Templo das Bacantes Vol. 3
7 Bad News

O sol, absoluto no céu azul, aquecia gentil tudo que tocava, em especial o que integrava aquele pequeno pedaço de natureza preservado em meio à cinzenta selva de pedra. A cidade respirava ofegante, baforando para o alto seu sopro fétido de monóxido de carbono, enquanto em suas veias corriam as centenas de carros que aos berros de freadas bruscas, motores e buzinas traduziam o que era aquele cenário caótico do trânsito citadino, porém uma cerca viva formada por árvores coloridas e folhas verdes entrelaçadas a flores silvestres mantinha aquele paraíso bucólico isolado de todo o caos.
Dentro do parque a brisa primaveril soprava leve e carregava consigo um perfume floral misturado ao tentador aroma da manteiga que temperava os grãos de milho a estourar na panela de pipocas da carrocinha, estacionada em frente a um grande flamboyant, logo ao lado de um banco de praça de madeira pintada de branco.
Sentada ali, Geisty inalou fundo o delicioso aroma trazido pela brisa, a mesma que fazia dançar a barra da saia de seu vestido amarelo, e seus lábios pintados de carmim esticaram-se num sorriso de deleite.
Nas lentes escuras dos óculos que ocultavam os belos olhos violetas e um olhar sereno era projetado o reflexo de duas crianças. Estas corriam e saltavam felizes pelo parque entre as flores enquanto atiravam pipocas pelo ar, divertindo-se com a revoada dos pombos que tentavam apanha-las quando caiam no chão.
Como eram agitados aqueles dois meninos; e como eram felizes!
Mesmo há alguns metros de distância deles ela conseguia escutar suas vozes infantis e as gargalhadas gostosas com clareza, e seu coração se enchia de paz.
Vez ou outra ria em sincronia com eles, apanhava uma pipoca do saquinho que tinha nas mãos e a levava à boca degustando o sabor aprazível da manteiga, então todos os seus problemas eram deixados para trás, para além das cercas vivas daquele parque.
Mas eis que de repente toda aquela calmaria foi abalada quando um barulho de passos chamou sua atenção. Esses aproximavam-se vagarosamente e discretamente do banco em que estava sentada. Eram cautelosos, quase furtivos; macios como os sapatos de couro nobre que os delineavam.
Com certo desdém a amazona virou a cabeça para o lado que eles vinham e correu os olhos de baixo à cima pela figura que se aproximava elegantemente vestida em um terno Armani azul marinho. Seus olhos então se fixaram na gravata cor de chumbo, e em seguida nos cabelos longos e negros que balançaram com a brisa gentil quando enfim ele parou ao lado do banco.
Sua figura soturna e presença opressora destoavam por completo daquele ambiente bucólico.
Parecia ele próprio carregar consigo a tempestade que começava a se assomar no horizonte antes ensolarado.
— O que quer aqui? — perguntou a italiana desfazendo o sorriso gentil do rosto e voltando a olhar para as duas crianças que brincavam animadas há alguns metros à frente.
A resposta não veio de pronto.
Parecendo até hipnotizada pelos gracejos dos dois menininhos, que usando roupas iguais e no mesmo tom de azul corriam em meio aos pássaros lhes jogando pipocas, Geisty esperava curiosa e atenta para ver-lhes os rostos, mas estes nunca lhes eram revelados. Ela conseguia ver tudo o que fazia deles as crianças encantadoras que eram, as pernas serelepes, os bracinhos finos e agitados, os cabelos rebeldes em um tom que vagava entre o azul profundo e o negro e que bailavam no ar a cada salto que davam entre as flores, mas nunca os rostos. Ora os cabelos volumosos os cobriam, ora um pássaro ou outro passavam por eles no justo momento em que se viravam de frente para ela.
— Eu te fiz uma pergunta. Responda. — a amazona, que sentada no banco tinha os óculos escuros tombados na metade no pau do nariz, agora olhava para ele. — O que você quer?
— É isso que vem fazer aqui? — a voz grave do homem questionou a amazona, enquanto seus olhos jades à deriva nas escleróticas escarlates também fitavam arraigados as duas crianças. Nem ao menos piscava.
Súbito uma buzina insistente passou a ser ouvida ali. Deveria vir de um dos tantos automóveis parados no semáforo daquela extensa avenida que ficava logo atrás da cerca.
— Eu preciso de um pouco de paz de vez em quando, caso não tenha percebido, Gêmeos. — disse Geisty, então empurrou com o dedo indicador os óculos para mais junto de seu rosto e se voltou novamente às crianças, esperando dar por encerrado aquele encontro nada agradável.
O Patriarca enfiou as mãos nos bolsos da calça ainda olhando para o mesmo cenário, e o silêncio que Serpente tanto gostaria que fosse mantido durou meros segundos.
— Imagino que tenha recebido a encomenda que lhe enviei ontem ao fim do dia. — ele disse.
— Sim. — ela respondeu em tom um tanto seco.
— E então?
— E então o quê?
— E então, o que achou? — ele deu de ombros. — Não recebi um recado de agradecimento de volta esta manhã, ou um simples obrigado. — desviou o olhar agora para a amazona no banco. Esta continuava com os olhos presos às duas crianças que brincavam de pique pega, porém seus risos alegres agora eram abafados pelo som irritante de mais buzinas. Um engarrafamento se formava do lado de fora do parque e pouco a pouco a irritação dos motoristas insatisfeitos espantava os pássaros.
— Eu posso estar redondamente enganada, mas algo me diz que você não é o tipo de sujeito que espera aprovação de alguém, especialmente a minha. Então, é melhor parar de enrolação e falar logo a que veio, por obséquio. — ela disse de forma irônica a última parte, jogando com a maneira formal e por vezes pedante que ele falava.
— Tem toda razão, amazona. Eu não me importo. — respondeu indiferente.
— Então?
— Eu apenas tencionava agradá-la, considerando a data de ontem.
De repente um barulho de choque entre os carros fez as crianças pararem de correr e voltarem suas cabeças para a direção da via. Uma pequena briga entre os donos dos automóveis que colidiram começava.
— Você me agrada mais mantendo uma distância segura de mim, como manda a regra de trânsito da qual esses carros atrás de nós não estão cumprindo. Se fizer isso já está ótimo. — ela olhou rapidamente para ele e depois novamente para as crianças. — Vai dizer ou não?
Ele olhou para ela franzindo as sobrancelhas severas.
— Dizer o quê?
— O que realmente veio fazer aqui. — disse jogando algumas pipocas dentro da boca.
Gêmeos respirou profundamente. Bastava de rodeios.
— Certo. As flores foram mero subterfúgio, de fato, mas coloquei sim minha boa intenção por trás deste. — ele disse. Ambos olhavam para as crianças. — Eu tenho consciência do que representa a data de ontem para você, não me farei de rogado... Não há mais tempo para esse tipo de comportamento entre nós. Então... pretendi usar a data de ontem para lhe mostrar que estou aberto ao diálogo e queria discutir com você algo que interessa a ambos.
— Você sabe que tenho apenas um interesse em comum com você. Saga. — disse ela com leve indignação na voz. Ao seu lado o pipoqueiro que remexia a panela de pipoca parou a ação e lentamente se retirou dali empurrando sua carrocinha para além das árvores, até desaparecer pelo parque. — Mas é óbvio! — ela olhou para ele irritada. — Você se aproveitou de um possível momento de fragilidade meu... Mas se enganou, Grande Mestre, se enganou feio!
— Será mesmo? — perguntou o geminiano confiante cruzando os braços.
— Hum! Você realmente sempre corresponde às minhas expectativas. — Geisty retirou os óculos escuros os segurando junto ao pequeno pacote de pipoca que tinha nas mãos. — Parabéns! É um canalha nato! Essa data é importante apenas para mim e Saga. E se ainda não ficou suficientemente claro para você, Gêmeos, você não faz parte dessa relação. E a única coisa que espero de você é que mantenha o corpo do meu marido minimamente inteiro, que pare de se entupir com aquelas merdas de anabolizantes, que pare de beber feito um Lada velho e que caia fora logo daí e deixe Saga voltar. Só isso e nada mais. E, por favor, não me peça para ter qualquer comprometimento com você além do que já sou obrigada a ter.
— Certo, Serpente. — o Patriarca respondeu sem alterar o tom de sua voz, mas soltando uma lufada de ar, impaciente, enquanto esfregava o rosto com a palma da mão. Tentava sempre manter o mínimo de diplomacia com a esposa, porém essa era uma tarefa hercúlea na maioria das vezes. — Mas, é justamente sobre comprometimento que eu quero lhe falar. Primeiro, vamos deixar uma coisa bem clara aqui, mais uma vez: Saga, como você o conheceu, não irá voltar. Acredite, eu já tentei me comunicar com ele... Agora existe apenas “Eu”. Eu sou o presente, e o futuro! Eu sou a força desse Santuário e a ascensão do exército de Atena. — em meio a sua fala a da amazona se misturava baixa saindo entredentes:
— Eu não acredito. Não acredito em uma palavra que saia dessa sua boca mentirosa.
— Você e eu aceitamos viver esse aparente casamento em comum acordo, cada qual com seu interesse particular, mas nunca tiramos dele, de fato, o elemento que nos interessa.
Como resposta Gêmeos teve apenas o silêncio de Geisty, a qual voltara mais uma vez sua atenção para as duas crianças que corriam entre arbustos de sempre-vivas. Os pássaros que elas alimentavam agora ciscavam próximo aos pés do casal no banco. O aroma da pipoca amanteigada e das flores silvestres não mais perfumavam o ar, e este agora era denso e fedia à fumaça de escapamento.
— Eu tenho planos para o futuro deste Santuário, e eles envolvem diretamente a mim como Patriarca e a você, como minha esposa. — completou Gêmeos também observando as crianças, quando de repente uma delas tropeçou em uma pedra e foi lançada contra o chão nu de paralelepípedos. Em instantes o coração do geminiano disparou.
Ele pensou em correr até ela, num impulso instintivo e involuntário, mas eis que no momento em que mudou o passo a criança congelou no ar e ficou ali, pairando sobre o chão. Ao lado dela o outro menino também havia sido paralisado, e como eles tudo à sua volta. Nenhuma folha ou flor mais se mexia. Os pombos pairavam congelados ao alçar voo. A brisa não soprava mais, e um silêncio de morte calou as buzinas e as vozes dos motoristas exaltados.
— A resposta é não! — disse Geisty convicta, enquanto tudo a sua volta se desmanchava no ar como pó e era levado pelo vento gelado que vinha do mar.
Aos poucos aquele cenário bucólico ia sendo substituído pela grossa areia da praia do Cabo Sunion, com seus rochedos de pedra calcaria ao fundo, o cheiro forte de maresia e a brisa fria do fim do outono.
— Arredia como sempre. — disse Gêmeos, e quando a imensa ilusão criada pela italiana se dissipara por completo levou ao rosto a máscara azul do Patriarca que tinha nas mãos e com ela o cobriu, completando sua indumentária formal de regente do Santuário de Atena — Você sabe o que eu quero. O mesmo que você... Eu quero os filhos que foram arrancados de nós.
Imediatamente Geisty arregalou os olhos, tão embasbacada com o absurdo daquela proposta infame que sequer conseguiu reagir.
— Vou deixá-la com seu treinamento, por agora. Não faltarão, em breve, oportunidades para discutirmos melhor esse assunto, mas quero que pense nele, Geisty. — Gêmeos proferiu o nome quase que melodioso, o que causou um arrepio incômodo na amazona enquanto dava-lhe as costas e saia em direção ao Santuário. Porém dentro de si a frustração revirava-se em uma raiva contida, mas confiante em suas próprias palavras, tinha certeza de que em pouco tempo conseguiria uma oportunidade com a esposa para tentar colocar seu plano em prática.
Geisty ainda o acompanhou com o olhar até que sua figura sumisse entre as rochas a diante. Finalmente sozinha voltou sua atenção para o mar e buscava nele a calma para o turbilhão de pensamentos que se atropelavam dentro de sua mente.
— Porca Madonna! Que merda é essa agora? — praguejou entredentes e com suspiro frustrado.
Com impaciência a amazona descruzou as pernas desfazendo a posição de lótus na qual se mantinha enquanto levitava a alguns centímetros do chão. Vinha treinando bastante sua mente com Shaka de Virgem nos últimos anos.
Assim que seus pés tocaram a areia fria da praia ela vagarosamente se livrou das peças de malha que usava, ficando apenas com as peças íntimas, e então correu em direção ao mar.
Nada como umas braçadas vigorosas nas águas geladas do Egeu para esfriar a cabeça e tentar esquecer os absurdos que acabara de ouvir.
***
Casa de Virgem, 10:34am
Ágora, o cavaleiro de Prata de Lótus, ia seguindo pela cozinha do Templo de Virgem quando topou distraído com Shiva de Pavão.
— Ei condenado! Olha por onde anda! — reclamou o franzino cavaleiro ao ser lançado ligeiramente para frente. Este segurava nas mãos um recipiente fundo de vidro, o que chamou a imediata atenção do outro.
— Me desculpe, eu estava conferindo a lista de compras que o mestre pediu e não vi que estava parado aí. — disse o grandalhão de longos cabelos revoltos num peculiar tom de ruivo cereja. — Aliás, ô Shiva... o que está fazendo aí parado no meio do caminho segurando essa tigela?
O garoto de cabelos cacheados nada disse em resposta. Em vez disso, tombou a cabeça para trás e com os olhos escuros apenas indicou o teto.
Ágora olhou para cima no mesmo instante, e a alguns palmos apenas de sua cabeçorra, pairando no ar feito uma alma desencarnada, estava o dono da casa a pelejar para arrancar do teto de pedra maciça o liquidificador, encrostado neste, e cujo copo estava cheio com massa de tomate.
— Pela misericórdia de Atena! Mestre Shaka! — balbuciou com os olhos arregalados a fitar, involuntariamente, porém irrefreavelmente, as pernas nuas do virginiano por debaixo da túnica.
Do ângulo em que estava, bem debaixo de Virgem, era impossível olhar para outro lugar, por isso mais que depressa baixou a cabeça envergonhado apertando a boca; as bochechas vermelhas como se tivesse apanhado o sol do meio-dia.
— Graças ao benevolente Buda ele está de cueca! — suspirou Pavão aos sussurros, e ambos se entreolharam embaraçados, até que não se contendo deixaram escapar risinhos acanhados.
Esses, porém, cessaram assim que a voz autoritária de Shaka preencheu todo o recinto.
— Vocês dois, imbecis!
— Sim mestre! — ambos responderam de pronto sem olhar para cima. Tinham os olhos esgazeados fixos nos rostos aturdidos um do outro.
— Vão ficar aí rindo de Shaka feito duas hienas tísicas ou vão ajuda-lo a retirar isso daqui com o mínimo de sujeira possível? — praguejou o indiano. — Ora, se Shaka quisesse que rissem dele ele treinaria macacos!
— Perdão, mestre!
— Anda com isso, Pavão! Posicione essa tigela direito. Eu vou puxar agora e o copo vai rachar ao meio. — disse Shaka segurando o copo do liquidificador encrostado no teto. Na verdade estava fundido a este.
— Sim, mestre, pode puxar! — disse Shiva erguendo a tigela no ar, bem debaixo dos pés de Virgem.
— Lá vai, no três! Um... dois... TRÊS!
Com um só puxão Shaka desprendeu o eletrodoméstico que ao se partir ao meio derramou todo o molho, mas felizmente a operação fora bem sucedida e os prejuízos bem menores. Grande parte da massa de tomate caiu dentro da tigela, que por ser demasiadamente funda deixou escapar apenas alguns respingos pelo chão, e o saldo negativo ficou apenas para o buraco na pedra e o liquidificador perdido.
— Mas, por todos os passos sagrados de Buda nessa Terra, como isso foi parar aí, mestre? — perguntou Ágora enquanto olhava para Shaka que levitava de volta até o chão.
— Kiki. — respondeu o virginiano enquanto levava à pia os cacarecos do que um dia fora seu melhor liquidificador. — Ele está tendo certa dificuldade em controlar seus dons telecinéticos. Quis me ajudar na cozinha, foi ligar o aparelho com os poderes e BOOM! — bateu uma palma contra a outra produzindo um estalido alto e forte que assustou os dois garotos ali. — E ele foi parar onde vocês viram ele parar.
— Pobre pequeno mestre. Deve ter se assustado. — disse Shiva depositando a tigela sobre a mesa.
— EU me assustei! — Shaka protestou irritado levando as mãos ao peito. — O meliante riu... Ele riu! — encarou o discípulo com seus olhos de medusa furiosa.
— Crianças. — sorriu Ágora. Já estava mais que acostumado às teatralidades do virginiano. — Estranho foi o liquidificador não ter se espatifado contra a pedra e sim penetrado nela.
Virgem suspirou acalmando os nervos.
— Não há nada de estranho nisso. — disse Shaka. — As habilidades telecinéticas variam de acordo com seu portador, podendo ser Elemental, espacial, mágica, tátil... Sendo um lemuriano, Kiki é capaz de manipular a matéria através do espaço e o próprio espaço, o que chamamos de telecinese remota, ou seja, ele consegue distorcer o espaço e ao mesmo tempo rearranjar os átomos e partículas subatômicas de um objeto modificando sua matéria, assim ele o transforma em uma arma. Querem um exemplo? Consta nos autos dos Cavaleiros de Ouro que já serviram ao exército de Atena que esse era o tipo de telecinese utilizada pelo Cavaleiro de Peixes do século XVIII. Com telecinese remota ele modificava a matéria de seu próprio sangue, venenoso, o passando do estado líquido para o gasoso e depois para o sólido. Essa técnica era chamada de Crimson Thorn, e com ela ele transformava seu sangue em centenas de longos e letais espinhos afiados como lâminas. Isso é telecinese remota. E é assim que se transforma um liquidificador em uma bala de aço. Kiki não apenas o lançou com telecinese contra o teto, mas o teleportou para lá, e ao fazer isso modificou sua estrutura molecular. Ele na verdade fundiu o meu liquidificador ao teto da minha cozinha. — balançou a cabeça enquanto praguejava algumas palavras em um hindi ininteligível, depois apontou para os discípulos e assumiu uma fisionomia séria. — É por isso que treinar um lemuriano é uma tarefa árdua, perigosa e exige muita habilidade do mestre. Não pode haver erros, pois esses são fatais!
— Puxa! Ainda bem que o pequeno mestre projetou o liquidificar bala contra o teto e não contra sua cara, né mestre? Veja só que perigo! — disse Ágora com a naturalidade de um sonhador.
— Exatamente, Lótus. Até porque ele não tinha como acertar em algo que não está aqui, já que a cara de Shaka está grudada nas escadarias deste Santuário! — praguejou encarando o cavaleiro.
Ambos os discípulos baixaram as cabeças em respeito e embaraço.
— Nos perdoe, mestre. Somos falhos e miseráveis. — disseram em uníssono.
— Ora, não me diga! — debochou Virgem, e bem nessa hora o celular que Mu havia lhe dado há alguns meses tocou na sala. — Limpem toda essa porcaria. Eu já volto. — se referia os respingos de massa de tomate no chão e no teto.
Na sala Shaka atendeu ao celular como fazia sempre; apertando todos os botões para descobrir qual era o certo. Era impressionante como um homem agraciado com a sabedoria de milênios de existência extra carnal era extremamente limitado para as tecnologias do mundo moderno.
— Mas que inferno! Alô! Alô! — reclamava ora colando o aparelho à orelha, ora o levando à frente dos olhos para verificar a tela, até que finalmente ouviu a voz de Mu o chamando do outro lado da linha. — Marido!... Está me ouvindo?... Não estou gritando, você que está com ouvidos sensíveis. Por que não me contatou por telepatia?... Ora essa, eu já sei usar o aparelho, não tenho que aprender nada... Quem?... Do hospital? Ficaram prontos os exames do Kiki? — houve uma longa pausa, e nesse tempo o rosto de Shaka só ficava cada vez mais apreensivo, até que ele piscou os olhos azuis e respirou fundo. — Eu não sei, ele jogou o meu liquidificador no teto da cozinha e eu o mandei sair de lá e ir brincar em outro lugar... Mas, que alterações foram essas?... Está bem. Você vem agora?... Eu vou dar um banho nele e esperamos você... Mu... você acha que é algo grave?
Minutos depois a ligação encerrou.
Shaka desligou o celular e o devolveu ao mesmo lugar, porém ele próprio não era mais o mesmo. Seu coração tinha um peso incômodo, e sua garganta um nó amargo.
Foi até a cozinha e dispensou os dois discípulos os mandando treinar o resto do dia na Arena, depois foi procurar Kiki para leva-lo ao banho. Doutor Adônis os esperava no Hospital de Atenas com o resultado dos exames.
***
Momentos antes, no átrio onde ficava o altar sagrado e a imensa flor de lótus em ouro onde o Santo de Virgem costumava meditar diariamente, Kiki brincava com seus dinossauros de borracha e sua fértil imaginação infantil. Toda a sorte de lápis de cor, giz de cera, canetinhas esferográficas e carvão cobriam o chão de mármore, espalhados no entorno da lótus e entre as colunas mais próximas. Alguns montinhos de terra permeavam os pés do altar, enquanto o pequeno lemuriano pairava no ar sobre as folhas de ouro maciço. Debruçado ele mexia os bracinhos serelepes em algo lá dentro.
— Não seja um mentecapto, seu bafo de samambaia! Minha placa óssea é muito mais dura que a sua! Vai encará? — dizia engrossando a voz enquanto preparava uma luta mortal entre um estegossauro marrento e um triceratops mal encarado.
Na plateia, incitando os lutadores, saurópodes, ceratopsídeos, ornitópodes e anquilossauros inflamados aguardavam ansiosos o embate.
Mas este não ocorreu; e não foi devido à chegada inesperada e repentina do meteoro.
— KIKI! VOCÊ ESTÁ AÍ?
Imediatamente após ouvir a voz de Shaka, Kiki arregalou os olhões lilases na direção que ela vinha.
— Oh, não! Oh, não! É a besta fera! Tyrannosaurus rex! — disse num chiado rouco e cheio de eloquência — Estamos perdidos!
Quando Shaka surgiu ali ainda teve tempo de ver o pequenino levitando até o chão com um semblante assustado no rosto.
— Baba! O Kiki ia limpar tudinho depois!
Virgem tinha os olhos azuis arregalados e as pupilas brilhantes imensas. Olhava para toda aquela bagunça e sujeirada incrédulo e em choque. As colunas, as folhas de ouros de sua lótus, o chão de mármore, tudo estava rabiscado com desenhos de dinossauros feios. Uns subnutridos, outros obesos demais até para um brontossauro, e uns tão mal feitos que mais pareciam demônios famintos saídos dos portões do inferno.
— Por Buda! — exclamou o virginiano tentando conter ao máximo a irritação. — O que foi que eu te falei sobre rabiscar as colunas desse Templo Sagrado, Kirian? — inclinou-se para frente e então viu no interior de sua lótus dourada um tanto considerável de mato, terra, flores e gravetos misturados a umas maçarocas de barro. — Eu não posso acreditar nisso! Você encheu o meu altar de lama e grama?
Pronto para agir em sua legítima defesa, Kiki foi até o pai e da pequena altura de seus pouco mais de um metro ergueu a cabeça e o encarou firme.
— O senhor bem mesmo disse que não era para o Kiki brincá no jardim por causa do sereno, nem na sala por causa do tapete, nem no quarto por causa desconhecida, e nem na cozinha por causa do liquidificador. — balançou a cabeça nervoso ao estilo indiano, apontando um estegossauro bronco para o pai. — O que sobrou para o Kiki? Como ele ia tê um Jurassic Parque sem vegetação e sem cenário, Baba?
Shaka respirou fundo levando ambas as mãos ao rosto e o esfregando para se acalmar. Mesmo após seis anos experimentando as delícias e os suplícios de ser pai parecia não se acostumar com a bagunça e a sujeira que vinha no pacote junto com a criança.
— Está certo. Mas vamos ter que repensar isso. Não pode encher o meu altar de grama e de lama, e nem as colunas do templo de rabiscos. — disse imprimindo um tom mais amistoso na voz.
— O Kiki vai limpar, Baba.
— Ah, vai mesmo! Com certeza ele vai!... Mas, não agora.
O pequeno franziu a testa quase juntando as pintinhas azuis.
— Não? Por que não? — perguntou estranhando a atitude do pai, já que conhecia bem Shaka, e certamente ele o iria fazer limpar imediatamente tudo, como das outras vezes em que fez bagunça semelhante.
— Porque agora me parece que interrompi um evento importante, certo?
Os olhos de Kiki brilharam, mas ainda estava desconfiado.
— Sim. Estava começando um combate para decidir quem tem a placa óssea mais dura, o estegossauro ou o triceratops.
— Hum... e qual deles é você? — Shaka perguntou agachando-se à frente dele e olhando em seus olhos.
Eram tão incríveis aquelas íris lilases...
Tantas foram as vezes em que perdera completamente a noção do tempo olhando para elas, as admirando.
— Como assim, Baba? O Kiki é os dois. — disse Kiki dando de ombros.
— E como essa pode ser uma luta imparcial se o Kiki é os dois? Não pode. Essa há de ser uma luta justa. — disse o indiano, então olhou para o dinossauro na mão do filho. — Esse aí na sua mão. Qual é?
Kiki o ergueu até a altura dos olhos de Shaka.
— Esse é um estegossauro. Ele tem 9 metros e é o único que tem espinhos afiados nas costas.
— Certo. Então eu serei o outro, o triceratops. E é bom você se preparar, pois essa pode ser uma luta de mil dias, porque a minha placa óssea é tão forte quanto a sua, mas eu sou muito mais durão! — disse Shaka endireitando a postura e já caminhando até a lótus onde sabia estar o cenário da batalha.
— EBAAAAAAAAA! — o pequenino saltou de alegria, eufórico com a ideia. — Eu vou rachar você ao meio, seu cabeça de osso chifrudo!
— Isso nós veremos, seu corcunda espinhento!
***
Quando Mu de Áries chegou à Sexta Casa a encontrou silenciosa como nunca.
Rastreando os Cosmos do filho e do marido percebeu que eles estavam no altar da lótus de ouro e seguiu para lá assim que cruzou o pátio principal. No instante em que entrou no átrio, enquanto caminhava pelo longo corredor, ouviu risos e reparou que tudo ali parecia ter ganhado uma decoração especial. Começou a rir ao ver os tantos dinossauros rabiscados nas colunas, e então sobre a lótus dourada viu Kiki e Shaka que às gargalhadas, e sujos de lama e grama, batalhavam com os dinossauros de borracha.
Por um instante Mu deteve seus passos apenas para poder admirar aquela cena.
Sua pequena e feliz família, seu maior tesouro.
Se Shaka era a Luz de sua vida não havia a menor dúvida de que Kiki era a luzinha, a qual viera para abrilhantar e completar sua existência e também daquele loiro rabugento, que ali parecia ter voltado a ser criança enquanto brincava aos risos com o filho.
Kiki era mesmo seu pequeno milagre.
Mu se aproximou a passos lentos, sentindo um aconchego no peito, e sorriu para eles assim que foi visto.
— Quando falou que iria dar um banho nele não imaginei que fosse um banho de lama. — brincou o ariano.
— Por Buda, você já chegou! — disse Shaka exasperado olhando para ele.
— Oi papai! A gente tava aqui na rinha dos dinossauros. O Baba conseguiu o território dos herbívoros, mas o Kiki controla toda essa parte aqui ó. — apontava com as palmas das mãos para a área em que estava sentado em cima. — O dos carnívoros!
— É isso ai! Não esperava menos de você, garotão! No topo da cadeia alimentar! — brincou Mu aos risos estendendo a mão para bate-la no ar com a de Kiki, depois virou-se para Shaka e procurou uma área limpa de terra em seu rosto onde deu um beijo. — Oi, Luz da minha vida. Parece que temos um Michelangelo na família querendo encher nossa Capela Sistina de afrescos.
— Oi Mu. Ah, pois é... — fez Shaka descendo da lótus enquanto se apoiava no ariano. — Esses afrescos vão fazer até os Espectros de Hades correrem de medo quando começar a Guerra Santa. — voltou-se para Kiki lhe estendendo a mão. — Anda, Kiki, nós perdemos a hora. Precisa tomar um banho bem rápido para irmos ao hospital.
— Ao hospital? Mas por que, se o Kiki não tá doente?
Shaka trocou um rápido olhar com Mu, mas que foi o suficiente para que o lemuriano percebesse que era um pedido de ajuda, por isso ele tomou à frente e em um clima de descontração pegou Kiki no colo sem importar-se em se sujar.
— Porque, lembra que você fez uns exames naquele dia que o seu nariz sangrou? Eles ficaram prontos e o doutor Adônis quer vê-lo para nos dizer o que saiu nos resultados. Só para isso. — disse olhando gentil para o filho, depois voltou-se para Shaka. — Pode ir tomar seu banho, Sha. Eu cuido desse projeto de cavaleiro e paleontólogo porquinho.
— A gente pode ir no Prigkipas comer hambúrguer depois? — o ruivinho bateu palmas entusiasmado.
— Não podemos, não! — Mu respondeu sério.
Kiki fez um biquinho.
— DEVEMOS! — disse Áries o colocando de cavalinho sentado em seus ombros e já pegando o rumo da parte residencial do Templo. Vinham aos risos logo atrás de Shaka.
— EBAAAAA!
***
Hospital de Atenas 11:50am
Na sala de espera do consultório de doutor Adônis, Áries e Virgem tentavam a todo custo conter o nervosismo. O indiano era um misto de esperança e agonia, posto que seu coração tinha um peso incomum e seu espírito parecia querer a todo tempo lhe dizer algo. Rogava à todas as divindades que acreditava que aquela sensação ruim se desse apenas a seu amor exagerado e zelo paterno.
Quando a secretária os pediu para entrar Shaka foi na frente como se de sua pressa resultasse o fim daquela aflição. Mu vinha logo em seguida de mãos dadas a Kiki, que tinha um olhar tranquilo. O pequeno estava muito mais preocupado com o pedido que faria na lanchonete ao final da consulta do que com os resultados dos exames em si.
Dentro da sala, Adônis, sempre amável e sorridente, os cumprimentou com apertos de mãos calorosos e um pirulito de chicletes para o paciente. Depois, todos acomodados em confortáveis cadeiras lhes falou sobre os exames do pequeno lemuriano.
— E então, como Kiki passou os últimos dias? — o médico perguntou.
— Passou bem. — Shaka foi quem se adiantou em responder. — Teve um pouco de febre no dia seguinte à hemorragia, mas esta não se repetiu. Desde então está absolutamente normal, ligado no 220 como sempre. Dorme bem, come melhor ainda... Nada de anormal.
— Isso é bom. Significa que está disposto e feliz. Não é mesmo, senhor Kiki? — sorriu amável o médico.
— É! — Kiki concordou retirando o pirulito da boca apenas para responder. Estava sentado no colo de Mu e tudo o que lhe interessava era transformar logo o doce em chiclete.
— Mas então, doutor, por que nos chamou aqui? — Mu perguntou indo direto ao ponto, ansioso para acabar de vez com aquela preocupação latente em seu peito.
— Como lhe disse ao telefone, senhor Mu, os exames detectaram algumas alterações sanguíneas que nos requerem uma atenção especial.
— Alterações? Que alterações? — Shaka interrogou aflito sem tirar os olhos do médico. — Meu filho está doente?
— Acalme-se, senhor Shaka. O quadro ainda é novo, e precisamos estuda-lo para entender do que se trata. — pacientemente o médico abriu uma das gavetas de sua escrivaninha e de lá retirou uma pasta com todos os resultados dos exames de Kiki. — Como vocês viram no dia que deram entrada aqui, o raio-x da cabeça não acusou fratura ou trauma nenhum na região que pudesse levar ao sangramento, mas se olharem aqui... — abriu uma planilha e lhes mostrou uma folha cheia de números, linhas e dados dos quais ambos os cavaleiros esticaram os pescoços para olhar, pelejando para entender alguma coisa. — Os resultados dos testes dos fatores da coagulação sanguínea estão baixos, o que significa que Kiki apresenta uma deficiência na capacidade de coagular o sangue, o que explicaria a hemorragia prolongada que ele teve naquele dia. — mudou a folha mostrando outro resultado. — Além disso, foi detectado nas contagens sanguíneas que ele também possui uma leve deficiência na concentração da hemoglobina, o componente do sangue que tem função de transportar oxigênio dos pulmões para nutrir todas as células do nosso organismo, e que também age na produção das hemácias.
— E o que isso quer dizer? — Mu perguntou.
— Isso quer dizer que caracteriza um quadro de anemia.
Shaka entreabriu a boca e franziu as sobrancelhas loiras chocado e aflito.
— Anemia? — disse com um misto de surpresa e indignação. — Mas, então... a culpa é minha!
Mu imediatamente olhou para ele.
— O quê? Claro que a culpa não é sua, amor. — disse gentil.
— Como não é? Claro que é! — teimou o virginiano. — Se ele está com anemia é porque não o estou alimentando direito, porque... porque eu não o deixo comer carne sempre que me pede, porque... — baixou a cabeça e esfregou os olhos em agonia. — Buda! Eu sabia que não entendia nada de criança, que iria fazer tudo errado!
— Calma, Sha. Muitas pessoas não comem carne e nem por isso são anêmicas. E mesmo assim, você faz carne para nós três vezes na semana. — Mu tentava acalmar o marido segurando firme a mão dele.
Também vendo a aflição do pai virginiano Kiki tirou o pirulito da boca, esticou o braço e tocou em sua cabeça lhe fazendo um cafune nos cabelos loiros.
— Baba, foi o Kiki que comeu errado, não é culpa sua, mas ele promete pro Baba que não vai mais comer paçoca e chocolate antes do almoço e do jantar.
Adônis não conseguiu conter um sorriso. Aquele menino era muito apegado aos pais e a seu modo fazia de tudo para não vê-los tristes.
— Não se preocupe, Kiki. As paçocas e chocolates não deixam ninguém doente. A menos que você só coma isso ou em muita quantidade. — disse o médico.
— Doutor, mas os exames não podem ter acusado essa anemia justamente por causa da hemorragia? Ele é pequeno e perdeu bastante sangue. — observou Mu.
— Creio que não. A hemorragia apenas causou uma diminuição total e equivalente de todos os componentes sanguíneos, mas esta anemia é anterior ao quadro hemorrágico.
Já mais do que exaltado Shaka arrastou a cadeira para mais perto do médico e o fitou nos olhos.
— Anterior? Você está dizendo então que ele está doente há tempos e eu não percebi nada até agora? Impossível! Eu sei até quando esse menino se encheu de doces escondido, pensou algo que não devia ou deixou respingar urina na tampa do vaso e limpou com a minha toalha de banho. Eu perceberia!
Kiki arregalou os olhos se dando conta do que acabara de ouvir.
— Como ele sabe do xixi na toalha? — balbuciou encucado.
— Shiii. — Mu pediu silêncio. — Gente, deixem o doutor explicar. Shaka, se acalma, por favor.
— É bom que explique mesmo, e de uma maneira que eu posso entender o que está acontecendo com meu filho, porque até agora eu não entendi nada. — disse Virgem
Adônis respirou fundo e se ajeitou na cadeira. Aqueles dois eram pais difíceis, ou melhor; Virgem era um pai difícil.
— Ok, vamos com calma. Primeiro, para tentarmos entender o que está acontecendo é importante que considerem o fato de nosso pequeno aqui ser um lemuriano. Kiki não é humano, logo, todos os resultados de seus exames foram obtidos com uma única base de comparação, a dos dados médicos antigos fornecidos pelo Grande Mestre Shion, e por alguns dados mais atuais retirados do histórico médico do senhor Mu. Embora pareça nitidamente igual à humana, a fisiologia lemuriana se distingue desta em diversos pontos, alguns cruciais. Eu comparei os dados de Kiki com 4 grupos de indivíduos humanos diferentes, e os resultados foram sempre os mesmos, muito aquém do desejável. Apenas quando comparei às amostras de Mu e de Shion foi que consegui chegar à um resultado preciso. — Adônis explicava pacientemente. — Dessa forma consigo dizer precisamente que a anemia detectada é ainda muito levinha e não há motivo para pânico. Pode ser que ele apenas precise de alguns nutrientes diferenciados por estar em fase de crescimento, por isso não creio que seja a falta da carne, senhor Shaka. Sobre a coagulação foi detectado o que parece ser um pequeno distúrbio na formação de coágulos de fibrina. São essas fibrinas, que quando ativadas pelas plaquetas presentes no sangue, deveriam impedir as hemorragias.
— Como assim, parece ser? Então, mesmo comparando os dados aos meus e de Shion você ainda não pode afirmar com certeza? — Mu questionou um pouco confuso.
Porém Shaka foi mais direto.
— Se você não tem certeza, como pode deduzir que meu filho está doente?
Adônis respirou fundo, retirou os óculos e massageou momentaneamente a ponte entre os olhos.
— Eis a questão! — disse recolocando os óculos e se aprumando na cadeira. — Bem, eu serei franco. A medicina pouco sabe sobre os muvianos. O corpo do Kiki não funciona como o das demais crianças. A forma como ele reage às ligações químicas que acontecem dentro dele é diferente. Nós estamos lidando aqui com algo novo e totalmente desconhecido... Pode ser algo bem simples, como uma anemia apenas. Pode ser que o fato de Kiki estar em fase de crescimento tenha disparado um alerta, já que muitas coisas podem estar acontecendo com seu organismo. Não posso dizer, de fato, se Kiki está doente ou com que gravidade, mas achei importante chama-los aqui para coloca-los à par da situação e tentarmos estudar o caso.
— Ah é? E o que você sugere, doutor? Que sentemos e esperemos o caso ficar grave? — Shaka usava um tom irônico. — Faça-me o favor, se nem ao menos sabe dizer se meu filho está ou não doente como acha que vai ser capaz de estudar o caso? Você está se baseando em suposições apenas. Eu quero algo concreto! Nesse mundo inteiro deve haver alguém, um cientista ou médico, que tenha estudado a fundo a fisiologia lemuriana, não é possível que não exista!
— Sim, na verdade existiu. — disse Adônis olhando para eles. — Shion de Áries. Como já havia dito a vocês, era Shion quem estava transmitindo todo esse conhecimento ao Hermes quando...
— Quando foi assassinado. — a voz de Mu soou grave e séria como nunca, capturando a atenção de todos ali, incluindo do pequeno ruivo em seu colo.
O silêncio reinou pesado na sala por alguns instantes, até que Áries respirou fundo e retomou a fala.
— Infelizmente Shion se foi antes de transmitir a doutor Hermes e também a mim tudo o que sabia. Eu era muito jovem, e por mais que tivesse me empenhado foi impossível absorver séculos de conhecimento em apenas poucos anos. — Mu limpou a garganta e ajeitou a postura. — Ainda assim, doutor Adônis, se eu puder ajudar em alguma coisa, qualquer coisa... estarei inteiramente à disposição. Podemos dar prosseguimento aos estudos de Hermes, juntos.
Adônis sorriu para o Cavaleiro de Áries, animado com a perspectiva. Não esperava menos dele.
— Excelente! Vou agendar um dia para que possamos conversar e colocar em dia a pesquisa. Por hora, para agilizarmos o processo, tudo que tiver em sua casa que diga respeito ao seu povo, entre anotações, livros, diários, até mesmo entre os pertences de Shion, se tiver acesso a eles, é de extrema relevância e gostaria de poder analisa-los. Pode me trazer cópias... Mas de imediato, se não se importar, gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Não vou me alongar.
— De modo algum.
— Ótimo. — disse o médico abrindo um bloco de notas e apanhando uma caneta. — Consta na pesquisa do doutor Hermes que os muvianos envelhecem e se reproduzem de forma distinta à humana. Sabe me dizer, em termos de fisiologia, como isso se dá?
Mu piscou os olhos e arrastou a cadeira mais para frente ajeitando o filho sobre os joelhos.
— Bem, como já deve saber, o povo muviano surgiu há milhares de anos. Antes mesmo da raça humana existir. Eu e meu filho fazemos parte dos pouquíssimos remanescentes que habitaram do antigo continente de Mu.
— Daí vem o seu nome, né papai? Do nosso continente que sumiu. — Kiki se intrometeu mostrando que apesar de quieto estava prestando atenção em tudo.
— Exatamente, filhote! — o ariano mais velho sorriu. — Hoje somos chamados de lemurianos, mas nem de longe somos tão poderosos e gloriosos como há milênios, porém em nosso sangue ainda reside a centelha do nosso poder ancestral, e é essa centelha que faz com que nossa fisiologia seja diferente, a começar por nossa expectativa de vida que é estimada em 300 anos. — Áries falou aquilo com pesar na voz, apertando o filho contra si e evitando olhar para Shaka. Sua longevidade era um tabu para eles. — Não sei dizer qual é a fonte desse poder. É ancestral demais e com o tempo poucos foram os que sobraram para dar respostas precisas sobre ela... Devido à nossa longevidade não somos indivíduos muito férteis. Nossas fêmeas possuem pouquíssimos óvulos e estes levam anos para serem liberados. Desse modo, a natureza nos compensou tornando... bem... tornando a “semente” dos machos mais forte. Posso lhe dar detalhes sobre a reprodução em si em outro momento. — sinalizou para Adônis com os olhos, apontando Kiki.
— Claro, sem problema. — o médico acenou com a mão enquanto fazia anotações.
— Bem, por conta dessa dificuldade em gerar descendentes houve outra compensação evolutiva. A gestação de um muviano é mais longa, podendo chegar a durar até 12 meses. Isso garante um desenvolvimento seguro e melhor do bebê ainda dentro do útero, além de uma taxa de mortalidade infantil quase reduzida a zero.
— Interessante! E como foi a gestação do Kiki? — o médico perguntou curioso.
Nesse momento Mu trocou um olhar com Shaka sem saber ao certo o que responder, mas Virgem, agitado e ansioso para chegarem logo a um consenso, foi quem respondeu.
— Não sabemos, e lhe asseguro que talvez jamais saibamos. — disse ele firme. — Olha, doutor, o que posso dizer para adiantar as coisas aqui é que Kiki nasceu prematuro. De quantos meses é meio impossível precisar, já que a mãe dele morreu no parto. Não sabemos nada sobre ela. De onde vinha, como vivia, hábitos... — fez uma pausa vivenciando os momentos de tensão que viveu no dia do nascimento de Kiki. — Enfim... tudo que posso dizer é que fizemos de tudo para mantê-lo vivo na falta da mãe. Usamos nossos Cosmos e corpos como incubadoras vivas, por semanas, meses, e ele jamais demonstrou um mínimo sinal sequer de fragilidade ou debilidade. Meu filho é um garoto forte e saudável, e seja lá o que for que esteja dando errado aí nesses exames deve ser simples corrigir. — olhou para o pequeno lemuriano e lhe fez um cafuné nos cabelos ruivos procurando tranquiliza-lo, quando na verdade era para si mesmo que dizia aquelas palavras.
— Com certeza será, senhor Shaka! Vamos ter fé! — sorriu simpático. — Uma última pergunta, senhor Mu: Levando em conta que a infância do seu povo é mais longa e se dá de forma mais lenta, dada a longevidade, você diria que o crescimento do Kiki está dentro dos padrões?
Áries franziu a testa pensativo. Aquela era uma pergunta difícil, afinal nunca vira outra criança lemuriana para poder fazer comparações.
— Bom eu... eu creio que sim. — disse o ariano. — Eu vejo seu desenvolvimento bem parecido com o meu. Você lembra, Shaka? Quando você chegou no Santuário você tinha seis anos e eu já tinha dezesseis, mesmo assim éramos quase da mesma altura.
Shaka concordou efusivamente.
— Shion me disse uma vez que isso se deve ao fato de nosso poder telepático exigir bastante do corpo, e como o treinamento de um cavaleiro começa com este ainda muito jovem é considerado normal para um lemuriano que sua mente se desenvolva antes do corpo. Depois de um tempo os dois entram em sincronia. — completou Mu.
— O Kiki vai fica maior que o papai e que o Baba! — disse sorridente o ruivinho.
— Claro que vai, filhote! Vai virar um rapagão lindo e forte. — Mu sorriu balançando o pequeno com as pernas.
Adônis terminou de fazer as anotações, em seguida rabiscou um receituário e se levantou contornando a mesa para ir até os pais e o jovem paciente.
— Por enquanto é o suficiente. — sorriu entregando a receita a Shaka, que também se colocou de pé. — Dê essas vitaminas a esse mocinho, por segurança apenas. É um suplemento alimentar. Mantenha a dieta com carne vermelha e reforce as leguminosas. Substitua as panelas de alumínio, aço, ou outro material por panelas de ferro. Vamos tentar fazer com que a concentração de hemácias no sangue de Kiki aumente. Também quero que fiquem atentos a sangramentos, e qualquer situação estranha me procurem. Por hora, não há motivo maior para alarme. Farei um exame físico agora e Kiki está dispensado até semana que vem, quando quero que retornem para repetir os exames. Porém... senhor Mu, se puder ficar um pouco mais gostaria de começar agora mesmo com uma primeira bateria de exames com o senhor. Eles ajudarão a manter atualizadas a base de dados de comparação para tentarmos entender melhor o que se passa com esse mocinho aqui. — sorriu e deu um apertão leve na bochecha de Kiki.
— Claro. Farei o que for necessário para ajudar. — Mu respondeu, depois se levantou e levou o pequeno até a maca para ser examinado.
Doutor Adônis fez vários exames em Kiki, desde a clássica auscultação dos batimentos cardíacos e pulmão, até mesmo como estavam seus reflexos neurológicos. Foi nesse que notou uma pequena alteração.
Discretamente, para não assustar os pais, anotou em sua prancheta de anamnese: “alteração do equilíbrio corporal e nistagmo.”
— Prontinho, senhor Kiki, está liberado! — disse o médico o pegando no colo e lhe fazendo um cafuné, depois o entregou a Shaka. — Nada de mais pirulitos e doces por hoje para esse rapazinho. Quero que controlem as guloseimas e que ele coma bastante vegetais, está bem?
— Tá bom! O Kiki adora os vegetais também! — disse ele passando os bracinhos em torno do pescoço do virginiano.
— Que ótima notícia! Bem, vocês dois estão dispensados. Já o senhor, Mu... — foi até a escrivaninha e apanhou uma ficha de solicitação de exame. — Entregue essa ficha à recepção da Ala 5. É um encaminhamento para coleta laboratorial, ultrassom e... um segundo. — foi até a gaveta e apanhou uma ficha parecida. — Tome. Quero que faça também um ecocardiograma. Por hora já é o suficiente. Para os exames mais elaborados marcaremos uma data em que possa passar um dia aqui, pois são necessários jejuns e preparos específicos.
Mu agradeceu e se despediu do médico deixando a sala junto de Shaka e Kiki.
Assim que os cavaleiros se retiraram do consultório Adônis ficou sério e voltou a olhar para os resultados dos exames e as anotações sobre sua mesa. O menino tinha algo, era fato, mas como dizer aos pais que simplesmente não sabia o quê, posto que jamais havia visto resultados como aqueles. Discutira o caso com alguns de seus colegas e nenhum deles tinha entendido os resultados dos exames do garoto, os quais pareciam normais, mas ao mesmo tempo extremamente errados. As contagens celulares davam valores diferentes, além disso existiam enzimas, proteínas e outros componentes nunca vistos antes, outras que deveriam estar lá simplesmente não existiam. Precisava muito dos exames de Mu para tentar começar a desvendar aquele quebra cabeças. O menino estava doente, mas que deus lhe perdoasse ter omitido isso dos pais, pois nem fazia ideia do que aquela criança tinha.
Os exames de Mu eram sua única esperança de desvendar aquele quebra-cabeças.
Enquanto isso, no corredor da Ala 5, de frente ao jardim de inverno Shaka, Mu e Kiki conversavam.
— Nós não vamos a lugar nenhum. Vamos ficar aqui com você, oras. Eu não vou te deixar aqui sozinho. — disse Shaka olhando sério para os olhos verdes que o fitavam impacientes.
— Mas vai demorar, Sha. Vão ao Prigkipas, comam hambúrguer, e nos encontramos em casa. Não precisam ficar aqui. — disse Mu.
— O Kiki nem quer mais hambúrguer. — disse o pequeno no colo do pai indiano.
— O Shaka também não. Ele nem gosta de hambúrguer. — Virgem deu de ombros. — Nós vamos comer algo na lanchonete daqui mesmo, depois vamos ver televisão na sala de espera, passear no jardim... Mas vamos ficar aqui com você. Eu só saio desse hospital com vocês dois junto comigo. E chega de discussão. — puxou Mu pelo ombro, lhe deu um selinho bem ligeiro nos lábios e os três se abraçaram ali mesmo por um tempo. — Agora vai. Estaremos aqui te esperando quando terminar.
Mu sorriu, num misto de conforto e medo. Afastou-se deles olhando para seus rostos e sentido todo o amor que tinham um pelo outro.
Sem dúvida faria tudo o que fosse preciso por sua família. Sempre por eles.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic
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