Templo das Bacantes Vol. 3
3 Show das Poderosas
Notas iniciais

Templo de Baco, 22:00pm
A casa estava lotada.
Aquela era uma noite para lá de especial. Era o aniversário do agora senador Praxédes, que conseguiu acender ao poder graças a muita propina e compra de votos — financiados com ajuda das máfias grega e russa — e como fazia todos os anos as comemorações, regadas sempre a muita ostentação e subversão, se davam no Templo das Bacantes.
Desde a descoberta de Mu, há pouco mais de cinco anos, acerca da fraude envolvendo o alvará que os subordinava aos caprichos de Praxédes, o senador, na época ainda prefeito de Atenas, perdeu toda e qualquer influência sobre o Santuário, e só não sofreu represália maior por parte de Gêmeos e de Camus porque para os negócios da máfia grega e o próprio Templo das Bacantes o desprezível político era mais útil vivo que morto. Graças a seu cargo no senado Praxédes facilitava diversas políticas sociais e econômicas que beneficiavam diretamente os interesses do Santuário e seus aliados, mas as regalias que tinha antes foram completamente extintas. Agora Afrodite e Geisty não mais tinham a obrigação de fazer programas com ele, no entanto o corrupto senador insistia em vê-los se apresentar em seu aniversário.
Peixes e Serpente faziam shows periódicos e em datas comemorativas no Templo das Bacantes. Essa foi a forma que escolheram de se divertir ao mesmo tempo em que angariavam fundos para o negócio, já que, como antigas joias da casa tinham dezenas de admiradores assíduos, que mesmo sem poder tocá-los se contentavam em assisti-los no palco.
Um deles era justamente o senador Praxédes, que pagava o dobro do cache cobrado por cada um apenas para ter o privilégio de assisti-los em seu aniversário.
E lá estavam eles, cavaleiro e amazona, se preparando para a apresentação no camarim que dividiam enquanto ouviam a música abafa que vinha do salão.
— O seu ajeum* me fez ter pesadelo. — disse Afrodite enquanto de frente para o espelho espremia uma espinha do queixo. Usava um roupão de seda branco e tinha os cabelos enrolados em enormes bobs — Eu tirei um cochilo depois do almoço e sonhei com você. Sonhei que uma mosca varejeira de franjinha, cheia de olhos, todos com meia visão porque a franja tapava metade, e uma bundona gorda, botava ovos no meu convite de casamento com o Batman.
No sofá, enquanto esfregava com fúria uma porção de hidratante luminoso nas coxas e panturrilhas, Geisty deu uma alta risada.
— Convite de casamento? Bicha, você acha mesmo que o Batman um dia vai casar com você? — disse ela agora esfregando as mãos uma à outra — Inclusive, eu já te falei que acho essa tua história com o Batman bem estranha, né? Estão juntos a tantos anos e até hoje ele não te assumiu. Fica aí, no anonimato... Para mim isso tem cheiro de rabo preso. Certeza que ele é casado com alguma mulher feia e endinheirada. Inclusive, tenho certeza de que é com o dinheiro do bucho que ele te banca.
Ao ouvir aquilo Afrodite virou-se de frente para ela e a encarou nos olhos violetas, então levantou uma sobrancelha e sua fisionomia ficou séria.
— Não tem nada de estranho no meu namoro com o Batman, odiosa. Já te disse que ele é um executivo influente e muito conhecido, e que não pode revelar sua identidade porque... porque... porque ele é religioso.
— Hã?
— Isso mesmo. Na religião dele não precisa casar para não viver em pecado porque é pecado casar apenas para não continuar pecando.
— Que?... Ma che cazzo de religião é essa?
— Ah, quer saber? Guarde sua opinião para você. Que ódio de você! — disse arrancando o roupão.
A italiana ficou com um olhar confuso encarando o sueco, e cruzando os braços deu algumas piscadas tentando desvendar o que ele dissera.
— Atena toda sapiente, ma che não entendi foi é nada do que você disse. — disse Geisty levantando-se do sofá enquanto gesticulava com as mãos no ar bem ao modo italiano — Ah, foda-se também. O que você fala nunca faz muito sentido mesmo.
— Não faz sentido para você, que tem um cérebro de mosca e só metade dele funcionando, já que a outra metade já foi consumida pela franja.
— Ah, olha só! Se ficou nervoso é porque é verdade!... Mas, Afrodite, pensa bem... Esse seu argumento não impede ninguém de casar. Religião que considera casamento pecado? Faça-me o favor... Sabe o que é isso?
— Hum.
— Para mim o Batman é pobre.
— Alôca! Cheirou loló? — Peixes a encarou com os olhos arregalados.
— Deixa de ser iludido. Quem tem grana é a mulher bucho dele. Ele é pobre. E digo mais, é ela quem banca ele e você por tabela.
— Pobre é seu espírito, Mosca! E bucho é o que deviam te servir para comer quando você era uma mosquinha de franjinha ainda. Por isso cresceu com essa cara de nena*. Pois, para o seu governo, brucutu de franja, o dia que eu me casar com o Batman vou fazer questão de esfregar minha certidão de casamento nessa sua cara franjuda... Não! Melhor! Vou mandar fazer uma impressão dela em folha de lixa para esfregar nesse teu coro grosso de surucucu de franja. Ah, e desaquenda desse assunto. — Afrodite batia palmas no ar dirigindo ao closet enquanto Geisty segurava a gargalhada — Eu fiz a reserva das meninas para os deputados suínos macedônios que virão amanhã. Agora com os italianos da Camorra acho melhor você falar. Hoje estou me sentindo muito carente, sabe? Capaz que se ligasse para eles eu os convidaria para um drink e um cinema, e quero essa máfia bem longe de mim. — dizia procurando por algo no interior dos tantos armários que haviam lá.
— Pode deixar, eu falo com os carcamanos. — Geisty respondeu aos risos enquanto despia-se do roupão para se trocar.
— Você viu minha sunga? — perguntou o sueco enquanto procurava pela peça sobre um amontoado de tralhas.
— Eu não. Estou sem lupa. E é necessário uma para enxerga-la, né?
— Olha aí se a tua franja não sugou ela.
— A minha franja? Deve estar no teu rabo. Ele que costuma ser guloso.
— No meu rabo não está. Já procurei. Mas não sei se olhei direito. Quer procurar para mim? — deus as costas à amazona completamente nu.
— Ah, vai te catar, Afrodite. Vai mostrar o rabo pro Batman. — disse Geisty aos risos — Aqui a sua sunga. — apanhou a peça do chão e jogou para ele que a pegou no ar — Ei! Já decorou a letra da música que o peruquento escolheu esse ano? Você estava se enrolando todo no refrão.
— Já. — revirou os olhos enquanto vestia a peça minúscula de couro branco — Aquela alma sebosa faz de propósito. Sempre escolhe uma música com eu lírico feminino, só para provocar.
— E você sempre mostra para ele que isso em nada te abala. — ela aproximou-se do amigo e tocou em seu ombro — Hoje vamos mostrar para aqueles porcos que joias raras nunca perdem seu valor, mas ficam ainda mais valiosas com o tempo.
Nesse momento duas batidas na porta foram ouvidas.
— Entre. — cavaleiro e amazona responderam em uníssono.
Um garoto, de não mais que vinte e poucos anos, belos olhos caramelo, rosto gentil, cabelos ondulados e brilhantes e uma pele morena aveludada esgueirou-se pela passagem estreita que se abriu trazendo nas mãos um imenso buque de rosas colombianas vermelhas.
— Chegaram para você, Afrodite. — disse estendendo as flores ao pisciano, que as apanhou com um sorriso enorme no belo rosto.
— Ah, obrigado, Ronie. — Peixes respondeu fazendo um gesto para que ele saísse e fechasse a porta.
Afrodite já sabia de quem era aquele mimo, mas mesmo assim pegou o cartão e o cheirou, fechando os olhos para sentir melhor o perfume de Camus.
— Mesmo belíssimas elas jamais serão tão perfeitas e perfumadas quanto você. Minha bela Rosa. Boa apresentação. Te amo! — leu em voz alta e soltou um suspiro ao final, depois apanhou uma do buque e a ofereceu à Geisty — Para você. Sei que prefere orquídeas, o que eu acho um insulto pessoal à minha pessoa, mas mesmo assim te ofereço uma.
— Obrigada. — ela apanhou a flor sorrindo e a cheirou fundo — O Batman não falha nunca, né? Toda apresentação sua ele manda flores, mas é para compensar a ausência dele, viu? Ele deveria vir te assistir. Deve ser a mulher bucho dele que o segura em casa e fica atrasando a história de amor de vocês dois.
— Cruzes! De novo esse vodu? — disse o pisciano deixando o buque sobre um vaso com água previamente preparado, e que sempre ficava sobre a penteadeira à espera das flores — Quer parar de botar ovos no meu relacionamento, ô jacaroa do pântano.
Geisty ria enquanto deitada no sofá com as pernas para o alto tentava vestir as meias de seda.
— Acho bom você andar logo com isso que você é lerdo, Afrodite. Nem tirou os bobs da cabeça ainda. — alertou se levantando para vestir o short jeans curtíssimo que compunha seu figurino e um top minúsculo bordado com pedrarias — Eu já estou maquiada e você ainda está de cara lavada. Não vai passar nenhum reboco não é? Vai matar todo mundo de susto?
— Nem que eu fosse o boneco assassino matava alguém de susto com a minha cara... Se você se olha no espelho toda manhã e não morreu de susto até hoje não morre mais. — brincava com ela enquanto vestia uma calça chaparreira de couro, usada para montarias, com longas franjas e toda bordada com pedrarias em tons de branco e rosa claro. Vestiu também um cinto com uma fivela imensa no formato de uma cabeça de touro e permaneceu sem camisa.
Geisty vestia uma chaparreira quase igual também bordada em tons de lilás e roxo por cima do minúsculo short jeans e botas de cowboy.
Já pronta ela foi até o espelho ajudar o sueco que delineava os olhos com Kajal negro.
— Tá ouvindo? — ela disse enquanto desenrolava alguns dos bobs dos cabelos de Peixes — A apresentação da Shina acabou. Temos cinco minutos. Cadê os chapéus?
— Estão no closet. — ele respondeu, e enquanto a amazona ia pegar os chapéus Afrodite terminou o que fazia e foi atrás dela parando na entrada — Você viu quem está aqui hoje?
— Vi. — disse ela em uma tentativa vã de passar indiferença ao que esticou o braço para colocar o chapéu de cowboy na cabeça do amigo — O nosso digníssimo Patriarca em pessoa... Bom. Ele é um dos convidados ilustres do senador, não?
— Mas é o primeiro ano que ele vem e fica para assistir à sua apresentação especial para o peruquento. Acha que alguma coisa mudou?
— Não. Nada mudou. — disse Geisty, e sua fisionomia tornara-se taciturna de repente — Se ele decidiu ficar esse ano, certamente não foi para me prestigiar ou ficar de olho em qualquer possível abuso do porco do Praxédes. Ele pouco se importa com isso. Mesmo porque a melhor forma de ele me prestigiar seria com sua ausência. — ajeitou o chapéu na própria cabeça com um gesto bruto — Quem se importava comigo era o Saga... mas Saga... Começo a me perguntar se ele ainda está lá, em algum lugar.
Percebendo o abatimento da amazona Afrodite tratou logo de mandar aquele assunto para longe deles.
— Ei! Dá linha nesse vodu, Mosca! — estalou os dedos depois pegou nas mãos da amiga e olhou em seus olhos — Claro que ele está lá. E logo logo ele vai estar aqui também. — piscou os longos cílios claríssimos e sorriu — Mais uma apresentação junto com você. Quem diria! Dividindo um palco de zona com a mesma rachuda que um dia jurou minha cabeça e ergueu um levante contra mim aqui mesmo, debaixo desse teto. Eu te odeio, Mosca. — a abraçou com força e afeto.
Geisty riu retribuindo ao gesto e lhe dando um beijo estalado no queixo.
— Eu também te odeio, bicha linda. Vamos enfrentar os porcos?
— Só se for agora!
De mãos dadas deixaram o camarim e seguiram pelo corredor estreito para atrás das cortinas do palco.
Geisty estava com o coração a mil como de costume, e ao subir a cortina e ver a casa lotada este palpitou ainda mais forte, então ela respirou fundo e olhou sorrindo para Afrodite.
De forma ensaiada andaram até o centro do palco já executando os passos da coreografia no mesmo momento em que começavam os primeiros acordes da canção escolhida pelo aniversariante.
A plateia era composta por basicamente ex-clientes de ambos mais o senador e uma dezena de parlamentares que ele trouxera consigo.
A música escolhida pelo político foi Man I Feel Like a Woman, da cantora Shania Twain, e mesmo a contragosto Afrodite não se negou a cantá-la. Sabia que era importante para o negócio deles agradar o político bonachão.
O palco estava decorado com motivos country, e no centro havia um touro mecânico estilizado, todo revestido de couro rosa e com enormes chifres cobertos por strass.
Afrodite pegou na mão de Geisty e olhou para a plateia, procurando por uma pessoa em particular, e eis que assim que a viu abriu um largo sorriso luminoso.
— Let's go, girls! Come on! — Peixes deu início à música girando com Geisty no palco, depois apontou o dedo para o senador, que aplaudia e assoviava efusivo enquanto arrumava a camisa que teimava em sair de dentro da calça devido à barriga imensa.
— I'm going out tonight, I'm feelin' alright
Gonna let it all hang out
Want to make some noise, really raise my voice
Yeah, I want to scream and shout
Enquanto Afrodite cantava e dançava Geisty seduzia o público com rebolados ousados e sorrisos efusivos, sem se intimidar com um par de olhos felinos que naquela noite a observava de perto, da primeira fila, onde ficava a mesa do senador.
— The best thing about being a woman
Is the prerogative to have a little fun and
De frente um para o outro, cavaleiro e amazona num gesto rápido se despiram ao mesmo tempo da calça de montaria que usavam, que era presa apenas por fitas de velcro, para delírio dos presentes, já que a maioria ali apreciava tanto o corpo feminino de Serpente quanto o masculino de Peixes.
— Oh, oh, oh, go totally crazy, forget I'm a lady, Men's shirts, short skirts. Oh, oh, oh...
Enquanto cantava o refrão, com um único puxão ensaiado o sueco tirou o top de Geisty o atirando diretamente para Praxédes, que o pegou num súbito e mecânico ato de reflexo, já que seus olhos famélicos não conseguiam olhar para outra coisa senão os seios fartos da amazona que tinham apenas os mamilos tapados por adesivos bordados com cristais swarovski.
Um silvo de assovios e gritos exaltados subiu quase sobressaindo-se à música, enquanto na plateia o Grande Mestre permanecia com a fisionomia congelada.
De pé, o senador gorducho e seu séquito de corruptos se aproximaram do palco para ver mais de perto a amazona, que agora cavalgava no touro mecânico insinuando movimentos sexuais, enquanto outros de seus parlamentares deliravam com as coxas roliças de Afrodite e sua beleza hipnotizante.
No fundo do salão, quase completamente oculto pelas sombras, outro par de olhos assistiam à apresentação quase sem piscar.
Camus havia passado o dia todo dando instruções a Andreas, seu braço direito na Vory v Zakone, que havia chegado de Moscou naquela tarde para junto do aquariano definirem uma nova rota comercial destinada ao contrabando de armas russas para a Europa e América. Próximo ao horário da apresentação de Afrodite, Andreas foi para um hotel e Camus retornou ao Santuário, indo direto para o Templo das Bacantes com a desculpa de fechar um negócio com um deputado grego que estaria na comitiva de Praxédes, o que de fato era verdade, apenas sua prioridade não era essa e sim assistir à apresentação do namorado.
Aquário não gostava muito da ideia de Peixes fazer aquelas apresentações na casa noturna. Sentia-se um pouco enciumado e incomodado, mas não havia nada que pudesse fazer. Afrodite e Geisty faziam pelo menos uma apresentação mensal e essas sempre resultavam em um faturamento além da média da casa, o que para os negócios da máfia grega, e também da Vory, era perfeito. Sendo assim, procurava manter uma visão racional e prática acerca dos shows, o que por vezes era bem difícil, já que tinha que lidar com o fato de ver todos aqueles homens cobiçando, se esfregando e passando a mão em seu namorado.
Era justamente essa postura que lutava para manter enquanto acendia o terceiro cigarro e virava goela abaixo uma nova dose de vodca. Seus olhos avelãs faiscantes mantinham-se fixos ao palco, em Afrodite, que discretamente e constantemente lhe lançava um olhar profundo, apaixonado, e sempre provocador. “Precisa rebolar tanto? Hum... Por que non disse que ia ficar quase nu nesse palco? Isso non está certo. Non mesmo... Ah, eu acho bom você non tirar essa sunga ou eu subo agora aí e te arrebento, seu... gostoso, seu... nossa, como é bonito. Como é sexy. E é todo meu!”, pensava enquanto jogava a fumaça do cigarro para o alto e acompanhava com os olhos o pisciano no tablado.
Igual a Aquário, que não era o único ali a ter os olhos colados em uma das duas figuras de destaque daquele show, Gêmeos também mantinha os seus na Amazona de Serpente, mas, diferente do mago do gelo este parecia analisa-la, estuda-la.
Por vários anos, Gêmeos era convidado pelos patrocinadores a participar das festas que eram realizadas no Templo de Baco, sendo alguns ignorados solenemente enquanto outros recebiam o ar da graça de sua presença. No entanto, o chefe da emergente máfia grega nunca havia ficado mais que o necessário apenas para firmar os negócios, sempre retirando-se do local antes do ápice da noite, que era a apresentação do show principal. Mas, naquela noite foi diferente.
O Patriarca não sabia ao certo o que o fizera ficar ali para assistir à apresentação, ou se negava a saber ou mesmo aceitar, já que a verdade era que estava bem curioso para descobrir o quê de tão extraordinário havia nas apresentações daquela amazona e que todos tanto apreciavam, menos ele mesmo. Mais difícil ainda aceitar que sua decisão em ficar dessa vez era motivada por algo que estava próximo do ciúme e da raiva.
Negando esses sentimentos Gêmeos pediu um whisky decidido a convencer a si mesmo de que estava ali apenas para provar a seu ego, e à amazona, que não sentia nada. Poderia estar onde bem entendesse sem sentir nada. Achava que com isso a deixaria desconfortável.
E se a tentativa do Grande Mestre era causar incômodo à amazona, este havia tido sucesso em sua empreitada.
Geisty sentia o sangue ferver nas veias.
Ela tinha certeza de que o Patriarca estava ali para afronta-la, mas não iria, em hipótese alguma, se deixar abater.
Muito menos deixar barato. Iria reverter esse jogo de gato e rato.
Se estava ali para uma apresentação carregada de sensualidade então a executaria ainda duas vezes mais provocante, pois se Gêmeos ficou com a intenção de incomodá-la então era ele quem iria ficar incomodado. Demonstraria todo o seu poder de sedução nato, seduziria a todos ali, todos que tinham olhos voltados só para ela, e deixaria ainda mais claro que, assim como ninguém ali podia tê-la de fato, ele, o Patriarca, também não a teria jamais.
Depois de ter executado uma performance no touro mecânico que deixou a todos com o coração palpitante e as calças volumosas, ao descer deste caminhou até à beirada do palco e remexendo-se de forma sensual ficou de joelhos e pernas abertas bem em frente ao senador, que tinha os olhos vidrados fixos a seus seios fartos em forma de concha, então Serpente lhe deu uma piscadinha e lhe soprou um beijo.
Aquilo era o máximo que Praxédes conseguiria dela naquela noite, mas o suficiente para o bonachão já considerar bem gastos todos os impostos dos contribuintes atenienses.
— Isso, safada. Chacoalha essas tetas, vai... ô delícia! Que saudade! — grunhia o senador entre arquejos selvagens enquanto cheirava e mordia o top da amazona que lhe fora jogado momentos antes e que manteve o tempo todo nas mãos.
Os convidados de Praxédes não eram menos deselegantes que ele. De pé eles cercavam Geisty na beirada do palco, assoviavam e lhe faziam gestos obscenos, enquanto outros frequentadores da casa, menos preocupados em manter as aparências e esconder sua sexualidade, assediavam Afrodite tentando tocá-lo quando este também vinha até a borda do tablado, fosse fazendo gestos obscenos com as línguas ou tocando a si mesmos em uma clara provocação sexual.
Próximo ao término da canção e apresentação, Peixes e Serpente deram as costas à plateia e voltaram para o centro do palco, então o pisciano pegou a amazona no colo, girou algumas vezes com ela executando um passo de dança que exigia a habilidade e força de um bailarino profissional, e quando a colocou no chão de volta, de frente para todos os presentes e de costas para si, passou seus próprios braços por debaixo dos dela e meteu uma mão em cada seio a puxando para trás.
— Man... I feel like a woman!
Com o último refrão cantado eles atiraram os chapéus para a plateia e imediatamente em seguida as luzes do palco se apagaram e as cortinas desceram.
Foram ovacionados logo em seguida, por alguns que adoraram a apresentação e por muitos que ficaram frustrados por não verem os seios da antiga joia da casa totalmente despidos.
Quando os dois voltaram para o camarim às gargalhadas lembrando-se das caras asquerosas dos políticos e outros tantos homens no salão, fecharam a porta e lá ficaram um bom tempo. Geisty apressou-se logo em livrar-se da roupa incômoda e vestir um robe de seda para ir até o bar que ficava ali mesmo e preparar um Martini para ambos.
— Toma. — disse servindo o amigo — Ao nosso talento e à saúde dos nossos clientes. Que essa nunca lhes falte. Nunca vi essa casa tão cheia quanto hoje. Acho que estamos ficando famosos, bicha.
Afrodite apanhou a taça aos risos.
— À saúde dos suínos. Que continuem torrando todo o dinheiro dos cofres públicos aqui, na nossa zona. Alôca!
Deram um toquinho na taça um do outro e tomaram a bebida em uma golada só.
— Que assim seja! — disse Geisty rindo. Era tão errado aquilo, mas era a realidade deles.
— Ah! Achei o Coiso bem estranho. Não acha suspeito ele estar na mesma mesa do senador? Mais suspeito ainda ele assistir à nossa apresentação, sendo que se ele pudesse mandava nós dois direto para o colo da corna mansa do Hades.
— Estranho aquele lá é desde nascença! E quem sabe o que se passa naquela cabeça insana dele? Hump. Estupor! — Serpente deu de ombros sentando-se ao lado do sueco no sofá e dando um gole generoso em seu Martini — Só espero que ele não faça nenhuma merda contra o porco do Praxédes, que bem que merecia, né, por ser um canalha ordinário, mas ainda sim é um canalha rico, e que enfia muito dinheiro no nosso bolso.
Afrodite suspirou e por um momento ficou calado, pensativo, enquanto deitava a cabeça no ombro de Geisty.
— Sabe, não entendo os héteros! — disse após a breve reflexão, pegando a amazona de surpresa.
— Hum? O que tem os héteros?
— O que mais tem à mostra no mundo são tetas. — continuou o pisciano — Tetas nas revistas, tetas nas ruas, tetas nas praias, tetas na televisão, no cinema, tetas... O mundo é um grande campo cheio de tetas. Por que um ocó* paga uma fortuna para ver um par de tetas, sendo que tem tetas em todo lugar? Ainda mais para ver as suas tetas.
— E posso saber o que têm minhas tetas, Afrodite?
— São tetas de franja! — disse caindo na risada.
Geisty gargalhava da reflexão do amigo, então deixou a taça no chão e segurando firme em ambos os seios os balançando brincando com ele:
— Por isso mesmo, meu querido, eu não tenho qualquer teta. Eu tenho AS TETAS! As tetas mais caras da Grécia! — ria divertida — E você acha estranho o mundo hétero porque o teu negócio é rola.
— O meu e o seu, né meu bem. Quer dizer, você não apaga uma vela* a tanto tempo que nem deve gostar mais de rola, caso contrário já teria ido atrás de outra.
— É porque não é de qualquer rola que eu gosto, né bicha. É só a do Saga. — suspirou saudosa — Que infelizmente agora é também a rola daquele encosto, e dele eu quero distância.
— Você tem toda razão. Ninguém merece uma rola que além de torta tá possuída. — disse Peixes, e percebendo que falara o que não devia, já que o assunto despertava gatilhos ainda indigestos para a amiga, arregalou os olhos e a encarou assustado recebendo em troca um olhar repreendedor dela — Bem... não que eu me lembre assim, sabe... com tantos detalhes da... da piroca do Saga, você sabe, né? Já faz tanto tempo isso... Me empresta um robe seu? Vou me encontrar com o Batman em Atenas e ainda preciso passar em casa para me vestir, mas, Mosca, me promete uma coisa? Se precisar de mim, se o Coiso te importunar de novo, promete que me chama? Ou que chama o Mu? Não banque a durona. Você me promete?
Se esquecendo por completo do deslize do amigo, Geisty sorriu cansada para disfarçar a melancolia de sua situação.
— Prometo. — disse esticando o dedo mindinho no ar para este ser capturado pelo do pisciano — Não se preocupe, eu chamo sim. Apesar de que acho que não vai ser preciso. Ele é bem capaz de ficar a noite inteira nessa festa, e eu já estou indo para o meu cantinho isolado lá no Terceiro Templo. Não se preocupe comigo. Aproveite a sua noite com o seu Homem Morcego. Trepa bastante e goze por nós dois. — disse dando uma risada e terminando o Martini de sua taça. — Hum... E tem ali no cabideiro dois robes, escolhe o que você prefere. O lilás ou o vermelho, mas devolve, heim! Senão na próxima apresentação vamos sair pelados por aí, porque você leva os meus robes e nunca mais os traz de volta.
— Pode deixar. — disse o sueco já se vestindo com o robe vermelho — Até amanhã, Mosca. — despediu-se com um beijo na bochecha da amiga pare logo em seguida deixar o camarim às pressas.
***
Casa de Peixes, 01:05am
Assim que chegou em casa Afrodite sentiu a sutil presença de Camus em seu quarto e foi direto para lá.
O aquariano havia deixado o Templo das Bacantes pouco antes do término da apresentação e subido para Peixes para espera-lo. Como fazia desde o começo de seu relacionamento com o pisciano, deixava seu Cosmo ativo em Aquário assim todos acreditariam que estava lá.
Assim que adentrou as dependências viu o francês junto à janela com um copo de vodca nas mãos, então caminhou lentamente até ele desfazendo-se do robe e também da sunga que usara na apresentação no percurso, se pondo totalmente nu. Já junto dele o abraçou pelas costas correndo as mãos pelo tecido nobre do terno Armani perfeitamente cortado até pousa-las no peito largo do francês e puxá-lo sutilmente para trás, para que seus corpos se colassem um ao outro.
Camus deixou escapar um sutil gemido quando em seguida sentiu Afrodite esfregar o nariz entre as madeixas ruivas de seu cabelo e lhe beijar o pescoço. Os lábios dele eram deliciosamente quentes e ousados, e após um longo suspiro de puro deleite abandonou o copo sobre o beiral da janela para virar-se de frente para o pisciano e tomar-lhe a boca num beijo urgente e apaixonado.
A medida em que as bocas ávidas se provavam, as mãos se acariciavam e os corpos se acendiam mutuamente. Camus fazia com que Afrodite caminhasse de costas até suas pernas tocarem a cama, então lentamente o fez se deitar já o cobrindo com seu corpo ardente de desejo.
— Se pudesse congelava todos aqueles porcos nojentos. — sussurrou o francês enquanto mordia o pescoço do sueco.
— Se eu pudesse mandava uma Encomenda de Rosas para cada membro da Vory v Zakone. — Peixes sussurrou entre beijos e mordidas enquanto desafivelava apressado o cinto do aquariano — Hyoga já está dormindo?
— Oui. Amanhã cedo vou leva-lo para treinar na Arena. — ergueu o tronco para com pressa se desfazer do blazer e da camisa, ao passo que o pisciano já lhe abaixava as calças e tomava seu membro rijo nas mãos.
— Não me disse se gostou da minha apresentação. — disse Afrodite mordendo os lábios enquanto encarava os olhos avelãs plenos de volúpia.
— Sabe bem o que penso dessas apresentações. Uma cafonice. — Camus sorriu, e num gesto brusco, bruto e inesperado agarrou a cintura de Peixes e o virou de bruços já se colocando sobre ele — Mas uma cafonice que me deixa sempre muito instigado. — confessou mordendo os ombros do namorado enquanto apressado já se encaixava entre suas pernas para penetrá-lo, o lubrificando apenas com a saliva que coletou com uma das mãos.
Afrodite soltou uma sonora gargalhada.
— Eu sei que você gosta!... Gosta igual eu gosto desse seu jeito de bicho Aaaaahhh... — gemeu ao sentir-se invadido quase que de uma só vez — Hum... seu mafioso violento... Vai, me rasga todo. Acaba comigo seu malvado. Viado facínora... Perverso! Isso... Aaaah...
Era sempre assim.
Ao final das apresentações de Peixes encontravam-se e se amavam com furor.
Aquário movido por um ciúme louco que tentava conter e às vezes até negar, mas a verdade era que gostava de ver o namorado brilhar no palco. Afrodite era um show à parte, uma pena ter que dividi-lo com outros expectadores.
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