Notas iniciais
Depois de duas semanas de agonia, qui está tão temida continuação... segurem seus forninhos e vamos lá. ps: essa arte que Rosenrot fez acaba comigo T.T ( Hamal)

Hospital de Atenas, 09:44pm

Alucinados, os cavaleiros de Áries e Virgem corriam pelos frios e desbotados corredores da Ala 5 até o setor que compreendia as unidades de terapia intensiva.

Em seus rostos lívidos, o desespero e o terror imprimiam uma marca.

***

Momentos antes na Casa de Virgem.

De frente para o belíssimo espelho indiano de madeira esculpida em ricos detalhes e pintado à mão, Mu pelejava para fazer um topete a lá Elvis Presley em seu cabelo. Já passava a terceira camada de gel nos fios lavanda da franja quando sentiu quentes braços envolverem seu torso por debaixo da camisa branca aberta. As mãos buliçosas logo começara a lhe acariciar o peito, então com um sorriso aprazível olhou para o reflexo de Shaka no espelho, que atrás de suas costas, e com o queixo apoiado em seu ombro, olhava de volta enquanto lhe esfregava o rosto e a pontinha do nariz no pescoço quente.

— Hmm... eu adoro o odor natural da sua pele. — disse o virginiano mordendo os lábios, que completamente nu, com a pele e os cabelos ainda molhados do banho, colava seu corpo ao dele o provocando. — Me faz perder completamente a razão.

— Que cheiro natural? O de sabonete? — Mu respondeu divertido, finalmente conseguindo deixar o topete em pé.

— Não. O seu cheiro. Cheiro de homem! — disse Shaka, com os olhos grandes, azuis e brilhantes fitos nos dele através do espelho. Sorriu sedutor lhe beijando o pescoço.

Mu lhe sorriu de volta.

— Passamos tanto tempo debaixo daquele chuveiro que estou até enrugado... além de muito atrasado!

Virgem deslizou uma das mãos até o meio das pernas do ariano e lhe apalpou o pênis ligeiramente rígido sem nenhum pudor.

— Não tem nada enrugado por aqui. — sussurrou.

— Hmm Sha... Não faz isso não. — Mu ralhou sem muita firmeza, enquanto sua mão já descia e segurava o pulso do indiano. — Eu preciso ir à festa. Prometi à Karina que ia...

— E o que vale mais para você? Uma messalina feliz ou o seu marido satisfeito? — mordiscou o lóbulo da orelha do lemuriano o provocando. Estava feliz. Sentia-se pela primeira vez desde semanas aliviado, e queria aproveitar que estavam sozinhos e não precisariam se amar cheios dos pudores e cuidados que se exigiam quando Kiki estava em casa.

— Aaah... Isso é covardia! — Mu bem que tentou argumentar, mas enquanto Shaka lhe puxava sem nenhuma cerimônia a camisa já sentia-se extremamente excitado. Abruptamente se virou de frente para ele e segurou com força em seu rosto afogueado, o encarando nos olhos. — Você é uma praga!

Shaka deu um sorriso cheio de malícia.

— Eu te amo! — sussurrou fechando os olhos e buscando os lábios de Mu.

Entre beijos voluptuosos e provocações ambos travavam uma verdadeira batalha pelas roupas do lemuriano, que ainda tentava impor uma ínfima e vã resistência, pois que o vencedor daquela disputa já estava definido desde seu início.

Era bem verdade que Mu fizera nenhum esforço para resistir. Ele também ansiava por aproveitar ao máximo aquelas horas a sós com o marido, e sua “resistência” se dava mais por uma justificativa inconsciente pelo bolo que estava dando no aniversário da colega de trabalho.

Logo, a ausência das roupas no corpo forte e viril do ferreiro era o troféu do Santo de Virgem.

Já completamente rendido ao desejo de tomar mais uma vez o indiano, Mu o pegou nos braços e o conduzia até a cama com certa pressa, porém algo inesperado jogou por terra quaisquer planos que pudesse traçar ainda para aquela noite.

Como se fosse atingido por uma bala perdida, Mu sentiu uma pontada forte e repentina na cabeça. Não chegava a ser uma dor, era mais uma sensação, mas que fez todo seu corpo se retesar abruptamente o obrigando soltar Shaka na mesma hora e de qualquer jeito sobre a cama que já estava desfeita.

— Aaaii! — gemeu em visível agonia enquanto levava a mão à fronte e sentindo-se um pouco tonto tateava o colchão com as mãos para se sentar.

Surpreso e preocupado, prontamente Shaka foi até ele em seu auxílio.

— Marido! O que foi? — perguntou aflito saltando da cama para sentar-se ao lado dele.

Com o rosto contorcido Mu abriu os olhos e encarou os de Shaka, transmitindo a ele o sofrimento que sentia.

— Kiki!

— O quê? — Virgem arregalou os olhos perturbado.

— Aconteceu alguma coisa com o nosso filho! — Áries murmurou com dificuldade.

Por precaução havia mantido ativo o elo racial que tinha com Kiki, e fora justamente essa ligação que permitiu ao lemuriano perceber o sofrimento do filho. Sua mente de repente ficou confusa, como se fosse atingida por ondas psíquicas dolorosas.

— Por Buda!

— Me ajude a levantar, Shaka. Precisamos ir até ele. Está acontecendo alguma coisa.

Nada mais foi preciso ser dito.

***

Enquanto corria ofegante pelos corredores do Hospital de Atenas, em silêncio, e com o coração espremido dentro do peito, Shaka rogava a Buda que tivesse a chance e a benção de encontrar seu filho bem. Que tudo não tivesse passado de mais um susto apenas, no entanto, uma sensação terrível lhe esmagava o peito. Era a mesma que vinha sentindo há algumas semanas, mas que só agora parecia, enfim, tê-lo atingido em cheio, forte feito um golpe de martelo.

A seu lado Mu tinha os olhos verdes arregalados, como se tivesse se antecipado à má notícia. Através do elo lemuriano agora não mais sentia a agonia que o fez quase perder os sentidos ainda na Casa de Virgem e precisar da ajuda de Shaka para se vestir e partir para o hospital segundos após receber a ligação de um aflito Aldebaran.

Quando cruzaram o corredor que dava acesso às salas de terapia intensiva avistaram, logo na entrada, antes da porta de acesso restrito aos médicos e enfermeiros, Afrodite, Geisty e Aldebaran, todos visivelmente abalados.

Mu sentiu um calafrio lhe percorrer todo o corpo quando de longe ainda olhou para a amazona, a qual em desassossego esfregava nos dedos a faixa amarela de poás pretos, que antes levava nos cabelos, na torturante tentativa de limpa-los do sangue que os tingia de vermelho. Manchada de sangue vivo também estava a camisa branca e a saia amarela que ela vestia. O Santo de Áries sentiu o peito congelar.

— Pela deusa, eles chegaram! — murmurou Geisty, e o som dos saltos nos passos apressados que ecoavam pelo corredor silencioso ditaram a trilha sonora sinistra daquele encontro.

Antes olhando distraídos para o vazio, cada qual com os seus pensamentos correlatos num silêncio funesto, Afrodite e Aldebaran na mesma hora voltaram-se para eles. Ainda não sabiam o que dizer. Estavam demasiadamente assustados até para reagir.

De frente para Mu e para Shaka, que pararam ali a fitando em choque, Geisty estancou. Os encarou por um momento com os olhos arregalados e marejados; o rosto vermelho contorcido de quem imprime grande força para não chorar. Seu corpo tremia de cima a baixo de forma notória, e as mãos gesticulavam aflitas.

— Mu, Shaka, me desculpem... O Kiki... o Kiki... Eu... Eu não sei o que aconteceu... Não sei! — atropelando as palavras ela tentava, em vão, dar explicações de algo que nem ela mesma era capaz de compreender. — Estava... estava tudo bem. Foi de repente!

— Pelos deuses, Geisty, o que foi de repente? — Mu perguntou aflitíssimo.

Shaka tinha o rosto pálido e transfigurado em terror.

— Pela poderosa Atena... — ofegou a amazona quando não foi mais capaz de segurar as lágrimas. Seus dedos trêmulos manchados de sangue eram seguros pelas mãos frias de Mu.

Nesse exato momento Aldebaran chegava ali afoito, e assim como Geisty tinha os nervos à flor da pele.

— Minha Nossa Senhora da Divina Providência, graças à Atena vocês dois chegaram! — disse em tom de voz vacilante.

— Deba, o que houve com meu Kiki? — Mu olhou para o amigo, mas nessa hora Geisty o puxou pelas mãos e desatinou a falar, ainda atribulada.

— Levaram ele Mu... Ele estava bem, não foi nossa culpa... eu cuidei dele, eu cuidei...

— Nós cuidamos dele, Mu. Ele estava bem, ele estava... — tentou dizer Afrodite, que ao lado deles tinha o rosto tão assustado que mais parecia uma imagem sacra em sofrimento.

— Se acalmem, gente! — pediu Mu à amazona lhe apertando as mãos enquanto corria os olhos vidrados pela roupa que ela usava, e depois pelas mãos sujas de sangue do pisciano. — Cadê o meu filho? O que aconteceu com o Kiki? Por todos os deuses do Olimpo, esse sangue é dele? — perguntou mesmo já sabendo a resposta.

Aldebaran a seu lado engoliu em seco, depois trocou um rápido olhar aflito com Shaka, que tinha os olhos bem abertos e a fisionomia de uma fera acuada.

Rapidamente Virgem mudou o foco para Afrodite, o percebendo claramente em choque, como se estivesse em pânico.

Em pânico ele também estava.

Nesse instante Geisty engoliu um soluço respirando fundo e com os lábios trêmulos tentou responder a Mu:

— É!... Esse sangue... é do Kiki. — disse ela em desespero. — Me desculpe Mu, o... o Kiki está lá dentro. Ele teve uma... — fez uma nova pausa acompanhada de um soluço.

— Por Atena, Geisty, o que ele teve? — gritou Mu chacoalhando levemente as mãos dela.

— Uma convulsão, eu acho... Ninguém dá resposta para gente, Mu. Entraram lá e não saíram mais. Eu não sei o que aconteceu, levaram ele lá pra dentro e...

De repente ouviram um estrondo.

Uma pancada na porta dupla que separava o corredor das unidades interiores chamou a atenção imediata de todos, que olharam naquela direção ainda em tempo de ver o Santo de Virgem cruzar a passagem e entrar correndo na área de acesso restrito aos médicos e enfermeiros.

— Merda! — foi tudo o que Mu conseguiu dizer antes de soltar as mãos de Geisty e sair correndo atrás do marido.

Aldebaran levou ambas as mãos à cabeça em desespero.

Afrodite fez o mesmo gesto, porém as espalmou sobre o peito. O pomo de adão subiu e desceu em agonia.

Geisty torceu o lencinho amarelo de bolinhas nas mãos.

— Ih rapaz, agora fodeu de vez. — murmurou o brasileiro com os olhos estatelados fixos à porta, depois de um giro em torno de si mesmo e juntou as mãos à frente do rosto, angustiado. — Atena que me desculpe, mas eu vou rezar pra Nossa Senhora da Cabeça. Só ela pra ajudar nessa hora... Anda, Geisty, reza comigo.

Aflita a amazona olhou para ele.

— Rezar?... Eu... eu não sei rezar, não. — disse chorosa.

— Quê? Como assim tu num sabe rezar? Nunca vi uma italiana que não soubesse rezar. Italiana do Paraguai que você é, isso sim.

— Sou não. — disse ingênua em meio a um suspiro choroso — Sou da região da Toscana, eu acho.

— Que você é tosca a gente sabe, Mosca. Mas a gente reza do jeito que a gente sabe. O que vale é a intenção. — disse Afrodite se aproximando deles. — Vai, Touro chifrudo, reza para a santa que você falou que é a certa que a gente vai te acompanhando. — se curvou e cochichou no ouvido da amiga. — Qual deus grego que cuida da saúde das crianças? Eu esqueci.

— Não lembro, mas acho que Atena mesmo deve servir. — a amazona respondeu aflita enquanto olhava na direção em que Mu seguira.

***

Dentro das dependências que abrigavam os quartos de terapia intensiva, como um tsunami avassalador que carrega tudo consigo por onde passa, Shaka corria de sala em sala à procura de Kiki. Em algumas olhava pelo vidro apenas, em outras abria a porta com um golpe seco e não vendo ninguém partia imediatamente para a próxima.

Não havia quase ninguém ali, visto que eram poucos os cavaleiros que se feriam gravemente e precisavam ser atendidos na Ala 5. Por isso, quando viu uma aglomeração de enfermeiros ao fim do corredor, próximo a uma das salas, foi para lá que correu imediatamente, mas antes mesmo de chegar até eles alguns já vinham de encontro, prontos para escorraça-lo dali.

— Ei! Senhor! O que está fazendo? Não pode entrar aqui. — disse um homem alto e moreno vestido em um pijama cirúrgico.

Ao lado dele outro homem, alguns centímetros maior e mais robusto, ajudava na abordagem. Este, mais enérgico, esticou os braços e segurou o virginiano pelos ombros.

A reação foi imediata.

— NÃO TOQUE EM MIM! — Shaka gritou empurrando o homem para longe, que bateu violentamente com as costas na parede e escorregou para o chão desacordado. — ONDE ESTÁ MEU FILHO?

Virgem avançou, e mais três enfermeiros vieram impedi-lo.

— SEGURANÇA! CHAMEM OS SEGURANÇAS! — gritou uma mulher baixinha acenando para outra enfermeira que corria até um telefone preso à parede do corredor.

— O senhor tem que sair agora! É proibido entrar aqui. — pediu novamente o homem, e no instante seguinte ergueu os braços com a intenção de toca-lo.

— Se tocar em mim ficará sem as duas mãos... — Virgem rosnou o encarando nos olhos. — Saia da frente! Eu quero ver o meu filho... KIKI? — chamou aos gritos, enquanto duas enfermeiras se colocavam na frente dele impedindo sua passagem. — SAIAM OU EU VOU...

— SHAKA DE VIRGEM!

A voz alterada e grave de Mu foi quem deu o comando, e no instante que, ao ouvi-la, o virginiano se virou para trás, eis que sentiu o ariano lhe agarrar com força ambos os pulsos enquanto se colocava entre ele e as enfermeiras.

— Você não vai fazer nada! — vociferou Mu, depois fez uma pausa. — Se acalma, meu amor. — pediu, agora com a voz mais branda. A força que imprimia nos punhos de Shaka igualmente se atenuou na hora em que olhou nos olhos azuis celeste e viu neles todo o desespero que também tangia os seus. Não queria ser rude com ele. — Deixe a equipe médica trabalhar, Sha. Vem comigo, vamos procurar alguma informação sem atrapalhar o serviço deles.

— Como pode ficar calmo e me pedir calma diante de... de... — Virgem não conseguia dizer o que seu pensamento formulava. A simples ideia de pensar que Kiki perdeu todo aquele sangue que manchava as roupas de Geisty e as mãos de Afrodite e de Aldebaran o punham em completo terror. — Eu quero ver o meu filho, Mu. Agora! KIKI! — gritou tentando avançar o corredor ao mesmo tempo em que pelejava para se livrar das mãos do ariano.

— Shaka, eu pareço calmo? — disse Mu voltando a segurá-lo com força. Suas mãos estavam frias e tremiam. Seu rosto pálido tinha um semblante de profundo desespero. — Olhe dentro dos meus olhos e veja por si mesmo!... Nunca senti tanto medo na minha vida, mas estou pedindo para você não tornar a situação ainda mais...

De repente, cinco seguranças adentraram correndo aquele setor. Todos empunhavam insignificantes e inúteis dispositivos de eletrochoque, mas antes mesmo que conseguissem chegar perto dos dois cavaleiros, Virgem olhou para eles e acendeu seu Cosmo. As mechas longas de seus cabelos loiros dançaram em torno de seu corpo como se balançadas por um repentino e forte golpe de ar, e de seus olhos uma faísca dourada lampejou.

— SHAKAAA! — Mu gritou em desespero. Era visível que Virgem estava fora de si, e segura-lo naquele estado lhe exigiria uma medida desesperada, além de um esforço hercúleo.

Mas, felizmente isso não foi preciso.

— PAREM! NÃO SE APROXIMEM DELES!

A voz aflita e urgente que deu a ordem era de doutor Adônis, o pediatra de Kiki, que não podia ter escolhido hora mais oportuna para aparecer ali.

Com ambos os braços estendidos no ar ele acenava alucinado para os seguranças enquanto corria em direção aos dois invasores.

— Afastem-se! Eles estão comigo. — pediu aos seguranças já se colocando ao lado de Mu, ofegante e visivelmente muito nervoso. — Eu cuido disso. Saiam, por favor. Saiam!

— Mas doutor eles não podem...

— Eu já disse que cuido disso, Paloma. — falou o médico à enfermeira que havia acionado a segurança do hospital. — Eu assumo a responsabilidade... Se afastem, por favor. Para a segurança de vocês, só... se afastem.

— Onde está meu filho? — Shaka perguntou em tom mais alto que o necessário, quase num grito intimidador.

Na mesma hora Mu olhou para Virgem e subiu até os ombros as mãos que seguravam seus pulsos, onde esfregou algumas vezes pedindo novamente calma enquanto se colocava entre ele e o médico.

— Doutor Adônis! Pelos deuses, nos ajude. O que houve com meu Kiki? — Mu perguntou aflito, porém em tom bem mais cordial.

— Acalmem-se, por favor... os dois. Nós precisamos conversar...

— Eu não vou conversar nem com você nem com ninguém antes de ver o meu filho! — vociferou o Santo de Virgem, e finalmente se desvencilhando de Mu avançou sobre o médico o obrigando a recuar até que batesse com as cotas contra a parede.

Assustado e acuado, o médico engoliu em seco e levantou as mãos em sinal de paz.

— SHAKA! — gritou novamente o ariano.

— Deixa, senhor Mu. Está tudo bem. — disse o pediatra com a voz trêmula e vacilante. — Eu deixarei que o vejam, mas por favor, tenham calma. — respirou fundo recuperando o fôlego. Estava convencido de que era melhor não bater de frente com aquele pai nervoso e tão poderoso. — Kirian ainda está sendo socorrido e não poderão entrar no quarto, caso contrário atrapalharão o atendimento.

— Não entraremos, tem minha palavra! — Mu assegurou ao médico enquanto tomava a mão de Shaka na sua. — Apenas nos deixe ver o nosso menino, por favor.

— Está certo. Ele está na próxima sala.

Adônis apontou para a direção em que deveriam seguir, mas Shaka ainda lhe impedia a passagem. Mu então puxou o virginiano pela mão, que deu um passo para trás permitindo que o médico tomasse a dianteira, e o seguiram até o local onde alguns enfermeiros e paramédicos atendiam o pequeno lemuriano. Estavam todos dentro da sala à portas fechadas, aglomerados em torno da maca na qual Kiki recebia o atendimento emergencial.

Através de uma grande janela de vidro, de mãos dadas os dois cavaleiros olharam com os olhos arregalados, os corações apertados e as bocas secas para o corpinho inerte e pálido do filho sobre a maca enquanto sua veia era canulada para administração de fármacos e fluidoterapia. A camisa branca de botões, tão caprichosamente escolhida por Geisty, tinha sido rasgada para expor o torso no qual um punhado de eletrodos de monitoramento vital eram afixados com demasiada pressa. Estava toda suja de sangue. O único alívio que os pais sentiram naquele momento ao olhar para tão angustiante cena foi ver o peito esguio do menininho subir e descer lentamente, mas o bip bip bip cadenciado e incessante do painel cardíaco entrava em seus ouvidos feito uma marcha fúnebre que famélica devorava todo e qualquer aliviamento.

Diante daquele cenário era humanamente impossível não temer o pior.

Prendendo o ar dentro dos pulmões, Shaka espalmou uma das mãos no vidro enquanto a outra apertava com demasiada força a de Mu, como se ela fosse um pilar e o único ponto firme capaz de mantê-lo de pé naquele momento.

— KIKI... — gritou correndo os olhos azuis pelo corpo pequenino inerte, examinando cada angustiante detalhe, até que de repente se afastou e em desespero tentou entrar na sala arrastando Mu consigo pela mão. — Ele precisa de mim, meu filho precisa de mim!

— Ei! Não! Não! Senhor Shaka! Não pode entrar. — Adônis correu se colocando na frente da porta. — A sala é esterilizada, ele está sendo medicado e o senhor não pode interromper. Por favor!

Cumprindo a palavra que dera ao médico Mu recuou alguns passos e puxou o indiano junto consigo, lhe contendo com um meio abraço carinhoso, porém firme.

— Mu!

Mu fez um sinal para Shaka, enquanto ele mesmo tentava se acalmar. Não adiantaria nada os dois perderem a cabeça, e ele precisava tanto de respostas quanto o marido, por isso respirou fundo e olhou sério para o médico.

— Eu não sei se o senhor tem filhos, doutor, mas mesmo que não tenha, entenda a nossa situação, e por nossa deusa Atena, me diga o que aconteceu com nosso Kiki. — a voz do lemuriano saia embargada e suplicante, o que fez com que Shaka se aquietasse a seu lado.

Doutor Adônis enxugou o suor nervoso que lhe escorria da testa já pensando no que diria a eles. Estar na mira de dois poderosos cavaleiros não era tarefa fácil, principalmente com a situação que enfrentavam.

— Kiki deu entrada há poucos minutos e pude apenas lhe fazer os exames físicos iniciais de praxe. — tentava ser o mais claro o possível. — Mas, ao que tudo indica, ele teve uma crise aguda convulsiva desencadeada por um quadro febril.

— O quê? Ele teve uma convulsão? — Shaka quase gritou. Transtornado olhou para o médico e depois para o filho dentro da sala.

— Sim. É um quadro que acomete crianças pequenas quando há um súbito aumento de temperatura. A atividade elétrica do cérebro é afetada, ocorre a convulsão e após alguns instantes o corpo literalmente desliga. O desmaio é uma resposta do organismo para conter o aumento da temperatura. Quando Kiki chegou ao hospital estava exatamente assim, febril e inconsciente.

— Mas Kiki estava bem! O senhor mesmo disse. — Mu estava confuso. — E todo aquele sangue? Geisty está com as roupas lavadas de sangue, e este também está nas mãos de Afrodite! Aquele sangue todo era do Kiki!

O médico, aflito, piscou nervosamente os olhos sem saber o que responder, e após uma breve pausa lhes disse a dolorosa, até para ele próprio, verdade:

— Eu... Eu não sei.

Shaka sentiu uma martelada forte dentro do peito.

Mu engoliu em seco.

— Me perdoem, eu... ainda não tive tempo de analisar melhor o quadro dele. Foi uma nova hemorragia nasal, mais intensa, porém... Deus! Não era para isso ter voltado a acontecer e...

De repente Shaka se deu conta do óbvio. Comprovou, com uma incredulidade aterradora, que Adônis não fazia a menor ideia sobre com o que estava lidando, nunca fizera, e entorpecido por um pavor arrepiante esticou as mãos o agarrando pela gola do jaleco branco e o arrancou da frente da porta à força.

— Se alguma coisa acontecer ao meu filho você irá fazer suas suposições em um dos Seis Infernos do Samsara! — uma mudança assombrosa se deu na voz grave do indiano. Suas palavras soavam como uma poderosa praga. —Doutorizinho espúrio. Kiki não fica nem mais um minuto aqui, nas suas mãos levianas.

Com um empurrão violento Shaka jogou Adônis para o lado e com um tranco desvencilhou-se de Mu para imediatamente em seguida agarrar a maçaneta da porta e abri-la num solavanco, o que chamou a imediata atenção da equipe que estava dentro da sala.

— Senhor Shaka, pelo amor de Deus! Não pode entrar! — rogou Adônis em desespero enquanto se escorava na parede.

Mas a súplica de Adônis foi em vão.

Shaka entrou na sala feito um caminhão desgovernado, e já corria até o leito sendo observado pelos olhares extremamente assustados de todos, que prendiam o ar em apreensão. O próprio Santo de Virgem não era capaz de respirar. Tudo dentro de si estava paralisado, congelado, incluso seu raciocínio. Apenas sabia que Kiki precisava de si. E estaria lá para ele.

Mas assim como Shaka, Mu também estava ali para Kiki, e foi pensando nele que tomou uma atitude drástica.

Quando estava a poucos palmos de alcançar o leito, Shaka sentiu seu corpo inteiro ser puxado com extrema força para trás e ser lançado contra a parede do lado de fora da sala, enquanto com uma pancada violenta a porta se fechava novamente. A batida forte nas costas o fez soltar um gemido rouco, e nesse momento percebeu que seus pés não mais tocavam o chão. Sem controle algum de seus próprio movimentos, e sentindo-se colado à parede, olhou incrédulo para Mu, que já se colocava à sua frente o encarando firme nos olhos azuis arregalados.

— CHEGA! PARE AGORA COM ISSO, SHAKA!

A voz troante do ariano ecoou pelo corredor, então ele abriu mão da telecinése, com a qual tinha lançando e agora segurava o indiano ali, para usar as próprias mãos para contê-lo.

— KIKI TAMBÉM É MEU FILHO, E EU NÃO PERMITIREI QUE SEU DESCONTROLE PONHA EM RISCO A VIDA DELE! — vociferou respirando duro, com as narinas dilatas.

— O meu descontrole? — Shaka rebateu irritado. — Quem está colocando a vida do Kiki em risco não sou eu, é esse mentiroso incompetente. — lançou um olhar a Adônis de causar calafrios até nos demônios no inferno. — Há semanas estou trazendo Kiki neste hospital e esse picareta só sabe me dizer que ele está ótimo, que não tem nada grave, que é apenas uma anemia... ANEMIA! MU, POR BUDA! — voltou a olhar para Áries com ar de incredulidade. — Filho meu jamais teria anemia! Você mais do que ninguém sabe o quanto eu me doei para esse menino desde o dia que o trouxe a esse mundo miserável.

— Eu sei... Eu também me doei integralmente, e quero o melhor para o nosso filho, Shaka. — a voz de Mu se abrandou.

— Eu não vou deixa-lo nas mãos de um médico cheio de boas intenções, mas nenhuma experiência. Eu vou tirar Kiki daqui agora!

Shaka tencionou avançar, mas na mesma hora Mu o empurrou de volta.

— Para você entrar naquela sala e tirar o Kiki deste hospital terá que lutar comigo, Cavaleiro de Virgem. — o lemuriano falou severo, porém com um peso sofrido em seu coração. Detestava aqueles embates com Shaka. — Não duvide do que sou capaz para proteger a minha cria.

— Eu não duvido. Porque eu também sou capaz de qualquer coisa! — respondeu o encarando firme nos olhos.

Mas ao em vez de enfrentar Virgem, num gesto desesperado Áries o abraçou com força.

— Não faça isso conosco. — Mu implorou com um murmúrio desesperado.

Shaka ponderou por um momento.

O medo estava minando seu raciocínio e não podia se deixar levar por ele; então respirou fundo e o engoliu junto com a dor que sentia. Erguendo os braços abraçou Mu de volta, o apertando forte contra seu corpo enquanto afundava o rosto na curva de seu pescoço, porém seus olhos continuavam cravados no rosto lívido de doutor Adônis.

O médico, receoso, porém determinado a fazer tudo o que pudesse por seu pequeno paciente, reaproximou-se deles com cautela.

— Eu sei que os decepcionei, mas acreditem... eu queria muito estar certo quando pensei termos controlado o problema. — disse em tom baixo e cordial. Mu nessa hora se virou para ele. — Peço que me deem mais um voto de confiança. Não encontrarão, como disse, senhor Mu, outro hospital mais bem equipado e preparado que este para cuidar de Kiki. Shion investiu muito nesse lugar, e nossa pesquisa está bem avançada... Eu preciso entrar para orientar a equipe médica e monitorar Kiki. Vou pedir uma bateria completa de exames, mas por enquanto tudo que posso dizer é que ele ficará aqui por tempo indeterminado.

— Aqui? Você diz... ele vai ficar internado? Ele não vai voltar para casa? — Shaka perguntou angustiado.

— Por enquanto não. Quero monitorar seus sinais vitais e função cerebral por um tempo. Pelo menos pelas próximas 48 horas ele ficará aqui em observação e até que os exames fiquem prontos. Poderão entrar na sala assim que os procedimentos padrões se encerrarem e ele estiver estabilizado, mas por enquanto, peço que fiquem aqui. Melhor seria que ficassem na sala de espera.

— Eu não vou sair daqui. — disse Shaka esticando os olhos para o vidro onde podia ver Kiki ainda que de longe.

— Bom... Foi o que pensei. Se ficar aqui já está ótimo! — deu dois tapinhas no ombro de Mu, apertou os lábios, e lhes deu as costas entrando na sala.

Sozinhos no corredor, de mãos dadas o casal se aproximou da enorme janela.

Enquanto olhavam para o garotinho inconsciente sobre o leito, faziam preces aos deuses.

***

Cerca de duas horas haviam se passado.

Um silêncio de morte afogava os corredores daquele setor do hospital tornando o ar denso, difícil de respirar.

Sem nenhuma notícia ainda Afrodite, Geisty e Aldebaran aguardavam angustiados na sala de espera. Seus rostos eram duros e seus olhos assustados. Quando imaginariam que acabariam a noite ali, e sob aquela terrível realidade?

Touro apegava-se a todas as divindades de que era devoto e um pouco afastado dos demais rezava baixinho. Já Geisty e Afrodite buscavam força e alento um no outro.

De mãos dadas e dedos entrelaçados a amazona e o cavaleiro conversavam baixinho, enumerando as possíveis causas do mal que acometera Kiki de forma tão súbita e violenta. Teria sido excesso de açúcar?

É claro que não. E eles sabiam disso. Apenas não queriam acreditar.

Faltava ainda um pouco para meia-noite quando o silêncio lúgubre daquele lugar foi quebrado pelo som contínuo de passos, então pouco depois Mu apareceu ali diante deles, visivelmente abatido e desolado.

Os três se levantaram abruptamente e foram até ele ansiosos.

— Mu! Dadá, eu estava quase entrando desembestado por aquela porta igual o loirudo fez! — disse Afrodite colocando-se na frente do ariano enquanto o encarava aflito. — Como está o Kiki?

— Madonna mia, fala logo porque eu nem tenho mais unha! Ninguém dá uma notícia nesse cazzo de lugar! — disse uma impaciente Geisty. — O que aconteceu com meu sobrinho?

— A gente já pode ir lá ver o molequinho? — perguntou um apreensivo Aldebaran. — Por que ele tá bom já, né compadre?

Áries respirou fundo algumas vezes, procurando organizar os pensamentos, mas além de confuso e esgotado sentia-se demasiadamente nervoso, com o ar parecendo lhe faltar, então antes de responder qualquer coisa caminhou até uma das cadeiras e soltou todo seu peso ali.

Com um suspiro agastado apoiou os cotovelos nos joelhos e levou ambas as mãos ao rosto, esfregando lento e com força.

O gesto do ariano fez os três amigos ficaram ainda mais apreensivos, até que Afrodite deu a volta e sentou-se na cadeira ao lado dele, pousando a mão em seu ombro.

— Mu?... Não estou gostando nada da sua cara... Por Dadá, diga alguma coisa. Está me deixando em pânico!

Geisty também foi até ele e sentou-se do outro lado.

Aldebaran voltou a rezar. Estava agora com medo da resposta que o amigo tinha para lhes dar.

— Mu? O que está acontecendo? Fala de uma vez, por Atena! — rogou a amazona. Nos olhos dela havia um medo real.

Mas para enorme tormento e espanto dos três a única resposta que o ariano foi capaz de dar partiu de um soluçar baixo e abafado que logo se transformou em um pranto sofrido.

Assustadíssimo Afrodite trocou um olhar nervoso com Geisty, e sem saber o que falar, ou mesmo o que fazer, já que não se recordava de ter visto o amigo tão triste e abalado daquele jeito antes, passou um braço ao redor de suas costas tentando acalma-lo com um meio abraço. Para sua surpresa Mu ergueu cabeça e o abraçou de volta com força, como se buscasse nos ombros do pisciano o mesmo alento que lhe dera tantas vezes no passado.

— Madonna mia! — Geisty exclamou levando as mãos à boca, depois também juntou-se ao abraço, pois queria acolher ao amigo e irmão ao mesmo tempo em que tentava sossegar o seu próprio coração do medo.

Já Aldebaran se manteve de pé ao lado deles, e com os olhos cor de jabuticaba arregalados apertava as mãos em prece amassando o santinho de papel que segurava com força. Nunca precisara se apegar tanto à fé como agora.

No entanto, embora suas lágrimas fossem abundantes e carregadas de sofrimento, o choro de Mu não se prolongou por muito tempo mais. Pouco a pouco ele foi recobrando o controle de si mesmo até finalmente conseguir se recompor, então soltou o amigo e levantou a cabeça enxugando os olhos molhados e vermelhos com os dedos trêmulos.

— Me desculpe, Dido... me desculpe pessoal. — o lemuriano disse em um fiapo de voz — Eu...

— Ei, tá tudo bem, cara. — a voz grave de Aldebaran soou amável, e ele então se agachou para poder ficar mais próximo ao ariano. — Chora aí, fica à vontade. A gente é tudo parça, não precisa ficar no sapato não... Não com a gente. — trocou um breve olhar assustado com Serpente e com Peixes.

— É, tá tudo bem você chorar... o que não tá tudo bem é não dizer nada! — disse Afrodite quase chorando junto. — Eu vou ter um colapso nervoso aqui, Mu! Por Dadá!

Áries olhou para ele por um tempo e depois para Geisty e Aldebaran. Respirou fundo mais uma vez e esfregou o rosto úmido tomando coragem.

— Vocês viram como Shaka entrou lá, não viram?

Geisty soluçou nervosa.

— Se vimos? A gente sentiu o Cosmo dele. — disse Afrodite. — A Mosca chegou a correr para lá, mas eu segurei a santa porque imaginei que se a gente se intrometesse ele ia ficar ainda mais louco da cabeça.

— Fizeram bem... Ele surtou completamente, tentou invadir o CTI, ameaçou bater na equipe médica, e estava quase mandando os seguranças para o inferno... Com muito custo consegui impedi-lo de fazer uma besteira. — suspirou cansado.

— Minha deusa! — Geisty exclamou em choque.

— Nunca vi meu marido tão desesperado, tão... — Mu baixou a cabeça e esfregou os olhos úmidos novamente. — O tempo todo ele ficou chamando pelo Kiki através do vidro... Eu só consegui sair de perto dele agora, porque o pediatra nos permitiu entrar no quarto e o deixou colocar uma cadeira ao lado do leito para ele ficar com o nosso filho. Só quando pegou na mãozinha dele foi que o Shaka sossegou... um pouco.

— Porca Madonna! Mas eu entendo ele... Atena! E como eu entendo ele! — disse Geisty emocionada. — Eu quase entrei lá para ter notícias do nosso pequerrucho.

Peixes tinha ambas as mãos sobre o peito.

— Que o loirudo perdeu a cabeça eu já suspeitava... quer dizer, suspeitava mas não esperava, né? Porque de todos nós aqui, e de todo mundo que conheço, é de se esperar uma reação dessa, porque é todo mundo meio abilolado, mas não dele, já que ele é quase um...

— Afrodite! — Geisty sussurrou fazendo um sinal para que o sueco calasse a boca. — Anda, Mu. O que o médico disse? Kiki está bem, não é?

Mu abaixou a cabeça e fez um gesto negativo.

— Não.

O choque foi geral.

— Minha Nossa Senhora da Cabeça e por todas as aparições Marianas! — murmurou um assustadíssimo Aldebaran.

— Pela misericordiosa Atena, Mu! Como não? — perguntou Geisty aflitíssima.

Afrodite voltara a ficar com as palavras presas na garganta.

— Quer dizer... agora, nesse exato momento, ele está bem. — disse Mu recostando as costas na cadeira. — Está dormindo, medicado e estável. Mas ele teve uma convulsão que foi desencadeada por uma febre alta e repentina.

— Uma febre? Bom... a criançada tem febre às vezes, isso é normal. — disse esperançoso Aldebaran.

— É, mas o problema é que não é só isso. Não é a febre. — disse Mu olhando nos olhos do brasileiro. — Quando eu saí do quaro para vir aqui conversar com vocês, o doutor Adônis me chamou em particular. Ele quis conversar comigo a sós, longe do Shaka, e me disse a verdade.

Nesse momento Mu ergueu a cabeça e procurou forças para dividir com os amigos o pior pesadelo de um pai.

— Nem doutor Adônis, nem a equipe médica especializada acionada por ele há algum tempo já, desde que Kiki começou a apresentar os primeiros sintomas de que havia algo errado, sabem o que meu filho tem. Ninguém é capaz de dizer que doença está acometendo o Kiki. Só sabem dizer com precisão que é algo bem grave. — baixou a cabeça e encarando as próprias mãos se segurou para não desabar em choro novamente. Sua garganta estava apertada e os olhos ardiam em demasia. — Kiki teve essa febre espontânea porque o corpo dele não está mais conseguindo regular sua temperatura. Parece que vários... vários sistemas fisiológicos dele estão falhando... todos ao mesmo tempo.

Touro levou as mãos à cabeça em desespero. O santinho de papel em seus dedos deslizou por seu braço trêmulo até jazer esquecido no chão.

Peixes tinha o rosto de fisionomia atônita banhado em lágrimas, mas seu estado de choque era tamanho que nenhum músculo deste se movia.

Serpente com os olhos vidrados e em assombro parecia ver diante de si a personificação do pior de seus fantasmas interiores. Esfregou o rosto pálido de susto com as mãos frias, embrenhando os dedos longos de unhas roídas nos cabelos.

— Por isso ele apresentou um quadro de anemia e também problema com coagulação do sangue... Daí a forte hemorragia. — Mu continuou. — A melhora que ele apresentou depois do tratamento com as vitaminas apenas estava mascarando os primeiros sintomas, que vieram à tona hoje. — fez uma pausa e encarou os olhos dos amigos cheio de dor e aflição — O médico disse que em longo prazo, porém não tão longo assim, algumas semanas ou... no máximo poucos meses, se isso continuar, digo, se não descobrirem o que está provocando esse mau funcionamento, ele... ele... o organismo dele vai... vai colapsar.

Silêncio absoluto.

Três rostos em choque encaravam o do lemuriano.

— O... o quê? Não! — Afrodite balbuciou com os lábios trêmulos. Os olhos esgazeados fitavam Mu como se estivessem diante da personificação de um pesadelo. — Como assim, ele... há poucas horas ele estava ótimo! Ele riu, ele brincou, comeu... até ganhou uma competição de dança, pelo amor de Atena! Não é, Mosca? — engoliu em seco olhando para a amazona que não estava muito melhor que si. — E agora você me fala que ele... em poucos dias pode... pode...

— Eu não devia... Não devia ter insistido em levá-lo à festa. A culpa é minha pelo Kiki ter passado mal. — balbuciava aflita a amazona enquanto meneava a cabeça em negação com os olhos inundados em lágrimas.

— Pelos deuses, Geisty! Ninguém tem culpa! — Mu segurou gentil as mãos dela. — Isso teria acontecido em casa se ele não tivesse ido à festa, ou em qualquer outro lugar. Vocês não sabiam, nós não sabíamos... Nem os médicos sabiam.

Atônito com a enxurrada de informações nada animadoras, o taurino que antes consolava o amigo a essa altura já estava sentado na cadeira em frente a ele, petrificado.

— Homem rapaz! Não, compadre. Fala uma coisa dessa não... — respirou fundo soltando ruidoso o ar pela boca, e apanhando o santinho de papel no chão secou com ele a testa que vertia suor. — O molequinho tava bem ainda agora, como pode?

Mu procurou o grandão com os olhos úmidos e limpando uma lágrima teimosa que deslizava por sua bochecha deu uma fungada.

— Pois é, Debão. Pelo que o doutor disse, ele já estava doente há algum tempo, mas era tão sutil que ninguém percebeu. Só que agora a coisa desandou de vez. O Kiki agora está bem, mas pode não estar daqui a cinco minutos caso outro sistema do corpo dele falhe. — o lemuriano relatava com o coração em frangalhos. — Eles vão manter o meu menino internado, para monitora-lo, conter a febre e tentar entender o que está acontecendo com ele. — fez uma pausa visivelmente aflito. — Pelos deuses! Como eu vou contar isso ao Shaka?

Em desespero Mu levou as mãos ao rosto e chorou mais uma vez.

— Mu... — Geisty sussurrou, mas não sabia o que dizer.

— Eu preciso fazer alguma coisa... Eu não posso deixar meu filho morrer e meu marido enlouquecer, não posso deixar isso acontecer com a minha família... eu não posso...

Súbito, Afrodite se levantou passando as mãos pelos cabelos e esfregando os dedos no couro cabeludo enquanto parecia pensar. Piscou algumas vezes, andou apressado e desgovernado de um lado para o outro, enquanto Mu, Geisty e Aldebaran trocavam algumas palavras.

Não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Não com Mu, que além de seu melhor amigo era a pessoa que menos merecia passar por uma provação e uma dor como aquela. Não com Kiki, que era apenas uma criança, amada por todos e tão cheia de vida e alegria... e tampouco com Shaka, que tinha seus defeitos, mas mesmo estes se abrandaram desde que tornou-se pai e passou a dedicar seus dias a amar e zelar por aquele garotinho.

Rapidamente olhou para Geisty e reconheceu nos olhos dela o medo e desolação de uma dor já conhecida, e que agora era revivida.

Não. Ninguém merecia passar pela provação de perder um filho.

Se fosse consigo. Se fosse Hyoga ali...

Afrodite sufocou um soluço. Sua garganta estava dura a boca tinha um gosto amargo.

Deveria haver algo que pudessem fazer. Dinheiro não era o problema. Não para ele.

Não para Camus.

— Mu! — correu de volta até o ariano e agachou-se à sua frente apoiando as mãos em seus joelhos. — Disse que aqui não sabem o que minha suçuarana ruiva tem, mas há outros milhares de hospitais, centros médicos e... Dadá, o mundo é enorme! Eu posso falar com o Batman e pedir a ele que arrume o melhor, ou os melhores médicos dessa merda de mundo para investigar essa doença e descobrir o que é. Você sabe que o Batman não me negaria um pedido. — disfarçou olhando fundo nos olhos de Mu, pois que sabia que o próprio Camus não negaria ajuda a ele.

Mu deu um sorriso fraco para o amigo e o puxou novamente para um abraço apertado. Sabia que ali havia outro pai, ou melhor, uma mãe, desesperada. Sabia também que o Cavaleiro de Aquário os ajudaria sem pestanejar.

No fundo todos faziam parte de uma grande e desajeitada família.

— Obrigado, Dido. — sussurrou, verdadeiramente agradecido. — Eu sei que podemos contar com vocês, mas não é dinheiro o problema.

O lemuriano então se levantou afastando-se de Peixes com um sorriso parco. Logo tratou de limpar o rosto, ajeitar os cabelos e se recompor como podia.

— Obrigado, meus amigos. — disse olhando para os três amigos. — Eu sei o quanto Kiki é amado e o quanto essa notícia também é terrível para vocês, mas só há uma coisa que pode ser feita, e isso depende exclusivamente de mim. Eu vou procurar ajuda para o meu menino sim, mas não é de dinheiro ou de outros médicos e hospitais que Kiki precisa... Mas para isso preciso antes falar com o Grande mestre.

A voz do Santo de Áries agora tinha uma determinação renovada, e suas palavras pegaram a todos de surpresa.

Inúmeras perguntas se formavam nas mentes dos três irmãos de armas ali, mas Mu sequer lhes deu a chance de fazê-las.

— Voltem para o Santuário, descansem. Eu preciso voltar lá para dentro. Shaka está sozinho com Kiki e algo me diz que no momento não é bom deixar as luzes da minha vida sozinhas... — suspirou. — Já me demorei muito aqui. Assim que puder darei notícias.

Despediu-se deles com um sorriso tristonho e lhes deu as costas seguindo para a ala de acesso restrito.

Surpresa, Geisty acompanhou Mu até que ele sumisse de sua vista. Sentiu um arrepio na nuca ao pensar que o amigo, depois dessa noite de cão ainda teria a dura tarefa de solicitar, e encarar, uma audiência com o Grande Mestre. E pelos deuses, tudo o que Mu não precisava naquele momento era ter de lidar com aquela criatura odiosa que era o seu marido. Sentiu tanta pena daquela família, que em parte também era sua...

Angustiada Geisty abraçou a si mesma com pesada tristeza, mas logo sentiu o abraço reconfortante de Afrodite, seguido também pelos imensos braços de Touro que cobriram os dois num aperto solidário e gentil.

— Queria tanto poder ajuda-los... Mas como? Eles fizeram tanto por mim... — murmurou a amazona com voz melancólica enquanto sentia uma lágrima lhe descer pela face morena.

— Fica assim não, patroa. A gente vai ajudar. Vamos estar aqui pra eles sempre que precisarem. Mas vocês ouviram o Mu, né? Agora, agorinha, não dá pra fazer nada, e se ficarmos aqui a gente só vai deixar o compadre mais preocupado do que ele já está, num é mermo? — dizia o brasileiro com a sua maleculência típica, que não o abandonava nem nos momentos de maior tensão. — Então o seguinte: vamos cada um pro seu cafofo, tomar um banho, virar gente de novo, tirar uma pestana, que amanhã, aí sim, a gente volta aqui e ajuda eles três. Já é? — disse fazendo sinal de positivo com o enormes polegares para o alto.

Com Geisty e Afrodite concordando com um menear desanimado de cabeça o taurino concluiu:

— Beleza. Então vamo embora. No caminho eu ligo pro pessoal lá do bordel e dou a notícia. E de resto, vamos rezar pra que tudo corra bem essa noite com nosso molequinho. E vai correr, eu tenho fé na minha Nossa Senhora da Cabeça e na nossa deusa Atena.

Dito isso, abraçou Geisty e Afrodite em um meio abraço de cada lado e seguiram de volta ao Santuário.

Tinham esperanças de que tudo aquilo fosse passageiro, pois perder mais uma criança não estava nos planos de nenhum deles. De ninguém.

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic

Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka

Notas finais
Gente nem tem o que dizer aqui. Sério.. só que agora entramos num momento beeem dramático da fic e que para mim (Hamal) é bem pessoal, pois essa tragédia familiar é inspirada em algo que aconteceu com minha família (com minha irmã mais especificamente). Infelizmente chegou o momento da família arco-íris enfrentar uma grande tragédia e ter suas estruturas abaladas pelo inesperado.