Notas iniciais
Olárrr mais um cap do templo e esse com um "folego extra" mostrando um pouco do nosso casal sumidinho: Dite e Camus BEEEEMMM do jeitinho deles uahuha ps: caralho essa capa TA MUITO FODAAA

Décimo Terceiro Templo, 07:58am.

De braços cruzados diante das enormes portas de madeira abertas do Salão do Grande Mestre, o par de olhos azuis inexpressivos vagueava pelo físico dos dois soldados que lhe impediam a passagem com suas lanças cruzadas. Sua armadura de prata reluzia à luz do sol que entrava pelas grandes janelas e deixava sua aparência — sempre impecável — ainda mais exuberante, porém sempre em contraste com a fisionomia pedante e enojada.

Súbito foi tirado de sua contemplação pela cadência desarmoniosa dos passos que vinham acompanhados do som habitual do cajado ao se chocar com o chão de mármore esverdeado, então levantou o olhar para além das lanças dos guardas e viu a figura depreciativa de Gigars emergir da escuridão que tomava a parte interna do salão.

— O Patriarca irá recebe-lo agora, Lagarto. — disse a voz rouca e esganiçada do velhote.

Enquanto seguiam pelo corredor escuro de ar viciado e aroma embolorado, Misty olhava de soslaio e com certo horror para a corcunda disforme de Gigars sentindo que ela parecia lhe olhar de volta. Credo! Pensou ele.

Ao fim do corredor o secretário virou-se e o encarou com o único olho.

— Seja breve, cavaleiro. O Grande Mestre é uma pessoa muito ocupada e não tem tempo a perder com falatórios. — disse empurrando o francesinho, que em sobressalto tratou logo de escapar do toque daquela mão de dedos curtos e contorcidos avançando apressado até o trono, onde o Patriarca o aguardava sentado.

— Grande Mestre! — disse prostrando-se em reverência, espalhando sua capa caprichosamente ao que seu joelho tocou o chão. Após uma breve pausa levantou a cabeça e olhou para o rosto dele. Mesmo oculto pela máscara azul anil, a visão daquele Patriarca era de causar arrepios, e tratando de evita-la baixou o olhar e prosseguiu: — Venho me apresentar após retornar da missão no Canadá. Como de praxe, encaminhei o relatório redigido ao secretário chefe ontem no início da noite.

— Sim, eu já estou ciente do seu relatório, Lagarto. — a voz troante e nada aprazível fazia gelar o sangue nas veias da maioria dos mortais, e com o prateado não era diferente. — Há algumas... inconsistências, para não dizer absurdos, que quero ouvir saírem de sua própria boca. — cuspiu as palavras, fazendo o cavaleiro engolir em seco em apreensão.

— Inconsistências, meu senhor? — murmurou Lagarto alarmado.

— Sim, Misty. — disse Gigars metendo-se na conferência com sua voz esganiçada e em tom colérico. — O relatório que nos apresentou é completamente medíocre e sem nenhuma lógica aparente. Parece mais que você, nesses cinco dias ausente do Santuário, negligenciou a missão e ficou passeando. O que foi? Aproveitou o tempo para fazer uma tour pelos bordeis canadenses para praticar pederastia em vez de investigar o desaparecimento da armadura de Urso? — deu uma pancada no chão com o cajado ao se aproximar do cavaleiro e se postar do lado dele, o mais empertigado que sua corcunda lhe permitia, enquanto chacoalhava diante de seu rosto a pasta que continha o relatório de missão.

— Como é? — Misty questionou indignado, levantando o rosto para encarar o secretário velhote.

— Abaixe já esse tom, Lagarto! — esbravejou o Grande Mestre erguendo o tom de voz, fazendo os outros dois se calarem. — Você acaso me toma por tolo?

— N-Não, meu senhor. É que... — coagido Misty voltou a encarar o tapete vermelho sob seus joelhos em sinal de submissão e obediência.

— Armas de fogo? — continuou o Patriarca, o interrompendo. — No seu relatório constam evidências de uso de armas de fogo... Logo, você espera que eu acredite que um dos nossos cavaleiros de Bronze foi abatido por armas de fogo. Correto?

— S-sim, Grande Mestre, mas é que não é exatamente assim que...

— E ainda diz que não me toma por tolo, Lagarto? — deu uma pancada forte no braço do trono de ouro que fez Misty e Gigars se sobressaltarem com o susto. — Suponha-se, então, que nossos inimigos tenham feito uso de qual arma? Um canhão soviético para abate de blindados nazistas da Segunda Guerra, cavaleiro? Um lança foguetes israelense de alta precisão? Uma bazuca paquistanesa? NÃO! Porque no seu relatório, Lagarto, você citou possíveis projéteis de pistola 9mm. UMA PORRA DE UMA ARMA DE MÃO!... Foi com a merda de uma pistola que a armadura de Urso foi roubada, Lagarto?

— Eu não sei, senhor Patriarca. — murmurou o loiro, que tinha os olhos alarmados.

Gêmeos respirou fundo cerrando os punhos, e depois de um momento rosnou:

— Ponha-se de pé e me relate exatamente o que você descobriu, Lagarto. AGORA! E SEM RODEIOS!

Imediatamente o cavaleiro de Prata se levantou e aprumou-se antes de começar a falar para ter tempo de tentar se acalmar.

— Meu senhor, como descrevi no relatório, passei cinco dias vasculhando todo o perímetro de guarda que era responsabilidade do Cavaleiro de Bronze de Urso. Nesse tempo colhi depoimentos, informações e também andei atrás de evidências, mas não encontrei nenhuma perturbação que fosse oriunda de Cosmo hostil, seja vindo de alguma deidade ou criatura mítica, mas apenas evidências civis.

— Isso já consta no seu relatório, cavaleiro. Não desperdice o meu tempo e nem abuse da minha paciência de tal forma leviana... Vá direto ao ponto, por obséquio! — disse o Patriarca entredentes, fazendo seu secretario dar um sutil sorriso de escárnio do claro nervosismo do outro.

— Bem... andando pela península Gaspé, nas margens norte do Lago Superior, notei uma clareira em meio à mata fechada. Era pequena e tudo indica que tenha aparecido recentemente, porém não tinha aspecto de ter sido aberta por animais, já que não encontrei rastros ou pegadas que levassem à ela. Parecia mais ter sido aberta devido algum embate que se deu ali, porque algumas árvores foram partidas ao meio, rochas esmagadas, e a terra sob as folhas secas parecia queimada. Quando fui examinar a terra para tentar rastrear algum indício de Cosmo energia, percebi que haviam, há alguns passos da clareira, dois buracos cobertos por folhas, o que pareciam ser dois esconderijos, ou cativeiros, um em cada extremidade do perímetro, e que no máximo caberia um homem em cada. Foi dentro desses buracos que encontrei as cápsulas, possivelmente de calibre 9mm, que anexei ao relatório. Como não sabemos a procedência destes, achei relevante anexa-las ao relatório para que possam ser enviadas para análise laboratorial.

Nessa hora o coração de Gigars saltou dentro do peito. Sua garganta ficou dura e seca, e até a respiração se tornou pesada.

— Gigars, por que eu não tive acesso a esses projeteis? — Gêmeos fez a pergunta fatídica, direcionando o rosto oculto pela máscara ao secretário velhote. — Onde eles estão?

— Eu... eu me adiantei, meu Patriarca, e já os enviei aos peritos.

Gêmeos ainda perdeu dois segundos encarando o secretário até se voltar novamente para Misty.

Gigars suspirou levando a mão à testa para enxugar o suor que brotava frio.

— Prossiga, Lagarto.

— Ao que tudo indica, uma tocaia foi armada no local. Pode ser que o Cavaleiro de Urso tenha sido atraído até aquele ponto, mas não havia ali nenhum indício de sua Cosmo energia.

— Você está me dizendo que um dos meus cavaleiros, treinado aqui, dentro deste Santuário, sob todo o rigor do meu crivo, e forte o suficiente para ser sagrado com uma das lendárias armaduras de Bronze, foi abatido por civis miseráveis armados com pistolas? Quando essas não lhe deveriam fazer nem cócegas?

— Talvez não, Grande Mestre. — ousou dizer o francesinho. Mesmo com um frio na espinha, daria sua opinião sobre o caso e aproveitaria a oportunidade para expor sua perspicácia.

— Talvez não? — inquiriu curioso o geminiano. — Prossiga.

— Presumo que a morte de Urso não se deu de modo fácil, e eles precisaram de um plano B, caso o plano A não desse conta.

— O Plano A? — perguntou o Patriarca, acompanhado de uma expressão curiosa de Gigars que arregalava seu único olho, atento às palavras de Misty.

— O plano A seria matar Urso e lhe roubar a armadura, porém Urso jamais seria morto por simples civis, então o plano B era justamente a intervenção de um cavaleiro, mas sem deixar rastros de Cosmo para que não chegássemos a ele... Seja quem for esse cavaleiro, ou detentor de Cosmo, ele sabe agir sem deixar rastros.

— Um cavaleiro renegado, talvez? — Gêmeos questionou.

— Talvez. — disse Misty.

— Você não encontrou o corpo? — disse Gêmeos incrédulo e irritado.

— Não, senhor Patriarca. Sem corpo, sem pegadas, nada. Apenas as cápsulas.

Um silêncio se deu por breves segundos. O Patriarca parecia ponderar todas as informações quando por fim questionou:

— E quanto à testemunhas?

— Nenhuma testemunha, Grande Mestre. Eu fui até a mina de ouro, que é relativamente próxima à clareira, e lá os trabalhadores não relataram nada de estranho. Fui, por sinal, bem incisivo, tanto com os mineiros quanto com os russos da Vory v Zakone que fiscalizam o local. Esses só estão à par das transações comerciais de ouro mesmo. Quem faz a guarda do local são mercenários que trabalham para eles. Também interroguei um a um e nenhum deles soube dizer nada. Não ouviram tiros, nem sinais de invasão. Tanto o cavaleiro de Urso quanto a armadura de Bronze parecem ter desaparecido da face da Terra. Mas tudo indica que estão na posse desse cavaleiro misterioso que oculta seu Cosmo tão bem quanto a bicha do Afrodite esconde o pau dele.

Um novo silêncio caiu sobre eles, esse constrangedor, incômodo, e que só se desfez depois de longos segundos com o pigarrear forte e engasgado de Gigars, que desconcertado olhou embaraçado para o Patriarca o vendo estático, duro no lugar feito uma estátua de bronze. Aquela informação caiu desconexa e inesperada no assunto, e levou um momento até ele conseguir digeri-la e recuperar o foco.

— Mais decoro, cavaleiro. Isso é um Templo Sagrado, não aquele prostíbulo onde você trabalha.... Você ficou cinco dias em missão, Lagarto, perdendo tempo e gastando o dinheiro do meu Santuário, e não me trouxe o principal, a armadura de Bronze de Urso. Sequer tem pistas de onde ela possa estar, e ainda tem a pachorra de me dizer que desconfia que exista um cavaleiro misterioso por trás de seu desaparecimento. Se você desconfia disso, Lagarto, deveria já ter me trazido a identidade desse bosta! Eu não o mandei para lá para me trazer um novo mistério e sim para solucionar o primeiro, SEU INCOMPETENTE!

Com um soco firme no braço do trono, que fez Gigars e Misty sobressaltarem aflitos, aos berros o Patriarca continuou:

— Eu deveria jogar vocês dois no Cabo Sunion!

— Mas por que eu, meu senhor? O que foi que eu fiz? — disse Gigars aos tremores.

— Nada! Você também não faz nada! Ninguém faz coisa alguma nessa merda de lugar! Deveria jogar os dois na prisão mais asquerosa e podre de lá, bem condizente com a falta de talento dos dois, para que passem o resto dos seus dias insignificantes sentindo frio e fome enquanto bebem a própria urina para não morrerem de sede, seus mentecaptos. — levantou-se do trono e apontou para Misty à sua frente. — Você suma da minha frente, Lagarto. Imprestável! Seu lugar é lá, naquele bordel mesmo, porque a única coisa que você deve fazer bem e com certa competência é se deitar com pederastas.

— Com sua licença, Grande Mestre. — disse Misty fazendo uma mesura, pouco se importando com as ofensas, pois que estava muito mais aliviado por ser apenas dispensado e não punido.

Enquanto viam o cavaleiro de Prata se distanciar, Gêmeos voltou-se para o secretário velhote.

— Gigars, trate de dar uma solução imediata para esse problema da armadura de Urso e também do tal cavaleiro misterioso. Exijo saber quem é esse merda.

— Mas, senhor, e se o Lagarto estiver apenas inventando isso para acobertar sua incompetência? — falou Gigars em tom visivelmente aflito. — Não acredito que existe nenhum cavaleiro misterioso.

— Eu te fiz alguma pergunta, Gigars? — disse Gêmeos com tom quase ameno.

— Não, meu senhor.

— Exato. Eu te dei uma ordem. Além de saber quem é esse cavaleiro misterioso, eu quero também que vá, pessoalmente, aos locais onde estão as armaduras de bronze que ainda não foram despertas e interrogue seus guardiões. Quero ter certeza de suas lealdades à mim e ao Santuário. Vá até a Ilha de Adrômeda, até a Ilha da Rainha da Morte, aos Cinco Picos antigos e onde mais existir uma armadura adormecida. Quero uma prova de que seus guardiões são fieis a mim e de que quando surgir um cavaleiro cujo Cosmo as desperte esse servirá ao Santuário com disciplina lealdade cegas.

— S-sim, meu Patriarca. Partirei imediatamente. — dizia sentindo os músculos débeis tremelicarem, enquanto a cabeça trabalhava ágil como nunca. — Com sua licença.

Gigars tinha muito trabalho a fazer, e o tempo, e nem as circunstâncias, pareciam estar a seu favor. Mas antes de partir em missão ainda teria que fazer um telefonema do número secreto de seu gabinete.

Moscou, 20:12pm

Fyodr Raskólnikov Belykh, o mordomo de Camus, não era o homem mais cordial e correto desse mundo, tampouco o de conduta mais elogiável, mas certamente era o mais paciente. Fazia quase uma hora ele estava lá, comportadamente sentado no luxuoso sofá de estofamento com tapeçarias de Beauvais que se harmonizava perfeitamente com as madeiras embelezadas por entalhes dourados, as duas pernas unidas, as mãos sobre os joelhos e os olhos, cinzentos e cansados, voltados para o álbum de fotos aberto sobre as coxas roliças nuas de Afrodite.

Na imensa sala luxuosa da mansão de Camus de Aquário na Rússia, cujas paredes espessas eram todas decoradas com trabalhos de estuque em alto relevo em tons de cobre e dourado, ou pinturas com motivos que alternavam entre o período czarista e a mitologia grega, o cavaleiro de Peixes e o mordomo monossilábico aguardavam o dono da casa enquanto conversavam, bem à sua maneira — uma vez que Afrodite não falava russo, e acreditava-se também que Fyodr não falava grego — vendo algumas fotos.

Fevereiro era um mês frio em Moscou, por isso a grande lareira revestida por mármore branco e decorada com um enorme espelho sobre a consola, ficava sempre acesa, exalando no ar um aroma ardido de madeira queimada que se misturava ao odor floral do produto com o qual os empregados limpavam as tapeçarias de Bruxelas, relíquias do século XVIII, que decoravam as paredes ao fundo do ambiente, onde também ficava um grande piano de carvalho envernizado e alguns vasos de porcelana de Sèvres, peças consideradas das mais nobres obras primas da arte decorativa francesa, datados da década de 1780. Juntamente com o fogo na lareira, graciosas lanternas, embelezadas com festões de pingentes de cristal facetado que lembravam sinos invertidos, presas às paredes iluminavam o ambiente com uma luz amarelo dourado, dando certo aconchego e espantando o frio. Não que esse fosse um problema para o Santo de Peixes, acostumado a baixas temperaturas, e que por isso mesmo trazia as pernas descobertas, mas era para o mordomo de setenta anos.

Um importante elemento da decoração daquela suntuosa construção, presente nos nove quartos, doze banheiros, cozinha, e também nos quatro escritórios e biblioteca, eram as obras de arte, entre telas, afrescos e escultóricos de bronze patinado e mármore escovado que representavam e contavam algumas das histórias da mitologia grega. Essas peças no passado pertenceram a Yuri Yurievich Volkov, antigo Cavaleiro de Aquário e mestre de Camus, e diferente das obras de arte mundialmente famosas roubadas pela Vory v Zakone, que ficavam encarceradas no porão, essas faziam parte da casa, e estavam ali há gerações.

Todo aquele luxo, todo aquele poder, pertenceria a Hyoga no futuro, e isso ao mesmo tempo que tranquilizava também assustava Afrodite, pois que tudo aquilo, cada peça de arte, cada arabesco pintado em ouro nas paredes, cada cortina de veludo ou tapeçaria fina centenária estava ali machada de sangue.

Hyoga herdaria um império de sangue; edificado e sustendo por corrupção, violência, mentiras e morte... Mas que talvez fosse a única esperança de prolongar a vida de Kiki e dar a Mu e à medicina a chance de salva-lo.

Por isso Afrodite estava lá. Dois dias após Kiki retornar ao Santuário para continuar em casa um tratamento que ninguém sabia se era eficaz ou não, enquanto Shaka a cada dia se tornava mais calado e introvertido e Mu perambulava pelo mundo à procura da cura para um mal que ninguém conhecia a origem.

Mesmo com a ausência de Mu no Templo das Bacantes, e o trabalho se acumulando, Afrodite encerrou o expediente na hora do almoço e pegou um voo fretado para Moscou. Havia chegado a poucas horas, mas Camus atrasara-se devido um imprevisto.

— Acha que ele demora muito, Jarbas? — perguntou Afrodite respirando fundo e soltando um ar com um suspiro longo. Folheava as páginas do álbum em seu colo, sorrindo ternamente quando passava por uma foto de Hyoga.

— Mademoiselle? — questionou, em francês, o mordomo. Seus olhos cinzentos fitavam curiosos o rosto de brancura ressaltada pelo pó de arroz e os lábios destacados pelo batom num tom de vermelho escuro, quase vinho. Os olhos estavam diferentes. Não pela maquiagem igualmente forte contida neles, kajal e sombra num preto fosco e espesso, mas por ver ali uma melancolia que desconhecia, visto que os olhos da bela “amazona” sempre lhe sorriram, alegres e brilhantes, todas as vezes em que olhava para eles.

Afrodite pousou as mãos de longas unhas esmaltadas em rosa perolado sobre as folhas do álbum e olhou para o rosto enrugado de fisionomia altiva emoldurado pela cortina de veludo vermelho ao fundo.

— Ah... eu me esqueço que você não fala grego, querido. — suspirou fazendo um muxoxo, depois deu de ombros e continuou a folhear o álbum — E o meu coágulo me impede de aprender russo fluente... Acho que é mais que isso, sabe? Deve ser uma espécie de trauma ou vodu. Eu tive muitos problemas com a sua gente, Jarbas...

— Oui, mademoiselle.

— Ah! Olha só essa foto! — pousou o indicador da mão direita sobre uma foto de Hyoga em meio as rosas brancas de seu jardim e abriu um largo sorriso — Eu tirei essa foto quando ele me chamou de mãe pela primeira vez. Ah, Dadá! Quanta felicidade eu senti naquele dia...

— Oui, mademoiselle. — disse o mordomo piscando os olhos ao olhar para a foto.

— Sabe, Jarbas, querido, ser mãe causou uma mudança muito grande em mim. — enquanto falava folheava as páginas e acariciava as fotos de Hyoga com as pontas dos dedos. — Eu não consigo imaginar a minha vida sem meu loirudinho. Tudo muda de sentido quanto se tem filhos... Você tem filhos, Jarbas? — questionou olhando para ele.

— Mademoiselle? — o mordomo ergueu as sobrancelhas volumosas e abaixando a cabeça o devolveu o olhar sério por cima dos óculos de fina armação retangular.

— Filhos? Hijos? Söhne? Musuko-tachi? Children? — dizia, com os grandes olhos expressivos arregalados à espera de alguma reação, qualquer que fosse.

Essa veio na forma de um leve aceno negativo de cabeça.

Na verdade Fyodr Raskólnikov Belykh tinha quatro filhos. Dois deles haviam sido mortos por uma facção rival da máfia há muitos anos, um outro era dono de um prostíbulo e contraíra uma doença venérea ainda na mocidade que o levou deste mundo precocemente; o caçula conheceu uma garota do circo e desaparecera no mundo junto dela e da companhia.

Afrodite contraiu os lábios carnudos pintados de vermelho e respirou fundo piscando os cílios longos cobertos por grossas camadas de máscara escura, então ergueu a mão e a levou até o rosto do velho homem lhe dando um apertãozinho na bochecha.

— Não fica triste, querido. Você tem o Camy. Para ele você é como um pai. Um pai velho e assalariado, mas um pai. Melhor um pai igual você do que nenhum. — sem aviso inclinou-se para o lado e meteu um beijo estalado na bochecha cheia de vincos do mordomo, que ficou ligeiramente embaraçado.

— Oui, mademoiselle. — falou entre pigarreadas e alguns engasgos. O perfume forte de rosas da madame, somado à sua maneira espevitada e espalhafatosa, o punham sempre atrapalhado e um tanto confuso.

Enquanto Fyodr se recompunha do beijo, Afrodite voltava a folhear o álbum, até que chegou em uma sessão onde só haviam fotos de Camus, tiradas de um ângulo em particular.

— Ah! Essas são meus xodós! — disse quase num sussurro. Seus dedos corriam de uma foto a outra acompanhados pelos olhos aquamarines acesos e brilhantes feito duas fogueiras. — Olha como a luz favoreceu nessa aqui! Hum... Esse é o melhor ângulo do Camus, sem dúvida. Dadá, que homem fotogênico!

Com a mão sobre a boca a esconder os lábios murchos e o bigode branco vultoso, Fyodr olhava para as fotos um tanto estarrecido. Eram muitas, e tiradas de diversos lugares e em dezenas de ocasiões distintas, algumas até bem íntimas, porém todas, sem exceção, tiradas do mesmo ângulo.

— Olha essa, Jarbas! Eu tirei essa no Vênus quando fomos sozinhos para lá um dia fazer uma festinha nudista! — riu lembrando-se do dia em que passaram 24 horas juntos sem vestir uma peça sequer de roupas, mas segundos depois o riso morreu quando sentiu o Cosmo de Camus anunciando sua chegada.

Num sobressalto Afrodite fechou o álbum, ajeitou a peruca loira de corte reto até os ombros, escovada com ondas que remetiam aos sofisticados penteados das grandes estrelas do cinema Hollywoodiano, e levantou-se do sofá puxando para baixo a barra do vestido justo em veludo azul marinho. Esse era curtíssimo e pouco adiantou seu esforço.

— Graças a Dadá ele chegou! — disse entregando o álbum ao mordomo. — Depressa, Jarbas, querido, enfia esse álbum naquele buraco na estante da biblioteca que te mostrei. Não deixa ele achar. Entendeu? Enfia no buraco. — fazia um gesto com as mãos para se fazer entender, o que foi o suficiente.

Poucos minutos depois de Fyodr deixar a sala, Camus adentrava esta apressado e em sobressalto enquanto abotoava o paletó do terno grafite e ajeitava a gravata de seda em tom de verde petróleo.

— Ma Belle! Pardon! — disse num tom que denunciava verdadeiro constrangimento. — Assim que me ligou avisando que viria para cá eu tentei adiantar meus compromissos, mas justamente hoje o dia estava complicado. Andreas está em São Petersburgo fechando umas negociatas e eu precisei lidar pessoalmente com um conflito de facções. Fora aquele delegado de merde que ainda está na minha cola... Non queria ter de executa-lo justamente para non levantar suspeitas, mas pelo que estou vendo non vai ter jeito.

— Não tem problema, mon amour. Eu estava aqui batendo um papo com o Jarbas. — disse Afrodite elevando os braços sobre os ombros do aquariano para recebe-lo com um beijo longo e apaixonado.

Ao final do beijo Camus recuou alguns passos ainda segurando nos dedos longos do pisciano, e então correu os olhos avelãs por toda sua exuberante figura. Era extraordinária a forma como ele conseguia transitar entre ambos os gêneros, como conseguia ser viril e másculo ao mesmo tempo que se punha em formas perfeitas de mulher. Como agora, dentro daquele vestido de veludo azul de mangas longas que deixava à mostra somente os ossos salientes da clavícula e as pernas perfeitas de coxas roliças. No pescoço esbelto uma opulenta gargantilha larga de diamantes e safiras escondia o pomo de adão, e no punho da mão direita trazia uma exuberante pulseira com as mesmas gemas. Safiras e diamantes também ornavam seus dedos em delicados anéis de ouro branco, e nos pés os altíssimos saltos finos lhe faziam estar alguns bons centímetros mais distante do chão.

— Dieu! Você está deslumbrante! — aproximou-se novamente dele para lhe tomar os lábios mais uma vez e escorregar uma das mãos até as nádegas macias. — Embora eu prefira vê-lo em trajes masculinos ou completamente nu.

Afrodite olhou para ele com um sorriso triste.

— Hum... Você também está um tesão. — fez uma pausa limpando os lábios dele que com os beijos ficaram sujos de batom. — Disse que ia fazer uma reserva em um restaurante grã-fino para podermos conversar, então eu caprichei.

— Oui, eu fiz. Naquele na Tverskoy Boulevard que você adora. — falou enquanto beijava o pescoço do sueco e os dedos de sua mão se afundavam no apertado vão entre as nádegas, por cima do tecido de veludo.

— Hmmmm... Camy... é melhor tirar essa mão daí porque eu tô trucada* e se me deixar de pau duro agora vai dar ruim, vai dar muito ruim, e eu vou arrebentar sua cara se der ruim, santa.

Camus riu da afobação dele. Considerou legítima a bronca.

— Pardon. Eu non resisti. — sussurrou próximo ao ouvido dele já recolhendo a mão e depois recuando um passo. — Vamos?

— Ai por Dadá, vamos! — disse Afrodite correndo até o sofá onde havia deixado uma bolsa de mão junto de um majestoso e exagerado casaco de pele de animal, os imensos óculos escuros e também um lenço de seda branca com o qual cobriu a cabeça enrolando as pontas em torno do pescoço. — Vamos logo, antes que eu decida ficar em casa e em vez de jantar querer eu ser o jantar.

— Non seria nada mal! — disse sorrindo Camus, e entrelaçando seus dedos aos do sueco seguiram juntos para a garagem onde embarcaram na Ferrari azul turquesa e partiram para o restaurante.

O Cafe Pushkin, na Tverskoy Boulevard, não apenas era o restaurante preferido de Afrodite, mas também o de Camus, por unir o melhor da culinária russa e francesa. Instalado em uma mansão em estilo barroco do século 19, que outrora fora uma majestosa biblioteca, a decoração sóbria era um espetáculo à parte para os olhos, pois que conservara os móveis antigos, raros e valiosos, em madeira escura e trabalhada, incluso as imensas estantes de livros em cujos corredores espalhavam-se as mesas com cadeiras decoradas e toalhas verde oliva. O ambiente à meia luz dava aos salões um tom elegante e sofisticado, além da privacidade que se pedia um jantar romântico.

Quando chegaram, a hostess logo tomou o pesado casaco de Afrodite, já que na Rússia era uma afronta sem tamanho entrar em qualquer restaurante vestindo um casaco, por mais leve que fosse, e depois levou o casal até a mesa reservada na área para fumantes. O perfume da comida sofisticada, somado ao som da harpa e da flauta que tocava em um volume agradável eram uma experiência à parte. Não tivesse ido ali naquela noite para discutir um assunto tão sério quanto triste, Afrodite podia jurar que aquela noite seria perfeita.

Já acomodados, antes de deixa-los a hostess insistiu para que Afrodite lhe entregasse os óculos escuros, mas o pisciano fez questão de ficar com eles. Já era arriscado saírem assim, em público, e bem na toca dos leões, então era melhor não dar mole para o azar.

Logo o garçom veio anotar os pedidos. Camus pediu de entrada uma degustação de caviar e queijos gordurosos para acompanhar uma garrafa de autêntica vodca russa ficaria na mesa. Era assim, consumindo gordura junto da forte bebida, que os russos nem ao menos cambaleavam quando se levantavam da mesa. Afrodite escolheu algo bem menos forte, apenas espumante e crème brûlée de pistache.

Camus estranhou ele ter pedido uma sobremesa, mas em se tratando dos gostos excêntricos de Afrodite achou melhor não contestar.

Na hora que os pedidos chegaram os dois cavaleiros conversavam sobre como Camus podia usar seu poder financeiro e influência para ajudar a salvar a vida de Kiki, e nem a aparência tentadora da comida lhes tirou o foco.

— O menino está tão mal assim, é? — Camus perguntou enquanto dava um gole generoso na vodca — Quando o visitei há dois dias ele parecia apenas abatido, como qualquer criança doente.

Afrodite baixou a cabeça ligeiramente e o fitou por cima das lentes escuras dos óculos.

— Está. E não há nenhuma perspectiva de melhora, porque ninguém sabe o que ele tem. — disse, e a apreensão em sua voz era perceptível. — O Hospital de Atenas já solicitou a compra e renovação da aparelhagem deles, tomógrafos, máquina de ressonância magnética, de cintilografias... que está bem sucateada, porque você sabe que desde que o velho Shion foi engraxar as botas do Hades que o Santuário não aplica nenhuma verba na Ala 5. Agora com aquele Coiso saído do fundo lamacento do Aqueronte então... — suspirou ajeitando os óculos no rosto — Podemos esperar sentados nos nossos calcanhares dançando Vogue.

— Hum... — fez o francês enquanto passava um tanto de caviar vermelho em uma lasca de torrada para levar à boca.

— Camy, você sabe que essas transações são demoradas. O Hospital depende de verba do governo. O Mu estava me falando que a administração já enviou o orçamento ao gabinete do governador, mas a proposta ainda precisa ser deliberada e aprovada, ou seja, isso pode levar semanas, meses... E Kiki não tem esse tempo. O Mu estava pensando em vender algumas joias de ouro que fez para o Shaka e fazer um empréstimo no banco, só que isso não daria nem para o começo. — disse angustiado.

— Bem... — disse o aquariano limpando os dedos no guardanapo sobre seu colo, depois apoiou os cotovelos na mesa e os cruzou, fitando os olhos de Afrodite por detrás das lentes escuras. — Você está me pedindo para comprar os equipamentos para o hospital, n'est-ce pas? Certo?

— É. — respondeu com um gesto efusivo de cabeça.

— Bom... Peixinho... isso non é tão simples quanto pensa.

— Mas você pode tornar simples que eu sei... Camy, tem ideia do que o Mu está passando? — diminuiu o tom de voz e inclinou-se ligeiramente para frente sobre a mesa. — Ele está numa corrida desesperada contra o tempo à procura de um milagre, enquanto exames mais precisos poderiam esclarecer melhor o caso e ganhar tempo... Kiki poderia fazer esses exames em outro país, mas ele está tão frágil que os médicos descartaram essa hipótese, pois a locomoção a longas distâncias pode agravar o quadro dele... Além disso, Shaka está tão estranho.

— Shaka sempre foi estranho, mon amour.

— É, mas agora ele está mais... Eu não estou gostando nada do rumo que isso tudo está tomando... Eu tô com medo, Camy. — confessou com a voz trêmula e as mãos inquietas a estalarem os dedos finos.

Camus respirou fundo, deu um bom gole em sua bebida e estendeu as mãos para apanhar e segurar as do seu amado peixinho.

— Afrodite, infelizmente existem coisas das quais non temos como impedir. — disse sério — A doença do filho de Mu e do Shaka é uma dessas coisas.

— Não temos como impedir, mas temos como influenciar, temos uma chance de ganhar o tempo que o Mu precisa. — disse aflito o Santo de Peixes. — Nós temos que fazer alguma coisa, Camus. Você tem! Eu sei que você consegue. Não tem ideia do tormento que aquela família está passando.

— Oui, eu tenho sim. Eu faço ideia e entendo perfeitamente o que aquela família está passando. Sabe que eu os respeito e admiro. — fez uma pausa e pensou por alguns segundos. Nesse curto espaço de tempo seus olhos avelãs caminharam pela decoração luxuosa do ambiente, pelas pessoas que estavam no entorno, com suas faces esnobes e roupas sofisticadas, então respirou fundo e voltou a fitar os olhos de Afrodite por trás das lentes. — Você acha que uma doação generosa em Rublos e Euros, arrecadada em um jantar beneficente dado à mais alta classe da sociedade russa, poderia ajudar a aliviar o seu sofrimento e o deles?

Rápido como um relâmpago um sorriso frondoso desabrochou no rosto de Afrodite.

— Eu sabia! — disse entusiasticamente, e na mesma hora soltou as mãos do francês para ligeiramente levantar-se da cadeira e sem sair do lugar inclinar-se sobre a mesa até ele, lhe tomando os lábios num beijo furtivo e afoito. — Eu sabia que não ia cagar no maiô justo agora, mon amour. Eu te amo! Te amo!

— Hum... calma lá, senta aí, seu maluco. Está chamando atenção, Afrodite! Dieu! — disse baixinho correndo os olhos discretamente para algumas pessoas que os encaravam, enquanto Peixes voltava a se aprumar em sua cadeira. — Eu vou providenciar as máquinas o quanto antes, mas tem que entender que nem todo o dinheiro do mundo pode comprar a saúde do pequeno, assim como non comprou a segurança de Natássia. — fez uma pausa, e nessa hora sua fisionomia fechou-se numa careta misto de raiva e melancolia. — Farei o que for possível, mas se o estado de Kiki é tão grave assim, precisa estar preparado para o pior.

— Não. Nunca estou preparado para o pior, né Camy. Tanto que quando o pior chega sempre sou o que se fode mais. — enfiou na boca uma colherada de caviar vermelho roubado do prato do francês. — Mas dessa vez tudo vai dar certo... Tenho fé em Dadá e Atena que vai!... Hum... isso é bom... tem gosto de salsicha.

Lá pelas tantas, quando já degustavam o prato principal, caviar de beluga com panquecas de milho e salmão defumado com batatas, e a conversa agora ganhava temas bem menos melancólicos, eis que na mesa ao lado chegaram três dos homens da máfia, dois deles do círculo pessoal de Camus, Josef Antonovitch e Miroslav Abramov, Miro, para os íntimos. Junto deles estava Nicolai Prikityn, um bon-vivant de meia idade que havia ingressado na “família” ainda moço, e que não gozava das virtudes e do magnetismo selvagem exigido àqueles que compunham o alto escalão, por isso era apenas mais um dos tantos membros medíocres, embora sua lealdade cega e determinação o mantivesse sempre perto dos homens de confiança de Camus.

Quando os três avistaram o Vor ali, o cumprimentaram, de longe mesmo, com acenos discretos de cabeça e olhares que diziam somente o essencial, pois que, estando acompanhado, sabiam que o chefe não desejava ser incomodado. Assim, tomaram seus lugares, pediram as entradas ao garçom junto de duas garrafas de vodca russa. Seguiriam a noite bebendo, beliscando petiscos e jogando conversa fora como costumavam fazer, mas a presença da dama misteriosa que acompanhava o Vor era tão forte e instigante que o assunto na mesa não era outro senão ela.

Dono de sentidos bem mais apurados que os de uma pessoa comum, Afrodite logo percebeu que falavam deles, de si e de Camus, pois mesmo sem entender patavinas de russo ouviu quando repetiram várias vezes o nome do namorado.

— Estão falando de você. — cochichou inclinando-se sobre a mesa.

— Hum? — Camus resmungou distraído enquanto servia-se de uma nova dose de vodca para acompanhar a panqueca com caviar.

— Os teletubies. Estão falando de você.

— Quem?

— Os seus leões de chácara, gata. As bonitas aqui na mesa ao lado, seus teletubies. O cabo de guarda-chuva e cabelinho de anjo... O outro eu não conheço, nunca vi... Estão falando de você. Eu ouvi o seu nome... Presta atenção. Tenta ouvir. — sussurrou concentrado.

Na mesa ao lado a conversa entre os três homens seguia descontraída, ainda que falassem em um tom bem baixo, o som suave da harpa e da flauta não era o suficiente para abafar suas vozes.

— Tem certeza que é ela, Nicolai? Pode ser outra. — disse Josef, e nessa hora olhou discretamente para o lado, para o rosto da dama que acompanhava o chefe e que estava parcialmente encoberto pelos óculos escuros e pelo lenço de seda que lhe envolvia os cabelos loiros e enrolava-se em torno do pescoço.

— É ela sim! — Miro disse com propriedade, também fitando as pernas da moça. — Essa piranha desgraçada quase fodeu com a minha vida quando me roubou o filho do chefe na entrada da escola, e bem nas minhas fuças. Nunca vou esquecer esse par de pernas, nem do rebolado.

— Claro que é ela. Eu também reconheceria aquelas coxas roliças até de olhos fechados! — disse Nicolai com uma risadinha maliciosa. — E sente só o perfume! Santa Mãe!... Essa é daquelas vadias que deixam até o seu pau cheiroso.

Josef deu uma gargalhada enquanto ajeitava a arma em sua cintura para acomodar-se melhor na cadeira de estofado verde oliva.

— Até a boceta dela deve cheirar rosas! — continuou Nicolai. — Ah, cara que delícia!

Na mesa ao lado:

— O que estão falando? — Afrodite perguntou curioso. — É de você que estão falando, não é?

Camus olhou para ele e tentou conter uma risada, mas não foi capaz.

— Non. Estão falando de você. — falou naturalmente, sem se preocupar que por ventura estivesse sendo ouvido, pois falava em grego com o pisciano.

— De mim? — Peixes arregalou os olhos surpreso. — Pelo disfarce de sereia de Dadá! Não me diga que estão desconfiados?

— Ah, estão sim! Estão bem desconfiados! — respondeu Camus, que ainda rindo enfiou um generoso pedaço de salmão defumado na boca. — Estão desconfiados de que sua vagina tem cheiro de rosas.

Afrodite desatinou a rir junto do aquariano, porém de forma discreta.

— Bom, se eu tivesse uma racha com certeza ela teria mesmo cheiro de rosas. Alôca!

Na mesa dos três mafiosos:

— Eu ouvi dizer que ela é a vadia do Russel Stepanovich! — falou Josef enquanto acendia um cigarro. — O casamento deles foi arranjado, isso todo mundo sabe. Mas o Russel é um velho babão eunuco, nunca que ia dar conta de uma puta desse nível. — novamente fitou a “dama” com um olhar discreto. — Os homens falam que ela é uma espiã do Russel, mas eu não acredito não. O chefe não ia se deixar enganar por uma vadia. Se ela fosse espiã ele já teria descoberto e dado a ela o que ela merece.

Na mesa de Camus e Afrodite:

— Agora estão dizendo que você é uma espiã, e a esposa infiel de um dos meus inimigos, líder de uma facção rival. — disse Camus acendendo um charuto. Depois que deu algumas baforadas, criando uma cortina de fumaça entre eles, deu uma sonora risada — Como eu nunca falo nada sobre você, eles ficam tentando adivinhar quem é a “dama misteriosa” que frequenta a minha casa e a minha cama.

— Nossa... Mas eles são criativos, heim? Essa história chega ser até excitante! — riu Afrodite degustando o espumante.

Enquanto isso, na mesa ao lado:

— Espiã que nada! É só uma vadia gostosa mesmo. — disse Nicolai bebendo vodca. — O velho Russel não dá conta dela então é o chefe que come.

— Não acho que o chefe só come. Eles são amantes há anos. Estão juntos pelo menos... uns seis anos? — disse Josef pensativo. — Acho que o chefe gosta da vagabunda.

— Eu também acho. Esses dois já deviam estar de rolo desde aquela época do incidente com o Hyoga, porque o chefe foi embora com ela depois numa boa, além disso, o moleque sabia que estávamos lá, e sabia quem era ela. Desde então quase nunca vejo o chefe com outra vadia. Acho que é sério. — disse Miro.

— Claro que é sério, cara! — continuou Nicolai efusivo. — Ouvi dizer que a piranha já até engravidou do chefe. Não uma, mas várias vezes, mas como ele já tem herdeiro não quis mais filhos, para não dar briga pela sucessão, e mandou ela tirar em todas as vezes. Bancou tudo.

Na mesa dos cavaleiros de Atena:

— Dieu! — Camus encarou Afrodite com os olhos avelãs gélidos e estupefatos.

— O que foi?

— Estão dizendo que você já abortou vários filhos meus, ma belle! Que crueldade a sua! — brincou o francês.

Peixes deu uma risada longa e alta.

— O que colocam na cevada da vodca aqui na Rússia, heim?

— Non vai cevada na vodca, mon amour.

Na mesa dos mafiosos:

— Eu ouvi os caras falando isso também. — disse Josef.

— Só que para mim o motivo foi outro. — falou Nicolai, e baixou mais um tanto o tom de voz. — Para mim o chefe se acovardou. Ficou com medo dos moleques nascerem ruivos e o Russel colocar o país todo atrás da cabeça dele... Ouvi dizer que ela já fez uns sete abortos!

— Sete! Mas que piranha! — disse Miro espantado.

— É uma vagabunda, mas é uma vagabunda com coxas perfeitas, minha nossa! — Nicolai deu uma olhadela para o lado, mordendo os lábios enquanto seus olhos fitavam famintos um pedaço nu de pele das pernas de Afrodite cruzadas sob a mesa. — Isso na minha cama eu deixo toda arregaçada.

Enquanto Nicolai e Josef riam, Miro bebia vodca e lhes fazia um sinal de reprovação com a cabeça.

— Vocês são dois idiotas — disse o loiro. — Para começar, nunca que vocês iam dar conta de bancar uma dessas aí. Ela é grã-fina. Depois, tenho para mim que ela é só uma atriz dessas aí. Aquela lá, famosa, que fez aquele filme que ganhou o Oscar. Por isso ela sempre esconde o rosto, para não ser reconhecida. Ela é famosa e o chefe é o chefe né, pega mal para imagem dela se envolver com criminoso.

— É, pode ser. — concordou Josef. — Mas acho que não é atriz, não. Acho que ela é cantora. Faz show Internacional.

— Ouvi dizer também que ela é da KGB. — disse Miro. — Por isso esconde o rosto.

— Esconde o rosto e mostra as coxas. Boa troca! Quem quer ver rosto? Essa puta aí eu me contentaria em ver só de costas, de quatro na minha cama. Se ela é esposa do Russel, atriz, cantora ou agente da KGB eu não sei, só sei que é uma piranha, tem jeito de piranha, anda como piranha, e deve foder como uma piranha. O chefe tinha que achar uma vadia com mais classe, mais à altura dele e da família, e dar essa puta para gente fazer uma farra. — Nicolai concluiu com uma sonora risada.

— Que isso, Nicolai, respeita a vadia do chefe. — disse Miro com um tonzinho de reprovação.

— Quem tem que se dar o respeito é essa vagabunda, porra. Tá maluco, ô Miro? — retrucou Nicolai. — Desde quando uma puta que anda com as pernas de fora em pleno inverno russo merece respeito? Depois um cara de bem pega ela por aí e ainda vai chorar dizendo que foi estupro. Estupro nada, tá mostrando é porque tá pedindo. — deu um gole generoso na vodca em seu copo e o devolveu à mesa com uma pancada. — Ainda vou pegar essa piranha e ensinar um pouco de respeito a ela.

Na mesa de Camus e Afrodite:

A fisionomia de Camus mudou de água para vinho em segundos. O riso e o semblante ameno e divertido deram lugar a uma expressão de aborrecimento profundo, a qual não passou despercebida por Afrodite, que notou a mudança quando olhou nos olhos avelãs do francês e viu neles o aspecto selvagem e frio que conhecia tão bem.

— Camy... amour? O que foi? — perguntou preocupado. Por detrás da tênue cortina de fumaça do charuto os olhos de Camus faiscavam selvagens. — Que cara de cafuçu é essa?... Camus!

— Fique aqui, ma belle. Non saia da mesa, s'il vous plaît. — disse baixo e sério enquanto apagava o charuto no cinzeiro e arrastava a cadeira para trás para se levantar. — Eu já volto.

Sem nada mais dizer Camus caminhou com elegância até a mesa ao lado, enquanto abotoava o blazer do terno calmamente e ajeitava a gravata. Durante o curto percurso pensava nos desaforos ditos por Nicolai, e só de imagina-lo tocando no corpo de Afrodite com suas mãos asquerosas e sua alma imunda, mesmo que a possibilidade de isso acontecer fosse nula, seu gélido sangue fervia de raiva.

Era bom saber que seus homens criavam histórias e teorias sobre a identidade secreta da mulher misteriosa com quem se relacionava, pois quanto mais distante a imaginação deles fosse da realidade, melhor seria para a segurança de Afrodite e de Hyoga, mas não podia permitir que desrespeitassem Peixes daquele modo, afinal ele era a “vadia” do chefe, e iria fazê-los se lembrarem disso.

Quando chegou à mesa dos mafiosos todos eles se silenciaram de imediato. Seus olhos apreensivos conferiam hirtos o olhar do Vor, o qual tinha um aspecto feroz, apesar do rosto inexpressivo. Camus então puxou a única cadeira que estava vaga, ao lado de Nicolai, e sentou-se.

Encarando Josef e Miro nos olhos, Aquário esticou o braço direito para o lado e pousou a mão forte sobre a nuca de Nicolai, dando um leve apertão camarada.

— Estão apreciando o jantar? — indagou com a fisionomia ainda isenta de qualquer expressão.

— S-sim, chefe. — responderam em uníssono Josef e Miroslav. Ambos sentiam um leve tremor nos músculos e uma secura desértica na boca.

— Excelente! — disse o francês, depois virou o rosto para o homem a seu lado e o encarou nos olhos. Lentamente começou a massagear a nuca dele. — E você, Nicolai? Como está sua refeição?

— Está... perfeita, chefe. — respondeu sentindo o corpo, a nuca e os ombros formigarem ligeiramente.

— Ótimo! É bom que aproveitou sua refeição, porque foi a última, Nicolai.

— O... o... quê? — murmurou o homem, com extrema dificuldade em articular as palavras, pois que sentia a língua formigar, dura e fria, ao mesmo tempo que experimentava uma leve sensação de entorpecimento.

À frente deles, Josef e Miroslav observavam calados, angustiados, com uma lividez terrível nos rostos.

— Você vai morrer, Nicolai. — disse Camus calmamente, próximo ao ouvido do homem que não reagia, mas em volume alto o suficiente para os dois outros capangas também ouvirem. — Vai morrer por ter falado demais, e o que não devia.

— Che... che... fe...

Junto dos murmúrios gaguejados uma dor excruciante fez o homem na mesa cerrar fortemente os dentes e gemer baixinho. Alucinado de terror, tentava puxar o ar para dentro dos pulmões, mas esses estavam paralisados, o ar não entrava, mas ele estranhamente também não colapsava convulso. As pontas dos dedos sobre a mesa doíam como se a pele fosse arrancada ou queimada por labaredas invisíveis. Os tornozelos pareciam torcidos em espiral, tamanha a dor que sentia irradiar deles. Os olhos, arregalados como se estivesse olhando para um fantasma, lacrimejavam. O coração sofria uma forte martelada.

Ainda com a mão na nuca de Nicolai, agora Camus fitava os olhos terrificados dos outros dois homens na mesa.

— Minha vida pessoal não é da conta de nenhum de vocês. Fui claro? — disse.

— S-sim, chefe. — respondeu primeiro Josef.

— Com certeza, chefe! Mais claro impossível! — falou Miro.

— É normal terem curiosidade, normal especularem, criarem boatos a respeito da dama que me acompanha, mas nunca, em hipótese alguma, vou tolerar que a desrespeitem! E se eu desconfiar que qualquer um de vocês esteja pensando em abordá-la para descobrir sua identidade, ou para assedia-la de alguma forma, sequer para chegar perto dela, é isso que vai acontecer.

Quando Camus disse isso, Josef e Miro imediatamente desviaram os olhos do rosto do Vor e olharam, atônitos, para a face de Nicolai, então um horror profundo os tomou de assalto. De suas bocas entreabertas o hálito quente saia forte, ofegante, e se condensava em choque com o ar frio que os envolvia. Sentiam-se sufocar de medo, paralisados por um terror que jamais cogitaram conhecer, pois que na máfia estavam acostumados a todo tipo de violência e atrocidade e nada mais os surpreendia.

Mas aquilo era diferente.

À frente deles Nicolai tinha o rosto tomado por uma brancura sobrenatural. Os lábios, abertos e moles, exibiam uma coloração roxa escura, e de um dos olhos, esbugalhados e afundados atrás das pálpebras, uma lágrima escorreu furtiva, mas esta nem chegou a atingir as bochechas duras; tornou-se um cristal de gelo que se desfez em pó em contato com o ar.

— Santa Mãe de Deus! — exclamou Josef, duro e trêmulo na cadeira.

Miro mal conseguia respirar. Quiçá dizer qualquer coisa que fosse.

Camus então retirou a mão da nuca de Nicolai. O corpo tombou sobre a mesa e a cabeça se chocou contra o prato com uma pancada forte. Estava alguns quilos mais pesado devido o sangue ter se solidificado nas veias.

Tranquilamente, o Santo de Aquário esticou o braço e apanhou um cigarro da cigarreira de ouro de Josef. O acendeu, tragou profundo e lento, e antes de soltar a fumaça encostou as costas na cadeira e cruzou as pernas, acomodando-se confortavelmente. Olhou para os rostos aterrorizados dos dois homens por um momento, depois, para completo horror de ambos, levou a mão até a boca aberta de Nicolai, que tinha a cabeça virada para seu lado, enfiou os dedos na cavidade congelada e lhe arrancou a língua com um puxão. Inclinou-se sobre a mesa e enfiou o pedaço cristalizado de gelo dentro do copo de vodca de Josef.

— Prestem atenção, porque vou falar só uma vez. — disse, agora os encarando com fúria assassina. — Isso é o que vai acontecer com o próximo filho da puta que chamar de vadia, piranha ou puta, a dama que me acompanha. Qualquer insinuação sobre querer fodê-la ou tê-la em vossas camas será punida do mesmo jeito. Essa mulher não é para o bico sarnento de vocês. Eu fui claro?

— Pela misericórdia, chefe! — disse Miro batendo o queixo de frio.

— Foi... claro... chefe. Bem claro. — falou Josef.

— Ótimo. — disse Camus apagando o cigarro no cinzeiro e se levantando. A temperatura em torno deles aos poucos voltava ao normal. — Livrem-se desse pedaço de merda antes que alguém desconfie que ele está morto. — deu-lhe as costas e voltou à sua mesa.

Ainda alarmados e completamente aterrorizados, os dois mafiosos trocaram olhares entre si e depois olharam discretamente para Afrodite, que lhes acenou graciosamente, balançando no ar os dedinhos cheios de anéis, quando percebeu que olhavam para si.

Na mesma hora ambos baixaram as cabeças e disfarçaram.

— Caralho, Miro, e agora? O Nico está morto, porra! — disse Josef com a voz ainda trêmula.

— Agora a gente tem que tirar esse merda daqui. Santa Mãe! — esfregou o rosto nervoso.

— Tirar como? O cretino tá congelado, caralho!

— Merda! Eu falei para vocês não ficarem falando da mulher do chefe.

— Essa puta! A culpa é dela... Que frio, porra! Odeio quando o chefe dá uma de Subzero, porra do caralho! — Josef esfregou a testa. — Tô me tremendo todo. E eu acho que caguei nas calça, Miro. Porra!

— Cala a boca, idiota! Quer virar sorvete também?... A gente tem que tirar o Nico daqui.

— Como, merda? Ele deve tá duro igual frango congelado.

— Acho que não. Olha para o seu copo. — apontou o copo onde estava a língua de Nicolai, e esta estava totalmente descongelada, afundada no meio da vodca.

— Jesus Cristo! — exclamou assustado, e rapidamente colocou a mão sobre o copo olhando para os lados, atento se alguém olhava para eles. — Mãe Santíssima!

— Josef... o chefe é feiticeiro.

— Cavaleiro, seu idiota.

— Que seja... O feitiço dele congelou o Nico, mas já foi tirado. Olha só. — apontou para o cadáver debruçado sobre a mesa. Embora ainda exibisse uma palidez de morte, seu aspecto estava bem mais próximo do normal. — A gente pede a conta e dizemos que ele desmaiou de bêbado.

— Certo... certo. Pode dar certo.

O plano correu bem. Miro e Josef disseram ao garçom que haviam tido um acidente ali na mesa, um desarranjo intestinal que acometeu os três, e que o amigo desmaiado estava muito bêbado, por isso precisariam de ajuda para sair pelos fundos sem incomodar ninguém. Alegaram ser culpa da comida o desarranjo, por isso a administração do restaurante não botou barreiras em facilitar a saída dos três.

Do lado de fora, seguraram Nicolai pelos braços, um de cada lado, e seguiram pela rua até o carro de Miro, onde colocaram o amigo “desmaiado” no banco de trás, depois entraram no veículo, ascenderam um cigarro cada um e arrancaram acelerado, prontos para desovar o corpo em algum fim de mundo, aliviados por ninguém ter notado que o defunto era de fato um defunto.

Certamente a morte de Nicolai contribuiria para alimentar a fama de Vor cruel, violento e implacável de Camus. A Vory v Zakone respeitava Dimitri Yurievich Volkov, o antigo Vor, com disciplina e lealdade cegas, mas a Camus eles temiam!

E assim, cada vez mais o Santo de Aquário conquistava o respeito daquela facção através do medo e do poder.

No restaurante, de volta à mesa de Camus e Afrodite, enquanto bebericava o espumante, Peixes olhava para Aquário o vendo degustar tranquilamente o caviar de beluga. Era incrível como Camus conseguia manter-se sereno e impassível diante de situações de extremo stress; mesmo após ter acabado de matar um se seus próprios homens congelando seus órgãos internos de maneira lenta e extremamente dolorosa.

Percebendo que o namorado o encarava calado, e pensando que ele estivesse reprovando sua atitude extrema, Camus olhou para ele e disse-lhe tranquilamente:

— Non me olha com essa cara, mon amour. Ele mereceu morrer. Há tempos eu já vinha questionando sua lealdade. Ele só me deu um motivo... O recado foi dado. Agora vão pensar duas vezes antes de cobiçar o que é meu, antes de pensarem em me faltarem com o respeito. O cretino estava cobiçando suas coxas, fantasiando com você na cama dele. — jogou os cabelos ruivos para trás dos ombros num gesto caricato, quase afeminado, que tirou uma risadinha de Afrodite.

— Eu sei, Camy.

— Imagina só! Querer você na cama dele. Humpf... Ele non saberia nem o que fazer com um homem como você na cama dele, aquele ridículo. Também estava questionando minha honra, falando absurdos sobre eu ser covarde... Isso é a máfia, Afrodite. Se eu permitir que eles coloquem em xeque a minha honra, minha masculinidade e capacidade de liderança, eles me dão um golpe, matam a mim, matam Hyoga, e non sobra nem cadáver para contar história. — fez uma pausa e suspirou irritado. Aquele incidente trouxera à tona antigos temores e preocupações — Se eles falam absurdos de você acreditando ser uma mulher elegante e refinada, imagina o que fariam se soubessem que você é homem? E ex-garoto de programa?

— Cavaleiro de Ouro, meu bem. Olha o babado. — disse Afrodite.

— E você acha que eles ligam para isso? Que respeitam isso?... É por isso que precisamos continuar com a farsa por mais um tempo, e é por isso que preciso treinar Hyoga, torna-lo um cavaleiro o quanto antes. Se algo acontecer comigo e com você ele precisa saber se defender sozinho e...

Camus só parou de falar quando Afrodite esticou o braço e lhe alcançou a mão sobre a mesa, cruzando seus dedos com os dele e dando um leve apertão.

— Ei... mafioso malvado, está tudo bem. Se acalme. — disse com voz doce e amena. — Eu sei que o cafuçu suíno mereceu.

Aquário suspirou.

— Non queria estragar nosso jantar, sinto muito.

— Não estragou nada... Ao contrário. Me deixou com um puta tesão. — mordeu os lábios vermelhos insinuante. — Eu fico louco quando te vejo assim, bravo, descontrolado, bruto, assassino... Você fica tão macho e gostoso quando perde o controle... Camy, vamos para um motel?

— O que?

— Vamos trepar num motel bem caro em homenagem ao Nicolai?

Camus o contemplou por um momento, indignado com a proposta, e então baixou a cabeça e riu.

— Você é um desmiolado sem juízo nenhum, Afrodite. Olha a merde que você fala... Eu acabei de matar um dos meus homens! Quem fica com tesão numa situação como essa?

— Eu.

— Mon Dieu! — Camus mordeu os lábios e buscou o garçom com os olhos. Rapidamente lhe fez um gesto pedindo a conta.

Peixes sorriu em êxtase, ainda que lá no fundo, bem lá no fundo, estivesse também deveras assustado.

Afrodite nunca estivera tão próximo e envolvido com a Vory v Zakone como nos últimos anos, desde que Camus se tornou Vor, desde que tornara-se a “mãe” de Hyoga; mas principalmente desde que assumira o posto de mulher do chefe.

Mesmo fora do olho do furacão, oculto pelo disfarce, apenas como expectador, Peixes já se dera conta do quão grande, poderosa e perigosa era a máfia russa. Um universo nocivo no qual se vivia pisando em ovos, e o qual Camus regia com punhos de aço, erguendo um império sustentado pelo medo.

Se arrepiou todo, e sentiu um medo terrível quando Camus mencionou Hyoga e o que a máfia faria com ele caso não enxergassem em Camus um líder adequado, forte e honrado.

Realmente eles levavam uma vida bem complicada. A sensação era de estar constantemente sentado sobre uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer movimento. De novo.

Negrito— traduzido do russo


Dicionário Afroditesco

Estar de truque— esconder o pênis com fita adesiva.

***

Nosso grupo no face "Fics trio ternura" com muitas informações extras.

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.

Notas finais
COMO EU AMO ESSE CAPÍTULO uhuhh E sim, o Josef se cagou e o Miro não falou nada mas deu uma freiadinha na cueca ein.. Ahhh Camus putão delícia. Repararam no mini ataque de pelanca? Nicolai .tem nem pinto pra dar conta de um omi como vc, peixinho... aquele ridículo.. ahahah enfim. mais um cap..em nome de xesus beijão pra vcs e até o próximo XD