Faltava pouco mais de uma hora para que a fulgurante luz da Lua cheia cobrisse de prata por inteiro aquele que era o maior símbolo da celebração da Euforia, o Homem Vestido de Estrelas. Este, que já fora de barro, argila, vime, e tantas outras matérias ao longo dos tempos, desta vez foi moldado com material descartado oriundo de aparelhos com tecnologias obsoletas; celulares velhos, componentes avariados de computadores, toca discos já há muito sem função, além de toda a sorte de fios, cabos, conectores e circuitos que ninguém ali um dia saberia para que serviam.

Muitos foram os ritos abandonados através dos milênios, mas o Homem Vestido de Estrelas resistiu ao tempo e sem dúvida era o mais aguardado da noite. Ainda que crenças diversas habitassem os corações dos Cavaleiros de Atena, sendo essas jamais censuradas até pela própria deusa Atena ao longos de suas encarnações, cada cavaleiro ali valorizava os rituais dedicados aos deuses gregos, uma vez que tinham consciência de que deles dependia a sorte dos mortais.

O Homem Vestido de Estrelas tinha exatamente essa finalidade; uma figura humana coberta por um manto de linho bordado com a representação das 12 constelações do zodíaco, e posto aos pés da estátua de Atena. À meia-noite, quando a luz da Lua Cheia o iluminasse por inteiro, anunciando que no céu a conjunção astral atingira seu apogeu, cada cavaleiro de Ouro deveria atingi-lo com um golpe desferido sobre sua constelação correspondente bordada no manto. O rito tinha o caráter de restabelecer a consciência roubada pela Euforia e devolver aos portadores do Cosmo seu estado anterior, para que pudessem ser os donos exclusivos de seus destinos por mais 33 anos. Uma bonita simbologia que na verdade soava mais como uma expiação para as loucuras cometidas sob a influência dos astros.

Todavia, até que não chegasse aquele momento tão esperado, era a música e o vinho, que somados a um entusiasmo extasiante, inflamava os cavaleiros de Atena.

Na pista de dança, meio desengonçado, mas arduamente empenhado, Saga pelejava para entrar no ritmo dos passinhos do sacolejo, estes que Kiki, muito disposto, repetia incansavelmente para ensina-lo.

— Vai, tio Saga, tem que deixar os quartos moles — dizia o pequeno sátiro chacoalhando os quadris redondos de ovelha — o senhor está parecendo um tronco com reumatismo.

Saga olhava para ele e não conseguia deixar de rir. Que criança de seis anos usaria o termo ‘quartos’ e saberia a exata definição do reumatismo? Uma criança criada por Shaka de Virgem, obviamente.

A hilária constatação fez Saga mecanicamente erguer os olhos e procurar o virginiano entre as pessoas que estavam ali, então o viu de mãos dadas com Hyoga, sacolejando e bebendo vinho, embrulhado no que parecia ser uma toalha de mesa. Na hora sua reação foi a mesma de todos que também viram Shaka chegar com uma fantasia e de repente aparecer embrulhado num pano. Arregalou os olhos surpreso e riu.

Saga, aliás, sentia que há muito não ria como naquela noite, com o coração, com a alma, mas decididamente estava empenhado em não contabilizar esse tempo perdido. Agora tudo o que queria era rir com Máscara da Morte tirando Marin para dançar e pisando na cauda do vestido dela; queria rir com Aldebaran com um prato de comida em uma das mãos e uma caneca de vinho na outra, enquanto sua imensa fantasia de Boi Bumba ficava presa em suas costas, dobrando seu tamanho já colossal; queria rir com Shura fazendo a dança do robô e deixando aterrorizados todos que estivessem na mira de seus braços em riste; com Aiolia e sua cabeça de leão saltitante iluminada a cada 5 minutos pelo flash da câmera fotográfica digital que trouxera consigo para as selfies; com Afrodite, que claramente estava numa disputa particular com Misty para ver quem chicoteava mais o rosto do outro com as pontas dos cabelos; queria rir com Mu, que apesar de visivelmente bêbado vigiava Shaka com todo zelo e atenção, afinal Virgem não costumava beber daquela maneira. Inevitavelmente, veio à cabeça de Gêmeos um pensamento pragmático. Sorte o cavaleiro de Áries não estar usando aqueles chifres no dia em que brigaram nas escadarias... Até mesmo Camus, sempre tão sério e sisudo, extraordinariamente participava do desafio de dança, ainda que com passos contidos e sorriso discreto.

No entanto, diferente de Saga, Camus parecia totalmente alheio a tudo e a todos em sua volta, a não ser à taça de vinho em sua mão; desta, aliás, ele cuidava disciplinadamente, repondo o conteúdo com o vinho trazido no inseparável jarro de bronze, o qual mantinha junto ao corpo. Tão distraído estava que não se deu conta do perigo o espreitando de perto. Uma ameaça que aproximou-se tão sorrateira quanto o réptil que compunha sua constelação, e que deixara nele uma marca indelével de horror e agonia. Um tormento vestido num biquíni minúsculo de couro de cobra, botas de salto altíssimo e chapéu de safari. Um sufoco com hálito quente e voz marinada em luxúria.

— Mata minha sede, senhor aguadeiro?

Bastou aquelas palavras sussurradas ao pé do ouvido para que todo o sangue do rosto do cavaleiro, antes corado devido ao álcool, fugisse, deixando sua face tão lívida quanto a de um cadáver. E tal qual um morto, Camus também não se mexeu quando sentiu a mão de toque firme e insinuante pousar sobre seu ombro e lentamente escorregar por seu braço. Correria, certamente, para bem longe, o mais longe possível, mas seus joelhos tremiam e sua vontade estava detida por um gelo na espinha que não provinha de seu Cosmo.

— Hmmm, sabia que sempre quis repetir aquela nossa noite no bordel? — disse a voz em tom ainda mais sensual, enquanto a mão agora apertava firme o bíceps contraído por segurar o jarro. — Hoje seria o dia perfeito para me deixar mergulhar nesse seu aquário gostoso mais uma vez, não acha? Estou com mais sede do que nunca!

Camus engoliu em seco.

Flashes da fatídica noite citada chisparam em sua mente e resultaram em um nó dolorido na barriga.

Ele não olhou para trás, não teve coragem, mas exatamente nessa hora, como um enviado dos deuses para socorre-lo, um traseiro avantajado emergiu do mar de dançarinos à sua frente e sem freios chocou-se com a lateral do seu quadril.

O encontrão não só livrou Camus do perigo como o despertou para enfrenta-lo.

— Ma chère amie, Serpent! — disse Camus abrindo um sorriso trêmulo para a dona do traseiro que executou a manobra. Esta, por sua vez, virou-se para ele sobressaltada.

— Porca Madonna! — exclamou Geisty olhando para Camus de cima a baixo com desprezo. — Não vê que está me atrapalhando, parado aí no meio da pista?

Impaciente, e com a pressa dos desesperados, Camus entregou sua própria taça vazia para Shina atrás de si, a dona da voz e causadora dos seus calafrios e piores pesadelos, depois, imediatamente em seguida, tomou a de Geisty causando espanto em ambas as amazonas.

— Posso te servir do meu vinho, bébé? — disse ele por mera formalidade, já que enquanto falava despejava a bebida na taça ao mesmo tempo em que andava para frente, obrigando Geisty a recuar.

— Heim?

— É de uma safra especial, raríssima, feito com uma fermentação datada do século 18 e leveduras conservadas in natura com gelo proveniente de fontes cristalinas islandesas — dizia Camus insistindo na caminhada.

— Ei! Eu pedi primeiro, heim! — Shina protestou.

Camus nem ao menos olhou na direção da amazona sedenta; ainda caminhando, devolveu a taça cheia à Geisty e seguiu avançando, a fazendo recuar.

— Allez, femme! Experimente, experimente! — incentivou com um sorriso nervoso e um gesto com a mão.

— Ah... obrigada? — disse Geisty confusa, e levou o vinho à boca enquanto era praticamente arrastada pelo francês para dentro do tumulto na pista de dança. — Hmm... é... é muito bom mesmo... muito... bom... — fingiu surpresa, já que já tinha provado a bebida assim que chegou à festa.

— Oui, beba, beba tudo, tem mais aqui, muito mais... só... só continue andando, aller, aller!

Devido à estranheza do situação, Geisty ignorou o fato de Shina ter ficado para trás, mas não deixou de notar que algo estanho se passava com Camus. Por isso mesmo deixou que ele a conduzisse até o outro lado da pista, onde agora um pequeno mar de dançarinos frenéticos os separavam da amazona de Ofiúco. Não que se importasse com ele. Na verdade, ela queria mesmo era sair dali correndo e, se possível, depois de manda-lo à merda, mas com a curiosidade ariana potencializada pela conjunção astral daquela noite, a amazona sentia-se simplesmente impelida a descobrir o que se passava com ele.

— Vem cá, é impressão minha, esse vinho está batizado com heroína, ou você estava fugindo da Shina?

O espanto tomou conta das feições do cavaleiro de Aquário. Estaria assim tão evidente seu pavor de Ofiúco?

— Pppff... — bufou Camus enrugando a testa, levantando as sobrancelhas e fazendo um bico, então depois de uma breve pausa, no que encarou Geisty como se quisesse guilhotina-la sem dó nem piedade, rendeu-se, relaxando os ombros e revirando os olhos: — Bah, en fait... oui, estava sim.

Perplexa a amazona só conseguiu pronunciar:

— Não acredito! Pela castidade da deusa, homem, por que motivo?

Em circunstâncias normais, Camus não apenas não daria ouvidos a ela como também não se sentiria na obrigação de responder, quiçá dar qualquer satisfação. Mas aquela definitivamente não era uma circunstância normal.

Era a noite da Euphoria.

— Por que, você me pergunta? Pois eu vou te contar. — Aproximando-se um pouco dela como quem está prestes a revelar um segredo, Camus continuou: — Pela óbvia razão de que aquela criatura é um perigo ambulante para qualquer exemplar do sexo masculino. Ela é louca! Se comporta como uma cobra sorrateira pronta para dar o bote! Ela me dá medo... Non, ela me dá pavor!

Geisty abriu a boca, surpresa. Mas tal surpresa não era nada comparada à indignação repentina que se apoderou dela.

— Você só pode estar de brincadeira. Medo de uma mulher, seu... seu porco russo?!

Aquário arregalou os olhos sobressaltado.

— Mas só me faltava essa! Eu, com medo de mulher? Non faça a surda!

— Foi o que você acabou de dizer.

— Eu disse que tenho medo da Shina, non de mulher — esbravejou Camus pousando uma mão na cintura e encaixando o jarro de bronze no quadril do lado oposto. — E mais... você é Thémis ou algum juiz do submundo para me julgar, querida? Fique você sabendo que aquilo lá non é uma mulher. Non. Ah, non! Aquilo... ic... aquilo é ic... é... ic... ic... ic...

A crise repentina de soluço parecia não querer deixar que Camus concluísse a frase, então Geisty deixou as rixas pessoais de lado por um instante, cedendo sua taça de vinho a ele. Por um momento o altruísmo venceu.

— Beba, você está precisando mais do que eu — disse ela sem tirar os olhos dele, abismada com o que via e ouvia.

Camus despejou toda a bebida goela abaixo, depois encheu novamente a taça e repetiu a ação. Na terceira vez que repôs a bebida, devolveu a taça para Geisty, respirou fundo e finalmente conseguiu concluir:

— Aquilo é um demônio ninfomaníaco! Um súcubo sedento por falo. Um animal irracional no cio. Um comensal de apetite sexual insaciável e sem limite. Um completo pesadelo! L´HORREUR! L´HORREUR!

Geisty olhou para ele com desdém, porém surpresa com aquela perspectiva. Conhecia muito bem a fama de Shina, afinal esta nunca teve intenção de esconde-la, mas certamente Camus estava exagerando. Foi a vez da amazona derramar goela abaixo o vinho, ainda sentindo-se indignada.

Estendendo a taça novamente vazia para Camus, para que ele lhe servisse mais vinho, ela disse:

— Hum, ok... você foi para a cama com a Shina e ela te esfolou vivo. Até aí nada de novo. Pensei que vocês russos fossem os brabos — ironizou.

— Je suis français! — Camus esbravejou com certa afetação.

— Você é um francês russo, dá na mesma. E quer saber? Seja lá o que a Shina tenha feito com você que te traumatizou tanto, ela fez foi pouco! Me lembre de parabeniza-la. À minha amiga, Shina, a devoradora de porcos! — levantou a taça como quem ergue um brinde e de novo bebeu tudo de uma vez só, estalando a língua no céu da boca no final.

Camus olhava para ela com desprezo e certa repulsa.

— Mas é mesmo uma grosseirona! — Bufou revirando os olhos — Sua tosca! Só mesmo Ma Rose para enxergar algum valor em você.

Geisty piscou com um olho só e estalou novamente a língua, agora nos lábios, os sentindo já bem entorpecidos.

— Rose? — perguntou ela. — Que Rose, porco?

— Pppff — fez Camus jogando os cabelos para trás dos ombros com um movimento da cabeça que lembrava um oito deitado — como, que rose? A minha rose, Aphr... ic... ic... ic... ic...

— Xiiii — disse Geisty o encarando, e dando uma cambaleada para o lado esticou a taça para que ele voltasse a enche-la — Vai, bota mais aí, depois prende a respiração e bebe nove goles.

Camus inclinou o jarro, mas eis que no instante em que ia começar a despejar a bebida na taça, uma mão surgiu ali e jogou algo dentro do jarro. Ouviu-se um fraco tilintar do objeto se chocando com o fundo.

— Fils de pute, ic! — praguejou Camus, meio embasbacado, ainda sem entender que tinha acabado de acontecer.

Foi então que Shaka, o dono da mão, despontou à sua frente lhe agarrando ambos os braços e quase o fazendo derrubar o jarro.

— Eu ezcondi o artefato mágico na zua ânfora mágica, Mago do Xelo. A zua missão é impedir que o Patriarca da Zidadela ponha as mãos nele — disse encarando os olhos espantados de Camus com seus olhos azuis intimidadores.

— O... quê? — perguntou Aquário, perdido.

— Ficou doido, homem? — disse Geisty puxando Shaka pelos panos enrolados no corpo para em seguida quase enfiar a cabeça dentro do jarro de bronze — Ma che cazzo você jogou dentro do nosso vinho?

Então, nessa hora, feito uma onda que se agiganta à medida em que vai chegando próximo à margem, Saga vinha na direção deles a passos largos, braços esticado à frente, indicador da mão em riste e uma expressão nada amistosa no rosto.

Mais atrás, Mu e Afrodite vinham correndo aos risos, junto de Aiolia, que cambaleante segurava a cabeçorra de leão em sua cabeça para não perde-la pelo caminho, e o Boi Bumba sambando. As crianças os acompanhavam na correria, não menos interessadas e animadas que os adultos.

— Para o caralho, Shaka de Virgem! — gritou Saga apontando para o virginiano. — Me devolva o meu troféu, seu mau perdedor!

— Zeu troféu uma ova! Shaka ganhou a gincana! — Virgem respondeu no mesmo tom.

Geisty por um instante esqueceu do vinho e levantou os olhos violetas brilhantes para Saga.

— Amore mio! Você ganhou no sacolejo?

— Claro que sim! — Gêmeos respondeu enérgico.

— Claro que não! — Virgem rebateu dando uma cambaleada para o lado — O último sacolejo foi de Shaka!

Os outros cavaleiros que chegaram ali logo acercaram-se dos dois e então passaram a tomar partido na discussão.

— KUEIN! — clamou Afrodite apontando o tridente para o peito de Shaka — Truqueira abilolada! O Miolo Mole foi quem mexeu o rabicó até o fim. A Beth, a Linda, cantou pra subir muito antes dele!

— Por que voze está falando comigo, Naga beijoqueira? Eu estou invisível para voze, lembra? — Shaka retrucou.

— Quem estava invisível era a virgem. Sem hímen, sem invisibilidade, gata.

De repente, todo mundo pareceu confuso; apenas Mu conteve o riso e como o bom marido que era, interveio de pronto, erguendo o dedinho no ar.

— Epa! Não, não, não, não, Dido. Impossível o Saga rebolar mais do que a Luz da minha vida.

Saga exaltou-se.

— Impossível é o corno do Hades ter coragem de sair daquele caralho de buraco que ele vive e subir aqui agora para eu chutar o rabo dele. Porra! Eu posso fazer tudo que esse estrupício loiro faz, e melhor, inclusive rebolar! — ergueu o indicador, imperioso.

— Nossa, e como rebola bem, Mama Mia! — disse Geisty, fazendo Saga corar imediatamente, isso por estarem rodeados pelos amigos e a amazona não lhe parecer nem um pouco acanhada.

— É claro que pode, Saguinha — concordou Afrodite — Acredito no seu potencial.

Nessa hora, Camus lançou para Afrodite um olhar exaltado.

— E você está defendendo tanto ele por que, posso saber?

Então todos os olhares se voltaram para o aquariano. A maioria recebeu aquela pergunta como um questionamento trivial, até legítimo, vindo exatamente de quem vinha, mas Afrodite gelou da cabeça aos pés. Peixes logo percebeu o quanto Camus estava alterado pela bebida, já que sabia que o noivo era resistente à vodca, porém muito fraco para o vinho, e que possivelmente estava tendo outra crise de ciúmes por causa de Saga, por isso tratou logo de mudar o viés da discussão.

— Como, por quê? Porque tá na cara que essa virgem de equê* metade sereia metade tubarão*, tá de recalque.

Enquanto Shaka bufava, Kiki cutucou o joelho de Afrodite com a flautinha.

— Dindo, o que é recalque?

Hyoga adiantou-se e respondeu pela ‘amazona’, já que estava mais do que acostumado, para não dizer, fluente, no dialeto dela.

— É inveja.

Kiki arregalou os olhos e imediatamente olhou para o pai indiano.

— Baba, que feio! Inveja é feio!

Shaka deu um passo manco para frente e encarou Afrodite nos olhos.

— Naga difamadora! — vociferou, depois olhou para Saga. — Shaka vai dar uma lição em vozês dois de uma vez por todas!

Deu-se, então, uma cena pela qual ninguém esperava.

O cavaleiro de Virgem ajeitou no rosto os óculos fundo de garrafa, então meteu a mão na sacolinha improvisada que fizera com tiras da cortina e de lá tirou uma carta Magic que tinha reservado especialmente para aquela ocasião.

Com ela na mão, bateu uma palma contra a outra produzindo um estalido e depois a ergueu, a exibindo para todos.

— Eza é a carta do Campo de Batalha... O artefato mágico que eztá com o Mago do Xelo, e que dá o título de Grão-Meztre Sacolejador Jenkins, zerá do time que venzer essa partida — disse o indiano, e fazendo uma pausa correu os olhos de bolinhas de gude sobre os cavaleiros ao seu entorno como para convoca-los a entrar na brincadeira. — O time do Shaka vai defender e o time do Patriarca Proxeneta vai atacar. Quem eztá com Shaka?

— Alôca! — exclamou Afrodite rindo — Tapuia* pirou de vez, gente!

Mu, que já tinha desatado a rir logo que percebeu o que Shaka faria quando enfiou a mão na sacolinha de tira de cortina, deu dois passos à frente, batendo com força os cascos de metal no chão, e o mais sério que conseguiu disse:

— Você tem a minha flauta — fez uma pausa, então olhou para Shaka e dando um sorrisinho sensual emendou: — e o meu coração!

Shaka sorriu de volta para ele e logo viu Kiki e Hyoga repetirem o gesto de Mu dando dois passinhos à frente.

— E a flautinha do Kiki também, Baba.

— E o meu Pó de Diamante, tio Shaka!

Camus nessa hora suspirou longamente. Ainda sentia-se estranhamente incomodado, porém motivado para fazer parte daquele maluquice.

— Bah, en fait... no que depender de mim, connard nenhum vai tocar nesse jarro... e seja lá na merde que tiver dentro dele.

Geisty, por sua vez, não tinha nem muito o que pensar.

— Eu sinto muito, Shaka, mas meus dotes não pertencem a outro senão ao amore della mia vita — disse ela indo até Saga e o abraçando pela cintura.

Aldebaram também não precisou de tempo para escolher seu time.

— Menos mal, achei que fosse deixar todo mundo cego e surdo de novo — disse o Boi Bumba caminhando até Saga. — Bom, é o patrão quem paga meu salário, né. Tem nem o que discutir.

Aiolia, em contrapartida, tomou a direção oposta sem pestanejar.

— Pois sempre que o Saga estiver em um time, eu só sei que estarei no outro — disse indo até Shaka, e nessa hora Saga ficou levemente desconfortável, porém nada que lhe tirasse o entusiasmo fervilhante.

Faltava ainda Máscara da Morte e Shura. O primeiro, embora tivesse chegado na rodinha um pouco depois dos demais, parecia totalmente alheio à brincadeira; foi preciso que Afrodite pegasse em seu braço e o obrigasse a tomar partido, o seu, obviamente. Já Shura tinha uma missão pessoal bem mais importante, estava enchendo com tudo o que pudesse pegar da festa, os potes que havia trazido de casa, assim teria comida de graça para a semana toda e poderia economizar uma boa quantia de Euros para gastar com sua coleção de selos.

Afrodite ainda não tinha se pronunciado, mas era evidente sua escolha. Seus olhos aquamarines, acesos como nunca, não desviavam um só segundo dos olhos avelãs faiscantes de Camus, que por um instante fantasiou que o noivo escolheria o time de Shaka para defende-lo. Ledo engano.

— Vai ser matim* tirar a jarra do picolé azedo — disse ele, para a total perplexidade do aquariano, que chegou a abrir a boca para soltar algum impropério, mas felizmente teve um lampejo de juízo e externou seu descontentamento criando uma grande bola de neve, que arremessou com toda força na cara de Afrodite.

Peixes quase caiu de bunda no chão, com gelo lhe entupindo nariz, boca e ouvidos, não fosse por Máscara da Morte tê-lo escorado pelas costas.

— Mannaggia di una porca puttana! — exclamou o italiano arregalando os olhos e divisando um tanto surpreso o paredão de cavaleiros à sua frente. — Então é para valer essa merda!

— Mas é claro que é! Peguem o meu troféu! — gritou Saga imperioso.

Sendo assim, para o espanto de todos, inclusive das crianças que riam divertidas, Câncer deu alguns passos para o lado, agarrou uma das cadeiras de madeira disponíveis ali e simplesmente a arremessou como se esta fosse um disco olímpico, contra o time adversário. Em reflexo, todos desviaram a tempo, menos Mu, que bêbado e distraído permaneceu ali, e feito um alvo destacado com letreiro luminoso levou a cadeirada bem na cabeça. Por sorte, os chifres de carneiro não apenas absorveram o impacto como racharam a cadeira ao meio, e o golpe serviu para acordar o ariano para o jogo.

— MAS QUE PORRA! — gritou ele piscando os olhos e já vendo Camus lançar mais bolas de neve contra o time adversário.

De repente, Kiki passou correndo entre suas pernas.

— Palavra feia, papai! Deve 1 Euro para o Kiki! — disse o menino, que seguiu em frente e acabando-se de rir foi se juntar a Hyoga e Camus na artilharia com bolas de neve.

Quem estava de fora da brincadeira, logo estacionou ali para vê-los. Mesmo o DJ contratado, que não parou de animar a festa com música, enquanto assistia sem piscar àquelas pessoas fazendo truques mágicos incrivelmente realistas, como criar neve do nada, levitar objetos, produzir feixes de luz com as mãos e até arremessar cadeiras de madeira maciça como se fossem feitas de espuma.

Tudo estava muito divertido para os aprendizes, cavaleiros de Prata e até para os servos já bem acostumados, afinal, os jogos e competições sempre fizeram parte das tradicionais celebrações gregas. Era um show de cor e alegria aos olhos comuns... até Geisty decidir apelar.

Já bem prejudicada do juízo devido ao vinho, e sem paciência para continuar levando boladas de neve na cara e ter sua tão caprichada maquiagem derretida, a amazona protegeu-se atrás do Boi Bumba rodopiante e ativou seu Cosmo, criando uma poderosa ilusão que alterou todo o espaço, transformando o pátio da deusa Atena no boteco em Rodório que ela costumava frequentar todas as quintas-feiras junto de Mu e Afrodite, o famigerado Piriquitão Night Clube.

Certamente que aquela não era bem a intenção de Geisty, mas foi o que ela conseguiu pensar depois de tantas taças de vinho. Mas, apesar da embriaguez, sua ilusão era tão poderosa que além do espaço distorcido, também os odores e outras percepções sensoriais, como sons e paladar, foram alteradas, fazendo com que todos que antes sentiam o delicado perfume das flores, ambrosia fresca e quitutes sofisticados, de repente tivessem seus narizes invadidos pelo forte odor de fritura, ovos coloridos cozidos, carne suína rançosa e um azedume que lembrava cerveja choca. O vinho ficou com gosto de cachaça e fez muita gente se assustar e cuspir a bebida. E tudo isso ao som do mais autêntico forró pernambucano, o ritmo que mais tocava no boteco, já que o dono era um simpático senhor brasileiro que se casara com uma moça grega amante desse ritmo.

No entanto, havia na ilusão de Geisty um diferencial. Este que Mu foi o primeiro a perceber.

— Eu não acredito! — disse o lemuriano quando correndo para desviar de outra cadeira que Máscara da Morte havia arremessado, viu passar ali uma figura conhecida sua. — Senhor Xaralampos! É o senhor Xaralampos ali!

Mu se referia a Xaralampos, um ateniense de meia idade, bem afeiçoado, que sempre dividia o microfone consigo no Karaokê do Piriquitão Night Clube, cuja dicção não era das melhores, mas a animação contagiava a todos.

Decerto que não era exatamente Xaralampos, mas uma cópia dele carcomida e putrefata.

Como senhor Xaralmapos haviam também outras figuras icônicas frequentadoras do mesmo lugar; dona Korthinas, a senhora que fritava os torresmos que Mu nunca dispensava, as irmãs Isidoro, o time todo do dominó, os boêmios que dispensavam cadeiras e ficavam horas de pé engrossando o cotovelo no balcão; até senhor Omar, o dono, estava lá, não em sua melhor forma, pois que junto de metade da cabeça faltava-lhe o braço que batia sempre contra o balcão quando para apartar as brigas dos bêbados.

Os convidados logo começaram a gritar, alguns em pânico, ao mesmo tempo que fugiam procurando esconderijos nas tendas. Afrodite, em contrapartida, teve uma crise de riso tão forte quando reconheceu todas aquelas figuras zumbis que baixou a guarda e foi atingido em cheio por uma bolada de neve lançada por Camus, bem nas nádegas, que o tinha como alvo principal. Aquela especialmente havia ardido como nunca.

— Ai, viado! Vai ter que esquentar minha bunda depois! — murmurou para si mesmo, então virou-se para Camus e o viu rindo satisfeito.

Peixes revidou na mesma hora criando uma bola imensa de pétalas de rosas vermelhas e a atirando contra Camus com toda força, enfim o derrubando no chão.

— O MAGO DO XELO FOI DESMANTELADO! — Shaka gritou histérico. — DEPREZA, TIME, NÃO DEIXEM TOMAREM O JARRO DELE!

Mal terminou de dar a ordem, e igualmente prejudicado do juízo como estava Geisty — aliás, como estavam todos — Shaka achou que seria uma boa ideia combater ilusão com ilusão, e enquanto seu time de bravos bêbados, aliás, bravos guerreiros, corriam para defender Camus no chão soterrado por rosas, ele também ativou seu Cosmo e criou outra ilusão.

Para a sorte de todos, havia mais vinho nas veias de Shaka do que agora sobrava no jarro de bronze de Camus, e com o raciocínio entorpecido, tudo o que Virgem conseguiu criar foram carcaças cadavéricas de pôneis e demônios horrendos que emergiam do chão trazendo consigo um cheiro pútrido que logo espalhou-se pelo ar. Esses de fato punham medo, eram medonhos, assustadoramente reais, mas perdiam todo o respeito e dignidade por estarem vestidos de odaliscas e, como tal, ao em vez de atacarem as pessoas, erguiam os braços para o alto e executavam a dança do ventre, exibindo uma espantosa desenvoltura, além de inacreditável carisma.

— Tem alguma coisa errada... — murmurou Shaka para si mesmo abaixando os óculos e correndo um olhar analítico pelo cenário em sua volta. Viu quando um dos zumbis de Geisty montou um dos seus pôneis e saiu galopando entre os convidados. Alguns deles já inconscientes no chão, nocauteados pelo pânico. — Sim, tem alguma coisa errada... — reforçou quando viu um demônio executando a dança dos Sete Véus sobre uma das mesas, e pelo número de véus que já havia tirado dava para ver que não usava nada por baixo, e que a visão do que tinha entre as pernas não era nada agradável.

Um pouco confuso, Shaka tornou a enfiar a mão na sacolinha de cortina, mas dessa vez tirou dela o dado de RPG. Queria rolar o dado para saber se aqueles pôneis e espíritos malignos diferenciados que criara iriam derrotar os boêmios do Piriquitão Night Clube de Geisty, porque até mesmo ele não conseguia acreditar naquela luta, mas bem na hora que ia tirar a prova, Saga apareceu ali feito um bólido e lhe deu um encontrão, o fazendo perder o dado.

Shaka mal teve tempo de praguejar e Saga, sem hesitar por um só instante, virou todo o gelo de seu baldinho sobre a cabeça do virginiano, mas no instante em que ia cobri-la com o balde, eis que Mu o impediu com um gesto que fazia jus ao animal representante de seu signo, uma cabeçada, bem nas costelas.

O baldinho voou longe. O próprio Saga voou longe; foi arremessado no chão, mas viu nessa a oportunidade perfeita para vencer aquela batalha e recuperar o seu troféu, uma vez que a um mísero metro de distância estava Camus e o jarro de bronze. Ele só teria que arrastar-se até o aquariano por aquele caminho de gelo e pétalas de rosas. Uma tarefa bem fácil, ele pensou. Mas logo viu que não era.

Assim que Saga começou a rastejar, desviando dos pôneis malditos, dos bêbados zumbis e dos demônios dançarinos, uma pisada em falso do Boi Bumba quase o mandou de tobogã para o colo de Hades. Felizmente, os reflexos do geminiano estavam em dia e sua mente sã — parcialmente — e ele rolou para o lado a tempo, mas não o suficientemente rápido para escapar das bolas de neve lançadas por Hyoga e Kiki, que seguiam incansáveis na linha de frente defendendo Camus.

Aiolia e Afrodite logo chegaram ali, cada um com um intento, e enquanto o Leão partia para cima do Touro, Peixes mergulhou, literalmente, no Aquário, pulando em cima do morro de pétalas, e embora Afrodite agora estivesse no chão, ele sentia-se mesmo era no céu! Vivia um sonho, podendo brincar com seu amado ruivo na frente de todos e junto de todos.

E ainda que bem fora de seu juízo normal, Camus partilhava da mesma satisfação. Soterrado pelas pétalas, nem se quisesse conseguiria levantar-se sem ajuda; estava bêbado, e tudo o que fazia era permitir que Afrodite lhe bolinasse o corpo, enquanto bebia o resto de vinho que sobrara em seu jarro.

Assim que os viu ali, um sobre o outro, Mu teve a única reação que lhe cabia no atual estado de embriaguez e euforia que estava.

— MONTINHOOO! — gritou ele, e correu até Camus e Afrodite, levando Shaka consigo pelo braço.

Bastou aquilo para que os outros resolvessem fazer o mesmo, e em segundos lá estavam todos, cavaleiros, crianças, pôneis cadáver, senhor Xaralampos, dona Khortinas, os bêbados zumbi todos, os demônios odaliscas, e por fim Geisty, que foi arremessada em cima do monte por Máscara da Morte.

— Aidez-mooooiiiiii! — gritou Camus debaixo de todos num fio de voz, entre tosses e engasgos.

Foi então que Saga, o único ali que parecia ter ainda algum juízo, precisou dar a partida por encerrada.

— PAROU, PAROU, PAROOOU! — gritava ele no meio do monte, espremido entre senhor Omar zumbi e o Boi Bumba. — VÃO MATAR ELE... E... VÃO ME MATAR! SAIAM! SAIAM... PRINCIPALMENTE VOCÊ, ALDEBARAM, PUTA QUE PARIU!

Um a um, todos foram se retirando com cuidado, desfazendo o montinho, até que finalmente Camus emergiu daquele mar de gente e criaturas saídas de um conto de horror, todo amarrotado, molhado e pálido feito um fantasma.

— A... ai... aidez... so... socorro... — chiou ele levando a mão à garganta enquanto se punha sentado.

— Père, o senhor está bem? — Hyoga perguntou preocupado. Do lado do garoto, um demônio vestido de rosa olhava para Camus com o mesmo semblante apreensivo. Estava preocupado também.

— Non! — Aquário respondeu puxando o ar com dificuldade.

Surpreendendo a todos, Saga arrancou o jarro de bronze da mão de Camus e olhou dentro dele. Não vendo nada ali, o virou de cabeça para baixo e balançou.

— Onde está o meu troféu? — perguntou curioso.

— Aqui! — Camus respondeu aflito apontando para a própria garganta.

— PORCA MADONNA ELE ENGOLIU! — gritou Geisty.

Fez-se um breve momento de pânico em que olhos se esbugalharam, mãos foram às cabeças e bocas se abriram mudas. Então, quando ninguém esperava, feito um trem desgovernado Afrodite avançou em meio a todos, puxou Camus pelas costas e imediatamente começou a aplicar nele a manobra de Heimlich. Alguns solavancos depois o francês expeliu o troféu, para alívio de todos, mas principalmente do pisciano, que quase morreu de desespero.

— Dadá, Camus, você quase me mata de susto! — disse Afrodite que ainda atracado às costas de Camus sentia as mãos tremerem e o coração acelerado.

De repente, todos ali estavam olhando para Peixes e Aquário, alguns incrédulos, outros apreensivos, já que acreditavam serem desafetos assumidos. E nessa hora, por um instante, fez-se um silêncio profundo e um tanto perturbador, até que um grito de puro horror quebrou o encanto.

Quando todos olharam para a direção de onde veio o grito, viram que o demônio que dançava sobre a mesa a dança dos Sete Véus, estava agora completamente nu, balançando uma coisa imensa que não era véu, enquanto alguns servos e aprendizes se escondiam apavorados atrás da bancada do DJ.

— Shaka de Virgem, pelos deuses! — disse Saga constrangido cobrindo os olhos de Geisty.

— Ah, zim, zim, desculpe... — respondeu Shaka recolhendo seu Cosmo e desfazendo a ilusão imediatamente.

Geisty fez o mesmo, e quando o ambiente todo voltou ao normal ficou a encargo dos cavaleiros de Prata reconfortarem os amedrontados.

A partida estava encerrada e graças ao demônio peladão todos pareceram esquecer completamente o clima estranho entre Camus e Afrodite. Alguns consideraram que agora eles estavam quites, por conta de Camus ter salvado a vida de Afrodite lhe doando seu sangue a seis anos atrás, por isso o francês não reagira mal. Hyoga, por sua vez, ficou aliviado pelo pai e orgulhoso pela mãe tê-lo salvado.

Apenas Shaka parecia ainda chateado.

— Não fica assim, meu Ninfo da floresta — disse Mu abraçando o marido pela cintura e dando nele um beijinho no rosto emburrado — Daqui 33 anos você terá a chance de enfrentar o Boss de novo e provar que você é mil vezes melhor no sacolejo.

— Nozza que encorajador! — Shaka respondeu fazendo um gesto de desgosto e provocando risos em Mu.

— Vem, praga, vamos beber, dançar, dar uns amassos que é quase meia-noite!

A hora mais esperada da celebração enfim estava chegando. A hora de maior euforia, de maior conexão de cada cavaleiro com as estrelas, e a hora de agradece-las por todo o poder e influência que despejavam sobre eles.

Também a hora de recolher as crianças aos aposentos do Grande Mestre, de deixar a festa apenas para os adultos, e de dar cabo do Homem Vestido de Estrelas.

A cerimônia, embora belíssima, era breve. Os nove cavaleiros de Ouro ficaram em formação aos pés da estátua de Atena, cada um alinhado à estrela principal de sua constelação guardiã no céu. Um a um, golpearam o boneco sobre seu respectivo signo, depois o lançaram do precipício enquanto conversavam com os astros, pedindo também pelos cavaleiros de patente menores que recuperassem sua autonomia e livre arbítrio. Era essa a missão dos dourados.

Terminado o ritual, e já passado o susto do DJ, deu-se sequência à festança, agora com cada um ali sob a influência máxima da Euphoria, que não poupava ninguém.

Certamente demoraria outros 33 anos para que se visse Máscara da Morte pedir Shina, Marin, e até algumas servas em casamento, lhes jurando amor eterno e com lágrimas nos olhos. Outros 33 anos para Aldebaran decidir tirar uma soneca, depois de comer feito uma draga, justamente quando o DJ começou a tocar um pagode brasileiro. Aiolia era vaidoso por natureza, mas ninguém tinha dúvida de que demoraria três décadas para que ele conseguisse igualar o número de fotos que fez Marin tirar de si naquela noite. Shura já tinha três sacolas cheias de provisões que levaria para Capricórnio. Comida garantida para quase um mês inteiro. Um sorriso espontâneo, de alegria genuína, no rosto de Camus? Daqui a 33 anos apenas. Mu brigando com o DJ por não querer ouvir a mesma música duas vezes e resolvendo o problema quebrando o disco? Shaka, um monge budista, surtando porque as coisas não saíram como havia planejado? Saga, que era falante e inconstante por natureza, fazer questionamentos ligeiros sobre a vida alheia, dos quais ele mesmo respondia antes de seu interlocutor? Somente daqui há três décadas. O mesmo tempo que certamente levaria para Geisty aceitar vestir outra roupa sem fecho por puro impulso.

E era perfeito justamente por ser assim.

Tudo tinha seu equilíbrio, e a Euphoria existia para lembra-los de que todo e qualquer excesso os levaria à ruina.

Apenas um cavaleiro parecia não ter mudando tanto naquela noite. Isso porque os excessos já faziam parte de sua natureza, já que ele era o próprio excesso.

Quando viu Máscara da Morte tomar um fora mais do que justificável de todas as mulheres da festa, Afrodite logo foi consolar o amigo canceriano. Sabia que ele estava com as emoções a flor da pele, então, a fim de ajuda-lo, passou a mão em duas taças de vinho e foi beber com ele. No entanto, achou que seria uma boa ideia turbinar a bebida com algo mais, algo que deixasse o italiano alegre e que espantasse aquela melancolia canceriana potencializada pelo álcool. Ativando seu Cosmo, Peixes criou uma pétala de rosa azul, que surgiu na palma de sua mão. A coloração se dava devido à toxina sintetizada nesta, que tinha propriedades alucinógenas e estimulantes. Regido pelo signo mais empático do zodíaco, ele queria ver Máscara da Morte feliz a qualquer custo, e para fazer-lhe companhia, amassou a pétala e a partiu em dois, colocando na bebida dele a na sua também.

Nessa hora estavam quase todos no pátio, então Saga aproveitou a ocasião para comunicar aos amigos uma decisão que ele e Geisty haviam tomado naquela semana. Eles finalmente voltariam a morar juntos na Casa de Gêmeos, como antes quando se casaram.

A notícia foi recebida por todos com aplausos, gritos eufóricos, assovios e muita festa. Visivelmente feliz como nunca, Saga ergueu um brinde àquela nova fase de sua vida, talvez a mais sonhada desde que tudo teve início, e após este todos cumprimentaram o casal lhes transmitindo seus sinceros votos de felicidade.

Enfim as animosidades ficaram no passado e eles seguiram comemorando da maneira que mais lhes agradava, com muita música, vinho e festa.

Lá pelas tantas, quando a Lua Cheia já não mais estava no topo do céu e a congruência astral começava a se desfazer lentamente, amenizando a influência das constelações nos bravos guerreiros de Atena, quem sentiu o primeiro baque da realidade foi Shaka.

De pé no meio do pátio, parado meio envergado para o lado, o cavaleiro de Virgem tinha a visão turva, o estômago enjoado e a cabeça confusa. Como nunca bebia, parecia mais um farrapo humano. Olhos de peixe morto, cabelo todo desgrenhado e a boca meio torta por causa da careta que fazia devido ao gosto amargo que lhe subia pela garganta.

“Mu!”

Shaka chamou o ariano por telepatia.

“Mu!”

Mais uma vez.

“Mu de Áriezz!”

Até que Mu enfim respondeu.

— Nossa, Sha, até sua voz telepática é de bêbado — comentou o ariano rindo, que estava na frente de Shaka, ele mesmo tão bêbado que já encontrava dificuldade em equilibrar-se com facilidade nas próteses nas pernas.

“Mu... o Shaka quer ir para casa... mas ze ele tirar o pé dezze chão, ele vai andar com o nariz.”

Áries não aguentou e riu ainda mais.

— Certo, certo — disse segurando o rosto dele, afastando os cabelos da testa — Me espere aqui que vou pegar o nosso filhote lá dentro. Eu carrego você, Luz da minha vida.

“Nem penzar!” — disse ele, e nessa hora seus olhos se fecharam e seu nariz franziu. “Shaka não vai zair da fezta carregado!”

— Deixa de ser bobo. Tá todo mundo bêbado... não saia daqui, eu já volto.

Cambaleante, Mu cruzou o pátio e no caminho até a entrada dos fundos do templo passou por Afrodite, que sobre uma das mesas, incentivado por um Máscara da Morte completamente insano e uma plateia para lá de sedenta em vê-lo nu, dava início a um Streep Tease.

Misty era de longe a figura mais entusiasmada de todos que estavam ali, ao redor do pisciano. Isso porque certamente sabia que aquele showzinho despertaria a fúria de um certo cavaleiro ruivo, e tudo o que queria era ver o circo daqueles dois pegar fogo até ser reduzido em cinzas eternas.

Vai dar merda! Pensou Mu, e antes que desse mesmo tratou logo de buscar Kiki nos aposentos do Patriarca para voltar o mais rápido que pudesse, afinal Shaka estava bêbado, mas ainda assim era um bêbado perigoso, analítico, observador e muito esperto.

Quando voltou, com Kiki dormindo nos braços, Mu procurou por Saga e Geisty para despedir-se, mas encontrou a irmã tão aflita para ir ao banheiro que mal conseguiu dizer-lhes o que queria. Sendo assim, voltou logo para Shaka, que continuava plantado no chão exatamente como o tinha deixado.

— Pronto, Sha, podemos ir — disse, e ajeitando Kiki em um braço se inclinou na intenção de pegar o marido com o outro.

Shaka, no entanto, deu um passo para trás, apenas não caindo de costas porque Mu o segurou pela cortina enrolada em seu corpo.

— Mas que orgulho besta! — bufou, então somente o abraçou pela cintura e respirou fundo. — Ok, praga... eu ia descer as escadas até Virgem porque não gosto de usar o teleporte quando estou assim... tipo...

— Bêbado.

— Alegre.

— Vozê não eztá alegre, Mu, vozê eztá bêbado — disse Shaka, e inclinou-se dando um beijo na testa de Kiki — O meu anjinho... como dorme inozente, mal zabe que exta na mão de dois ébriozz.

— Não começa... Ok vamos nessa.

Mu concentrou-se um pouco e logo os três não estavam mais ali.

Mas também não estavam na Casa de Virgem.

Estavam no topo de Star Hill, exatamente no pátio do templo construído ali cujo acesso era dado somente aos Patriarcas.

— Puta merda! — disse Mu espantado.

— A gente morreu? — Shaka perguntou jogando a cabeça para trás, sentindo a brisa fria, enquanto Mu o segurava pela cintura.

— Não, eu... eu errei o teleporte! Como isso foi acontecer?

— Eu não zei não, Mu... zó zei que é liiiindo! — disse Shaka olhando para o céu forrado de estrelas. — Shaka quer dormir aqui... debaixo das eztrelas.

Surpreso com a reação de Shaka, Mu olhou para ele e depois para o céu, então seu coração de repente bateu mais forte. Tinha em ambos os braços os maiores tesouros de sua vida, sob os pés a terra sagrada do Santuário que seus pais e seu mestre defenderam com tanta devoção, e sobre a cabeça um manto de estrelas.

Se em algum momento teve dúvidas, ou amargurou seu destino, tudo agora estava claro. Era exatamente ali que ele deveria estar, e em nenhum outro lugar.

— Eu já disse que você é a Luz que me dá vida? — disse Mu, e nessa hora Shaka deixou as estrelas para olhar diretamente nos olhos dele. — E que eu te amo e sou completamente louco, alucinado, por você, Shaka de Virgem?

— Zim — respondeu ele — Maz pode repetir, Shaka gozta de ouvir.

— Eu te amo, Shaka — repetiu Mu beijando o rosto dele, então lentamente foi conduzindo-o para o chão, onde se ajeitaram encostados em uma coluna.

No fim, dormir ali acabou sendo uma boa ideia, afinal Mu não queria mesmo arriscar um novo teleporte e, quem sabe, acabar mandando os três para as Fossas Marianas, o que seria um trágico fim para um dia festivo.

E se em Star Hill o cenário era totalmente romântico e o clima familiar, de volta ao pátio da deusa, no monte zodiacal, a história se desenhava bem diferente.

Enquanto nas tendas a pegação continuava e na pista os dançarinos executavam passos ainda mais frenéticos, mais ao fundo o número de pessoas sedentas para ver o cavaleiro de Peixes tirar a última peça de sua fantasia aumentava rapidamente.

Com desinibição e desenvoltura admiráveis, ambas potencializadas pela pétala azul que jogou no próprio vinho, animado Afrodite retirou a última peça, a jogando no ar, enquanto provocava a todos com joguinhos de esconde e mostra. Gritos histéricos, palmas, assovios, cresciam preenchendo o pátio, e quando a bagunça parecia geral, eis que alguém decidiu dar fim nela, para a frustação de todos e principalmente a surpresa de muitos.

Isso porque foi justamente Camus, o empata alegria, que como um furacão de cabelos vermelhos atravessou o pátio em total descontrole e agarrou Peixes pelos cabelos, o tirando de cima da mesa com um só puxão.

— MULHEEEER! COMO VOCÊ OUSA! SUA RAMEIRA DESGRAÇADA. EU VOU TE MATAR — berrava Camus, de forma afetadíssima, num dialeto que não era nem francês, tampouco grego, quiçá russo, mas uma mistura luciferiana dos três, impossível de ser entendido por qualquer um que estava ali, menos por Afrodite, já mais do que acostumado às bebedeiras do aquariano. Então, ignorando a todos que assistiam ao espetáculo, ele soltou os cabelos do sueco apenas para levar as mãos à própria túnica, a qual puxou com força, despindo-se no processo e ficando apenas de cueca; imediatamente em seguida enrolou os farrapos do pano no corpo nu do noivo enquanto seguia esbravejando: — VESTE ESSA MERDA, SUA BAGACEIRA!

— Quënda a bilôcaaaaa*! — Afrodite gritava tentando impedi-lo, acometido por uma crise de riso histérica — É sério que a senhora vai dar close* aqui no baticum*, doida?

— Vou! O close é meu e eu dou quando eu bem quiser! Eu pisco e a bonita está pelada oferecendo a todos o que é MEU?! — Camus respondeu segurando Peixes pelo braço.

Súbito Afrodite ficou sério e estalou os dedos na frente do rosto do noivo.

— Olha aqui, dona borboleta*, eu não estava me oferecendo, eu só estava encerando*, curtindo o momento, coisa que uma enquizilada* como você nunca vai entender.

— Ah, então eu sou uma enquizilada?

— Além de enquizilada, bandeirosa*! Abre teu olho, Camus, está botando boneco* a troco de caretice e dando mais pinta que dálmata! Acorda, heim, Alice! Depois vai falar que a culpa é minha! Não tô podendo!

— Eu tô acordada o suficiente para ver a minha noiv...

— ABAFA ALÔCAAAAA — Afrodite gritou assustado quando viu que Camus ia dizer mais do que deveria.

— Cala a boca, Afrodite! E a culpa é sua sim! — Aquário cutucou furioso o peito do pisciano, o empurrando e o fazendo dar alguns passos para trás. — Porque se eu sou uma enquizilada, você é uma piranha exibida que fica balançando a neca na frente de um monte de ocó sedento quando é comprometida!

— Eu exibida? Você que está aí mostrando o pacotão para todo mundo e a exibida sou eu? — Peixes rebateu irritado, incomodado com o fato do noivo estar só de cueca. — Aliás, cubra já esse pacote, Camus, ou eu vou ficar bem lôca, heim!

— Aaaah, mas agora eu tô é passada! A mona pode ficar aí, toda oferecida, peladona, e ainda acha que tem direito de ficar lôca porque eu tô de cueca? Pois eu tô lôca a mais tempo, Afrodite! — disse Camus, e imediatamente em seguida levou os dois polegares à borda da cueca ameaçando baixa-la.

Peixes na mesma hora teve um sobressalto.

— O que pensa que está fazendo? — disse agarrando um dos punhos de Camus.

— Vamos ver quem dá mais close?

— Mulher, a senhora não se atreva!

— O que é bonito é para ser mostrado, não é assim que você pensa?

— Mulher, tem uma Rosa Piranha no seu rabo!

— Foda-se!

— Para de malassombro, Camus!

— Não duvide de mim quanto estou atacada!

Para delírio da plateia embriagada, que apesar de não entender o que os dois cavaleiros discutiam tão fervorosamente por se tratavam de dois dialetos para lá de peculiares, ansiava por ver também o Santo de Aquário nu, cumprindo a ameaça Camus inclinou-se para baixar de vez a cueca; mas mal ele desceu um centímetro de pano teve o outro punho agarrado por Afrodite.

— Perrenga* mafiosa! — esbravejava o sueco, atracado ao francês.

— Me solta, desgraçada! Eu te mato!

E assim, sob uma chuva de injurias incompreensíveis, puxões, cutucões, tapas e chutes, o frio e comportado cavaleiro de Aquário tentava se despir a todo custo, enquanto a personificação do escândalo, o Santo de Peixes, enrolado nuns farrapos que mal lhe cobriam, tentava impedi-lo, ambos protagonizando uma cena tão confusa e absurda que muitos ali custavam crer ser exatamente o que viam. Talvez fosse uma alucinação, fruto dos excessos praticados naquela noite.

Logo, apenas os ecos dos gritos afetados e os farrapos de tecido ficaram ali no pátio. Aquário e Peixes deixaram a festa e seguiram para a saída do templo. Máscara da Morte até pensou em ir atrás deles, preocupado com o amigo pisciano, uma vez que encarou tudo como mais um dos ataques homofóbicos de Camus contra Afrodite, mas uma proposta muito mais interessante o fez esquecer na mesma hora dos dois brigões. Shina e Shura apareceram ali e praticamente o intimaram para um ménage na Casa de Capricórnio. Não haveria melhor maneira de terminar a noite.

A alguns metros de distância dali, Saga parecia preocupado. Isso porque, mesmo com a música altíssima e o alvoroço das pessoas, ele tinha ouvido os gritos de Afrodite, que por causa do dialeto peculiar eram para si incompreensíveis, mas que devido à entonação deixavam claro se tratar de uma briga. Um frio subiu por sua espinha. Mesmo sua cabeça sendo a parte mais judiada do corpo, ele se lembrava muito bem das brigas constantes entre Peixes e Lagarto, as quais, na maioria das vezes, eram o balde de água fria que ditava o fim das festas.

Sem poder sair de onde estava, Saga driblou a curiosidade e só rogou à deusa que pelo menos daquela vez estivesse enganado. Isso porque tinha uma função bem mais urgente e nobre do que apartar brigas de cavaleiros; ele precisava vigiar a porta do banheiro do pátio, onde Geisty finalmente se aliviava.

— Amore mio, está acabando aí? Está precisando de ajuda? — Saga perguntou dando dois toquinhos na porta, preocupado com a demora da esposa lá dentro.

No mesmo instante a porta se abriu abruptamente e dela somente a mão com unhas de garras longas surgiu, agarrando o geminiano pela gola da fantasia e o puxando para dentro sem aviso prévio.

Dicionário Afroditesco

Bandeirosa — indivíduo ou comportamento que sinaliza homossexualidade

Baticum — festa com música e dança

Biloca — bicha maluca

Botar boneco — dar vexame, fazer escândalo ou baixaria, armar barraco

Dona borboleta — machão

Encerando — dançando. Vem de enceradeira, bicha bailarina; aquela que não perde uma música na pista de dança; bicha que dança até não aguentar mais.

Enquizilado — indivíduo encanado, chateado, cheio de problema; ensimesmado; antipático

Equê — problema, engano, coisa falsa.

Matim — muxiba, mixuruca, pouco, pobre

Metade sereia metade tubarão — bofe ou bicha, amapô ou bolacha, meio lá meio cá, sem que se saiba o que é; andrógino; meio bofe meio bicha; meio fashion meio baranga; meio sapa meio racha; meio esquisito meio normal; meio gordo meio musculoso; meio magro meio esquálido; meio tudo meio nada

Tapuia — bicha doida

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