Notas iniciais
quem ta vivo sempre aparece :v

Sem poder sair de onde estava, Saga driblou a curiosidade e só rogou à deusa que pelo menos daquela vez estivesse enganado. Isso porque tinha uma função bem mais urgente e nobre do que apartar brigas de cavaleiros; ele precisava vigiar a porta do banheiro do pátio, onde Geisty finalmente se aliviava.

— Amore mio, está acabando aí? Está precisando de ajuda? — Saga perguntou, dando dois toquinhos na porta, preocupado com a demora da esposa lá dentro.

No mesmo instante a porta se abriu abruptamente e dela somente a mão com unhas de garras longas surgiu, agarrando o geminiano pela gola da fantasia e o puxando para dentro do cubículo. O Patriarca só teve tempo de bater a porta atrás de si antes de ter a boca atacada pelos lábios ardentes da amazona.

— Estou precisando de ajuda sim, mas de uma ajuda bem viril sabe, porque eu estou queimando por dentro, Saga. Ah... — gemeu Geisty em meio ao beijo roubado, enquanto rápido deu um salto e se prendeu na cintura dele, cruzando as pernas.

Foi nessa hora que Saga percebeu que os fundilhos da fantasia da amazona estavam rasgados, pois levou ambas as mãos às nádegas dela para sustenta-la em seu colo, encontrando a pele macia e desejada completamente à mostra.

Sem perder tempo, e com os reflexos em dia, Gêmeos girou seus corpos apoiando as costas na porta, sem deixar um só segundo de devorar sedento os lábios da amada.

— Ah, louvada seja Atena! Eu não via a hora dessa fantasia rasgar!

Porém, mal ele concluiu a frase e do outro lado da porta alguém começou a bater insistente.

— Não é possível... — Saga resmungou ainda beijando Geisty, enquanto do outro lado uma voz conhecida berrou impaciente:

— Ei, mon loulou! Morreu aí dentro, fils de pute! Eu quero fazer xixi!

As batidas seguiram ainda mais fortes e Gêmeos deu um longo suspiro apartando o beijo a contragosto, depois encostou a testa no ombro da esposa num claro sinal de desolação.

— A cada dia eu tenho mais certeza de que os deuses me odeiam — murmurou ele, tão pego de surpresa que até se esqueceu de metade das coisas que pretendia fazer com Geisty naquele cubículo infame.

— Shiiiu! — fez a amazona com o dedo nos lábios, em seguida falou rente ao ouvido do marido: — Não precisamos ficar aqui... embora... confesso que seria bem interessante... mas podemos continuar em casa.

Eles entreolharam-se e trocaram um sorriso safado, totalmente cúmplice.

— Só se for agora! — disse Saga animado.

Meio segundo depois a porta se abriu com um tranco e diante dela a mão de Misty de Lagarto ficou suspensa no ar, enquanto ele via um trem bala púrpura de 1,90 metros passar por si sem tempo para ouvir desaforos. Este correu até a mesa mais próxima e dela arrancou a toalha com um único puxão, depois voltou ali e a enrolou na cintura da amazona, saindo com ela de mãos dadas e com a pressa estampada em suas feições coradas. Tudo não levou mais do que dez segundos. Bem menos tempo do que levou Misty apenas para tentar assimilar o que havia acabado de acontecer.

— Era o Grande Mestre e a Serpente rabuda se pegando no banheiro! — murmurou Misty num sobressalto. Sabia que decoro não era bem uma das virtudes do Patriarca, tampouco da amazona, mas não pôde deixar de surpreender-se. — Credo... que delícia! — suspirou.

Aquela Euforia não havia sido tão generosa com Lagarto como fora com os outros, e depois que Afrodite e Camus deixaram o pátio, pouco restou na festa que despertasse o interesse do cavaleiro de Prata. Contudo, ele também era filho de Zeus, e não terminaria a noite entregue aos braços de Morfeu, mas aos de Ágora de Lótus.

Já Saga e Geisty deixaram o pátio pelos fundos do templo para tentarem não chamar muita atenção, já que a amazona vestia uma saia de toalha, e sem querer usar as escadarias das Casas Zodiacais, Gêmeos conduziu a esposa para um corredor estreito que dava acesso a um caminho lateral na montanha onde era possível passar pelas Casas sem ter de acessa-las. Este somente o Grande Mestre tinha acesso.

Agora livres dos olhares eles podia se beijar, se abraçar e se tocar como desejavam e gostavam, sem nenhum pudor. E a falta deste já tinha início pelo começo, as roupas.

A primeira peça a ser descartada rapidamente pela própria Geisty foi a infame toalha de mesa que lhe servia de saia; e uma vez que sua belíssima fantasia de cobra, costurada no corpo sob medida, já estava mesmo rasgada, a amazona não pensou duas vezes em se livrar dela toda logo em seguida num strip-tease ao som de gargalhadas e beijos abafados.

Não podendo, e menos ainda querendo ficar para trás, até porque a ideia de estar completamente nu com a esposa sob a luz daquele luar todo especial o instigava ainda mais, Saga também passou a livrar-se da própria fantasia. Geisty o ajudou no processo afiando as unhas naquele tecido elástico que teve ganas de estraçalhar desde o instante em que colocara os olhos.

Assim eles foram descendo a montanha, entre beijos, sussurros, tropeços e risadas, deixando um rastro de tecidos rasgados pelo caminho, até chegarem completamente nus à Casa de Gêmeos.

E a energia poderosa daquela noite de Euphoria sequer permitiu a eles alcançarem o quarto; se amavam como podiam pelo caminho mesmo, ignorando solenemente o toque gelado das colunas e paredes de mármore, a rigidez do chão de pedra, a textura pouco confortável do sofá de couro. Nada parecia ser um inconveniente para os seus sentidos entorpecidos pelo desejo, nem mesmo o barulho e a bagunça que fizeram na cozinha quando amaram-se sobre a mesa de jantar e no ato derrubaram a fruteira de vidro, fazendo os damascos frescos rolarem pelo assoalho entre os cacos da fruteira. A fruta preferida de Saga foi esquecida ali, uma vez que naquele instante a única delícia que ele queria degustar eram os seios fartos de Geisty, os quais ele devorava a beijos ávidos e sugadas lascivas.

Os gemidos de prazer corriam pelos corredores da Casa de Gêmeos cada vez mais altos e sem nenhum pudor. Por sorte estavam sozinhos ali.

Quando resolveram enfim ir para o quarto, Saga, sem diminuir a distância entre seus corpos, ergueu Geisty em seu colo e a carregou presa à sua cintura até o cômodo. No curto percurso eles se equilibravam um no outro como podiam, aos tropeços e esbarrões, tudo para não interromper os beijos ardentes e os chupões dados onde as bocas conseguiam alcançar, até finalmente jogarem-se na cama sem qualquer delicadeza.

Ali, no conforto do colchão macio e dos lençóis de seda branca, Saga mergulhou no corpo quente de Geisty com a sede de um andarilho que encontra um rio de águas cristalinas depois de muitos quilómetros de caminhada. Um pouco menos ansioso, porém ainda longe de sentir-se saciado, agora ele se movimentava mais lento, instigado pelos gemidos de prazer que saiam dos lábios inchados borrados de carmim e misturavam-se aos seus próprios silvos delirantes cada vez que a tocava mais fundo ou sentia as unhas longas e afiadas lhe correrem sinuosas pelas costas causando-lhe ainda maior frisson. As mãos então deslizaram por suas costas e embora fossem delicadas, agora apertavam com força impressionante suas nádegas firmes, contraídas pelo movimento frenético e incessante de vai e vem. Os suspiros dela exalavam um perfume inebriante de vinho e luxúria, e Saga sentia-se como que entorpecido por uma poderosa droga afrodisíaca, da qual ele queria provar mais e mais.

Um tempo depois eles rolaram entre os lençóis e inverteram as posições. Agora era a amazona quem comandava o ritmo; sentada sobre os quadris do geminiano ela se movimentava sinuosa como uma serpente, enquanto seus seios fartos dançavam um balé sensual para um único expectador que hipnotizado capturou um deles, circulou o mamilo com a língua e aos gemidos passou a suga-lo, ávido. E como era doce e perfumado! Exatamente como se recordava. Seu membro começou a latejar de excitação dentro dela e por um instante ele achou que iria à loucura tamanho prazer. Foi nesse ponto que, num reflexo rápido, apertou as nádegas agitadas em seu colo, aprazendo-se da carne macia espremida entre seus dedos, e olhou para o rosto dela. Deuses, como estava linda! Dentro da fantasia do início da festa já lhe despertara o desejo, mas a nudez ainda era o que melhor lhe caia. A maquiagem impecável não dava conta de esconder o rubor provocado pela excitação, e a boca vibrante clamava por beijos a cada suspiro manhoso que exalava.

Foi demais para ele suportar. As mãos subiram para as costas e a boca abandonou o seio para tomar os lábios convulsos uma vez mais. Saboreou-os como quem degusta uma fruta suculenta, e quando deu-se conta de que ambos estavam perto do limite, rolou mais uma vez sobre a cama e se posicionou atrás dela, que com a cumplicidade dos amantes mais íntimos pôs-se logo de quatro, segurando firme na cabeceira de madeira talhada. Sem pressa ele passou a roçar seu membro rijo na intimidade úmida e quente, provocando a amazona, ao passo que corria as mãos pela sua cintura delgada até estacionar nas nádegas fartas empinadas, onde deu um forte apertão arrancando um gemido gostoso dela. Não esperou mais para começar a invadi-la lentamente, parando apenas quando não restasse nenhum espaço entre seus corpos. Nesta hora o cavaleiro respirou fundo para se conter, pois que sentia todos os pelos arrepiarem, o coração retumbar dentro do peito, a pele em chamas, e não queria perder um segundo sequer daquela visão extasiante do corpo escultural da esposa enquanto seu membro a invadia.

— Hmmm, amore mio, faz de novo... — suplicou Geisty num gemido manhoso enquanto se movimentava insinuante para ele.

Não havia razão que suplantasse a paixão sob uma circunstância daquelas. Por isso Gêmeos suspirou e mais uma vez estocou lento e profundo.

— Ahh, é assim que você quer? — perguntou com voz rouca, num tom cheio de desejo.

— Sim... humm... mais... eu quero mais!

— Mais? Ah, eu te dou mais... muito mais... — sussurrou o cavaleiro entorpecido de prazer, aumentando o ritmo das estocadas.

— AHH! Mais rápido!... Ah, mais fundo, eu quero você mais fundo em mim... Eu quero você todo em mim... amore mio. — suplicava Geisty aos gemidos.

E o pedido foi prontamente atendido pelo amado, que lhe segurou firme pelos quadris e com estocadas vigorosas fazia seus corpos se chocarem ruidosos.

Gemiam em alto e bom som, acompanhados pelas batidas da cabeceira da cama contra a parede num ritmo sincronizado.

— AHHH, isso Saga, isso, me fode gostoso. Hmmm...

— Como eu queria fazer isso, Geisty.... Desde a hora que te vi naquela fantasia... Ahh, como eu queria te foder ali mesmo... Ahh como você estava gostosa! Não! Como você é gostosa, amore mio!

Dito isso, Saga correu uma das mãos pelas costas nuas dela e agarrou a trança longa que enfeitava o seu cabelo, depois debruçando-se sobre suas costas correu a língua quente pelos ombros e pescoço suados até alcançar a orelha, onde beijando o lóbulo sussurrou:

— Eu te amo... amore mio... ahhh eu te amo para sempre!

O ápice do seu prazer veio instantes seguintes num gozo delicioso e intenso que fez sua pele arrepiar-se por inteiro e as pernas perderem as forças. Mas antes que ele tombasse para o lado abraçou com força a cintura da esposa para trazê-la junto consigo, mantendo seus corpos ainda unidos pela ereção que persistia, podendo assim sentir os deliciosos espasmos de prazer que tomavam o corpo trêmulo dela.

Em completo êxtase, Saga atacou o pescoço e os ombros de Geisty com chupões enquanto com os dedos delicadamente começou a estimular sua intimidade, logo a sentindo contrair-se novamente num novo e delicioso orgasmo.

Passaram mais alguns minutos assim até finalmente se renderem, exaustos, encontrando refúgio nos braços um do outro.

***

Algumas horas depois...

As últimas estrelas despediram-se do firmamento dando lugar ao Sol e pondo fim àquela rara conjunção astral.

Na cama de casal, Geisty ressonava sozinha.

Da porta que dava acesso ao banheiro um vapor perfumado escapava, enquanto silencioso como um gato, Saga retornava ao quarto. Ele sabia que em breve a esposa acordaria, e como bem a conhecia, faminta como uma leoa. Por isso, tratou logo de vestir um roupão para ir à cozinha preparar o café, mas não sem antes ficar uns bons minutos ali a vendo dormir. Sorriu feliz, pois parecia que enfim sua vida voltava a entrar nos eixos.

Quando deixou o quarto teve todo o cuidado de fechar a porta sem fazer nenhum ruído, então seguiu pelo corredor já pensando no cardápio que prepararia. Naquela manhã não teria a ajuda de Hebe, então sabia que tinha bastante trabalho pela frente.

E embora o coração de Saga batesse leve como nunca naquela manhã, seus passos calmos ecoavam por aquele enorme templo, reverberando entre as paredes e colunas, alimentando lembranças que insistiam em lhe provocar mal estar. Ainda era tudo muito recente, e ele não estava familiarizado com a felicidade. Era preciso reaprender a senti-la. Era preciso reaprender a deixa-la habitar um corpo que por anos a dor, a culpa e a solidão fizeram morada.

Quando chegou à cozinha e viu os damascos espalhados pelo chão salpicado de pedacinhos brilhantes do que um dia fora uma bela fruteira de vidro, Saga sorriu, e as lembranças ruins instantaneamente foram varridas pelas cenas quentes da noite anterior. Era nisso que deveria pensar dali para frente. Em si, em Geisty, e na paz tão almejada que ambos sempre buscaram.

Mas o caminho que leva à paz é uma via de mão única, e tal como Orfeu olhou para trás descumprindo a regra e perdendo a chance de uma vida plena de felicidade ao lado da amada, Saga e Geisty também corriam o risco de ficarem presos no seu pesadelo sem fim.

Enquanto recolhia os damascos do chão, um ruído estrondoso vindo do interior do templo surpreendeu o cavaleiro de Gêmeos, que num sobressalto largou imediatamente as frutas como as havia encontrado. Mal ele deu dois passos e sua mente logo identificou o barulho ouvido. Era o bater de uma das janelas do quarto que ficava ao lado do seu. Nessa hora ele sentiu seu corpo todo gelar.

Mais do que depressa Saga deixou a cozinha e retornou para o corredor, encaminhando-se para o cômodo em questão. Quando o adentrou, a realidade mais uma vez o golpeou sem dó nem misericórdia, embora não houvesse motivo para tamanho sobressalto, já que aquele era um quarto vazio. Seus ocupantes, na verdade, nunca chegaram a estar ali, infelizmente.

Um amargor brotou do fundo da garganta de Gêmeos e subiu até a boca. Ele engoliu em seco, fechou os olhos e respirou fundo. Quantas vezes estivera ali? Perdera as contas. Ultimamente vinha evitando aquele quarto. Era uma das tarefas que lhe passara doutor Tibúrcio Aerophólius, seu terapeuta. Fora aconselhado a entrar ali novamente quando sua mente estivesse mais forte, mais resiliente, mas parecia que a vida não queria dar-lhe tanto conforto. A realidade era que dentro ou fora dali, a dor nunca lhe dava trégua.

No quarto ao lado, mesmo adormecida Geisty despertou com o toque do Cosmo entristecido do marido; um pedido involuntário de socorro. Rapidamente ela enrolou-se nos lençóis brancos e foi ao encontro dele. Viu a porta apenas encostada e sentiu o vento fresco que escapava pela fresta trazer até suas narinas o odor da loção pós-barba tão conhecida sua. Uma sensação estranha a tomou de assalto, uma ansiedade buliçosa, um tanto angustiante, mas curiosa que era empurrou a porta com delicadeza e logo viu Saga ali, entregue às próprias amarguras.

Sem fazer barulho Geisty caminhou até ele a passos lentos e cuidadosamente tocou-lhe o ombro.

— Saga, o que está fazendo aqui sozinho? — ela perguntou calmamente.

O toque gentil resgatou Saga de imediato da prisão de pensamentos autodestrutivos na qual seguia caindo constantemente. Ele então olhou para trás e encontrou os olhos violetas ternos esperando por uma resposta.

— Eu... — murmurou confuso e um tanto atordoado, depois correu os olhos por todo o cômodo, parecendo analisar cada centímetro minuciosamente, desde os dois berços idênticos a cada bichinho de pelúcia e brinquedo que havia ali, então suspirou longamente esfregando as mãos nos cabelos azuis úmidos. — Eu ouvi a janela batendo e entrei para fecha-la.

— A janela? — perguntou Geisty enquanto verificava que esta tinha uma de suas abas de madeira aberta e uma pequena fresta do vidro aberto.

— Sim... eu acho que acabei deixando aberta da última vez que estive aqui — disse Saga tencionando caminhar até a janela para corrigir o erro, mas foi detido pela mão da esposa que o segurou pelo ombro e o virou para que olhasse para si.

— Saga, o tempo que esteve aqui sozinho nesse Templo... quantas vezes você veio aqui, nesse quarto?

Silêncio.

O geminiano a encarava, com receio em responder.

— Quantas vezes, Saga? — Ela insistiu.

Rendido aos olhos curiosos e apiedados dela, ele então respondeu com voz baixa:

— Algumas vezes.

— Algumas vezes?

— Sim.

— Saga... Você está se torturando. Precisa parar.

— Não! — Ele respondeu de pronto, com certeza na voz. — Aqui eu me sinto um pouco mais perto deles.

— Não. Não é assim que deve ser. Pelos deuses, você só está se machucando cada vez mais. Você precisa curar as suas feridas e não cutuca-las... Saga, você não devia vir aqui, não pode ficar revivendo essa perda inúmeras vezes...

— E o que você sugere que eu faça? Que destrua esse quarto e ignore a dor que eu sinto? Heim? — disse ríspido com os olhos marejados e as mãos estendidas no ar.

— Sim. — A resposta saiu seca, como um tiro certeiro. — Isso mesmo.

Incrédulo, Gêmeos não conteve as lágrimas.

— Não posso... não posso... — lamentou enquanto balançava a cabeça em negação, apertando os olhos e tentando a todo custo conter a emoção que transbordava por eles. — Isso é tudo o que me resta deles.

— Não há nada aqui além de móveis velhos e dor, amore mio — disse Geisty o abraçando com ternura. Sua voz doce e suave o acalentava como uma luz de razão brilhando em meio à turbulência obscura da dor que o consumia. — Você precisa desapegar de tudo isso aqui para poder seguir em frente. Acredite, o luto para cada um é único, mas quanto mais você se aprofundar nessa tristeza, mais será sugado para dentro dela. E ela é forte... muito forte! Talvez o pior dos inimigos que você já precisou enfrentar, mas é preciso se erguer e lutar, porque essa é uma batalha eterna, e você não vai trava-la sozinho. Enquanto eu puder estarei aqui do seu lado.

Gêmeos encarou o rosto gentil de Geisty, que olhava para ele com os olhos brilhantes marejados mas com um sorriso acolhedor, então virou-se e a abraçou com força, aceitando o conforto oferecido.

— Eu não estou pronto para deixar de sentir a falta deles... — lamentou — essa dor é tudo o que me resta dos nossos filhos, Geisty. Abrir mão desse sentimento é como abrir mão deles também.

— Não, Saga, amore mio, não... Não resuma nossos filhos à dor que você sente... — disse a amazona o afastando minimamente para encarar os olhos jades chorosos, ela mesma buscando forças para conter as próprias lágrimas. — Eles significam para nós muito mais do que ela.... Eles são tudo de mais lindo que tivemos nessa vida, ainda que por um tempo tão curto. Representam o nosso amor, são a síntese desse sentimento. E eles nos mostraram o quanto mais podemos amar, porque mesmo que não estejam mais aqui conosco, somos capazes de sentir um amor infinito por eles. Um amor que durará a vida inteira. É isso que eles são, Saga, amor. E é isso que você deve sentir quando pensar neles. Mantenha-os aqui dentro — encostou o indicador no peito do cavaleiro, na direção do coração — e os aconchegue com todo seu amor e não mais com sua dor, porque esse foi o presente que eles nos deram com sua breve existência aqui nesse plano, essa capacidade de amar de forma absoluta e indissolúvel até o fim de nossas vidas.

Consumido pela emoção, o geminiano soltou um soluço em meio ao pranto, depois pendendo a cabeça para frente encostou a testa no ombro que Geisty lhe oferecia, a qual se punha nas pontas dos pés para alcança-lo. A amazona então o abraçou com ternura e depositou um beijo carinhoso na maçã do rosto molhado do cavaleiro.

O primeiro raio da manhã invadia tímido, através da janela aberta, o canto do quarto decorado. Um outro dia se iniciava e aquele seria o primeiro da volta de Geisty ao lar.

— Saga... — a voz dela saiu sussurrada rente ao ouvido dele — estamos recomeçando a nossa vida... precisamos deixar o passado para trás ou não seremos capazes de seguir em frente... Seria muito bom se pudéssemos começar por esse quarto. O que acha? Vamos nos despedir dele e manter a lembrança dos nossos filhos apenas em nossos corações?

Gêmeos concordou respondendo apenas com um menear de cabeça, mantendo os braços em volta do corpo da esposa como se precisasse dela para se manter de pé.

— Tudo aqui é tão lindo... — disse Geisty com a voz embargada — Podemos doar os móveis, roupas e brinquedos para as crianças do Lar de Rodório... um pouco de amor para anjos cuja vida nunca sorriu com gentileza.

— Sim. Vamos fazer isso.

A voz do geminiano não era mais do que um sopro fraco, em seguida ele desfez o abraço e caminhando triste em direção à janela a fechando lentamente, ajeitando com todo cuidado as cortinas alvas que antes balançavam com a brisa. Na sequência ele caminhou até os berços idênticos, correu as mãos entre as grades e virando-se para um deles tocou com a ponta do indicador o mobile de animais marinhos, o qual ao girar liberou uma nota musical. Seu olhar parecia perdido nos rostinhos alegres dos bonecos enquanto a voz de Geisty ecoava calma e cautelosa:

— Amore mio, se você preferir, leve algo de recordação.

— Não, eu não quero guardar nada de recordação — respondeu Saga de pronto, passando a mão sobre o pequeno travesseiro macio de fronha de algodão puríssimo azul claro com delicadas fitas brancas de seda que o enfeitavam — Tudo que preciso eu já tenho guardado. E você está certa... nossos filhos significam amor, não dor.

Geisty o observava consternada se despedir daquele pequeno pedaço de promessa que era aquele cômodo, mas mantendo-se sempre firme, por ele e também por si mesma. Eles precisavam dar aquele passo. Quando Saga se aproximou, ela o abraçou com todo carinho e beijou-lhe a testa, recebendo de volta um abraço forte.

— Então vamos? — A voz dele saiu ligeiramente embargada. — O sol já raiou e hoje começa oficialmente nossa nova jornada.

— O primeiro dia do resto de nossas vidas — ela disse sorrindo.

— Isso mesmo! E não dá para começar nada estando com fome, não é mesmo, minha amazona?

— De jeito nenhum! Não dá mesmo, meu cavaleiro!

Trocaram um beijo quase alegre, depois abraçados caminharam em direção à porta. Depois de cruza-la, Saga virou-se e segurou a maçaneta tencionando fecha-la, mas antes deu ainda uma última olhada lá dentro, registrando em sua memória cada detalhe que havia ali. Ao seu lado, Geisty fazia o mesmo, mas ele só se deu conta quando ao olhar para ela viu lágrimas silenciosas deslizarem por seu rosto belíssimo. Quando percebeu que era observada, Geisty rapidamente enxugou as lágrimas e então pousou a mão sobre a mão do marido, que ainda segurava a maçaneta, e assim, dando forças um para o outro, eles fecharam juntos a porta.

Eles sabiam que dali em diante a luta contra os fantasmas e dores do passado seria cotidiana, mas juntos eles teriam a força necessária para enfrenta-la. Seguiriam agora por uma nova rota em busca da tão almejada paz que procuravam.

***

Horas mais tarde...

Templo de Leão

Da cama espaçosa e confortável da suíte principal, Marin se remexia entre os lençóis, despertando preguiçosa. Podia sentir o cheiro delicioso de guisado de abobrinhas invadindo o ambiente, o que a fez deduzir que já passava do meio-dia. Ao longe, ouvia a voz grave de Aiolia, meio abafada pelo barulho do chuveiro ligado, numa imitação para lá de jocosa de Celine Dion. O namorado era fã assíduo da cantora.

Marin sorriu divertida. A alegria e bom humor do leonino sempre alegrava o seu dia. Isso sem falar no vigor e energia! Realmente ela se considerava uma mulher de boa sorte.

Ainda em estado de graça, a amazona rolou mais uma vez entre os lençóis, agora com um risinho bobo no rosto, enquanto cenas da noite anterior, em especial as do pós-festa, relampejavam em sua mente. Certamente se lembraria daquela noite por anos, e como boa pisciana fez um pedido silencioso à Atena para que a próxima Euforia ela pudesse estar ao lado de Aiolia novamente, e se possível, como esposa.

Pensando nisso, enquanto o ouvia cantarolar My heart will go on, a japonesa suspirou apaixonada, espreguiçando-se toda, até que seus dedos tocaram um objeto esquecido entre os lençóis. A câmera digital TecPix que Aiolia levara para festa. Lembrou-se que pretendiam olhas as fotos assim que chegaram em casa, mas a Euforia os fez mudar de planos.

Curiosa ela ligou a câmera e começou a passar as fotos.

E cada uma provocava nela uma reação diferente. Seu rosto corava e suas orelhas chegavam a arder a cada selfie de Aiolia mostrando o peitoral ou os bíceps, as vezes as coxas, e outras tudo junto de uma vez. Por um instante sentiu o ímpeto de invadir o banheiro e meter-se debaixo do chuveiro junto dele. Talvez até teria feito isso caso a próxima foto fosse também do namorado, mas esta era de alguém bem menos vaidoso, e na ocasião, nada sensual. Se tratava de Máscara da Morte em sua desleixada e cômica fantasia de caranguejo. Na foto ele chorava copiosamente enquanto assoava o nariz na barra da fantasia de Boi Bumba de Aldebaran.

O rosto de Marin nessa hora contorceu-se numa careta de nojo e ela passou depressa para a outra foto, que infelizmente não era melhor, pois mostrava uma sequência onde Camus bebia vinho direto do jarro de bronze que levara na festa consigo para depois servir da bebida aos amigos. Ela agradeceu à Atena por não ter experimentado do vinho do francês.

Já a sequência que veio a seguir fez o rosto da amazona corar novamente. Era Mu, de início sozinho, capturado num momento de descontração. A fantasia de Sátiro estava tão bem feita e caíra nele tão bem que até parecia tê-lo transformado na própria criatura dos contos mitológicos. Ou seria ela que não estava nada acostumada a ver o ariano com tão pouca roupa e esbanjando sensualidade? Inevitavelmente ela se recordou do dia em que quase fizeram sexo numa situação para lá de controversa, sendo impedidos apenas porque Shaka os interrompeu. A amazona levantou as sobrancelhas e mordeu os lábios, passando para a foto a seguir, e como se fosse a própria personificação do Karma, o cavaleiro de Virgem surgiu diante da pequena tela a encarando enquanto segurava na mão uma carta de Mágic onde se lia Exorcismo Urgente. O susto que levou não fora menor do que a acometeu no momento do clic.

Passado o sobressalto Marin desatou a rir. E foi com o mesmo sorriso aberto no rosto que passou pelas fotos seguintes, dando graças por ter roubado a câmera de Aiolia e registrado momentos raríssimos, como aquele em que Shura sorria para Shina enquanto dançavam juntos; o instante exato em que pegou Shaka coçando as partes íntimas com uma mão enquanto segurava uma taça cheia de vinho com a outra; ou quando sem querer flagrou ao longe um abraço afetuoso entre Afrodite e o filho de Camus. Nunca nem os vira trocar qualquer palavra... Enfim, aquela era uma ocasião cuja lógica passara longe.

Haviam também muitos clics que ela fizera de Saga e Geisty juntos, felizes, e para esses Marin já tinha destino certo. Iria mandar imprimir as fotos e os presentearia com um álbum todo caprichado.

Já algumas fotos ela certamente teria que deletar, porque o que é feito na noite da Euforia, deve ficar apenas na noite da Euforia, ou mantido em segredo pelos próximos 33 anos.

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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic e com as capas e seu Twitter