Templo das Bacantes Vol. 3
55 Novos tempos... apesar dos perigos

Templo do Grande Mestre, 07:11 a.m.
O manto espesso de tecido azul roçava a bainha no dorso dos pés calçados em sandálias de couro, causando agonia no usuário que com tiques ligeiros os balançava a fim de livrar-se do incômodo. Em vão. A única solução eficaz para ele seria livrar-se não apenas das sandálias mas também do manto, já que as costuras deste igualmente lhe atormentavam pinicando a pele. Isso sem falar da desconfortável máscara azul anil que lhe cozinhava os poros do queixo recém barbeado e da nuca cabeluda; podia sentir o suor escorrer por esta, logo abaixo do elmo, e descer pela linha da coluna até alcançar suas nádegas e deslizar quente pelo vão entre elas. Nessas horas ele se remexia no acento do trono, injuriado.
Com os olhos vagos presos ao ofício timbrado em suas mãos, Saga não conseguia deixar de pensar que o próximo verão seria uma verdadeira penitência. Caso continuasse tão quente na Grécia, talvez mandasse instalar um sistema de refrigeração ali e também na Casa de Gêmeos...
— Grande Mestre?
A voz envelhecida e rouca quebrou o silêncio do salão, mas não a contemplação do Patriarca, que com a respiração ruidosa por debaixo da máscara não se abalou nem por um instante. O papel que segurava nas mãos por pelo menos uns cinco minutos, não tivera uma linha sequer lida. Quiçá fosse este um menu de refrescantes chás gelados ou um itinerário de viagem por terras islandesas, certamente teria mais atenção.
— Grande Mestre! — Chamou a voz desafinada e cansada, agora em tom bem mais eloquente.
Saga enfim piscou os olhos retornando à realidade.
— O que foi, homem? — perguntou mirando o único olho de Gigars, o qual lhe encarava firme, focado, intenso, quase querendo invadir sua alma.
— O senhor já analisou o ofício? Me permite recolhe-lo?
— Já... digo, sim, sim. — Saga respondeu dobrando o papel e o devolvendo ao corcunda que ao mesmo tempo que equilibrava uma pasta de documentos se mantinha firme apoiado com seu cajado. — Tem mais algum documento para que eu analise agora? — perguntou por fim.
— Não, meu senhor — respondeu Gigars prontamente, depois emendou: — Convoquei a amazona de Águia para esta manhã e solicitei que ela viesse nas primeiras horas, como o senhor me pediu. Ela já se encontra no saguão. Mando entrar?
— Ah, sim, claro! — disse Saga ajeitando-se no trono, parecendo agitado. O suor tornando-se ainda mais intenso.
Tamanha ansiedade dava-se pelo fato de ele estar prestes a resolver — ou ao menos tentar — uma das muitas pendências que deixara para trás, em seu passado mais do que nebuloso, e uma delas era justamente com Marin de Águia.
Quando Gigars deixou o salão e em seu lugar a amazona surgiu, devidamente trajada com sua armadura e máscara, Saga sentiu um misto de alívio e vergonha. O primeiro por apostar estar finalmente fazendo a coisa certa, e melhor, completamente consciente disso, a segunda por ter de abrir outra ferida do passado da qual não se orgulhava. Era um sentimento incômodo, mas se fazia necessário dentro da nova jornada que decidiu seguir em sua vida.
A poucos metros do trono Águia encerrou a caminhada dobrando um dos joelhos e prostrando-se diante dele com os olhos voltados para o chão, em posição de respeito.
Gêmeos então respirou fundo imbuindo-se de coragem.
— Pode se levantar, Marin, por favor, fique à vontade — disse Saga, e ela, apesar de estranhar a ordem, acatou levantando-se. — Embora tenha recebido um ofício burocrático de convocação, eu gostaria que essa fosse uma conversa informal. Tudo bem para você?
Ela hesitou por um momento, mais surpresa do que receosa, e finalmente respondeu:
— Sim... acho que sim.
— Ótimo! — disse Saga e sem pestanejar retirou a máscara, revelando o rosto suado — Não precisa retirar a sua se não quiser, mas acho importante que veja meu rosto porque eu te chamei aqui para que possamos finalmente resolver uma pendência antiga entre nós, e também para... te pedir perdão.
Marin teve um leve sobressalto.
— Mais do que isso, Marin... — ele continuou, devagar e acanhado, porém firme — eu sei que o que fiz a você anos atrás, quando o Templo das Bacantes estava prestes a ser inaugurado, foi um abuso covarde para o qual não há perdão, mas eu queria de alguma forma poder me redimir com você.
Nessa hora Saga fez uma pausa, levantou-se do trono e caminhou a passos largos até uma bancada de mármore onde apanhou uma pasta de capa dura. Com ela nas mãos voltou-se para Marin e continuou:
— Ter os meus filhos tirados de mim sem eu nem ao menos ter tido a chance de conhece-los, talvez seja uma punição à altura dos meus pecados, um preço justo, eu diria... Ser privado de conviver com um ente querido talvez seja a pior dor deste mundo, você sabe bem como é, mas talvez para você haja uma esperança — disse e ofereceu a pasta a ela enquanto encarava fixo a máscara prateada inerte.
Marin folheou as primeiras páginas de um arquivo com os dedos trêmulos e olhos ansiosos por debaixo da máscara.
— Pela deusa! Isso é... é o que estou pensando? — perguntou em assombro.
— Sim, é — Saga respondeu — Quer dizer, digamos que esse dossiê é um começo e apenas a ponta do iceberg... Marin, eu te devo essa informação há anos e gostaria que ela fosse mais uma certeza do que uma mera possibilidade, porém mesmo assim acho válido você saber que após meses de investigação, juntando as fontes que tínhamos e as informações coletadas por detetives que contratei no Japão, conseguimos algumas pistas e finalmente chegamos a esse nome.
— Seiya Ryūsei! — sussurrou Marin com as vistas coladas no nome em destaque no documento. A voz explicitamente embargada.
— Ouça, Marin... eu não posso te dar garantias absolutas de que esse Seiya Ryūsei é o seu irmão, mas há uma chance grande. As histórias de vocês coincidem em tudo, locais, datas, eventos... inclusive há registros da passagem dele pelo mesmo orfanato que você mencionou quando chegou aqui, na Grécia. — enumerava nos dedos todos os fatos quando foi interrompido pela amazona.
— Pela poderosa Atena, tem que ser ele! — murmurou Marin com os olhos ainda a percorrerem o papel, quando enfim levantou a cabeça em direção a Saga e com a voz mais aprumada disse: — Aqui diz que ele não foi adotado por ninguém ainda e que está residindo em uma fundação filantrópica.
— Fundação Graad. Eles recrutam jovens carentes e os treinam para que se tornem atletas de alto rendimento, porém aqueles que possuem o Cosmo são enviados para um dos nossos locais de treinamento. — Saga fez uma breve pausa parecendo pensativo. — Inclusive, vou mandar averiguar essa tal de Fundação Graad porque não me recordo do Santuário ter qualquer ligação com ela e só o que sabemos até agora é que é dirigida por um tal de Noah Kobayashi, que ninguém também sabe quem é porque nunca aparece em público. Hum, bem provável ele mesmo ser o recrutador ou quem sabe...
— Grande Mestre — Marin o interrompeu ansiosa.
— Ah, sim! Me desculpe, falávamos do tal Seiya... Esse monte de remédio que estou tomando as vezes me faz emendar um assunto no outro e a coisa vira uma bola de neve e...
— Peço permissão para ir ao Japão hoje mesmo — disse ela, mais uma vez o interrompendo enquanto fazia uma leve mesura — Por favor!
— Ah, quanto a isso, não vai ser preciso! — disse Saga com um sorriso no rosto, abanando a mão enfeitada por um imenso anel, símbolo de seu cargo.
Marin ergueu a cabeça, atenta.
— Por que não? — perguntou ela aflita.
— Bem, se a peste do Shaka estivesse aqui ele diria que o Samsara é um poeta cínico — riu sozinho por um momento, depois olhou sério para Marin e emendou: — É claro que ele não diria isso, óbvio, quem diz isso sou eu, mas... veja você, Marin, foi justamente quando estávamos investigando o caso do seu irmão desaparecido que essa tal Fundação Graad nos enviou uma notificação de que tinham um candidato apto ao treinamento a aspirante de cavaleiro. Inclusive, eles elogiaram muito as habilidades desse tal Seiya e garantiram que tem enorme potencial.
— Pelos deuses, Saga... está falando sério?
— Sim, claro, eu sempre falo sério — respondeu matreiro e piscou algumas vezes para retomar o foco do raciocínio — Bom... se ele realmente tem potencial isso quem vai me dizer é você. Seiya Ryūsei será seu discípulo — disse Gêmeos com um sorriso amistoso — E então? Você está à altura dessa missão, amazona Águia?
Com a respiração agitada e a face corada sob a máscara, Marin respondeu firme enquanto fazia uma continência, mal podendo acreditar no que acabara de ouvir:
— Sim, Grande Mestre, claro que sim!
— Perfeito! — disse o Patriarca juntando as mãos num gesto de pura satisfação — Então vá, vá Marin! Está dispensada das suas obrigações de hoje. Organize-se para receber seu novo pupilo... Ah! Tudo o que for preciso para as acomodações do Seiya aqui no Santuário você deverá solicitar ao Gigars, tudo bem? Eu sei que ele é meio lento e mocorongo as vezes, mas não se deixe enganar pelas aparências! Gigars é muito eficiente e consegue resolver tudo em tempo hábil. Não se acanhe em pedir ajuda a ele.
Marin fez um gesto afirmativo com a cabeça e depois de uma mesura saiu apressada. Estava tão eufórica que seria difícil controlar a ansiedade diante da possibilidade do novo pupilo ser o irmão que havia perdido nos caminhos da vida.
***
Horas depois, naquele mesmo dia...
Após uma manhã agitada e uma pausa para o almoço, as reuniões e audiências com o Grande Mestre continuaram em ritmo constante e tedioso. As tarefas burocráticas eram de longe a parte mais enfadonha de seu trabalho, mas Saga as cumpria sem reclamar, pois que eram parte intrínseca do cargo de administrador do Santuário. Era certo que alguns assuntos tinham caráter mais supérfluo do que outros, de modo que ele deixava estes ao encargo de Gigars, dispensando o indivíduo reclamante logo em seguida.
Poderia este ser o caso discutido naquele momento, já que diante dele, trajando sua armadura de ouro, estava o Cavaleiro de Aquário prostrado sobre um dos joelhos como exigia o protocolo; apenas mais uma dentre as tantas formalidades requeridas quando o assunto tratado entre Cavaleiro e Patriarca tinha caráter formal. Contudo, não havia nada de supérfluo ou trivial quando o requisitante era também o Vor de todos os vorys da Vory V Zakone.
Esse “pequeno” detalhe mudava tudo, uma vez que Saga não era tão somente o Grande Mestre como também o chefe do crime organizado grego.
— Descansar, cavaleiro — Saga ordenou a posição e descanso a Camus, permitindo que ele se levantasse e se apresentasse em uma pose mais confortável.
Imediatamente Aquário se levantou, ficando com as costas retas, pernas semiabertas e punhos cruzados nas costas, encarando seu superior ao falar:
— Finalmente terminei todos os preparativos para a minha partida e eventual ausência, Grande Mestre. Os meus deveres em pauta para com o Santuário foram finalizados e os pessoais deixados em mãos competentes — Camus proclamou com voz solene, sem entrar em detalhes irrelevantes, sabendo muito bem que Saga sabia que se referia a administração da máfia. — Preciso apenas que assine minha dispensa oficial e imediatamente darei continuidade ao treinamento do aspirante à armadura de Cisne.
Camus então estendeu um pergaminho ao Grande Mestre solicitando com o gesto sua assinatura e o selo dele no documento para torna-lo oficial.
— Essa é uma excelente notícia, Aquário! — Saga disse entusiasmado, imediatamente pondo-se de pé e caminhando até o outro lado do grande salão onde havia uma mesa na qual estava seu tinteiro e selo; com um aceno de cabeça indicou a Aquário que prosseguisse com a conversa enquanto o seguia até o local. — Vamos, dê-me esse pergaminho que vou assinar agora mesmo... Tem alguma previsão de quando Cisne se juntará às nossas fileiras?
O movimento abrupto do Grande Mestre assustou Gigars que aguardava parado ao lado do trono, pois não esperava que o homem se levantasse do nada e sim que lhe pedisse para buscar o tinteiro e o selo.
— Non posso dar uma data exata... Como sabe, o treinamento pode variar de acordo com as singularidades e dificuldades de cada aspirante. Infelizmente a preparação e adaptação corporal para tornar o indivíduo capaz de suportar o Cosmos frio dos cavaleiros que lidam com o gelo são lentas e graduais, porém indispensáveis. Leva anos até a fisiologia do corpo se modificar para que este sobreviva ao congelamento, mas eu estou confiante e seguro de que meu pupilo está mais do que preparado para o desafio do frio siberiano. Ele é um nascido da mãe Russia e estou certo de que em poucos anos Alexei Hyoga se sagrará Cavaleiro de Bronze — disse o francês sem esconder nem um pouco o orgulho paterno ao se referir às qualidades do próprio filho.
Saga sorriu por debaixo da máscara ao notar as palavras e o tom na voz de Camus, e embora alegrava-se por ele também não podia deixar de inveja-lo.
Parado em frente à mesa, enquanto assinava o pergaminho de dispensa do Cavaleiro de Aquário, selava com cera vermelha e imprimia nesta o brasão de seu anel, o símbolo da Ordem de Atena, Saga refletiu que mesmo tendo perdido anos do crescimento de Hyoga, o pouco que acompanhou antes de sumir em si mesmo, somado ao que vira desde que voltou, confirmavam que o garoto realmente possuía uma afinidade incomum com o frio estremo. O moleque honrava o sangue russo em suas veias.
Pergaminho assinado e selado, Saga o estendeu a Camus e aproveitou a deixa para tocar em outro ponto importante, este, por sinal, o motivo pelo qual atraíra o aquariano até ali, bem longe do alcance de ouvidos alheios.
— A nova geração está ascendendo bem diante dos nossos olhos, Aquário — disse Saga num tom de voz bem mais baixo.
— Oui! Logo seremos substituídos. — Camus respondeu ao apanhar o pergaminho.
— Espero que não tão cedo, meu amigo. Ainda quero viver muito antes de ser aposentado, mas é emocionante olhar para esses meninos e saber que eles serão o futuro desse Santuário, não é mesmo? — disse Saga num tom descontraído de conversa de bar que nunca usara antes com aquele cavaleiro.
A informalidade na fala capturou a atenção que desejava de Camus, pois a luz da compreensão brilhou nos olhos avelãs e as sobrancelhas ruivas bifurcadas se contraíram levemente. O olhar que agora encarava o Patriarca não era mais do Cavaleiro de ouro submisso e sim do Vor astuto e perigoso. E era para ele, o Vor, que as próximas palavras de Saga se dirigiram:
— Veja só você como são as coisas, né... Hoje mesmo, de manhã, aceitei um novo aspirante, um japonês, acredita?!... Não acha isso curioso? Interessados em ingressar a Ordem da nossa deusa vindos de terras tão distantes é algo extremamente raro... Por sorte temos nossa fiel amazona de Águia para nos ajudar nessa empreitada, já que sem dúvida o idioma seria uma barreira considerável a transpor... e agora acabo de dispensar você para treinar seu filho na Sibéria. Imagino o quão dedicado será o treinamento que o jovem Hyoga irá receber... Ah, Camus... o tempo está passando tão rápido! A gente pisca e essa criançada cresce da noite para o dia, vira homem, passa a perna na gente e em breve toma conta de tudo, então nós seremos passado.
Saga parou de falar e pousou uma das mãos na ombreira da armadura de ouro do homem à sua frente. Mesmo por trás da máscara era possível notar a troca e olhares entre eles e de que apesar de toda a verborragia que Saga derramara, Camus tomara nota da única informação desconexa aparentemente solta e irrelevante daquela conversa, porém a mais importante: Um novo aspirante a cavaleiro chegaria em breve, e sua origem era nipônica.
Camus acenou discretamente, sabendo muito bem quais implicações uma informação como aquela poderia ter para o chefe da máfia russa.
— Retiro o que disse antes. A geração nova pode estar desabrochando diante de nós, mas ainda vai levar muito tempo até que eu deixe um desses fedelhos me passarem a perna. Hyoga vai ter que tomar muita vodca antes de sequer pensar em provar a minha armadura — disse Camus.
Aviso recebido com sucesso e recado dado à altura. Ele ficaria e olho e tomaria as devidas providências se fossem necessárias.
Saga riu descontraído.
— Que os deuses o ouçam, Camus, porque eu ainda quero ter o prazer de ter rebentos a quem treinar... que os deuses assim me permitam, não é mesmo? Por hoje está dispensado, e tenha boa sorte no treinamento do jovem Hyoga e boa viagem para ambos. Espero ver vocês dois só daqui alguns anos.
— Obrigado. De qualquer modo, não estarei incomunicável. Deixei meios para que entre em contato comigo na Sibéria em caso e emergência. Também manterei notícias frequentes dos avanços no treinamento.
Saga acenou com a cabeça e dispensou o cavaleiro de ouro, encerrando a reunião.
Enquanto caminhava de volta para o trono, já preparando-se para a próxima audiência, o coração e a mente do geminiano desejavam que a conversa de instantes atrás fosse apenas conversa fiada, que não demandasse nada de importante, que o novo aprendiz japonês fosse, com sorte, só mesmo o irmão perdido de Marin e que toda a paranoia que ele vinha sentindo durante aquele dia fosse unicamente efeitos colaterais dos remédios psiquiátricos que tomava.
***
O sol já estava baixo no horizonte e o Grande Mestre mal podia esperar para que expediente do dia chegasse ao fim.
— Acabou por hoje, Gigars? — perguntou coçando os pés por baixo da túnica, doido para arrancar as sandálias e jogar máscara e elmo longe. Ansiava por uma banheira de água morna para emergir sua carcaça extenuada.
— Quase, meu senhor. Temos apenas mais uma audiência.
— Ah, pelas joanetes peludas do corno do Hades, se for alguma deliberação sobre verba para os refeitórios ou enfermaria deixe para amanhã. Eu não aguento mais ver números nem ouvir reclamações.
— O solicitante é o Cavaleiro de Áries, meu senhor. Ele retornou de uma missão especial a pouco e informou que aguarda para lhe entregar seu relatório antes de poder retornar ao Sexto Templo.
Imediatamente o cansaço abandonou o corpo de Saga que mais desperto e ansioso do que nunca só faltou pular no acento do trono.
— E o que você está esperando? Para ele não precisa aguardar minha autorização. Ande, mande o homem entrar já!
Gigars se encolheu diante da bronca e mais do que ligeiro acenou para os guardas que abriram as enormes portas da sala de audiências permitindo a entrada de Áries.
Após semanas ausente do Santuário a mando do próprio Grande Mestre, e trajado com sua armadura de ouro dada a formalidade da ocasião, Mu caminhou ligeiro até Saga, parando diante do trono e prostrando-se com um dos joelhos no chão, como fizeram todos os outros naquele dia. Um gesto mais do que comum, não fosse pelo histórico recente de desentendimento entre os dois cavaleiros, e que causava sentimentos conflitantes em ambos, principalmente em Saga, que no fundo reconhecia o esforço de Mu em se reconciliar consigo.
— A investigação que me pediu rendeu frutos, trago grandes novidades — disse Mu, ainda de joelho no chão.
Saga, mal podendo conter a euforia, finalmente mandou às favas a formalidade e pulou do acento puxando o elmo para fora da cabeça com máscara e tudo, revelando os cabelos rebeldes e o rosto suado. Apressado soltou o botão que prendia a gola do manto, deixando livre o pescoço, e depois de um longo suspiro de alívio disse:
— Levante-se daí, homem. Sei que a missão foi oficial, mas não vou aguentar esperar para ler esse relatório. Quero que me conte tudo! — Depois de uma breve pausa, Saga acenou para Gigars indicando que se retirasse.
O velhote arregalou o único olho em sobressalto.
— Mas, Grande Mestre, não quer que eu fique para tomar notas do relatório e...
— Não, não precisa, Gigars, vá descansar.
— Mas eu preciso timbrar a...
— Não tem que timbrar nada.
— E quem vai grifar os lembretes?
— Esse próximo assunto não precisará de grifo, nem de notas nem de nada. Pode deixar que eu me lembrarei de tudo, não se preocupe. A minha memória hoje está praticamente como a de um paquiderme! Boa noite! Até amanhã às sete em ponto!... E não esqueça de mandar preparar o meu chá gelado... Gelado, heim, não mormo. Passar bem!
— Sim, meu Patriarca. — disse o velhote fazendo uma breve mesura e então se retirou do salão muito a contragosto, já pensando em uma forma de bisbilhotar a conversa.
O breve bate-boca dos dois provocou riso em Mu, que agora também retirava o elmo dourado da armadura para sentir-se mais confortável.
— Ele é bem insistente! — disse o ariano descontraído.
— Você não faz ideia do quanto! — observou Saga, e ansioso emendou logo em seguida: — E então, Mu? Conte-me tudo, não esconda-me nada! Você passou semanas fora sem me dar uma mísera notícia e eu aqui, vendido???, quase que me comi os dedos porque unhas já não me restam — mostrou a Mu os dedos meio trêmulos de unhas roídas — E ai? Você descobriu alguma coisa sobre a família da Geisty? — sussurrou o nome da esposa como quem divide um segredo.
Mu descansou o elmo ao lado da cintura, abraçando-o com o braço e deu um sorriso largo para Saga.
— Alguma coisa? Eu descobri tudo e mais um pouco — disse divertido com arquear das sobrancelhas inexistentes que fez uma das pintinhas em sua testa levantar.
Os olhos de Saga brilhavam em expectativa.
— Bom — Mu prosseguiu — eu demorei porque, primeiro, não foi tão fácil assim. Da parte do pai não descobri quase nada. Na verdade nada de relevante além do que já se sabia, mas da parte da mãe... minha nossa!
— O que?
— Acredita que tive que me enfiar no interior da Toscana? Deuses, como é longe aquele lugar!... Enfim, quando finalmente encontrei a localização exata de onde eles possivelmente viveram, eu consegui a melhor fonte de informações que se possa imaginar: o pároco da igrejinha local. Então eu fingi que era um mero viajante pagando uma promessa e ele me hospedou numa casa que acolhe peregrinos, cuidada por freiras da Ordem dos Pés Descalços.
Saga arregalou os olhos, um tanto confuso e bastante incrédulo.
— Embora as senhoras fossem muito hospitaleiras e o padre um sujeito simpático, não pense que foi fácil, viu? — continuo Mu. — A comida era ruim, sem tempero, e eu tive que frequentar a missa! Mas, depois dos primeiros dias descobri que o pároco bebia escondido, então foi só regar o velhinho simpático com o rosto bonachão com um bom vinho que ele ficou falante.
— Espera, espera! — Saga tentava organizar toda aquela novidade dentro dos seus miolos ansiosos — Você se hospedou num albergue de freiras e embebedou o padre para conseguir o que queria? — riu de olhos arregalados e mão agitadas no ar. — Por que eu não estou surpreso?!
Mu ria junto com ele.
— Também fiquei amigo dele. O que eu posso fazer se os religiosos me amam? Sou um homem de fé! E o padre era a minha melhor fonte de informação, além do que o povo daquela região é muito religioso, muito mesmo... E quem melhor para saber de tudo ali se não o pároco que ouve todos os segredos no confessionário? Hã? Hã?
— Hmmm... Boa jogada!
— Eu sei! Mas foi assim, entre uma taça de vinho e outra, que o velho me contou tudo que eu precisava saber, até mais um pouco.
— Você ainda arrumou tempo para beber? Ah, o desgraçado é um gênio! Certo, e o que ele te contou? — Gêmeos coçava o queixo nervoso e tinha os olhos injetados e brilhantes as custas da sua curiosidade.
— Olha, muita coisa, e se é para ser sincero, mais até do que eu gostaria de saber. Fiquei sabendo dos segredos da cidade toda, o homem adora falar, mas o que realmente importa é: Geisty ainda tem uma família! — Mu contou animado.
E Saga se animou junto. Com um sorriso emocionado esfregava a mão no peito sentindo o coração bater esperançoso enquanto ouvia as palavras do amigo.
— Como disse, precisei me entocar no interior da Itália, e é lá que a família dela está.
— Na Toscana!
— Nos cafundós da Toscana, para ser mais exato. E vou te dizer, Saga, não é pouca gente não! Eles são muito influentes na região, porque além de serem numerosos são proprietários de uma das maiores vinícolas do Estado. E como meu adorado marido diria, “o Samsara trabalha de formas misteriosas!”, meu amigo, e sabe por quê?
— Ora, mas é claro que não sei, você não me falou, homem de deus, digo, de Buda. Fala logo e pare de fazer mistério porque não tem ansiolítico que dê conta. — esfregava as mãos suadas pelos cabelos quase os arrancando da testa.
Mu riu de novo
— Eles produzem justamente vinhos Chianti.
— O quê? — Saga tinha os olhos arregalados, o rosto petrificado como o de uma górgona que curiosamente suava em bicas, até pronunciar com os lábios meio bobos — Você está de brincadeira?
— E eu mentiria num relatório oficial, “Grande Mestre”? Tomei garrafas e mais garrafas do fabuloso Chianti da tradicionale Vinícula Venetto. Trouxe até uma para você, depois te entrego.
— Ah que pena! Não posso beber.
— Ops, me esqueci desse detalhe! Que pena, eu podia ter bebido, então. — lamentou o ariano em tom de brincadeira — É claro que eu trouxe para a Geisty. Bem, continuando, o padre me disse que a proprietária da vinícola é dona Marieta Venetto, uma senhora na casa dos seus 80 anos. Ela é a avó da Geisty, mas quem administra é um dos filhos dela, juntamente com o neto, tio e primo da Geisty. Eu cheguei a ver vários deles nas missas, já que são todos muito católicos, e pelos deuses, Saga, eles são a cara da Geisty! O mesmo cabelo escuro e grosso, o mesmo nariz pontudo, e até as mesmas bochechas gorduchas! O padre adora eles, pois além das doações generosas que fazem para a caridade da igreja, também fornecem o vinho das missas.
— Hump! Que conveniente esse padre, não é mesmo? Mas deixando esse padre bebedor de vinho de lado, você disse que os familiares são muitos. Muitos quantos? Mais do que nós? Digo... — Gêmeos se mostrava preocupado com a situação, era fato, pois por mais feliz que pudesse estar com a notícia esta também o deixava extremamente ansioso.
— Olha, é muita gente. Eu coloquei a maioria no relatório escrito, mas tenho certeza de que ainda falta gente. Além da matriarca, a Geisty tem mais uns 5 tios, vários primos, pelo menos uma dezena deles... Ah! Contei muitas crianças também na família. — Nessa hora Mu parou de sorrir e ficou sério — Tem um detalhe importante. Aliás, foi esse detalhe que me impediu de me infiltrar na família e fazer contato mais próximo... Achei importante voltar para cá primeiro e te relatar tudo para que decida o que fazer junto com a Geisty.
— Que detalhe?
— A mãe da Geisty, Ângela, é a única falecida dos filhos de dona Marieta, inclusive era a única filha mulher. O assunto é tabu, nem o padre quis falar sobre, mas deixou escapar, entre um gole e outro de vinho, a tragédia chocante que marcou a família... uma perda muito dolorosa e sentida por todos. Eles não falam disso, mas todo ano a matriarca faz uma doação especial e manda rezar uma missa para a filha, o genro e neta falecidos.
Saga ficou em silêncio encarando Mu que lhe olhava de volta por longos segundos.
— Você fez bem em voltar — finalmente falou após um longo suspiro.
— Pois é, eu realmente não soube o que fazer nesse ponto. Não queria me intrometer e desencadear algo. Eu mais do que ninguém sei como mentiras familiares podem abalar o emocional e psicológico de alguém. Mas enfim. Eles estão vivos, são muitos e eu tenho a localização exata deles. Agora cabe a você e a Geisty decidirem o que fazer, mas se me permite uma opinião, independente de tudo, ela seria muito bem recebida por aquelas pessoas, eles parecem muito unidos e calorosos. Acho que vale à pena dar alegria àquela senhora antes dela partir desse mundo.
Saga acenou com a cabeça concordando com ele.
— Não apenas à dona Marieta, mas também à Geisty! Ela vai ficar radiante! Obrigado Mu. Vou ler seu relatório escrito amanhã e pensar direitinho em como agir. Muito obrigado pela ajuda. Eu não confiaria uma missão tão importante como essa a mais ninguém — Gêmeos apoiou a mão sobre a ombreira da armadura de Áries.
— Não me agradeça. Geisty é minha irmã do coração. — Mu deu um pequeno sorriso sincero — Acredite, fiquei muito feliz por ajudar a encontrar o que restou da família dela e, quem sabe, poder dar a ela algo que faltou a todos nós.
O geminiano suspirou em concordância, mas logo emendou para não deixar o clima esquisito pairar entre eles, pois família parecia ser um tabu eterno para quem cresceu naquele Santuário.
— Mas é sério que você ficou amigo justo do padre? — disse em tom descontraído, começando a caminhar para fora, pronto para encerrar o expediente, sendo seguido por Mu.
— Não só do padre, das freiras, dos coroinhas e das beatas de plantão. Esse povo do interior são umas figuras... Você sabe que de religiosos eu entendo. — Mu piscou um olho divertido — E falando em beato, o meu deu muito trabalho enquanto eu estava fora?
— Você não tem ideia! — Saga esfregou as duas mãos no rosto — Você é o único que aguenta aquele Buda de galochas.
— Ah, não fale assim da minha praga loira — disse o ariano rindo.
— Eu tenho é pena daqueles dois aprendizes dele... Cada vez que eu via os pobres diabos na arena treinando eu rogava a Hades, sim, acredite, eu supliquei ao corno peludo do Hades, para que tivesse piedade de suas pobres almas miseráveis, porque mais cedo ou mais tarde é certo que vão sucumbir.
— Nossa, mas o Shaka está pegando tão pesado assim nos treinos?
— Quem está falando em treino?
— Então?
— Estou falando da chatice dele. Mu, você tem que admitir de uma vez por todas que o Shaka é chato! O-Sha-ka-é-cha-to! E além de chato, ele é sistemático, intransigente, arrogante, prepotente...
Saga continuava a lista de adjetivos gesticulando afoito enquanto Mu segurava a vontade de rir, pois Shaka parecia ser um assunto que sempre deixava o geminiano com os nervos a flor da pele.
— Deixa de ser implicante — disse Mu por fim — Você é que não tem paciência com ele... Luz da minha vida está com saudades de mim, apenas isso.
— Saudades? Pois eu garanto a você que saudades mesmo estão todos os outros moradores desse monte, saudades da paz e do sossego, já que a Luz da sua vida conseguiu arrumar confusão com todo mundo... Por tudo de mais sagrado, Mu, por um tris eu não fui atrás de você ou te mandei abortar a missão e voltar mais cedo.
— Ora, mas por que motivo?
— Ué, para dar um jeito no seu marido. Você acredita que todos os dias em que você esteve fora o Shaka me perturbou o meu juízo que já é naturalmente judiado?
Áries desviou o olhar das escadas e olhou perplexo para Saga que continuou a tagarelar:
— Isso mesmo! Todos os dias! Todos, sem exceção, as vezes mais de uma vez ao dia.
— Não... eu não acredito, você está exagerando!
— Queria estar, meu amigo, queria estar! Começou com as migalhas de biscoito que Afrodite deixava cair quando passava pela Casa de Virgem e mais recentemente é o gato.
— O que tem o meu gato?
— Segundo o Shaka ele está acima do peso e a culpa é nossa, claro, porque logicamente a culpa é dele mesmo e sendo dele ele coloca em quem quiser — Saga bufou — Agora me diga, eu lá tenho culpa daquela cria peluda do Hades estar gordo?
Mu balançou a cabeça confuso.
— Calma, Saga, fale devagar... O Saravá Ebó está doente?
— Quem?
— O meu gato.
— Ah, sim! O gato!... Não! Doente não, gordo! Eu disse gordo... quer dizer, o Shaka disse que o gato está gordo, não eu, entendeu? Ele está ótimo de saúde, balofo, porem ótimo! Quem está doente sou eu. Shaka está me deixando louco vindo aqui toda hora, “Ai, porque o Saga precisa emitir um decreto proibindo os moradores de alimentar Siddartah com comida humana; porque Saga tem que emitir um aviso formal para o Touro não fornecer proteína gordurosa para Siddartah; porque o Saga permite a desobediência da dieta de Siddartah dentro da própria casa, pois sua esposa dá atum enlatado para o animal; o Saga é um marido frouxo”... Sim, eu tive que ouvir que sou um marido frouxo... “Ai, ai, ai, porque é um absurdo o Saga permitir que a Casa de Aquário seja tão gelada, Siddartah não está acostumado com baixas temperaturas; Saga precisa emitir um comunicado de desaparecimento, Siddartah sumiu”... Caralho! — Gêmeos por fim respirou ofegante.
Ao lado dele Mu agora gargalhava, embora estivesse perplexo com o relato. Todavia, era impossível não achar graça de Saga imitando o trejeitos e o sotaque indiano carregado de Shaka.
— Graças aos deuses que voltei para casa, já vi que uma tarefa árdua me aguarda! — disse Mu por fim.
— Eu não queria estar na sua pele. Boa sorte, guerreiro!
— Nem eu na sua... — lembrou Mu referindo-se ao assunto de sua missão. — Já quer levar a garrafa de vinho com você?
— Claro que quero! Geisty vai querer se reidratar depois de nossa conversa — brincou ele. — E Mu, mais uma vez, obrigado.
Mu acenou para o geminiano com um sorriso, depois teleportou a garrafa de vinho diretamente para as mãos dele e então cada um seguiu seu caminho até suas respectivas casas, Áries ansioso para rever a família e Gêmeos mal podendo esperar para contar a Geisty sobre sua família italiana.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
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