Notas iniciais
Bom dia amores. Mesmo em viagem e comigo sem um note descente conseguimos terminar o capítulo a tempo e ainda com um desenho lindoo do Kirian pra vcs *-*

Santuário de Atena. Enfermaria, 16:47

— Mantenha a pressão por mais cinco minutos. — disse o médico plantonista que atendia Kiki no minguado ambulatório que servia ao Santuário. Era um homem de meia idade e semblante nem um pouco confiável. — O nariz possui muitos vasos sanguíneos. Se o ar está muito seco, ele retira água da mucosa nasal para ser umidificado, e então elas ficam ressecadas causando microfissuras. Ou seja, hemorragias assim são normais. — deu de ombros, afastando-se da maca onde o garotinho estava sentado.

— Não quando não cessam a mais de vinte minutos. — disse Shaka, que pressionava um emaranhado de gaze contra o rostinho do pequeno lemuriano enquanto com a outra mão apoiava sua cabeça. — Olha, você está aqui para examinar o meu filho ou para nos dar lição de anatomia?

— Ei, Shaka. — Mu chamou a atenção do virginiano. Estava ao lado deles na maca enquanto segurava na mãozinha de Kiki. — Se acalme, ok?

— Examinar o que? Eu já disse que isso é comum. — falou o médico mau encarado que agora sentava atrás de sua mesa já passando a mão em um bloco de receituário. — Atendo no mínimo umas cinco ocorrências desse tipo por dia nesse lugar. Claro... a maioria chega aqui com hemorragia decorrente de fraturas no nariz ou seios nasais. Isso quando sobra algum nariz... — deu uma risada zombeteira, mas assim que olhou para os rostos sisudos dos dois cavaleiros ali sua fisionomia voltou a ficar séria. — Bem... eu vou prescrever a ele um lubrificante nasal. É o suficiente.

Shaka olhou feio para o médico, ainda mantendo a gaze pressionada contra o nariz de Kiki, depois trocou um rápido olhar com Mu que estava tão descontente quanto. O lemuriano então respirou fundo e olhou para o filho.

— Tem certeza que não está doendo nada, filhote? — perguntou.

— Não, papai. O Kiki não tá sentindo nada... Só a cabeça que tá zunzando um pouquinho. — falou com a voz bem anasalada.

— Zunzando? Como assim? O que é isso? — Shaka perguntou preocupado.

— Zunzando, Baba. O Kiki não sabe explicar... É como se ele estivesse com as orelhas entupidas.

— Pressão no ouvido. — disse Mu. — Afasta a gaze, Shaka.

Quando Virgem fez o que o ariano pedira havia grande quantidade de sangue tingindo a trama de algodão, e ainda um tanto considerável a verter do pequenino nariz do ruivinho.

— A hemorragia não está estancando, Mu. — disse Shaka meio perturbado. — Mesmo que ele não tenha batido com a cabeça isso não é normal. — olhou feio novamente para o médico que se reaproximava deles agora com uma receita nas mãos. — Não é para acontecer. Alguma coisa está errada!

— Aqui tem um lubrificante nasal. Eu já disse que isso é normal, logo vai parar. — disse o doutor estendendo o papel a Mu, que por um momento apenas o olhou sem apanha-lo.

— Você tem razão. — disse o ariano, e imediatamente depois deu as costas ao médico e pegou Kiki no colo. — Vamos leva-lo ao Hospital de Atenas.

— O que? — inquiriu surpreso o médico enquanto os via deixar o consultório às pressas e sem dizer mais nada. — Eu já disse que não há motivo nenhum para todo esse alarde! Não precisam ir ao Hospital. Que exagero!... Ei! Voltem aqui!... Não vão levar a receita? Me devem 200 Dracmas pela consulta! — já gritava.

Do lado de fora, já nos arredores das ruinas que levavam à saída dos limites do Santuário, no colo de Mu Kiki passava os dedos no rosto sentindo o nariz molhado.

— Baba! — chamou assustado o pai indiano quando olhou para os dedinhos e os viu tintos de vermelho vivo.

Na mesma hora Shaka lhe entregou gazes limpas, que havia pego no consultório, e o instruiu para que pressionasse contra o nariz.

— Pega ele, Sha. — disse Mu lhe passando o pequeno. — Eu vou até ali no estacionamento pegar um dos carros disponíveis e já volto. Me espera aqui.

No colo de Shaka Kiki agora via o pai lemuriano se afastar às pressas, enquanto com a mãozinha suja de sangue segurava firme nos longos cabelos loiros do virginiano, gesto que repetia desde pequenininho quando procurava por conforto e proteção.

— Baba, o Kiki tá doente? Por que vamos no hospital? O Kiki não quer tomá injeção. — perguntou apreensivo, e Shaka, percebendo o medo nos olhos do ruivinho, espalmou uma das mãos em suas costas e a afagou fazendo movimentos circulares para confortá-lo e acalmá-lo.

— Você não vai tomar injeção. E também não está doente. — sorriu para ele para não assusta-lo mais. — Nós vamos ao hospital só para saber por que você está com essa zunzeira na cabeça... Já pensou, Kiki? Você, que já é um menininho todo zuado, ainda vai ter zunzeira na cabeça? Não pode! — disse na tentativa de desviar a atenção dele do sangue no nariz para que não ficasse impressionado, embora ele mesmo estivesse uma pilha de nervos.

Logo Mu chegou ali com o carro que usava para fazer as compras em Atenas e mais que depressa partiram para o hospital. No caminho Áries ligou para doutor Adônis, o médico pediatra que há quatro anos ingressara em definitivo à equipe chefiada por doutor Hector no Hospital de Atenas, e apenas vinte minutos depois Kiki era atendido em uma das salas restritas aos cavaleiros de Atena, na Ala 5, pelo atencioso médico.

— Isso, mantenha a cabeça reta, assim mesmo. — instruía o jovem médico para o garotinho sentado sobre a maca. — O tio vai passar uma pomadinha no seu nariz, tudo bem?

— Tá bom. — Kiki respondeu.

Ao lado deles, Shaka e Mu acompanhavam o atendimento em desassossego.

— O que acha que pode ter causado o sangramento, doutor? — perguntou o Santo de Áries.

— Não posso responder com exatidão, porque pode ser por uma série de fatores, tanto externos, como clima, temperatura, por exemplo, quanto internos, alguma inflamação nos seios nasais, pressão arterial alterada, o que imagino que não seja o caso dele, e até uma possível anemia. — disse Adônis enquanto aplicava a pomada coagulante.

— Anemia? Impossível! — Shaka interferiu. — Doutor, eu mesmo cuido da alimentação do meu filho, e embora eu seja vegetariano eu incluo carne na alimentação dele normalmente, também ferro, proteínas, vitaminas...

— Luz da minha vida... calma. — pediu Mu.

— É só uma hipótese, senhor Shaka. — disse o médico, que já conhecia muito bem o Cavaleiro de Virgem e toda sua preocupação exacerbada com o filho. — Para ter certeza de qualquer coisa eu vou pedir alguns exames, incluso os níveis de coagulação e ferro no sangue. Vocês disseram que ele não sofreu nenhum trauma, certo? Queda, choque, ou qualquer impacto, em especial na cabeça e face.

— Sim, nenhum. Ele estava treinando com o amiguinho, mas um treino leve e supervisionado por mim em tempo integral. Hyoga é um garoto muito educado e responsável. Mesmo quando ele acerta algum golpe em Kiki ele ainda o faz da forma mais branda o possível. — disse Mu.

— E ter testemunhado a morte covarde de um jovem bem diante dos olhos não conta como trauma? — disse Shaka, e na mesma hora Kiki ergueu os olhos assustados para o pai indiano e o encarou. Doutor Adônis fez o mesmo, e por um breve momento um silêncio profuso tomou o recinto. — E depois disso ainda teve aquele proxeneta ébrio possuído falando aqueles absurdos... Buda, como eu queria arrancar a cabeça do Gêmeos e dar para os cães da rua comer.

— Shaka! — Mu chamou a atenção do virginiano. — Luz da minha vida, não está ajudando em nada.

Percebendo que a fisionomia de Kiki ficara extremamente assustada, já que provavelmente as palavras do pai loiro o fizeram reviver as lembranças do ocorrido na Arena, Adônis caminhou ligeiro até sua mesa, apanhou um pirulito na gaveta e o trouxe para o pequeno lemuriano.

— Toma, Kiki. É de morango com chiclete. O que você gosta. — lhe entregou com um sorriso terno no rosto gentil.

— Obrigado. — o pequeno agradeceu ainda meio aflito. Seu nariz já não sangrava mais. A pomada havia controlado a hemorragia.

— Bom. — continuou o médico — Pelo que disse, senhor Shaka, ele testemunhou algo ruim durante o treinamento de hoje, certo?

— Ruim? — disse Shaka enquanto pegava o filho no colo o tirando da maca. — Ruim é a omelete que o Mu faz. Você não faz a menor ideia do que se tornou o Santuário desde que aquele excomungado do Gêmeos perdeu o juízo de novo. Sim, ele viu e ouviu coisas terríveis, doutor. E embora meu filho seja já um aprendiz de cavaleiro ele ainda é só uma criancinha.

Ao lado deles Mu suspirou exausto.

— Certo, mas... não creio que a hemorragia tenha sido desencadeada por algum fator emocional, mas para ser mais exato eu teria que consultar os históricos das pesquisas que o doutor Hermes vinha fazendo desde décadas passadas acerca da fisiologia dos lemurianos, que é um pouco diferente da humana. — disse Adônis, que os chamava para se sentarem nas poltronas em frente sua mesa. — O senhor Mu deve saber. Doutor Hermes vinha fazendo uma pesquisa extensa sobre o tema desde meados da década de 1970. Shion o havia autorizado e se voluntariado, e além dos dados arquivados dele temos aqui também alguns dados coletados do senhor, senhor Mu.

— Ah, sim. Eu me lembro de ter vindo aqui algumas vezes junto do meu mestre quando era criança. — disse o lemuriano.

— Bom. A pesquisa do doutor Hermes não é extensa. Infelizmente pouco depois de começa-la o Santuário entrou em uma crise financeira grave e a verba destinada a ela foi suspensa. Algum tempo depois Shion faleceu e consta nos relatórios de Hermes que você desapareceu. — disse Hector direcionando um olhar sério a Mu. — A pesquisa ficou arquivada desde então, mas desde que me trouxeram Kiki no ano passado quando ele apresentou aquele quadro de diarreia, eu confesso que tenho pensado em reabri-la. Eu sou pediatra, e Kiki é a primeira criança lemuriana que eu acompanho. Seria ótimo para mim, em matéria de conhecimento, além de promissor para a medicina e a ciência. De fato, não esperávamos que houvesse outro lemuriano aqui em Atenas além do senhor, senhor Mu.

— Nossa! — Mu arregalou os olhos, surpreso com a ideia. — Eu... eu acho uma ótima iniciativa! Posso colaborar com o que for preciso.

— Eu agradeço muito! — respondeu Adônis, que depois olhou para Kiki no colo de Shaka e abriu um largo sorriso. — Quanto ao nosso mocinho aqui, eu creio que foi apenas um susto. Eu vou pedir alguns exames, mas até que fiquem prontos vocês podem voltar para casa e seguir com a rotina normal. Apenas evitem que ele faça esforço físico intenso nos próximos dois dias. E caso ele apresente alguma outra alteração tragam-no novamente. Kiki não é um menino comum, é um lemuriano, portanto não tenho parâmetros de comparação, e apesar de acreditar se tratar apenas de um incidente isolado é melhor ficarmos de olho.

— Então o Kiki não tá doente? — perguntou o menininho rolando o pirulito dentro da boca.

— Acredito que não, Kiki. O tio escutou tudo aí dentro de você e está tudo absolutamente normal. Agora vou pedir para um enfermeiro acompanhar vocês até o Raio-X e depois para coletar o sangue. — disse Adônis sorridente.

— Are Buda! — Shaka suspirou sentindo-se mais calmo.

— Obrigado, doutor. — Mu agradeceu.

— De nada. Nos vemos quando os exames ficarem prontos. Eu ligo para vocês. E assim que tiver estudado os arquivos de Hermes eu atualizo você, Mu, e vemos como seguir com a pesquisa. — disse já se levantando e estendendo a mão para se despedir deles.

Quase uma hora depois, já feitos os exames os três deixaram o hospital e regressaram ao Santuário. Shaka achou melhor que o filho ficasse em repouso até que saíssem os resultados. Meta que sabia não ser nada fácil cumprir, mas mesmo assim ele tentou. Após dar um banho caprichado e relaxante no pequeno o levou para a sala junto de Mu que os aguardava devorando um balde de pipocas.

— Fica aqui quietinho no colo do seu pai que está quase na hora da novela. — disse Virgem enquanto ajeitava algumas almofadas para Kiki ficar deitado. — O Baba vai até a cozinha fazer um lanchinho para você.

— Eba! O Kiki tá com muita fome, Baba!

— Ah, eu também quero um lanchinho, Luz da minha vida. Como assim, só o Kiki vai ganhar comida e o Mu não? — disse Mu em tom brincalhão.

— Está certo, marido. Eu faço um sanduiche para você também. Mas fique de olho nesse menino, Mu de Áries. Não quero ele correndo pela sala, levitando coisas ou flutuando. Hoje ele vai ficar de repouso! Vocês dois entenderam?

Os dois lemurianos responderam ao mesmo tempo com um aceno afirmativo de cabeça e um sorriso no rosto.

Shaka então seguiu até a cozinha, e quando finalmente se viu sozinho ali puxou uma cadeira, se sentou e respirou profundamente, não aliviado, ao contraio; Virgem estava apavorado!

— Que essa sensação estranha e angustiante que estou sentindo seja apenas preocupação corriqueira de pai babão... Proteja meu filhinho, Buda. — falava baixinho com seu melhor confidente.

***

Sul do Mar Egeu, 21:00 – Iate Vênus.

Próximo à costa de Oia, o vilarejo considerado o mais bonito e famoso da ilha de Santorini, estava ancorado o fabuloso Vênus, e sua localização proporcionava uma vista privilegiada à seus ocupantes das luzes noturnas que iluminavam as paredes muito brancas e cúpulas azuis das construções que tornavam aquele monte um lugar único no planeta.

Dentro dele, na enorme cozinha que servia ao restaurante privativo, vestindo confortáveis trajes civis, calça social preta, camisa azul marinho, cujas mangas trazia dobradas até o cotovelo, e um avental branco pendurado no pescoço e bem preso à cintura, Camus de Aquário cantarolava acompanhando alegremente uma canção francesa de seu interprete favorito, Charles Aznavour, que tocava no aparelho de som. Emmenez-Moi dava o tom ao Escargot à la Bourguignonne que o francês pessoalmente preparava para o jantar. Ele havia dispensado o chef e seus assistentes naquela noite porque queria paz e privacidade para curtir sua família.

Animado, enquanto sua amada flor e o filho jogavam mini golfe no convés, Camus acrescentava cada ingrediente à receita com capricho e dedicação devota.

— ♪... Ils arrivent, le ventre alourdi de fruits... Les bateaux... ♪ — cantava com sua bela voz rouca e em perfeito francês carregado, enquanto averiguava no livro de receitas os últimos ingredientes. — Manteiga bourguignonne, salsa, alho, sal, pimenta do reino em pó...Hmm... Non. Salsa non! — pensou por alguns segundos. — Três folhas de louro. Isso! Bem melhor, oui?

Como bom aquariano o ruivo ignorava algumas instruções e dava seu toque pessoal ao molho que preparava para os escargots já cozidos.

— ♪... Dans les bars, à la tombée du jour... Avec les marins... Quand on parle de filles et d'amour... Un verre à la main... ♪

Em sintonia com a letra da canção ergueu um cálice de vinho branco seco, bebeu um gole degustando sem pressa seu sabor e depois despejou o restante no molho.

— Um toque de vinho sempre ressalta o sabor... ♪ Un merveilleux été, sur la greve... Où je vois, tendant les bras... L'amour qui... ♪

No momento em que acrescentava o vinho à receita Camus ouviu distantes as risadas animadas de Afrodite e Hyoga. Inevitavelmente sorriu também, e seguiu assim até que os dois adentraram à cozinha.

Estava feliz e em paz, como a muito não se sentia.

— Já voltaram! O jantar está quase pronto. — disse o francês descansando o cálice vazio sobre o balcão na mesma hora em que olhou rapidamente para eles.

— Já, porque se estendêssemos o jogo por mais algumas tacadas a minha mesada toda ia ficar na Tiffany esse mês. — Hyoga suspirou aos risos enquanto se encostava no balcão e roubava uma azeitona do pote.

— Vocês jogaram por aposta? — Camus arregalou os olhos avelãs.

— Ora, mas é claro que sim! Qual a graça da jogatina se não for para sair dela vitorioso ou todo fodido? Com todo respeito, filho. — Afrodite respondeu dando uma piscadinha para Hyoga, e com seu sorriso mais encantador aproximou-se do aquariano, passou os braços por seu pescoço e lhe beijou rapidamente os lábios doces pelo vinho. — Hyoga me deve um anel de diamantes da coleção nova da Tiffany.

— É eu devo, e vou honrar minha palavra, maman, pode ter certeza. — disse o garoto russo jogando mais três azeitonas para dentro da boca.

— Ah! Por falar nisso, Camy, me dá o seu cartão que vou aproveitar e comprar também aquelas peças de diamantes amarelos que vimos no catalogo, lembra? Dadá, eu sonho com aquele colar todas as noites!

Camus acariciou o rosto do amado e em seguida se desvencilhou dele para voltar a mexer o molho.

— Que cartão, Afrodite? Esqueceu que minhas contas bancárias ainda estão bloqueadas por conta da maldita investigação policial? — respondeu calmamente ao depositar uma pequena porção do molho no dorso da mão para provar o sabor. — Hmmm!

— O que? Andreas não estava tratando desse Equê? — o sueco perguntou sinalizando para a grande colher na mão do francês. Também queria provar o molho.

Sem demora Camus a estendeu a ele.

— Cuidado, está quente, ma fleur! — serviu o molho diretamente aos lábios de Afrodite, que fez um biquinho e assoprou antes de provar. — Ele está, mas por Dieu, Peixinha, isso non é algo que se resolva do dia para noite. O juiz precisa expedir o mandato de desbloqueio e isso custa dinheiro e leva tempo.

— Hum... você gastou horrores para fazer aquele ocó se formar em Direito para ser seu advogado do diabo e nem para comprar um juiz em tempo ele presta.

— Non é culpa do Andreas, ma belle. — Camus parou de cuidar do fogão por um instante, se voltou para o sueco e apoiando a mão que tinha livre na cintura explicou: — Parece que o juiz que pegou o caso tem um senso de moral e ética bem fortes. Mas ninguém nessa vida é incorruptível ou imune à chantagem, non? As investigações non vão durar muito mais, Andreas me garantiu... Mas, até lá temos que nos virar com o que temos aqui, e sem levantar suspeitas... Oh, Dieu... Cofres cheios de dinheiro espalhados por toda a Rússia e non podemos comprar nem um pé de alface a mais do que permite os nossos soldos de cavaleiros, portanto, nada de colar.

— Ah, minha Nossa Senhora do Acué bloqueado... Para que serve ter tanto nos cofres se não posso nem comprar um mísero colar?

— Pourquoi, Aphrodite? Justamente porque non se trata de um mísero colar, mon amour, e sim de uma peça de diamantes amarelos de uma coleção exclusiva da Tiffany & Co. que custa dois milhões e meio de Euros. — Camus soltou um suspiro e se voltou para o filho, que observava a discussão calado. — Hyoga, explique mais uma vez para a desmiolada da sua maman porque ela non pode comprar esse bendito colar agora.

Hyoga roubou a última azeitona do pote e respondeu divertido.

— Maman, o nosso dinheiro nos cofres é dinheiro de sangue. Ele vem das atividades ilegais da Vory v Zakone, portanto está ligado ao tráfico, a assassinatos, extorsões, roubo, propinas... e mais um tanto de coisa que você sabe bem. É dinheiro sujo, ilegal, e que só podemos usar em negociações legais, como comprar joias em uma loja da Tiffany, por exemplo, após ser lavado em alguma de nossas empresas de fachada. — o pequeno explicava com primor, demonstrando todo seu conhecimento precoce sobre a mecânica do crime organizado. — Ninguém compra algo tão caro em dinheiro vivo maman, já que normalmente dinheiro legal está depositado em bancos e tais compras são pagas com cheque, cartão ou transferência bancária. Se comprar o seu colar e pagar em dinheiro vivo automaticamente chamará atenção e acionará a receita, levando a uma investigação, o que é tudo que o pére não quer que aconteça.

— Dadá me chicoteie com seu arreio de Swarovski! — exclamou Peixes boquiaberto. — Esse menino já é o poderoso chefinho?

— Parfait! — Camus sorriu, orgulhoso do filho, e após desligar o molho para começar a deposita-lo dentro das conchas quentes de escargot voltou-se novamente para Afrodite. — Ou seja, Peixinha, nada de colares de diamantes nos próximos dias.

— Hum... — Peixes olhou para os dois e cruzou os braços. — Pelo jeito você já está mais do que inteirado dos negócios sujos do seu pai, né Hyoga? Não sei se fico orgulhosa ou em pânico!

— Orgulhosa, maman! Mas é claro! — disse Hyoga. — Sabia que da última vez que vi o Josef ele me disse que estou quase pronto para receber a rosa dos ventos no pulso? — falou todo orgulhoso se referindo à tatuagem que Camus tinha no pulso e que simbolizava sua entrada na Vory ainda muito jovem. — Estou ansioso para entrar oficialmente para a família.

Afrodite arregalou os olhos aquamarines, desencostou do balcão e apontou o dedo para Hyoga.

— Camus você ouviu o que o malassombrado do seu capanga disse para o nosso filho? Ele quer tatuar o Hyoga com aquelas charufináceas horrorosas dos suínos!

— Oui, eu ouvi. — disse o aquariano terminando de rechear o último escargot. — Embora ainda non esteja na hora, será uma honra tatuar Hyoga e formalizar a entrada dele para a família.

— O que? — Peixes questionou incrédulo, porém não surpreso.

— Eu mesmo recebi as minhas primeiras tatuagens quase com a mesma idade que Hyoga tem agora. Acho que era apenas um pouco mais velho. — Camus dizia enquanto servia a mesa. — Agora sentem-se que o jantar está servido. Escargot à la Camus.

— Até que enfim! Esse cheiro bom já estava me matando de fome! — disse Hyoga já puxando uma cadeira para se sentar. — A cara está ótima, pére.

Ainda de pé afastado da mesa Afrodite os observava, em especial a Camus, a quem estudava com o olhar atento. O aquariano tinha a fisionomia alegre e despretensiosamente leve como dificilmente via, mesmo em quase oito anos de relacionamento.

Peixes percebia que para Camus, ter Hyoga perto de si, treina-lo, fazer dele o homem que esperava que ele fosse e vê-lo corresponder às suas expectativas com maestria estava lhe fazendo muito bem. Mas a que preço...

Embora em seus devaneios mais utópicos e tresloucados Afrodite imaginasse uma realidade completamente diferente para Hyoga, na qual ele pudesse crescer longe do ódio e violência da Vory v Zakone, ele sabia que este era um desejo vão, até ingênuo. Somado a isso ainda tinha a mentira, a qual era responsável direto até o último fio de cabelo, fosse dos seus naturais em tom azul piscina, ou dos fios loiros platinados das perucas de Maman Di.

O futuro de Hyoga já estava traçado, e não havia nada que pudesse fazer para muda-lo.

— Você non vem, ma fleur? — Camus perguntou olhando para Peixes. — Fiz Tarte Tatin para você. Sei que adora.

Com um suspiro longo e resignado Afrodite juntou-se a eles na mesa, e enquanto se sentava Camus lhe servia vinho em uma taça.

— Sei que non é o seu prato preferido, mon amour, mas prove. Eu garanto que essa receita você vai gostar. Mudei algumas coisas porque você sabe, essas receitas as vezes non prestam. — sentou-se tomando um gole de vinho antes de começar a comer.

— Eu não sei que graça vocês veem nesse caramujo. — disse Afrodite dando de ombros. — Tanto ajeum bom para comer... salsicha... linguiça... lasanha... mas caramujo?

— Escargot, maman. — corrigiu Hyoga. — É uma delicia. E o seu tempero ficou muito bom, pére.

— Obrigado, filho. — disse Camus. — Sua maman ainda non adquiriu o paladar refinado necessário para apreciar alguns pratos, só isso. Logo ela se acostuma.

— Ah, não sei não. Até hoje não me acostumei à água com gás, e sinceramente, não vejo o menor sentido na existência desse otim miado... Mas, o caramujo está muito bom sim, Camy. — disse Peixes que agora tinha um sorriso ameno no rosto após provar a iguaria. — Mas, vem cá, Hyoguinha, você disse que na última vez que viu o cabo de guarda-chuva ele te disse que está quase pronto para receber as tatuagens. Por que ele disse isso?

Hyoga, que chupava ávido uma concha da exótica receita, dispensando até os talheres usados para a tarefa, na mesma hora o engoliu em alarme e olhou diretamente para Camus, que lhe acenou a cabeça com um gesto afirmativo parecendo lhe dar permissão para falar. Logo em seguida deste o aquariano degustou um escargot tranquilamente.

— Porque eu o acompanhei em um serviço em Sergiyev Posad. Nós fomos emboscar os homens de Aslan Mikhailov que estavam escondidos lá, para força-los a nos dar a localização dele. — respondeu o loirinho com certa empolgação.

— O que? — Afrodite arregalou os olhos e espalmou ambas as mãos no peito por cima da pequena prótese de seios que usava. — Camus!

— Oui, ma belle? — disse o ruivo servindo-se calmamente de mais vinho.

— Você deixou o nosso loirudinho ir caçar charufe sozinho junto do cabo de guarda-chuva?

— Claro que non, mon amour. — respondeu calmamente o francês dando um gole no vinho, degustando-o devagar. — Eu estava junto.

— É, mas eu matei alguns deles sozinho. — vangloriou-se Hyoga — Estavam todos escondidos em um porão, maman. Como os ratos covardes que são.

— Minha... deusa! — o rosto de Afrodite ficou lívido.

— Ma fleur, sei o que está pensando, mas non se preocupe. Aquiete esse seu coraçãozinho de mãe superprotetora. Nunca vou deixar Hyoga correr qualquer perigo desnecessário, sabe bem disso. — disse Camus degustando outro escargot. — Eu o estou preparando para a vida, a máfia e o exército de Atena. Logo ele vai ser totalmente capaz de se defender sozinho, mas até lá eu non sairei do lado dele. Eu prometo isso para você.

Vendo que as palavras de Camus não foram capazes de acalmar o coração de Afrodite, pois que o semblante da “amazona” ainda era o mais fiel retrato da aflição, Hyoga desceu da cadeira em que estava sentado e foi até ele, então lhe passou os braços pelo pescoço e lhe deu um beijo no rosto.

— Maman, você é mulher. E embora seja uma amazona de Ouro ainda assim sua essência feminina te faz gentil, protetora e delicada... É normal ficar impressionada e preocupada, mas não fique. Eu te prometo que nunca vou me colocar em riscos desnecessários, que vou tomar cuidado, obedecer ao pére e aprender com ele... Eu me tornarei um cavaleiro de Atena tão forte que nada, nem ninguém, vai me machucar. Tudo isso por você, maman Di.

A Aflição de Afrodite transbordava pelos olhos, que ficaram marejados, então ele olhou para Camus como quem olha para um enigma indecifrável.

Aquário sorria.

— Exatamente! — disse o ruivo encarando profundamente os olhos do pisciano. — Vocês querem comer a sobremesa?

— Sim! — Hyoga virou-se para ele eufórico.

Enquanto comiam a sobremesa Afrodite não desgrudava os olhos de Hyoga. Sua mente tentava entender quando foi que seu loirudinho deixara de ser a criança doce e meiga que lhe cativara desde o primeiro momento para se tornar aquele assassino frio e calculista que se vangloriava de suas mortes.

Angustiado olhou para Camus e seu alarde foi ainda maior. Aquário parecia tão leve e feliz como nunca. Estava ali, alegre a conversar bobagens com o filho enquanto comia seus caramujos.

Agora Peixes conseguia entender porque no caminho até o Vênus, num rápido voo de helicóptero, Hyoga lhe contara sobre o incidente na Arena com Kiki de forma tão indiferente. Um jovem havia sido assassinado por motivos banais e isso parecia não ter abalado em nada o pequeno russo.

Pudera.

Hyoga já estava mais do que habituado à violência e à morte. Ele era o arauto destas.

Mastigou um pedaço de torta e o engoliu com certa dificuldade. Estava doce e áspera. Como era Hyoga agora.

***

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic

Notas finais
As crianças crescem rápido demais... em um dia estão brincando com o patinho Dudu no outro querem tatuar as estrelas da Vory nos ombros O.O