Templo das Bacantes Vol. 3
8 Saravá Ebó
Notas iniciais

Atenas, Grécia, 11:30am
As manhãs de sábado no pequeno vilarejo de Rodório, localizado fora dos limites do Santuário, mas massivamente frequentado por soldados, servos, aprendizes e cavaleiros que nele residem, eram sempre alegres e festivas, mesmo no álgido inverno grego. Era aos sábados que as vielas de chão de pedra e janelas coloridas das casas enxiam-se de tendas e barraquinhas que ofereciam toda a sorte quinquilharias e principalmente petiscos de encher os olhos, fazer salivar o mais refinado dos paladares e rugir até o mais exigente dos estômagos.
O que não era o caso de Kiki.
A única exigência do pequeno lemuriano era que a comida estivesse em sua boca.
— Olha dindo, souvlaki! — ele apontou para os famosos espetinhos de churrasco grego com legumes enquanto passeava de mãos dadas a Afrodite de Peixes por uma das tantas barraquinhas.
— Vai querer um desse também, mini draga? — o sueco perguntou aos risos, já sabendo bem qual era a resposta. — Ainda nem acabou de comer cachorro quente.
— Um não, dois! — Kiki respondeu enfiando na boca o finalzinho do lanche que comia com gosto.
— Dois? — Afrodite arregalou os olhos aquamarines surpreso.
— É que o Kiki tem muita fome. — respondeu o ruivinho fazendo bico.
— Que Dadá tenha misericórdia da minha pessoa e me proteja da ira do seu pai loirudo, porque se ele souber que você tá comendo esse tanto de carne eu tô morto! — suspirou tomando o rumo da barraquinha de souvlakis. — Ele só deixou a gente vir para comer iogurte com mel e beber frappé.
— O Baba não vai brigar, dindo. O Kiki precisa comer carne. Foi o médico que mandou. Para ele ficar com o sangue mais forte.
— Meu amor, o seu sangue já é forte! Tão forte que tingiu esse picumã* de vermelho. Esse médico não sabe de nada. — abaixou-se e meteu um beijo estalado na testa do garotinho, depois esfregou o nariz nos fiozinhos ruivos e sorriu fazendo uma careta. — Minha deusa, eu tenho que me controlar para não mastigar essa cabecinha ruiva.
— É melhor mastigar um souvlaki, dindo. A cabeça do Kiki não tem nada para comer, porque é oca. O Baba que diz.
Afrodite deu uma sonora gargalhada.
— Tem razão. Muito melhor mastigar um souvlaki. Então, vamos a eles! Depois passamos na barraquinha dos doces e pegamos uns ekmeks. Quero levar uns para casa. — disse Peixes, já pensando em levar os doces para Hyoga que estava em Aquário.
— O Kiki também quer levar uns para o papai.
Seguiram animados para a barraquinha, comeram e conversaram cumprindo aquele ritual que se repetia já há alguns anos. Quase todos os sábados pela manhã Afrodite ia buscar Kiki em Virgem para passearem em Rodório ou no centro de Atenas, e mesmo sabendo que o pequeno lemuriano estava passando por exames médicos e cuidados extras para descobrir a causa de uma misteriosa anemia o Santo de Peixes não abriu mão de manter o hábito.
Depois de se empanturrarem de churrasco e doces de nozes e mel, de mãos dadas os dois caminhavam pelas ruínas que conduziam à entrada do Santuário enquanto jogavam conversa fora acerca da evolução dos dinossauros. Cada um trazia na mão um pacotinho cheio com doces e outras guloseimas.
— Eu só acho que foi uma evolução matim*. Ah, tá boa! Qual a vantagem que o mamute levou virando elefante? Mamutes eram muito mais legais. Grandes... peludos... — disse Afrodite dando de ombros.
— Eles perderam os pelos porque não precisavam mais deles, dindo. Igual o tigre dentes-de-sabre que perdeu as presas grandes porque não precisava mais delas pra caçá, porque os bichos que ele comia também ficaram piquininhos.
— Hum... faz sentido.
— E o dentes-de-sabre virou puma, o tigre normal, o leão, a suçuarana... igual o jacaré que virou lagartixa. — concluiu Kiki.
— E a Lagartixa virou viado. — concluiu Afrodite aos risos.
— Não, dindo. Os veados são mamíferos, o papai me ensinou. As lagartixas são répteis.
— Ah, mas a Lagartixa mama também, meu querido. Ô se mama!
— E como que lagartixa mama?
De repente Peixes parou de andar, arregalou os olhos e olhou para Kiki.
— ALÔCA! — encostou o dedo no queixo do menininho. — Pela deusa, esquece isso, não fale para o seu Baba que eu disse isso, está bem? É o meu coágulo. — bateu com os dedos na própria testa. — Às vezes ele me faz falar umas coisas assim, sem sentido. Você está totalmente certo. Répteis não mamam, só as lagartixas cascudas nascidas nas margens lamacentas do Tejo que mamam.
— Nem essas, dindo. Só quem mama são os mamíferos, como os tigres, os leões, os gatos...
Assim seguiam conversando distraídos até saírem do limite urbano, mas antes que entrassem na área de acesso restrito aos cavaleiros cruzaram uma estreita esquina, e bem ali distraído Afrodite tropeçou em algo deixado no chão.
Peixes tombou para frente precisando se apoiar em uma coluna de pedra em ruínas, e quando abaixou a cabeça para olhar com o que havia topado levou um susto tão grande que soltou a mão de Kiki e deixou cair o pacote com doces para levar ambas espalmadas ao peito.
— Pelo alguidar sagrado de Dadá! — berrou surpreso. Entre seus pés havia um alguidar cheio com fatias de bolo, farofa doce, balas e pipoca. Em torno dele, formando um círculo, 7 velas azuis e 7 cor de rosa. No meio deste círculo foram deixados três pratinhos de papelão com fatias de pudim de leite, doce de banana, uvas, maçãs, e um copo com o que parecia ser suco de laranja. — Eu pisei na oferenda!
Sim, de fato se tratava de uma oferenda feita com todo capricho por Aldebaran na noite anterior, que pedia aos orixás infantis — Ibeji, as crianças gêmeas — saúde para seu afilhado.
Em sobressalto Afrodite deu um giro no mesmo lugar procurando por Kiki, que estava de costas logo atrás de si, então na mesma hora o pegou pela cintura o levantando do chão.
— Aquenda, Kiki, não pisa nisso! — murmurava alterado, mas eis que quando trouxe o pequeno lemuriano para seu colo, viu que ele não estava sozinho. Seu rosto ficou lívido. — Minha nossa senhora do ebó!
Nas mãos pequeninas de Kiki havia um minúsculo e tísico filhote de gato de não mais que dez dias de vida. Era completamente preto, de pelo opaco e ralo, os olhos mal abriam de tão remelentos, e o focinho estava todo lambuzado de pudim de leite.
— Ebó? Como sabe o nome dele? — disse o ruivinho que era pura animação e euforia. — O nome do gatinho. Isso é um gato, não é?
Afrodite piscou os olhos confuso ao vislumbrar aquela coisinha preta horrenda.
— Olha, Kiki. Larga esse bicho. Se o seu Baba souber que te deixei pegar um gato de ebó ele me mata. — disse o pisciano colocando o pequeno no chão junto com o gato, o qual ele parecia determinado a não largar por nada.
— Mas dindo, ele tá com fome. Estava comendo o pudim. Deixa o Kiki ficar com ele?
— Tá maluco? Animais são proibidos nas Doze Casas, com exceção apenas para o carcamano do Máscara da Morte. Alôca! — deixou escapar um riso nervoso. — Ele deve ter se perdido da mãe, é a vida. Anda, deixa esse babado aí e Saravá para ele! A gente tem que ir, ou o seu pai...
— Se ele se perdeu da mamãe dele então é mais um motivo para o Kiki ficar com ele, dindo, porque o Baba é bom em cuidar de filhote sem mamãe.
As palavras do Santo de Peixes sumiram junto com Kiki, que desmaterializou-se bem diante de seus olhos com gato e tudo.
— KIKIIII... SEU FILHOTE DE PRAGA, VOLTA AQUI! — correu desembestado para as escadarias das Doze Casas. — Minha deusa, é hoje que o Buda loirudo me deixa broxa!
Casa de Virgem
— Credo, isso está ficando horroroso. — reclamou Shaka. Estava na cozinha ao lado de Mu, com os cotovelos apoiados sobre a pia de mármore enquanto debruçado o observava trabalhar no aquecedor da torneira.
— Não tem que ficar bonito, tem que ficar funcional e sair água quente, mais nada. — rebateu o ariano num resmungo para lá de mal humorado.
— Tem que ficar como tem que ficar, Mu de Áries. Correto. Se eu soubesse que você ia fazer mais uma gambiarra nem teria pedido para consertar esse aquecedor.
Mu olhou zangado para Shaka. Desejou esganá-lo com requintes de crueldade, mas respirou fundo e voltou novamente a atenção para o diodo que acoplava à uma tomada simples caseira na qual já tinha soldado uma pequena chave condutora de eletricidade. Ligados a um resistor de 390Ω por 10W eles fariam as vezes da resistência queimada e do circuito defeituoso. De fato não tinha nenhuma beleza estética, mas quebraria o galho até poder sair para comprar uma resistência nova.
— E se eu soubesse que você iria me pedir para eu consertar essa merda de torneira num sábado de manhã, o único dia que eu tenho para dormir em paz até mais tarde nessa minha vida de peão, eu teria ido dormir em Jamiel, Shaka de Virgem. — queixou-se, nitidamente irritado. — Aliás, se você tivesse me dito antes eu teria comprado as peças certas em Atenas essa semana e não garimpado essa sucata toda na minha forja, mas na mesma proporção que você é todo organizado para umas coisas você é um completo perdido em outras.
Shaka desencostou da pia e encarou o lemuriano, indignado.
— E precisa falar desse modo deseducado comigo? Grosso! — protestou o virginiano apoiando ambas as mãos na cintura. — Quantas vezes o Shaka pediu consertos antecipados e mesmo assim você resolveu tudo com gambiarra? Até hoje dois pés da nossa cama são de latão e ferro fundido, e ficam fazendo aquele barulhinho irritante. O nosso chuveiro abre na torneira do registro já faz três anos!
Mu o dardejou com o olhar, mas quando abriu a boca tencionando rebater aquela calúnia direta a seus incríveis talentos para consertos domésticos improvisados não foi a sua voz que ecoou pela cozinha, mas a de Kiki, eufórica e alegre como nunca.
— Baba, papai! Olha! Olha o que o Kiki achou!
Mu abandonou a gambiarra para virar-se para o filho que entrava correndo trazendo um pequeno volume debaixo do moletom, enquanto Shaka ficou parado onde estava apenas observando.
— Oi filhotinho! Já voltaram! — o ariano o recebeu com um sorriso, e quando Kiki parou ali, de frente para eles, agachou-se e olhou em seus olhos. — O que foi que você achou? Cadê o seu padrinho? Não era para ele estar com você?
Nessa hora, um chiado baixo e débil chamou a atenção de Áries, e ele vinha da blusa de Kiki, então quando os dois cavaleiros ali menos esperavam uma cabecinha miúda de gato saltou para fora da gola e lhe saudou com um esganiçado e sofrido miado. A boca banguela do bichinho se abria escancarada, externando seu espírito famélico e desesperado.
— Wow! — Mu arregalou os olhos verdes, surpreso.
— Papai, esse é o Ebó, mas o nome todo dele é Saravá Ebó, e o Kiki achou ele no meio das velas e de um monte de comida. Ele se perdeu da mamãe. Eu posso ficar com ele? — pediu abraçado ao gatinho dentro de seu moletom, que estava só com a cabecinha para fora e não parava de miar.
Ainda um tanto alarmado Mu apertou os lábios e em uma sincronia perfeita com o pequeno lemuriano girou a cabeça para o lado e ambos olharam para Shaka, que parecia uma estátua esculpida em cera.
A face do Santo de Virgem tinha perdido a cor. Seus olhos azuis celestes esbugalhados fitavam aquele miúdo animal sujo e claramente cheio de pragas dentro da roupa do filho e chegava a sentir lhe coçar o corpo todo de aflição.
— Por... Buda! — Shaka piscou os longos cílios loiros saindo daquele transe medonho que congelara seu corpo e avançou até Kiki com as mãos trêmulas. — Isso deve estar cheio de germes, Kirian!
— Não é germes, Baba, é farofa. — disse Kiki tirando o gatinho de dentro da blusa para bater os farelos de seu pelo ralo com as mãos.
— Eu não o ensinei a não mexer nos animais da rua, pelos seis infernos do Samsara? Me dá esse bicho nojoso!
— Eiiii! Espera aí, Baba! — disse Kiki recuando um passo quando Shaka tentou lhe tomar o gatinho das mãos. — Ele não tava na rua. Tava na calçada.
— Onde você achou esse animal, filho? — Mu perguntou preocupado.
— Esse animal tem nome, papai. Saravá Ebó. Mais respeito com o Ebó. — pediu o ruivinho. — O Kiki achou ele na entrada das Doze Casas.
— Que maldito nome mundano é esse? — reclamou Shaka. — Anda, Kiki, me dá esse bicho. Pode ser perigoso para você...
— Baba, é um gatinho! — Kiki interrompeu. — Não um tigre, nem um leão. Não tem nada de perigoso, e ele tá sozinho e sem família. O Kiki quer cuidar do Saravá Ebó.
— Filhote, você nem sabe o que está falando. Como que deu esse nome ao gato? — Mu perguntou sentindo uma inefável vontade de rir.
— Eu não dei. Foi o dindo. O dindo que sabia o nome do gato.
— Aaaah, mas agora tudo faz sentido! Óbvio que o irresponsável, o desmiolado, aquele ulucapatá* do Afrodite está envolvido nisso! — disse Shaka balançando a cabeça enquanto coçava freneticamente a nuca, então eis que viu chegar ali o dito cavaleiro mencionado. Correu rapidamente os olhos pela figura parada no batente da porta de sua cozinha estranhando o modo como estava vestido, calça de lycra, uma camisa tão longa que mais parecia um vestido e com a cintura marcada por um cinto de couro. O encarou ferozmente.
— Com licença, família. Eu posso explicar. — disse Peixes enquanto caminhava lentamente até eles.
— Que ótimo! Porque eu quero mesmo saber porque o meu filho saiu com você só para tomar frappé e comer iogurte e voltou com um animal sarnento de rua, sujo, nojoso, certamente cheio de vermes e com esse nome mundano.
— Certo, santa. Vamos com calma. Antes de tudo, não me deixa brocha, pode ser? — disse o sueco encarando Shaka nos olhos. — Eu fico com o gato se vocês não quiserem ele. Sem crise. Eu gostaria de ter cachorros, né. Porque eu gosto de cachorros. Gosto de poodles! São tão fofos! Ainda mais quando...
— CHEGA! — Shaka berrou o interrompendo, assustando Kiki e fazendo Mu revirar os olhos.
— E lá vamos nós... — suspirou o ariano.
— O problema não é o gato, Peixes. É a confiança! É você! Toda vez que você leva o meu filho para algum lugar ele volta imundo, ou rasgado, ou rabiscado, ou chamuscado, com diarreia, sem sapato, sem dignidade... Agora então ele me aparece com um animal de rua visivelmente empesteado e que pode, nesse exato momento, estar lhe passando uma doença. E que diabo de nome é esse? Está iniciando meu filho na Umbanda? Pois saiba que enquanto eu for o responsável por Kiki ele vai seguir o budismo, depois, quando for mais velho e dono de si, ele decide seguir o que quiser.
— Não estou iniciando Kiki em nada, colega. Eu só pisei no ebó e o gato estava lá. Ah, tá boa! O Kiki viu o gato e PIMBA! — bateu uma mão contra a outra fazendo um estalo.
— Pimba? Pimba o quê? — Shaka questionou irritado.
— Ué, pimba! Criança, gato, filhotes... — contava nos dedos. — Crianças adoram filhotes, Shaka. Você já foi criança, tudo bem que com a alma idosa, bem chata, ranzinza, e que todo mundo queria sentar a porrada, mas já foi e sabe bem como é. Depois, Kiki disse que você é bom em cuidar de filhotes sem mãe.
— Ah, realmente, isso eu tenho que concordar. — disse Mu endireitando a postura.
— Mu! — Shaka olhou atravessado para o ariano. — Era isso que você pensava de mim também?
— Eu? Não Luz da minha vida. Eu concordo com a parte das crianças adorarem filhotes e que você é muito bom em cuidar de filhotinhos órfãos. — Mu sorriu amável ao acariciar os cabelinhos ruivos de Kiki. — Lembra do Lupércio? O cachorro que vivia em Rodório e que a gente levava comida todo dia escondido do mestre Shion? Foi ideia sua cuidar dele.
— Eu lembro do Lupércio. Ele tinha uma orelha só. — disse Afrodite. — Ah, bons tempos! Então, loirudo, toda criança gosta e merece ter um bichinho. Deixa o Kiki ficar com o Ebó. O encosto daquele Coiso nem precisa saber. — deu uma piscadinha para o ruivinho que acompanhava o debate ansioso.
— Não quero animal nenhum no meu templo. — disse Shaka resoluto.
— Então vai ter que sair daqui, porque mula também é animal. — Afrodite rebateu.
Shaka estreitou os olhos e avançou até ele, parando a poucos palmos de distância.
— Mu, convide o seu amigo a sair da nossa casa, agora, ou então convido eu, e do meu jeito.
Nem foi preciso Áries se manifestar, pois que Afrodite por si só levantou as mãos em sinal de trégua e afastou-se deixando a cozinha. Antes de sair deu mais uma piscadinha a Kiki acompanhada de um sorriso vitorioso. Sabia que por mais chato e zeloso que Shaka fosse não ia deixar de fazer o gosto do menino, e só isso importava.
— Kirian, já para banho. — ordenou o virginiano.
— Mas Baba...
— Eu não vou repetir. Em cinco minutos eu vou entrar naquele banheiro e se não estiver debaixo do chuveiro a coisa vai ficar feia. Depois que tomar banho conversamos sobre o gato.
— Tá bom, Baba. — disse Kiki aproximando-se de Mu, então, como quem carrega algo frágil e valioso lhe estendeu o gatinho, confiando a ele seus cuidados. — Papai, o senhor fica com ele?
— Fico. — Mu sorriu para ele. — Pode ir tomar seu banho tranquilo. Vou aproveitar e dar um banho no Ebó também que ele está bem xexelento e fedidinho, né saquinho de pulgas?
Um pouco mais esperançoso Kiki sorriu e correu para o banheiro. Apesar da bronca do pai loiro sentia que aquela batalha já estava ganha.
Quando teve certeza de que estavam sozinhos ali Mu olhou para Shaka, que ainda estava uma fera, e aproximou-se para falar em voz baixa.
— Eu não tiro sua razão, Sha, mas como sempre você perdeu a cabeça e exagerou.
— Eu exagerei? O meu filho está com alguma coisa, alguma... doença ainda desconhecida que me exige seguir uma lista dada pelo pediatra dele cheia de rigores com alimentação e higiene dos quais passo dia e noite pensando se estou fazendo tudo certo, e aí vem Afrodite... o leva para comer na rua, deixa ele pegar um animal doente... — apontou para o gato nas mãos de Mu que miava sem parar e tinha os olhos grudados de remelas. — Basta olhar para esse bicho para ver que está doente. Então Kiki traz isso para casa enfiado na blusa e eu exagerei?
— Sim, você exagerou. O gato está um lixo, sim, mas está vivo, e Kiki o salvou. Você ouviu o que ele disse? Disse que esse gatinho é órfão, e que o trouxe aqui justamente porque você, Luz rabugenta da minha vida, é ótimo em cuidar de filhotes sem mãe. — fez uma pausa olhando profundamente nos olhos do indiano. — Isso é muito importante para ele, Sha. Depois, a companhia de um animal de estimação nessa fase em que ele vai ter que fazer mais exames, sabe-se lá quantos e até quando, fará bem. Eu vou dar um banho no gato e segunda-feira o levarei ao veterinário. Ajudaremos nosso pequeno a cuidar dele. Hoje mesmo já posso comprar um vermífugo, depois lhe daremos as vacinas e tudo que tem direito, e então nunca será um risco à saúde de Kiki.
Por um breve momento Shaka olhou para Mu em silêncio e pensativo, até que fechou os olhos e baixou a cabeça.
— Kiki está errado... Eu sou um péssimo pai. Pode falar.
Mu sorriu e segurando no queixo do virginiano o fez olhar diretamente em seus olhos.
— Não. Você é o melhor! E eu te amo cada vez mais por isso. Só anda tenso demais. Precisa relaxar ou quem vai ficar doente é você.
— Estou com medo, Mu. — confessou num sussurro engolindo em seco. — Estou com medo do que estou sentindo. Todas as vezes que olho para o nosso filho o meu coração aperta.
— O meu também, mas infelizmente essa é uma das dores de ser pai, Luz da minha vida. — Mu lhe acariciou o rosto. — Medo a gente vai sentir todos os dias, até o fim. Tem que aprender a lidar com ele, e acho que essa coisa feia e cheia de vermes e pulgas aqui pode nos ajudar. Não é, Ebó? Olha como é feioso, Sha!
— É horroroso! — Shaka chegou a esboçar um sorriso.
— Um legítimo filhote de cruz credo mestiço com capeta que parece até que saiu dos portões do inferno! — Mu riu fazendo um carinho na cabecinha de pelos ensebados e espetados do gatinho.
— Ele só precisa de banho, cuidados e sardinha. E um nome melhor que esse, por Buda!
— Eu até que acho simpático esse nome. — Mu riu erguendo o gatinho até a altura dos olhos. — Bem-vindo à família Stewart de Jamiel, Saravá Ebó.
— Certo, ele pode ficar, mas não quero esse gato no meu sofá, nem na minha cozinha e muito menos na nossa cama. E trate de me ajudar a convencer Kiki disso.
— Combinado. Eu vou dar um banho bem caprichado na coisa feia, enquanto isso prepare um pouco de leite morno para ele beber. Tem que ser em pó, para não dar dor de barriga. Esse morceguinho horrendo deve ter pouco mais de uma semana, por isso não creio que ele vá comer sardinha. Mais tarde vou até Atenas comprar leite para filhotes, mamadeira, uma caminha fofa e uma resistência para a torneira da pia, já que o meu conserto está horrível, né?
Shaka balançou a cabeça em sinal de concordância.
— Se te consola, o gato está bem pior. — brincou, e por fim sorriu para o ariano e lhe beijou rapidamente os lábios antes de deixa-lo ali para seguir até o banheiro e monitorar o banho de Kiki.
***
Casa de Aquário.
Depois de quase dez minutos ouvindo o relato de Afrodite, proferido em tom afobado e isento de pausas para respirar, Hyoga começou finalmente a compreender o motivo da aflição da “amazona”.
— Ah, então o tio Shaka não ficou bravo porque a senhora deixou Kiki pegar o gato, mas porque ele acha que o gato pode passar alguma doença para o Kiki. — observou o loirinho abocanhando outro ekmek. Felizmente Afrodite tinha lembrado de salvar o pacote que deixara cair no susto quando pisou na oferenda, e agora tentava se acalmar sentado no sofá da sala de Camus ao lado de Hyoga enquanto este devorava os doces. — Ou seja, a senhora não tem culpa de nada, maman.
— Hum... enfia isso na cabeça loira cabeluda daquela panqueca*. — bufou irritado. — Me basta respirar ao lado daquela louca para ela surtar.
— Maman, tio Shaka é homossexual, mas é homem. Não se refira a ele no feminino. — Hyoga chamou a atenção. — E porque está chamando ele de panqueca?
Pego de surpresa Afrodite olhou para o garoto russo com os olhos vidrados, como se tivesse sido atingido por uma flecha direto no peito.
— Por quê? — Peixes repetiu sentindo a boca secar. Maldita falta de atenção. — Porque... ora, porque... porque ele é chato feito uma. Por isso.
Por um momento os dois ficaram se encarando, sérios e em silêncio, até que Hyoga deixou escapar uma sonora gargalhada.
— Ai maman, só você! — jogava outro doce na boca enquanto ria copioso. — Sei que está chateada porque ele te culpou, mas não liga não. Rapidão essa marra dele passa. Tio Shaka só tem a cara de ruim, mas no fundo ele é legal.
Com um salto ligeiro Hyoga levantou do sofá e entregou o pacote com dois doces restantes ao pisciano, depois inclinou-se, lhe deu um beijo na bochecha quente e levemente corada por uma camada fina de blush — Afrodite sempre levava no bolso um batom rosa claro para quando precisava improvisar o disfarce de amazona — e se afastou lhe dando as costas.
— Ei! Onde você vai? — o sueco perguntou o fazendo interromper os passos.
Hyoga se virou para ele sorridente.
— Ué, eu vou lá ver o gatinho da discórdia. Estou devendo uma visita ao Kiki também. Desde que me disse que ele anda meio doente, o que só pode ser brincadeira ou exagero do tio Shaka, ainda não tive tempo de ir lá. O père anda pegando pesado no treinamento e o pouco tempo livre que me sobra só penso em dormir. — suspirou.
— Falando no seu pai, onde ele está? Achei que estaria aqui.
— Ele foi cedo para o centro de Atenas. Parece que tinha umas coisas para resolver e depois ia almoçar com uns executivos para fechar uma negociata.
— Certo. Bom, vou guardar os docinhos dele na geladeira. — o sueco levantou-se do sofá ajeitando os cabelos longos e volumosos jogados à frente do peito, já que não usava as próteses, e foi até Hyoga. — Não está esquecendo nada não, buzungo de mãe?
Hyoga sorriu já vendo Afrodite abrir os braços o chamando para um chamego, e sem resistir o abraçou com força e alegria ganhando em troca uma saraivada de beijos.
Depois de se despedirem na entrada do átrio do Décimo Primeiro Templo cada um seguiu seu caminho. Hyoga desceu para Virgem, e Peixes subiu para a última casa.
Já em seu quarto Afrodite desfez-se da longa camisa-vestido e dos sapatos e se atirou na cama. Respirou fundo pensando no incidente do gato da oferenda, e que talvez não devesse ter desafiado Shaka, tampouco o chamado de mula.
— Merda! — bufou com os olhos cravados no teto, então num rompante virou-se para o criado mudo e apanhou o celular discando o número privado de Camus que só ele e Hyoga tinham.
No centro de Atenas, no popular bairro de Monastiraki, uma das principais zonas comerciais da cidade, Camus solicitou um intervalo aos empresários com os quais se reunia para discutir negócios e apanhou o celular que trazia no bolso do colete de linho. Aquele não era seu aparelho convencional. Este estava sobre a mesa ao lado do laptop e do cálice com licor de anis.
— Oui, Afrodite.
“Camy! Por que demorou tanto para atender?” — perguntou a voz do outro lado da linha.
— Porque estou em uma reunião. — o aquariano respondeu recostando as costas na cadeira e esticando as pernas sobre a pequena mesa redonda de madeira. — E você por que está me ligando do seu celular comum? Eu te dei um celular exclusivo para ligar para mim, ma belle.
“Onde você está?”
— Estou no centro de Atenas, em um cybercafé com cabines privadas em Monastiraki. — esticou o braço e apanhou um cigarro da cigarreira sobre a mesinha. O acendeu em seguida soltando a fumaça para cima. — Vídeo conferências só são possíveis daqui. O sinal de internet no Santuário é intermitente e non posso arriscar perder a conexão, muito menos o negócio. Aconteceu alguma coisa?
“Sim. Aconteceu. Uma desgraça! Eu acho que fiquei brocha.”
Camus arregalou os olhos arqueando as sobrancelhas bifurcadas. Tinha o cigarro penso nos lábios.
— O... o quê?
“Aquenda o babado. Eu pisei numa oferenda e o Kiki pegou o gato fubeca que estava nela e levou para casa e então como você já está sardento de saber aquela peste malassombrada do Shaka surtou e colocou a culpa em mim sempre em mim e como eu sou peixe mas não tenho sangue frio chamei ele de mula e agora com certeza estou brocha. Consegue mensurar a desgraça? Você conhece alguma clínica para impotência? Mas será que adianta alguma coisa? Sim, porque o Shaka é muito poderoso e o brochismo que ele joga nos outros deve ser forte!... Dadá!... Eu vou matar a Lagartixa!.. Lógico! Porque isso só pode ser coisa daquele girino do Tejo! Foi ele quem colocou aquele despacho ali para eu pisar. Eu pisei e agora tem um gato com nome de oferenda a exú na casa do Buda! Ai eu acho que não estou muito bem não, Camy. Estou vendo tudo preto.”
Reclinado na confortável cadeira Camus ouviu em silêncio toda a história mirabolante do namorado tentando acompanhar seu ritmo frenético para não perder nenhum detalhe, mas lhe parecia impossível encontrar qualquer lógica que fosse nela. Seu belo sueco estava apenas tendo um ataque de pelanca como tantos outros. Sendo assim apenas riu tirando o cigarro da boca para descansa-lo no cinzeiro e voltar a encostar na cadeira procurando uma posição bem relaxada.
— Hum... então dessa vez o Virgem non ficou somente na ameaça... Ele te deixou brocha mesmo. Tem certeza, mon amour? Tem certeza que está mesmo brocha?
“Como assim, se tenho certeza? Claro que tenho certeza!”
— Poxa, que pena, porque sabe, eu estou aqui, nessa cabine à meia luz já há uns quarenta minutos, nessa videoconferência chata e tensa, tentado fechar um acordo com uns tipos sujos e mal-encarados... e quando você me ligou eu pedi uns minutos de intervalo pensando que poderia me ajudar a relaxar, sabe? A chamada está em pausa.
“Eu não acredito! Eu acabei de dizer que estou brocha e você quer fazer sexo por telefone, Camus?”
— Oui. Como fazemos quando estou em Moscou... Non quer saber se está brocha mesmo? Que tal um teste? — disse com voz sussurrada enquanto descia a mão que tinha livre para o meio das pernas e com as unhas ligeiramente longas arranhava o pênis por cima da calça de linho.
“Eu não sei... eu...”
— Só de ouvir sua voz, Afrodite, eu já fiquei duro... Estou me tocando agora mesmo e imaginando sua boca quente e gulosa no meu pau. — gemeu languido fechando os olhos. Estava de fato excitado.
No Santuário, mais precisamente na Casa de Peixes, estirado sobre a enorme cama de lençóis brancos com um dos braços sobre os olhos enquanto segurava o telefone rente à orelha com a outra mão, numa clara postura de derrota, quando ouviu aquelas palavras do outro lado da linha Afrodite sentiu um choque lhe percorrer toda a espinha fazendo sua pele arrepiar e o pênis pulsar.
Imediatamente afastou o braço agarrando os lençóis e abriu os olhos, então a imagem descrita por Camus desenhou-se em sua mente.
— Camy. — chamou descendo a mão para o meio das pernas apertando com força o volume que se formava ali.
“Hum?”
— Eu acho que estou curado da brochidão. — suspirou.
“Eu tenho certeza que está, peixinho. Diz para mim... o que está fazendo?”
Peixes fechou os olhos em êxtase enquanto se tocava.
— Estou deitado na minha cama batendo bolo*. — riu aliviado. Estava completamente excitado. — Hum... imaginando suas unhas me arranhando todo.
“Eu adoro te arranhar. Adoro quando me deixa tão louco de tesão que perco o controle. Aah... estou tão duro, Afrodite.”
— Eu também, ai que delícia Camy... ainda vai continuar a reunião?
“Vou... Eu preciso. C´est une rencontre très importante avec les algériens.”
— Com... quem?
“Com os... a-r-g-e-l-i-n-o-s!”
Camus conhecia o poder que aquela palavra exercia sobre Afrodite, por isso falou pausadamente e com uma entonação erótica de dar inveja a dublador de filme pornô. Aquela era apenas mais uma dentre as tantas excentricidades de seu amado pisciano.
— Aaaaaaaaaah, duvido! Disse isso só para provocar. — falou Peixes sentindo uma forte contração na região toda do períneo.
“Non. É verdade.”
— Ah safado, quer me matar de tesão! Fala de novo. Fala Camy.
“Estou em reunião com os argelinos.”
Dessa vez a entonação foi ainda mais erótica, e a voz bem mais sussurrada.
— Aaaaaaaaaaaaaaah Atenaaaa. — Afrodite contorceu-se sobre os lençóis masturbando-se em ritmo frenético. — Eu morro de tesão quando você diz que está em reunião com os argelinos!
“Eu non posso me demorar, ma fleur... os argelinos estão me esperando, mas antes preciso gozar... Estou abrindo a calça e colocando meu pau para fora.”
— Aaaah que tesão, Camus. — Peixes gemia imaginando o namorado seminu na frente do laptop se masturbando enquanto os argelinos aguardavam na chamada em pausa. O risco que ele corria de ser descoberto ou pego em flagrante era enorme e isso o excitava ainda mais. — Goza para mim, vai. Aaaah... Que delícia de pau, mon amour. Mostra ele para os argelinos, mostra! Aaaaaah... NÃO! NÃO MOSTRA! Aloca!
Do outro lado da linha Camus ria.
“Está maluco? Eu non vou mostrar meu pau para três empresários corruptos argelinos. Que ideia absurda, peixinho... mas... pensando bem, talvez eu mostre.”
— AH MINHA DEUSA EU VOU GOZAR, CAMUS SEU SUJO!
“O que acha que aconteceria se eles me vissem agora me tocando... Eles poderiam ficar excitados e quererem me tocar também, non acha?”
— Hmmmmm... Acho!
“E se eles quiserem me tocar, Afrodite? Imagina se gostarem do que viram e resolvem me fazer uma visita. Eu teria que deixá-los me chupar, ou quem sabe...”
— Nem continua, seu depravado gostoso... Se eles forem aí cobiçar o que é meu eu mato todos. Simples assim.
“Hum... será mesmo? Eu sei que você gosta da ideia.”
— Só da ideia. Eu apenas gosto de saber que cobiçam o meu homem, mas só eu posso tocá-lo. Aaah... Camy... não imagina o quanto meu pau tá duro por sua causa. Nem o Shaka com golpe de brochismo dele consegue fazer meu pau ser indiferente a você, mon amour! Seu mafioso tarado! — falava com a voz rouca de desejo, enquanto fazia um sutil vai e vem com os quadris. — Quero meter nessa sua bunda deliciosa, mon amour. Gosta de dar pra mim, Camus?
“Aaaaah eu adoro dar pra você, Afrodite.”
— Puta que pariu, estou quase metendo no meu travesseiro, que é tão grande e macio quanto sua bunda, mas prefiro mil vezes meter nela. Vem logo para o Santuário, vem, Camy.
Em Atenas, no cybercafé, enquanto ouvia em completo êxtase os gemidos e palavras chulas sussurradas por Afrodite do outro lado da linha, Camus se masturbou até experimentar um orgasmo tão sublime e arrebatador que por alguns breves segundos minou completamente suas forças e sanidade. Felizmente teve o cuidado de fazer o mínimo de sujeira, e foi super discreto limpando tudo com alguns guardanapos de papel. Recomposto, despediu-se de Afrodite com a promessa de deixarem o sexo virtual de lado e fazerem ao vivo uma sessão bem mais prazerosa, desligou o aparelho, acendeu um cigarro, deu um gole no licor de anis e recomeçou a chamada em vídeo para dar seguimento à reunião.
Com anos de um relacionamento à distância e escondido, Camus havia desenvolvido excentricidades sexuais tão ou mais pervertidas que as do sueco.
Agora, relaxado e satisfeito como estava, seria bem menos tedioso fechar aquela negociata.
***
Décimo Terceiro Templo, 01:32pm
O vento frio que soprava no alto do Monte Zodiacal não dava trégua e causava desconforto ao seu celebre morador, que mesmo trajando um terno de fino corte, e sob o abrigo do manto de lã penteada azul marinho do Patriarca, sentia as mãos geladas e ligeiramente trêmulas enquanto, fazia correr ligeira a ponta da caneta tinteiro sobre folhas e mais folhas, rabiscando repetidas vezes a mesma assinatura nas dezenas de autorizações que se acumulavam em sua mesa. Essas todas já previamente analisadas por seu assessor Gigars.
O Patriarca tinha pressa em terminar aquela tarefa. Não por conta do almoço que tinha previamente agendado com Camus, em Atenas — a pontualidade inglesa nunca fora um traço marcante para um grego — mas pela tarefa enfadonha e o frio incômodo, ônus que vinham no pacote de ocupar o título mais alto daquele Santuário.
Enquanto executava mecanicamente o trabalho, sua mente, ao contrário, divagava por seus planos mirabolantes.
Na verdade aguardava inquieto algum resultado acerca da ideia que havia explanado para Geisty em seu encontro na praia do Cabo Sunion, da qual esperava colher resultados satisfatórios. Contava, é claro, com o apelo do sentimento maternal da italiana, já que a perda dos filhos ainda lhe era uma ferida exposta tanto quanto pode constatar ser também para a amazona. E nada melhor que juntar o útil ao agradável.
Para garantir a sua hegemonia frente ao controle absoluto do Santuário Gêmeos acreditava que dependia do sucesso de suas investidas, ainda que sutis, a seu ver, junto de Serpente. Precisava dos seus herdeiros gêmeos para defender o Templo de Gêmeos, além de que, em sua concepção, esses seriam o exemplo perfeito de honra, poder e subserviência a todo o Exército de Atena.
Foi pensando nisso que esbarrou novamente em seu principal entrave para alcançar tal conquista, todos os outros dourados.
Como seria perfeito se toda a alta patente o seguisse cegamente...
Mas, já que não era assim, precisava substitui-los urgentemente.
Mas por quem?
Não era tarefa fácil encontrar indivíduos com Cosmo tão grandioso, afinal não se esbarrava com um em qualquer esquina; eram verdadeiras raridades. A menos que fossem herdeiros diretos.
Os pais certos gerariam as crianças perfeitas.
Gêmeos deu um sorriso de canto de boca abandonando a caneta sobre os papeis que assinava e se recostando na cadeira de forro de veludo carmim.
Aquele era um plano utópico, extremamente ambicioso e ousado, mas não impossível!
Mentalmente calculava a idade de Geisty e lhe atribuía de 13 a 15 anos de idade fértil, que bem administrados seriam bem frutíferos. Por sua vez, a si mesmo acreditava que ainda se manteria viril por algumas longas décadas, obviamente.
Pensava consigo que provavelmente não conseguiria controlar todas as Doze Casas, mas boa parte delas sim, o que já era bem melhor que uma somente.
Seriam seus próprios filhos crianças extraordinárias e sob seu jugo... Seria o melhor exército de Atena de todas as Eras!
Nada, e nem ninguém, se atreveria a cruzar seu caminho e ir contra às suas vontades. Nem mesmo os deuses.
Seria absoluto e invencível!
Sua excitação diante da ideia era tamanha que seu sangue corria agitado pelas veias o fazendo esquecer por um momento do vento frio que soprava do lado de fora, então soltou uma gargalhada alta, de pura satisfação, e que ecoou pelo Décimo Terceiro Templo como um grito de agouro sinistro.
Sentia-se genial.
Súbito algo lhe chamou a atenção. Uma movimentação no Templo do qual era guardião.
A Casa de Gêmeos era ligada a seu Cosmo de forma íntima, e foi com extrema curiosidade que constatou o Cosmo agitado de Geisty enquanto esta circulava pela casa. Algo acontecia ali. Talvez a resposta que tanto aguardava, e essa então lhe pareceu uma boa hora para tentar mais uma aproximação.
Ansioso o Patriarca deixou de lado a tarefa monótona que executava e começou a descer as escadarias do monte, silencioso como um espírito sorrateiro.
Sua intenção era passar pelas casas zodiacais com o mínimo de alarde possível até alcançar o Templo de Gêmeos e ter a certeza de que encontraria Geisty sozinha, sem intromissão de nenhum daqueles amigos inconvenientes que sempre estavam com ela.
Assim, seguiu pelas Casas sublimando seu Cosmo sem encontrar nenhum empecilho, mas quando atravessava o longo corredor de colunas de mármore e pedra da Casa de Virgem duas vozes infantis, em entonações divertidas e alegres, capturaram sua atenção e o fizeram diminuir os passos.
A poucos metros de onde estava, sentados de pernas cruzadas um de frente para o outro no corredor de passagem comum, já quase na saída do templo, Kiki e Hyoga se divertiam com o novo integrante daquela família enquanto jogavam uma partida de xadrez.
— Xeque! Eu vou te vencer de novo. — disse o loirinho com um sorriso triunfante.
— Ah, mas assim não vale! — protestou o ruivinho fazendo seu característico biquinho de zanga e dando dramaticidade a sua indignação cruzando os braços com raiva, porém a manga grossa e colorida do Gho, traje típico tibetano que se assemelha a um roupão feito de pelo de lã de iaque, dificultava a ação arrancando uma risada do outro.
— Como que não vale? Claro que vale!
— O Hyoga é mais velho que o Kiki. Ele joga mais melhor!
— Não, eu jogo melhor porque sou russo! Todo russo sabe jogar xadrez. — disse orgulhoso de si e de sua amada nação.
— Hum... pois o Kiki é da praia e sabe jogá xadrez também... Só tem que crescer mais um pouquinho que vai fica bom que nem o Hyoga.
— Não é questão de ser grande... É de técnica. — ria consigo mesmo ao lembrar-se de que Maman Di sempre tentava vence-lo no jogo de tabuleiro, mas perdia vergonhosamente quase todas as vezes.
— Ensina o Kiki então a tal da técnica. Ou você é igual padeiro?
— Padeiro? E o que tem o padeiro com isso?
— O Baba diz que o padeiro bom nunca ensina a receita do pão. — Kiki deu de ombros balançando a cabecinha num gesto idêntico ao que Shaka fazia as vezes.
Hyoga riu divertido, mas logo ficou sério e pensativo. Queria pegar o Saravá Ebó no colo um pouquinho, só que Kiki não desgrudava do gatinho.
Para suprir seu desejo, o pequeno russo pôs em prática as lições de sua outra maman, a Di, ao ver ali uma ótima oportunidade de usar estratégia, não no xadrez e sim com o amigo, para conseguir o que queria com jeitinho.
— Hum... Eu até te ensinaria umas jogadas ótimas que a minha maman Natássia me ensinou quando eu era bem pequeno, mas...
— Mas o quê? — questionou Kiki ajeitando o gatinho em seu colo que dormia dentro do ushanka de Hyoga, uma espécie de gorro típico da Rússia feito de pele de urso e que possuía o brasão da antiga União Soviética bordado na frente. O bichinho já estava banhado, alimentado e devidamente tratado.
— Mas você está se distraindo demais com o Ebó no seu colo. É minha vez de segurar ele, assim você não se desconcentra e talvez não perca para mim de novo.
— O quê? Não! Kiki não desconcentra nada por causa do Saravá Ebó!
— Desconcentra sim. Mal presta atenção no jogo porque fica fazendo cafuné nele. Daí não adianta de nada eu te ensinar minhas técnicas secretas se você não tem foco... Desse jeito você nunca vai jogar xadrez como um verdadeiro russo! — disse com falso pesar o loirinho, realinhando as peças novamente no tabuleiro enquanto ouvia o suspiro de derrota do outro.
— O Kiki vai sim! Tá bom. Fica com ele. — no mesmo instante um sorriso enorme se abriu no rosto do russo — Mas cuidado porque o Saravá Ebó é muito neném.
— Pode deixar. Dentro do ushanka é bem quentinho e meu colo é confortável. — disse triunfante pegando o chapéu com gato dentro e o colocando sobre o colo. — Além de que, ele vai acordar forte e bravo como um russo!
Com um miado fraco o gatinho feioso e magricelo se remexeu em meio aos paninhos que estava enrolado e o fundo do chapéu soviético.
— Aaah, ele concordou! — exclamou Hyoga — Isso mesmo, camarada Ebó! Dá próxima vez que eu vier ao Santuário vou trazer um ushanka do tamanho da sua cabecinha pra você.
— O Kiki também quer um! Se vai trazer pro Saravá Ebó traz um pro Kiki.
— Pode deixar! Você podia forjar uma armadura para ele também, né? O que acha? Você é aprendiz do senhor Mu, logo vai ser ferreiro, e o Saravá Ebó é um gato do Santuário, precisa de uma armadura.
— Bem pensado! O Kiki vai fazer. — disse Kiki entusiasmado.
— Legal! — Hyoga riu alegre. — Agora presta atenção aqui na jogada que eu vou te explicar por que você sempre perde do mesmo jeito.
Atento o pequeno lemuriano arregalou os olhões lilases aproximando-se mais do tabuleiro.
— Primeiro você tem que mexer o cavalo assim, e vai precisar sacrificar os peões para enganar o seu adversário...
Enquanto explicava a jogada, atrás de si Hyoga percebeu passos sorrateiros a se aproximarem, e sem parar a explicação correu os olhinhos azuis para o lado reparando na figura soturna que os observava de cima.
Discretamente fechou com uma da mãos a entrada do chapéu onde o gatinho dormia e prosseguiu com a explicação movendo as peças sobre o tabuleiro.
Kiki também já havia notado a presença do Patriarca e olhava aflito e em silêncio para o chapéu no colo de Hyoga. Naquele momento rogou a Buda para que protegesse o pequeno Ebó daquele espírito faminto em forma de coiso ruim.
No entanto, bem diferente do que os dois meninos esperavam, Gêmeos nada disse. Apenas havia ficado ali parado, circunspecto, em silêncio e mergulhado em seus próprios pensamentos.
Era impossível para ele não associar seus dois filhos mortos àquelas crianças.
Ouvia cada palavra, via cada gesto, aprendizado e travessura como se pudessem ser Heitor e Dario.
E como queria que fossem eles ali...
Uma melancolia amarga o abraçou.
Mas, esta logo transfigurou-se em sobressalto quando de repente um Cosmo poderoso se chocou com o seu, que estava em absoluta inércia.
Como que se invocado pela prece silenciosa de Kiki, que intercedeu à Buda pela vida e permanência ali do pequeno Saravá Ebó, Shaka surgiu no corredor caminhando na direção deles a passos pesados e ao mesmo tempo ligeiros tal qual uma galinha brava com as asas abertas e bico aprumado pronta para expulsar à bicadas a ameaça que rondava suas crias.
— Ei! — o virginiano gritou.
Mas antes que chegasse próximo o bastante o Patriarca lhes deu as costas e continuou sua caminhada deixando aquele Templo.
Virgem o acompanhou com os olhos, esses bem abertos.
— É bom mesmo que saia daqui! Não é bem-vindo, ouviu? E eu não permito que atravesse meu Templo sem se anunciar! Pilantra sorrateiro! Espírito faminto! — sua voz ecoava até os ouvidos de Gêmeos, que não olhou para trás.
Ainda de pé ali, Shaka só deixou de olhar para a saída quando a figura de Gêmeos desapareceu de seu ângulo de visão, então jogou para trás dos ombros um amontoado de lenços de lã que usava para se aquecer e voltou-se para as crianças sentadas no chão.
— Vocês estão bem, meninos?
— Sim! — ambos responderam em uníssono balançando as cabecinhas com o olhar assustado.
— Ele disse alguma coisa para vocês?
— Não, Baba. Ele só ficou olhando pra gente com aquele olhar meio estranho de coiso dele, zumbizado, sabe?
— Buda! — disse aflito o indiano. — Não quero vocês dois perto daquele homem. Ouvi Kiki? Ouviu bem Hyoga?
— Sim. — novamente a resposta parecia até ensaiada.
— E o gato? Onde está o gato? — Shaka perguntou não vendo o gatinho ali.
— Está aqui no meu ushanka, tio Shaka. — disse Hyoga abrindo o chapéu.
Virgem deixou escapar um suspiro e colocou a mão sobre o peito quando viu as orelhinhas de pelo ralo se mexerem.
— Are Buda! Ótimo. Mu deve estar chegando de Atenas. Quando ele chegar entrem com ele. Não quero vocês ai com esse encosto vagando silencioso como um camundongo pelas Doze Casas.
Os meninos concordaram com um gesto afirmativo e Shaka regressou para dentro de seu Templo.
***
Ao mesmo tempo no Templo de Gêmeos, diante da pia da cozinha furiosa Geisty empurrava uma maçaroca triturador a baixo com auxílio de uma colher de pau.
— Ah, filho da puta! FILHO DA PUTA! Eu avisei, eu pedi, eu tanto falei para não tomar essas porras... Esse desgraçado desse homem não me ouve. ESTUPOR! — segurava no cabo longo com as duas mãos enquanto golpeava com raiva a fenda que dava para o ralo. — Desce, merda!
— Senhora, me desculpe me meter, mas a senhora não devia fazer isso. — dizia a serva esguia de longos cabelos castanhos e face pálida de medo ao lado dela.
— O QUÊ? — respondeu a amazona em um grito bem típico seu, arregalando as exóticas íris violetas. — Você faz ideia de que merdas são essas que eu estou me livrando?
— Não senhora. — respondeu num sussurro medroso a jovem, que esfregava as mãos e olhava para o chão já arrependida de ter falado qualquer coisa. Era visível para ela que a amazona estava fora de si. — Eu não faço ideia, nem preciso saber o que é. Eu apenas recebi a encomenda em nome do Cavaleiro de Gêmeos assim que cheguei no Templo para fazer a faxina.
— Então... Essa merda toda aqui é veneno! Está me ouvindo bem? Veneno! São essas merdas que ele toma para ficar igual a uma carcaça de rinoceronte... E aquele bosta não devia tomar, mas ele insiste em não me ouvir. É de propósito, eu tenho certeza que são esses anabolizantes de cavalo que estão gerando esse monte de ideia merda que ele está tento esses dias, só pode.— dizia espumando de raiva enquanto intensificava os golpes com a colher contra o triturador. — E ao invés de ir lamber as botas de Hades de uma vez, ele insiste em destruir o corpo que não lhe pertence.
Só na simples menção do nome do deus na morte a serva arregalou os olhos verdes assustada e relapsa ousou a perguntar:
— Mas é de quem o corpo então?
— Ora! Do meu marido, Saga! — gritou, depois baixou o tom de voz. — E de certa forma meu também, porque quando aquele estupor não estava ali eu também fazia uso dele.
Perplexa a serva pensava consigo, “Zeus, a pobre coitada é completamente louca!”.
De repente um barulho irritante abafou o som da colher de madeira contra o metal.
— Senhora, acho melhor parar de bater ou o triturador vai...
— CAZZO! E mais essa agora. MAIS ESSA! Esse caralho de triturador quebrou. Porco cane! — abandonou a colher de madeira que se mantinha fincada no ralo da pia e se voltou para a moça a seu lado enquanto limpava a mão nervosamente em um pano de prato azul. — Oh menina... qual é o seu nome mesmo?
— Hebe, senhora.
— Isso, Hebe. Hebe, chama alguém da manutenção para consertar esse triturador.
— Sim senhora, mas vou precisar fazer uma solicitação no Décimo Terceiro Templo, e pode demorar um pouco.
— Melhor ainda! Pode demorar até o ano que vem, quanto mais demorar melhor, assim aquele estrupício não vem aqui para essa casa. Melhor que fique lá no canto dele, bem longe de mim... e... Cazzo!
— O que foi? — disse assustada a moça levando a mão ao peito. Era seu primeiro dia naquele Templo e conviver com a esposa de Gêmeos estava sendo um tremendo teste de saúde cardíaca.
— Ele está vindo para cá! — disse Geisty olhando para trás em direção aos fundos da Casa de Gêmeos!
— Misericórdia! Senhora, como vou explicar isso? No meu primeiro dia aqui a encomenda do cavaleiro foi toda destruída e o triturador de alimentos também... — dizia trêmula e aflita olhando na mesma direção que a amazona.
— Você não vai dizer nada! Vem comigo... você vai à feira.
— Mas eu já fiz a feira.
— Faz de novo. — disse a italiana agarrando o pulso da moça e arrastando junto de si Templo a fora.
— Mas... nem tem pia para que eu possa preparar tanta coisa... — dizia um tanto confusa fazendo a amazona estancar.
— Você quer ficar aí e encarar a fera? Sozinha?
— Sozinha!
— É! Sozinha! — disse arregalando as orbes violetas.
— Eu não! — a serva levou as duas mãos ao peito.
— Então vem comigo.
...
Enquanto Geisty atravessava a casa de Câncer junto da serva de saúde cardíaca impecável, o Patriarca chegava no templo de Gêmeos já buscando com os olhos a amazona. Desanimou-se ao constatar que demorara demais a descer.
De fato Geisty fazia jus a sua constelação protetora, era escorregadia como uma serpente.
Mas frustrações não faziam parte do cotidiano do geminiano, e certo de que teria uma oportunidade em breve de dialogar com a esposa, caminhou para o interior da casa quando se deparou na cozinha com o possível motivo do Cosmo tão exaltado da italiana.
Sobre a pia lambuzada de toda a sorte de pós, comprimidos esmagados, vidros estilhaçados, e algo semelhante a óleo, estava a caixa de papelão da empresa na qual costumava comprar seus suplementos, alguns deles direto do mercado negro, e esta estava toda estraçalhada pelo que pareciam ser rasgos feitos por garras, denunciando o crime e seu executor.
— Cão de mulher! Desgraçada! Infeliz! A cretina sabe que essa merda não vende aqui na Grécia e destruiu tudo, caralho!
Levou ambas as mãos ao rosto esfregando para tentar aliviar a raiva e talvez a dor que agora socava impiedosamente seu crânio.
— Eu não vou me estressar. Não vou... Não vale a pena... Eu encomendo mais, foda-se! — fazia um exercício de respiração, mas seus olhos o traíram o fazendo olhar mais uma vez para a pia. — AH! Maldita! Ela triturou meus analgésicos também... Eu não tenho uma mulher, eu tenho é o mal encarnado na forma de esposa. Demônia desgraçada.
Dizia nervoso entredentes, revirando os próprios bolsos atrás de analgésicos de base opioide, os únicos realmente eficazes para a cefaleia excruciante que o escravizava. Sem encontrar nenhum consigo passou a vasculhar nas portas dos armários e gavetas da cozinha até achar um pote com aspirinas.
— Vai essa merda mesmo! — abriu nervoso o pote e o virou direto na boca para mastigar os diversos comprimidos com ódio.
Durante sua busca não encontrou também nenhuma garrafa de whisky, que era a bebida que geralmente o acompanhava nesses momentos, mas na falta dele não se fez de rogado. Sem cerimônia alguma abriu a adega e sacou de lá a garrafa do vinho mais caro, e certamente o preferido de Geisty, com o qual se serviu de generosas doses até abandonar esta vazia sobre o balcão da cozinha.
Enfurecido, porém um tanto mais calmo, quase uma hora depois deixou aquele Templo para seguir para Atenas onde teria que almoçar com Camus e os membros que compunham a máfia grega, não se deixaria abalar pelos disparates de Serpente.
Ulucapatá— em hindi, o rei dos idiotas
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