Templo das Bacantes Vol. 3
9 Nos tempos da brilhantina

Décimo Terceiro Templo, 08:23am
Após as festas que marcavam o início de um novo ano, seguidas de um curto, porém merecido recesso, a rotina agitada do Santuário de Atena voltava à sua normalidade.
Já no raiar do dia, Gêmeos se ocupava de suas funções no escritório do Patriarca, não deixando que o frio congelante do alto inverno que enfeitava com finos flocos de neve o pátio externo do Décimo Terceiro Templo o afastasse de suas obrigações, estas demasiadamente urgentes, e que eram relativas às operações da Máfia grega.
Recostado sobre uma mesa ampla de carvalho que datava de séculos, e que naquele momento estava entulhada por dezenas de resmas de papel e outras tantas fichas espalhadas que compunham os intermináveis relatórios mensais das máfias grega e russa, de braços cruzados e segurando em uma das mãos uma tabela com dados, Gêmeos encarava concentrado o imenso Mapa-múndi pregado junto à parede onde diversos pontos eram sinalizados com percevejos coloridos. Os vermelhos indicavam a presença e atuação da Vory v Zakone, a qual se estendia por metade do continente asiático, por todo o continente europeu, e timidamente pelo norte da África. Muito mais modesta, a máfia grega era representada pelos pontos em cor azul, que salpicavam a região dos Balcãs, além das rotas marítimas do Mediterrâneo e um ponto isolado da América do sul. Já no extremo leste do mapa os sinalizadores amarelos dominavam, como uma massa absoluta, e indicavam a presença da poderosa e incômoda máfia japonesa, a Yakuza, com seu território praticamente intransponível a outras facções mafiosas.
Foi com desgosto e certa inquietação que o geminiano desviou o olhar da parede para pegar mais um percevejo amarelo dos tantos espalhados sobre a mesa e caminhar até o mapa para cravá-lo em um remoto país no leste europeu, que antes era de domínio absoluto da incongruente máfia albanesa, representada pelos poucos pontos verdes pregados apenas naquele local. Feito, agora ele encarava o ponto amarelo tentando entender o porquê da presença da Yakuza naquela região, posto que uma movimentação ali, tão perto da Grécia, em nada parecia fazer parte da estrutura tão bem organizada dos japoneses, tampouco dos acordos firmados no passado.
No entanto, seu raciocínio foi freado por dois toque repentinos na porta.
— Entre. — o Patriarca respondeu em tom firme e sem desviar o olhar do mapa.
Logo uma figura desprovida de beleza e qualquer caráter atravessou a porta fazendo uma mesura.
— Com sua licença, Grande Mestre, vim lhe avisar que dentro de alguns minutos será dado início à competição entre os discípulos de Babel e Astérion pela armadura de Fornalha. — disse Gigars, que a passos silenciosos como os de um gato larápio se aproximou da mesa tencionando tirar proveito da suposta distração do geminiano para esticar os olhos nas tantas fichas e folhas espalhadas ali e inteirar-se do assunto contido nelas. Fazia isso enquanto, com a lentidão de um moribundo, fingia procurar um lugar vago em meio aquele tanto de papel para deixar uma pasta bege que trazia consigo, mas seus planos foram frustrados quando o Patriarca lhe estendeu a mão, mesmo ainda de costas, para que a pasta que trazia lhe fosse entregue.
— Dê-me. — disse com sua típica voz troante e nada amistosa, o que fez o assessor corcunda estremecer e obedecer de pronto. — Do que se trata? — o tom era de total desinteresse. Folheava as páginas da pasta sem se apegar por longo tempo a nenhuma delas.
— É-é o relatório deste mês do Santuário, Grande Mestre... — disse Gigars reticente e com o nervosismo difícil de ocultar pela gagueira.
— Faltam duas semanas ainda para acabar o mês de janeiro. É sobre qual assunto em específico?
— Sobre as missões, meu Patriarca. Apenas a caráter de registro.
Enquanto falava, Gigars olhava apreensivo para o rosto do Grande Mestre, que curioso voltava uma página e agora parecia ler algo com maior atenção.
Dentre tantos nomes ali citados, entre aprendizes, aspirantes, soldados e cavaleiros já consagrados, um em específico lhe chamou a atenção.
Heitor.
Por breves segundos a voz pigarrenta de Gigars se emudeceu para a audição do geminiano, que circunspecto lia o nome mais uma vez. Era um nome tão familiar... Sentia de forma cruel a importância que ele carregava; como uma adaga afiada que lhe era cravava no peito.
Heitor.
O nome que seria de um de seus filhos gêmeos. Provavelmente o daria ao que nasceria primeiro, caso este tivesse nascido com vida.
Gêmeos lutava todos os dias para esquecer-se desse acontecimento funesto, mas a vida, cruel como só ela sabia ser, parecia sempre fazer questão de lembra-lo.
Movido por uma curiosidade quase mórbida leu a página de cabo a rabo em poucos segundos. Queria saber como era a realidade da vida levada por àquele Heitor. Esta se resumia em algumas poucas linhas daquele relatório.
Foi com certa surpresa, e uma pitada de amargor, que soube que o rapaz de dezessete anos, e que tinha recém conquistado a armadura de bronze de Urso, havia sucumbido à morte em uma missão nas montanhas do norte do Canadá.
Fechou o arquivo irritado.
— A caráter de registro, mais um dos meus recém nomeados, o Cavaleiro de Bronze de Urso, morreu em uma missão insignificante. — disse Gêmeos, com o rosto contorcido em raiva ao direcionar sua atenção ao assessor, que engoliu em seco.
— Sim... meu senhor. Infelizmente tivemos mais essa baixa. — Gigars respondeu desviando o único olho bom do geminiano.
— Este é o quarto cavaleiro de Bronze que perco em uma missão irrelevante e muito além das fronteiras do Santuário. O que tem a dizer sobre isso, Gigars? — Gêmeos disse o nome do assessor quase em um rosnado odioso, depois desencostou da mesa e se colocou de pé em sua lateral.
— A-acredito que... por se tratar de um cavaleiro ainda novato.... — dizia gaguejante sem encarar a face assustadora do Grande Mestre, que caminhava como um felino imponente em sua direção.
— Novato? É isso que tem a dizer? — gritou exasperado. — Um cavaleiro que sobreviveu ao treinamento rigoroso desse Santuário, e que conquistou uma armadura mediante disputa ferrenha, morrer em uma missão ridícula de reconhecimento de área é algo inadmissível! É sabido que aquela região é uma rota da Vory v Zakone de tráfico de ouro. Logo, que ele tenha encontrado hostilidade também está fora de questão. A menos que Camus esteja me traindo... Você acredita nisso, Gigars?
— Não, por Atena! Não, meu senhor, de modo algum! — respondeu o velhote exasperado.
— Foi o que pensei. E você acredita então que ele tenha morrido por falta de experiência. Você realmente supõe que eu aceite essa sua dedução boçal, Gigars? — atirou ruidoso a pasta sobre a mesa fazendo alguns dos relatórios da máfia se espalharem e caírem no chão.
— Grande Mestre, como eu disse, não temos certeza ainda do ocorrido, mas deduzo que...
— Você não ocupa esse cargo para deduzir nada, Gigars! Você o ocupa para ter certeza! Quero essa questão elucidada o quanto antes.
— Sim, meu senhor. — disse o assessor enquanto encarava o chão, o que evidenciava ainda mais sua corcunda.
— A armadura de Urso já foi trazida de volta ao Santuário?
Gigars arregalou o olho bom. Tremia descontroladamente.
— A armadura de Urso... ainda não foi localizada.
Gêmeos estreitou os olhos e seu semblante se enfureceu.
— O que disse?
— Disse... que a armadura de Urso ainda não...
— EU OUVI, IMBECIL! — vociferou o Patriarca avançando até ficarem a dois palmos de distância, então o dardejou com um olhar que causaria calafrios no próprio Hades no Tártaro. — Você tem uma semana para me dar respostas objetivas sobre o caso e recuperar a armadura de Urso, Gigars. Não vou tolerar mais uma armadura dada como desaparecida. Sabe a gravidade disso?
— S-sei sim senhor...
— Mande uma campanha formada por cavaleiros de Prata para encontrar essa armadura imediatamente!
— Temos poucos cavaleiros da patente prateada disponíveis para missões, Grande Mestre. A maioria está ocupada nas atividades de treinamento dos aspirantes a cavaleiros de Bronze.
— Faça acontecer, Gigars. Não me importa o que você precisará movimentar na rotina do Santuário, apenas cumpra minha ordem. E envie cavaleiros qualificados e experientes dessa vez. — ironizou. — Se preciso for envie Marin, Shina ou Misty, que são alguns dos meus cavaleiros de Prata mais fortes, mas encontre essa armadura. As armaduras, todas elas, são mais valiosas que a vida dos cavaleiros que as vestem. Aspirantes a cavaleiros nascem e morrem a todo instante, armaduras não.
— E quanto à Serpente, meu Patriarca? O senhor não cogita enviá-la ainda em missões fora dos limites do Santuário? Ela seria a mais qualificada para essa missão, além disso, não está treinando nenhum aspirante no momento. — Gigars soltou a questão no ar propositadamente, na tentativa de colher alguma informação que pudesse esclarecer a quantas andava a relação do geminiano com a amazona de Prata.
— Quero Serpente aqui, no Santuário, e é só isso que precisa saber. — respondeu seco o grego estreitando o olhar para o homenzinho, que muitas vezes se mostrava inconveniente.
Sem conseguir articular uma resposta sensata, e um tanto frustrado, o assessor apenas balançou a cabeça em afirmação. Tremia dos pés à cabeça sob o manto amplo azul claro bordado com motivos típicos gregos em sua barra.
— Sim senhor, Grande Mestre.
— E quero um relatório completo e atualizado das nossas baixas recentes, junto à lista de todos os cavaleiros em atividade no momento, sua patente, armadura, função e localização atual.
— Sim senhor, lhe trarei o mais breve possível.
— O mais breve possível é quando eu regressar da disputa de armadura na Arena principal, ou seja, daqui alguns minutos. — disse firme e tão próximo ao assessor que sua respiração quente podia ser sentida por ele tocando sua testa. — Eu vou sair agora por aquela porta e quero que este relatório esteja sobre esta mesa quando eu passar por ela de volta, Gigars.
— E ele estará aqui, Grande Mestre. — respondeu, e por um breve segundo levantou o olhar e se deparou com as íris jades que brilhavam nefastas enquanto boiavam no que parecia um horrendo mar de sangue vivo.
— Agora saia e mande as servas providenciarem algo mais forte para me servir na tribuna. — disse ao ter a passagem dada por Gigars, pondo-se a caminhar em direção a porta de saída de seu escritório.
— Sim, Grande Mestre. Seu traje já está pronto em seus aposentos. — disse o velhote corcunda, mas antes mesmo que concluísse a frase Gêmeos já deixava o recinto.
Sozinho Gigars soltou um suspiro, momentaneamente aliviado.
Tinha muito trabalho a fazer, o tempo decididamente não corria a seu favor, mas antes de seguir para seu escritório particular eis que chafurdou em alguns dos arquivos sobre a mesa, em específico os que continham dados das movimentações da Yakuza.
— É o que suspeitávamos! — murmurou apreensivo. Depois fitou o Mapa-múndi e os pontos amarelos sobre a Albânia, quase próximo à fronteira com a Grécia.
Engoliu em seco e deixou a sala às pressas.
Antes de escrever o relatório solicitado pelo Grande Mestre faria mais uma de suas ligações sigilosas, mas esta de caráter urgente!
***
Hospital de Atenas, 17:25pm
Dentro do consultório de pediatria, doutor Adônis encerrava a consulta de seu agitado paciente com ótimas notícias.
— Prontinho, Kiki. Pode descer da maca. — disse o médico ao pequeno lemuriano. — Seus sinais estão bons, assim como os resultados de seus últimos exames.
— Isso quer dizer que o Kiki tá ótimo! — o menino afirmou feliz ao pular da maca e correr para o colo de Shaka, que estava sentado ao lado de Mu.
O pediatra então dirigiu-se até sua mesa e se sentou já abrindo a ficha médica do paciente para mostrar aos pais mais uma infinidade de linhas e resultados confusos de exames sanguíneos.
— Exatamente. — o médico sorriu. — Vejam, comparados, os antigos resultados dos exames do Kiki aos novos, e também aos do senhor Mu, ainda há algumas alterações em seu metabolismo, porém bem menos discrepantes após o tratamento. Contudo, temos que levar em consideração a diferença de idade. Além disso, a aparente anemia está em remissão, e os fatores de coagulação apresentaram resultados muito próximos ao que julgamos ser o normal.
Aliviado, porém não menos preocupado, Shaka apertou o filho em seu colo e questionou:
— Se ainda há alterações então ainda existe algum problema, não? O ideal seria não haver nenhuma.
Adônis olhou para ele e ponderou por um momento.
— Sim. O ideal seria não haver nenhuma alteração, porém, como eu disse, Kiki é a única criança lemuriana que eu, e também os registros da pesquisa de Hermes e vocês dois, conhecemos. Então, comparando seus resultados ao de um lemuriano adulto eu creio que podemos traçar um parâmetro bem satisfatório. Kiki ainda não produz uma gama de hormônios, e podemos pressupor que assim que seu organismo atingir a puberdade seus padrões se igualarão mais aos de Mu. No entanto, a melhora em poucas semanas foi muito significativa.
— Significativa? Seja mais claro, por favor. — disse Shaka. — O que isso significa?
— Isso significa, senhor Shaka, que fez um ótimo trabalho. — Adônis sorriu. — O pequeno está muito melhor. Não vejo mais motivos para nos preocuparmos.
— Se nem sabia dizer o que ele tinha, como pode dizer que ele está curado?
— Eu não disse que ele está curado, e sim em remissão, e que por isso podemos presumir que ele não tinha nada grave. Foi apenas um susto. — afirmou o médico. — A alimentação regulada em conjunto com a suplementação vitamínica estabilizou o quadro de anemia.
— Graças aos deuses! — Mu disse baixinho ao levar a mão ao peito aliviado.
— Porém, quero adotar uma postura profilática de exames. Não vamos nos descuidar. Além disso, quero ter um histórico de saúde desse mocinho, se não se importarem. Para o futuro da pesquisa. — Adônis disse ao recolher os exames e guarda-los em uma pasta. — Por agora, repetiremos os exames a cada quarenta e cinco dias, e se ele se mantiver estável pularemos para intervalos semestrais, até a puberdade de Kiki, assim poderemos registrar os dados da fisiologia infantil dos Muvianos.
— Tudo bem. Ajudaremos no que puder, não é Kiki? — Mu piscou ao dar um sorriso radiante para o filho, e percebendo que Shaka ainda parecia desconfiado e aflito lhe apertou a mão.
— Sim! O Kiki ajuda, ele não tem medo da agulha, e nem dói. — o ruivinho deu de ombros.
Os dois cavaleiros trocaram um olhar divertido entre si, então Shaka respirou fundo decidido a mandar embora todo e qualquer pensamento negativo, depois apertou o corpinho menor contra o peito e lhe deu um beijo estalado nos cabelos ruivos.
— Ora, estou vendo que não foi apenas essa anemia bobalhona que o meu bravo guerreiro venceu. — brincou. — Então você não tem mais medo de injeção?
— Não. — Kiki respondeu orgulhoso.
— Que menino corajoso! — disse Shaka, depois olhou para Adônis. — Doutor, alguma recomendação especial?
O médico juntou as mãos sobre a escrivaninha e sorriu para eles.
— Sim. Sorvete de chocolate, com calda de morango. — deu uma piscadinha para o paciente que olhava de volta animado. — É ótimo para garotinhos em fase de crescimento.
— Ebaa! — Kiki festejou.
Todos por fim se levantaram e gentilmente o pediatra os acompanhou até a porta e se despediu.
— Por via das dúvidas continuem com as vitaminas está bem? Mal não fará. — disse ao apertar a mão de Mu e entregar o tradicional pirulito de chiclete para o garotinho no colo do pai loiro. — Se houver qualquer emergência me procurem. Nos veremos daqui a quarenta e cinco dias.
— Que assim seja! — Mu rogou ao erguer uma das mãos os céus.
Assim que saíram do hospital, felizes e aliviados, a família decidiu seguir a orientação médica à risca e passaram na sorveteria de Rodório antes de seguir para o Santuário. Mu comprou sorvete de chocolate com calda de morango para todos.
— Hmmm, eu acho que deveríamos comemorar a semana toda com sorvete! — Áries disse ao abocanhar a iguaria gelada que quase transbordava de uma bandejinha de isopor em suas mãos enquanto usava telecinése para mover o volante do carro que o Templo das Bacantes lhe disponibilizava.
Quando chegaram ao Santuário, sem pressa alguma subiam as escadarias das Doze Casas. Shaka segurava uma casquinha em uma das mãos e o filho no outro braço, que encaixado em sua cintura degustava vorazmente uma cestinha crocante com várias bolas de sorvete.
— Baba, sabe o que o Kiki tava pensando? — disse o pequeno ariano enquanto passava a língua entre os lábios.
— Pior que eu sei. — Shaka respondeu com falsa tranquilidade.
— Não vale olhar dentro da cabeça do Kiki. — reclamou o ruivinho.
— Como se eu precisasse olhar, né Kirian. Você não fala de outra coisa além do bendito aniversário da Karina. — deu uma mordida meio nervosa na casquinha do sorvete.
— Isso mesmo. O aniversário da tia Karina que o senhor disse que o Kiki não podia ir porque tava doente. — falou, e nessa hora deixou cair uma pelota de sorvete na gola da bata indiana de algodão que o pai usava, mas imediatamente se inclinou para frente e lambeu a meleca. Quando voltou a endireitar a postura olhou diretamente nos olhos azuis de Virgem e abriu um largo e aflito sorriso. — Agora ele não tá mais doente, então ele pode ir.
Parado em frente à Casa de Leão, Shaka olhava para Kiki, para seus olhões lilases e ansiosos e a boca melecada de chocolate, indignado.
Mu havia continuado a subir os degraus, quando também decidiu parar e virar-se para eles.
— Será possível que as palavras de Shaka saem da boca dele e são levadas pelo vento antes mesmo de entrar nos seus ouvidos, Kirian? Quantas vezes ele disse que aquele algar pecaminoso e abrigo de toda a sorte de vício não é lugar para você?
— Mas o Kiki não vai no dia do vício e do pecado, Baba. O Kiki vai no aniversário da tia Karina. — disse fazendo biquinho, então apelou para o pai lemuriano. — Papai, vocês falaram que se o doutor Adônis dissesse que o Kiki não tava mais doente ele podia ir na festa. — encarava Mu com olhos pidões.
Mu estava encurralado.
Com a bandejinha na mão e a colher cheia de sorvete parada no ar ele alternava o olhar entre o filho e o marido sem saber o que responder, então para ganhar tempo enfiou o sorvete na boca e deu as costas aos dois voltando a subir as escadas.
— Em casa a gente vê isso aí. — respondeu com a boca cheia e um tanto nervoso.
Nem Kiki, tampouco Shaka, ficaram satisfeitos.
O indiano retomou a subida em silêncio, enquanto Kiki tomava o sorvete na esperança de que até chegarem em casa já teria pensado em alguma forma de convencer os pais.
Mas nem foi preciso o pequeno lemuriano pensar tanto.
Quando os três chegaram aos últimos degraus da Sexta Casa eis que alguém os esperava na frente do Templo prestes a surtar de ansiedade.
— Madonna mia, que eu já estava quase tendo um infarto no miocárdio aqui! Como vocês demoraram!
Geisty desceu os últimos degraus indo sorridente de encontro a eles. Nas mãos ela trazia uma grande caixa de papelão forrada em papel amarelo aveludado com estampa de dinossauros.
— Tia Gê! — Kiki acenou com um sorrisão animado e adocicado. Não parecia nem um pouco surpreso em vê-la ali.
— Oi, meu garotão! — a amazona respondeu com igual empolgação.
Para Shaka e Mu também não foi nenhuma surpresa Geisty estar ali naquela hora, e nada surpreendente também era o modo como estava vestida, parecendo que tinha acabado de sair do filme do John Travolta, Nos Templos da Brilhantina.
— E aí? Gostaram do meu figurino? — perguntou ela dando uma volta em torno de si mesma fazendo balançar no ar a vultosa saia de tafetá amarelo com bolinhas pretas até os joelhos, armada por camadas e mais camadas de tule a perder as contas. A parte de cima era uma blusinha branca bem justa que combinava com as sandálias de salto altíssimo, também brancas. O cabelo ela trazia enfeitado por uma faixa e laço enorme do mesmo tecido da saia.
— Está linda! — disseram Mu e Kiki em sincronia perfeita.
Shaka apenas balançou a cabeça ao modo indiano que indicava aprovação.
A festa da bacante Karina era um baile temático, com comidas, bebidas, música, figurino e tudo o que remetia à icônica década de 1960, muito explorada pelo cinema e cultura pop. Comemorar os vinte e seis anos de Karina no Templo das Bacantes, com a casa fechada e só convidados da garota, tinha sido ideia de Geisty, que tudo fazia para que aquelas moças e rapazes que no passado perderam tudo pudessem ter uma vida o mais próximo possível da normalidade, com direitos reconhecidos, liberdade, incluso festas de aniversário caprichadas.
— Mas, vamos ao que interessa: Como foi lá no hospital? — Geisty perguntou ansiosa.
— Foi tudo ótimo! — Mu respondeu feliz. — Graças aos deuses Kiki está muito bem. Parece que tudo não passou de um susto.
A morena suspirou aliviada, e antes que dissesse qualquer coisa o ruivinho curioso espichou o corpo para frente tentando bisbilhotar a enorme caixa que ela tinha nas mãos.
— E o que é isso aí, tia Geisty? É o que o Kiki tá pensando?
Sorridente, a amazona se aproximou do menino e lhe estendeu a caixa dando uma piscadinha marota.
— É exatamente o que está pensando.
O garotinho arregalou os olhos e rapidamente estendeu o resto do seu sorvete para Mu, que apanhou apressado a cestinha melada nas mãos. Na mesma hora Kiki esticou os braços para apanhar a caixa, mas Shaka foi mais rápido.
— Alto lá! Vocês estavam de conluio esse tempo todo bem debaixo dos buracos do nariz de Shaka? — reclamou o virginiano depois de enfiar o resto da casquinha de sorvete na boca e apanhar a caixa primeiro.
— Ainda bem que os buracos do seu nariz não têm olhos, né Baba? Dá a caixa pro Kiki abrir.
— Não vai abrir nada com essas mãos sujas de sorvete, Kirian. Já me lambrecou o cabelo todo, a roupa, minha alma, agora vai melecar também a caixa? Vamos entrar, então você lava essas mãos, termina de tomar seu sorvete e...
— O Kiki nem quer mais sorvete, quer ver o que ele ganhou! — rebateu eufórico interrompendo o pai, depois teleportando-se com caixa e tudo para o interior do Templo.
Abasbacado com a traquinice do menino Shaka ficou sem reação. Os braços ainda na mesma posição de quando seu colo estava cheio de Kiki e de caixa.
— Mu de Áries, você viu isso? — fitou atônito o lemuriano que prendia o riso enquanto metia sorvete boca adentro.
— Uh-hum... vi.
— É o seu filho! Que criança desobediente!
— Graças aos deuses, né Sha? O nosso filho é uma criança esperta, contestadora e saudável. Sobre ele ser desobediente, eu acho que tem a quem puxar. — brincou o ariano, depois fez um sinal para que Geisty o acompanhasse até o interior do Templo, o qual foi atendido prontamente.
— As palavras de Shaka não são ouvidas mesmo nessa casa... Ele é um autofalante desligado. Ninguém escuta. Ninguém. — resmungava o indiano os acompanhando um pouco mais atrasado.
— Eu estou escutando, Luz da minha vida. — disse Mu aos risos.
— E tem como não ouvir? — completou Geisty segurando parcamente uma risada.
Assim seguiram até a sala, e quando lá chegaram deram de cara com um Kiki que era pura euforia.
— Baba, papai, olha! Olha! — dizia empolgando chacoalhando no ar duas peças de roupa. Uma camisa de botão branca, e uma graciosa gravatinha borboleta de tafetá amarelo bolinhas pretas, a qual fez questão de mostrar em destaque. — É igual do vestido da tia Geisty!... E tem uma jaqueta de couro! Olha só! — mostrou a terceira peça.
— Mas veja só! Que grande coincidência combinar com o vestido dela, não é mesmo? — Áries disse irônico e divertido. — Por que será, heim dona Geisty?
Ambos os cavaleiros nessa hora encararam a amazona.
Mu tinha a fisionomia alegre, mas Shaka sustentava um silêncio obstinado, até que após um momento deixou escapar um suspiro longo, fechou os olhos e balançando a cabeça caminhou apressado até um dos cantos da sala, onde agora uma árvore de gato integrava a decoração exótica daquele ambiente.
Aquela batalha o Cavaleiro de Virgem já havia perdido.
Geisty, com um semblante um pouco culpado, se aproximou de Kiki e ajoelhou-se no chão diante dele.
— Porque a tia quer saber se vai poder ter a honra de ser o par do Kiki no baile de aniversário da tia Karina. — disse animada dando um beijinho na bochecha do garotinho. — E porque é difícil encontrar um partidão como o Kiki dando sopa por aí, sabe? E então? — disse com um sorriso imenso, mordendo o lábio inferior em expectativa.
— É claro que o Kiki... vai poder ser o par da tia Geisty? Não vai? — o ruivinho transformou a afirmação em pergunta quando inclinou o rosto e procurou pelo pai indiano pela sala. — Baba?
Em sincronia perfeita todos os três olharam para o virginiano, que agora voltava para perto deles trazendo nas mãos um minúsculo, porém barulhento, pacotinho de pelos pretos enrolado em uma pequena manta carmim estampada com flores de lótus.
— Vocês não ouviram ele chorar? — disse Virgem. — Eu falei que passar na sorveteria iria atrasar a hora do tetê dele. O pobrezinho está faminto.
— Baba, o senhor está fugindo do assunto. A questão aqui é o Kiki ir na festa da tia Karina, e não o tetê do Saravá Ebó. — disse com propriedade o lemuriano apontando o dedinho em riste para o pai indiano, gesto exatamente igual ao que Mu fazia quando Shaka fugia de alguma discussão.
De olhos fechados, e dando o dedo mindinho para o gatinho esfomeado mamar, até porque não conseguiria pensar com aquele silvo de miados desesperados em seus ouvidos, Shaka ponderou por um momento.
— Está bem.
— Ebaaaa! — Kiki gritou exultante saltando para o sofá onde dava repetidos pulinhos, enquanto Mu e Geisty trocavam olhares e abafavam o riso.
— Calma, lá! Escute o que vou te dizer primeiro. — disse o virginiano. — Você pode ir, mas nem pense em sair de perto da sua tia, ou do Aldebaran, do Afrodite, do Aiolia, da Marin... muito menos do seu pai. Não fique sozinho em hipótese alguma. Não beba gelado. Não coma muito doce. Se ouvir as messalinas e michês falando sobre assuntos mundanos de gente adulta você...
— O Kiki sai de perto porque é criança e não é assunto para ele. Baba, o Kiki sabe já de tudo isso.
— Espero que saiba mesmo. É a confiança de Shaka no Kiki que está em jogo. — disse firme o indiano, agora de olhos abertos fitos no filho. O gatinho mamava seu dedo com voracidade, o que o ajudou também a tomar aquela decisão com tamanha ligeireza. — Eu vou preparar o tetê do Siddhartha.
— Saravá Ebó. — corrigiu Kiki.
— Temônio! — Mu exclamou, e logo foi furiosamente encarado pelo esposo e pelo filho. — Que foi? Já que ninguém chega a um acordo eu também posso dar um nome para esse tiziu devorador de dedos. — sorriu confiante ao dar um fim a cestinha crocante de sorvete em apenas duas grandes bocadas.
Shaka revirou os olhos. Era ele mesmo a única esperança que aquele pobre gato tinha de ser portador de um nome digno.
— Eu gosto de Saravá Ebó. Combina muito mais com um gato preto que foi achado numa sexta-feira treze comendo da comida de um despacho deixado na encruzilhada. — disse Geisty acariciando a cabecinha do gato, depois olhou para Áries, bateu palmas para quebrar aquele momento de contemplação no gatinho e apontou agitada para o relógio dourado que ficava preso à parede. — Então vamos nessa, Mu? Agiliza as coisas aí porque a banda que contratamos já chegou e o baile vai começar em meia hora. Sou a organizadora da festa. Não posso chegar atrasada, e nem sem o meu par. — piscou matreira para Kiki, que fez um verdadeiro contorcionismo facial para devolver a piscadinha para a tia.
— Certo, se não decidimos o nome desse saquinho de pulgas até hoje, não vai ser agora que vamos chegar a um acordo, não é? — falou Mu enquanto terminava de tomar o próprio sorvete para descartar a bandejinha de isopor na lixeira, depois caminhou até o filho e lhe tomou a mão. — Vamos para o banho, que você está só a imundice de chocolate. Leva as coisas para o quarto dele, Geisty. Em cinco minutos a gente tá lá.
— É para já. — respondeu a amazona enfiando tudo dentro da caixa novamente e já correndo para o quarto.
Sozinho na sala Shaka soltou um longo suspiro.
— Está vendo, né Siddhartha. Insistiram em te adotar, mas se não é Shaka para pensar em você morreria de fome e de frio. Sobra tudo para Shaka, sempre. — murmurava fazendo festinha e erguendo o gatinho até a altura dos olhos, que se esgoelava entre miados e rosnados enquanto pelejava para agarrar-lhe o nariz com as garrinhas. — Quem é a coisinha mais preta e furiosa desse mundo desgraçado? É o Siddhartha!... Oh! Que feroz! Cresceu bastante e já está todo cheio de si. Imagina se fosse do tamanho de um elefante! Quer o seu tetêzinho? Shaka vai fazer.
Poucos minutos depois estavam todos de volta à sala. Shaka alimentava o gatinho em seu colo com uma minúscula mamadeira, enquanto Mu terminava de pentear Kiki firmando com gel o enorme topete ruivo, e Geisty ajeitava sua gravatinha borboleta.
— Ó, você vai na frente com a tia Geisty, e avisa a tia Karina que o pai vai se atrasar um pouco porque ainda tem que se arrumar, ok? — disse passando o pente com cuidado no cabelinho do filho para não deixar nenhum fio desalinhado.
— Ok. O senhor vai sem par mesmo? — Kiki perguntou.
Mu olhou rapidamente para Shaka antes de responder.
— Fazer o que, né filhote? O meu par para o baile não pisa em solo mundano e pecaminoso... Comporte-se. Se eu chegar lá e souber que fez malcriação te trago de volta! Estamos entendidos?
— Siiim! — respondeu eufórico, mal conseguindo ficar parado. O look retro fora primorosamente arrematado com uma calça jeans rasgada nos joelhos e sapatos envernizados.
Terminado, Mu guardou o pente no bolso traseiro da calça jeans do menino e lhe deu um beijo no rosto antes de se levantar.
— Então tudo certo, James Dean. Já está pronto! Não deixe mais seu par esperando.
Mal foi liberado o garotinho agarrou o pacote com o presente que Mu havia comprado para a aniversariante e pegou na mão de Geisty, que sorriu para ele emocionada.
— Que homem mais lindo, minha deusa! Hummm... Você está um pão! — disse a amazona sorrindo e se inclinando para dar um beijo na bochecha do lemurianinho.
— Um pão?
— É. Antigamente, quando alguém era muito bonito, se falava que a pessoa era um pão, porque pães são bonitos e gostosos. — Geisty respondeu, ouvindo um leve pigarrear vindo de Shaka. — Vamos?
— Vamos! — disse Kiki aos risos, depois acenou para Shaka todo sorridente. — Tchau Baba, tchau Saravá!
Virgem tomou a minúscula patinha do gato entre dedos e acenou de volta para ele com ela.
— Lembra do passinho de dança que a gente ensaiou a semana toda? — Geisty perguntou seguindo para a porta de saída.
— Lembro sim! Olha só! — disse Kiki, e enquanto andavam de mãos dadas dava saltinhos, repetindo os passos ensaiados numa animação de causar inveja — Não vou fazer feio com o meu boto no baile! — disse sorrindo sendo acompanhado pela gargalhada da amazona.
— É broto! — ela o corrigiu.
Virgem e Áries acompanharam os dois até a saída da Sexta Casa e os observaram descer as escadas enquanto riam e brincavam entre si. Era visível a felicidade de ambos.
Satisfeito pela alegria do filho, um pouco menos, porém não ainda totalmente despreocupado, Shaka ergueu o olhar e fitou o céu noturno. Pelo posicionamento das constelações no firmamento podia-se ver que estava perto das oito horas, portanto era relativamente cedo ainda.
Pensando nisso, e tirando proveito de estar sozinho ali com Mu, Shaka aproximou-se até que seu corpo estivesse perfeitamente encaixado na curva do quadril do ariano, então com a mão que tinha livre lhe acariciou as nádegas enquanto dava um beijo demorado em seu pescoço.
— Pode não ter par para o baile mundano, mas para o banho você tem. — sussurrou as palavras no ouvido de Mu, que estremeceu ao ouvi-las.
— Hum... já vi que vou demorar mais do que o esperado e chegar atrasado nesse aniversário. — confessou o lemuriano com um sorriso, e na mesma hora virou-se de frente para Virgem e segurou seu rosto com ambas as mãos. Seus olhos cravados nos lábios voluptuosos que exalavam um hálito quente com aroma de chocolate. — Mas vai ser o atraso mais bem justificado da minha vida.
Beijaram-se com paixão e anelo ali mesmo antes de voltarem apressados ao interior do Templo.
***
Templo das Bacantes, 07:38pm
No amplo espaço do salão principal do bordel, a proposital decoração erótica em tons quentes que tanto instigava a luxuria da clientela, naquela noite ganhou um colorido especial. O vermelho forte, o preto e o magenta vivo deram lugar ao rosa claro, aos variados tons de azul e ao amarelo, tons predominantes na decoração retro que remetia à década de 1960. Elas estavam nos balões de gás hélio que flutuavam por toda a parte em arranjos que iam do chão ao teto, nas toalhas quadriculadas das mesas, nos copos e garrafas de refrigerante. As paredes aveludadas agora estavam forradas com dezenas de discos de vinil. Luzes coloridas piscavam serelepes contornado o balcão do bar, que tinha sido transformado em uma ampla vitrine de sorveteria.
No palco principal, perfeitamente caracterizados, uma banda ateniense tocava os hits mais famosos daquela época, fazendo um passeio eclético por canções e interpretes consagrados como Bob Dylan, Jacksons 5, Roling Stones, Beatles e Bee Gees, enquanto na pista de dança improvisada no meio do salão os convidados se esbaldavam com seus pares em uma disputa acirrada de twist que terminou em uma histórica zebra. Aiolia e Marin venceram os pés de valsa Aldebaran e Karina, favoritos ao primeiro título da noite. Máscara da Morte e Shina ficaram com o terceiro lugar, e como prêmio ambos ganharam um CD do Elvis Presley.
Com o fim da primeira batalha de dança, e após a premiação do casal vencedor, a pista voltou a ser ocupada também por aqueles que não participavam da competição.
Karina, muito animada com a festa, a qual era a realização de um sonho antigo juvenil, esbanjava alegria e disposição. Naquela noite ela iria dançar até seus joelhos falharem, e por isso mesmo que não negava um convite a ninguém que lhe puxasse para o meio da pista. Não à toa também havia escolhido seu par para aquela noite: Aldebaran. O maior pé de valsa do Santuário de Atena.
No entanto, a belíssima sérvia pediu licença ao brasileiro para tirar outro homem para dançar. Este concedeu de pronto, indo pegar outra cerveja no bar sorveteria.
Karina então seguiu a passos apressados, enquanto agitava sua saia rosa chiclete pelo salão, até onde estavam Afrodite e Fúlvia sentados em uma das mesas. Ela logo apressou-se a inclinar-se sobre ele.
— Afrodite, pelo amor da sua deusa, está tocando Bang Bang da Cher. Você tem que dançar comigo! — disse a loirinha já puxando o sueco pela mão.
— Ei! Vão me deixar aqui sozinha? — reclamou Fúlvia. — O seu Mu ainda nem chegou!
— Ah, claro, quando ele chegar ele vai ficar com você, né Fúlvia? — disse Karina. — E você não está sozinha. O salão está cheio de gente. Com licença.
Antes de sair Afrodite acenou para Fúlvia com um risinho no rosto. Estava vestido com uma calça branca boca de sino, uma camisa de seda rosa algodão doce, e o cabelo escovado à lá Farrah Fawcett.
Quem não o conhecia poderia jurar que havia acabado de sair de um concerto do Abba.
— Dadá misericordioso! Te devo mais essa, Karina com K. — suspirou Afrodite enquanto de mãos dadas à aniversariante seguiam para o meio da pista de dança. — Já não aguentava mais aquela gralha iludida. Seu Mu para cá, seu Mu para lá... — suspirou novamente.
Karina ria ao mesmo tempo em que lhe chamava a atenção.
— Não teria que aguentá-la se tivesse trazido o Batman. Eu falei para convidá-lo. Não queria ninguém sem par. Até o seu Ananias da barraca de bananas da feira de Rodório eu chamei para a Shina, que adora aquele homem, não ficar sem par, já que ela não estava botando fé no Máscara da Morte, mas não é que ele veio mesmo! — sorriu.
— Ponha-se no seu lugar, Karina com K. O Batman não vem nem ao aniversário do Senador e você aí achando que ele viria em aniversário de quenga? Acorda, Alice.
— Credo. Eu, heim, Afrodite. Vai me pisar que nem barata agora, ingrato? Olha que te largo com a Fúlvia de volta.
— NÃO! — Peixes deu um grito tão alto que o salão todo olhou para ele. — Fica aqui. Pelo menos até a Mosca e o meu afilhadinho chegarem. Provavelmente o Mu estará com eles e aí a malassombrada da Fúlvia gruda nele.
Karina sorriu para ele e começaram a dançar.
Quando Geisty e Kiki chegaram Aldebaran foi recebe-los com sua inigualável e contagiante alegria. Assim que viu o brasileiro ali, o pequeno lemuriano correu até ele e fizeram seu ensaiado e habitual cumprimento, um bater de mãos no ar seguido de um passinho de pagode.
Do meio do salão Karina e Afrodite também os viram chegar e na mesma hora foram exultantes até eles. Peixes e Serpente cumprimentaram-se com o entusiasmo de velhos amigos. Nem parecia que tinham passado a tarde toda juntos a aprontarem-se para a festa. Kiki entregou o presente a Karina, que era toda sorrisos e olhos brilhantes, e enquanto todos conversavam alegres, e Afrodite abaixava-se para distribuir beijos no rostinho eufórico do lemuriano, outra figura surgiu ali para saudar os recém-chegados.
— Olááá, Kiki! Nossa, mas você está o próprio James Dean com esse topete primoroso!
Peixes levantou o olhar quando reconheceu a voz, e sua fisionomia alegre se fechou de repente.
— Oi tio Misty! O Kiki está bonitão, né? — Kiki respondeu virando-se para Lagarto enquanto fazia uma pose segurando na gola da jaqueta de couro.
— Bonitão? — Misty brincou levantando as sobrancelhas. — Bonitão estou eu. Você está um arraso! — sorriu, depois acenou para Geisty que respondeu apenas com um aceno de cabeça.
— E você, Afrodite? Que bicha de sorte você é, né? Tem essa criança fofa para bajular, já que não pode nem chegar perto da outra criança. — deu um risinho debochado e uma piscadinha para Kiki, que na mesma hora virou-se para Afrodite e o encarou curioso.
— Que outra criança você não pode nem chegar perto, dindo?
Peixes levantou-se encarando com fúria os olhos de Misty que o fitavam desafiadores.
Se pudesse afoga-lo na tigela de ponche...
— Que outra criança? — disse o pisciano, aflito e perdido. — Como que outra criança?... Eu mesmo, ora essa.
Kiki franziu a testa pensativo.
— Como assim?
— Meu amor. O meu eu mirim, meu eu infantil, quem mais seria? Como poderia chegar perto do meu eu criança se eu já sou gente grande? Pegou? — disse encostando o dedo na ponta do nariz de Kiki, que riu divertido.
Geisty os estava observando atentamente de uma certa distância, e nem quis esperar sair algum entrevero entre ele e Misty, já que percebia o suposto coágulo de Afrodite falando por ele. Imediatamente foi até lá tirar o garoto do meio daqueles dois.
— Ei, Kiki! Você viu que tem uma sorveteria aqui? — disse ela tomando o lemuriano pela mão e com a outra apontava na direção do bar. — Tem banana Split! E tem também máquina de chiclete e de algodão doce.
— Eba! E tem cachorro quente? — Kiki perguntou animado e deslumbrado.
— Claro que tem. E Cheese Burguer, marshmallows e maça do amor também! — disse a amazona esticando os olhos para Peixes. — Ei, Afrodite! Vem, vamos ganhar umas calorias!
— Já estou indo. — o sueco respondeu ainda encarando Misty nos olhos. — Qual é a sua, Lagartixa do Tejo? Será possível que não desiste nunca de vuduzar a minha vida?
Misty riu em alto e bom tom.
— Eu ainda não encontrei nada mais divertido para fazer por enquanto. — respondeu, depois terminou de chupar o milk-shake que tomava e abandonou o copo sobre uma das mesas. — Com licença. O meu par está me chamando.
Lagarto saiu dali para se juntar a Ronie, Rebeca, Aiolia e Marin do outro lado do salão, e Peixes o seguiu com os olhos por um momento. Estava verdadeiramente irritado, mas não deixaria que aquele sujeitinho rancoroso estragasse sua noite. Kiki estava ali, e isso significava que as notícias no hospital tinham sido boas. Se Mu e Shaka permitiram que ele viesse à festa significava que estava curado, e isso era motivo de sobra para ficar feliz e comemorar.
E todos comemoraram de fato.
A alegria de Geisty, Aldebaran e Afrodite era palpável.
Rodeado por eles, e também pelos outros cavaleiros e amazonas, pelas bacantes e pelos garotos, Kiki brincou, comeu, dançou, recebendo amor e sendo paparicado por todos.
Na segunda batalha de dança foram ele e Geisty para o meio da pista executar os passinhos ensaiados durante toda a semana, e o entrosamento entre os dois encantou a todos. Os aplausos no final da apresentação fez o coração de Kiki bater tão forte que ele pensou que fosse explodir de alegria.
A decisão foi por unanimidade. Ficaram em primeiro lugar. Como prêmio Kiki ganhou um beijo estalado da amazona, e Geisty ganhou um sorriso de autêntica alegria que esquentou seu coração. Ambos ganharam também um DVD do Abba.
— A gente arrasou, né tia Gê? — disse Kiki enquanto caminhava ao lado de Serpente em direção à mesa onde estavam Afrodite e Aldebaran.
— Arrasamos! De hoje em diante eu não quero outro par de dança. — ela parou de andar e olhou para ele. — Você é o melhor par do mundo! Por isso, vai ganhar o prêmio máster!
— Você trouxe? — o menino arregalou os olhões lilases.
— Mas é claro que eu trouxe! Achou que esqueceria? — a amazona respondeu enfiando uma das mãos dentro da blusa, mais precisamente dentro do sutiã. Kiki riu do esconderijo. — Aqui está. Armamento pesado! Super, mega, ultra bolota de chiclete do tamanho de uma bola de ping pong.
— UAU! — ele exclamou deslumbrado. — É gigante mesmo! Como você tinha falado!
— Hum! Comigo o papo é firme, garoto. Toma, pega!
Como num gesto ensaiado cada um meteu na boca sua bolona de chiclete ao mesmo tempo e seguiram cruzando o salão mastigando com certa dificuldade.
— Tem que mastigar com a boca aberta. — dizia Geisty mascando a sua.
— Ainda bem que o Baba não tá vendo isso. — Kiki ria dando saltinhos.
— Exato. Esse tipo de coisa não dá para fazer na frente do Shaka. São muitos pecados consecutivos.
Kiki ria se divertindo com chiclete quando de repente algo aconteceu.
Uma estranha sensação tomou de assalto seu corpo e assustado ele estancou no lugar.
Fechou os olhos e lutou contra ela por um instante, mas o que era apenas uma sensação súbito se transfigurou em uma rigidez excruciante em seus músculos, e a resistência logo se tornou insuportável.
Como se alguém espalmasse as mãos em suas costas e com toda a força e raiva do mundo o empurrasse, ele sentiu-se ser lançado para frente.
As pernas não o obedeciam, tampouco sua mente poderosa.
Era como se tudo de repente tivesse se apagado dentro de si e ele fosse desligado.
Lançado no escuro ele caiu.
— AFRODITE, ALDEBARAN! AJUDA! AJUDAAA!
Os gritos de Geisty reverberaram pelo salão fazendo a música parar.
Tudo ali tinha parado.
Somente o corpo trêmulo e retesado de Kiki tinha algum movimento, pois que os espasmos violentos eram contidos pelos braços de Geisty, que de joelhos no centro da pista de dança tentava contê-los.
— MINHA NOSSA SENHORA! O que aconteceu? — disse um desesperado Aldebaran que se jogou de joelhos ao lado da amazona prontamente segurando a cabeça do garotinho para que não batesse mais contra o chão.
— Ele está tendo uma convulsão! TIRA O CHICLETE DA BOCA DELE! TIRA! TIRA! — pedia desesperada a amazona enquanto pelejava para abrir a boca de Kiki, que parecia selada como que por um feitiço.
— Vira ele de lado. — disse Afrodite, que imediatamente em seguida forçou a mandíbula do menininho e conseguindo um espaço para enfiar os dedos retirar o chiclete. Muita saliva saia por ali, acompanhada de uma exorbitante quantidade de sangue que lhe vertia pelo nariz.
Parada diante deles Karina assistia à cena em pânico com ambas as mãos sobre o coração.
Certamente ela jamais esqueceria daquela festa de aniversário.
Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic
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