Notas iniciais
Apesar da correria, por enquanto estamos dando conta dos caps. ;)

Djenné — África Ocidental, 10:45am

Com a face parcialmente oculta pelo lenço vermelho, trazendo expostos somente os olhos verdes astutos, o Cavaleiro de Áries caminhava atento no meio da multidão de transeuntes que lotava o Mercado de Ouro à procura do emissor da baixa e sutil onda psíquica que havia detectado há alguns minutos. Desde que chegara ali ele se passava por um simples comerciante estrangeiro em Djanné, uma das maiores cidades do Mali, o sétimo maior país da África, mas a verdade é que estava ali em missão, na “cidade de barro”, como o local era popularmente conhecido por conta das construções feitas em adobe, um tipo de tijolo de barro.

Por sua posição estratégica junto ao rio Niger, aquele era um dos grandes eixos mundiais do comércio de ouro, o qual empregava, em seu enorme mercado de venda, compra e troca do metal precioso, grande parte da população negra e islâmica da cidade. Viajantes e mercadores de todo o mundo perambulavam por ali, loja por loja, tenta por tenda, à procura do melhor preço para os produtos que eram expostos sobre tecidos coloridos, e estes iam desde simples pepitas brutas à joias raras e de valor inestimável. Sem dúvida aquele era o local perfeito para se procurar ourives nômades de uma raça quase extinta.

E era justamente essa a missão de Mu. Uma missão que ele dera a si mesmo.

Desde que o Cavaleiro de Áries foi colocado a par da condição delicada do filho ele percebeu que a medicina humana apenas não seria capaz de salvar sua vida. Kiki tinha uma doença desconhecida, e Mu sabia que precisaria ir atrás da sabedoria milenar de seu povo, ir buscar no vasto conhecimento que envolvia a raça muviana, o qual Shion não teve tempo de lhe transmitir por completo dada sua morte repentina, a ajuda que seu filho tanto precisava.

Assim, com a autorização do Grande Mestre, há três dias desde o fatídico incidente no aniversário de Karina, Mu passou a dedicar seus dias a essa busca desesperada, que era sua única esperança, mas sem nunca permitir que as peregrinações lhe impedissem de amparar o filho, o qual seguia internado no Hospital de Atenas, tampouco ao marido. Dividia-se incansavelmente entre a missão auto atribuída e o cumprimento zeloso de seu papel de pai e marido, o qual abraçava com amor e dedicação. Saía cedo, quando o sol ainda nem pensava em abraçar o horizonte, em pequenas expedições à procura de remanescentes lemurianos pelo mundo, enquanto Shaka ficava no hospital com Kiki.

Seu navio era sua indubitável esperança. A fé sua bússola.

O ariano utilizava em sua busca antigos mapas guardados em Jamiel, os quais continham as rotas centenárias de migração do povo muviano pelo mundo todo, além do elo psíquico racial.

Era como procurar por agulhas perdidas em um gigantesco palheiro. Agulhas que não queriam ser encontradas, que podiam desaparecer em um simples piscar de olhos, e que eram tão poucas que ele mesmo começava a colocar em dúvida sua existência.

Mas desânimo e desesperança eram palavras que fez questão de banir de seu vocabulário. Kirian precisava de ajuda, e iria encontra-la onde quer que fosse. Nem que para isso tivesse que dar a volta ao mundo um milhão de vezes.

Aquela era sua segunda viagem, Djenné seu segundo destino. A primeira tinha sido para o interior de Mianmar e não dera em nada. Seguiu umas coordenadas marcadas no mapa, provavelmente anotações do próprio Shion, mas ao chegar no local só encontrou ruínas do que outrora parecia ter sido um vilarejo ocupado por não mais que duas famílias. Porém, dessa vez, ali no norte da África, tinha esperança de obter melhor sorte, visto que com o auxílio de sua poderosa telepatia havia conseguido potencializar o alcance e a intensidade do elo psíquico que partilhava com os membros de sua raça, e rastreado um fraco sinal mental.

Havia um lemuriano no meio daquela multidão desenfreada. Ele tinha certeza!

Discretamente, tentando não chamar mais atenção do que sua pele muito clara e os olhos de um verde surreal já chamavam, Mu caminhava entre algumas barracas até que de repente seu olhar cruzou com outro. Eram os olhos assustados de um viajante beduíno, a julgar pelas longas vestes e pelo keffiyeh que lhe tampava quase todo o rosto, deixando à mostra apenas parte da tez cor de mostarda queimada e as íris intensas, que foi o que mais chamaram sua atenção, pois que eram de uma cor muito peculiar, um âmbar que beirava o alaranjado do sol no fim de tarde. Imediatamente Mu levantou um pouco o olhar e lá estavam elas, logo acima dos olhos; duas manchas escuras e perfeitamente simétricas, exatamente no mesmo local dos singulares sinais lemurianos.

Antes que o ariano conseguisse esboçar qualquer reação, o homem lhe deu as costas e correu em disparada, esbarrando e empurrando os transeuntes que lhe cruzavam a frente, saltando por sobre as barracas em desespero, como se tivesse visto nos olhos verdes de Mu o espetro do próprio demônio encarnado.

O Cavaleiro de Áries o perseguia em sobressalto, no meio daquele formigueiro humano, sem entender o porquê de fuga tão desesperada, afinal era sempre uma benção quando um muviano encontrava um dos seus.

Ou não era?

Apesar de sua incontestável agilidade, o beduíno deu trabalho a Mu, pois que ele conhecia cada viela, casa e esquina pelas quais passava, esgueirando-se com mestria entre as construções de barro cru, desaparecendo entre as milhares de tendas.

Mas, não importava o quanto ele era ágil. Quem o caçava era um Cavaleiro de Ouro.

Em uma rua vazia e sem saída Mu o encurralou. Na verdade o ariano deixou que ele fosse até ali. Precisava sair da multidão para poder conversar com ele.

Assustadíssimo e apreensivo o homem ainda tentou saltar a grande parede de barro e pedra que recobria o estreito terreno, mas esta era demasiadamente alta, então encostou as costas nela levando a mão direita para trás do corpo. Tinha um punhal mouro preso à cintura por um cinto de couro. Segurou forte na empunhadura enquanto olhava para a figura que se aproximava lentamente.

No momento exato em que pensou em puxar o punhal e avançar para cima do estrangeiro eis que uma voz suave e amistosa, carregada de uma entonação pacifica, invadiu sua mente o obrigando abortar a ação.

“Må’takut nàaran!”* (Não tema.)

O beduíno imediatamente arregalou os olhos âmbares, e encarando o homem à sua frente teve a impressão de que ele ficara maior, mais alto. Nos olhos verdes dele uma faísca cintilava.

Mesmo assim não ousou mexer sequer um dedo da mão enfaixada por grossas e sujas bandagens negras. Ficou parado, atento, olhando para aqueles olhos sem reação.

“A’leumá åsh mɛr’há filnë Mü. Iiíin åda í Lymürian.”* (Também sou um filho de Mu, herdeiro de Lemúria.)

De novo a voz invadiu a mente do beduíno. Áries o saudava no milenar e extinto idioma lemuriano afim de testá-lo. Caso ele o compreendesse, então talvez possuísse algum conhecimento da raça, e sua missão não teria sido novamente em vão.

Devagar Mu se aproximou do homem, e removendo o lenço da cabeça exibiu para ele os próprios pontos vermelhos em sua testa, depois os tocou com os dedos anelar e médio e em seguida baixou ligeiramente a cabeça apontando os mesmos dedos para o beduíno. Executava um cumprimento tradicional de sua raça, ensinado por Shion.

Mas Mu não teve o cumprimento retribuído.

Como que paralisado à sua frente o homem o encarava ainda apreensivo, porém a agressividade de momentos antes agora dava lugar a uma expressão de puro espanto e curiosidade.

Confuso, levou a mão à própria testa e tocou os sinais de nascença.

“És um Djinn!”

A afirmação, dita em francês, língua oficial do Mali, veio também através de telepatia, mas para Mu ela soara como uma pergunta.

“Gênio? Não!”

O Santo de Áries respondeu também em francês, surpreso e um tanto frustrado. O beduíno não conhecia a língua ancestral de seu povo, pois não o entendera, o que fez Áries supor que o homem também nada sabia sobre a cultura lemuriana.

“Eu me chamo Mu de Jamiel, e sou seu irmão de sangue, um muviano”.

Olhando para o beduíno, agora mais de perto, Mu deu um suspiro profundo e cansado. Ele era apenas um jovem rapaz. Não devia contar com mais de quarenta anos. Sentiu um aperto no peito, mas não desistiria, tampouco perderia as esperanças, pois em três dias aquele jovem era o mais perto que havia conseguido chegar da cura de Kiki. Para alguma coisa ele lhe seria útil. Tinha fé que seria.

“Podemos conversar? Preciso de ajuda.”

***

Hospital de Atenas, Grécia, 11:35am

Quase seis anos haviam se passado desde a última vez em que sentira aquele frio metálico e fantasmagórico que arrepiava sua pele e lhe fazia encolher os ombros em extremo desconforto.

Por que aquele hospital tinha que ser tão gelado?

Seis anos em que vivera um dos episódios mais angustiantes de sua vida, porém como expectador.

Deus! Como a dor e o desespero eram colossalmente maiores quando se estava do outro lado. Quando se era o protagonista de tão tétrica tragédia.

Já iria fazer seis anos, mas para ele era como se somente agora conseguisse enxergar a mão do mau que puxou Saga para dentro do abismo.

“— Eu não vou deixar você passar. Pelo bem de sua esposa e de seus filhos, você precisa manter a razão, Saga. Dentro daquele quarto você só vai piorar as coisas. Por Buda, isso é um CTI! São normas do hospital, você não pode agitar nem atrapalhar a equipe médica. Qualquer interrupção de sua parte pode ser fatal para sua família!”

A lembrança era tão viva em sua mente que tinha cheiro. Sentia ali, no presente, o odor de sangue e suor que vinha do Santo de Gêmeos e também de si mesmo. Haviam acabado de selar a divindade asteca Tezcatlipoca após uma batalha violenta que se arrastou por horas, enquanto naquele mesmo hospital Geisty também lutava pela própria vida e a dos filhos.

Ainda se lembrava com angustiante nitidez do rosto contorcido de Saga, que em desesperada agonia encarava seus olhos azuis celeste abertos. Saga fazia um esforço hercúleo em agarrar-se a eles para se manter lúcido, para não ser tragado pela horrenda força do mal que famélica só esperava o momento ideal para engolir sua razão.

“— Não faça isso... Não, Saga... Não se perca. Não agora.”

“— Eles vão conseguir salva-los, não vão?... Pelos deuses, eles vão conseguir! Não tem porque não conseguirem, não é mesmo? Não é, Shaka? Me diga, por favor! Eles vão salvar a minha família, não vão?”

As palavras do geminiano ecoavam cristalinas como a superfície de um lago em dia de calmaria dentro de sua mente. O desespero visceral dele nunca lhe fora tão compreensível como agora.

O medo que Saga sentiu na noite em que se perdeu agora era o seu medo.

A dor dele era agora também a sua dor.

“— SAGA! SAGA! OLHE PARA MIM! SAGAAA!”

— Baba?... BABA? Está cortando o seu dedo! Olha aí!

A voz doce e meio rouca de Kiki resgatou Shaka do passado e o trouxe de volta ao presente.

Sentado em uma confortável poltrona ao lado do leito hospitalar, o indiano cortava uma maçã em pedaços bem pequenos quando se perdeu em seus pensamentos e foi lançado para a fatídica noite em que Saga sucumbiu ao mal que habitava dentro dele.

A mente de Shaka estava tão perturbada que nem se dera conta de que afundava a lâmina da faca em seu dedo.

— Por Buda! — piscou os olhos de longos cílios louríssimos e imediatamente abandonou a faca na bandeja que tinha sobre o colo. — Mas que droga! Eu... eu me distrai.

— Está doendo? Chama a enfermeira, Baba. — disse Kiki um pouco assustado, que sobre a cama segurava um pedaço mordido de maçã em uma das mãos. Na outra tinha os acessos por onde recebia soro e medicamentos. Seu rostinho estava pálido e cansado, mas, diferente dos dois dias anteriores havia nele uma ansiedade alegre. Logo voltaria para casa.

— Não é preciso, filho. Não foi nada... Tem mais frutas no frigobar. Já corto mais umas para você. — Shaka levantou-se da poltrona deixando ali a bandeja e foi até o banheiro, onde meteu o dedo debaixo da água corrente para lavar o sangue.

— Baba, o senhor está com a cabeça lá nos pés. — disse Kiki voltando a deitar-se no leito. — Está pisando no seu juízo, por isso não está pensando direito. Não é isso que o senhor fala?

— É sim. — Shaka respondeu do banheiro, em voz alta. Encarava a própria imagem no espelho de cantos enferrujados esforçando-se para ficar ali, para aceitar e encarar aquela realidade funesta, pois quando Mu lhe colocou a par da condição de Kiki foi como se o chão desaparecesse debaixo de seus pés e um vórtice medonho o tragasse para o mais profundo e escuro dos abismo, onde foi colocado frente à frente com seu pior medo; este até então desconhecido. Por tantas vezes quis negá-lo, pois que ele era ninguém menos que Shaka de Virgem, o cavaleiro mais próximo de todas as verdades absolutas, aquele que deveria ter a sabedoria e plenitude que tantos homens buscavam para lidar com a vida e aceitar a morte sem teme-la.

Que enfadonha ironia lhe pregava a vida...

No quarto Kiki soltou um muxoxo enquanto mastigava o pedaço de maçã que jogara para dentro da boca.

— Que horas a gente vai pra casa. Baba? É tão chato ficar aqui...

— A hora que o seu pai chegar e o doutor Adônis assinar a alta. — Shaka respondeu do banheiro.

— Mas isso é hoje ainda? — Kiki perguntou ligando a televisão que havia no quarto. Usou telecinése para isso. Era uma forma de amenizar o tédio.

— É. É hoje. — Shaka respondeu engolindo em seco.

Como seria em casa?

Como seriam os próximos dias?

Quantos dias ainda eles teriam até que...

***

Casa de Gêmeos, 12:23pm

Com o olhar vago, Geisty aguardava a serva depositar a última baixela na mesa ampla de jantar de doze lugares. Já fazia seis anos que morava no Terceiro Templo, mas até hoje não havia se acostumado à solidão das refeições feitas ali.

Era bem verdade que o dia nublado que deixava o ambiente quase à meia luz em nada favorecia, mas simplesmente acender as luzes do lustre de cristal que tinha sobre sua cabeça não diminuiria a tristeza que alfinetava insistente seu coração nos últimos tempos. Certas dores já eram tão constantes em sua vida que se habituara a elas; passaram a fazer parte de quem era.

No entanto, não a última delas...

Geisty não conseguia se habituar com a incerteza do bem estar de Kiki, tampouco com o desespero de seus pais.

Pensava no sobrinho da hora que acordava até o momento que fechava os olhos exauridos, por muitas vezes de tanto chorar, se lamentando do infortúnio cruel que acometera aquela família, e o qual remontava dores suas tão antigas.

Respirou fundo buscando ânimo para comer. Passou o pé nu no pelo macio do gatinho preto que dormia debaixo da mesa — havia prometido a Kiki que cuidaria do bichano enquanto ele estivesse no hospital — e ter o bichinho ali era como ter o ruivinho um pouco mais perto de si. Mas, nem bem deu uma colherada na sopa de beterraba que já lhe havia sido servida ouviu ao longe o som discreto de passos ritmados e firmes que se aproximavam pelo corredor.

Conhecia como ninguém aqueles passos.

A italiana respirou fundo revirando os olhos sob as pálpebras cerradas enquanto ainda tinha erguida no ar a colher cheia de sopa que levaria a boca. Momentos depois o Cavaleiro de Gêmeos apareceu ali. Ficou de pé, na entrada da sala de jantar.

— Veio para o almoço? — ela perguntou olhando curiosa para ele, que vestia um terno todo negro, e em seguida enfiou a colher na boca antes de ter a resposta.

— Sim. — Gêmeos respondeu já desabotoando o paletó e seguindo para a outra cabeceira da mesa, onde sentou-se confortável na cadeira de estofado de veludo azul.

— Hum... — resmungou a amazona com a boca ainda cheia. — Podia ter avisado que vinha. — completou estufando o peito de ar.

— E eu preciso avisar quando venho almoçar na minha casa, mulher? Era para eu já estar sendo servido... A administração da criadagem é de sua responsabilidade, amazo...

— HEEEEEBE!

A voz potente de Geisty, que bem ao seu modo chamou pela serva, pegou Gêmeos desprevenido o fazendo soluçar com o susto.

Ligeira, a mocinha de cabelos castanhos surgiu prontamente na entrada da sala de jantar enquanto ainda enxugava as mãos no próprio avental.

— Pois não, senhora!

— Hebe, ponha mais um prato na mesa para o cavaleiro.

— Patriarca! — o grego a corrigiu irritado.

— Para o Grande Mestre. — disse desdenhosa a amazona o encarando. — Ele veio para o almoço.

— Sim senhora. — respondeu a jovem serva saindo apressada para retornar em menos de um minuto com a louça.

Enquanto ela servia afoita ao Patriarca, este direcionava um olhar tenebroso à esposa, que estava do outro lado na mesa mais preocupada em continuar a tomar sua sopa.

Assim que a serva se retirou Gêmeos disse:

— Tem notícias do Cavaleiro de Áries, Serpente?

— Recentes? Não. Nenhuma.

— Hum... Estranho.

Geisty olhou para ele com os olhos semicerrados.

— O que tem de estranho, Gêmeos?

Ele deu de ombros levantando as sobrancelhas.

— Vocês dois. — lançou um olhar desdenhoso para a esposa enquanto sorvia sua sopa. — Vocês parecem, digamos, tão amigos.

— Olha aqui... — Geisty fez uma pausa parando a colher que seria mergulhada na sopa e a apontando para o geminiano. — Não parecemos amigos, somos amigos... Mais ainda que isso, Mu é como se fosse meu irmão, e como você não demonstrou o mínimo interesse em ajuda-lo quando ele foi até você, imagino que a vida pessoal do Mu não lhe diga respeito, certo?

— Certo. — o Patriarca respondeu continuando a tomar a sopa, impassível. — Desde que esta não interfira nos compromissos dele para com o Santuário. O que não é o caso.

— Não seja cretino, Grande Mestre. Mesmo Mu estando em uma missão pessoal, cuja autorização você mesmo deu, ele não está deixando de cumprir compromisso algum para com o Santuário. — a amazona rebateu irritada. — E se você quer notícias dele, então pergunte você mesmo a ele. — devolvia ao cavaleiro uma expressão pouco amistosa, tentando dar por encerrado aquele assunto voltando a sorver calada sua sopa.

Contudo, o Grande Mestre estava longe de se dar por satisfeito com as explicações da esposa, e após um curto período de silêncio voltou a tocar no assunto.

— E enquanto Áries fica fora imagino que a contabilidade do meu prostíbulo esteja se fazendo sozinha. — molhou um pedaço de pão torrado na sopa e o levou a boca tranquilamente. — Assim... como por magia. — estalou os dedos no ar. Seu semblante era de pura ironia.

Mantendo a cabeça baixa Geisty o dardejou com o olhar.

— Eu estou responsável temporariamente por essa tarefa. — respondeu enquanto se esticava para pegar uma torrada.

Gêmeos arregalou os olhos escarlates, surpreso, mas em seguida apanhou a taça com água, tomou um gole e recostou-se à cadeira direcionando um olhar duro à italiana.

— Está responsável pela forja também, amazona? As armaduras que aguardam por reparo estão se amontoando na forja de Áries. Gigars me reportou.

— Estou. As estou reparando com super cola e macarrão instantâneo. — ela respondeu usando da mesma ironia, pois era notório que Gêmeos estava atrás de confusão. — Aproveita e mande Gigars até a Forja de Áries que eu dou um jeito na boca grande daquele velho fuxiqueiro também. — respirou fundo enquanto atirava a torrada em sua sopa a fazendo afundar com raiva usando a colher.

Geisty queria terminar logo aquele prato de entrada, mas a verdade era que nem tinha mais apetite para o prato principal.

Já o Grande Mestre decididamente não estava inclinado à tréguas; nem mesmo durante as refeições com a amazona.

Devolvendo a taça à mesa, mergulhou outra torrada na sopa a levando a boca com desdém.

— Não bastasse o abandono da Forja de Áries ainda temos a Casa de Virgem desguarnecida.

— Ah... pela deusa! — esbravejou Geisty perdendo a paciência. Com um gesto rude largou a colher dentro do prato e o encarou irritada enquanto batia ambas as mãos contra a mesa. — A Casa de Virgem não está entregue às moscas, não senhor! Ela está sob os cuidados dos DOIS pupilos do Shaka, Pavão e Lótus. — fazia os números com os dedos da mão, os apontando para o geminiano.

— É inadmissível isso! — agora era Gêmeos quem batia a mão contra a mesa num gesto efusivo.

— O que é inadmissível? Por Atena, eles são dois Cavaleiros de Prata poderosos, e ao mínimo sinal de invasão reportarão imediatamente ao Shaka.

— É inadmissível que seja necessário dois Cavaleiros de Ouro para cuidar de um fedelho doente! — Gêmeos esbravejou, recebendo de imediato o olhar reprovador da esposa.

— Eles são pais! É o filho deles que está doente. Má che cazzo! Te falta o que nessa cabeça, homem? — bramiu enfurecida dando um soco seco na mesa de madeira fazendo as louças tilintarem com a pancada.

— Na minha não falta nada, já na deles falta senso de responsabilidade e disciplina! — disse se jogando no encosto da cadeira e delineando um sorriso de escárnio no canto dos lábios. — Depois, era apenas questão de tempo para que aquele garoto tivesse algum problema... franzino e lento como é... Me surpreende que tenha vingado, sendo prematuro e criado sem mãe.

O sangue da italiana, que já era quente por natureza, ferveu dentro das veias. Seu rosto bonito ganhou um rubor intenso. Estava com ódio. Muito ódio.

Se debruçando sobre a mesa, e com o dedo de unha longuíssima em riste apontado para o geminiano, Geisty respondeu furiosa àquela afronta.

— Olha aqui, você meça as suas palavras ao se referir ao meu sobrinho. Nem você e nem ninguém tem o direito de falar dele nesses termos.

— Desça já esse dedo, amazona!

— Não!

— Eu exijo respeito! — rosnou o grego. — Você está falando com o seu Patriarca!

— Então dê o respeito antes de exigi-lo, Patriarca! — retrucou a italiana entre dentes. — Respeite a dor do Shaka e do Mu. Coloque-se no lugar deles... E para isso você nem precisa se esforçar muito, não é mesmo? Acho que se lembra bem como ela é. Duvido que a tenha esquecido, mesmo que a tenha sufocado debaixo de tanto ódio e loucura, mas caso sua memória esteja mesmo te faltando, eu posso lembra-lo de que foi o Mu quem velou e enterrou os nossos filhos... digo... os meus filhos e os de Saga!

As palavras saíram amargas da boca da amazona, e com semelhante amargor atravessaram os tímpanos do Grande Mestre, que mesmo engolindo em seco não se desfez de sua postura prepotente, continuando a encarar a mulher com o queixo erguido e o olhar ferino.

— Mas, se nem mesmo a sua dor sendo semelhante à deles lhe for o suficiente para deixá-los em paz, Patriarca... — continuou Geisty. — Pense então de forma fria e calculista, bem ao seu modo prático... Como acha que irá traçar qualquer estratégia de batalha para a próxima Guerra Santa, que por sinal está aí, batendo à nossa porta, sem a porra de um ferreiro celestial para consertar as sagradas armaduras? — deu mais um soco ruidoso na mesa fazendo a colher que estava apoia em seu prato cair no chão.

— Abaixe esse tom de voz para falar comigo, Serpente! Não vou falar duas vezes!

— Eu falo com você do jeito que eu quiser, pois é assim que você também fala comigo! E enquanto a você, sugiro que pense no que acabei de te dizer. Pense nesse seu pequeno contratempo, mas não pense pequeno como vem fazendo não, Patriarca, seja como o Saga, pense grande! Pense como um bom estrategista, a muitos passos à frente!... O Mu é o único ferreiro celestial vivo nesse mundo, e Kiki, além de filho dele, é seu aprendiz e herdeiro. Herdeiro da armadura de Áries e futuro ferreiro celestial. Só Kiki é apto a esse ofício. — respirou fundo atarantada. — Na sua posição, Patriarca, eu estaria torcendo, muito, e com todas as minhas forças, e estaria rezando, para todos os deuses do Olimpo, para que Kiki se recupere o mais rápido possível e tenha uma vida longa e plena. Que atravesse muitos séculos.

Em silêncio agora os dois se encaravam.

Gêmeos parecia digerir aquela realidade nada favorável a seus futuros planos, enquanto Geisty recuperava o fôlego depois daquela seção de oratória sem pausa para respiração. Recostou-se também na cadeira, farta de tudo aquilo, quando de repente sentiu as patinhas cheias de garras de Saravá Ebó a escalarem as pernas de sua calça.

Despreocupada ela se abaixou e trouxe para seu colo o gatinho preto, que até parecia estar assustado depois daquela discussão à mesa.

A presença revelada do gato ali despertou instantaneamente o Patriarca de sua divagação, e com o rosto contorcido em um misto de contrariedade e nojo logo protestou.

— Mas não é possível que ainda vamos ter que aturar a presença desse animal aqui no meu Templo.

Aquela foi a gota d’água para Geisty.

Se levantando com o gatinho no colo a amazona arremessou o guardanapo de tecido sobre a mesa já empurrando ruidosamente para trás a cadeira.

Gêmeos acompanhava seus gestos com o olhar.

— Já terminou sua refeição, amazona?

— A sua presença indigesta me fez perder o apetite.

A resposta do cavaleiro veio em forma de um resmungo inaudível.

— Vamos, Saravá. Temos muitos assuntos a resolver hoje e a sua companhia é bem mais agradável que a dele.

Disse com voz manhosa, esfregando o nariz na cabecinha peluda do filhotinho, que fechava os olhinhos satisfeito, então deu as costas ao geminiano e deixou a sala.

Sozinho ali Gêmeos ficou a ruminar seu ódio, companheiro infalível, até que Hebe aproximou-se dele com cautela.

— Senhor Patriarca. Posso servir o prato principal? — perguntou com voz baixa e assustada.

Abandonando a colher no prato ainda quase cheio, agitado Gêmeos deu um último gole na taça com água e então limpou a boca com o guardanapo o atirando em seguida sobre. Tudo sob o olhar temeroso da jovem serva.

— Já estou satisfeito. Pode retirar a mesa. — disse sem dirigir o olhar a ela, e arrastando a cadeira para trás com um solavanco se levantou.

Abotoou o paletó e deixou a sala calado. Seu semblante odioso era de causar arrepios ao próprio Hades no temível Tártaro.

Hebe respirou fundo encolhendo os ombros.

***

Hospital de Atenas, 04:15pm

Aquele estava sendo um dia agitado para o pequeno paciente, que logo no início da tarde recebera muitas visitas. Embora essas o deixassem demasiadamente cansado, elas o ajudaram a distrair e conter a ansiedade da volta para casa.

Kiki era muito querido no Santuário e até mesmo em Rodório, por isso os horários de visita eram sempre cheios. Naquele dia ele recebera o padrinho Aldebaran, Aiolia e Marin, também algumas bacantes e até mesmo Camus, que trouxera Hyoga para passar um tempo com o ariano, pois que o loirinho há muito estava preocupado com o amigo.

Ao fim do horário de visitas, restaram no quarto apenas Geisty, Hyoga, Shaka e Saravá Ebó. Que puderam ficar ali com a permissão especial de doutor Adônis.

Sentado na poltrona ao lado do leito hospitalar onde Kiki e Hyoga se distraiam com o gameboy novinho que Camus dera de presente ao pequeno lemuriano, Shaka brincava com Saravá Ebó, que em seu colo, e usando na cabecinha um minúsculo chapéu russo trazido diretamente de Moscou, fazia gracinhas se engalfinhando nas longas mechas de seus cabelos loiros. Doutor Adônis havia permitido as visitas do gatinho, desde que este estivesse sempre limpo, com as vacinas em dia e não ficasse solto pelo quarto.

Desde que Kiki fora internado, a missão de alimentar, banhar e cuidar da mascote da Sexta Casa enquanto os pais estivessem ocupados fora designada à Geisty por ele próprio, que não quis arriscar deixar o bichano aos cuidados dos discípulos do pai indiano, Shiva e Ágora, os quais, sob ordens expressas de Shaka, foram incumbidos de guardar o Templo de Virgem na sua ausência.

As visitas de Saravá Ebó, embora breves, não apenas faziam bem a Kiki como também amenizavam a tristeza e aflição que corroía os nervos do Santo de Virgem, o qual vez ou outra se permitia um sorriso furtivo diante de seus gracejos serelepes.

— O Ebó adora você. — disse Geisty com um sorriso ameno. — Ele sente muito sua falta.

— Eu também sinto falta do Siddhartha. — disse Shaka balançando os dedos para o gatinho pegar.

— Quando o Mu sai em missão e eu o levo para minha casa, o danado fica miando desesperado por um tempão, só sossega quando eu o enrolo na sua blusa, porque ela tem o seu cheiro. — sentada no braço da poltrona ao lado de Shaka ela ora olhava para o gatinho, ora para os dois garotinhos sobre o leito hospitalar. — Ele também é muito guloso.

— Saravá Ebó não é guloso! — Kiki se intrometeu após perder a partida de vídeo game e entregar o game boy a Hyoga. O garotinho russo ia ficar ali até que Geisty voltasse ao Santuário, então voltaria com ela. — Quanto mais se come, mais forte se fica. O papai que disse assim.

— Por isso o camarada Saravá Ebó tem muita fome, porque ele é um gato forte. Um gato russo! — disse Hyoga.

Shaka levantou a cabeça e riu da conclusão do pequeno aquariano.

— Forte? Ele é um pestinha, isso sim. — Geisty retrucou. — Come muito, depois dorme e acorda com o catiço no couro, revirando a minha casa do avesso.

— Você não fale assim do meu gato. O único com o demônio no couro lá na sua casa é o seu marido, Geisty, não o Siddhartha. — reclamou Virgem franzindo as sobrancelhas. — Sid é um anjinho.

— Bom... com isso infelizmente eu tenho que concordar com você. — Geisty deu de ombros. — Mas se é preciso comer muito para ser forte, então ele tá no caminho certo. Vai ficar forte igual a tia aqui, né Ebó? — coçou a cabecinha do gato no colo de Shaka.

— É por isso que a tia Geisty come muito? Por que ela é muito forte? — perguntou Kiki olhando para a amazona, que deu uma gargalhada bem a seu modo italiano, escandaloso e em alto volume.

Porém não alto o suficiente para abafar o comentário de Hyoga, que distraído com o videogame em suas mãos deixou escapar:

— Não. A tia Geisty come muito porque é uma brutalhona sem classe.

A risada da amazona cessou na mesma hora, e percebendo o silêncio repentino que se fez no quarto Hyoga ergueu os olhos do joguinho e encontrou os olhares estatelados de todos sobre si, incluindo o do gato e o do Santo de Virgem, que havia até aberto seus olhos.

— Desculpa tia Geisty. — disse embaraçado o garotinho russo.

— Mas que malcriação é essa, Hyoga? — repreendeu Shaka olhando sério para ele. Havia até desencostado as costas da poltrona.

— Foi o pére que disse que ela é uma brutalhona sem nenhuma classe. — Hyoga deu de ombros.

— Ah, mas só podia ser coisa daquele porco. — Geisty ralhou, mas vendo a cara de espanto do garotinho logo se corrigiu. — Digo, do porco do seu pai... DIGO, DO SEU PAI!

— Pois saiba que essa coscuvilhice é tão somente pinima daquele ulu** celerado do seu pai, que fica colocando caraminhola na sua cabeça, Hyoga. — disse Shaka, que balançava a cabeça ao modo indiano que indicava indignação.

— Quê? — o loirinho perguntou confuso.

— O Kiki também não entendeu, Baba. Por que o tio Camus colocaria carambola na cabeça dele?

— Eu não disse carambola, disse caraminhola.

— Gente, deixa para lá. O que o Cavaleiro de Aquário pensa sobre mim eu tenho certeza que não é nem a metade do que eu penso dele... Enfim... — disse Geisty pondo um ponto final no assunto. — A tia aqui come muito mesmo, e por isso ela é bem forte! E você deve fazer o mesmo, Kiki. Para ficar forte tem que comer bastante, e também ser corajoso. Isso eu sei que você é. — deu uma piscadinha para ele.

Mas Kiki respondeu ao incentivo baixando a cabeça amuado.

— Mais ou menos. — deu um suspiro. — O Kiki é valente, mas os remédios no braço doem, e também ele não tem mais fome. — mostrou a mãozinha pálida com os acessos ainda presos às veias.

Aquela resposta atingiu em cheio Shaka, que sentiu como se uma bala lhe atravessasse o peito.

Imediatamente Virgem se levantou da poltrona e foi até ele na cama.

— Ei, filho. Não fica assim. — disse acercando-se dele e lhe acolhendo no peito para fazer um cafune em seus cabelos vermelhos. — Logo o médico vai tirar esse cateter do seu braço e então nós vamos para a nossa casa. Aí, o Baba vai fazer tudo que você gosta de comer, pudim, bolo de chocolate, samosas de espinafre com queijo, torta de frango ao curry, tudo. E o seu apetite vai voltar.

— Isso mesmo! Hum, com um cardápio desse eu vou comer lá todo dia. — Geisty brincou indo até eles, para descontrair levantou a mão no ar para Kiki. — Isso logo vai passar, você vai ver. Então toca aqui, garoto fortão da tia.

Kiki deu um soquinho no ar com a amazona, ganhou beijos e carinhos do pai indiano, e mais animado propôs a Hyoga outra partida do jogo eletrônico.

Geisty e Shaka então se afastaram deles para conversar aos cochichos.

— Que horas vocês vão embora? — ela perguntou.

Shaka baixou a cabeça e trouxe Saravá Ebó até seu rosto. Inalou o cheirinho suave de shampoo que exalava de seus pelos ainda meio ralos, mas muito macios, e não respondeu de imediato. O ronronar do gatinho aquecia um pouco seu coração aflito, mas o que de verdade ele sentia naquele momento era um medo terrível de voltar para a casa.

— Assim que o Adônis trouxer os resultados das últimas contagens do exame de sangue e o Mu chegar da nova expedição... Nós vamos espera-lo. Vamos os três juntos para casa. — respondeu em voz baixa. — Não há mais necessidade de Kiki ficar aqui se está recebendo apenas soro, alguns remédios e vitaminas... Paliativos podem ser administrados em casa mesmo...

— Entendo. — ela respondeu desanimada.

Desde que tudo acontecera Geisty tentava ajudar pelejando para amenizar a tristeza que via nos olhos de Shaka, fosse com visitas animadas ou levando o gatinho para eles no hospital, mas diante do prognóstico terrível, e até então sem previsão de cura, de Kiki, essa missão a cada dia se tornava mais e mais enfadonha. Era nesses momentos que agradecia à natureza pura e inocente das crianças, pois que seria de uma crueldade terrível ver a dor que morava nos olhos de Shaka e Mu também estabelecerem morada nos de Kiki.

— Se precisar de ajuda em casa, Shaka, pode contar comigo. — disse com um sorriso sincero e amável, enquanto apertava a mão do indiano que segurava o gatinho no colo. — Se precisar eu cuido do Saravá Ebó para você.

— Eu sei, obrigado. — disse Shaka, e por um momento sua voz ficou menos séria. — Mas voltando para minha casa eu mesmo cuido do Siddhartha. — disse o nome num volume mais alto e entonação mais nítida. — E também do Kiki e do Mu. — fez uma pausa e então olhou para a porta. — Falando dele...

No instante seguinte Kiki abriu um enorme sorriso e abandonou o jogo eletrônico sobre a cama. Também já tinha sentido a presença do pai no hospital, no exato momento em que ele se teleportara para a recepção da Ala 5, então eufórico alertou a todos.

— O papai chegou! Rápido tia Geisty, dá aqui o ushanka que o Hyoga deu para o Kiki. — apontou para o chapéu russo nos pés do leito, próximo à amazona. — O Kiki quer pôr ele para o papai ver.

— Calma aí... Ui! Cadê? Ah, achei! — disse Geisty entrando na empolgação do garotinho e buscando afobada o presente para colocá-lo rapidamente na cabecinha de cabelos revoltos vermelhos, os ajeitando de forma meio desengonçada. — Pronto! Está um legítimo gru-grussio. Não é Hyoga? Falei certo?

— Não! — disse plácido o loirinho.

— Ah não? Desculpa, então como é?

— É Grrrússio.** — disse com forte sotaque russo, exagerando propositalmente na entonação do "r".

— Aaaaah, tá. — Geisty ia repetir, mas de repente a porta do quarto se abriu e por ela entrou o Cavaleiro de Áries.

Mu tinha a fisionomia abatida e as roupas empoeiradas. Estava exausto, mas assim que seus olhos cansados encontraram o rosto do filho a lhe sorrir alegre sobre o leito do hospital, e com o gorrinho russo na cabeça, nada mais lhe importou, nem o cansaço, nem a tristeza, agora sua companheira inseparável de viagem. O lemuriano abriu o melhor sorriso que conseguiu e caminhou apressado até ele.

— Olha quem chegou! O pai desse menininho grrrússio! — Geisty disse efusiva, tentando animar o ariano.

— Nossa, acho que me enganei no teleporte. Mirei na Grécia e vim parar na Rússia! — Mu brincou ao adentrar o quarto e cumprimentar a todos.

— PAPAI! Olha! O Kiki ganhou presentes! — o pequeno apontava com empolgação para o gorro na cabeça e para o gameboy.

— Ora, vejam só! Não é que meu filhotinho virou um menininho russo dos cabelos de fogo? — Mu disse ao se aproximar do filho, então o pegou no colo e o abraçou com força, lhe dando um beijo estalado no rostinho feliz. — Ficou lindo, filhotinho. Já agradeceu o Hyoga pelos presentes?

— Já sim, papai!

— Então agora eu posso te dar um cheiro. — Áries sorriu enquanto o enchia de beijos e fungadas. — Hmm, que saudade que o pai ficou de você.

— O Kiki também sentiu saudade, papai. Você demorou hoje.

— Eu sei... Me desculpe, minha luzinha.

O ariano uniu os pontos de sua testa com os pontinhos do filho, lhe transmitindo todo seu amor, depois de um momento o devolveu para a cama e caminhou até o marido o saudando com um beijo rápido nos lábios, gesto que não passou despercebido por Hyoga, e que lhe causou imediata estranheza e incômodo.

Discretamente, e bem constrangido, o menininho russo virou o rosto evitando olhar para os dois cavaleiros. Embora soubesse da orientação sexual dos pais de Kiki — e esta em nada mudava o sentimento bom que tinha por eles — a homossexualidade ainda lhe era um espécie de tabu, enraizado no mais profundo da mente de Hyoga. Obviamente esse era um assunto proibido nas discussões em família, não se falava sobre ele à mesa ou nas tardes durante os piqueniques com papai e Maman Di, pois que Camus o evitava o máximo que conseguia, ele mesmo encontrando uma dificuldade tremenda em debate-lo. Restava a Afrodite, em doses homeopáticas, quebrar os preconceitos diversos que a Vory v Zakone impunha ao garotinho. Era uma batalha de Davi contra Golias, mas que o cavaleiro de Peixes encarava com uma grande dose de coragem, amor e paciência.

— Oi, Luz da minha vida... Oi capetinha. — Mu fez um cafunézinho nas costas de Saravá Ebó, só então virou para a amiga amazona e a saudou com um sorriso cansado. — Geisty, perdão pelo atraso. Hoje foi um dia tão difícil... Deve estar tudo acumulado lá no Templo das Bacantes, não é?

— Não se preocupe com o Templo das Bacantes, Mu. — disse ela gentil. — O Afrodite já fez as encomendas com os fornecedores e eu adiantei toda a contabilidade. — sorrindo deu uma piscadinha para o lemuriano enquanto apontava para uma pasta sobre a mesa no canto. — Só precisa conferir o relatório final, mas sem pressa.

— Obrigado. — Áries respondeu com um sorriso constrangido. Sabia que sua ausência no bordel estava sobrecarregando os amigos. — Prometo verificar hoje à noite mesmo. Te mando um torpedo caso haja algum resultado que não bata. — disse, e logo correu os olhos pelo quarto em busca de algo para comer.

Para os leigos os dons lemurianos não passavam de pura magia, uma dádiva infinita de poder inesgotável, mas isso não era verdade. Os dons lemurianos consumiam muita energia de seu portador, especialmente a telecinese e o teleporte. Esse último, quando feito de longas distâncias, exauria as reservas energéticas em uma rapidez absurda, por isso Mu chegava sempre faminto, sentindo o estômago já doer exigindo comida.

Sabendo bem disso Shaka entregou Saravá Ebó para Geisty e pegou na mão de Mu, o puxando consigo até o frigobar.

— Venha comer algo, você deve estar exausto. Eu guardei um pedaço de bolo de abacaxi para você, e tem também um milk-shake de chocolate. Peixes trouxe para Kiki, mas ele não pode comer isso. — disse, então apanhou o copo de 600 ml do sorvete batido e entregou a Mu.

— Hmm, obrigado, meu amor... Eu estou com tanta fome que comeria um iaque inteiro.

— Não te prometo um iaque, mas assim que chegarmos em casa eu preparo algo nutritivo de verdade para você comer, mas antes...

Sem aviso Shaka puxou Mu pela mão e o levou até o banheiro, onde podia conversar com ele reservadamente, já que não aguentaria esperar para ter notícias até que chegassem em casa. Mal entraram o indiano fechou a porta e encarou o esposo com olhos aflitos e suplicantes.

— Como foi? Você encontrou? Encontrou alguém? Me diga que encontrou.

O olhar de Shaka era tão intenso que Mu sentia seu coração doer.

Como queria lhe dar uma boa notícia...

Com um suspiro cansado o lemuriano sorveu um gole da bebida gelada apenas para acalmar o estômago, então se sentou sobre a tampa do vaso sanitário com a cabeça baixa.

— Encontrei... Mas não foi como eu esperava. — confessou ao ajeitar os cabelos com uma das mãos e comprimir os olhos, reunindo forças em si mesmo para não desabar.

Pior que a frustração de mais uma missão em vão era ter de ver as esperanças nos olhos azuis se esvaírem feito a chama da vela que se apaga ao fim da vigília.

— Como não foi como esperava? — Shaka se abaixou para ficar na mesma altura de Mu, tocando-lhe os joelhos. — Você seguiu as pistas? As coordenadas? Era para ter um lemuriano naquela região. Estava no mapa!

— Sim, eu segui as pistas, todas elas. Fui até a cidade do Barro e lá eu passei parte da manhã inteira procurando por um sinal telepático que rastreei através do elo... — levantou o rosto e olhou para Shaka, para seus olhos que brilhavam em expectativa. — Não imagina a alegria que senti quando o elo que fiz com ele foi correspondido.

— Então você encontro um? — Virgem quase sorriu. — Encontrou um lemuriano?

— Um mestiço. — disse desanimado.

Shaka entreabriu a boca e franziu as sobrancelhas.

— Um... mestiço? — perguntou confuso. — Nunca disse que existiam mestiços no seu povo.

— Não era para existir. — disse Mu. — Os muvianos evitam ao máximo a miscigenação. Por nossas espécies serem diferentes, nem sempre a fecundação híbrida é viável, e mesmo quando ela ocorre o choque de sangue é perigoso. A longo prazo a miscigenação pode nos extinguir pela diluição sanguínea... Se isso já não ocorreu. — o pesar na voz era notável.

— E quem é a pessoa que você encontrou?

— O pobre coitado é um beduíno islâmico que não fazia ideia de sua origem, tampouco da existência dos lemurianos.

— Não. — Shaka baixou a cabeça e apertou os dedos contra a testa.

— O nível baixo de suas habilidades me fez duvidar até que ele seja um descendente direto. Shion me contou que ao longo da história, nas raras vezes em que a fecundação híbrida ocorreu com sucesso, o sangue muviano se mostrou dominante nos filhos, gerando crianças lemurianas, porém os netos e bisnetos perdiam as características gradativamente, conforme procriavam novamente com humanos... O homem que encontrei hoje possuía longevidade, pois aos quarenta anos ainda se assemelhava a um rapaz, além de um traço sutil de telepatia, forte o suficiente para que eu conseguisse rastreá-lo, mas apenas isso. Ele não portava telecinése, em nenhum nível. Sequer imagina o que seja teleporte. Os pontos raciais dele eram tão fracos que pareciam simples manchas. — Mu bebeu mais um gole do milk-shake e desabafou: — Foi tão frustrante... Ele achou que eu era um gênio.

Shaka levantou a cabeça e voltou a olhar para o marido.

— Gênio? — perguntou alarmado.

— Sim. Ele atribuía as habilidades psíquicas dele a uma maldição dos djinns, entidades sobrenaturais islâmicas intermediárias, algo entre o angélico e o humano... Inclusive me chamou de djinn, e me olhava como se estivesse olhando para o próprio demônio em pessoa.

Virgem respirou fundo.

— Mas que... inferno!... Por que voltou tão tarde se não descobriu nada?

— Porque passei a tarde conversando com ele... Depois de um tempo, e mais calmo, ele permitiu uma aproximação. Daí o homem desatou a falar, e falar... Me convidou para um chá na casa dele, que fica em uma tenda no mercado, então eu fui. Em toda minha vida esse homem foi o primeiro sinal da existência de remanescentes do meu povo que encontrei. Ele não tinha as informações que eu precisava, mas podia me dar alguma pista.

Com o rosto lívido e os olhos azuis arregalados ainda fixos aos de Mu, Shaka voltou a ficar de pé e recuou alguns passos até suas costas chocarem-se contra a parede fria de tinta branca. Por um momento ficou ali parado, e aquele banheiro de repente lhe pareceu mais frio que o normal. Um tremor percorreu-lhe o corpo, então ele piscou algumas vezes e levou ambas as mãos à cabeça, afundando os dedos nos cabelos longuíssimos que caíram por sobre seus ombros.

Na mesma hora Mu levantou-se e foi até ele.

— Ei, Sha, não fica assim. — disse o ariano afastando carinhosamente seus cabelos e lhe beijando o ombro. — Vai dar certo da próxima vez, tenho certeza. Pode ser besteira, mas vou rastrear a região onde ele disse que nasceu antes de partir para a próxima missão.

Shaka baixou as mãos e olhou para Mu. A face abatida do lemuriano lhe partia o coração.

Com um suspiro agoniado passou os braços pelo pescoço dele e o trouxe para um abraço forte.

— Faça isso, Mu. — sussurrou próximo ao ouvido do ariano, afundando o rosto nos cabelos lavanda. — Faça rápido... Algo me diz que não temos muito tempo.

Nesse instante ouviram a voz de doutor Adônis vinda do quarto e então se separaram. Trocaram mais um olhar cúmplice antes de seguirem de volta para lá.

Quando chegaram ali pegaram o médico auscultando o peito de Kiki com o estetoscópio. Hyoga aguardava de pé ao lado da cama com os olhos vidrados nos movimentos de Adônis. Prestava atenção a cada detalhe. Geisty estava sentada na poltrona enquanto brincava com Saravá Ebó, mas assim que viu os dois amigos chegarem se levantou com o gatinho no colo e foi até perto deles para ouvir os pareceres do médico.

— Boa tarde, cavaleiros! — Adônis sorriu gentil para eles, embora soubesse que o que esperavam de si estava bem longe de ser sorrisos e palavras de incentivo.

— Boa tarde, doutor. — Mu respondeu simpático. — E então? Como ele está?

Adônis descansou o estetoscópio em volta do pescoço e apanhou um calhamaço de folhas que trouxera consigo.

— Ele está bem melhor hoje. Não é, amigão? — fez um cafuné nos cabelos ruivos de Kiki, que sorriu de volta para ele.

— Sim! O Kiki só está sentindo um gosto ruim na boca. — reclamou.

Desconfiado do que seria Adônis lhe pediu para abrir a boca, e suas suspeitas se confirmaram. Suspirou profundamente e comprimiu os lábios, depois enfiou a mão no bolso do jaleco e lhe entregou um pirulito de chiclete.

— Toma. Isso ajuda no gosto ruim? — sorriu para ele.

Kiki arregalou os olhões lilases e abriu um largo sorriso.

— Sim! Obrigado!

— Toma um para você também, Hyoga. — o médico entregou outro ao garotinho loiro que já espichava os olhos azuis para o doce. Adônis o conhecia, pois que Camus o levara todos os dias ali para visitar o amigo.

Enquanto as crianças se distraiam com os pirulitos, o médico aproximou-se dos pais que aguardavam ansiosos junto de Geisty.

— Desde quando pirulito é remédio para gosto ruim na boca? — Shaka questionou Adônis o encarando com um olhar severo.

Pacientemente o médico respirou fundo e voltou os olhos para as fichas que trazia nas mãos.

— Bem, os últimos exames não apontaram novas alterações. Posso dizer que ele está em um quadro estável. A febre alta também foi regulada com os medicamentos e não voltou, o que é um bom sinal, mas... — fez uma pausa e então olhou para o rosto de Mu. Era mais fácil falar com o pai lemuriano, mais fácil instruí-lo. — Vou continuar e aumentar a dosagem da Oprelvecina, o estimulante de produção de plaquetas. Vamos dobrar a dose. Ele está com um leve sangramento nas gengivas. Muito sutil, quase imperceptível, mas que justificava o gosto ruim na boca.

Shaka levou a mão à boca e apertou com força o lábio inferior.

Geisty engoliu em seco, toda atrapalhada com o gatinho que não parava quieto em seu colo.

— Então... eu ainda precisarei trazê-lo aqui para as injeções? — Mu perguntou aflito, pois o medicamento caríssimo era injetável.

— Como havíamos conversado ontem, só darei alta a ele para que continue o tratamento em casa porque sei que podem trazê-lo ao hospital em um piscar de olhos, caso houver qualquer emergência. Do contrário ele continuaria internado. Então, sim. Precisam trazê-lo aqui para tomar o medicamento injetável uma vez ao dia. Todos os dias.

— Ele tem tanto medo de agulhas, ele odeia injeção. Não tem outro jeito de administrar esse medicamento? — Virgem perguntou aflito, mordendo a ponta do dedo que havia cortado horas antes, e que estava com um curativo simples.

— Infelizmente não, senhor Shaka. — disse o médico. — Podemos combinar um melhor horário para ele, para as vindas ao hospital não tomarem muito do tempo dele. Aplicamos a injeção, fazemos um checkup e então eu o libero já em seguida. Por enquanto creio que sete dias de Oprelvecina seja o suficiente.

— Suficiente para quê? — perguntou Shaka em voz baixa. — Será que dessa vez você sabe o que está fazendo, doutor?

— Sha, para com isso. Não dificulta as coisas. — Mu pediu.

— Suficiente para o corpo dele reagir e gerar plaquetas o suficiente para mantermos ele bem, no quadro estável em que ele se encontra, enquanto continuamos com a pesquisa. — disse Adônis. — Além disso, devem continuar com os medicamentos para febre e com a dieta de alimentos ricos em vitamina K, como fígado, ovos, vegetais folhosos verde-escuros, pois eles ajudam no controle de hemorragias porque reduzem a quantidade de plaquetas necessárias para a coagulação do sangue.

Ouvir aquilo era um afronte para Shaka, que desde que Kiki era um bebê já enriquecia sua alimentação justamente com todos aqueles ingredientes mencionados pelo médico.

Era certo que a doença do filho em nada tinha a ver com o modo como fora criado, por isso cada palavra de Adônis lhe soava extremamente indigesta.

Percebendo a inquietude do marido, Mu lhe tomou a mão e a apertou contra a sua, ao mesmo tempo em que custava a acreditar em tudo que ouvia. A cada palavra de Adônis seus olhos fugiam para o leito onde o filho estava e seu coração se apertava em desespero.

— Mais uma coisa. — o médico chamou atenção dos dois ao estender uma folha de papel para eles, a qual foi rapidamente apanhada por Shaka. — Essa lista contém os alimentos que a partir de hoje estão estritamente proibidos. Nós precisamos preparar o corpo dele para um exame de cintilografia que eu marquei aqui no hospital para daqui a treze dias.

— Certo. — disse Shaka correndo os olhos pela folha. As restrições eram imensas, e a promessa de fazer os quitutes e guloseimas que Kiki mais gostava de comer fora por água a baixo.

— A nossa equipe também entrou em contato com a Fundação para a Evolução Molecular Aplicada, nos Estados Unidos. Lá eles têm um equipamento de mapeamento genético. — prosseguiu o médico, que nessa hora tinha total atenção dos pais. — Se conseguirmos mapear ao menos uma parte do genoma lemuriano, talvez consigamos entender melhor o caso e até mesmo encontrar o que está causando essa “falha”. As amostras do sangue de Kiki foram encaminhadas hoje para eles.

— Doutor, treze dias para um exame não é muito tempo? — perguntou Geisty preocupada. — Não dá para ser antes?

— Infelizmente não. O exame exige esse mínimo tempo preparo. O hospital, a meu pedido, está tentando negociar outros equipamentos, bem mais modernos, para agilizar os processos e os exames serem feitos aqui mesmo. Eu poderia encaminha-los para outras unidades mais bem equipadas na Europa, mas... — engoliu em seco diante da gravidade do que iria dizer. — A verdade é que não sabemos que efeitos uma viagem de avião, devido a pressão em altas altitudes, causaria no organismo de Kiki. Até mesmo o teleporte deve ser evitado no estado em que ele se encontra.

— Dinheiro não é problema, doutor. Eu posso fazer um empréstimo no banco e ajudar a pagar o equipamento que for preciso. — disse Mu.

Adônis lhe sorriu gentil.

— Eu sei que pode, senhor Mu. Mas além do valor ser muito elevado, essas negociações não dependem apenas de dinheiro... E não podemos fazer os exames em menos de treze dias mesmo. Então, sigam com o preparo à risca e eu entrarei em contato com vocês assim que tiver um novo parecer.

— Certo. — Mu respondeu no automático e um tanto atordoado; mal ouvia as palavras de Adônis. — Então... podemos ir para a casa?

Ouvir aquela súplica de um pai foi difícil para o médico, que abrandando o tom da voz pousou a mão no ombro do Cavaleiro de Áries e lhe deu um aperto em solidariedade.

— Sim. Podem ir para a casa.

Naquele momento aquelas eram as únicas palavras que importavam para o Cavaleiro de Áries. Seu pequeno Kirian dormiria em seus braços esta noite, no aconchego de seu lar, no conforto do seu abraço, e era tudo o que o seu coração de pai desejava.

* lemuriano antigo, língua falada pelos habitantes do continente de Mu.

** Ulu – em hindi, pessoa estúpida, burra.

** Grússio – Grego + Russo

Nosso grupo no face "Fics trio ternura" com muitas informações extras.

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.

Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka.

Notas finais
É gente, a situação do Kiki não está boa, e Mu enfrenta uma corrida contra o tempo. Mas como refresco, no próximo cap teremos Camus e Dite... se preparem XD