, você fez o que pôde, eu fiz o que pude e todos nós chegamos até aqui assim, fazendo o que estava ao nosso alcance. Agora temos uma nova chance e daremos o nosso melhor! É para isso que estamos aqui hoje, para recomeçar do zero.

— Eu te amo tanto — disse Saga a abraçando com força.

— Eu também te amo, amore mio — Geisty suspirou feliz, então disse baixinho próximo ao ouvido dele: — Sobre o vinho do porco franco-russo sardento, os rapazes disseram que é bom mesmo?

— Disseram que é simplesmente esplêndido!

Geisty sentiu a boca salivar.

— Mama mia! Nesse caso, você bem que podia pegar uma taça para mim, né? Mas sem deixar ele saber, assim, como quem não quer nada...

— Mas é claro que eu pego — disse Saga prontamente levantando a cabeça e correndo os olhos pelo salão à procura de Camus.

No entanto, bem nessa hora o casal foi rodeado pelos amigos que vieram cumprimentar Geisty e ver em detalhes sua belíssima fantasia. Afrodite, tão certo quanto o nascer do sol, teria sido de longe o mais empolgado, isso se estivesse ali.

Quando percebeu a chegada da amazona, Peixes imediatamente pensou em correr até ela para ver de perto a obra de arte de seu servo Ágador e também cumprimentar a amiga estimada, mas uma força maior o fez mudar de rota, e também de planos. Isso porque ele viu que Camus esperou até que todos os olhos e atenções estivessem voltadas para Gêmeos e Serpente para então caminhar apressado para dentro da tenda onde estavam estocados alguns barris de vinho. Sem pensar duas vezes, Afrodite também seguiu para o local, entrando na tenda somente quando certificou-se de que não havia mais ninguém lá além de Camus, a quem surpreendeu com um agarrão pelas costas, já encaixando seu quadril ao dele e dando uma mordida no ombro.

Com o reflexo involuntário, Camus quase deixou o jarro cair, mas felizmente só chegou a espalhar um pouco de vinho pelo chão.

— Dieu! — sussurrou o francês sentindo a nuca arrepiar e as pernas amolecerem. — Hummm... parece que pesquei um peixão!

Peixes riu baixinho o agarrou pela cintura e num golpe só o virou de frente para si.

— Sabia que eu vinha? — disse esfregando o rosto contra a pele macia do pescoço dele — Ah, eu adoro quando você fica assim, todo arrepiado.

— Oui, claro que sabia! — disse Camus sentindo o corpo estremecer em reação aos toques firmes e ao perfume inebriante de rosas que exalava dos cabelos e pele de Afrodite.

— Hm... e agora vai me chamar de louca e me dar um passa fora como sempre, certo? — murmurou o sueco jogando o tridente de sua fantasia no chão para levar ambas as mãos às nádegas do francês. As apertou com vontade, enchendo os dedos com a carne macia delas.

Camus gemeu baixinho e com a mão que tinha livre agarrou o queixo de Afrodite, olhando bem dentro dos olhos aquamarines que pareciam querer puxa-lo para um mergulho profundo.

— Se eu mandasse você embora agora, a louca então seria eu — sussurrou ofegante e passou a língua pelos lábios dele antes de toma-los nos seus quase em desespero.

O beijo foi breve, logo Camus soltou o rosto de Afrodite para segura-lo pelo punho e puxa-lo para o fundo da tenda. Ali ele levantou o tecido e ambos passaram por baixo para o lado de fora, onde havia uma coluna e quase nenhuma claridade, a não ser a penumbra prismática das luzes que transpassavam o tecido.

Quente como uma brasa, mal acomodou o jarro de bronze sobre uma pedra e Camus avançou em Afrodite feito um louco, engolindo os lábios ansiosos que correspondiam com igual urgência e volúpia.

— Como você faz uma porra dessa comigo, Afrodite? — grunhiu o aquariano em meio ao beijo — Achei que viria de sereia ou qualquer porra mais andrógena por causa do Hyoga, e você me aparece aqui assim... macho... ativo... gostoso...

Os dedos de Peixes mergulharam nos cabelos ruivos e os puxaram levemente.

— Amor... hoje eu quis pisar* só para você — disse enquanto sugava sensualmente os lábios de Camus.

— É, mas já peguei um monte de desgraçados dando bandeira e te olhando... aquele italiano canalha principalmente, merde... Já prevejo que até o fim dessa noite vou congelar metade desses putain de merde — reclamou.

— Não vai ter que congelar ninguém, mon amour, este tritão é só seu — disse o pisciano e inclinando-se cerrou os lábios sobre o mamilo dele que estava à mostra, o sugando levemente.

Camus fechou os olhos e gemeu, sentindo o corpo todo arrepiar e sofrer pequenas descargas elétricas de excitação, mas de repente a boca quente e molhada que lhe sugava tão deliciosamente o mamilo, afastou-se. Ele então abriu os olhos e encontrou o oceano sem fim das íris aquamarines lhe encarando.

— Ah... se quiser, pode congelar a Lagartixa cascuda. — Afrodite disse sério, mas no instante seguinte fechou os olhos e gemeu, enquanto suas mãos desciam pelas costas de Camus até alcançarem a barra da túnica grega e ergue-la acima da cintura. Sem nenhuma cerimônia ele abaixou a cueca do aquariano e começou acariciar suas nádegas, primeiro em volta, depois deslizando para o meio delas. — Humm... nossa você está tão diva vestido desse jeito, Camy.

— Isso... isso é bom ou... mau?

— É bom! Muito bom! É odara*! — sussurrou Afrodite, agora abaixando a própria calça da fantasia. — Eu quase pulei em cima de você quando te vi... está tão lindo, tão sexy, hmmmm com essa bunda livre aqui atrás...

— Aaah Aphrodite...

— Sabia que eu quase chorei tentando impedir que a minha barbatana subisse bem ali, no meio da ferveção?

Camus riu baixinho e mordeu a boca, terrivelmente excitado, depois desceu a mão até o meio das pernas de Afrodite e começou a massagear sua ereção pulsante.

— Ah, Dieu! Parece que leu os meus pensamentos quando decidiu não vir ‘trucado’ hoje.

— Tá boa? Só se eu fosse louca ou suicida de fazer a eunuca em plena noite da Euforia!

— Parfait!

Bem naquela hora, do lado de dentro da tenda Misty tinha uma expressão perturbada no rosto maquiado. Óbvio que ele tinha visto Camus se dirigir para ali minutos mais cedo, e mais óbvio ainda ter visto Afrodite segui-lo. Ele não sabia ao certo porque, depois de oito anos, ainda se incomodava tanto com relacionamento dos dois, e pior, porque ainda os protegia.

— Ah, Afrodite... — murmurou o cavaleiro de Prata para si mesmo enquanto cutucava com a pontinha das botas de salto agulha o tridente da fantasia do pisciano, que jazia esquecido ali no chão sobre os respingos do vinho derramado. Seus olhos miravam vagos e parados o artefato, como se olhassem para algo que despertasse dentro de si uma cobiça insana. — O que você tem de beleza tem também de burrice... Sua salvação é ser uma bicha de sorte e ter a mim na sua vida... Não fosse por mim, já estaria servindo de adubo para o seu próprio jardim, humpf... Você deveria lamber o chão que eu piso, sua maldita ingrata!

Lagarto levantou a cabeça e olhou alucinado para o tecido do fundo da tenda; imaginou que Camus e Afrodite estivessem atrás dele e isso lhe causou ainda mais incômodo. Com as mãos trêmulas, levou a taça de vinho à boca, decidido a sorver a bebida toda de uma vez para, quem sabe, apaziguar suas emoções confusas, mas mal deu o primeiro gole e fora surpreendido abruptamente por uma figura para lá de pitoresca que acabava de entrar na tenda fazendo o maior estardalhaço.

— TE PEGUEI! SAUROK ABOMINÁVEL!

O susto terrível fez Misty esguichar vinho por boca e nariz à uma distância surpreendente e em seguida sofrer um ataque de tosse.

— PELAS ANÁGUAS DE HERA, SHAKA DE VIRGEM! — gritou ele com os olhos lacrimejando, o nariz escorrendo, a garganta espremida e uma mão sobre o coração acelerado — VOCÊ QUASE ME MATA!

Shaka lançou para ele um olhar indiferente.

— Você só não morreu porque eu não mato ninguém, Saurok — disse serenamente, ajeitando os óculos no rosto — quem mata é deus... e o dado.

— Quê?

Shaka então retirou um card de seu fichário e mostrou-o a Misty, quase o colando em seu nariz.

— E você não percebeu a minha aproximação graças a esta carta do ladino.

— Eu... não estou... entendendo.

— É que ela me dá +3 de Furtividade — disse Shaka e depois guardou a carta e passou a contornar o cavaleiro de Prata o olhando de cima à baixo como se procurasse por algo.

Mesmo por trás daquelas óculos horrorosos, o olhar do cavaleiro de Virgem era sempre por si só intimidador, mas naquele momento não eram os olhos de Shaka que Misty temia e sim o que estes poderiam flagrar ali.

Pensando em distrair o cavaleiro de Ouro, Lagarto adotou uma estratégia. Iria jogar o jogo dele e afasta-lo da tenda o mais rápido o possível.

Ele só não contava que na arte da dissimulação, a sua maior e principal habilidade, teria agora um adversário à sua altura.

— Oh! — fez ele dando uma risadinha e depois suspirou fingindo desapontamento consigo mesmo — Maldita seja sua furtividade, cavaleiro de Virgem! E, bem... agora que me descobriu aqui, podemos voltar ao pátio, venha.

Apressado, Misty segurou gentilmente no ombro de Shaka e o fez se virar para a saída da tenda, na intenção de deixar o local, mas ao em vez disso o virginiano deu um passo para trás, pisando propositalmente sobre o tridente da fantasia de Afrodite.

— Que ingênuo é você — disse ele, e mostrou os dentes cobertos pelo falso metal do aparelho, num sorriso perigoso — Achou mesmo que poderia me enganar com esse truque barato?

Misty engoliu em seco. Pronto, Shaka já sabe de tudo, pensou ele com o rosto lívido.

— T-truque? Que truque? — gaguejou dando um risinho aflito.

— Ora essa, me dando um Mind Control, quando eu sei que não existem escolas Arcanas para a sua classe. Ah, por favor, assim você insulta a minha inteligência, noob!

— Oi? — Misty piscou acelerado as longas pestanas postiças tentando processar o que Virgem acabara de dizer.

— Eu sei muito bem o que estava fazendo aqui.

— Sabe? — perguntou já temendo a resposta.

— É óbvio que sei — disse Virgem, e então com um só movimento e sem sair do lugar, passou a ponta do sapato por baixo do tridente e o lançou para o alto em direção a Misty, que pegou o artefato no ar com a mão trêmula e fria. — Você estava atrás disto.

Lagarto ficou sem voz, segurando o tridente no ar.

— O item dropado pela Naga beijoqueira do Reino dos Baiacus! — disse Shaka em seguida. — Você queria usar o tridente para invoca-la sozinho e então ficar com todos os itens dropados só para você. Você é o pior tipo de jogador que existe, mofino, bilontra, escória dos Pugs!

A boca de Misty abriu silenciosamente. Era difícil ter palavras quando estas estavam presas por correntes grossas de perplexidade e desorientação. Tinha plena consciência de que Shaka estava jogando consigo, brincando, mas seu estado de alerta e tensão não lhe permitiam relaxar, por isso tudo o que conseguiu fazer foi novamente chama-lo para deixarem a tenda apontando em direção à saída. No entanto, Virgem negou veementemente, caminhando em direção aos barris de vinho, próximos ao fundo, o que quase provocou um infarto no cavaleiro de Prata.

— Para a sua sorte, eu sou um mestre de jogo justo e misericordioso, Saurok. — disse Shaka indo se servir do vinho, pegando uma taça sobre a mesa posta ali. — Vou ajuda-lo.

Misty engoliu em seco e com força. Afrodite e Camus estavam bem ali, a poucos palmos de distância, logo atrás do tecido.

— O... que quer dizer com... me ajudar? — Lagarto perguntou apenas por perguntar, mais para prolongar o quanto pudesse aquela conversa para, quem sabe, um milagre acontecer.

— Ora, o óbvio. Em vez de ficarmos aqui esperando a Naga Afrodite dar respawn, ou seja, reaparecer nesse cenário atrás do tridente, nós vamos invoca-la e então acabar com ela de vez... Ela nem deve estar longe... estou sentindo aquele cheiro enjoado de rosas que exala de suas escamas!

Para o completo desespero de Misty, Shaka deu um passo à frente e inalou profundamente o ar, certamente sentindo o perfume do cavaleiro de Peixes, e não sabia o que fazer para impedi-lo de levantar o tecido e flagrar os dois atrás das colunas.

A música era alta, as luzes frenéticas e os raciocínios entorpecidos por uma euforia que vinha de uma festa no céu; literalmente uma celebração cósmica que acontecida de 33 em 33 anos, e Misty sabia que os corações apaixonados eram os mais afetados. Por isso, era improvável que Camus ou Afrodite fossem perceber a aproximação de Shaka, e mais improvável ainda que conseguissem parar o que faziam ali caso a percebessem. Igualmente impossível seria fazer Virgem desistir de procurar por Peixes... A menos que atravessasse o seu coração com aquele tridente ou que o arrastasse pelos cabelos engomados em gel para fora daquela tenda.

Sendo as duas opções inviáveis, Misty fez a única coisa que estava ao seu alcance.

Apelou para o divino.

“Atena, mulher, faz alguma coisa! Nunca te pedi nadaaaaa!”

E para a glória santificada do desesperado cavaleiro de Prata, eis que o milagre aconteceu.

Surpreendente, rápido e inesperado como um passe de mágica, Mu materializou-se na frente de Shaka, tomou a taça de sua mão a devolvendo à mesa e depois, sem dizer uma só palavra, agarrou o virginiano pela cintura e o jogou sobre o ombro, desaparecendo dali com ele em seguida.

Raptar o marido foi a única solução que Mu encontrou depois que seus olhos muvianos, despropositadamente, testemunharam o prelúdio do que poderia se tornar um cenário catastrófico.

Estava ele distraidamente mastigando uma colherada de ambrosia quando ao passar os olhos pela tenda dos vinhos viu um feixe de luz vindo de dentro. Com a atenção capturada para aquele ponto, logo avistou o que produzira tal reflexo luminoso, o tridente dourado de Afrodite; nada de mais, pensou ele a princípio, a não ser pelo fato de que este estava na mão de Misty.

Conhecendo o histórico de confusões e da rixa interminável entre os dois cavaleiros, Mu julgou prudente fazer uma breve análise da aura de Lagarto, e foi exatamente nessa hora que tomou um susto, porque além da aura do cavaleiro de Prata viu outras três, a de Shaka, a de Camus e a de Afrodite.

A considerar pelo tom escarlate e o brilho quente das auras de Aquário e de Peixes, que unidas formavam espirais dançantes de névoa resplandecente, nenhum dos dois seria capaz de notar a aproximação de Shaka, nem mesmo se esta fosse anunciada por troantes trombetas angelicais ou por uma fanfarra inteira de tocadores de matraca.

O cavaleiro de Áries então não pensou duas vezes, e graças a ele Misty agora pôde enfim encher os pulmões de ar outra vez, respirando aliviado.

Já atrás da tenda, entre as colunas do templo, completamente alheios ao perigo que acabaram de ser expostos, Camus e Afrodite viviam a plenitude daquela noite de Euforia. Incendiados por um fogo que não se apagaria tão cedo, ao menos tinham o cuidado de não fazer muito barulho. Peixes também resistiu o quanto pôde ao impulso de rasgar a fantasia de Camus e deixa-lo completamente nu antes de penetra-lo soltando um gemido curto. Já Aquário não se conteve em arrancar às dentadas algumas escamas das 398 coladas no corpo do sueco.

Pressionado contra a coluna, com Afrodite em suas costas, o peito forte de Camus experimentava a rigidez fria da pedra em contraste com a maciez dos dedos que lhe acariciavam os mamilos eriçados.

— Eu te amo... eu te amo...

Afrodite repetia à exaustão enquanto o amava; o sopro quente da sua respiração acelerada, somado ao seu hálito doce, naquela noite uma mistura de vinho e perfume de flores noturnas, tocavam o lóbulo da orelha e o olfato de Camus o levando à loucura.

— Hmmmm... Aphrodite... c'est fou, c'est fou... aaah... — Camus gemia embevecido, a pedra áspera da coluna lhe arranhando de leve as bochechas, o medo de ser descoberto incitando sua luxúria.

— Sim... eu sei que é loucura... mas o que seria de nós dois... se não fossemos... meio loucos, mon amour? — Afrodite sussurrou enquanto distribuía beijos pela nuca dele. — O que seria de mim... se eu não fosse louco por você?

O coração de Camus deu um salto às palavras ditas com tamanha sensualidade.

— Rien! Non seriamos nada! — disse, e de olhos fechados tombou a cabeça para trás, a descansando no ombro de Afrodite — Eu non seria nada... sem você.

— Fala isso de novo, fala...

— Je ne serais rien... sans toi, Aphrodite... ma vie... ma belle rose... mon amour...

— Ah, eu te amo tanto, Camus...

Nessa hora o coração de Afrodite bateu com tanto entusiasmo que ele podia jurar abafar o som da música e das vozes no pátio. Estava em completo êxtase. O calor de Camus o envolvendo por inteiro, a fricção entre seus corpos unidos o levando a atirar-se mais e mais contra ele, acelerando o ritmo do sexo, aprofundando o contato, até que o orgasmo dele resultou também no seu, o arrebatando com a força indomável de um vulcão.

Ainda conectados e de pé eles entrelaçaram os dedos; Camus com a testa escorada na coluna e Afrodite com o rosto mergulhado no veludo vermelho-cobre dos longos e sedosos fios embebidos em Le Malê.

— Ah, Dieu... non vou conseguir voltar para a festa. — Camus murmurou ofegante, com um sorriso bobo no rosto. — Meus joelhos estão tremendo.

Afrodite soltou a mão dele e com cuidado subiu a alça de sua túnica a recolocando no lugar, depois com ainda mais cuidado separou-se dele e o virou de frente para si. Seus olhos aquamarines então fitaram brilhantes as íris avelãs ainda escurecidas pelo prazer recém obtido.

— Eu posso carrega-lo no colo... como uma princesa — disse Peixes beijando os lábios úmidos de Aquário — a minha princesa, dona absoluta do meu coração.

— Non seria má ideia — disse Camus entrando na brincadeira, por mais que desejasse torna-la real.

Afrodite mordeu os lábios e desceu as mãos para o peito dele, brincando com alguns pelinhos cor de canela salpicados sobre a cruz ortodoxa tatuada em tinta preta, que com o tempo ganhara um tom verde-petróleo.

— E por que não fazemos isso? — perguntou, embalado pelo momento. — Eu amo tanto você, Camus, e eu quero dizer isso para todo mundo, quero que o mundo inteiro saiba!

— Eu também amo você, ma fleur — disse Camus, e fez uma pausa acariciando o rosto de Afrodite, ao que depois emendou: — mas sabe que non podemos.

Para afastar qualquer impulso indesejável e futuras crises de melancolia, Aquário tratou logo de desviar do assunto. Puxou a cueca para cima, ajeitou a túnica, a coroa de louros em sua cabeça e inclinou-se para o lado para apanhar o jarro de bronze que havia deixado no chão. Olhando em volta, procurou pelo tridente de Afrodite, mas não o viu por ali, então perguntou:

— Onde está o seu tridente?

Peixes também se recompunha, ajeitando a fantasia a contragosto e penteando os cabelos com os dedos quando respondeu tranquilamente:

— Ficou lá dentro.

Camus arregalou os olhos, surpreso e incrédulo.

— Sua louca desmiolada! — sussurrou encarando o pisciano e batendo o pé no chão. — Non acredito que deixou a merde do tridente lá dentro! E se alguém desconfiar?

— Desconfiar do que, mulher? Eu heim!... Vem cá — disse Afrodite o puxando pela cintura e lhe beijando o pescoço. — Eu não sei você, mas eu estou longe de estar satisfeito... Eu comi a princesa, agora eu quero meu mafioso malvado judiando de mim aaahhhnnnnn

O cavaleiro de Aquário suspirou forte e fechou os olhos.

— Eu também quero — gemeu baixinho — Aliás, tudo que eu queria era deixar essa festa de merde e passar a noite inteira na cama com você, ma belle, só fodendo, e fodendo, até o sol nascer... Dieu!

Peixes riu, então com muito esforço deu nele um último beijo antes de solta-lo.

— Ok... se falar fodendo mais uma vez eu não respondo por mim — disse, e deu um tapa estalado nas nádegas de Camus. — Vamos voltar antes que o meu coágulo faça alguma merda irreversível que fará você atentar contra a minha vida amanhã, quando a Euforia não estiver mais alimentando a sua natureza transgressora aquariana.

— Oui, eu vou primeiro para não dar na cara — disse Camus, mas mal caminhou um passo Misty apareceu ali, vindo pela lateral da tenda, e trazendo consigo o tridente de Afrodite.

— Você já deu né, meu bem — disse ele, com uma expressão nada amistosa no rosto. — Digo... os dois já deram... na cara.

Camus tomou um susto e quase deixou o jarro cair. Afrodite só não ficou com os pelos do corpo todo eriçados de raiva ao ver Lagarto ali porque se depilava por inteiro, até os antebraços.

— Aquenda! Era só o que me faltava, a demônia do Tejo trabalhada na lantejoula e na mágoa de cabocla*!

— Misty! — Camus exclamou surpreso. — Como você sabia que...

— Não te parece óbvio, Camus? — Lagarto o interrompeu levantando o tridente, depois o jogou na direção de Afrodite, que o apanhou no ar. — Você estava distribuindo vinho para todo mundo quando sumiu de repente, então do nada encontro isto caído no chão bem na tenda dos vinhos, sobre uma poça do quê? De vinho!... Foi fácil deduzir que só poderiam estar por aqui.

— O meu edi, leleska* de ventosa! Você estava era de butuca, como sempre.

— Vá te catar, Afrodite! — Misty rebateu nervoso. — Quer saber? Para mim já deu! Sabiam que o Shaka quase pegou vocês?

— Mon Dieu! — Camus soluçou levando a mão ao peito.

— É truque dessa língua bifurcada, Camus. Não tá vendo que ela tá é biscoitando você?

— Não é não, Escamosa. Foi por um triz! — disse Misty — Mas graças a mim, que o distraí e o atrasei o quanto pude, o seu segredinho permanece intacto. Graças a mim!... E o que eu ganho em troca? Essas caras de pura ingratidão e desconfiança das duas.

— Ah pronto! Tá fazendo a dramática! Eu não tô podendo não, heim Lagartixa! — disse Afrodite incrédulo.

— Caguei para você, querida. Eu fiz pelo Camus, que é meu melhor amigo. — disse Misty pousando a mão sobre o ombro do aquariano.

— Abusada sem amor à vida! — Afrodite berrou avançando em Misty, mas Camus o impediu se colocando na frente de Lagarto.

— Já chega! — disse ele encarando os olhos do sueco — Você non vai fazer a louca justamente agora, né Afrodite? Non é hora nem lugar para isso. Se alguém pega nós três aqui...

— Ela está certíssima — disse Misty com um sorrisinho cínico para Peixes. — Já pensou se pegam o sério cavaleiro de Aquário, Primeiro Vor da Vory v Zakone, e hétero convicto, atrás da tenda com as duas bichas mais vadias de todo esse Santuário? Ah, não, Afrodite. Não vai querer que uma desgraça dessa aconteça com o seu noivo, vai? Aliás... diante de tal cenário, quem é que acreditaria que ele é só seu, e não nosso? Já pensou como ficaria o Hyoga? Pobrezinho!

Camus virou-se para ele com uma expressão de perplexidade no rosto.

— Misty! Que merde está falando?

Lagarto cobriu a boca com a mão e fingiu estar confuso.

— Ah!... Desculpe, deve ser a Euforia! — riu irônico. — Mas pense bem, Camus. Só estou dizendo o óbvio.

— Óbvio é o soco que eu vou dar nessa sua cara, malassombrada! — Afrodite rosnou furioso apontando o tridente para o peito de Misty, que recuou um passo sem desmanchar o risinho debochado do rosto.

Camus agiu prontamente pegando o noivo pelo braço e o arrastando para longe do cavaleiro de Prata.

— Misty, saia, por favor — pediu num tom sério, formal, quase autoritário — e obrigado por... por proteger a nossa retaguarda.

— O quê? — Peixes encarou incrédulo o noivo — Você tá agradecendo essa biscoiteira vuduzenta*?

— Você está descontrolada, Afrodite! — Camus respondeu ríspido. Então com um gesto brusco empurrou Peixes contra a coluna em que estavam antes e o calou com um beijo intenso.

Bastaram alguns minutos de beijos, duas mordidinhas no queixo e uma declaração de amor sussurrada em francês ao pé do ouvido para que o cavaleiro de Peixes esquecesse as provocações de Lagarto, que àquela altura já tinha voltado para a festa como Camus lhe pedira.

Com muito custo os dois amantes também voltaram pouco depois, um após o outro, e enquanto Afrodite corria aos pulos para finalmente saudar Geisty, Camus não conseguia deixar de pensar que Shaka quase os havia flagrado.

Em dado momento, quando estava com Afrodite atrás da tenda, pensou mesmo ter sentido uma presença fortíssima e próxima, muito próxima, aliás. Era um homem criado para ser um predador nato, treinado à exaustão para ser o espreitador silencioso e não a presa. A mínima ideia de ser pego num momento de distração mexia com suas emoções e seus brios, o punha ansioso, e ele teria que tirar a prova. Acaso Shaka teria visto algo? Será mesmo que ele não desconfiou de nada? Por outro lado, Virgem era um homem extremamente sagaz, dono de um Cosmo poderosíssimo, além de gay como ele — e segundo Afrodite todo gay reconhece outro gay, culpa de um tal radar — portanto, nem seria preciso que visse, bastava ter deduzido, haviam evidências por toda a parte, como dissera Misty.

— Dieu! — Camus suspirou preocupado, então despejou vinho de seu jarro em uma taça e bebeu tudo em uma só golada.

A verdade é que não iria sossegar até sondar Shaka e arrancar dele tudo o que podia para sanar essa dúvida.

Mas... onde diabos estava o cavaleiro de Virgem que não o via ali em canto nenhum?

Continua...

Dicionário Afroditesco

Caçação — ato de caçar; pegação, flerte

Leleska — pessoa uó

Mágoa de cabocla — inveja

Odara — algo grande; algo fabuloso, esplêndido. Imagine...

Pisar— modo de dizer que está arrasando, está deslumbrante.

Vuduzenta, adj. que vem do verb. vuduzar — torcer contra, para que algo dê errado.

***

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic e com as capas e seu Twitter

Notas finais
Para onde o sátiro terá levado o nosso virgem raptado?