Templo das Bacantes Vol. 3
14 Samsara é o caralho!
Notas iniciais

Letônia, 04:30pm
No interior do país situado na margem oriental do mar Báltico, sobre o nível da parte noroeste da plataforma do Leste Europeu, entre a Estónia e a Lituânia, em uma vila rural às margens das densas florestas letãs, Mu se abrigava dentro de um casebre rústico feito com robustos troncos inteiriços de madeira. Sentado no chão, sobre um grosso tapete de pele animal posicionado estrategicamente próximo à lareira acesa, o cavaleiro de Áries espantava o terrível frio do gélido inverno daquela região com pequenos goles dados no caldo roxo que lhe fora servido em uma cuia de madeira, a qual agora segurava firmemente com as duas mãos. Diante dele, também sentada sobre o grosso tapete, pernas cruzadas em posição de meditação, uma velha senhora de longos cabelos brancos já sem brilho, face cansada decorada por alguns vincos profundos, e grandes olhos cor de abóbora repetia os mesmos gestos, bebendo gole por gole da sopa rala feita por ela mesma, com as beterrabas cultivadas em seu quintal.
Nenhum dos dois falava. Os únicos sons que se ouvia ali vinham do estalar da madeira em brasa na lareira, do uivo dos ventos gelados do lado de fora e da respiração fatigante e ruidosa da anciã, a qual, vez ou outra, era interrompida por uma crise de tosse, um dos muitos males que já sofria seu corpo velho e doente.
Hipnotizado pela figura quase mística à sua frente, Mu bebia cada gole da sopa sem nem ao menos piscar. Seus olhos verdes enormes delineavam o rosto dela, sempre demorando-se um pouco mais nas duas pintinhas em sua testa, as quais ficavam quase ocultas pelas inúmeras rugas e alguns fios do cabelo ressecado que caiam quase próximo aos olhos.
A que idade um lemuriano precisaria chegar para adquirir tantas rugas? Ele se perguntava. Nem mesmo seu Mestre Shion parecia tão velho. Trezentos? Quatrocentos anos? Em profunda conexão mental com ela, Mu seguia devaneando, mas sempre concentrado na forte sintonia gerada pelo elo racial que partilhavam.
Uma lemuriana pura.
Uma Muviana.
Sangue do seu sangue.
Finalmente suas buscas deram frutos!
Mesmo fisicamente esgotado, pois que para poder sair novamente em missão ele tivera que trabalhar madrugadas inteiras na forja, além de ajudar Shaka a cuidar de Kiki doente em casa, a excitação e empolgação daquele encontro lhe fazia desejar pular de alegria, e tal euforia não passou despercebia aos olhos nublados e já quase cegos da velha lemuriana, que enxergavam a aura agitada e confusa do cavaleiro, por mais que este mantivesse um comportamento aparentemente sereno.
“Você tardou a chegar.” — A voz rouca pela idade soou diretamente à mente de Mu, com uma pronúncia perfeita do intrincado idioma lemuriano, e o teor das palavras fizeram Mu arregalar os olhos e arquear as pintinhas em sua testa.
“A senhora... sabia que eu viria?” — ele perguntou, surpreso e curioso, também usando telepatia e o lemuriano arcaico para se comunicar com ela, porém sua pronúncia era bem menos nítida e totalmente enferrujada.
“O dom da premonição é forte em mim, jovenzinho.” — A lemuriana explicou-se rapidamente, com um riso fraco acompanhado de uma nova sessão de tosse. — “Há muitos meses venho sonhando com este encontro... A chama da minha vida está se esvaindo, minha centelha logo se extinguirá nesse mundo, mas eu sentia que, antes de ela se apagar, eu receberia uma visita ilustre.”
Mu tentou disfarçar o choque e a surpresa, tanto por saber que ela estava morrendo, quanto por ela saber de sua visita, mas não obteve muito sucesso. Ele mesmo sentia o quanto deveria estar visivelmente alarmado.
“Peço perdão pelo meu atraso. Quisera eu ter vindo muito antes.” — ele disse.
“Nada acontece antes ou depois do tempo exato para que se aconteça.” — ela falou calmamente.
“Sinto-me honrado por tê-la finalmente encontrado, e por poder estar aqui, em sua presença.” — ele respondeu respeitosamente, depois, sem conseguir conter a euforia, bebeu a última golada do caldo e colocou a cuia ao seu lado, para então apressado aproximar-se mais dela, arrastando-se por sobre o tapete até tocar suas mãos calejadas que tremulamente seguravam a cuia com a sopa rala. — “Então, creio que saiba por que estou aqui! Pode me ajudar?” — indagou com o brilho da esperança a lhe iluminar os olhos e a aura.
“Na verdade, não... Eu não sei porque vieste.” — a lemuriana respondeu com um sorriso triste, para infortúnio de Mu, que piscou os olhos alarmado. — “Sei apenas que o ferreiro celestial desta Era visitaria meu lar em busca de algo importante”.
Aquela resposta foi para Mu como um banho de água fria, porém, mesmo “encharcado” pela realidade desanimadora, ele mantinha acesas suas esperanças. Se aquela lemuriana havia sonhado consigo, talvez alguma informação que lhe fosse útil ela haveria de ter. Por isso, com cuidado retirou a cuia de sopa das mãos dela para poder segura-las firme com as suas, e deixou que todas suas emoções lhe fossem tão nítidas quanto suas palavras.
“Eu venho em busca dos segredos de Lemúria, do conhecimento milenar do nosso povo. Preciso urgentemente de ajuda para salvar a vida da minha cria”. — os olhos da anciã se arregalaram diante da menção de um filhote, algo tão raro quanto precioso naqueles tempos. Notando seu espanto Mu então prosseguiu com ainda mais afinco, com o rosto consternado de dor: — “A vida dele está por um fio, e algo me leva a crer que o mal que o aflige, ainda desconhecido, a medicina dos homens não é capaz de combater, porém eu não possuo conhecimento o suficiente dos males que acometem nossa raça, tampouco da nossa própria medicina.” — clamou sem esconder sua angústia, embora envergonhado por seu pouco saber, então abaixou o rosto a ponto de sua testa encostar nas mãos da lemuriana, como se fizesse uma súplica. — “Por favor, minha cara anciã, ajude este jovem pai desesperado a salvar o seu único filhotinho. Eu imploro.”
A velha lemuriana aprumou a postura na mesma hora, então delicadamente soltou uma das mãos para poder segurar no queixo dele e fazê-lo levantar o rosto. Queria olhar diretamente nos olhos daquele pai sofredor. Que grande ironia do destino, ela pensava, ele era tão jovem... Quantos anos teria? 30? 40? 50 no máximo? Mal havia chegado a idade adulta e já conseguira a maior e mais rara de todas as bênçãos e alegrias, o milagre do qual todo muviano passava a vida em busca: um herdeiro, um filhote, uma cria, sangue de seu sangue, para manter viva sua espécie. Mas agora ele o estava perdendo.
Intimamente tocada ela usou sua telecinese para puxar Mu para mais junto de si, e o aconchegou em um abraço consolador.
— Pelos deuses antigos! Que terrível pesar e maldição caiu sobre ti, criança. — sua voz rouca chegou fraca aos ouvidos de Mu, que retribuiu o abraço sentindo-se amparado como em nenhum momento antes, pois que aquela lemuriana era a única pessoa em todo o mundo que entendia a magnitude de seu desespero pela perda do filhote. Desde que ele chegara ali, também era a primeira vez que ela verbalizava as palavras, deixando expressa em cada sílaba proferida a sua dor. — Estou velha e fraca... Minha memória se esvaiu com a passagem dos séculos, porém... se as estrelas me profetizaram a tua vinda, antes de findada a minha centelha, e guardaram meu espírito neste corpo decrépito até tal momento, figura que tenho alguma utilidade para ti... Conta-me tudo, jovem ferreiro, conta-me tua história. Se puder ajudar-te, então essa é a minha última missão antes de que possa descansar.
Obedecendo ao pedido da anciã, Mu se soltou do abraço e procurando se recompor contou sua história, poupando detalhes que pudessem causar estranheza a ela, como o fato de ser casado com um humano macho. Ateve-se apenas a lhe relatar com minúcias o nascimento agitado de Kiki, o fato dele ser adotado, seu desenvolvimento aparentemente normal, a idade que tinha agora, e, por fim, os sintomas da doença misteriosa.
Pacientemente a lemuriana escutava tudo com atenção, devaneando vez ou outra quando ele lhe falava da infância e das travessuras do filho, o que a fez se lembrar da própria família e vida plena que tivera. A idade felizmente não havia levado embora as lembranças de seu parceiro amado e da filha que tiveram juntos. Quanto amor tinha em seu coração por eles... Ambos já haviam falecido, mas a filha lhe dera uma neta. Esta estava viva, porém distante, em alguma parte desse mundo tão vasto, da qual ela jamais viria a saber. Ela foi embora quando finalmente encontrou um parceiro e o chamado da Natureza se fez urgente em ambos. Com sua benção ela juntara-se a ele e a família em busca do desejo maior: um fruto. Infelizmente não pôde acompanha-los. Seu corpo já não suportava nem mais uma década, e certamente morreria sem saber se a neta e o parceiro haviam conseguido lhe gerar um bisneto, mas torcia para que sim.
Quando Mu finalmente terminou seu longo relato, a fisionomia da anciã estava circunspecta, grave e preocupada. Sua aura, antes acolhedora e terna, estava pesada, assim como seu coração.
Quanto pesar sentia por aquele jovem ferreiro.
“É tão ruim assim?” — Mu voltou a usar a telepatia, pois que lhe faltou coragem para verbalizar a pergunta.
“Eu...” — ela soltou um longo suspiro, tossindo algumas vezes, e pelejando para recuperar o fôlego e a memória pensava no que responder àquele pai — “Eu gostaria muito de portar uma resposta precisa... Mas, pelo que contaste, isso se parece muito com o terrível mal do filhote novo.”
“Mal do filhote novo?” — Mu se atentou. Nunca tinha ouvido falar daquilo.
A lemuriana acenou fracamente, puxando pela memória longínqua o que ainda tinha de nítido em seu acervo mental sobre aquele mal.
“Infelizmente, minha criança, esta velha já não se lembra mais das coisas, porém, eu me lembro muito bem de que o maior medo de uma fêmea lemuriana ao pegar barriga era o filhote nascer demasiadamente novo, nascer antes.”
“A senhora diz, prematuro?”
Ela encarou os olhos verdes do cavaleiro, mas parecia não olhar para eles, mas através, em um ponto distante.
“O filhote quando nasce antes do tempo, quando nasce novo, fica doente, fraquinho, e quando os poderes dele desabrocham, se esses forem demasiadamente fortes e precocemente exigidos, levam a vida dele junto.”
Mu levou a mão à boca, num gesto instintivo de choque e pavor. Imediatamente se questionou se havia começado treinar Kiki muito cedo, se era sua culpa ele ter adoecido, porém ele mesmo fora treinado ainda mais jovem por Shion. Aos três anos de idade sua telecinese e telepatia já haviam se manifestado plenamente, e o Grande Mestre lhe exigia controle absoluto desta. Seu corpo físico até demorou-se mais a se desenvolver devido ao aperfeiçoamento precoce da mente, e mesmo assim ele sempre foi uma criança saudável. No entanto, Shion nunca lhe havia mencionado nada sobre ele ter sido ou não um bebê prematuro.
“Eu acho que é isso que a tua cria tem. O teu filhotinho nasceu novo demais para esse mundo. Não estava pronto.” — sentenciou ela com pesar.
Ainda em choque, Mu olhava para ela calado. Pensava que, mesmo prematuro, Kiki jamais sofreria consequência alguma, pois que, além de suprirem todas suas necessidades físicas ele e Shaka ainda lhe nutriram com seus Cosmos poderosos até quase os dois anos de idade. Kiki era uma criança alegre, forte, saudável, agitada... ou será que não era? Será que seus olhos de pai orgulhoso e realizado, somado ao êxtase do milagre de conseguir um filho muviano o cegaram a tal ponto de não perceber que sempre houvera algo de errado com Kiki?
— Mas... deve haver algo que se possa fazer! — ele exclamou quando conseguiu recuperar a voz — Não é possível que todos os bebês lemurianos prematuros tenham morrido! Especialmente quando toda a nossa cultura, raça e costumes giram em torno da procriação e perpetuação da espécie. Então não é possível que a prematuridade seja uma sentença de morte tão cruel!
— E de fato não é. Nem todos morreram. — a anciã respondeu respirando com dificuldade. — Alguns sobreviveram... Mas... infelizmente eu não sei te dizer como.
Mu estava agitado, e um tanto inconformado. Não era possível que andara tanto, que viera de tão longe depois de tanto procurar para no fim descobrir que seu filho estava desenganado.
— Olha, o meu mestre sempre dizia que nossa medicina era avançadíssima, que nossa raça possuía segredos alquímicos milenares... Tem que haver algo que se possa fazer!
— Me perdoe... Eu... — ela murmurou com lágrimas nos olhos, enquanto encarava entristecida o rosto aflito dele, sem saber o que lhe dizer. Queria muito dar a ele a resposta que veio até ali buscar, no entanto não a tinha, mas, de repente, como um relâmpago que clareia por segundos a escuridão do céu tempestuoso, uma lembrança se desenhou em suas memórias vagas. — O Yeti!
— O... o quê? — Mu perguntou confuso.
— O Yeti! — ela repetiu balançando ambas as mãos trêmulas no ar. — Eu não tenho a resposta que buscas, mas talvez ele... talvez o Yeti possa tê-la.
Mu arregalou os olhos a encarando com aflição nítida.
— Yeti? — questionou, duvidando momentaneamente da sanidade mental da velha senhora.
— Sim! O Yeti. Infelizmente eu não sei se ele ainda está vivo... e se acaso estiver, deve estar beirando três séculos, mas... — foi acometida por uma nova crise de tosse, dessa vez bem mais longa e violenta que a outra. Mu a amparou pelos ombros até que ela recuperasse o fôlego. —... Mas... se existe um muviano neste mundo que pode ajudar tua cria, esse muviano é o Yeti... Ele é alquimista... E se ele não puder fazer nada por você, então lamento, mas ninguém mais poderá.
Mu estava decidido a questiona-la mais sobre quem era esse tal de Yeti, de quem ele nunca ouvira falar antes, quando de repente uma inquietação descomunal lhe atingiu em cheio o coração. Curvando-se ligeiramente para frente sentiu-se sufocar, então desenrolou o grosso lenço de lã que tinha em torno do pescoço e respirou profundamente. Em seu dedo anelar da mão esquerda a grossa aliança de ouro ressoava diretamente com seu Cosmo. Ele olhou para ela, e ela emanava um brilho sutil, o qual vinha do pó de estrelas que havia colocado nela junto de uma centelha do Cosmo de Shaka, quando a forjou. Aos poucos sentia o metal ficar mais quente em seu dedo, e alarmado soube que havia algo de errado se passando com o virginiano.
“O que foi?” — perguntou a lemuriana, que percebeu a inquietação anormal do jovem à sua frente.
“Algo errado está acontecendo em minha casa... Minha família precisa de mim.” — Mu respondeu mordendo os lábios angustiado. Começou a ficar gelado, e sentiu um impulso enorme em partir imediatamente de volta ao Santuário, mas, além de ter muito mais perguntas a fazer à anciã, de repente lhe pareceu extremamente errado, além de desumano, deixa-la ali, para morrer sozinha. No entanto, seu dilema foi facilmente percebido por ela, que o lendo em seu rosto e em sua aura esticou-se toda para lhe tocar os ombros com um gesto gentil.
“Vá.” — Ela disse. — “Eu já te enunciei tudo o que sei. A missão que os deuses antigos me incumbiram se cumpriu. Nada mais posso fazer por ti, criança... Eu desconheço o paradeiro do Yeti, caso contrário te diria... Vá sob minhas bênçãos... Eu ficarei em paz, porque finalmente me unirei aos nossos... nas estrelas.”
Ela sorriu ternamente para Mu, e emocionado ele a puxou para um abraço.
— Naëɞma´ya. Obrigado. — disse, em lemuriano antigo e também em grego, profundamente gradecido.
Não havia tempo para despedidas. A inquietação de Mu tornava-se tormento a cada novo segundo transcorrido e conforme o calor e o brilho da aliança de ouro se intensificava.
Apressado, porém com muito cuidado e respeito, ele se levantou trazendo consigo nos braços a anciã lemuriana, que para seu vigor de cavaleiro pesava menos que uma pluma, então caminhou até uma cama estreita disposta próximo a lareira, cujas tímidas chamas mal espantavam o frio mais. Com sua telecinése ele alimentou o fogo com mais algumas toras de madeira já cortadas dispostas ao lado, enquanto delicadamente a deitou no leito e a cobriu com os grossos cobertores de peles.
Antes de partir Mu lhe beijou ternamente a fronte, depois uniu suas pintinhas às dela. Ficou assim por um breve momento, até fechar os olhos e fazer uma prece.
— Asha´n müɞni´storḝ danaárknore na orabǖs iål erol´aman sh´ar fatiḝb nǖr Lymüil´a, una mi´phëlanima Mü. (Que tu sejas recebida com ouro e vivas nos portões de Lemúria, filha abençoada de Mu.) — disse baixinho e então desapareceu.
***
Santuário de Atena, 05:36pm
Assim que surgiu diante dos degraus a perder de vista da Casa de Áries, Mu os galgou quase que na velocidade da luz, passando por todas as outras casas feito um cometa até chegar à Sexta. Ofegante, com o coração saltando alucinado em seu peito e a boca seca que lutava para sorver o ar, ele correu para o interior do Templo enquanto pelejava para dominar o desespero. Nem o som de seus próprios passos conseguia ouvir, pois que os gritos de terror de seu coração sobressaiam a estes. No dedo anelar, a aliança parecia queimar sua pele. Estava certo de que algo se passava com Shaka, mas, embora sentisse a aura dele ali, seu Cosmo estava totalmente suprimido, apagado, o que já era motivo mais que suficiente para lhe causar estranheza.
— Por favor, por favor, por favor... Shaka... — dizia baixinho para si mesmo enquanto corria para a parte residencial do Templo, cruzando o imenso hall aos tropeços, quase caindo ao desviar-se de uma coluna ou outra. Sentia no corpo o impacto da mudança brusca de temperatura, pois que estava vestido com grossas vestes de lã e pele de iaque, as quais agora faziam se sentir como se pudesse entrar em autocombustão a qualquer momento.
Quando entrou na sala correu os olhos pelo cenário já habitual não notando nada de novo, apenas as bolsas de Kiki sobre o sofá, as quais Shaka preparava toda vez que o levava ao hospital. Naquela tarde, além das injeções diárias que tomava para manter seu organismo minimamente regulado, ele tinha um exame agendado na Ala 5, uma ressonância magnética, que só pôde ser realizada ali, em Atenas, graças à chegada dos equipamentos novos doados ao Hospital por um filantropo russo, que na verdade era apenas um dos laranjas usados por Camus. O jantar beneficente dado aos milionários russos, com coparticipação de alguns figurões da elite europeia, lavou o dinheiro gasto pela máfia e tornou possível a doação dos equipamentos ao Hospital de Atenas. Em um tempo recorde, que por vias legais se arrastaria por meses, a Ala 5 passou a dispor dos mais modernos aparelhos de medicina diagnóstica de toda a Europa.
A respiração de Mu estava acelerada. Era o pânico que como uma ave agourenta pousada em seu ombro lhe assombrava. Mas, com uma rápida sondagem sentiu a aura do filho no quarto, tranquila. Ele devia estar dormindo.
Colocou a mão no peito e tentou controlar ao menos a respiração, mas de repente um estrondo seco, que lembrava uma batida violenta entre dois carros, o fez encolher os ombros e piscar os olhos em sobressalto. Seu coração congelou com o susto, e ele virou imediatamente a cabeça na direção de onde vinha o barulho.
Uma nova pancada, mais violenta ainda, lhe tirou do estado de choque que entrara, então ele correu meio desajeitado para a sala de meditação onde há milênios residia a imponente estátua de Buda. Adorada e consagrada através dos tempos por todos os cavaleiros que portaram a sagrada armadura de ouro de Virgem com a missão de proteger aquele Templo.
Conforme se aproximava, cruzando um corredor comprido de paredes altíssimas revestidas por mármore branco, junto das pancadas que viajavam por ali em ecos sinistros, começou a ouvir também a voz de Shaka. Esta era abafada, distante, e um tanto incompreensível, pois que ele falava muito rápido em sua língua mãe, o hindi; mesmo assim percebeu que havia muito ódio nelas.
“Desgraçado. Seu maldito, miserável! Por que está calado? Por que não fala comigo? FALE COMIGO!”
Há poucos passos de chegar à câmara, Mu viu, espalhados, destruídos e jogados pelo chão, alguns dos tantos livros de medicina que abordavam doenças que acometiam crianças e síndromes relacionadas ao metabolismo e imunidade, os quais Shaka havia comprado para estudar na desesperada tentativa de entender o que se passava com o filho e, quem sabe, descobrir a cura. Virgem tinha fé que com toda a sabedoria adquirida nesta e em suas vidas passadas, a qual trazia lúcida em sua mente poderosa, somada à ajuda divina que nunca lhe faltou, ele conseguiria salvar a vida de Kiki, como já havia salvo uma vez, na praia de Lomvarda, mas os livros não tinham a cura, e Buda havia se calado.
“Por que me levou até lá? Por que me fez dobrar o tempo e o espaço para salvá-lo se o Samsara iria tirá-lo de mim mais tarde? Por que? Para me fazer desistir da vida mais uma vez e aceitar a morte? Para me provar que minhas escolhas na verdade nunca foram minhas?”
Uma nova pancada, ainda mais violenta, e que provocou um eco grave que fez tremelicar o chão e quase desequilibrou Mu, que escorando-se na parede saltou por entre alguns destroços e finalmente entrou na câmara.
A cena que viu ali congelou sua alma e fez seu coração falhar uma batida.
Pensou estar delirando, mas era real. Era perturbadoramente real!
“Eu o amaldiçoo e o renego! Você não me vale de nada. De nada! Me privei da vida e abracei a morte durante anos por honra e devoção a você. Ao seu maldito nome! E para quê?... Levasse a mim então! Seu maldito! Não a ele! Eu não aceito ser derrotado! NÃO ACEITO SER DERROTADO!”
Completamente transtornado Shaka destruía a gigantesca estátua sagrada de Buda, a qual através dos milênios fora reverenciada por seus antecessores.
Mu não sentiu seu Cosmo porque ele usava as próprias mãos para fazê-lo.
Todo sujo, vestido novamente com as roupas do ariano, descalço, os longuíssimos cabelos loiros encharcados, de suor e de sangue, embaraçados, grudados na pele, caindo-lhe sobre os olhos abertos que faiscantes encaravam o alvo com ódio visceral, o Santo de Virgem esmurrava as paredes e colunas de rocha maciça arrancando lascas e pedaços grandes, os quais arremessava contra a estátua enquanto praguejava, tomado por um furor insano. Vez ou outra dispensava os projéteis rochosos para golpear a imagem, esculpida em ouro e pedra, com as mãos nuas, e também com os pés e os joelhos.
Os embates físicos jamais foram o ponto forte dos Cavaleiros de Virgem, por isso os dedos de Shaka sangravam de arrancar as lascas das paredes; já quase não tinha mais unhas. Seus pés imprimiam pegadas escarlates por toda a câmara, uma vez que muitas daquelas lascas ao se partirem contra a estátua espalhavam-se pelo chão afiadas como lâminas.
Mas ele era tão indiferente à dor física quanto era ao sacrilégio do ato que cometia.
— Você não me serve de nada! — uma nova rocha arremessada arrancou os dedos da mão direita de Buda, outra que veio imediatamente em seguida levou-lhe o nariz. — Não vai mais guiar a minha vida, não vai mais me dizer o que tenho que fazer. Para o inferno com suas palavras e suas Quatro Nobres Verdades! — enlouquecido correu até a estátua e passou a destruí-la com as próprias mãos, arrancando pedaços e os jogando para longe. — Sempre me disse que a causa do sofrimento era o desequilíbrio, a falta de harmonia com o mundo material, com as outras pessoas, com corpo e a mente, com os desejos, o karma... e eu segui suas palavras, sempre fazendo um esforço constante para encontrar algum conforto nesse mundo e nunca, NUNCA ENCONTREI NENHUM!
— Shaka... — Mu tentou gritar, mas sua voz mais parecia um sussurro rouco. Estava em choque. Os olhos que vertiam grossas lágrimas fitavam a cena em completo terror, enquanto o virginiano apanhava do chão um pedaço grande de pedra para em seguida atira-lo contra o rosto de Buda, lhe avariando um dos olhos.
— Você tinha tanto medo do sofrimento que se privou de tudo, amor, família, corpo, desejo, a vida, apenas para não encará-lo! Maldito covarde! Eu odeio você por me fazer seguir seus passos. Por me fazer crer em uma felicidade individual, egoísta! — correu novamente até a estátua, usando as mãos em carne viva para arrancar-lhe os dedos que ainda estavam inteiros. — EU NÃO QUERO SER BUDA! De que me valeram toda uma infância e adolescência de clausura, privações, solidão, penitências e mais penitências, dor, se nada disso me livraria da minha condição humana? Eu não quero você aqui. SUMA DAQUI SEU AMALDIÇOADO! SUMA DAQUI!
— SHAKA! — Mu enfim conseguiu sair do choque e gritar, um grito de dor e horror, e na mesma hora correu até o marido e o agarrou por trás, puxando seu corpo suado e trêmulo para longe da estátua, para a qual lançou um olhar aflito.
Transtornado, Virgem debatia-se tentando se soltar, chutando o ar e apertando os punhos de Mu com as mãos ensanguentadas. Nem por um segundo tirava os olhos da face destruída de Buda.
— Não! Me solta, Mu! Eu não quero esse amaldiçoado aqui!
Mesmo bem mais magro, e visivelmente debilitado devido os jejuns forçados aos quais se submetia desde que tiveram a notícia da doença de Kiki, Shaka ainda tinha uma agilidade e força impressionantes, e com uma rasteira conseguiu derrubar Mu e se soltar do abraço. Imediatamente em seguida correu novamente para a estátua, saltou por entre as pedras e destroços a escalando em segundos, e com sua força de cavaleiro lhe arrancou a cabeça. Esta rolou para o chão causando um estrondo no mesmo momento em que ele se desequilibrou e caiu, porém seu corpo pairou no ar há dois palmos de atingir o solo.
Ainda suspenso no ar, Shaka ergueu a cabeça e então seus olhos encontraram os de Mu, que olhavam para si em mortal agonia. Ele havia corrido aos tropeços até ali e agora estava de pé bem à sua frente, ofegante, pálido, ainda vestido com as grossas vestes de lã com as quais se cobrira antes de sair de casa pouco depois do café da manhã, quando foi atrás de uma nova pista, na Letônia. O horror estava impresso em cada poro de sua pele tão alva.
Sentiu quando ele, com sua telecinese, pousou seu corpo no chão com todo cuidado, então quando suas mãos e joelhos tocaram os escombros o fel amargo lhe subiu pela garganta, seguido de uma ânsia tão violenta que lhe causou um forte espasmo. Curvado, Virgem vomitou sobre as lascas de rocha, poeira e sangue, mas como não tinha nada no estômago apenas bile e alguma saliva amarelada saia. Era difícil para ele lidar com o que havia feito... Porém, mais difícil que encarar os olhos de Buda era encarar os de Mu naquele momento. Não era para ele estar ali. Ele não merecia seu descontrole. Diante dele sentiu-se covarde, fraco, egoísta. Mu estava percorrendo o mundo atrás de uma esperança, enquanto ele desfazia-se das suas, tudo porque, naquela tarde, enquanto estava no hospital aguardando Kiki que fazia exames e tomava o medicamento injetável, ouviu uma conversa entre dois enfermeiros na hora em que foi buscar um copo d´água. Eles debatiam acerca da gravidade do estado de saúde de Kiki, e do porquê o menino não estava internado no hospital, mesmo apresentando um quadro de saúde tão grave. Um deles, enquanto preparava o medicamento intravenoso, disse que aquele era um protocolo padrão a pacientes terminais, que era bom que o menino passasse seus últimos dias no seio da família, para que pudessem aproveitar juntos o pouco tempo que lhes restava. A palavra “terminal” atingiu Shaka como um tiro à queima a roupa dado no peito. Enlouquecido ele foi até eles e bateu suas cabeças contra a mesa de alumínio, derrubando no chão uma dezena de pipetas, gazes e medicamentos, além de deixar os dois desacordados. Antes que os seguranças chegassem ali, doutor Adônis contornou a situação e o tirou de lá. O entusiasmo com que o médico lhe pediu para que não levasse em conta o que haviam dito os enfermeiros lhe soara quase convincente. Mas ele sabia que eles estavam certos. Ele sentia. Ao final dos exames e do tratamento ele voltou para o Santuário com Kiki, e como vinha fazendo desde que tudo começou, sempre lhe passando força e confiança, quando ele mesmo já não tinha nenhuma das duas. Quando Kiki adormeceu, foi até o escritório procurar nos livros de medicina a resposta que há semanas vinha implorando a Buda, ou qualquer sinal ínfimo que fosse, e no silêncio de ambos foi seu desespero que ganhou voz.
Alheio ao acontecido no hospital, Mu só conseguia olhar para tudo aquilo em choque e sem conseguir disfarçar o horror, provocado tanto pelo estado do marido quanto pelo ato que ele havia cometido. Desde o dia em que o surpreendeu ali, naquela mesma câmara encarando a estátua, que um pressentimento ruim passou a lhe fazer companhia constate. Ele sentia que Shaka acabaria fazendo uma loucura, porém, nem em seus piores pesadelos, tampouco em seus devaneios mais insanos, ele podia imaginar que o cavaleiro mais sagrado daquele Santuário, o Santo dentre todos os Santos de Atena, fosse capaz de tal sacrilégio. Destruir o símbolo maior de sua devoção era um insulto direto a si mesmo, à Atena, ao próprio Buda, e aos que o antecederam e defenderam com suas vidas aquele sagrado Templo de Virgem. Um ato tão profano que Mu sentia-se profundamente abalado. Lhe causava desconforto e terror olhar para os pedaços da estátua sagrada destruída, para tudo ali na verdade, mas principalmente para Shaka, afinal, Áries também era budista.
Mas, seu amor e devoção pelo homem a quem jurou amar e respeitar em qualquer que fosse a situação, era muito maior que qualquer outro sentimento que lhe afligia o espírito naquele momento, por isso, evitando olhar para os destroços se deixou cair de joelhos no chão, diante de Shaka, e com as mãos trêmulas o tomou pelos ombros o amparando com todo amor e zelo que possuía.
Como se tocasse em um cristal delicado todo trincado, que de tão frágil ao menor abalo que sofresse poderia explodir em milhões de pedaços, Mu trouxe Shaka para seus braços, juntando seus cabelos longos emaranhados para trás das costas e o ajudando a se colocar de joelhos. Ficou espantado quando o trouxe para junto de si e sentiu seu corpo encharcado de suor e de sangue, trêmulo, gelado, mas isso apenas fez com que o aconchegasse ainda mais junto ao seu peito. Com desespero enfiou o rosto entre os longos fios loiros imundos e chorou.
— Pelos deuses! O que você fez! — a voz de Mu saia fraca e embargada — Shaka! O que foi que você fez! Suas mãos... Seus pés!... Amor da minha vida, luz dos meus dias... O que você fez! — exclamou incrédulo e aterrorizado, então afastou o rosto e olhou para as belas mãos de dedos longos do esposo, que estavam praticamente em carne viva.
— Nada... eu não fiz nada... Eu não posso fazer... nada. — Virgem disse ofegante e num fio de voz, enquanto limpava a boca com as costas da mão, mas tudo que conseguia era apenas sujar mais seu rosto de sangue. — Ele... ELE me preparou para salvar o mundo, para salvar Atena... mas todo o poder que Ele me fez alcançar, o 7º e o 8º sentido, nada disso me torna capaz de salvar meu próprio filho...
— Mas... Sha... escuta...
— Se eu não poderia salva-lo, por que ele me levou até lá, Mu?... É porque está me dando uma lição?
— Não, Luz da minha vida, não é por...
— Eu jamais perdi uma batalha, jamais fui derrotado! É isso que ele quer que eu aprenda? — levantou a cabeça e encarou Mu nos olhos, mesmo com a garganta apertada e atormentando pela vergonha. — Pois eu não aceito perder. E eu não vou perder! — praticamente rosnou a sentença.
— Shaka, meu amor... — Mu tentava dizer algo, mas subitamente Virgem baixou a cabeça novamente evitando seus olhos, e com força agarrou seus braços por cima do grosso casaco de lã.
— Por favor... eu não quero ele aqui. — disse baixinho.
Áries ponderou por um momento, contraindo os lábios enquanto prendia a respiração.
— Está bem! — soltou o ar com um longo suspiro, e nessa hora ele mesmo levou a mão ao rosto enxugando as lágrimas. — Se você não quer ele aqui ele vai embora... Eu já entendi, Shaka. Quer destruir a estátua? Ok, eu te ajudo. Quer atear fogo a todas as suas túnicas, incensos e escritos? Eu acendo a fogueira para você... Apenas... — tocou gentilmente a face ensanguentada de Virgem e o fez olhar em seus olhos. — Apenas pare de se machucar... Por favor. Pare de se machucar.
No mesmo instante em que fazia aquela súplica Mu fechou os olhos, então com o coração dolorido e em frangalhos franziu a testa unindo as pintinhas, concentrado; segundos depois a estátua destruída desaparecia da câmara junto com todos os seus destroços. Ele a teleportou para o pátio interno da Casa de Áries. Quando abriu novamente os olhos o lemuriano voltou a encarar suplicante a face consternada do esposo.
— Pronto. Agora somos só você e eu. Ele foi embora. — disse segurando o rosto de Shaka com ambas as mãos. — Estamos só nós dois aqui. Vai ficar tudo bem agora. Eu vou cuidar de você. Pelos deuses... vai ficar tudo bem...
Mu repetia como se pudesse convencer-se de fato.
O tom nítido de desespero nas palavras do ariano fez Shaka sentir como se sua alma fosse-lhe arrancada à força do corpo. A última coisa que queria era fazer Mu sofrer por sua causa, e vê-lo com aquela expressão de horror e agonia lhe doía muito mais que qualquer ferimento que pudesse infringir a si mesmo. Sentiu-se tão pequeno e mesquinho... Mas aquele impulso, a negação, a raiva, eram tão mais fortes, tão urgentes.
— Me perdoe, Mu... Eu sei que estou sendo um covarde egoísta. Só estou tornando mais difícil ainda as coisas para você.
— Você nunca foi covarde, muito menos egoísta, meu amor. Você tem cuidado do nosso filho de uma forma tão primorosa, com tanto amor e zelo... Eu só consigo sair em missão atrás de uma possível cura porque você fica aqui com ele. — Mu tentava disfarçar a gravidade da situação com palavras de compreensão e afeto — E eu sei que toda essa sua dedicação integral tem um preço alto... — tocou gentil as mãos feridas do marido — Mas não esse!
Virgem baixou a cabeça e envergonhado recolheu as mãos.
— Não se preocupe comigo, Mu. — disse em voz baixa, em tom acanhado, então apoiando um dos joelhos feridos no chão levantou-se meio cambaleante. — Sei que deve estar pensando que estou louco, mas nunca estive tão lúcido na minha vida quanto agora... Eu apenas precisava fazer isso... Precisava Dele fora daqui para poder fazer as coisas do meu jeito. Para ser eu mesmo. Agora que ele se foi me sinto melhor.
Áries engoliu em seco.
— Você deve estar cansado, passou o dia todo fora... — Shaka continuou — Eu vou me lavar e depois preparar o seu jantar. Deve estar faminto. Kiki já comeu... pouco, mas eu bati os legumes no liquidificador e ele conseguiu engolir sem sentir tantas náuseas. O Ebó deve estar com fome também. Comprei um peixe fresco na feira hoje para misturar à ração dele...
O Santo de Virgem claramente fugia. Fugia do assunto, da realidade, de Mu... mas esse se levantou imediatamente após ele e segurando em seu braço o fez ficar e encarar seus olhos e a realidade.
— Shaka olhe para mim. — pediu Mu, e quando o indiano, depois de hesitar por um momento, fitou seus olhos, ele lhe retirou alguns fios de cabelo grudados em seu rosto e depois o segurou com ambas as mãos mais uma vez. — Ouça o que vou te dizer. Você e Kiki são as duas luzes da minha vida... Eu estou perdendo uma... — sua voz falhou — Por favor, não me deixe na completa escuridão.
— Mu eu... — Shaka tentou falar algo mas o lemuriano não deixou o interrompendo.
— Para um cavaleiro que manipula a luz das estrelas, eu não serei capaz de suportar viver nas trevas... Entende o que eu quero dizer? Por favor, não se afaste de mim, Shaka. Quando sua fé nos homens e nos deuses falharem, eu ainda estarei aqui. Eu sempre estarei aqui para absolutamente tudo o que você precisar. Não está sozinho, então não me deixe sozinho, por favor.
Olhando profundamente nos olhos verdes do marido, Virgem finalmente se desarmou, e suspirando o abraçou com força, evitando tocar-lhe os cabelos lavanda tão preciosos para não macula-los com seu sangue. Precisava tanto dele, daquele calor, do cuidado, do amor.
Mu imediatamente retribuiu o abraço, agarrando-se nos braços dele tal qual um náufrago se agarra a um salva vidas. Não tinha dito aquelas palavras em vão. Ele de fato estaria sempre ali para Shaka, para tudo o que ele precisasse, e isso incluía ajuda-lo a suportar a dor de seu espírito. E, por mais que lhe custasse tão caro, por mais angústia que lhe causasse, ele sabia, do fundo de seu coração, exatamente o que precisaria fazer. Não podia mais ignorar as penitências físicas as quais Shaka se submetia. Ele sabia que seu amado marido só encontrava alívio na total anulação de sua matéria física, através da meditação, ou então na dor física auto infligida. E como ele não podia, nem queria, se ausentar do mundo físico naquele momento, ele feria seu corpo para suportar as dores da alma.
Era com intenso pesar que Mu sabia exatamente o que teria que fazer para ajudá-lo.
***
Quando Shaka entrou no quarto de Kiki encontrou Mu sentado à beirada da cama a velar seu sono. As cortinas de tecido leve em tons corais tremulavam com a suave brisa que entrava por uma pequena fresta na janela junto de um fino fio de luz prateada do luar. O abajur giratório ao lado da cama trazia o céu estrelado para as paredes claras, dando aos dinossauros que viviam nelas um espetáculo gracioso de balé cósmico e ao gato Saravá Ebó a difícil missão de captura-las. Junto do abajur, algumas infusões com ervas, óleo de eucalipto, raiz de alcaçuz e óleo de lavanda davam ao ambiente um odor agradável e relaxante. Shaka os havia preparado no dia anterior, depois de ler nos livros de medicina alternativa que eram ingredientes com excelentes ações antiespasmódicas, secretagógicas, antimicrobianas e relaxantes.
Talvez por isso que, embora Mu acariciasse cuidadosamente os cabelos de Kiki, e bem baixinho lhe entoasse uma canção de ninar antiga, o ruivinho seguia com um sono pesado, aparentemente tranquilo, como quando caia exausto na cama após o jantar e ao término da novela, na hora em que seu corpo desligava depois de um dia inteiro de brincadeiras e estripulias. Porém, agora a exaustão vinha do mau funcionamento de seus órgãos e do cansaço da rotina estressante de hospital, exames, febres contínuas, crises convulsivas e hemorragias severas.
Mu estava tão absorto em seus pensamentos que só se deu conta da presença do indiano ali quando este lhe tocou os cabelos ainda úmidos do banho e lhe beijou a fronte, próximo às pintinhas, então olhou para ele e lhe sorriu, um sorriso adorável.
Shaka tentou sorrir de volta, mas era como se não tivesse controle do próprio corpo, da própria vontade. Por um momento ele ficou ali, com os olhos azuis grudados aos do ariano, enquanto com a mão toda enfaixada até os dedos, acariciava seu rosto. Então finalmente piscou os cílios longos e olhou para Kiki.
— Ele adora esses brinquedos de cristais. Brinca com todo o cuidado desse mundo... Ele sabe o quanto são preciosos. — disse num sussurro, os olhos fixos à peça que o filho segurava na mão, uma figura esculpida no mais puro cristal lemuriano que lembrava um quartzo rosa dos mais translúcidos, e que tinha o formato de uma fada, com um vestido longo esvoaçante, asas finíssimas que saiam de suas costas e um longo cabelo preso em um rabo de cavalo que parecia movimentar-se conforme a luz lhe batia. — De todos, o que ele mais gosta é da fada.
Mu concordou com a cabeça e deu outro leve sorriso.
— A fada também era o meu preferido. Foi o primeiro. — disse ele também aos sussurros, voltando a olhar para Kiki. — Embora eu gostasse de todos, principalmente dos dois ferreiros e do pequeno sátiro, era ela quem eu sempre escolhia para dormir do meu lado. — ergueu os olhos para uma prateleira acima da cabeceira da cama onde estavam as outras figuras esculpidas que compunham a coleção. Um homem de físico viril, porém esguio, que tinha um longo cabelo solto, barba farta, trajava um grosso avental de couro e trazia na mão um martelo idêntico ao que ele usava para reparar as armaduras sagradas; um rapazote ajudante que usava um macacão e tinha uma espada em mãos; um sátiro alegre, claramente ainda criança, com seus pequeninos chifres de carneiro e casquinhos saltitantes; um grande e corpulento iaque com sela de montaria; um cavalo alado e Atena, com seu escudo em uma das mãos e o báculo na outra.
Aquelas esculturas magníficas eram dignas de estarem expostas em um museu, pois que sua beleza primorosa era de encher os olhos. Sem dúvida nasceram das mãos precisas de um verdadeiro artista. Mas, elas estavam ali, há anos consigo. Mu as recebera ainda na tenra infância, uma de cada vez, no dia de seu aniversário e de um modo único: Elas eram deixadas estrategicamente nos pés de uma árvore frondosa que ficava na fronteira norte do Santuário, próximo às ruinas antigas, onde ele costumava brincar sozinho. Dos 3 até os 10 anos de idade, em todas as manhãs do dia 27 de março, uma peça nova era deixada ali, de modo que dormia na noite anterior ansioso e inquieto, contando os minutos para o alvorecer, então quando o sol nascia ele corria em disparada até a árvore, em busca do novo item de sua coleção, cheio de curiosidade para saber qual seria dessa vez.
Mu nunca entendeu o que levava seu mestre, Shion, a lhe fazer tão primorosas peças, pois que este nunca comentava consigo nada sobre elas. Apenas as deixava ali, no pé da árvore, para que as encontrasse. Ele também nunca o contestara, entendendo que tudo fazia parte de uma brincadeira divertida e diferente, porque quando chegava com o presente novo nas mãos, o velho Patriarca fingia surpresa e lhe sorria amável, o que tornava o ritual ainda mais cúmplice, já que ao fim do dia Shion lhe entregava outro presente, este em caráter oficial, com direito a parabéns, cartão, laços e fitas. Tão de repente como começou aquela tradição ela também se findou. Em seu 10º aniversário não havia escultura nenhuma debaixo da árvore. Embora um pouco decepcionado, Mu entendeu que provavelmente já deveria estar grande demais para continuar a ganhar brinquedos. Já havia reclamado para si a armadura de Ouro de Áries, e também já era um exímio ferreiro celestial. Sua coleção deveria estar completa, já que Atena fora a última miniatura entregue, e aquela talvez fosse a forma que Shion encontrou de lhe dizer que deveria abraçar as responsabilidades da vida adulta e deixar os sonhos de criança de lado, portanto, contentou-se com o que tinha. Aquelas miniaturas feitas em cristal lemuriano passaram então a ser seu bem mais precioso, pois continham em cada entalhe todo o amor e dedicação de seu mestre para consigo.
Agora, olhando para a fada envolta pelos dedinhos de Kiki, seu peito se enchia de uma tristeza nostálgica. Quantas saudades tinha de Shion.
— Cristal lemuriano... — disse Mu, baixinho, mais para si mesmo do que para o marido ao seu lado. — Mestre Shion sabia ser tão amável quanto severo. Sinto saudades dele, sinto-me perdido sem sua sabedoria para me guiar... — virou o rosto para Shaka, buscando seus olhos azuis celestes brilhantes. Mais um par de estrelas a reluzirem naquele firmamento particular. — Tenho certeza de que Mestre Shion saberia o que fazer com as informações que obtive hoje.
— Está falando da anciã, né? — Shaka sussurrou, e nessa hora pegou o gato Saravá Ebó, que rodeava suas pernas enfaixadas com grossas tiras de linho puro, e sentou-se ao lado de Mu na beirada da cama, o aninhando em seu colo. Mu havia lhe contado sobre o encontro com a lemuriana enquanto jantavam, após o banho e os curativos que havia feito em seus ferimentos com carinho e devoção, mas muitas perguntas ainda haviam ficado no ar. — Mas, se como ela disse, são os poderes mentais do Kiki, a telepatia e a telecinese, que estão provocando esse... mal do prematuro, então a medicina humana nada pode fazer mesmo para salvá-lo de fato... — fez uma pausa engolindo em seco. O gatinho preto mastigava as pontas de seus cabelos loiros que caiam por sobre o peito esguio.
— O mal do filhote novo, como ela disse, é que pode estar provocando esse desequilíbrio entre o corpo e a mente dele, e não o contrário, Luz da minha vida. Kiki nasceu antes da hora, e por um parto induzido.
— E só a alquimia lemuriana pode reestabelecer esse equilíbrio entre matéria e psique, entre o corpo e a mente. — sussurrou Shaka, pensativo. — Com toda certeza Shion saberia o que fazer... Como vamos achar esse tal de Yeti? Ela não deu nenhuma pista? Nos mapas e livros pessoais do Mestre Shion não há nenhuma pista? Podemos procurar de novo na biblioteca de Jamiel! O seu elo psíquico! Você não consegue rastreá-lo por ele? Não é possível que estejamos nadando para morrer na praia, Mu!
O lemuriano ficou calado por um tempo, pensativo. Não se recordava de nenhuma citação referente a Yeti e a tal doença nos manuscritos do mestre. Enquanto sua mente trabalhava, esticou a mão e puxou enciumado os fios loiros mastigados pela boca do gatinho, para que ele não os danificasse mais, recebendo um rosnado e uma unhada das garrinhas minúsculas como aviso de que não se intrometesse em seus assuntos.
— O elo tem suas limitações. Não é como se eu conseguisse sentir todos os lemurianos que habitam o globo. Se fosse assim seria fácil acha-los. Preciso estar próximo ou receber um sinal em sintonia de volta. — explicou, voltando a atazanar a bolinha de pelos pretos — E, pelos deuses, o que significa Yeti?
— Duvido que a cura para o Kiki venha de uma infusão feita com pelos das pernas do Pé Grande. — Shaka respondeu com certa ironia. — Esse nome é claramente um artifício para afugentar curiosos.
— Eu também pensei nisso... Yeti... O Pé Grande, o Abominável Homem das Neves. Será que tem alguma ligação?
— Ou deve ser só o Samsara do caralho rindo da nossa cara.
— Shaka! — Mu arregalou os enormes olhos verdes e o advertiu aos sussurros. — Já não blasfemou o suficiente por hoje, Luz da minha vida? Pelos deuses, Sha. Você jogou o Buda fora, agora está falando palavrão!
— Não vê que isso é ridículo, Mu! Agora então temos que ir à caça do Pé Grande se quisermos salvar nosso menino? Isso é uma merda de uma lenda! Essa velha deveria estar senil.
— Provavelmente, mas e se não for?
— Que seja real, então. Há relatos do Pé Grande por todo o planeta.
— Sim. É uma informação vaga. Eu nem sei por onde começar, mas é tudo que temos.
Virgem deu um longo suspiro.
— Está certo. Amanhã à tarde fique em casa com Kiki que irei à biblioteca central de Atenas. Lá deve haver enciclopédias e jornais do mundo todo que juntam relatos de avistamentos do Pé Grande. Vou traçar uma rota para que possamos ter ao menos um ponto de partida. Vou mandar Shiva e Ágora em missão também, atrás desse tal de Yeti. Qualquer coisa que descobrirmos pode ser de alguma serventia.
— Ótimo. Só não precisa ir à biblioteca, amor. Existe um site agora, na internet, que faz buscas. Tem de tudo lá.
Shaka chacoalhou a cabeça ao modo indiano indicando negação.
— Eu não gosto de mexer naquela máquina estúpida. Prefiro os livros. — sussurrou dando um tapinha na mão de Mu para que ele deixasse de futricar o gato, que rosnava e lhe atacava os dedos.
— Não tem nada de mais. Eu ajudo você. — Mu lhe sorriu terno.
— Vou fazer outra busca na biblioteca do Décimo Terceiro Templo também, nos livros que pertenceram a Shion... Amanhã vou solicitar ao patife do Gêmeos... e que dessa vez ele não me mande aquele louvaminheiro vetusto do Gigars para ficar me vigiando e me apressando, porque só saio de lá quando achar alguma pista que talvez nos leve a esse Yeti.
— Está certo. Só não vá me arrumar mais conflitos ainda do que já temos com aquele estrupício, pois minha paciência com ele já acabou. — pediu o ariano, e bem nessa hora ouviram um leve murmurinho vindo de Kiki, que despertava do sono acordado pelas vozes e auras agitadas dos pais.
— Baba... papai, já é de dia? — disse a voz rouca infantil, enquanto ele se revirava na cama.
Os dois cavaleiros baixaram o olhar para ele. O gatinho preto no colo de Virgem adormecia, derrotado pelo tão aterrador quanto súbito sono felino.
— Oh filhotinho! A gente te acordou, né? — Mu curvou-se ligeiramente sobre ele e lhe beijou a testa, aproveitando para verificar com os lábios e o próprio rosto sua temperatura. — Volte a dormir. Ainda é de noite.
Kiki ajeitou-se melhor, procurando uma posição mais confortável, ou que pelo menos não lhe fizesse sentir tantas dores nas costas, e depois que recebeu o carinho do pai lemuriano olhou intrigado para o pai indiano. Uma ruguinha se formou entre as pintinhas azuladas em sua testa.
— O que fez nas mãos, Baba? Está machucado? — perguntou curioso. Um detalhe como aquele jamais lhe passaria despercebido. Estava acostumado a sempre ver o pai loiro bem arrumado, suas mãos sempre limpas e enfeitadas por anéis de ouro e pulseiras brilhantes.
Mu trocou um olhar breve com Shaka, ambos bem apreensivos e perdidos no que deveriam dizer, até que foi a vez de Virgem inclinar-se e com carinho lhe acariciar o peito, sobre o tecido leve do pijama.
— O Baba está bem, filho. Não se preocupe. Volte a dormir.
Kiki não acreditou nas palavras de Shaka, a aura do pai indiano lhe dizia que havia sim, algo errado com ele, mas estava com sono e cansado demais para interroga-lo. Deixaria isso para mais tarde. Com um bocejo longo e manhoso arrastou-se até Mu e aninhou a cabeça por sobre suas pernas.
— A viagem foi boa, papai? — perguntou já de olhos fechados, enquanto Mu lhe acariciava os cabelos.
— Foi. O papai encontrou uma lemuriana bem velhinha e enrugada.
— E ela sabia como fazer o Kiki ficar bom de novo? — o ruivinho disse ao abrir os olhos, mas logo que trocou um olhar com o pai os fechou novamente.
A pergunta, feita em tom tão esperançoso, fez os dois cavaleiros trocarem um olhar aflito cheio de pesar. Mu precisou morder os lábios e fechar os olhos com força para conter a vontade desesperadora que sentiu de cair mais uma vez em lágrimas. Com muito esforço engoliu o nó na garganta e puxando o filho mais para perto lhe respondeu:
— Não, meu amor. Sinto muito...
— Mas ela deu ao papai uma pista! — disse Shaka num tom forçosamente animado. Ele não podia permitir que Kiki perdesse as esperanças. — Não foi, Mu?
— Sim! Ela me deu uma pista muito importante! — Mu confirmou olhando para Shaka. — Tenho certeza de que não vai demorar para que eu encontre o lemuriano que vai saber curar você, filhotinho.
— Tudo bem, papai. O Kiki espera.
Mu não conseguiu dizer mais nada e nem Shaka. Ficaram os dois em silêncio por um longo tempo, velando o sono do filho, e quando pensavam que ele já havia voltado a dormir, eis que sua vozinha infantil, fraca e sonolenta, soou baixinho:
— O Kiki não consegue dormir. A cabeça dele tá tonta e doendo. Ele pode dormir com vocês?
Mu deu um sorriso fraco e imediatamente o puxou para seu colo, levantando-se em seguida da cama.
— Claro que pode, minha luzinha. Vem, vamos para o quarto do papai. O Baba vai pegar um remédio para essa tonteira boba e então dormimos os quatro juntinhos. Eu, você, o Baba...
— E o Saravá Ebó. — Kiki completou com um risinho, estendendo os braços para pedir o gatinho, que lhe foi entregue na mesma hora.
Negrito – traduzido do lemuriano arcaico e do hindi
***
Nosso grupo no face "Fics trio ternura" com muitas informações extras.
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.
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