Templo das Bacantes Vol. 3

6 Trio Ternura em: Ai ai ai, ui blau blau


Notas iniciais
A referência é para os fortes hahahah

Santuário de Atena, Casa de Virgem, 07:30am

Ao se levantar da cama naquela manhã fria e chuvosa de dezembro Shaka dispensou o pijama de algodão e a cueca ainda jogados ao lado do leito e cobriu-se com um kaftan indiano longo em tecido de veludo num tom mostarda. O inverno grego havia apenas começado, as temperaturas ainda estavam amenas, porém frias o bastante para alguém que nasceu e cresceu no coração da Índia. O clima frio incomodava tanto o cavaleiro de Virgem que nessa época do ano chegava até a dispensar os banhos matinais na companhia de Áries, posto que este parecia imune ao inverno grego, e a ducha do despertar de Mu era tão sagrada quanto era gelada!

Assim, enquanto o ariano tomava seu banho tranquilo Shaka se dirigia até a cozinha para preparar o café da manhã, mas não sem antes passar no quarto de Kiki para verificar o filho, que ainda dormia.

Normalmente o pequeno lemuriano acordava antes dos pais, mas na noite passada, por estar um pouco febril, Virgem lhe deu um antitérmico e o colocou na cama horas mais tarde que o habitual, quando sua temperatura baixou. Fazia dois dias desde o incidente na Arena, e doutor Adônis os havia avisado que seria normal Kiki apresentar febre como qualquer criança que passa por um pequeno trauma, e que não era algo com que deveriam se preocupar.

Certificando-se de que o filho dormia tranquilo e que a febre não havia voltado Shaka seguiu para a cozinha, mas quando entrou na dispensa para apanhar um pacote de chá e o pão eis que se deparou com uma cesta de presentes toda decorada. Na mesma hora olhou dentro dela e viu uma caixinha verde água caprichosamente embrulhada por um laço branco, e outra com o que parecia ser um perfume. Ao lado delas um laço também branco, mas três vezes maior, enfeitava o pescoço de um ursinho de pelúcia que trazia preso à uma das mãos fofinhas uma cestinha com bombons belgas.

— Por Buda! — Shaka exclamou surpreso, já de olhos abertos e maravilhados. — Ah, Mu, como você é romântico, meu amor! Ele deve ter percebido que ando preocupado. — sorrindo apanhou a caixinha junto do ursinho, o qual levou ao rosto para sentir melhor a macies da pelúcia. — Hmm...

Sem cerimônia alguma pegou um dos bombons da cestinha e o jogou na boca enquanto abria a caixinha com o laço branco.

— Nossa! É um... anel! — arregalou os olhos azuis celestes ao ver a joia, uma peça belíssima e extremamente delicada em ouro rosa 18k, cravejada com diamantes e uma exuberante ametista. — Mas... tão pequeno e feminino!

Mesmo estranhando o tamanho e estilo da peça Virgem tentou coloca-la no dedo, mas esta não lhe entrou nem no dedo mindinho.

Intrigado, porém ainda eufórico e muito contente com os presentes, o indiano deu de ombros e pegou outro bombom da cestinha, e enquanto o degustava animado e lambendo os lábios devolveu o anel à caixa e abriu a embalagem do perfume. O frasco deste era lindíssimo, todo em tons de rosa e lilás com um borrifador dourado. Shaka então levantou o queixo e deu uma borrifada generosa no pescoço. Imediatamente em seguida franziu o nariz voltando a olhar para o frasco.

— Mas que raio de perfume de marafona! — murmurou balançando a cabeça em desaprovação, depois devolveu também o perfume à embalagem e leu o verso. — Fragrância doce e floral... Errou o tamanho do meu dedo, errou a fragrância que eu uso, mas pelo menos acertou nos chocolates e no ursinho. — riu, e enquanto comia outro bombom foi surpreendido por Mu que chegara à cozinha e agora olhava para ele da porta da dispensa.

— Shaka o que está fazendo? — Áries perguntou surpreso.

Ao virar-se para o ariano Shaka lhe sorriu com a cesta e os itens ainda nas mãos e a boca cheia de chocolate.

— Hum? Mu! — disse terminando de engolir o doce. — Amor, Shaka adorou os presentes! Acho que terá que trocar o anel e o perfume, seu distraído. — ao chegar no ariano lhe deu um selinho nos lábios deixando os dele sujos de chocolate.

Meio sem jeito Áries lambeu os lábios doces enquanto olhava consternado para o virginiano.

— O que? — disse em alarme.

— Sim, o anel não me serviu em nenhum dedo, e o perfume é feminino demais, mas... olha isso! — pegou o ursinho da cesta e o trouxe até o rosto novamente esfregando a pelúcia fofinha na pele, depois esticou os braços e puxou Mu para um abraço forte o enchendo de beijos. — Eu adorei, mesmo que tenha errado na maioria. Você deve estar preocupado também, tanto quanto eu, com o nosso filhote, por isso se distraiu dessa forma. Mas não tem importância. Obrigado, marido. Não esperava ganhar tantos presentes assim, em um dia comum.

Mu estava em choque.

Um silêncio estranho se fez entre eles, e diante deste Shaka apartou o abraço e se afastou uns palmos para olhar para o ariano, que sem reação tinha a fisionomia extremamente constrangida enquanto encarava os olhos azuis questionadores do indiano.

— Pelas orelhas flácidas de Buda! Os presentes não são para mim! — disse Virgem num murmúrio.

— Luz da minha vida, eu... — Mu piscou os olhos encabulado e aflito.

— Mas que tolo. É óbvio! Nada disso tem a ver comigo! O anel de mulher, o perfume de marafona, o ursinho... — disse o indiano enquanto apressado devolvia a pelúcia à cesta junto dos outros itens, os quais tentava ajeitar embalando como podia tudo novamente. — E é claro que você sabia disso, não é?

— Sim. E ainda tem as orquídeas negras que estão na sala. — disse Áries cabisbaixo.

Shaka olhou embasbacado para ele.

— Por isso não eram girassóis. — murmurou soltando um suspiro longo. — Porque são para Geisty.

Mu respirou fundo.

— Me desculpe. — disse o virginiano. — Ando tão distraído e preocupado com Kiki que nem me dei conta de que já estamos em dezembro. É o aniversário de casamento dela com o Gêmeos, não é?

— Sim, é. — Mu respondeu sem jeito.

— Ainda está a presenteando no lugar de Saga? — Shaka perguntou entregando a cesta de presentes para Mu. — Eu já falei para você que isso não é bom.

— É eu ainda estou fazendo o que o marido dela deveria fazer. Não aquele monstro maldito, mas o nosso amigo, Saga. — Mu respondeu apanhando a cesta e a levando até a mesa. — Todos os anos quando chega essa data ela fica tão deprimida, tão... sozinha. Esse é um jeito que encontrei de diminuir um pouco o sofrimento da minha amiga, lembra-la pelo que lutamos juntos e também mostrar a Saga que não o esquecemos.

— Sabe que acho isso uma tolice, não? — Shaka deu de ombros. — Gêmeos já se esqueceu de nós há tempos, há quase seis anos para ser mais preciso.

— Eu sei o que você acha. — Mu sorriu para ele aproximando-se e lhe puxando pela cintura. Era nítida a decepção no rosto do virginiano em saber que os presentes não eram para ele. — Eu só não sabia que iria gostar tanto de um ursinho de pelúcia e dos bombons. O chocolate você já quase comeu tudo e não tem como devolver, mas se quiser ficar com o ursinho pode ficar. Você quer?

Shaka balançou a cabeça ao modo indiano indicando negativa. Seu orgulho não o permitia aceitar um presente que não foi comprado para ele.

— Eu sei que você quer, Sha. Estou falando sério, pode ficar com ele. — o ariano insistiu fazendo uma caricia no rosto corado do outro.

— Não. Você comprou para Geisty. Dê para ela. Está tudo bem.

— Tem certeza? — perguntou beijando o pescoço do indiano, e ao sentir o aroma forte e feminino impregnado na pele dele sufocou uma risada. Até o perfume Shaka havia aberto e usado. Sentiu certo remorso. Não queria a Luz da sua vida apagadinha por descobrir que os presentes não eram para ele.

— Tenho. Agora me deixe preparar o café da manhã que logo o Kiki aparece aqui com a típica fome de leão dele querendo devorar até as minhas cortinas. — disse segurando no rosto do lemuriano lhe beijando rapidamente a boca. — Aproveite e convide a Geisty para jantar conosco.

— Ótima ideia! Farei isso. — Áries respondeu afastando-se.

Mu ainda ficou ali um tempo observando Shaka preparar o dejejum calado. Virgem nunca admitiria, mas o ariano sabia que mesmo por debaixo da fisionomia calma o marido estava enciumado e chateado.

Teria que dar um jeito nisso.

***

Templo de Baco, 09:00am

As manhãs no Templo das Bacantes eram silenciosas e calmas em quase todos os setores da suntuosa construção erguida em louvor ao deus dos exageros sexuais, menos em uma sala em especifico.

— Bom dia, Mosca! Sabia que já estava aqui na descolândia*, por isso nem passei na Terceira Casa. — disse Afrodite adentrando o escritório que dividia com Geisty e Mu. Trazia com ele seu mais largo e sincero sorriso, o frescor e alegria da primavera para aquela manhã fria de inverno, e uma jarra do famigerado suco de clorofila. — Trouxe o seu suco de luz desmancha pochete. — colocou a jarra sobre a mesa da amazona, que já cedo conferia planilhas com preços de fornecedores. Ela precisava manter a cabeça ocupada para não pensar naquele dia como uma data especial.

— Bom dia. — Geisty sorriu para ele um tanto desanimada. — Opa! Suco de mato! Vou até jogar meu café quentinho fora. — brincou, depois correu os olhos pela figura exuberante do pisciano por alguns segundos. — Calça bonita! Tenho uma igual.

Afrodite estalou a língua no céu da boca e cruzou os braços.

— Quer que eu tire ela aqui para te devolver? — perguntou.

Geisty riu.

— Ma che? Já tá com ela mesmo, pode ficar. Ficou ótima com essa jaqueta de couro dois números menores que o seu e essas botas. — brincou. — As botas é para esconder as barras que com certeza devem estar no meio das suas canelas.

— E não é? — Peixes puxou uma cadeira e se sentou à frente da mesa da amiga. — Coloquei ela porque é larguinha aqui no quadril, sabe? Sua bundona gorda já esticou o tecido todo e deixou ela confortável. Hoje temos toda essa pilha de planilhas para conferir, fora as reservas para confirmar... Precisava usar algo confortável.

— Pois saiba que para o seu governo a minha bundona gorda é a mais cobiçada de toda a Grécia, meu bem. — disse Geisty levantando-se para apanhar dois copos no barzinho que ficava ali e servirem-se do suco de luz. — Toma. Pela saúde da minha bunda.

Afrodite apanhou o copo e brindou com ela.

— Pela saúde da sua bunda e que nunca te falte franja.

— Mas isso nunca vai me faltar mesmo. — ela riu bebendo o suco tudo do copo, depois o colocou sobre a mesa fazendo uma careta. — Ai Afrodite, tem um chiclete? Esse suco é bom para derreter os pneus, mas tem um gosto amargo.

— O gosto amargo vem dessa sua língua de jararaca de franja, quenga. Ah, tá boa! — enfiou a mão no bolso e tirou dele um pacotinho de chicletes que tinha ganhado de Hyoga. — Toma.

Rindo do amigo Geisty jogou o chiclete na boca e ao começar a masca-lo percebeu que era de pimenta. Fazendo careta, e com os olhos marejados, olhou na embalagem e leu em voz alta:

— Kriptonita. Goma de mascar sabor pimenta. — deu uma risadinha para Afrodite. — Já te disse que você tem um paladar horroroso?

— Querida, para o que eu gosto de fazer com a minha boca o meu paladar é bom até demais. — disse Peixes.

Bem nessa hora ouviram alguém bater à porta, e Geisty, que estava de pé a caminho do barzinho para apanhar um pouco de água, foi ela mesmo atender. Ao abri-la deu de cara com um dos servos do Santuário portando uma cesta de presentes e um enorme e lindíssimo buque de orquídeas negras.

— Pela poderosa Hera! Que coisa mais linda! — disse a amazona ao apanhar o buque com as flores e também a cesta. — Obrigada, Tirésias. — agradeceu já voltando à sua mesa. — Afrodite, olha que coisa mais linda! Olha essas flores!

Peixes levantou-se animado e um tanto surpreendido.

— Dadá, é hoje, né? Eu tinha me esquecido! — disse o pisciano. — Aquenda essa caixinha da Tiffany!

— O que será? Vamos ver... — ansiosa desfez o laço e abriu a caixa. — Madonna mia! Ouro rosa, bicha! É daquela coleção exclusiva que estávamos de olho! — falou enquanto colocava o anel no dedo e estendia a mão para mostra-lo ao amigo.

— Ah, você vai muito me emprestar esse anel até o meu cartão ser desbloqueado para eu comprar um para mim. — disse Afrodite, e na mesma hora Geisty olhou para ele confusa e curiosa.

— O seu cartão está bloqueado? — ela perguntou surpresa.

Quando percebeu que falou demais, já que se referia ao cartão de Camus e não ao seu de fato, Peixes arregalou os olhos aquamarines encarando a amazona.

— Ah... pois é... o meu cartão ele... Eu fui comprar pão e ele não passou. Quer dizer, pode ser que esteja só com defeito e não bloqueado... Ah, não complica não, Mosca, eu heim.

— Não estou complicando nada, bicha. Você disse que seu cartão está bloqueado, e eu mesma depositei uma grana alta na sua conta esse mês que é a sua parte no lucro dos ganhos com o aniversário do estorvo do Praxédes, então temos que ir ao banco ver o que aconteceu.

— Não! — Peixes disse enfático, já com palpitação. — Não temos que ir nada. Não esquenta a cabeça com isso, tá boa?... Dadá, olha esse ursinho de pelúcia que coisa fofa. Vem com chocolate.

— Lindinho! — disse ela esquecendo-se do assunto do cartão para a felicidade e alívio do pisciano. — É tão macio... Mas só três míseros bombons? Podia ter vindo mais, né?

— Olhuda! É o suficiente. Dá um pra mim. — disse Peixes metendo a mão na cestinha de chocolates presa à pata do ursinho.

— Hmmm... esse perfume da Dior é um dos meus preferidos. — Geisty falava enquanto borrifava o perfume no ar para que as gotículas caíssem em cima de si mesma e também de Afrodite. — Mu sempre acerta em cheio. — disse em tom melancólico com um sorriso meio murcho. Não achava certo o lemuriano presenteá-la no lugar de Saga, mas entendia sua intenção e lhe era extremamente grata pelo carinho.

— Você tem o melhor irmão de criação do mundo, Mosca. Mu é muito fofo. Não merecia ter se apaixonado justamente por aquele Buda trombudo. E tenho certeza de que Saga acertaria em cheio em tudo também, se estivesse aqui. — disse Peixes aproximando-se dela e lhe afagando os cabelos.

— Sim, ele acertaria. Ele sempre acertou. — Geisty suspirou. — Mas, isso não é certo... Mu deve ter gastado uma fortuna com esse anel. — falava apreensiva enquanto olhava para Afrodite e mascava ávida o chiclete de pimenta. Vez ou outra piscava involuntariamente um olho.

— Se ele gastou é porque ele tem acué para gastar. Desaquenda. Ah! Já que é seu aniversário de casamento podíamos ir até Atenas depois do expediente para comprar um presente para o Coiso, tipo, um coquetel molotov, um sabonete de urtiga...

Geisty olhou para Afrodite ainda com movimentos faciais involuntários por conta da chiclete e deu uma sonora risada.

— Bem que ele merecia, mas nem isso ele vai ter de mim. Já me basta ter de acompanha-lo em alguns eventos sociais por conta da imagem dele de grande empresário da noite grega, e da minha também, né? Afinal eu sou a diretora dessa casa e oficialmente esposa. Casamento de fachada é um saco. — balançou a cabeça em negativa.

— Quando vai ser o próximo evento? — Peixes perguntou.

— Daqui há alguns meses, acho que em março... mas já estou puta da minha vida por antecipação.

Peixes e Serpente sentaram-se nas cadeiras em sincronia enquanto respiravam fundo soltando um suspiro, e exatamente nessa hora Mu entrou no escritório.

— Nossa quem morreu? A descolândia agora virou velório? — disse Áries enquanto caminhava até eles trazendo consigo algumas pastas com arquivos. — Eu não sei se vai animar vocês, mas tenho uma boa notícia. Fechei a contabilidade do mês passado e estamos com uma sobra de caixa. Podem investir em novos figurinos para os shows ou sei lá, gastarem como quiserem.

Mu fingia ignorar os presentes sobre a mesa da amiga, mas esta se levantou e calmamente foi até ele lhe dando um abraço apertado.

— Meu amigo. Eu te amo sabia? — afastou-se mas ainda o segurava pelos ombros enquanto olhava em seus olhos verdes. — Obrigada pelos presentes, eu adorei todos, mas... isso não está certo, Mu. Não está amenizando a culpa de Saga, e também não pode gastar seu dinheiro comigo.

— Não estou amenizando a culpa de ninguém. — Mu sorriu para ela. — Digamos que estou apenas ajudando um amigo que está em coma e que tenho certeza que faria o mesmo por mim. Na minha ausência sei que Saga cuidaria daquilo que eu mais amo com o mesmo carinho e dedicação. Quer dizer... na medida do possível. — riu descontraído ao se lembrar o quanto Shaka tinha dado trabalho a Saga na infância. E depois de adulto as coisas de fato não mudaram tanto. — E não se preocupe com os gastos, o pilantra vai me reembolsar cada Dracma quando voltar. — deu uma piscadinha para ela.

— Você é um amigo de verdade, sabia? — disse dando um beijo estalado na bochecha do lemuriano.

— E eu por acaso sou amigo de truque, ô quenga? Logo eu que te aturo todos esses anos? Ah, tá boa! — disse Afrodite cruzando os braços enquanto olhava para os dois a sua frente. — E não seja ingrata com a vida, mulher! Deixa o Mu te dar presente.

— Exatamente. Aproveite os presentes porque você quase ficou sem eles. — disse Mu indo colocar as pastas sobre sua mesa. — Shaka os achou na dispensa e pensou que eram para ele. Quase fica sem bombom nenhum. — riu lembrando-se da cara do virginiano lhe dizendo que havia errado no tamanho do anel e na fragrância do perfume. — Ele ficou todo jururu quando se deu conta de que eram para você.

— Alôca! Não me fala que o Buda loirudo achou que você tinha comprado um urso de pelúcia para ele! — Peixes riu efusivamente.

— Pois não é que achou? — Mu ria também espantado.

— Não é que tem mesmo uma pintosa por baixo daquela carapaça de Cafuçu!

— Tinham que ver o bico dele quando me devolveu o urso porque era para a Geisty.

— Ora, mas não seja por isso. Compre um para ele. Afrodite e eu estamos querendo dar um pulo em Atenas, por que não vem junto? — disse a amazona.

— Sim! — fez Afrodite indo até Mu todo eufórico e pegando em um de seus braços. — Sei de um lugar que vai achar os melhores ursos de pelúcia dessa cidade.

— Onde?

— Na sex shop do Polly, oras!

— É espantoso como eu ainda espero algo sério vindo de você, Dido. — Mu riu alto.

— Mas eu estou falando muito sério, gata. O Polly vende uns ursinhos de pelúcia com geba de silicone vibratória de todos os tamanhos, e eu já vi lá também uns que têm um edi* anatômico de borracha para você meter e...

— Dido, pelos deuses! — Mu arregalou os olhões verdes incrédulo. Já estava com as maçãs do rosto coradas. — Eu não vou dar um urso de pelúcia com consolo dentro ou com traseiro de borracha para o Shaka. Perdeu o juízo?

— Está perguntando o óbvio para ele, Mu. — Geisty riu pegando no outro braço do ariano.

— E qual o problema em dar uma apimentada na relação, heim? Todos esses anos casado e você nunca usou uns sex toys com o loirudo?

— Quando foi que o assunto passou de ursinho de pelúcia para o que eu faço na cama com o meu marido? — disse Mu. — Você é terrível, Dido! Olha, gente, eu tenho que ir até o Polly hoje sim, mas para deixar a lista com os pedidos dos novos funcionários.

— Perfeito! Nós vamos com você. Não é, Mosca?

— Ah... Sim! Vai que eu encontro lá um consolão de borracha de uns 40 centímetros para dar com ele na cara do meu marido como presente de aniversário de casamento. — riu da própria ideia, depois soltou o braço de Mu e voltou à sua mesa. — Vamos agilizar então o trabalho para encerrarmos o expediente mais cedo.

— Certo. Vamos até Atenas, eu vou comprar o urso de pelúcia mais bonito que encontrar para a Luz da minha vida, passamos rapidamente no Polly e depois jantamos com Shaka e Kiki em Virgem. Os dois estão convidados. — disse Mu sorrindo para eles.

***

Centro de Atenas, 05:30pm

Animados por terem conseguido encerrar o expediente antes mesmo do esperado, e empolgados com o passeio, o trio ternura circulava de carro pelo centro de Atenas enquanto riam e cantavam juntos os hits de Whitney Huston que tocavam no aparelho de som. O cavaleiro de Áries era quem dirigia o automóvel, pois nas poucos vezes em que o condutor fora Peixes ou Serpente uma parte do veículo acabava sempre ficando pelo caminho.

— Oh, I wanna dance with somebody... I wanna feel the heat with somebody... Ah! O Olho do Oráculo é logo depois daquela esquina. — disse Mu interrompendo a canção no refrão. — Se eu tiver sorte Polifemo não estará lá. — riu tocando o carro para o local.

— Não sei porque se incomoda com o Polly. A melhor coisa do mundo é ser a musa inspiradora dos sonhos eróticos de alguém. — brincou Afrodite.

— Não quando se é casado e os tais sonhos eróticos evolvem sadomasoquismo pesado e perversão de todo tipo. Vai saber o que se passa naquela cabeça dele. — disse Mu. — E eu não me incomodo verdadeiramente. Apenas acho...

— Deselegante. — disse Geisty aos risos. — Mu, seu mau é ser certinho demais. Até as fantasias eróticas de um homem de meia idade envolvendo você o deixam constrangido. Nem xingar o Polly taradão você consegue. Mas eu não tiro sua razão não. Se você pudesse ver o que eu via quando fazia programas ficaria chocado. Ok, eu usava ilusões, nem tocava naqueles porcos, mas isso me permitia também realizar as fantasias mais esdruxulas desse planeta.

— Ah, eu não acredito! Vocês querem mesmo falar disso? — Peixes os repreendeu, pois ele, mais que ninguém, sabia bem o que era ser assediado e obrigado a realizar toda a sorte de perversões contra a vontade.

— Não. — disse Geisty virando-se para ele. — Me desculpe, foi só um momento de estupidez. Vamos encarar o Polly. Quem sabe encontro algo para mim e comemoro meu aniversário de casamento ao melhor estilo eu comigo mesma.

— Sabe a minha opinião sobre isso, não sabe? — disse Afrodite. — Você dirige o maior puteiro desse país, o mais famoso da Europa, e nunca provou a mercadoria. Isso é um absurdo! Você mais que ninguém tem direito de pegar o puto ou a puta que quiser, gata. Está na seca porque quer.

— Eu já te disse que não quero, bicha. Prefiro um ursinho de pelúcia pirocudo. — ela riu.

— Bem, vai ter a chance de comprar quantos quiser. Chegamos. — disse Mu estacionando o carro.

Fora do veículo os três caminharam por uma estreita viela de braços dados. Geisty ia no meio, e no caminho riam e falavam toda sorte de bobagens, até chegarem à famigerada porta pintada de azul iluminada apenas por uma pequena lanterna acima com uma luz vermelha.

— Você nunca veio aqui, né Mosca? — Peixes perguntou olhando para Geisty antes de dar três batidas na madeira. — Antigamente era o Diógenes que ficava na porta... Mas Diógenes jaz.

Logo uma fresta se abriu e de dentro um par de olhos severos por debaixo de um par de sobrancelhas negras e volumosas olhou para eles.

— Quem? — perguntou uma voz grave e dura.

— Afrodite, Mu e Mosca. — respondeu o sueco.

— Mosca? — as sobrancelhas vultosas se juntaram no meio da testa.

— Ai, colega, agiliza! — disse Afrodite ao empurrar a porta abrindo passagem para Mu e Geisty. O vigia até tentou impedi-lo, mas eram três tipos tão diferentes que logo imaginou saberem bem o que estavam fazendo ali. — A gente é de casa!

Já descendo as escadas logo chegaram ao longo corredor de paredes vermelhas iluminado apenas por uma luz negra. Dali já era possível sentir o pulsar da casa através do chão trepidante, do cheiro forte de fumaça de cigarro e gelo seco, e do som abafado da música eletrônica em ritmo perturbador, já que aquele inferninho funcionava vinte e quatro horas por dia a fim de atender os clientes mais ocupados e oferecer prazer e dor a qualquer instante.

Ao cruzarem outra pequena porta, essa de ferro fundido, chegaram ao salão principal, onde algumas pessoas circulavam entre mesas redondas de madeira pintada de preto e pequenos sofás de couro vermelho. Praticamente todas estavam seminuas, com adornos de couro ou látex pelo corpo. Alguns dançavam com pares ou sozinhos, outros bebiam, fumavam, conversavam... Nas gaiolas penduradas no teto garotas e garotos dançavam nus usando apenas máscaras de todo tipo.

— Vem Mosca, é por aqui. — Afrodite pegou na mão de Geisty a conduzindo. A amazona olhava curiosa para tudo aquilo.

Mu vinha logo atrás deles, já conhecia bem o caminho. Estava mais do que habituado àquele universo bizarro, e estranhamente nada daquilo lhe chocava de fato. Deveria...

Do outro lado do salão entraram por um corredor afunilado até chegarem a outra porta. Ali Afrodite deu dois toques antes entrar sem esperar autorização.

— Polly! — disse abrindo um largo sorriso ao ver o grandão caolho ali, era seu escritório, confortavelmente sentado em sua poltrona do papai com os pés enfiados numa bacia grande cheia com água. Uma mocinha fazia as unhas da mão dele, agachada do lado da poltrona.

— Afrodite! Quanto tempo! — respondeu o grandão puxando uma toalha que tinha sobre os ombros. Com a mão livre fez um sinal para que a manicure os deixasse a sós. Ela imediatamente se levantou retirando-se da sala. — Não me avisou que vinha, seu puto.

— A gente meio que decidiu de última hora. — disse Peixes caminhando até ele.

Polifemo inclinou-se e com a toalha enxugou os pés antes de se levantar e receber o pisciano com um abraço forte.

— Seu viado filho da puta. Agora que arrumou um namorado rico nem aparece mais aqui para me visitar. — disse o ex-marinheiro aos risos.

— Alôca! Se eu viesse aqui visitá-lo já não teria mais um namorado rico, né gata. — disse Peixes. — Inclusive, hoje também não é uma visita. Eu vim trazer uma amiga para conhecer a casa e também para comprar alguma coisa legal para ela.

— Você não muda, não é? — disse Polifemo. — Desde que te conheci, quando era um pirralho safado ainda, você só me procura quando precisa de mim. — brincou dando um tapinha nas costas do pisciano, e nessa hora viu Geisty e Mu entrarem também na sala. — Mas ora veja só quem também está aqui! Meu anjo salvador.

— Olá, Polly, como vai? — disse Mu com um sorriso singelo ao notar o suspiro do grandão.

— Muito melhor agora. — respondeu indo até eles, então se aproximou do ariano e sem cerimônia abriu os braços e o abraçou ternamente correndo as mãos enormes por suas costas enquanto sentia o perfume dos lindos cabelos lavanda.

Mu logo deu uns passos para trás quebrando o contato, então o grandão tranquilamente virou-se para Geisty, lhe tomou a mão na sua e beijou seus dedos delicados. Lembrava dela na festa que Afrodite deu no iate Vênus, sabia que era casada com Saga, mas agora ela lhe parecia bem mais madura e um tanto melancólica.

— E você deve ser a Mosca. — disse com um sorriso que esbanjava carisma. — Ouvi Afrodite falar horrores de você. Te xingar de tudo quanto é nome.

A amazona não conseguiu abafar a risada.

— É mesmo? Estranho seria se ele tivesse falado bem, não?

— Ei! Vai me apodrecer bem debaixo do meu nariz? — o piscinão reclamou.

Polifemo riu.

— Eu sempre soube que no fundo todo aquele ódio ia virar amor. Todo mundo que esse viado odeia no fim ele acaba amando. — disse o ex-marinheiro. — Seja bem vinda ao meu estabelecimento. Você é realmente é uma das mulheres mais lindas que eu já vi em toda minha vida. E olha que eu já vi dezenas, centenas, de mulheres lindas.

Geisty limitou-se a um simples obrigada.

— Bem. Então vamos até a loja. Querem ver as novidades? — perguntou Polifemo lançando um olhar insinuante para Mu, que mantinha uma distância segura. — Vai querer algo para você também, Mu?

— Na verdade eu só vim mesmo trazer a lista com os pedidos do Templo das Bacantes. — disse o ariano retirando uma folha de arquivo com a lista de dentro do bolso do casaco que usava para entrega-la ao cafetão. — As meninas gostaram da bomba de sucção Powergirl que me recomendou, e aqueles masturbadores elásticos em forma de ovo foi o maior sucesso com os rapazes. Tem vários pedidos deles. Se não tiver à pronta entrega pode encomendar que o pessoal espera. O que já tiver aqui pode mandar entregar no mesmo horário e me enviar um fax com a nota fiscal e o valor para o depósito.

Polifemo olhou para ele com o olho bom e deu um sorriso. Era incrível como os anos se passavam e o tempo parecia ignorar aquele cavaleiro completamente. Ele ainda tinha o mesmo rosto angelical e olhar doce do primeiro dia em que o vira e se fascinara com sua aparência exótica, e era justamente essa fisionomia serena, essa delicadeza andrógena que punha doido o cafetão. Sua libido voraz entrava em ebulição ao fantasiar toda sorte de perversidades com ele.

Mu por sua vez, achava graça. O que afinal lhe restaria senão isso? Ele tinha plena consciência de que Polifemo tinha uma visão distorcida sobre si, pautada exclusivamente em sua aparência, e após tantos anos lidando com ele e seus assédios esdrúxulos acabara se acostumando e até se divertia com eles.

— Certo. Eu mando entregar amanhã mesmo. Mas aproveita que está com seus amigos e perde logo essa timidez, carneirinho, escolha também algo para você. É por minha conta. — disse o cafetão com um sorriso, depois guardou a lista no bolso da calça e calçou chinelos. — Venham comigo.

Mu revirou os olhos e Geisty abafou outra risada. Afrodite já seguia na frente os esperando na porta ao lado, onde ficava a loja da casa. Polifemo a abriu com a chave e todos entraram juntos.

— O que você pensa em levar, moça? Dependendo do seu gosto posso indicar algo específico. — disse o ex-marinheiro.

— Ah, bem... eu não faço a mínima ideia. — Geisty riu sem graça. Não que estivesse envergonhada ou desconfortável por estar ali, mas porque nunca se imaginou em tal situação, sozinha em uma sex shop para comprar algo para si mesma, já que quem costumava ir a lugares como aquele com ela era Saga. Suspirou resignada e um tanto melancólica. — Talvez um consolo grandão, tipo uns 40 cm, e molenga.

Todos os olhares naquela saleta voltaram-se imediatamente para ela. O de Afrodite surpreso. O de Mu assustado. E o olho bom de Polifemo a iluminar-se entusiasmado.

— Eu gostei dela! — disse o grandão com um sorrisão no rosto.

— Ah, mas não é para mim não. É para dar na cara do estupor do meu marido. — disse Geisty indo curiosa até uma prateleira onde haviam vários artigos à mostra. — Ele bem que está merecendo.

— É cara, eu gostei realmente dela! — Polifemo deu uma gargalhada acompanhada de um tapinha no ombro de Mu. — E você, meu anjo? O que vai levar?

— Hum... eu acho que daqui nada. — disse Mu olhando entediado para aquele monte de objetos eróticos esdrúxulos bem conhecidos.

— Para de ser bobo. — falou Afrodite se aproximando deles. Já tinha passado a mão em um monte de coisa que trazia dentro de uma cesta. Iria levar tudo para Camus, que sabia como ninguém tirar o melhor proveito de cada peça. — Polly, Mu quer um ursinho de pelúcia daqueles que você tem.

O cafetão arregalou o olho bom encarando o ariano.

— Um ursinho de pelúcia! Ah, mas que gracinha! — juntou as mãos sorrindo.

Mu revirou os olhos e suspirou ruidosamente.

— Não é para mim, Polly. É para meu marido.

— Para o padre? Mas que safado aquele loiro! — falou empolgado já indo para a parte de trás de um grande balcão. — Já até sei o que ele pretende fazer. É uma das minhas práticas preferidas também. — apanhou três caixas grandes e as colocou sobre a bancada, depois olhou fundo nos olhos de Mu baixando o tom de voz. — Ele vai te surrar e te comer enquanto te obriga a fingir ser um coroinha segurando o ursinho, até que implore para ele parar. Filho da puta sádico e sem moral. Isso é a cara dele! Padres tem dessas coisas, esses sujos, e aquele nariz empinado não me engana. — deu uma risadinha sarcástica.

Mu arregalou os olhos e levou a mão ao peito atônito.

— Pelos deuses, Polifemo! É claro que não! E eu já te disse que ele não é padre!

Um pouco mais afastados Geisty e Afrodite ouviam a conversam se acotovelando e rindo baixinho.

— Não é, mas é como se fosse. E relaxa, carneirinho, não precisa negar e nem confessar, eu sei que você gosta. — Polifemo deu de ombros tirando os ursinhos de pelúcia das caixas. — Eu reconheço um sádico quando olho nos olhos de um. — deu uma piscadinha para o lemuriano que ficou desconcertado. — Aqui está. Tenho três modelos e três tamanhos. Todos vem com um vibrador na parte de dentro com cinco velocidades. E tem também esse com ânus e vagina de silicone... Ah! Para a bela senhora ali de olhos violetas tenho uma coisa que as mulheres adoram. Esse vibrador de duplo encaixe, óleo aromático de framboesa e rosa negra e calcinhas comestíveis sabor champanhe.

— Para tudo! As calcinhas comestíveis muito me interessam! — disse Afrodite correndo até eles. — Você tem sabor licor de anis? — era a bebida preferida de Camus e não perderia a oportunidade de presentear o francês com uma.

— Vou ficar te devendo, gracinha. Esse é um sabor muito específico. Mas pode levar uma sabor tequila, ou essa aqui... fio dental modelo biquíni brasileiro e sabor caipirinha de limão. Eu já provei, é uma delícia.

— Perfeito! Coloca aqui na minha cesta umas cinco caixas destas e mais cinco sabor chocolate. Eu adoro chocolate. — pediu o pisciano.

— O Batman usa calcinha? — Geisty perguntou curiosa parando ao lado do sueco, que olhou para ela como se estivesse vendo uma aparição fantasmagórica a um palmo de seu nariz.

— Quem? — Afrodite perguntou sentindo a força dos joelhos falharem. Ele e sua boca grande.

— Como quem? O Batman? O seu namorado que tem medo de mostrar a cara e te assumir. Se você vai levar calcinhas de chocolate porque você gosta de chocolate subentendesse que ele vai usar para você comer, não é? Ou você vai comer as próprias calcinhas?

— E se ele gostar? Algum problema? Vai botar ovos no fetiche dos outros agora?

— Eu? Eu não. — Geisty riu. — Mas isso explica o porquê de você ter tantas calcinhas na sua casa, sendo que nunca te vejo usando uma. Não é você que gosta, é o Batman! — riu dando um murro no balcão e um cutucão no braço do Santo de Áries. — Ouviu isso, Mu? Ah, minha deusa! Esse seu namorado misterioso fica mais estranho a cada ano que passa, Afrodite.

Mu estava chocado. Não sabia se pelo fato de sua mente ingrata e implacável estar imaginando o sisudo e sério Camus de Aquário vestindo uma calcinha fio dental daquelas ou se pelo fato de estar segurando nas mãos um coelho de pelúcia adorável, mas que vinha com um vibrador imenso em formato de cenoura escondido nos fundilhos.

— Geisty, imagina a cara do Shaka se eu chegar em casa com uma coisa dessa. — disse Mu mostrando o coelho para a amiga, em especial o vibrador imenso que vinha dentro dele.

— Ele vai te dizer: Mu de Áries suma daqui com essa coisa mundana antes que eu enfie cenoura com coelho e tudo na sua bunda, seu prevaricador obsceno. — disse Geisty, que tentava imitar o sotaque carregado do indiano e seu modo de falar.

Ambos caíram na risada.

— Por Atena, quem é que se excita com uma cenoura de mentira socada na bunda? — disse Áries com embaraço.

— Eu. — falou Afrodite piscando os olhos para o ariano. — Uma cenoura de mentira na bunda é uma delícia! Alôca! — caiu na risada tirando o coelho das mãos do ariano. — Mas olha o tamanho disso! Cruzes! — inclinou-se e falou baixinho em seu ouvido. — Eu o aconselho a deixar as cenouras para os fortes. Isso ai nem cabe no Buda loirudo.

Mu disfarçou uma risadinha afastando-se do balcão.

— É, eu acho que não vou levar nada mesmo, apenas o de sempre, Polly. Lubrificantes. Pode separar ai para mim duas caixas com dez unidades.

— Não quer levar nem um vibrador? Esse aqui é bem discreto, porém muito potente. — falou o cafetão indicando o produto que vinha dentro de uma caixa pequena. — É praticamente uma batedeira elétrica. Dá para fazer um bolo com ele!

— Não obrigado. — disse Mu.

— Dá para mim que eu vou levar. — falou Afrodite apanhando o produto e o colocando em sua caixa.

— E você, moça? Já escolheu algo? — perguntou Polifemo à Geisty.

— Já sim. Vou levar o gel de framboesa, o vibrador de encaixe duplo e o pirocão mole. — colocou tudo sobre o balcão, e na mesma hora Mu e Afrodite olharam para ela boquiabertos. — Que foi gente? É o meu presente de aniversário de casamento para o meu digníssimo marido. Vocês estavam achando que era brincadeira?

— Você ri na cara da morte, Mosca. — disse Peixes a abraçando. — Gosto assim. — Quando for dar na cara dele com isso me chama para eu ver?

— Chamo. — ela riu junto dele.

— Eu não sei qual dos dois tem menos juízo. Não é muito inteligente provocar o coisa ruim, você sabe, né? — disse Mu.

— Não se preocupe. Eu não vou fazer nada disso. Só estou brincando. Mas, se ele me encher muito o saco eu faço sem pensar duas vezes. — respondeu a amazona.

Polifemo lhes entregou os pacotes com as compras e os acompanhou até saída que dava para o salão de seu inferninho.

— Ótimo! Todo mundo contente, agora vamos atrás do urso do Buda. Polly, gata, obrigado por tudo. Se cuida! — disse Afrodite dando um abraço no grandão caolho.

— De nada. Apareçam sempre que quiserem. — disse se despedindo também de Geisty com um beijo na bochecha e de Mu com outro abraço forte, bem mais demorado. Ao fim deste lhe entregou frasco de lubrificante extra. — Toma, esse é de graça. É um brinde, já que você usa muito. Ele esquenta quando em atrito. Quando o padre te comer vai sentir um tesão que não é deste mundo! — riu safado enquanto sua mente fantasiava a bunda do ariano toda besuntada daquele gel e empinada para cima a espera de umas chicotadas, depois o trancaria em uma gaiola e o deixaria ali à pão e água por um dia e uma noite, ou até que ele lhe implorasse para ser fodido com requintes de crueldade.

— Obrigado, Polly. Até qualquer dia. — disse Mu gentil abafando o riso, pois via a aura do cafetão vermelha como sangue, em ebulição. Com a graça de Atena sabia controlar seus dons telepáticos e jamais saberia o que aquele doido fantasiava consigo nos confins de sua mente perturbada.

***

De volta ao centro de Atenas a próxima parada dos três foi em uma grande e famosa loja de brinquedos e artigos infantis para decoração.

— Hum... tem muitos carneirinhos de pelúcia, mas nem uma mosquinha varejeira de franjinha ou galinha preta de despacho. Uma pena. Compraria uma para você. — disse Afrodite que andava de braços dados com Geisty.

— Pois é, uma pena também não terem uma piranha de pelúcia ou peixe abissal. Só tem peixinhos dourados fofinhos e inocentes aqui que não lembram em nada você. — disse a amazona.

Mu deixou os dois ali se alfinetando e foi vasculhar a loja, até que finalmente encontrou o que procurava.

— Perfeito! — murmurou com os olhos brilhantes.

Minutos depois Afrodite e Geisty olhavam embasbacados e boquiabertos para um urso gigantesco que tinha a altura de Aldebaran de Touro, a pelúcia marrom clarinha que lembrava um pudim de leite com calda de caramelo, olhos dourados e um laço enorme em torno do pescoço.

— Gente, achei! Que tal? Vocês acham que o Shaka vai gostar deste? — Mu perguntou sorridente e com dificuldade até para se locomover carregando aquele mostrão que pesava alguns quilos de algodão e pura fofura.

— Hum... não sei não! Achei meio pequeno! — disse Afrodite aos risos.

— Madonna mia, mas é uma cama isso ai! Dá até para dormir em cima dele. — exclamou Geisty com os olhos arregalados.

— Claro que ele vai gostar. É um urso do tamanho da tromba de Cafuçu dele. Ah, digo, do tamanho da grandiosidade do poderoso Shaka de Virgem! — Afrodite ria descontraído. — Ele vai adorar, Mu.

Áries olhou para os dois amigos enquanto ajeitava o ursão no chão.

— Que bom, porque é proporcional ao tanto que eu gosto daquela praga loira enciumada. — suspirou descansando as mãos na cintura. — Podemos ir? Shaka já deve estar com o jantar quase pronto.

— Podemos. — disse Geisty animada.

***

De volta ao Santuário os três amigos subiram animados até a Sexta Casa, onde o Santo de Virgem já os esperava para o jantar com uma mesa caprichosamente decorada farta de pratos típicos da saborosa culinária indiana. Kiki, animado como nunca, fez a maior festa ao saber que o padrinho pisciano e a tia amazona viriam jantar com eles, e não desgrudou dos dois nem por um minuto. Comeram, brincaram, riram até altas horas da noite. O pequeno nem de perto parecia o mesmo garotinho amuado de dois dias atrás. Serelepe como sempre fez questão de jogar alguns de seus jogos com os tios e até lhes mostrar seus avanços na arte da telecinese levitando alguns objetos. E quando já passava das dez da noite todos foram para a frente da Sexta Casa se despedir.

— Estava tudo perfeito e delicioso como sempre, Shaka. — dizia Geisty enquanto abraçava forte o virginiano. Sabia que ele estava fazendo aquilo por ela. Era o modo dele de lhe dizer que se importava consigo, que estava a seu lado e nunca a deixaria sozinha. — Obrigada.

Virgem lhe respondeu com um sorriso sutil e uma balançadinha de cabeça.

— Cadê o beijo de boa noite da tia? — Serpente disse se abaixando até Kiki, que tinha as costas escoradas nas pernas de Mu e se desencostou para alegre abraça-la e lhe dar um beijo estalado na bochecha.

— Boa noite tia Gê. — ao se afastar olhou para Afrodite que já vinha de encontro. — Boa noite dindo.

— Durma bem, minha suçuarana ruiva mais fofa desse mundo. — disse Peixes beijando a testa do garotinho.

Depois das despedidas Serpente desceu para Gêmeos e Peixes subiu para seu Templo.

Em Virgem, enquanto Mu ia ao banheiro tomar uma ducha Shaka colocava Kiki na cama para dormir. O ruivinho estava exausto e logo pegou no sono.

Ao se dirigir finalmente para seu quarto o virginiano inevitavelmente pensava no equivoco daquela manhã.

Sentiu raiva de si mesmo.

Mesmo querendo negar estava decepcionado por ter encontrado, e se empolgado tanto, com um presente comprado para outra pessoa, tanto que passou o dia inteiro tentando convencer-se de que era uma bobagem ficar magoado por algo tão pequeno e irrelevante, mas se estava pensando naquilo àquela hora era porque não estava nada convencido. Então eis que abriu a porta do quarto e levou um susto tão grande que imediatamente assumiu posição de guarda e acendeu seu Cosmo.

Sobre sua cama estava o urso gigante de pelúcia, deitado displicente tal qual um paxá.

— Mas o que? — sussurrou para si mesmo abrindo os olhos para ter certeza de que sua mente não lhe pregava uma peça, então vagarosamente se aproximou do leito encarando o ursão invasor como se fosse um inimigo poderoso. — Que merda é isso aqui?

Desconfiadíssimo Shaka esticou o braço e tocou no pé fofão do ursão, e a macies da pelúcia o nocauteou. Logo estava deslizando os dedos finos pela perna do urso sem nem se dar conta. Seu belo rosto tinha abandonado a carranca séria de antes e agora exibia um sorriso de surpresa e satisfação.

— Eu não estou acreditando nisso! — murmurou sorridente engatinhando sobre a cama até jogar-se com gosto nos braços do ursão, e bem nesse momento Mu deixou o banheiro, com os cabelos ainda molhados e uma toalha enrolada na cintura.

— Mu! Seu maluco exagerado. — disse Shaka ao vê-lo ali sorrindo para si, então imediatamente pulou para fora do leito, correu até ele e o beijou tão calorosamente que o coração de Mu se aqueceu palpitando forte. — Não precisava. Olha o tamanho disso!

— Precisava sim. E ele é do tamanho do meu amor por você. Achou mesmo que eu ia te fazer devolver um presente e não iria te dar outro ainda melhor? — o lemuriano disse entre sussurros e beijos que distribuía no pescoço do indiano. — Os chocolates você comeu, o anel eu mesmo forjarei um, exclusivo e digno da sua beleza... Eu quero você todo coberto de ouro, Luz da minha vida.

Súbito Shaka desceu as mãos até a cintura de Mu e com um só puxão lhe arrancou a toalha o deixando nu.

— Eu te amo tanto... Você me deixa louco falando assim. — deu uma mordida no ombro do lemuriano enquanto corria as mãos para suas nádegas.

— Deixo é?

— Sim, deixa. — sussurrou voltando a beijar o ariano enquanto alisava as nádegas durinhas e caminhava de costas de volta para a cama o trazendo consigo. — Humm... estou sentindo agora mesmo o tamanho do seu amor por mim, Mu. — riu com malícia mordendo os lábios ao se referir à ereção rija do marido contra a sua.

Áries sorriu de volta e extremamente excitado jogou-se na cama por cima do virginiano, com urso e tudo.

— Ótimo! Porque hoje nós vamos testar um lubrificante novo. — Mu sorriu sedutor teleportando para o leito o brinde que ganhara de Polifemo.

***

Casa de Gêmeos, 10:35pm

Quando Geisty entrou na Terceira Casa encontrou essa vazia e às escuras. Não que esperasse encontra-la de outra forma.

Cruzou o longo átrio até chegar ao corredor que dava acesso à parte residencial, e ao chegar à sala acendeu a luz ambiente apenas para poder se dirigir ao quarto sem tropeçar ou esbarrar em nada.

Durante todo o percurso, o qual fez a passos despreocupados, pensava nas tantas vezes em que estivera ali com Saga, mas nunca chegaram a comemorar um aniversário de casamento. Agora fazia oficialmente seis anos que tinha prometido a ele amá-lo e lhe ser fiel na saúde e na doença, na alegria e na tristeza...

Oficialmente seis anos que o esperava regressar das profundezas obscuras da própria mente.

Quando enfim chegou a seu quarto já retirava o casaco e a blusa que vestia jogando a ambos sobre a cama, onde inclinou-se e acendeu um dos abajures que iluminou parcamente o lugar. Seguiu para o banheiro, ansiosa para tomar uma ducha e depois ler alguma coisa até pegar no sono, mas eis que quando seus olhos se acostumaram com a luz teve uma surpresa. Viu sobre sua penteadeira um arranjo belíssimo de flores feito com orquídeas purpuras e negras.

Ainda surpreendida, e agora também atenta e alarmada, correu rapidamente os olhos por todo o quarto certificando-se de que estava mesmo sozinha ali, então caminhou lentamente até a penteadeira.

Preso ao arranjo havia um cartão dentro de um envelope vermelho.

Por um momento ela pensou em não abri-lo.

Não era preciso.

Só havia uma pessoa naquele Santuário que poderia ter deixado aquelas flores ali.

Engoliu em seco.

Suas mãos suavam e seu coração batia forte dentro do peito.

Num rompante pegou o cartão e o abriu.

“Feliz Aniversário de Casamento.

Ass. Saga.”

Após um momento pensativa ela jogou cartão sobre a penteadeira e seguiu para o banheiro batendo a porta atrás de si.

Dicionário Afroditesco

Descolândia— lugar de gente descolada, moderna, legal.

Edi — ânus.

***

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic

Notas finais
... Mas o que diabos o exxxxcumungado do coiso ta aprontando agora?