Templo das Bacantes Vol. 3
52 Euphoria - parte 3

Enquanto seguia servindo e bebendo vinho, Camus corria os olhos atentos pelo pátio, à procura de Shaka, mas nada do virginiano. Mu parecia ter sumido também, pois nem mesmo quando chegou Aldebaran, atrasado como sempre e fazendo o maior estardalhaço, girando e dançando dentro de uma majestosa fantasia de boi-bumbá, o cavaleiro de Áries apareceu para cumprimentar o estimado amigo e vizinho. Bem, dada a excepcionalidade da noite, Camus sabia que era certo Áries e Virgem estarem juntos, talvez até atendendo ao chamado indomável dos instintos, como ele mesmo fizera ainda a pouco e, sendo assim, só o que lhe restava era esperar e beber vinho para abrandar a ansiedade.
Quanto a sucumbir ao chamado dos instintos, Camus estava coberto de razão, ainda que não fosse essa a intenção de Mu quando foi arrancar Shaka da tenda dos vinhos para salvar o segredo dos amigos. O que o ariano não sabia era que no instante em que olhasse para os olhos azuis celestes — extremamente pequenos por detrás das grossas lentes de vidro — e sentisse o cheiro delicioso do sândalo misturado aos suaves tons de canela e flor-de-lótus, ele não teria escolha a não ser ceder aos caprichos da natureza; estes que o fizeram teleportar a ambos para escritório de Saga, naquele mesmo templo, e num furor libidinoso jogar o marido sobre o centenário divã vitoriano de espuma encapada em veludo azul índigo que havia ali.
— Mas o que foi isso? — Shaka perguntou num sobressalto e, logo em seguida, sentiu o peso do ariano derramar-se sobre si lhe imobilizando. Correu rapidamente os olhos pelo lugar até dar-se conta de onde estavam. — O que você está fazendo?
— Estou quebrando a sua barreira. — Mu respondeu pragmático e, como conseguiu, mantendo o casco da perna direita firme no chão para poder apoiar o joelho da esquerda na borda do divã, finalmente lhe tirou os óculos. — Sabe, jovem virgem, sem querer você lançou um feitiço de amor verdadeiro neste humilde sátiro, e agora ele não consegue parar de pensar em você.
O efeito do alinhamento dos astros naquela noite parecia ter pego Mu em cheio.
Sem aviso, com uma das mãos ele segurou firme o rosto de Shaka, apertou de leve as bochechas e o obrigou a encarar seus olhos.
— Abra a boca — ordenou rouco.
O pedido inesperado em tom autoritário, de repente fez acender no cavaleiro de Virgem a atração astrológica que faz do seu signo solar o escravo astral da energia dominante da constelação de Áries, e tudo o que Shaka conseguiu fazer foi arfar e sentir como se ao em vez de sangue o que corresse em suas veias fossem feixes de eletricidade; as maçãs de seu rosto imediatamente ganharam um rubor intenso, destacando as pequenas sardas cor de cobre pálido sobre o nariz, e um arquejo repentino escapou sorrateiro de sua boca entregando ao lemuriano o sinal que ele esperava, e queria.
Mu ofegou satisfeito, agora olhando dentro daqueles olhos azuis acesos que tantas paixões despertavam em si.
— Vamos, o que está esperando? Abra a boca!
Obediente, Shaka abriu a boca e Mu enfim pôde se livrar daquele medonho aparelho ortodôntico, o teleportando direto para as Fossas Marianas.
— Hummm... — fez o ariano — destruí 50% da sua barreira, o que significa que ela agora está fraca... e que você será meu! — disse fechando os olhos e inclinando-se para finalmente beijar o marido como queria desde o início da noite, mas no exato momento em que seus lábios iam tocar os dele, sua cabeça foi puxada para o lado com tanta força que pôde sentir todos os ossos de seu pescoço estalarem em sequência, como se fossem uma bateria de fogos de artifício.
Quando abriu os olhos, surpreso e incrédulo, Mu viu Shaka lhe segurando por um dos chifres de carneiro.
— Um momento, senhor sátiro — disse o indiano.
Com a cabeça pensa para o lado, o ariano perguntou impaciente:
— Por todos os deuses, o que foi agora?
— Posso saber por que me arrancou daquela tenda desse jeito estapafúrdio, parecendo um doidivanas? E por que nos trouxe para o escritório do proxeneta?
— Não te parece óbvio, virgenzinho indefeso? Eu te sequestrei! — Mu disse, com um sorriso cínico. — Está é a minha floresta, e agora você também será meu.
— Indefeso não. Ainda tenho 50% de proteção da virgindade.
— Sim, 50% que eu vou quebrar fácil — sussurrou Mu, e novamente projetou a cabeça para frente, na intenção de beija-lo, mas de novo Shaka o impediu o segurando pelo chifre.
— Isso não é o senhor quem decide — disse Shaka, por mais difícil que fosse para ele, excitado como estava, manter-se no personagem.
Podia parecer absurdo, excêntrico talvez, mas desde o momento em que botara os olhos em Mu e o vira com aquele par de chifres enormes de carneiro, andando sobre cascos que sustentavam pernas bestiais, e com seu adorável rosto angelical todo sujo de carvão, os pensamentos de Shaka foram invadidos por uma gama variada, e surpreendentemente fértil, de tórridas cenas de sexo, onde ele e Mu eram os protagonistas e cujo o ato era praticado sem nenhum recato. Felizmente ele tinha um fichário de cartas Magic, um dado e um roteiro pré-estabelecido bem mais adequado no qual escorar-se para suprimir aqueles pensamentos mundanos indecentes... mas Mu tinha acabado de rasgar esse roteiro.
— Ok... — disse Mu respirando fundo. Os músculos de suas mandíbulas avolumando-se e contraindo-se enquanto falava. — Eu te desafio no dado, então... se eu tirar qualquer número maior do que dez, você perde o fichário, então sem ele a sua barreira será reduzida para 20%.
— Desafio aceito! — Shaka respondeu, divisando instigado os olhos verdes escurecidos do ariano, os quais sentia despi-lo em pensamento, então sua mão soltou o enorme chifre de carneiro e buscou o dado no bolso; após chacoalhar rapidamente esticou o braço para fora do divã e jogou o dado sobre o tapete persa.
Um sorriso obsceno de satisfação desenhou-se no rosto do cavaleiro de Áries diante do resultado.
— Onze! — disse Mu lançando para Shaka um olhar de evidente cobiça, logo lhe tomou o fichário de cartas o colocando no chão.
Com as mãos livres, o cavaleiro de Virgem tocou os ombros largos do marido, as correndo pelos braços fortes, depois apalpando os músculos esculpidos do abdome, até por fim espalma-las no peito largo nu. Quase tivera um ataque de ciúmes quando o viu, mais cedo, com metade do corpo à mostra, expondo para todos o que deveria ser visto apenas por seus olhos, mas agora agradecia aos céus por tamanha ousadia.
— Você venceu essa rodada — disse Shaka acariciando os mamilos de Mu com os dedos — mas minha virgindade ainda está protegida por +15 de Aparo e +5 de Esquiva.
— Hum... são muito bons atributos — disse Mu levando as mãos aos cabelos ele, enfiando-as entre os fios loiros engomados de gel, começando a despenteá-los. — Só que você está esquecendo de considerar um aspecto fundamental desse lore.
— Estou? E qual seria?
Mu desceu as mãos para o rosto dele e o segurou entre elas, com força.
— Eu sou um sátiro. Sou uma criatura com imensa potência sexual.
Mu falava com os lábios tão próximos aos de Shaka que este podia sentir seu hálito adocicado, mistura de vinho e ambrosia.
— Oh-ho! — Fez o indiano, excitadíssimo; sentia as maçãs do rosto arderem como se estivesse de pé diante de uma fornalha acesa.
— Pois é. O meu propósito é tão somente seduzir jovenzinhos puros e inocentes como você... e então deflora-los. — Mu sussurrou, e deu um beijo na testa de Shaka, depois encarou seus olhos azuis com um olhar faminto de desejo.
— Esse é um propósito bem indecente — disse Shaka mordendo os lábios.
— É sim, muito indecente, e para tal essa skin me dá +20 de Charme e +5 de Carícias Revigorantes.
— Nem era preciso tanto...
Shaka sentiu a respiração presa na garganta, lugar em que também experimentava as batidas do próprio coração, martelando fortes e aceleradas. Estava tão excitado e envolvido por aquele jogo sexual que faziam que chegava a sentir vertigens. Ou seria aquela faceta recém-descoberta de Mu que tinha o poder de entorpece-lo? O calor do corpo do ariano parecia penetrar em seus poros e incendiá-lo por dentro. O cheiro naturalmente estimulante da pele dele, que no dia-a-dia ele disfarçava com colônia de lavanda, agora parecia envolve-lo numa névoa inebriante, potencializada por um odor incitante de lã de carneiro; esta que o indiano não resistiu em tocar quando desceu as mãos para a cintura de Mu e logo as escorregou até o meio das pernas em busca de seu objeto de desejo.
Assim que o tocou e o sentiu duro como rocha, arqueou as costas excitado e deixou escapar um gemido ruidoso.
— Nossa, senhor sátiro! Andou comendo cogumelos vermelhos?
Mu só não teve um ataque histérico de riso porque estava excitado demais com os dedos de Shaka apertando aquele ponto tão sensível do seu corpo. Impaciente, ele abocanhou a gravata borboleta que o marido usava e a arrancou na dentada, rasgando o colarinho da camisa e cuspindo as tiras sobre o tapete.
— Não, eu não preciso deles... os deuses me fizeram naturalmente grande para que cumprisse o meu propósito com louvor — sussurrou arquejante, atacando o pescoço de Virgem com beijos nervosos e com mordidas.
Em reflexo Shaka trouxe as mãos para a cabeça dele e novamente lhe agarrou os chifres com força, agora ambos, obrigando Mu a parar o que fazia e encara-lo.
— Você está destruindo a minha armadura sem jogar o dado ou as cartas, e isso é jogo sujo! É contra as regras! — disse ele sem tanta convicção.
Os grandes olhos verdes brilharam como dois vagalumes enamorados no breu na noite.
— As cartas você já perdeu, jovem ninfa... e como esta é a minha floresta, são as minhas regras que valem. — Mu respondeu rouco, já um tanto rendido às suas próprias fantasias, começando a mover os quadris contra o corpo debaixo do seu, esfregando sua ereção na do marido o provocando.
Shaka riu baixinho.
— Ninfa? Quer que eu seja a sua ninfa?
— Quero!
— Mas eu não sou nenhuma ninfa, senhor sátiro. — Shaka sussurrou puxando para si a cabeça de Mu, pelos chifres; seu hálito quente soprando para dentro da boca dele. — Eu sou o mestre desse jogo.
Dessa vez foi Mu quem riu.
— Está enganado — disse num tom imperioso, enfrentando o olhar de Shaka — O mestre agora sou eu!
Com um movimento brusco e enérgico, Mu empinou a cabeça e a chacoalhou como faz um animal para secar os pelos; o movimento obrigou Shaka a soltar-lhe os chifres, então na mesma hora o agarrou pelos braços e tomou sua boca com um beijo voraz, não dando a ele chance de ensaiar qualquer protesto.
— Eu quero você nu agora mesmo... — sussurrou o ariano em meio ao beijo após um momento — quero venerar sua beleza sublime... e depois abrir as suas pernas e possuí-lo feito um animal no cio... Eu farei de você a minha ninfa!
As mão de Shaka deslizaram para a cintura de Mu e suas unhas afundaram na carne firme, ferindo a pele. Ouvi-lo dizer aquilo o fez acessar imediatamente os pensamentos indecorosos dos quais tinha abdicado antes, no início da festa, só que agora queimava em si o desejo de deixar o reino da fantasia e coloca-los em prática. Por isso que, incitado a seguir com aquele jogo, ele interrompeu o beijo e empurrou Mu com toda força, quase o jogando para fora do divã.
— Já disse que não sou nenhuma ninfa, menos ainda a sua ninfa — declarou Shaka encarando Mu com olhos felinos, o desafiando.
— Não brinque com fogo, Shaka. — A voz de Mu saiu como um grunhido, e foi nesse instante que ele compreendeu que a razão o estava abandonando e as energias de liderança, determinação e atitude de seu signo regendo sua vontade.
O cavaleiro de Áries tinha plena consciência de que Virgem era um homem controlador por natureza, passional nas emoções, mandão, um dominador nato, que mesmo nas situações em que se deixava submeter fazia valer as suas vontades, estas que, por sinal, cumpria sempre com paixão e entusiasmo, mas naquela noite algo muito mais poderoso o impelia a virar o jogo; Mu queria dar as cartas, pois apenas joguinhos eróticos não iam satisfaze-lo. Pela primeira vez ele sentiu-se impelido a dominar Shaka, a subjuga-lo até tê-lo completamente a seus pés, e gostou da ideia.
Consumido por um frenesi desvairado, Mu colou seus lábios aos de Shaka o beijando com ainda mais vontade e fúria, ao mesmo tempo em que começou a lhe rasgar toda a fantasia. Virgem tentava impedi-lo, sem conseguir controlar o próprio desejo de se submeter a ele, porém ainda orgulhoso demais para ceder, até que completamente derretido pela língua macia que explorava sua boca tão impetuosamente, deixou que Mu o despisse como queria, lhe rasgando toda a fantasia.
— Eu vou deflora-lo e fazê-lo meu... então serei o seu dono e você passará a me chamar de mestre sátiro! — Mu grunhiu rouco na boca de Shaka; suas mãos quentes descendo para as coxas delgadas, as apertando forte, deixando marcas enquanto tentava afasta-las para encaixar-se entre elas.
Simulando uma nada convincente resistência, Shaka voltou a empurra-lo e imediatamente em seguida dobrou os joelhos e chutou os braços dele, acertando-lhe também dois ou três chutes no estômago e um no queixo, claramente o incitando à violência.
Foi como jogar gasolina direto na fogueira para apaga-la.
Mu assumia que todo aquele brio, ainda que boa parte encenado, só o deixava mais excitado; era como ter que domar um cavalo selvagem para no fim provar ser digno de monta-lo. Naquele ponto, as energias de suas constelações os regia com força avassaladora, a paixão de ambos era exatamente a mesma. Virgem estava completamente rendido ao magnetismo da força de determinação de Áries, cativo e entregue àquele fogo dominador.
Como cavaleiros que são, ambos já tinham percebido isso quando cederam à tais paixões no dia em que transaram na forja de Áries, entre correntes e gemidos de dor e prazer, mas desde então jamais tocaram no assunto... e agora voltava a acontecer, com força e ímpeto imensamente maior. Diferente de Shaka, que simplesmente escolheu ignorar o ocorrido para fugir de julgamentos e questionamentos infligidos a si mesmo, o episódio tomou muitas horas das reflexões íntimas de Mu, enquanto reparava as armaduras, lia os manuscritos deixados por Shion, estudava mapas à procura do local onde outrora foi a morada de sua família lemuriana, ou apenas enquanto observava, embevecido, o marido cozinhar ou realizar qualquer tarefa trivial. Desde muito cedo Shaka já tinha lhe dado sinais de que encontrava na dor e autopenitência um alívio para os seus desenganos, daí a ele trazer isso para o sexo era pura questão de tempo. No fundo, Mu já esperava por isso e não se surpreendera completamente. Sua preocupação era outra.
Áries sentia como se tivesse despertado algo adormecido dentro de si, uma faceta até então desconhecida, mas que era ela quem respondia aos desejos exigentes de Shaka. Esta, de tão poderosa logo enraizara-se em si feito uma erva daninha. Assustado, Mu tentou cortar suas raízes de imediato, acaso não conseguisse extermina-la por completo, ao menos a impediria de florescer.
Quão ingênuo ele fora...
Semanas atrás, quando acorrentou Shaka e fez sexo com ele usando um cilício para castiga-lo, as raízes fundiram-se em si e Mu floresceu.
Agora, sob a influência poderosa da Euphoria, tornaram-se um só. Ele e aquela força indômita.
Chegara a hora de colher os frutos do que Shaka havia semeado dentro de si.
— Ah, então você vai fazer de tudo para defender a sua virtude, ninfa? — disse Mu crispando os lábios, finalmente conseguindo achar uma brecha entre os chutes para agarrar com força a cintura dele e tentar puxa-lo para si.
— Pode ter certeza que sim — Shaka respondeu, e cravou as unhas nos punhos dele, arrancando sangue, o obrigando a solta-lo. — Não me deitarei com um silvícola no cio fedendo a carvão.
Os olhos de Mu se acenderam feito duas labaredas de fogo verde enfeitiçado.
— Isso é o que nós vamos ver — ele rosnou, então num golpe rápido agarrou os tornozelos de Shaka, abriu-lhe as pernas e com um único puxão o encaixou em seu corpo.
Usando seu peso mais uma vez, Mu rapidamente prendeu o marido contra o divã e começou a atacar sua boca com beijos afoitos; descontava na língua e nos lábios dele todo a euforia que o consumia, e quando sentiu que Shaka estava completamente aprisionado no seu beijo, desceu a mão até o cós da fantasia e abaixou o suficiente para seu pênis saltar para fora. Estava tão excitado que o sentia latejar dolorido, e tudo o que conseguia pensar naquele instante era transformar o incômodo em prazer extenuante, dentro daquele corpo quente que tanto desejava. Só o que conseguia sentir era a urgência da carne e um desejo animal de possuí-lo, subjuga-lo, exatamente como um sátiro faria com uma ninfa.
Com a necessidade de ter ambas as mãos livres, porque além da demanda de mantê-lo dominado também desejava ardentemente sentir a carne trêmula sob seus dedos quando entrasse nele, Mu usou sua telecinese para forçar os braços de Shaka acima da cabeça, imprimindo pressão nos punhos como se os tivesse amarrado com cordas invisíveis.
— NÃO! — Virgem protestou levantando a cabeça prontamente e o encarando com reprovação. Os cabelos loiros da franja lhe cobrindo parcialmente os olhos azuis ansiosos. — Eu quero tocar você!
Uma das mãos de Mu nessa hora iniciou um passeio pelo peito agitado coberto por uma quase imperceptível penugem cor de ouro, subiu pelo pescoço, apertou os lábios arquejantes e estacionou nos cabelos acima da testa; ali os dedos se fecharam nos fios loiros macios e com muita força puxaram a cabeça de Shaka para trás.
— Você me atacou... tentou resistir ao meu domínio... Agora não tem permissão para me tocar — disse Mu num tom autoritário, e segurando a cabeça dele o obrigava a fitar seus olhos, não permitindo que desviasse a mirada para qualquer outro ponto.
E caso Shaka quisesse desviar o olhar, ou mesmo fechar os olhos, ainda assim ele não conseguiria. Estava completamente hipnotizado pela visão daquela criatura selvagem em cima de si, enclausurado numa espécie de transe erótico. Só o que conseguia era olhar para o rosto de Mu e sentir; sentir atração por aquela força da natureza; sentir o amor arrebatador derretendo seu coração como se o embalasse com mãos de labaredas; sentir o tesão lhe dando descargas inexoráveis de adrenalina; sentir a confortável benção do pertencimento.
Ele era de Mu, e Mu era dele, e juntos eles podiam tudo!
Cada célula do corpo de Shaka estava em festa, e tamanho êxtase refletia-se também na sua aura, esta dando passe livre a Mu, que com um olhar quase maníaco congelado nas íris azuis escurecidas fixas às suas, umedeceu a palma da outra mão com saliva e lubrificou satisfatoriamente apenas si mesmo. Nesse ponto, Shaka já tremia em expectativa e eufórico abriu mais as pernas para recebe-lo, mas eis que com um movimento inesperado o ariano o agarrou pelos quadris estreitos e num só golpe o virou de bruços.
Houve um pronto protesto, obviamente, já que Virgem queria seguir obcecado pelo olhos famélicos sobre si, mas indiferente às recusas Mu deixou-se cair sobre ele e quebrando qualquer chance de barganha o penetrou com uma única e violenta estocada, pois sabia que somente quando estivesse dentro dele é que conseguiria amansa-lo como queria.
Shaka gritou alto e num reflexo involuntário à dor seu corpo todo se contraiu; cada fibra de seus músculos tremendo impreterivelmente. Mu era grande, e mesmo sabendo pelo que esperar, a invasão fora áspera, indelicada e profunda.
— Shhh — Fez o ariano subindo ambas as mãos à cabeça dele. Uma delas voltou a lhe agarrar os cabelos, puxando os fios com ainda mais força, enquanto a outra lhe tapou a boca. — Não grite, ou irá atrair outros seres mágicos para cá, e eu não vou dividi-lo com ninguém... — murmurou alucinado, e sem aviso retirou-se completamente apenas para logo em seguida empurrar-se para dentro dele de novo com um golpe ainda mais forte.
Outro grito foi abafado.
Outro choque desferido, ainda mais impiedoso que o anterior.
— Você é meu... — A voz, praticamente um rosnado, foi seguida de um novo golpe inclemente que resultou em mais um grito asfixiado. — Hmmm... meu para todo o sempre!
Consumido até os chifres de carneiro da sua fantasia naquela atmosfera de prazer sadomasoquista, onde a necessidade de saciar o apetite sexual que lhe devorava certamente lhe faria tomar o marido até a exaustão se preciso fosse, Mu imediatamente assumiu um ritmo frenético, quase brutal, irracionalmente instigado pelos sinais e gemidos de dor e prazer que Shaka deixava escapar. Seguramente que não prosseguiria caso desconfiasse não ser exatamente aquilo que o virginiano queria. Na sua loucura voluptuosa, podia parecer que estava alheio, mas seus olhos estavam atentos ao menor sinal de recusa do marido, inclusive aqueles dados por sua aura.
Mas, para o cavaleiro de Virgem, a pungência da dor era, na verdade, combustível. O peso do corpo forte e quente do marido sobre si, somado à movimentação frenética, o espremia contra o divã lhe dando uma sensação de sufocamento. Era como ter uma rocha sobre suas costas o empurrando para baixo com golpes inclementes. Seu pênis excitado vazava, espremido e castigado contra o estofado de veludo. A parte traseira das suas coxas era arranhada pela fricção intensa da lã rústica da fantasia contra a pele fina, e tinha a sensação de que seus pulsos se rasgariam a qualquer momento, apertados como estavam pela pressão das cordas invisíveis. O cheiro de suor, almíscar e carvão invadia suas narinas o deixando tonto e ao mesmo tempo instigado. Salivava nos dedos de Mu que apertavam com força seus lábios, lhe sufocando os gemidos. As estocadas, cada vez mais brutas e violentas, ao contrário daquelas cheias de ternura e cuidado que recebera nas primeiras horas da manhã daquele mesmo dia, o machucavam, e a ardência que sentia cada vez que Mu entrava e saída de dentro de si já tinha se tornado torturante. No entanto, era justamente quando Mu atingia seu limite para a dor que sentia a descarga de adrenalina da qual tanto ansiava. Era desconfortável, e bastante dolorido, mesmo assim sua reação era sempre igual; contorcia-se em êxtase e abria-se ainda mais para recebe-lo. Gemia, sem pudor e sem culpa, vivenciando um prazer que ia muito além do carnal, pois que para ele, dentro de sua incomum percepção, era sinônimo de liberdade.
Era a sua emancipação das amarras deíficas.
E se naquela específica conjuntura a dor era para Shaka seu combustível, provoca-la passou a ser o de Mu. Num determinado ponto, o lemuriano substituiu a mão que tapava a boca de Shaka pelos seus lábios sedentos e, como conseguia, devido à posição em que estavam, os beijava, lambia e mordia ao seu bel prazer, indo à loucura com os gemidos que escapavam deles, que ora eram arquejos entoando seu nome em alto e bom tom, ora um doce choro, fusão de prazer e agonia.
Com um olhar selvagem por baixo das madeixas lavanda que sacolejavam para frente e para trás conforme se movia rápido e ininterruptamente, Mu ordenou com voz rouca:
— Diga!... Diga a quem você pertence... Quem é o seu dono, Shaka?
Ainda que com a mente e os sentidos nublados pelo êxtase sexual arrebatador, Shaka tentava traduzir o tom usado por Mu, mas este lhe pareceu irreconhecível. Tinha uma soberania inflexível, e até um quê de menosprezo. Embora já tivesse pressuposto o que Mu pretendia; a surpresa, somada ao seu vaidoso e imenso orgulho, lhe impelia a continuar desafiando o marido.
— Shaka não tem dono!
Na mesma hora um sorriso perverso cinzelou no rosto de Áries.
— Eu já esperava por essa resposta — disse arquejante.
Em realidade, a afirmação de Virgem apenas incitou mais os instintos arianos, e Mu então sentiu-se desafiado a deixar Shaka tão extenuado de prazer que ao fim imploraria a si por clemência.
A fúria da paixão que guiava Áries dentro daquela constatação o fez arremessar-se com ainda mais força e apetite contra o corpo debaixo do seu, o golpeando com estocadas ininterruptas e cada vez mais rápidas, que somadas aos brutos puxões de cabelos e pressão nos pulsos pareciam querer arrancar de Shaka não apenas gemidos de prazer e lamentos de dor, mas também uma confissão. Mu estava convicto a fazer Virgem aprender da pior, e talvez melhor, maneira que um regido por Áries jamais deve ser desafiado.
Em dado momento ele sentiu o corpo de Shaka sofrer fortes espasmos, estes seguidos de repetidas contrações no ponto exato em que estavam conectados. Alucinado de prazer, Mu o segurou com ainda mais força; beijou-lhe a bochecha, o cantinho dos lábios, a linha do osso mandibular... depois desceu para o pescoço e seguiu beijando até a nuca, sentindo ali a pele salgada arrepiar-se ao toque de seus lábios. Percebeu que ele começava a perder as forças, seu corpo amolecendo languidamente, então em êxtase abriu a boca e cerrou os dentes na curva do pescoço.
Shaka encolheu os ombros e fechou as pálpebras, as contraindo com força; um reflexo à dor mas também à surpresa da mordida. Sentia os dentes dele atracados à sua pele, sem rasga-la, mas imprimindo pressão contínua, sem nenhuma intenção de largar até que lhe entregasse o que ele queria. Gotas de suor manchado de carvão pingavam do queixo de Mu e escorriam pela maçã do seu rosto, algumas entravam em sua boca, salgadas como água do mar, e com um toque de madeira queimada misturado a almíscar. Seu corpo, em colapso absoluto de prazer, parecia pesar toneladas e estava totalmente fora de seu controle; respirava apenas porque este era um ato mecânico. E assim, nas mãos de Mu, também sentia seu espírito. Ali, ele não era mais dono de si.
— É você! Você! Aaaah... Mu... é você...
“Sou eu o quê?” A voz ecoou na mente de Shaka.
— O meu dono!... aaaah... o meu amor... meu marido... Sempre será você... nesta vida... e em todas as outras... — disse Shaka, entre gemidos e arquejos; sua voz soando repicada devido ao sacolejo frenético dos golpes persistentes de Mu contra seu corpo, mesmo assim a mensagem foi perfeitamente clara.
Um rosnado libertou-se da garganta do cavaleiro de Áries e explodiu num urro de prazer. Seu coração pulsava tão frenético que as batidas pareciam ecoar por todo seu corpo lhe pondo o sangue em ebulição. Mu nunca pensou que experimentaria prazer igual aquele, e olha que ele tinha uma lista mais do que extensa e diversificada de experiências trocadas com Shaka que também o fizeram delirar de prazer. Mas nada era como aquilo.
Quando finalmente Mu colapsou de prazer e teve toda sua força drenada para fora do corpo, juntamente com o seu sêmen abundante, ele aterrissou sobre as costas de Shaka e permaneceu longos minutos inerte; sua mente, totalmente em branco, vagando anestesiada no vácuo sobrenatural do pós clímax. Somente quando seus órgãos recuperaram-se minimamente do frenesi do orgasmo é que conseguiu respirar fundo recuperando o fôlego, então buscou a mão do marido e entrelaçou seus dedos nos dele.
— Sim, você é meu, Shaka — disse Mu, e beijou ternamente o ombro dele sujo por um borrão de carvão, depois o rosto e os cabelos — meu amor, minha vida, minha Luz... o meu coração... Você é meu, e eu sou seu... nesta vida e em todas as outras.
De olhos fechados, Shaka sentia o coração de Mu bater tão forte contra suas costas que era como tê-lo dentro do próprio peito. Dois corações, pulsando juntos a mesma paixão.
Mais um momento correu, no qual apenas ficaram em silêncio, até que este foi quebrado por Shaka:
— Mu...
— Sim? — O ariano respondeu, de olhos fechados ainda, e com um sorriso bobo no rosto.
— Livre-se desse divã... ele está imundo.
Mu arregalou os olhos e levantou a cabeça, tentando ler a fisionomia de Shaka, ainda que tivesse apenas meia visão de seu rosto. Esperava uma declaração de amor ou qualquer outra coisa conveniente ao momento e a surpresa o fez soltar uma pequena gargalhada. Em partes estava aliviado; pelo menos, tudo voltara ao normal. Rapidamente fez o que ele pediu, mandou o divã de Saga para as Fossas Marianas, conduzindo lentamente a ambos, ainda unidos, até o chão, então saiu de Shaka com cuidado e rolou para o lado. Na mesma hora o puxou para seus braços e o aninhou em seu peito, beijando com delicadeza os cabelos loiros.
— Você não vai dizer nada? — Mu perguntou, começando a ficar ansioso. Estava bastante assustado consigo mesmo, com o modo como conduzira tudo, e temia ter passado dos limites e machucado Shaka além do que pretendia. Sabia que tinha se deixado levar pela Euphoria, e caso isso acontecesse jamais se perdoaria.
Shaka inclinou a cabeça e esfregou o nariz no sulco da junção entre o pescoço e o peito de Mu, inalando profundamente o cheiro de sua pele; carvão, almíscar e lã.
— Você está precisando de mais lavanda — disse Shaka, então ergueu a cabeça e olhou para o ariano, para os olhos verdes brilhantes, que agora voltaram a ser dois lagos calmos em meio à escuridão caótica do carvão borrado. — Está cheirando carneiro.
Mu achou graça e rindo passou a limpar com os dedos algumas manchas de carvão que tinha deixado no rosto do virginiano.
— Já, eu, adoro esse seu caos aromático de sândalo e incenso misturado com canela e... — fez uma pausa, e tomando a mão de Shaka a trouxe até o rosto e cheirou seus dedos, por fim deu um beijo sobre a aliança de casamento. — ... cebola, alho, curry e pimenta... Dá vontade de chupar os seus dedos sem parar.
— Hm... não me parece muito agradável — disse Virgem.
— Ah, mas pode ter certeza que é. É muito agradável! É como ter você já sempre temperado, prontinho para eu...
— ARÊ, MU DE ÁRIES! — Shaka o interrompeu empurrando o indicador contra os lábios dele. — Nem conclua uma vulgaridade dessa!
Mu apertou os lábios segurando o riso, e sem que esperasse foi surpreendido por um beijo terno e apaixonado. Fechou os olhos e correspondeu com idêntica gentileza, acariciando a língua macia de Shaka enquanto deslizava as mãos vagarosamente por suas costas até à curva da cintura, onde afagou a pele, desta vez com a delicadeza de uma bailarina.
As mãos do indiano igualmente afagavam com doçura os cabelos lavanda, a nuca ainda suada, os ombros largos, até subirem para o rosto e segura-lo com extrema gentileza. Então ele afastou os lábios poucos centímetros e olhou profundamente nos olhos de Mu.
— Você deve estar pensando que fiquei louco — disse, penalizando-se internamente.
Mu beijou os lábios dele e depois olhou de volta.
— Louco não, masoquista sim.
A palavra assustava Shaka, soava estranho, errado, imoral, mas ele reconhecia que não podia mais fugir dela.
— E você? — Mu perguntou.
— Eu o quê?
— Acha que fiquei louco por... por querer causar dor a você? Por querer machuca-lo... por querer toma-lo e domina-lo tão rudemente? — Mu tinha uma aflição visível no olhar e no tom das palavras. — Sha, me responda com sinceridade... eu sou um mau marido?
— Shiii! — Shaka silenciou-o com um dedo — Não. Claro que não é um mau marido, Mu. Ao contrário, você é o melhor!... Eu acho que... bem, na verdade eu não acho nada... Essas coisas assim fazem parte da recreação adulta.
Mu riu da conclusão prática dele, e Shaka logo o puxou para seus braços o aninhando contra seu peito como se ele fosse um filhotinho de gato, exatamente como fazia com Saravá Ebó.
— O encaixe perfeito! — disse o Mu, e agora era Virgem quem ria.
— Eu nunca duvidei disso.
Ficaram assim por um momento, até que Shaka recuou para poder olhar novamente dentro dos olhos de Mu.
— Mu, eu preciso esclarecer uma coisa.
— Diga, Luz da minha vida.
— Eu gostei... Gostei hoje, gostei daquele dia na sua forja, e acho que gostei também daquela vez, no telhado da Casa de Touro, quando meu juízo estava sob o efeito maléfico do álcool, embora eu não me lembre de nada, apenas da dor nos quartos e nos joelhos — pigarreou encabulado — enfim... Apesar de gostar, não é sempre que sinto vontade de fazer... desse jeito, sabe?... Na verdade, Mu, fazer amor com você é deveras melhor e muito mais satisfatório.
— Eu sei, Sha, eu também prefiro amar você e tomar o seu corpo com todo o meu coração, respeito e cuidado... Pelos deuses, oito anos de casamento e eu continuo te desejando tanto que amaria você todos os dias e todas as horas da minha vida, mas... — titubeou, parecendo ponderar sobre o que pretendia dizer.
— Mas?
— Desde aquele dia na forja, após o banquete, sabe... eu confesso que estive pensando muito no que fizemos, e parecia que quanto mais eu pensava, mais vontade me dava de repetir aquilo. Eu não sei o que há comigo, Sha. Eu... eu não consigo entender. Ao mesmo tempo que quero ama-lo com a virtude de um marido devoto eu também quero, eu quero... — Mu fez uma pausa, visivelmente tímido, e demorou um pouco até recuperar a coragem e organizar a mente para enfim continuar: — Eu quero te causar dor, eu quero... machucar você, quero te acorrentar, te bater, mas não porque quero castiga-lo e sim porque quero possuí-lo feito um bicho no cio e então ouvir você gritar, e gritar, até me pedir clemência, e quero muito subjuga-lo e fazer com que você me implore para eu te foder...
Shaka pigarreou sentindo as bochechas queimarem.
— Estava tudo perfeito até sair a palavra indecente.
— Desculpe... eu... eu me empolguei.
— Eu também quero, Mu — disse Shaka após um pequeno momento de silêncio confortável, então num gesto cheio de carinho e meiguice esfregou seu nariz no dele e lhe deu um beijo terno entre as pintinhas lemurianas, depois olhando firme nos olhos dele acrescentou: — Eu quero ama-lo na mansidão da garoa, e também quero monta-lo e cavalgar na fúria da tempestade. Eu sinto que é como se o desejo e o amor que tenho por você não coubessem apenas em uma única porção, fazendo com que eu precise fraciona-los... Nenhuma pessoa é apenas uma. Eu não sou apenas um e você não é apenas um... Você são muitos, Mu, e eu amo e desejo igualmente a todos. O homem, o amigo, o pai, o marido, o amante gentil... e também o sátiro cheirando a carvão e carneiro!
— Pelos deuses, você está me deixando muito, muito, muito excitado de novo — disse Mu descendo a mão pela coluna de Shaka até pousa-la sobre uma das nádegas, a apalpando de leve.
— Nem pensar! — Virgem reagiu na mesma hora lhe tomando pelo punho e afastando a mão. — Está proibido de chegar perto dessa região... por pelo menos alguns dias.
Mu olhou para ele e sentiu uma pontada dura de remorso e culpa. Sabia que tinha sido bem mais bruto do que de fato pretendia.
— Me perdoe, Luz da minha vida... Deuses, eu estou com tanta vergonha — disse ele afastando os cabelos loiros que caiam por sobre os olhos do indiano — não sei o que aconteceu comigo, eu perdi o controle.
Shaka riu e acariciou o rosto dele, o puxando em seguida para um beijo suave.
— Ei... eu estou bem. Acha que eu não pediria para você parar caso não estivesse gostando?
— Hum, eu não sei não... Quando se trata disso eu não confio nada em você.
— Por quê? Está dizendo que não respeito os meus limites?
— É que os seus limites flertam direto com perigo real, né, Sha, seja sincero.
— Hm... mas eu confio nos seus. Eu confio em você Mu.
Mu deu um suspiro preocupado.
— Olha, depois de hoje, eu não sei se confio em mim também — disse, então deu um beijo na testa do marido — mas não vamos discutir isso agora, ok? Esse é um assunto sério, e a Euphoria mexe com o nosso juízo. Só que quero que me prometa uma coisa.
— O quê?
— Nada de jogar isso para debaixo do tapete. Nós definitivamente não podemos ignorar que isso está acontecendo e se repetindo. Não podemos fingir que é apenas recreação adulta, como você disse Sha, porque não é. Esses... esses nossos desejos são perigosos, e precisamos aprender a lidar com eles, encontrar e estabelecer nossos limites, juntos, para ser bom para os dois e principalmente para que eu esteja seguro de que você não vai se matar e nem eu vá te causar nenhum dano real, porque eu jamais me perdoaria.
— Certo... eu prometo — disse Shaka, e com um beijo breve nos lábios do lemuriano se levantou. Meio cambaleante e manco foi até o fichário de cartas Magic e o recolheu do chão. — Bem, senhor sátiro, agora eu sou a sua ninfa, mas ainda tenho um pug de guerreiros para tankar, um boss poderoso para derrotar, e estou sem armadura porque o senhor me deu um hit kill. E então? Volto descoberto para partida?
Mu, que também se levantara e agora ajeitava as calças da fantasia, olhou para Shaka e sentiu um misto de culpa e satisfação, isso porque o tinha deixado todo sujo de carvão, marcado, com hematomas nos punhos, coxas, cintura, sem falar nas marcas de chupões. Ele mesmo não estava diferente; Shaka tinha lhe arrancado até sangue!
— Tem um lavabo ali, onde podemos nos limpar — disse Mu ajeitando os chifres na cabeça, que estavam tortos. — E quanto à sua armadura...
Áries correu rapidamente os olhos pelo ambiente e usando sua telecinese arrancou de uma das janelas enormes a cortina de voal branco. Como se tratava de muito tecido, e sendo Shaka bem magro, Mu conseguiu enrola-la toda em seu corpo, de modo que ao fim ficasse parecido com uma túnica, cuja transparência se evidenciava apenas nas barras abaixo dos joelhos. Rasgando algumas tiras, Shaka improvisou um cinto para marcar a cintura e fez uma sacola à tiracolo para acomodar seu fichário de cards. Mu o ajudou a enfaixar o pescoço e os pulsos com as tiras que sobraram, escondendo assim as marcas que fizera nele, depois, enquanto o esperava usar o lavabo, teleportou da Forja de Áries um punhado de cinzas de carvão e refez a ‘maquiagem’ as esfregando na parte superior do rosto e sobre os olhos. Com a toalha deixada ali e um pouco de água limpou o sangue seco dos arranhões que Shaka deixara em si, livrando-se dela em seguida a fim de não deixar para trás nenhuma evidência do delito. Além, é claro, do misterioso desparecimento do divã e da cortina.
Prontos, Shaka foi recolher os óculos fundo de garrafa do chão.
— Pensando bem, isso foi uma completa insanidade — disse ele colocando os óculos — o que vou dizer ao Kiki sobre estar com uma fantasia diferente da que eu cheguei? Ah, Buda, Kiki vai encher Shaka de perguntas e com certeza colocar ele na berlinda como sempre faz.
Mu não pôde deixar de rir do drama dele, mas em seguida o puxou pela cintura e beijou-lhe a bochecha carinhosamente. Nessa hora, materializaram-se em suas mãos dezenas de flores do campo, de cores e tamanhos sortidos, que ele deliberadamente roubou de alguns arranjos da festa; usando telecinese rapidamente moldou uma coroa.
— Você vai dizer que me derrotou no X1, Upou e ganhou essa Skin de ninfa mágica da floresta, que além de te deixar lindo, é muito mais poderosa que a outra — disse Mu o coroando com o arranjo. Seus cabelos estavam bem bagunçados, o que só lhe conferiu um charme ainda mais natural e deslumbrante.
— Boa! Ah, pobre Kirian, minha doce criança... — Shaka suspirou ajeitando a coroa de flores em sua cabeça — O que será desse espírito puro com pais degenerados e perdidos como nós.
— Ele será livre, e durante sua estadia nesse plano, que eu espero que seja bem longa, também vai descobrir muitas coisas sobre si mesmo que irão assusta-lo... E eu não me preocuparia tanto com isso. Sabia que Kiki e Hyoga conversam sobre sexo?
Uma fraqueza tão brusca quanto terrível golpeou os joelhos de Shaka e ele tombou para frente, escorando-se no ombro de Mu.
— Pelos tormentos sofridos por Buda! — Virgem balbuciou, então levantou a cabeça e olhou para Mu. Seus lábios estavam pálidos como os de um fantasma. — Eu acho que preciso de uma taça de vinho, Mu... talvez duas.
***
Quando Shaka e Mu voltaram para festa, o sangue já tinha voltado ao rosto de Virgem e a palidez moribunda substituída por um tom coral forte. As três taças de vinho que ele tomara em sequência contribuíram, sem dúvida, para tal resultado.
Assim que viu Geisty ali, Mu pediu licença ao marido e foi cumprimentar a amiga, que estava acompanhada de Afrodite, já que Saga tinha ido reabastecer seu baldinho de gelo com mais garrafas de chá e refrigerante. O famoso Trio Ternura do Santuário logo tornou-se a atração principal, já que juntos abriram os trabalhos na pista de dança pedindo para o DJ tocar as melhores baladas do Disco Music dos anos 70 e 80. Com um entusiasmo de dar inveja, os três dançavam passinhos caprichosamente ensaiados, brincavam, riam, contagiando a todos, e logo o espaço delimitado no chão tornou-se pequeno para tantos corpos desfrutando da mesma alegria.
Na quarta taça de vinho, Shaka sentiu-se apto a juntar-se aos dançarinos, mas na hora em que deu o primeiro passo manco em direção à pista de dança, eis que Camus surgiu em sua frente como um paredão de gelo, lhe impedindo a passagem, e exatamente como fazia com os miseráveis que costumava interrogar nos porões fétidos da Vory v Zakone, este encarou o indiano como se pretendesse lhe arrancar a alma pelos buracos dos ouvidos e dar aos ratos do submundo devorarem.
Shaka por sua vez, inclinou a cabeça e encarou Camus de volta por cima dos óculos de lentes fundo de garrafa; e eis que deu-se início a um embate de gigantes.
Após analisar Aquário por um instante, Virgem enfim disse:
— É no segundo corredor, na direzão das lunetas.
Uma das sobrancelhas de Camus formou um arco sobre o olho incandescente.
— O quê?
— O banheiro. Não eztá querendo evacuar?
Camus respirou fundo, quase uma bufada. O cheiro de vinho exalando de seu hálito quente. Sorte não haver fogo por perto...
— Olha aqui, Shaka de Virgem, eu non sou homem de rodeios, então vou ser direto. Você tem algo a me dizer?
— Deveria ter?
— Sou eu quem está perguntando.
Shaka estreitou os olhos e avançou um passo.
— Eu não eztou goztando nada do zeu tom, Mago, e eu também não aceito zer intimado por quem quer que seja nezze mundo... então... vozê pode ter certeza de que se eu tivesse alguma coiza a dizer à voze, além do que eu já dize, que é um tremendo de um calhorda homofóbico, preconzeituoso e corrupto, eu diria.
Camus suspirou aliviado e abriu um raro sorriso largo. Felizmente Shaka não havia visto nada. Devia mais aquele favor a Misty.
— Parfait! Posso te servir do meu vinho?
— Eu não bebo álcool, obrigado — disse Shaka, e com um aceno afirmativo estendeu para Camus a taça já vazia que trazia na mão, lhe indicando que deveria obedecer ao seu gesto e ignorar suas palavras.
E como se tratava de Shaka, Aquário prosseguiu lhe servindo o vinho. Bem nessa hora, um Boi Bumbá imenso que escoltava um filhote serelepe de sátiro parou ao lado deles; o pequeno então sacou a flautinha que trazia presa ao cinto de couro e tal qual um atirador aponta uma arma para o alvo, apontou para o pai indiano.
— BABA! O SENHOR PRATICOU O COITO! — afirmou Kiki com a naturalidade excruciante das crianças.
Shaka pensou que talvez ir nu à feira fosse menos constrangedor, do mesmo modo que uma martelada no topo da cabeça certamente o deixaria menos zonzo do que ter ouvido aquilo daquela forma, à queima-roupa. Ou, quem sabe, fosse o vinho já fazendo efeito...
— KIRIAN! — Virgem o repreendeu, sob uma cascata de gargalhadas do Boi Bumbá.
— Ô PORRA! — exclamou Aldebaran, com seus olhos jabuticabas tão arregalados que podiam ser vistos até por debaixo da máscara da fantasia. —Qual é, Kikizinho? Isso num é assunto pra de menor não, muleque.
— E nem para boi coscuvilheiro — rebateu Shaka, vermelho como uma pimenta, mas sem perder a dignidade — Apozto que esse enxovalho tem dedo seu!
— Olha só, ô Shaka. Eu já deixo avisado que eu não tenho nada a ver com esse papo não, heim. Eu mal sei falar essas palavras de idoso aí, rapá, que dirá ensinar pro menino.
Shaka fez um gesto com a mão, como se tivesse enxotando para longe um mosquito impertinente, e dando as costas a Touro e Aquário, inclinou-se para Kiki e disse em voz bem baixa.
— Apagaram az lamparinas do zeu juízo, Kirian? Não pode falar assim com o seu Baba.
— Não, Baba, é porque o senhor chegou de Kabidhe, e agora está de mulher espetaculosa, então quer dizer que o senhor não está mais de Virgem, e se o senhor não está mais de Virgem, então o senhor praticou o coito.
— POR BUDA! — disse Shaka, e no desespero pegou Kiki pela mãozinha e deu o fora de perto de Aldebaran e Camus antes que o estrago fosse ainda maior. — Filho, o Baba não eztá de mulher ezzpetaculosa não, ele está de ninfa, que é uma... uma criatura mágica da florezta, igual os zátiros.
— O Baba trocou de roupa para ficar igual o Kiki e o papai?
— Izzo! Zó que uma ninfa jogadora de RPG.
Kiki olhou bem dentro dos olhos de bolinhas de gude dele; pensou por um momento e por fim balançou a cabeça ao modo indiano que indicava concordância entusiasmada.
— LEGAL! — O pequeno sátiro comemorou com um saltinho e um sorriso animado. — O Kiki gostou muito mais desta fantasia, Baba, apesar dessa roupa parecer ser feita de cortina.
Shaka pigarreou e deu um gole farto no vinho de Camus. Fez uma careta devido ao teor alcóolico bem mais alto que o servido na festa.
— É que nas eraz mitológicaz não existia caxemira — disse por fim, e procurando fugir do assunto apontou para Mu na pista de dança, que juntamente com Hyoga, Geisty e Afrodite acenavam para os dois os chamando. — Olha lá o gaiato do zeu pai, vamos!
Juntaram-se a eles na maior empolgação, Kiki dando pulinhos de alegria e Shaka preocupado em equilibrar a taça de vinho que trazia na mão. Mu resolveu o problema do marido a tomando dele e derramando a bebida de uma só vez goela abaixo. A taça juntou-se ao divã vitoriano e aos farrapos da fantasia do indiano nas Fossas Marianas.
Já quase sem fôlego, sem interromper os passos de dança Geisty correu os olhos pelo pátio à procura de Saga. O viu ao longe, próximo a uma das tendas, junto ao inseparável baldinho de gelo. Parecia organizar as bebidas ali enquanto dava instruções a um dos servos que servia aos convidados.
Pedindo licença rapidamente aos amigos que dançavam, Geisty deixou a pista e caminhou até Saga, o pegando de surpresa com um abraço carinhoso pelas costas.
— Opa! Acho que tomei um bote — disse o geminiano sorridente, já dispensando o servo que saiu imediatamente.
— Cuidado, sou uma serpente perigosa... e tenho um apetite voraz por alienígenas gostosas.
— Humm... então que sorte a minha. E que tremenda coincidência! — disse Saga se virando de frente para a esposa, a abraçando pela cintura. — Porque eu justamente tenho um fraco por serpentes sedutoras. Ainda mais uma linda como essa... de pele macia... — corria as mãos libidinosas pelos quadris da amazona enquanto lhe cheirava o pescoço, entorpecendo-se do perfume sedutor que exalava da pele dela — cheirosa... Deuses, amore mio, você está uma delícia hoje.
— Hoje?
— Todos os dias, mas com essa Euphoria está sendo difícil me controlar...
— Ai, pelo amor da deusa, então não se controle, Saga... — disse ela tomada pela luxúria que parecia embriagar a todos naquela noite.
Sem perder tempo, Geisty o abraçou com força e tomou-lhe a boca com um beijo ardente ao mesmo tempo em que o empurrava para dentro da tenda. Trocavam carícias ousadas, enquanto um tanto estabanado Saga tratou logo de salvar seu baldinho o colocando no chão, ao lado da poltrona de dois lugares que havia ali, ladeada por arranjos de flores, incensos e frutas. O Patriarca então ergueu a amazona pelas pernas e a deitou sobre o estofado macio de listras corais, a cobrindo com seu corpo em seguida. Era apertado para os dois ali, o espaço entre seus corpos era inexistente, mas isso só tornava tudo mais excitante, já que o calor da ereção acentuada do cavaleiro, por debaixo do colant rosa de lycra, incitava Geisty ao roçar em sua intimidade.
— Hmm, Saga, assim você me deixa doida, amore mio... — ela sussurrava sem deixar de beijar os lábios dele, remexendo-se toda e raspando as unhas longas nas costas largas e nádegas robustas, com cuidado para não rasgar-lhe a fantasia.
— Ah, eu adoro você doida! — grunhiu o geminiano mordiscando os lábios carmins. Sentiu o calor delicioso emanado pela intimidade dela quando esta enlaçou sua cintura com as pernas, puxando seu quadril para baixo num claro convite para que seguisse em frente, então sussurrou delirante: — E posso te garantir que mais doido do que eu já sou por natureza, eu vou ficar se não tiver você agora, sua serpente gostosa... Você quer, né? Quer aqui mesmo, não é?
— Sim, eu quero!
— Podem nos pegar, sabia?
— Eu não ligo! Pelo contrário... me dá mais tesão ainda — disse Geisty devorando os lábios dele, entre palavras arfadas.
— Ah... deuses, cadê o fecho dessa roupa? — Saga perguntou aflito enquanto tateava desesperado as costas da fantasia da amazona.
Súbito, Geisty interrompeu o beijo e arregalou os olhos. Seu rosto, embora maquiado, ganhou a lividez e perplexidade daqueles que chegaram a encarar a morte de perto, mas tiveram uma segunda chance.
— Não tem! — disse ela encarando o marido.
— Não tem? Como assim, não tem?
— Não tem, não tendo.
Saga piscou os olhos incrédulos e sua alma imediatamente fora transportada para o limbo onde habitam os negacionistas.
— Certo, tudo bem — disse ele correndo as mãos pela lateral da fantasia dela — Só me explica como faço para abrir só a parte de baixo para darmos uma rapidinha gostosa mesmo.
— Não tem como, Saga, não tem como! — Geisty respondeu desesperada.
— Como, não tem como? Tem que ter!
— Não tem. É que eu queria uma fantasia bem colada no meu corpo, então o Afrodite mandou o Ágador fazer um...
— Ah, eu sabia! Eu sabia! — Saga a interrompeu estalando uma palma da mão contra a outra e se sentando na poltrona, entre as pernas dela, indignado — Tinha que ter dedo do Afrodite nisso! Sempre ele! Toda merda que me acontece tem o dedo do Afrodite, parece praga! E agora?
— Bom... agora só rasgando... e eu quero curtir a festa, então nem pense em rasgar a minha fantasia — disse Geisty, indignada consigo mesma.
— Rasgar essa fantasia seria um pecado, amore mio... — disse Saga com um suspiro, enquanto olhava para ela deitada ali, alucinado de desejo. — Ah, pelos deuses, você está tão linda...
Sem resistir ele inclinou-se e depositou um beijo, seguido de um chupão, no seio da amazona, sobre o tecido mesmo, arrancando um gemido manhoso dela, que afoita segurou-lhe pelo rosto e o puxou para cima, tornando a beija-lo com paixão.
— A gente vai aproveitando como dá, por enquanto... humm... — disse ela.
Mas a sorte parecia não estar mesmo do lado de Saga e Geisty. Mal voltaram a se beijar e a tenda fora invadida pela melodia de Old MacDonald Had A Farm, entoada pelo toque desafinado de uma flautinha de madeira tocada sem nenhuma aptidão, mas cheia de entusiasmo.
Os dois amantes olharam em sobressalto para a entrada da tenda na mesma hora.
— KIKI! — disseram em uníssono, assustados e constrangidos como se tivessem olhando para uma aparição sacra.
— Oi, tia Gê! — disse o pequeno sátiro abandonando a flauta para sorrir para ela.
— Porca madonna! — gritou Geisty, e quase na velocidade da Luz empurrou Saga de cima de si para ambos se sentassem. Enquanto Gêmeos ainda se acomodava ao seu lado, ela passou a mão do baldinho de gelo e praticamente o atirou sobre o colo dele, que soltou um gemido fino de dor. — Oh, meu amor. Você não estava lá dançando com o pessoal?
— O Kiki estava, mas aí ele foi pegar refrigerante e viu uma fogueira aqui e veio ver o que era.
— Fogueira? — Geisty perguntou com uma risadinha sem graça.
— É.
— N-não... não tem nenhuma fogueira não, meu querido.
— Hum... então, se não estavam acendendo uma fogueira, o Kiki já sabe o que vocês estavam fazendo... Aliás, porque todo mundo está queimando igual fogueira hoje?
Geisty estava vermelha como morango. Olhou para Saga e o viu padecendo do mesmo constrangimento. Ela então se levantou e apressada foi até Kiki tentar desviar-lhe o foco.
— Kikizinho, o seu pai não te ensinou a não usar o seu dom de ler a aura das pessoas apenas quando necessário? Não pode usá-lo assim, numa festinha, ou em situações do dia-a-dia, meu amor.
— O Kiki sabe, tia, mas é que ele ainda não controla direito depois que os poderes dele voltaram — explicou o menininho.
Geisty suspirou e sorriu para ele.
— Tudo bem, sem problema. Logo você vai conseguir controlar, não é mesmo Saga? — perguntou ela direcionando o olhar para o cavaleiro.
— Não... digo, sim, sim, claro que sim! — respondeu Gêmeos tirando finalmente balde do colo. Sentia toda aquela região já meio dormente, e frustrado, porém aliviado, passou os dedos entre os cabelos soltando um longo suspiro. — Ah, bem... já que a fogueira apagou, acho que podemos voltar para o pátio. Vamos, pequeno Kiki?
— Vamos! — O menino respondeu sorridente e animado, enquanto o via levantar-se e pegar na mão de Geisty. — O tio Saga quer participar do desafio de dança? Vai começar na próxima música!
— Claro! Mas... como é isso?
— Todo mundo dança a dança do sacolejo, aí quem ficar cansaço perde e quem aguentar até o final ganha! Vamos tio, Saga, participa! Não tem problema que o senhor é velho, ex-ébrio e está com o espírito quebrado, todo mundo pode participar!
Saga franziu as sobrancelhas e abriu a boca, em choque. Geisty em contrapartida só se manteve em silêncio porque mordia os lábios para não rir.
— Velho? — Saga sussurrou olhando indignado para a amazona. — Se o Shaka aparecer com a boca cheia de formiga amanhã, saiba que fui eu, Geisty, fui eu. Humpf... velho... eu sou mais novo que o marido turrão dele.
Quando o Patriarca menos esperava, uma mão pequenina segurou firme na dele. Apressado, Kiki correu para fora da tenda puxando o grego consigo.
— Vem, tio Saga, vem! Vai começar! Vem, tia Gê!
Geisty ficou um momento ali, parada, apenas olhando para os dois correndo juntos, lado a lado de mãos dadas. A vida parecia voltar a sorrir para Saga, para si e para todos. Pouco a pouco as coisas voltavam ao lugar de onde nunca deveriam ter sido deslocadas. A constatação a fez soltar um suspiro satisfeito junto de um sorriso de genuína felicidade, então apressou-se para juntar-se aos dois e comemorar aquela noite tão única.
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