Moscou – 09:00pm

Na suíte presidencial, a mais cara do luxuoso Four Seasons Hotel, no centro de Moscou, a pouquíssimos minutos a pé da Praça Vermelha, dois homens se engalfinhavam enquanto trocavam beijos lascivos, chupões raivosos e amassos, e tão urgente era o desejo de ambos que esbarravam nos móveis de madeira de ébano, os arrastando do lugar e derrubando eventuais objetos sobre eles. Estavam completamente rendidos à luxuria e à necessidade da paixão.

Mal haviam entrado no quarto, Camus trancou a porta e imediatamente em seguida jogou todo o peso de seu corpo forte contra o de Afrodite, o empurrando contra a parede do corredor iluminado por uma luz quente, e sem o menor pudor lhe meteu a mão por debaixo da saia do vestido de veludo azul, rasgando com um puxão a meia de seda que ele usava para disfarçar os contornos dos músculos das pernas perfeitas. Enfiou os dedos pelo rasgo aberto até suas nádegas e puxou o elástico da calcinha de rendas.

— Tira isso. — sussurrou beijando-lhe o pescoço e mordendo a pontinha da orelha.

Enlouquecido, de tesão e desconforto, Afrodite levou a mão até a dele e lhe cravou as unhas no punho, enquanto mordia forte o pescoço do aquariano.

— Ai... espera... não dá para tirar assim no pelo não, lôca! — disse respirando com dificuldade. Seu coração batia tão rápido quanto o desejo de estar unido ao francês. — Machuca... Tem que ser com jeitinho. — referia-se à fita adesiva que usava para comprimir o pênis, que excitado e rijo como estava latejava dolorido.

Sem perder tempo Peixes soltou o punho de Camus, que recuou alguns passos desabotoando apressado o blazer, depois rapidamente livrou-se dos scarpins de salto altíssimo, os chutando para o ar ao mesmo tempo em que também lançava para longe o pesado casaco de pele e a peruca loira. Usou as mãos para pentear e depois bater os longos fios azul piscina revoltos, em seguida, com uma corrida afoita até a enorme cama no centro do aposento, jogou-se de costas sobre os lençóis brancos limpíssimos e levantou ambas as pernas para o ar, desenrolando a meia de seda até retira-las e joga-las para longe. De pé novamente, e com os olhos faiscantes de desejo fixos aos de Camus, abaixou lentamente a calcinha de renda até os tornozelos, e quando a retirou jogou-a na direção dele, que apanhou a peça no ar e imediatamente a levou ao rosto para inalar profundamente seu perfume.

— O que aqueles cretinos non dariam para sentir esse cheiro! — disse Aquário fechando os olhos. Um sorriso sacana e cheio de deboche desenhou-se nos lábios finos.

Com as mãos por debaixo da saia do vestido, sentindo-se estremecer e arrepiar por inteiro ao ser observado com tamanha lascívia por aquele par de olhos avelãs selvagens, lentamente Afrodite livrou-se da fita adesiva fazendo uma careta, misto de tesão e dor. Com uma mão ergueu a saia, expondo-se ao bel prazer do aquariano, e com a outra massageava a própria ereção vigorosa.

— Vem cá. — sussurrou sedutor mordendo os lábios. — Você quer o meu pau?

— Oui. Eu quero. — respondeu o francês, ainda segurando a calcinha próximo a seu rosto.

Camus caminhou lento e inebriado pela luxúria até ele, e quando chegou bem perto Afrodite lhe tomou a mão e a colocou em seu pênis, ditando a cadência da masturbação. Enquanto Camus lhe masturbava, voltou a atacar a boca ofegante dele com beijos quase violentos. Ao mesmo tempo lhe retirou a camisa, desafivelou o cinto e baixou suas calças até abaixo das nádegas, onde deu um forte apertão.

— Coloca ela. — sussurrou próximo ao ouvido do aquariano, que sentiu de imediato a pele arrepiar. — Eu quero foder você com ela, Camus.

— Você quer foder o Vor da máfia russa, Afrodite? — Camus respondeu com um risinho debochado e numa indagação retórica cheia de malícia.

— Quero, não. Eu vou foder o Vor da máfia russa! — sussurrou escorregando os dedos pelo vão entre as nádegas do francês, introduzindo a pontinha do indicador em sua intimidade. — Porque é disso que ele gosta, não é? De um pau grande e duro enterrado dentro dele.

Com um gemido despudorado e o peito ardendo em desejo latente, Camus soltou o pênis do namorado para levar a mão até seu queixo e segura-lo com força, olhando bem fundo naqueles olhos aquamarines hipnotizantes.

— Seu puto safado... — disse lhe tomando os lábios com um beijo sedento, forte, para depois voltar a olhar nos olhos dele com a firmeza de um predador. — Quem pensa que eu sou para me pedir uma coisa vil dessa? Usar essa sua calcinha vagabunda.

Os olhos de Afrodite brilharam lascivos.

— Você é uma vadia, Camus! — ele respondeu lambendo os lábios quentes e ofegantes do aquariano. — É a vadia do chefe! Um viado safado que geme e rebola a bunda dentro de uma calcinha vagabunda só para mim.

Camus encarou o pisciano com um sorriso perigoso, até que de repente afastou-se dele e com um empurrão o lançou sobre a cama. “Afrodite é mesmo uma criatura que adora flertar com o perigo, maldito!”, pensou Camus, enquanto livrava-se da calça. Era muita presunção daquele pisciano sem juízo achar que aceitaria transar com ele usando aquela calcinha infame enquanto era chamado de vadia, de viado...

Com esses pensamentos a fervilharem na cabeça, e o coração aos saltos, Camus ficou nu, diante dos olhos vidrados de Peixes, então lentamente vestiu a calcinha, pois que eram justamente os abusos de Afrodite que o desarmavam, o deixavam à sua mercê. Os abusos um com o outro eram os pilares daquele relacionamento peculiar.

Quando subiu a peça até os quadris, com certa dificuldade, já que ela era dois números menores do que as cuecas que habitualmente usava e, por isso, enterrava-se em suas nádegas, praticamente desaparecendo, enquanto na frente lhe comprimia o pênis, o qual pelejou para ajeitar para um dos lados, olhou para Afrodite e o viu totalmente nu, usando apenas a gargantilha de diamantes e safiras. O corpo, embora magro e distante do que era antes do disfarce necessário, continuava másculo e viril. Sua beleza única, intocada pelo tempo. Perfeito!

— Eu disse que o ridículo do Nicolai non saberia o que fazer com um homem como você na cama dele... — disse Camus num tom obscenamente pervertido, e pondo-se de quatro sobre o colchão engatinhou feito um felino perigoso até Afrodite, porém quando estava a dois palmos dele desviou a rota e seguiu engatinhando até a cabeceira da cama, lhe dando as costas e uma visão privilegiada de sua bunda no tecido de rendas da calcinha. — Nenhum daqueles idiotas têm ideia de como satisfazer um viado depravado e insaciável como você, ma belle!

— Aaah, sim, seu miserável gostoso!... Aqueles cafuçus não têm ideia, tampouco capacidade, para me satisfazer! — disse Peixes mordendo os lábios. Seus olhos de pupilas dilatadas de desejo passeavam pelas nádegas do aquariano, concentrados no ponto onde a renda era engolida pela carne farta e macia. — Rebola essa bunda, vai, seu puto. Rebola. Quero ver.

— Nenhum deles conseguiria ser tão baixo e pervertido do jeito que você gosta. — sussurrou o aquariano olhando para o sueco por cima dos ombros enquanto rebolava displicentemente.

— Não, nenhum deles... O único homem dessa merda dessa máfia que consegue me satisfazer é o chefe dela! — disse Afrodite arrastando-se até Camus, então meteu o rosto entre suas nádegas, mordeu a renda enfiada nelas e puxou para o lado, um tanto que lhe possibilitasse enfiar a língua por baixo do tecido.

— Aaaaah... Aphrodite... — Aquário gemeu languido ao contato da língua dura e molhada do pisciano com sua intimidade, empinou-se mais, fechando as mãos fortemente nos lençóis. — Hmmm... Fode a porra da vadia do chefe deles, então, mon amour, porque o Vor dessa porra de máfia está louco para ser fodido!

Sem dizer nada, e terrivelmente excitado para demais preliminares, o Santo de Peixes usou a própria saliva para lubrificar o aquariano, colocou-se de joelhos atrás dele, manteve a calcinha apenas afastada para o lado e o penetrou, lento, porém com uma só arremetida, delirando ao sentir os músculos do francês se contraírem com um espasmo de prazer quando, então, se enterrou por completo dentro dele. No momento seguinte debruçou sobre suas costas largas e ali salpicou beijos molhados e mordidas afoitas na pele alva.

— Hmmm... Qui est ma salope? (Quem é a minha vadia?) — Afrodite sussurrou esfregando o queixo e os lábios nas costas de Camus, manchando a ambos com seu batom vermelho bordô.

— C'est moi! (Sou eu.) — Camus respondeu aos gemidos, sentindo Peixes erguer o tronco e lhe segurar a cintura com força enquanto recuava o quadril para trás, retirando-se quase que por completo de dentro de si.

— Qui est la chienne de Vory v Zakone? (Quem é a cadela da Vory v Zakone?) — perguntou Afrodite, e depois arremeteu-se novamente para dentro dele, agora com velocidade e força.

Camus gemeu alto, rouco, sem pudor. Com o tranco teria batido a cabeça na cabeceira da cama, mas Afrodite o segurava firme, e não o deixou sair do lugar.

— C'est moi! (Sou eu.)

— Aaaaaaaaaah, oui, salope! Tu es la vilaine princesse de papa. (Sim, vadia. Você é a princesa safada do papai.

— Oui je suis!

— A vadia que manda em todos aqueles suínos de merda... Hmmm... O viado com o rabo mais apertado e gostoso desse mundo... Aaaahh... Camus... — gemia o pisciano, que entre uma estocada forte e outra dava um tapa estalado nas nádegas do francês. — Vai... geme para mim... geme para eu ver o quanto você gosta de dar para mim, Camus.

E Camus gemeu. Alto, displicente, imoral. Gemeu como no passado tinha ouvido Afrodite gemer tantas e tantas vezes quando passava, na calada da noite, por sua janela na Casa de Peixes.

O ritmo do sexo era frenético. A paixão e a libido em ebulição de ambos fazia chacoalhar a cama e sua estrutura se chocar contra a parede. E embora eles soubessem que todos os quartos daquele hotel possuíam isolamento acústico, também sabiam que quem passasse pelo corredor poderia ouvi-los, mas eles não se importavam. O perigo apenas os excitava ainda mais.

Vez ou outra, quando Afrodite lhe soltava os cabelos ruivos ou lhe permitia erguer minimamente a cabeça, quando não a estava forçando contra o travesseiro, Camus olhava para a janela lateral do quarto onde, através de um vão na cortina aberta, ele conseguia ver os domos coloridos da Catedral de São Basílio. Nesses momentos seu peito ardia, seus joelhos tremiam e os tapas de Afrodite em sua bunda lhe causavam ainda mais frenesi. E pensar que ali perto ficava a sede secreta da Vory v Zakone, o restaurante no edifício Leningradskaya. Se os homens da máfia soubessem que o chefe deles estava a poucos quilômetros dali, de quatro e de calcinha de rendas, enquanto era fodido por outro homem... Se eles o vissem assim...

Além do perigo, a humilhação e a depravação excitavam Camus. E ele simplesmente não podia, e não queria, lutar contra esses desejos. Ao contrário, ao em vez de tentar livrar-se deles, ele rebolava o traseiro dizendo uma infinidade de obscenidades chulas e pervertidas em sua língua materna enquanto Afrodite lhe penetrava com o vigor e agilidade de um atleta de elite.

Depois de incontáveis minutos nesse mesmo ritmo, Peixes tombou o corpo para trás puxando Aquário consigo, pela cintura, sem sair de dentro dele e o fazendo sentar-se por sobre seu colo. Agora deitado entre os lençóis tinha uma visão excitante e privilegiada de Camus de costas, e podia vê-lo cavalgar seu pênis enquanto lhe apertava as nádegas fartas espremidas pela calcinha, que de tão apertada estava a ponto de estourar.

A cada arremetida mais profunda Aquário gemia alto e contorcia-se todo, enlouquecido de prazer. Vez ou outra Afrodite erguia o tronco e lhe mordia as costas suadas enquanto corria as mãos por sua barriga até desce-las ao pênis e estimula-lo no mesmo ritmo acelerado que imprimia à cavalgada, então nessas horas, com o sexo turgido e úmido do ruivo nas mãos, lhe mandava acelerar os movimentos, lhe ordenava que rebolasse com mais vigor, que gemesse mais alto, que lhe mostrasse o quanto estava gostando de ser tomado por ele, e Camus, como o bom amante e “vadia safada” que era, obedecia sem pestanejar.

— Aaaaah... Aphrodite!... Aaaah... — clamava alto o francês, sentindo os choques que denunciavam o prelúdio do orgasmo e que faziam seu corpo todo sacolejar.

— Goza, Camus... vai mon amour... eu tô quase lá... — Afrodite só não gritava porque estava quase sem fôlego, mas seu tom de voz era alto o suficiente para fazer Camus tremer de tesão e apreensão ao mesmo tempo, o que foi o ápice para ele.

O orgasmo intenso fez Camus contrair as pernas e tombar a cabeça para trás, sobre o ombro de Afrodite, que delirante sentiu o sêmen quente lhe molhar a mão junto do tecido de renda da calcinha. Com mais algumas arremetidas fortes o pisciano também chegou ao orgasmo, e enquanto preenchia o francês com seu prazer lhe rasgou a calcinha a deixando em farrapos. Jogou as tiras de renda para o ar antes de jogar-se a si mesmo de costas no colchão puxando Aquário consigo.

Ficaram assim por um tempo, gozando daquela deliciosa letargia ainda unidos, até que, com o folego já mais recuperado, Camus rolou para o lado e deitou-se ao lado dele, com a cabeça sobre seu peito esguio.

— Dieu... Como eu precisava disso. Como eu precisava de você, Afrodite. — suspirou fechando os olhos, sentindo as unhas do sueco arranharem levemente sua nuca molhada pelo suor.

— E eu de você, mon amour. Ainda mais nessa fase malassombrada da minha vida. — confessou, depois beijou delicadamente a testa suada do aquariano, que em seguida levantou a cabeça e olhou para ele.

— Está falando do pequeno Kiki, non é?

Afrodite respondeu com um aceno positivo.

— Non fica assim. Non gosto de vê-lo triste. Vai dar tudo certo. — disse Camus enquanto lhe beliscava um dos mamilos, puxando e torcendo a pontinha entre seus dedos. — Amanhã mesmo vou fazer alguns contatos com uns políticos daqui que têm o rabo preso com a Vory e providenciar o equipamento que o Hospital de Atenas precisa. Vou mandar o Andreas organizar o jantar beneficente para o próximo final de semana já. Em poucos dias tudo que me pediu será entregue na Ala 5.

Peixes olhou para ele e lhe acariciou o rosto sardento e corado.

— Nossa, quando você fala assim me dá um tesão, sabia? Mandão. O todo poderoso Camus!

Camus riu. Que outra reação ele poderia ter?

— Tudo nessa vida te dá tesão, mon amour. — disse, e voltando a baixar a cabeça beijou e lambeu o mamilo rosado.

— Tudo que venha de você me dá tesão. — disse Peixes com um suspiro. — Hum... já pensou, Camy, qual seria a cara dos seus Teletubies se vissem o que rolou aqui hoje? O que eles fariam se descobrissem que a vadia do chefe deles gosta de pau?

Camus ergueu a cabeça mais uma vez para olhar para Afrodite, e depois de um momento encarando seus olhos brilhantes ambos deram uma longa e deliciosa gargalhada.

***

Star Hill, Grécia, 04:20am

No topo do monte Meteora, mergulhado no breu absoluto da noite, despontava o observatório milenar talhado em pedra calcária. De seu interior escapava por uma única janela o brilho parco das chamas das 5 velas presas ao castiçal pousado sobre a mesa de mármore. Era sobre esta que mais um rolo de tecido de linho grosso e amarelado cheirando a mofo — o que denunciava suas muitas décadas de existência — era esticado sem nenhuma gentileza pelas mãos fortes e nervosas. Os olhos insones corriam atentos pelo mapa de cartografia estelar, porém confusos, já que nem mesmo seu antigo dono, por vezes, sabia o que buscava neles. E como este outrora fizera tantas vezes, ele também o abandonou, frustrado, desviando o olhar sem esperanças para a janela solitária aberta, de onde o sopro frio do ar das elevadas altitudes entrava fazendo esvoaçar lhe os longos cabelos negros e gelar a pele do rosto pálido e atormentado de olheiras fundas. Aproximando-se do beiral da janela, ele olhou para cima, para o firmamento e seu extraordinário véu escuro bordado por milhões de diamantes, enquanto perdido tentava entender as mensagens ali ocultas.

Em vão.

Junto do silêncio das estrelas, a voz de Geisty de Serpente se repetia em sua mente, como um mantra agourento a torturar lhe a alma:

“Como acha que irá traçar qualquer estratégia de batalha para a próxima Guerra Santa, que por sinal está aí, batendo à nossa porta, sem a porra de um ferreiro celestial para consertar as sagradas armaduras? ... O Mu é o único ferreiro celestial vivo nesse mundo, e Kiki, além de filho dele, é seu aprendiz e herdeiro. Herdeiro da armadura de Áries e futuro ferreiro celestial. Só Kiki é apto a esse ofício.”

— Não! Não é possível! — deixou o pensamento desesperado escapar-lhe pela boca num tom furioso, e com semelhante ímpeto chutou o tripé do antigo telescópio enquanto empurrava para o chão empoeirado todos os mapas que se amontoavam sobre a mesa de mármore. — Tem que existir mais deles. Tem que haver mais desses malditos lemurianos nesse mundo! Maldição!... Esse moleque teve que nascer de alguém...

Desesperado, e tomado pelo descontrole, caminhou a passos largos até a estante ao fundo do cômodo, a qual estava parcialmente encoberta pela escuridão e a poeira. Escolheu, aleatoriamente, um dos livros empoeirados de capa dura, encapado em couro em tom terroso, e seguiu até a mesa para depois, afoito, folheá-lo próximo à luz quente das velas no castiçal.

Mais uma vez sua busca não teve sucesso.

— Shion, seu velho decrépito desgraçado! Onde você guardou as informações? ONDE?! Onde a sua gente se esconde? — vociferou odioso, e de modo truculento atirou o livro na lareira que há décadas não sentia o calor do fogo, como deixava claro os tocos de madeira torrados e a fuligem que se acumulava junto das teias de aranha ao fundo.

Exausto, o Grande Mestre soltou todo o peso do corpo sobre a cadeira de madeira espessa ao lado da estante, e com os cotovelos apoiados nas coxas esfregou o rosto que suava frio, em angustia, para depois entrelaçar os dedos nos fios negros de seus cabelos. Sentia uma terrível cefaleia, que mais parecia querer lhe partir o crânio em dois, de dentro para fora, e abatido, devido à dor e à angústia, procurava organizar os pensamentos. Mas estes não pareciam querer lhe dar trégua, pois que era desesperador considerar que, depois de anos de esforço desmedido e estratégias traçadas minuciosamente, seus planos para a tomada absoluta do poder pudessem ir por água abaixo devido um detalhe tão banal.

Como pôde não considerar isso antes? Quando foi que se tornou tão ingênuo e negligente? Um exército forte não existe sem poderio bélico, da mesma maneira que um exército de Santos não existe sem um ferreiro celestial.

— Merda! — rosnou com ódio.

Estava tão habituado à competência genuína de Mu que não se atentara ao fato de que um dia ele poderia lhe faltar, já que Áries poderia cair em combate; além de ferreiro ele também era um cavaleiro de Ouro. O filho seria seu substituto natural, estava sendo treinado para isso, mas... e se a criança morresse?

O Patriarca estava convicto de que a morte do pequeno lemuriano acarretaria baixas consideráveis ao seu exército de elite dourado, além de um futuro incerto a seus planos. O que seria de Mu na ausência do filho? Regressaria a Jamiel, a um novo exílio forçado? E, se o fizesse, como o obrigaria a retornar ao Santuário e assumir seu posto? O acusaria de deserção? O mataria? Não... Não era nem um pouco inteligente matar o último dos ferreiros celestiais conhecidos. Depois, tinha ainda o Cavaleiro de Virgem... Estava com dois problemas.

Precisava encontrar outro lemuriano, mas, mesmo que conseguisse, ainda assim precisaria convencer Mu a lhe passar todos seus conhecimentos da forja celestial. Sim, precisava encontrar outro lemuriano, ou deixar que o próprio cavaleiro de Áries o encontrasse, afinal, já os estava procurando.

Deu um suspiro longo esfregando os olhos cansados. Se ao menos soubesse onde esses malditos lemurianos se escondiam...

— Malditos... Shion, você também não deixou nenhum rastro, seu velho estúpido. — murmurou, com as mãos ainda a lhe cobrir o rosto. — Nenhuma anotação legível, nenhuma pista... desgraçado inútil.

Ele se referia aos mapas. Sabia que Shion muitas vezes orientara-se por eles, mas que sua principal bússola sempre foram as constelações no céu. As estrelas sopravam aos ouvidos do antigo Patriarca os passos que ele deveria seguir, os conselhos que ele deveria demandar a cada cavaleiro, mas diante dos seus ouvidos elas se calavam. Shion fora para o túmulo e consigo levou seus segredos e a voz das estrelas.

Gêmeos estava de mãos e pés atados.

Mas isso ele jamais admitiria. Considerava-se muito melhor que Shion, e certamente encontraria seu próprio meio de prever o futuro ou saber quais decisões deveria tomar. Só teria que ter paciência.

Com essa certeza, inflou o peito com ar fresco que entrava pela janela e levantou-se, tomando o rumo da porta de saída. Sua busca por respostas através das estrelas havia sido infrutífera, mas ainda tinha a Mu. Áries estava no encalço de lemurianos, e motivado por nada menos que a vida do filho, estava certo de que ele moveria céus e terras para encontra-los.

Era atrás de Mu que teria que ir; acompanhar de longe seus rastros, e lhe oferecer toda sua benevolente ajuda, ainda que essa tivesse interesse estritamente pessoal.

***

Descolândia, Templo de Baco, 07:45am

Concentrada, Geisty olhava atenta para as duas fotografias de tamanho A5 que tinha em cada uma das suas mãos. Sobre sua mesa, um calhamaço de tantas outras fotos espalhadas, que saltavam de envelopes de papel pardo, haviam chegado na tarde anterior do estúdio de fotografia, contratado por ela própria afim de fotografar todos os bacantes para montar o novo portfólio da casa. Normalmente, era junto de Afrodite que as escolhas das fotos eram feitas, mas como o pisciano havia praticamente lhe suplicado dois miseráveis dias de folga, agora as escolhia sozinha mesmo; tarefa que não lhe era nada fácil, pois que a seus olhos todas as fotos lhe pareciam iguais, os mesmos sorrisos convidativos, os mesmos olhares luxuriosos e muita, mas muita, carne de fora.

— Ah, pela deusa! — suspirou alto e forte, inflando as bochechas levemente coradas por uma camada suave de blush em tom de pêssego. — É tanto peito e tanta bunda, tórax, coxas, que parece até um catálogo de frigorífico! — murmurou para si mesma.

Depois de seis anos analisando fotos de gente pelada a tarefa se fazia demasiadamente enfadonha. Salvo quando a fazia na companhia de Afrodite, e às vezes até de Mu, que vez ou outra dava algum palpite, esse sempre divertido.

Mas Mu ultimamente mal dava conta do próprio trabalho, como agora, em que sua movimentação confusa e distraída na mesa em frente por várias vezes chamou a atenção da amazona, que ergueu os olhos das fotos para olhar para ele.

Naquela manhã, o amigo lemuriano havia chegado antes de si, o que era um fato raro, e pela expressão desgastada, olheiras fundas e certo desalinho — jamais o vira vestido com roupas amassadas antes — estava certa de que ele havia tido uma noite de sono péssima, isso se tivesse dormido. Mas, a despeito da aparência, o que mais chamava sua atenção era a forma confusa e atabalhoada com a qual ele trabalhava, logo ele, que sempre fora tão prático quanto ágil. Por trás do enorme monitor quadrado sobre a mesa dele, podia ver seus olhos verdes fixos à tela luminosa, mas seu olhar era vago, e vez ou outra parecia confuso. Era nítido que se esforçava para realizar uma tarefa à qual sempre tirou de letra, mas que agora lhe tinha o mesmo peso de um enigma indecifrável. Apenas o corpo dele estava ali, e sabia muito bem onde sua mente estava.

Mu havia se tornado uma caricatura triste de si mesmo.

Sem dizer nada, Geisty abandonou as fotografias sobre sua mesa, levantou-se e caminhou silenciosa, arrastando as pantufas de pelúcia pelo carpete felpudo que revestia aquela sala, até a mesa de Áries, onde se sentou na borda.

— Mu? — o chamou com voz tranquila, em tom bem baixo, porém ele sequer se mexeu. Não havia nem se dado conta de sua chegada. Então ela elevou o volume da voz, depois de se debruçar para ficar mais próxima do amigo. — Mu.

— Oi! — ele respondeu de supetão, surpreso ao levantar os olhos e vê-la ali, então se ajeitou na cadeira, mexeu no mouse e abriu algumas pastas e arquivos no computador para mostrar a ela que estava trabalhando, que estava cumprindo seu dever. Não sabia por que de fato estava fazendo aquilo. — Ah, me desculpe, não vi você chegar... estava meio distraído, mas já estou somando as planilhas e...

— É eu reparei! — disse ela o interrompendo e apontando para a xícara lilás de porcelana sobre a mesa — Está tão distraído que nem tocou no cappuccino que eu te trouxe. E olha que é o cappuccino da amizade! Aquele que o Afrodite faz, com leite em pó de búfala e café torrado belga que você adora.

— Ah, pelos deuses, me desculpe, Geisty. — ele disse desviando os olhos para a xícara sobre sua mesa. — Obrigado, vou beber.

Mu estendeu a mão para apanhar a bebida, mas a amazona foi mais rápida e a apanhou primeiro.

— Não vai, não! — disse ela, e nessa hora o ariano lhe encarou confuso. — Está frio. Eu preparo outro para nós dois. — sorriu singelo para ele.

— Me desculpe... Parece que fiz pouco caso do café e da sua gentileza, mas não fiz... — fez uma pausa e deu longo suspiro. — É que... estou correndo contra o tempo, sabe?... Já deveria ter terminado esses lançamentos há uma semana, então sentei aqui e pensei em agilizar os cálculos para tentar terminar até a hora do almoço.

— Sei. — ela disse. — Por que está fazendo isso, Mu?

— Por que? Já disse, porque os lançamentos estão atrasados e...

— Por que está fingindo? E logo para mim, que sou sua amiga, praticamente sua irmã? — devolveu a xícara à mesa para pousar a mão sobre a dele, que segurava o mouse. — Sei que está correndo contra o tempo, mas definitivamente não é para terminar esses lançamentos.

Finalmente vencido, Áries desistiu de fingir até para si mesmo e se voltou para a amazona, olhando fixo em seus olhos violetas. Estava tão esgotado...

— Ah Geisty... — com a mão que tinha livre esfregou os olhos tentando se recompor — Tem tanta coisa para fazer aqui, mas eu simplesmente não consigo me concentrar, não consigo deixar de pensar nas outras tantas coisas que tenho que fazer fora daqui. Me desculpe.

— Mu. Pela deusa, né?! Não tem que se desculpar por isso... Eu volto a te dizer que nem aqui você deveria estar. Deveria estar com sua família.

— Não posso abandonar minhas obrigações. Já deixei tanta coisa nas suas costas e nas do Dido... E sem ele aqui hoje você fica sobrecarregada.

— Não fico não. Afrodite pode ser um maluco sem nenhum juízo, meio atrapalhado às vezes...

— Às vezes? — Mu sorriu para ela.

— É, atrapalhado sempre, mas se tem uma coisa que ele não é, é insensível. Antes de viajar ele deixou todo o trabalho dele em ordem e adiantado, justamente para deixar você livre. Ele já até fechou e assinou os acordos com os fornecedores. — ela disse dando dois tapinhas na mão dele, depois endireitou a postura — Mas vamos mudar de assunto. Deixa o trabalho pra lá! Me diz, como está o Kiki?

— Nada bem. — Mu baixou a cabeça e olhou para as próprias mãos sobre a mesa. — Ele teve febre a noite toda, vomitou, teve dor... Passei mais de duas horas com ele na banheira, tentando fazer a febre baixar... Até que ele adormeceu no meu colo, na água. Já era dia quando o colocamos na cama.

Ouvir aquilo era tão difícil para a amazona. Seu peito doía, sua garganta apertava, mas ela tentava manter-se firme, agarrada à mesma esperança que também mantinha Mu de pé.

— Olha, por isso mesmo eu acho que você deveria ir para casa... onde a sua cabeça está. — ela disse. — Tenho certeza de que Shaka e Kiki estão precisando muito mais de você lá do que eu aqui... E você deles. — esticou o braço e fez um carinho no ombro do amigo.

— Obrigado, minha amiga, mas eu não posso deixar esses lançamentos se acumularem por mais um dia. Já os devia ter concluído há semanas.

— Deixa que eu faço. — disse Geisty, e sem esperar resposta apanhou o livro contábil que o ariano usava para digitalizar os cálculos e saltou da mesa. — Eu sou boa de conta. Claro, não sou ágil nem tão organizada como você, mas o que vale é chegar nos resultados, não?

Mu olhou para ela um tanto constrangido. Desde a piora de Kiki que vinha falhando no trabalho e recorrendo aos amigos para cobri-lo. Sentia-se envergonhado por não conseguir cumprir com todas as suas obrigações, por mais que soubesse que estava dando o seu melhor.

— Não, Geisty, é minha obrigação e...

— Ei! Não se preocupe, está bem? Vamos fazer como das outras vezes, como quando o Kiki estava no hospital. Eu faço e depois te dou para conferir. O tempo é precioso demais, Mu, não vale a pena perde-lo aqui, com esse trabalho maçante e repetitivo, quando podia estar junto do seu marido e do seu filho, que com certeza precisam mais de você, com eles, do que aqui lançando gasto de preservativo e batom.

— Eu... eu não me sinto confortável atolando vocês com as minhas tarefas. — confessou, embora tudo o que mais desejasse era correr para casa.

— Não está atolando ninguém, seu bobo. Já te disse que Afrodite deixou tudo adiantado, enquanto eu já estava entediada de tanto encarar a virilha do Ronnie em diversos ângulos, os peitos da Fúlvia, a bunda da Karina... Fazer o lançamento das despesas vai ser muito mais emocionante. — disse soltando uma gargalhada ligeira.

Mu riu de volta, um riso fraco e sem muita empolgação, que logo morreu em seus lábios quando se pôs a pensar com calma. Os trabalhos da forja também estavam acumulados... Mas com esses não havia o que pudesse fazer.

— Não sei... Eu... — começou a dizer, interrompendo-se quando Geisty foi até ele e com um abraço por trás puxou cavaleiro e cadeira de rodinhas para longe da mesa.

— Se você não sabe eu sei! Vá para casa, Mu. Vai cuidar do seu ruivinho e do seu loirão. Mais tarde eu passo lá para ver como vocês estão e te levar os lançamentos para conferir. — disse ela girando a cadeira, colocando o ariano de frente consigo. — Diga ao Kiki que mais tarde, à noitinha, a tia Gê vai lá e vai levar um livro bem grandão de dinossauros para colorir junto com uma caixa de giz de cera neon, do jeitinho que ele me pediu semana passada. E que nós vamos pintar os dinossauros juntos. Diga também ao Shaka que vou levar aquela torta de maçã deliciosa que levei para ele no hospital e ele adorou. Aquela da bomboniere de Rodório, no final da rua transversal sem saída. Ele sabe qual é. Já fomos lá juntos algumas vezes.

Sem dizer nada, Mu abriu os braços e puxou a amiga para um abraço forte. Ninguém melhor que ela para saber exatamente como ele se sentia naquele momento, e ele sabia disso. E como era bom tê-la por perto.

— Obrigado. — disse, com a voz levemente embargada. — O Sha anda meio estranho, mas eu sei que ele vai adorar sua visita... e a torta! — brincou.

Geisty sorriu e retribuiu ao abraço o apertando com força contra si. Deu-lhe um beijo estalado na bochecha, e somente segundos após este o barulho alto e repentino da porta sendo aberta com truculência os fez separarem-se em sobressalto devido ao susto.

Juntos agora eles encaravam, curiosos e surpresos, a figura nefasta de pé ali, que raríssimas eram as vezes em que dava o ar de sua graça naquele templo.

— Mas che cazzo você está fazendo aqui? — perguntou a amazona.

Gêmeos fora atrás de Mu depois que deixou o monte Star Hill principalmente porque estava convicto de que ele lhe omitia informações quanto a seus avanços na busca por lemurianos. Obrigava Mu a lhe entregar um relatório sempre que regressava de uma busca, mas acreditava piamente que esses não continham toda a verdade, portanto resolveu sonda-lo. O obrigaria a relatar-lhe oralmente suas últimas missões de busca e, assim, olho no olho, saberia se ele estava lhe escondendo algo. E nada melhor como pegá-lo desprevenido e desarmado no escritório do Templo das Bacantes. Estava certo de que ali, se o apertasse, deixaria escapar alguma informação.

Contudo, quando tocou a maçaneta, ainda do lado de fora da sala, ouviu as vozes da amazona e do cavaleiro, e silencioso como um felino larápio, sublimando seu Cosmo, acompanhou todo o desenrolar da conversa entre eles. Sentiu o peito apertar-lhe, a respiração se alterar e o coração palpitar acelerado. Sentiu-se tomado por uma raiva primitiva, a qual pelejava para entender o fundamento, enquanto, pouco a pouco, perdia as rédeas do seu raciocínio lógico.

A atenção, o carinho e o cuidado desprendido pela esposa ao cavaleiro de Áries de repente lhe soara extremamente incômodo, desvantajoso. A união deles lhe enfraquecia, lhe distanciava. “É a minha mulher, MINHA! Por que se dedica tanto a ele e não a mim?”, ele pensava. Ele ansiava por entender por que, voluntariamente, ela se convidava a doar seu tempo para aqueles amigos ridículos, se dispunha a tomar para si as dores alheias, mas consigo sequer ela terminava uma refeição.

Em sua mente calculista esse questionamento se repetia em loopings perturbadores. Perturbadores porque pareciam lhe impor um sentimento tão desagradável quanto novo: ciúmes! Na sua mais pura essência, este veio acompanhado de uma raiva genuína que lhe fez, num impulso irracional, agarrar a maçaneta de bronze da porta e com um tranco ríspido abri-la, chamando imediatamente a atenção do cavaleiro e da amazona, a quem ele direcionou um olhar injetado de ódio.

Não entendia, e se lhe perguntassem talvez jamais saberia explicar o motivo, mas ver Serpente abraçada ao pescoço de Áries, que tinha na bochecha de tez pálida uma pronunciada marca de batom vermelho, só contribuiu para aumentar sua irritação.

— Eu é quem vos pergunto. O que diabos está acontecendo por aqui? — perguntou o Patriarca, visivelmente alterado.

— Não se bate mais à porta? — disse Geisty o encarando nos olhos.

— E por que eu deveria bater? Pelo que me consta essa zona é minha. — disse, deixando de lado seu vocabulário rebuscado, enquanto apertava a maçaneta furioso a ponto de arranca-la da porta — A menos que vocês não possam ser interrompidos em seu momento de privacidade. É disso que se trata, Serpente?

— Como? Espera aí... do que você está falando? — disse ela confusa, até se dar conta do que se delineava nas insinuações soltas no ar pelo geminiano. Não conseguindo se manter indiferente, aproximou-se mais dele para enfrenta-lo: — Olha aqui, você meça as suas palavras!

— Geisty, para. — Mu ainda tentou aliviar a discussão e trazer a amazona à razão segurando timidamente seu pulso para impedi-la de avançar. Em vão. Ela rapidamente se desvencilhou com um chacoalhão.

— Só vejo duas pessoas aqui que precisam medir sua postura, o contador que não trabalha, e a gerente casada que fica aos chamegos com ele, muito mais preocupada com a vida alheia do que com a própria. — disse Gêmeos, furioso, desviou o olhar do rosto da amazona para a bochecha marcada de batom do cavaleiro.

— Pela deusa! Eu não acredito que isso está acontecendo. — murmurou baixinho o Santo de Áries com um suspiro cansado. Tudo o que menos precisava no momento era de mais uma das infindáveis discussões sem sentido entre Geisty e a versão maligna de Saga.

— Você está fazendo mau juízo de mim e do Mu. E isso eu não vou admitir jamais! — disse ela enquanto gesticulava com as mãos nervosas no ar, bem ao seu modo italiano de ser.

— Eu não tenho que dar satisfações do que julgo sobre vocês dois.

— Mu é como um irmão para mim. Minha única família! Enquanto você, você é doente!

— Mais respeito, amazona! — vociferou entre perdigotos o Patriarca num rompante de raiva, enquanto dava um passo à frente, fazendo Mu piscar os olhos assoberbado.

— Pelo amor de Atena, CHEGA! — berrou o lemuriano já exausto de tudo aquilo, quando num gesto ágil se colocou entre os dois estendendo os braços para separa-los. Sua cabeça doía pela falta de sono e agora sim, desejava desesperadamente ir para casa. — Será que pelo menos por um amaldiçoado dia vocês dois podem parar com essas discussões ridículas? — encarava os dois alternadamente — Seis anos dessa merda! Dessas brigas constantes, mas que inferno!... Definitivamente, hoje não estou com cabeça para essa palhaçada. Sério. Hoje não!

Um silêncio estranho e constrangedor se fez entre os três por algum tempo, o tempo em que o Patriarca e Geisty encararam Mu, ele bufando e ela envergonhada.

Assim que percebeu que não seria retrucado, Mu abaixou os braços, esfregou o rosto com ambas as mãos e correu os dedos pelos cabelos bagunçados.

— Me desculpem... Eu estou esgotado. Se vocês querem brigar, briguem. EU vou para casa. — disse resignado, e logo se virou para deixar a sala e o “casal” a sós.

— Aonde você pensa que vai, Áries? Você ainda tem muito serviço para fazer antes de ir para casa! — o Patriarca se colocou na frente de Mu o impedindo de passar e jogando em seu peito uma pasta de arquivo que trouxera consigo — Essa merda de relatório contábil está errado!

O lemuriano apenas olhou para ele sem nada dizer.

— Além de não cumprir mais com as suas obrigações na Forja, será que também não consegue nem ao menos somar dois mais dois? — continuou o geminiano, com gravidade pronunciada na voz. — Você acha que isso aqui é o quê? Uma colônia de férias, na qual vocês entram e saem à hora que bem entendem, sem nenhum compromisso? Pois eu te digo que não, Áries, não é!

Atordoado, Mu segurou a pasta enquanto pensava no que responder, porém Geisty foi mais rápida, e colocando-se ao seu lado a tomou ligeiro das mãos, as quais continuaram na posição em que estavam sustentando agora o vazio.

— Cala a sua boca e deixa o Mu em paz. Não foi ele quem errou. Fui eu que fiz esse relatório. E de acordo com você, quem não sabe somar dois mais dois então sou eu. — mentiu descaradamente para proteger o amigo. — Obrigada pelo elogio!... Eu vou refazer os cálculos. Agora, se é só isso que veio fazer aqui pode ir embora, tchau! — disse abanando a pasta no ar sinalizando para que o marido que se retirasse da sala.

Nessa hora Mu a encarou sério, pronto para desmenti-la. Sentia-se péssimo por estar deixando aquele trabalho acumulado para ela e Afrodite, e mais péssimo ainda por permitir que ela levasse a culpa por algo que não fez. Fora ele quem fizera aquele relatório, e se havia algum erro nele a culpa era inteiramente sua, mesmo que os cálculos errados fossem fruto de seu esgotamento físico e mental, do desespero e da sobrecarga, e não de incompetência. Olhou para Geisty, pronto para desmenti-la, mas seus olhos encontraram um olhar severo que lhe intimava a confirma-la. Diante disso ele se calou, e seu gesto não passou despercebido pelo Patriarca, que deu uma sonora gargalhada.

— Vocês me tomam por algum tipo de tolo? — disse com voz troante. — Acham mesmo que não percebo a mancomunação ridícula dos dois? Digo, dos três, já que, por algum motivo do qual eu não fui informado, Peixes nem aqui está. Ele também faz parte desse circo medíocre de vocês que eu sei. Vocês três me dão nos nervos!... Pouco me importa se quem fez essa merda de relatório foi você, Áries, ou você, Serpente, o que consta aqui é um trabalho mal feito! Uma evidência clara de incompetência e pouco caso. — disse, tomando pela raiva, esquecendo-se até do real motivo de ter ido até ali.

Nenhum dos dois respondeu. Ambos mudos pela indignação e munidos do bom senso em não alimentar a discórdia, já que sabiam que o Patriarca planejava semeá-la através de suas palavras ácidas.

E o silêncio deles só deixou Gêmeos mais irritado.

— Você, meu caro funcionário, eu te pago um salário alto por essa função, além do seu soldo de cavaleiro, e junto de não estar cumprindo com seus deveres para com minha empresa e meu Santuário, você passa a maior parte dos seus dias passeando pelo mundo ou encastelado no Sexto Templo.

— Alto lá! — Mu interrompeu nervoso e apontou o dedo para ele — Passeando merda nenhuma! Eu tenho saído em missão todo esse tempo, e você sabe bem disso. Missões, aliás, autorizadas por você, em busca do meu povo e do conhecimento milenar deles. E o Sexto Templo é a MINHA casa! É onde moram meu marido e meu filho, que está doente!

— A sua casa é a Casa de Áries, cavaleiro. — disse em tom arrogante, baixo e severo, encarando os olhos de Mu. — Que por sinal está abandonada há anos, junto com a Forja e todas as armaduras sucateadas que estão lá, aguardando por reparos... Aliás, Áries, há quanto tempo a fornalha não é acessa? Diga-me, heim? Hum!

Mu engoliu em seco, mas se manteve firme, com seus olhos fitos aos dele, sem vacilar nem por um segundo. Sabia que ele o estava provocando, e não se deixaria cair nessa armadilha, ainda que não pudesse negar a verdade nas palavras dele. Era com angustia que as ouvia.

— Nem parece que temos um ferreiro celestial por aqui. — desdenhou dando de ombros e curvando a boca num arco para baixo, depois finalmente prosseguiu entrando no assunto que o fizera ir até ali naquela manhã. — E quanto à essas suas missões?... Sinto que está me escondendo algo. Você está, Áries? Porque eu estou começando a me perguntar, que merda de lemuriano imprestável é você, que em todos esses dias de viagens pelo mundo não conseguiu encontrar nem um espécime da sua gente? Será que, como lemuriano, você é tão incompetente como anda sendo como contador?

Dessa vez o sangue de Mu ferveu, fazendo as veias de seu pescoço estufarem. Só não voou no pescoço de Gêmeos porque sentiu a mão firme de Geisty agarrar seu punho, lhe lembrando que não era hora para isso. Mas sentia-se ofendido de todas as formas, e não deixaria barato.

— Eu sou o lemuriano imprestável treinado pessoalmente pelo verdadeiro Grande Mestre desse Santuário, e que precisa ir à caça do próprio povo porque não obtém todos os conhecimentos que deveriam ser passados a ele por conta do assassinato prematuro de seu mestre! — cuspiu a resposta entredentes.

A resposta reverberou diretamente no imenso ego de Gêmeos, atiçando a fúria que havia parcialmente se amenizado quando dirigiu as ofensas a Mu momentos antes. Ele só não chegou às vias de fato porque as palavras do ariano também continham uma verdade dolorida e incômoda, e por mais que lhe fosse difícil lidar com ela precisava priorizar sua estratégia. Aproveitaria que Áries tinha sido tirado de seu estado de letargia para tentar arrancar dele o que foi ali buscar.

— Mu! — Geisty murmurou ao lado do ariano, mas ele prosseguiu.

— Eu sou a merda do lemuriano imprestável que só está nessa porra de Santuário regido por um assassino, impostor e incompetente, por respeito à deusa Atena e aos irmãos de armas. Que acumula a função de Cavaleiro de Ouro e Ferreiro Celestial, e que, ainda assim, aceitou de boa vontade o trabalho de administrar financeiramente uma instituição falida e desorganizada... Ah! E que agora busca, desesperadamente, a salvação para o único filho e herdeiro... Será que você é tão ingênuo, Gêmeos, que chegou mesmo a pensar que eu deixaria meu filho gravemente doente em casa, que abandonaria minha família no momento em que eles mais precisam de mim, para priorizar tarefas medíocres do cotidiano? Como dedicar meu tempo total ao seu exército e seu puteiro? Ou então tão ignorante ao ponto de achar que lemurianos são fáceis de encontrar?... Não. Eu jamais abandonaria Kiki e Shaka nesse momento para viajar pelos confins obscuros desse planeta atrás de lemurianos, se esse não fosse o único jeito de encontra-los... Aliás... — nessa hora aproximou-se mais do Patriarca, estreitou os olhos e o encarou com extrema firmeza. — Por que acha que estou te escondendo algo? Qual é o seu interesse no meu povo? Sim, porque, afinal, são a minha raça, minha gente, não a sua... Por acaso é você o perseguidor, o misterioso cavaleiro que porta uma espada, que os afugentou e os dizimou?

— O que? — Gêmeos questionou confuso. — Eu não sei do que está falando, Áries.

— Não sabe, né? Caso você não se lembre, os poucos remanescentes do meu povo estão sendo caçados sumariamente por algum desconhecido, o que dificulta, e muito, a minha busca, porque quando um lemuriano não quer ser encontrado, ele não é, Gêmeos. A mãe do meu filho foi uma das vítimas desse “caçador”. Será que ele é você? — disse com exaustão na voz.

Fez-se um momento curto de silêncio, que foi quebrado pela risada jocosa do Patriarca.

— Não Áries, eu não mereço tantas honras... Não sou eu quem está caçando e executando a sua gente. — continuava rindo, para inconformismo de Geisty e raiva desmedida de Mu. — Mas, se tem mesmo alguém fazendo isso, então é melhor você agir com mais esperteza. Vai que esse misterioso caçador os encontre na sua frente... E sobre o seu velho mestre, digamos que eu apenas o ajudei a terminar de se deitar... Todos sabemos que Shion estava nas últimas... Mas, já que você é tão comprometido com a gestão anterior, nada mais justo, então, que se engaje em ajudar a tirar o Santuário da lama que seu tão adorado tutor nos mergulhou.

Foi a vez de Mu e Geisty serem pegos de surpresa pelas palavras ditas por ele.

— Mas gosto disso! — continuou o Patriarca, apontando o dedo para Mu — Gosto de gente comprometida. Gente movida pela paixão! — direcionou um olhar ligeiro, porém carregado de ira para a amazona, que o olhava de volta, perplexa. — Não é mesmo, Serpente? Como eu havia dito, não me importa quem faça o serviço de contabilidade, apenas o quero feito, e de forma correta. Assim como os reparos das armaduras que aguardam na forja. Por isso, Áries, a partir de hoje não tem autorização para se ausentar do Santuário até que a sua principal missão aqui dentro seja concluída. Eu quero as armaduras reparadas, e quero que sejam todas entregues em perfeitas condições de uso o mais breve possível. — fez uma breve pausa, erguendo o queixo, e completou: — No mais, tenham um bom dia, e mantenham o decoro, mesmo isso aqui sendo um prostíbulo.

Gêmeos deixou a sala, sem dar espaços para respostas.

Geisty e Mu o ficaram vendo se afastar com seus rostos lívidos e seus corações cheios de raiva e indignação. A amazona ainda segurava firme o punho do lemuriano, que respirava duro. Seu peito subindo e descendo agitado enquanto ele tentava se acalmar, e tão logo o stress e o nervosismo acumulados irromperam a superfície dos limites auto impostos por ele, seu rosto contorceu-se numa careta de dor e a raiva escorreu por seu olhos.

— Mu... Pelos deuses, não dê ouvidos a ele. Não vale a pena... Não vale... Vem, vem aqui. — disse Geisty assustada ao ver o amigo chorando. O puxou para um abraço forte, tentando confortá-lo.

— Me desculpe. — o lemuriano murmurou quase sem forças ao abraça-la de volta — Me desculpe. É tudo culpa minha.

— Não! Mu, não! Não é culpa sua. Não é culpa minha, nem de ninguém... A culpa é só dele, só desse estupor sem alma, que não tem um pingo de sentimentos e consideração pelo próximo. — tentou consola-lo sem saber que ele não se referia apenas a discussão de momentos antes — Ei, Mu! Não fica assim. Eu estou aqui com você, estamos todos aqui com vocês...

Demorou alguns minutos para Áries conseguir se recompor, mas assim que conseguiu controlar suas emoções se soltou do abraço, envergonhado por toda aquela situação.

— Não quero que faça isso de novo. — disse resoluto ao enxugar as lágrimas com o dorso da mão e encarar a amiga — Não quero que tome para si as minhas falhas.

— Mas, Mu... — ela tentou se justificar.

— Não! Hoje passou, mas não vou deixar que faça isso novamente. Aceito sua ajuda de bom grado, e não serei orgulhoso dizendo que não preciso dela, mas ocultar minhas falhas e deixar que pague por elas é outra coisa. Vai contra a minha moral e minha honra. Por favor, não repita isso ou irei desmenti-la no ato.

Geisty olhou para ele, prestando atenção em cada detalhe da face triste de olhos verdes emoldurados pela vermelhidão do pranto, então lhe sorriu. Levou a mão até sua bochecha e limpou a marca de batom.

— Está bem. Mas desde que me prometa que vai parar de tentar fazer tudo sozinho.

— Feito! — Mu arranhou um sorriso com um discreto curvar de lábios.

— Agora lave esse rosto e vai para sua casa. — disse ela fungando o nariz —Vá passar o dia com sua família, minha visita ainda está de pé, mais tarde apreço lá.

***

Templo de Virgem, 8:30am.

Após o incidente matinal no Templo de Baco, o Cavaleiro de Áries retornava para a casa com o coração pesado e o espírito atribulado. Apesar da maneira grosseira e afrontosa de Gêmeos, ele estava certo em um ponto: não podia mesmo abandonar a Forja de Áries. O exército de Atena dependia de seus serviços.

Por isso, enquanto subia os últimos degraus antes de chegar ao enorme pátio de mármore do Templo de Virgem, Mu já organizava mentalmente seu tempo, decidido a usar o período da tarde daquele mesmo dia para trabalhar na forja com afinco e conseguir pelo menos desafogar um pouco o serviço acumulado, quando de repente foi surpreendido ao topar com Ágora e Shiva, os aprendizes do esposo, que deixavam o lugar com um semblante estranho nos rostos.

— Ué! B1 e B2? Estão de saída tão cedo? — perguntou curioso.

— Sim. — Shiva respondeu fazendo uma careta. Achava uma falta de respeito, além de um desplante, aquele apelido desonroso dado a eles pelo marido do mestre.

— Mestre Shaka nos dispensou do treinamento hoje. — Ágora complementou ao dar de ombros. — Também dispensou nossa ajuda e nos deu o dia de folga. Disse que quer ficar sozinho.

Mu arqueou as pintinhas na testa e na mesma hora um alerta soou em sua mente. Shaka nunca dispensava os aprendizes do treinamento. Mesmo no frio cortante, ou no calor escaldante, até mesmo na doença de Kiki, ele continuava sendo um mestre rígido e extremamente disciplinado. Quando não podia treina-los os designava tarefas várias, ou mesmo os mandava meditar por horas a fio, mas nunca lhes dava folga. Aquilo não era um bom sinal.

— Entendo... Bom, que sorte a de vocês, não? Aproveitem o dia! Ele está lindo. — disse já apertando o passo, preocupado e apreensivo. — Até outro dia.

— Até. — os dois se despediram e foram embora.

Extremamente alarmado, Mu fez o resto do percurso até a parte residencial do templo praticamente correndo. Seu coração dava saltos ornamentais dentro do peito, porque a cada passo que dava, seus olhos muvianos detectavam em assombro uma aura funesta e agourenta que pairava ao redor de todo seu lar.

Antes mesmo de adentrar a sala ouviu o som em volume alto da televisão, que parecia ligada no canal infantil. Possivelmente o filho já estaria acordado. Seguiu pelo corredor a passos apressados e sentiu um aroma gostoso de café e infusão de ervas. Nesse momento fechou os olhos e respirou profundamente. Como era bom estar em casa.

Quando chegou na sala contornou o sofá para pegar o controle da televisão a fim de desliga-la, foi então que viu Kiki ali, dormindo encolhido suavemente, acomodado sobre as almofadas. Formando um caracol felpudo, Saravá Ebó também dormia bem encostadinho em seus pezinhos.

— Minha luzinha! — Mu suspirou ao se abaixar do lado dele. Beijou-lhe delicadamente a fronte e escovou os cabelinhos ruivos com os dedos. Sentiu um aperto enorme no peito quando notou que os fios vermelhos estavam úmidos. Shaka lhe deu banho de novo? Será que a febre voltou? Ele pensou preocupado. Encostou o rosto na fronte dele e a temperatura amena da pele lhe respondeu que não, seu filhote não estava febril.

Mas olhando para os vários frascos de medicamentos que estavam sobre a mesa de centro, ele constatou que sim, que a febre havia voltado, pois que entre eles estavam os antitérmicos prescritos pelo pediatra, além de um copo com água, uma bolsa de gelo e até mesmo um nebulizador. Sentiu um terrível pesar ao olhar para tudo aquilo. Havia passado a madrugada toda cuidando do filho, mas pelo jeito sua melhora havia sido apenas momentânea.

Mu expulsou da mente os pensamentos terríveis, que naquela altura já lhe eram uma companhia constante e incômoda, e depois de fazer mais um carinho em Kiki, e também no gatinho preto, foi em busca do marido. Sentia o Cosmo de Virgem na sala que ele costumava meditar, não na lótus, mas naquela onde descansava a milenar estátua de Buda, tão antiga e sagrada quanto aquele templo.

O simples fato de Shaka não estar ali, na sala junto do filho, já lhe soava deveras preocupante.

Em verdade, absolutamente nada naquele cenário estava certo. A dispensa dos aprendizes, Kiki dormindo no horário de seus desenhos favoritos, e principalmente, o isolamento de Shaka.

Apressado Mu caminhou até a câmara de onde sentia o Cosmo do virginiano, mas o que viu lá, no momento em que cruzou o grande pórtico, fez sua boca secar e o coração saltar aflito dentro do peito. Prendeu a respiração, de surpresa e de horror.

A sala era imensa e escura, apenas umas poucas velas acesas dispersas pelo chão de mármore, aos pés da imponente estátua, a iluminavam com uma luz quente e discreta, porém, mesmo assim Mu conseguiu ver nitidamente a figura de Shaka ali, de pé, em frente à estátua, tão imóvel quanto ela. Lento e cuidadosamente se aproximou, notando curioso que ele tinha os cabelos completamente desalinhados, os pés descalços e vestia uma camiseta e uma calça de algodão, que eram suas, mas quando viu, com ainda mais horror, que Virgem tinha os punhos cerrados tão fortemente que suas unhas rasgavam a pele das palmas das mãos, e o sangue gotejava tingindo o mármore de vermelho, correu aflito até ele.

— Shaka!

Mu gritou o nome do marido no percurso, quebrando o silêncio lúgubre que parecia sufocar aquele lugar, então quando ficou de frente para ele, viu que estava com seus olhos azuis abertos, os quais hirtos como se também estivessem petrificados fitavam os olhos semicerrados da estátua. Ele a encarava como se a quisesse intimidar.

Agoniado tomou as mãos do virginiano num gesto brusco, o forçando a relaxar os dedos afim de parar de ferir a si mesmo. Sabia que Shaka descontava em seu corpo físico as dores do espírito, de alguma forma ele encontrava alívio nisso, mas não podia permitir que ele se auto flagelasse daquela maneira. No entanto, no momento em que segurava suas mãos geladas notou também que a camiseta que ele vestia estava ensopada de sangue na parte da frente.

— Pelos deuses, Shaka! — disse em choque, sua voz se quebrando trêmula a cada silaba. — Esse sangue é seu?

Virgem não respondeu, continuava a encarar o rosto da estátua, sem piscar, sem se mexer. Seus olhos tinham um brilho gélido, seu rosto uma fisionomia aterradora. Ele parecia alguém prestes a cometer um ato de loucura.

— Shaka! — Mu o chamou novamente, dessa vez lhe chacoalhando os braços. Estava tão angustiado que sentia uma leve vertigem.

— Não é meu. É do Kiki. — disse Virgem, com uma gravidade e mau humor que estava se tornando hábito, então finalmente desceu os olhos azuis da imponente e gigantesca estátua até estes encontrarem os verdes cristalinos do lemuriano — Outra hemorragia.

Mu engoliu em seco, prendendo a respiração. Era muito sangue perdido para pouco menino...

O quadro ali era pior do que o ariano imaginava, porque depois de ter passado mal a noite toda, emendando depois a madrugada, Kiki tivera mais febre e outra grave hemorragia pela manhã. Não à toa estava tão perdido no Templo das Bacantes tentando fazer os cálculos... Era sensitivo, e de alguma forma podia sentir o sofrimento do filho e o abalo do marido, além de perceber que agora Shaka começava a flertar com caminhos perigosos.

— Pelos deuses! E o que você está fazendo aqui? E nesse estado? — perguntou, com uma suspeita nefasta na mente.

— Eu precisava ter uma conversa com Ele. — Shaka respondeu voltando novamente os olhos azuis para a face petrificada de Buda, a qual encarava com tanta força e vontade que seu rosto todo se contorcia em uma carranca odiosa.

Muito apreensivo, Mu virou a cabeça para trás e também olhou para a estátua. A face de Buda nunca lhe pareceu tão imponente e opressora quanto naquele momento. Engoliu em seco e comprimiu os lábios, depois voltou a encarar o rosto de Shaka. Novamente um alerta soou em sua mente, porém agora o barulho que este fazia era ensurdecedor.

— Ei! Para com isso, ok? — chamou a atenção do marido ao lhe soltar as mãos e abraça-lo forte, o envolvendo completamente com os braços vigorosos, como se a qualquer momento Shaka lhe pudesse escorrer por eles caso não o segurasse com bastante força. — Não faz assim... Por favor, não faz assim, Shaka... Vem comigo. Você precisa tomar um banho, e precisa de curativos. Deixe essa conversa com Ele para outro dia. — afastou-se minimamente, apenas para segurar no rosto do virginiano com ambas as mãos. — Ei, olha para mim. Olha para mim, Luz da minha vida...

Virgem obedeceu depois um momento.

— Eu vou ficar em casa hoje, Sha. Vou ficar com a minha família, com as luzes da minha vida. — novamente o abraçou com urgência e toda força, sem se importar em sujar a própria roupa de sangue. Com as mãos nas costas esguias do virginiano, lhe acariciava os longos cabelos loiros tão amados, aspirando seu perfume de sândalo. — Vou cuidar de você e do nosso menino, está bem? Me deixa cuidar de você, por favor. Deixe essa conversa com Buda para outro dia. — sussurrou próximo ao ouvido dele, com todo amor que possuía.

Ainda que relutante, Shaka não podia negar aquele pedido. Ele mesmo precisava tanto de Mu quanto do ar para viver. Por isso, quando o ariano lhe soltou e imediatamente em seguida tomou sua mão lhe conduzindo para a saída da câmara, ele direcionou um último olhar para a estátua, avisando que aquela conversa ainda não havia acabado, e seguiu junto com ele para o interior da casa.

***

Nosso grupo no face "Fics trio ternura" com muitas informações extras.

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