Templo das Bacantes Vol. 3
15 Em briga de marido e mulher todos metem a colher
Notas iniciais

Sentado do alto de seu trono, Gêmeos podia contemplar em total deleite aquela visão fantástica!
No amplo salão principal do Décimo Terceiro Templo, as luzes fracas dos candeeiros a óleo refletiam-se, uma a uma, nas 88 armaduras, de ouro, prata e bronze, as quais perfiladas por ordem de patente compunham o sagrado exército que outrora fora de Atena, mas que agora ele tinha sob seu total jugo.
Um a um, sem nenhuma exceção, cada guerreiro hábil e temerário que ali estava lhe tinha jurado lealdade e obediência cegas.
Sob os pés deles o clássico carpete vermelho, que se estendia até os portões do salão, abertos ao fundo, estava encharcado de sangue e lhes manchavam as botas de metal das armaduras, as quais pareciam afundar lentamente, tragadas pelo líquido escarlate. Na mão de cada guerreiro, seguradas pelos cabelos estavam as cabeças dos inimigos do Santuário que foram derrotados em combate, em cujos olhos sem vida, esbugalhados e estáticos, ainda se conservava o terror de momentos antes da morte.
E sob os seus próprios pés, calçados em suntuosas sandálias de couro, jaziam as cabeças dos deuses do Olimpo, oferenda que ele mesmo exigira ao seu invencível exército de Santos.
O aroma ferroso do sangue dos inimigos, misturado ao odor ácido e forte do suor dos guerreiros, lhe eram os melhores dos perfumes, os quais ele inalava com satisfação. Aquele era o cheiro que a vitória carregava!
Aprumando a postura, enquanto pisava orgulhoso na cabeça enorme e assimétrica de Hefesto sob um de seus pés, ele colocou-se de pé, imponente e majestoso como um rei, e caminhou com igual altivez até a parte de trás do trono, onde cortinas espessas de veludo vermelho ao serem abertas deveriam revelar a emblemática estátua da deusa protetora daquele Santuário; mas desta tudo que restava agora eram apenas destroços que se espalhavam pelo chão lustroso de mármore. Em seu lugar, um enorme bloco de mármore de Carrara estava sendo moldado, e o som estridente das marretas e cinzéis a lapidarem-no soava como melodia aos seus tímpanos exigentes.
Com um sorriso de satisfação genuína a lhe enfeitar o rosto austero, o Patriarca acompanhava — mesmo através da neblina incômoda erguida pelo pó de mármore que lhe ardia os olhos — as dezenas de habilidosos escultores trazidos de toda a parte do globo a se equilibrarem nos andaimes que circundavam a peça de vinte metros de altura, cujo topo já começava a tomar a forma de suas próprias feições.
De fronte alta e queixo erguido ele contemplou o primoroso trabalho por um momento, até que sua vaidade se desse por satisfeita, então regressou ao interior do Templo. Seus compromissos e protocolos estavam encerrados naquele dia; assim, ele caminhou pelos corredores escuros da construção milenar até chegar aos seus aposentos. Iria recolher-se, porém sentia que algo ainda lhe faltava.
No entanto, tal sensação desapareceu completamente quando ao abrir a porta do quarto ele foi recepcionado por um delicioso e conhecido perfume de orquídeas negras, tão feminino e sedutor quanto a silhueta voluptuosa sobre sua cama.
Com passos languidos ele caminhou até o leito atravessando a penumbra aconchegante que envolvia o lugar, então ela revelou-se completa para ele.
Serpente. Nua em pelo.
Armada com o rútilo de sensualidade nos olhos violeta profundos e os lábios carnudos tintos em carmim, os mais desejáveis que ele já havia visto em toda a Terra, ela lhe sorria, amável e convidativa.
O Patriarca sentiu o corpo todo fremir em desejo, e sem reserva alguma tomou a amazona que tanto cobiçava em seus braços, correndo as mãos afoitas por sua pele macia para em seguida lhe tomar os lábios doces com um beijo efusivo, sentindo de pronto a maciez morna da língua aveludada, deleitando-se com o sabor adocicado tal qual o mais nobre vinho tinto.
Quente como brasa seu corpo forte se debruçou sobre o dela no leito. Gemeu quando ela lhe envolveu a cintura com as coxas firmes, e nessa hora seus dedos se emaranharam nos cabelos negros, mas quando ansiou por mergulhar o rosto naquele mar escuro de fios sedosos para tragar-lhe o perfume inebriante, eis que não havia mais odor algum... também não havia mais o beijo, nem o corpo quente debaixo do seu.
Não havia mais nada.
Com um suspiro sobressaltado o Patriarca abriu os olhos jades de escleróticas rubras e pupilas dilatadas, dando-se conta novamente da solidão absoluta que o rodeava. Suado e ofegante levantou o lençol apenas para comprovar que havia sofrido uma polução noturna. Suspirou enfadado. Ainda sentia o coração bater acelerado dentro do peito.
Soltando o lençol ele levou ambas as mãos ao rosto, esfregou e em seguida soltou uma longa e sonora gargalhada.
Era um presságio! Ele pensou. Certamente que um sonho como aquele, grandioso como se mostrara do início ao fim, só poderia ser o sinal que rogou às estrelas dias antes no monte Star Hill.
Este não poderia ter vindo em melhor momento!
Convicto de tal façanha, Gêmeos afastou o lençol que cobria sua nudez, deixou o leito e rumou direto para o banheiro.
Daria início aquele dia auspicioso injetado de novo ânimo.
***
Porto de Pireus, Baía de Zea, 09:00pm
Em frente à entrada principal do luxuoso Hotel Athenaeum InterContinental, um dos mais conceituados da região, que é conhecida por sua nobreza e por ser ponto de encontro da nata da sociedade grega, uma limusine preta encostava. De dentro dela, Geisty e Gêmeos — cada um alocado em uma das extremidades do extenso acento de couro — já podiam ouvir o alvoroço ruidoso da imprensa sensacionalista que se alimentava de eventos como aquele para se manter viva e forte. O glamour e a exploração da vida das celebridades eram o principal tema que estampava as páginas coloridas das revistas gregas de fofocas, e certamente a foto de Niko Poulopoulos, maior empresário da rede alimentícia da Grécia, e patrocinador daquele evento, estaria estampada em suas capas. Além de um dos homens mais ricos de Atenas, Niko também era frequentador assíduo do Templo das Bacantes desde sua inauguração há 8 anos, e por isso o dono da mais famosa casa noturna grega estava lá, acompanhado de sua belíssima esposa.
Antes da porta da limusine ser aberta, Geisty deu uma última conferida em seu batom vermelho, enquanto ajeitava no pescoço a gargantilha de rubis Cartier, uma peça deslumbrante que dava ainda mais destaque ao rosto de beleza estonteante e ao colo valorizado pelo decote copioso do vestido ousado, um modelo exclusivo de Jean Paul Gaultier todo em seda preta, uma cor que definitivamente não estava em sua lista de cores preferidas, mas que julgava perfeita para a ocasião, já que acompanhar Gêmeos em um evento social por mera formalidade era tão empolgante quanto ir a um funeral.
Na outra extremidade do banco do automóvel, Gêmeos fechava o botão de seu blazer Dolce & Gabbana em um tom de vinho profundo. Certamente que discrição era tudo o que ele não almejava naquela noite, ao contrário, ele queria todos os holofotes e as lentes das câmeras curiosas voltadas para si e para a esposa, assim ganharia mais e mais espaço na imprensa local, pois que no meio no qual seu ousado empreendimento estava inserido, a fama era combustível indispensável para se alcançar o sucesso. Naquela noite ele não era o Grande Mestre do Santuário de Atena; estava ali como o homem de negócios que era, buscando novas parcerias, quem sabe uma matéria de capa em uma das grandes revistas de celebridades gregas, uma vez que exposição era o mais barato e convincente dos marketings.
Há alguns anos que ele já vinha se firmando como uma das figuras mais célebres da elite grega. A esmagadora maioria desconhecia que era cavaleiro, regente absoluto de um exército de homens e mulheres com poderes excepcionais e chefe de uma organização criminosa local que operava em conjunto com nada menos que uma das máfias mais poderosas do planeta, a Vory v Zakone. Tudo o que as pessoas ordinárias sabiam de Saga Megalos era apenas que era um grande empresário ateniense dono de um mega empreendimento voltado para o entretenimento do melhor nível que o dinheiro é capaz de bancar.
Era dessa forma, como um empresário famoso, que ele conseguia atrair a atenção de investidores do mundo todo e manter-se invisível aos olhos da polícia.
— Lembra-se do que conversamos mais cedo, certo? — disse Gêmeos, e de pronto foi interrompido por Geisty que suspirou entediada revirando os olhos.
— Ah, que saco! Quantas vezes vai me fazer repetir que sim, eu me lembro! — ela reclamou enquanto ajeitava sobre os ombros a pala de pele de raposa branca — Preciso parecer alegre. Essa merda de festa vai estar cheia de figurões com promessas de promissores negócios futuros, e como diretora administrativa do Templo das Bacantes e... sua esposa... é... — fez uma pausa e o encarou com um olhar raivoso.
— É fundamental que fique ao meu lado e pareça feliz. — ele completou a frase dela com um sorriso cínico e espontâneo — Uma bela mulher atrai a atenção de todos, além de agregar valor e respeito ao homem que é acompanhado por ela.
Ela sorriu de volta com o mesmo cinismo.
— O fato de eu ser uma beldade já bem conhecida da maioria dos homens que estão aqui, o valor agregado é maior ou menor?
Gêmeos pigarreou arrumando a gravata, visivelmente irritado, o que fez a amazona dar uma alta gargalhada.
— Não se preocupe, eu já conheço toda a dinâmica desse teatro, Gêmeos. Pode poupar o seu latim, digo o seu grego... O interesse em fazer o nosso negócio prosperar é meu também. Muitas garotas e garotos ainda dependem do Templo das Bacantes. Aquele bordel, e nós, somos toda a família que eles têm.
— Certo. — disse ele sem entusiasmo — Pronta?
— Sim. — respondeu ela com igual falta de emoção.
Com um toque no vidro, o recepcionista do hotel abriu a porta da limusine e dela eles saltaram sob uma enxurrada de flashes fotográficos e perguntas afoitas dos repórteres que estavam ali para cobrir o evento.
Se esforçando para expor um carisma que na verdade lhe faltava, Gêmeos escorava-se na figura da amazona, tirando proveito da situação para abraça-la pela cintura e trazê-la cada vez mais para perto de si; e assim ambos posavam para os fotógrafos vendendo a falsa imagem do casal belo e feliz que não eram.
E que suplício era para Geisty esses poucos minutos na frente das câmeras...
O desconforto de sentir a mão daquele homem apoiada em seu quadril, somado ao tormento de experimentar o corpo dele colado à lateral do seu, eram sentimentos dignos de serem listados em um dos 13 trabalhos de Hércules. No entanto, ela se mantinha firme e sorria, espontâneo e convincentemente, mostrando seus alvos e alinhadíssimos dentes, enquanto mentalmente contava os segundos para que aquele momento acabasse.
Logo estavam rodeados pela imprensa, que se digladiava entre si e os seguranças do evento em busca de espaço, enquanto dezenas de microfones e celulares eram posicionados à frente de seus rostos lhes fazendo todo tipo de pergunta desconfortável e invasiva, como a já costumeira cobrança por filhos, uma vez que, aos olhos do povo, eles eram um casal já com alguns anos de votos trocados e até agora nenhum herdeiro. Nessas horas, tanto Geisty quanto Gêmeos desconversavam e davam as entrevistas por encerradas.
Assim que conseguiram enfim entrar no hotel, Geisty tratou logo de se desvencilhar do abraço desconfortável de Gêmeos, então discretamente, lado a lado e bem próximos, porém sem se tocarem, eles seguiram até a mesa que lhes fora destinada, e que para a infelicidade do cavaleiro estava mais distante do que desejava das mesas dos executivos com quem pretendia fechar negócios naquela noite. Para piorar, a insatisfação da amazona em estar ali consigo era notória. Não que ele se importasse com o bem estar dela, era fato, mas uma companhia com cara de poucos amigos, prostrada ao seu lado feito uma carcaça sem alma, não lhe ajudava em nada nas negociatas, além de tornar os planos que traçara para a amazona naquela noite um tanto mais difíceis. Queria aproximar-se dela, nunca havia verdadeiramente desistido de convencê-la a unir-se a si, ao contrário, estava ainda mais convicto de que era isso que teria que fazer depois do sonho que tivera naquela manhã, o qual considerou ser um presságio de ótimo agouro.
Mas, para que seus planos dessem bons frutos parecia que ele precisaria mexer alguns pauzinhos.
Convencido fez um sinal para o garçom e em poucos minutos duas taças de prosecco lhes foram servidas.
Erguendo a taça no ar Gêmeos propôs um brinde à esposa.
— À essa noite, minha cara.
— Não tenho motivo nenhum para brindar, você sabe bem disso. — ela disse ríspida, e em seguida sorveu a bebida da taça quase que por completo.
Bem menos apressado ele saboreou a bebida enquanto mantinha os olhos fixos nela.
De fato Geisty nenhuma alegria tinha para brindar. Não havia muito com o que se alegrar nos últimos tempos. Não bastasse ter de estar ali na companhia de uma criatura que detestava, e encenando aquele papel patético, seu coração e seus pensamentos não saíam do Santuário, da Casa de Virgem, em Kiki, seu sobrinho, e embora não se importasse, Gêmeos sabia disso.
— Eu estou ciente do momento ruim pelo qual tem passado, amazona. — ele disse. Não era a doença do pequeno lemuriano que iria atrapalhar seus planos.
— Você está? — ela perguntou com desdém.
— Sim, eu estou. — com a taça ainda erguida no ar ele agora empregava um tom mais ameno à voz — Eu sei o que o menino de Áries e Virgem representa para você... E, além da preocupação com a saúde dele, ainda há uma enxurrada de atribuições que estão sendo jogadas nas suas costas.
— É... — ela inclinou-se para ele e o encarou nos olhos — Acho que a nossa última conversa sobre o assunto foi bem esclarecedora para você, não foi?
— Digamos que sim.
— Imaginei. É pena que mesmo assim você ainda insista em tecer uma crítica velada ao Mu.
— Não teci crítica nenhuma. Foi uma constatação óbvia. — ele deu de ombros — Você está sobrecarregada de tarefas, Serpente.
— Eu sempre estou atolada de tarefas, Gêmeos... E elas, na verdade, não me incomodam em nada... O que me incomoda de verdade você quer saber o que é? É estar aqui hoje. Nessa merda de festa.
O grego respirou fundo; paciência era uma virtude difícil, porém necessária. Recostando as costas na cadeira ele sorriu para ela.
— Então, já que você não tem escolha, use o momento enfadonho para esquecer dos seus problemas por algum instante. — deu um gole na bebida estalando a língua no céu da boca, depois fez outro sinal ao garçom pedindo outra dose para a amazona. Assim que a bebida chegou ele mesmo apanhou a taça e entregou a ela. — Não temos como fugir dessa merda aqui, especialmente você... Então vamos tirar o melhor dela. Pelo menos por essa noite se permita aproveitar a vida e deixar os problemas de lado, nem que seja os afogando em um prosecco fino.
— Ah, quem me dera pudesse afogar os meus problemas nessa taça, Gêmeos, mas infelizmente o maior de todos eles não cabe nela, você! — sorriu cínica e bateu sua taça contra a dele produzindo um sutil tilintar.
Enquanto ela sorvia a bebida ele deu uma sonora risada, logo em seguida pediu mais uma dose ao garçom e quando este veio lhe entregar o pedido ele solicitou que deixasse a garrafa toda sobre a mesa. Conforme Geisty esvaziava sua taça, prontamente ele a reabastecia, sempre puxando assuntos variados que sabia não ser do interesse dela, mas que a mantinham distraída.
A amazona fingia atenção, às vezes rindo, num misto de concordância e deboche, ainda que guardasse quase sempre o último para si mesma, pois nada ingênua já tinha percebido a intenção nítida dele em deixa-la bêbada. Todo aquele papo de aproveitar o momento, a falsa compreensão pela dor dos irmãos de armas, eram meras falácias. Ela já conhecia bem seu tipo baixo e vil, conhecia melhor do que gostaria. Ele ainda iria propor muitos brindes naquela noite, para quem sabe, chegar à sua boca, a seus beijos; ela sabia disso. O que ele não sabia era que a boca que ela mais tinha beijado nos últimos seis anos era a de uma garrafa de Chianti.
Tolo. Ela pensou, enquanto deixava que ele lhe servisse mais uma dose.
Além do Chianti, nos últimos três anos, com a abertura do Piriquitão Night Club, uma filial brasileira de um icônico boteco carioca erguida em solo ateniense por um compadre de Aldebaran de Touro, a cachaça brasileira e a cerveja amarga regavam os happy hours que fazia ao menos duas vezes por semana na companhia de Mu e Afrodite. Ela tinha se acostumado a beber.
Mas ele não sabia disso. Ele não sabia nada sobre ela.
Como o temerário que ri na cara do perigo, Geisty bebia uma taça após a outra do prosecco, eventualmente levantando ela mesma um brinde.
— À essa noite de merda! — ela disse fechando os olhos e sorrindo, e ele brindou sentindo-se eufórico.
Passadas um pouco mais de uma hora e algumas taças de prosecco, na pista de dança Gêmeos e Geisty eram embalados pelas canções animadas que tocavam no evento, as quais os faziam querer arriscar alguns passos não tão harmoniosos... A amazona enfim estava empenhada em afastar por uma noite as mazelas da vida e curtir a festa, e para uma boa ariana energia era o que não faltava a ela. Mesmo que a companhia não a agradasse, ela tinha que admitir que naquela noite Gêmeos estava se esforçando para ser-lhe minimamente agradável, ainda que tal empenho lhe gerasse severas desconfianças.
Lá pelas tantas, depois de mais alguns drinks, mas ainda completamente sã, ela aceitou um convite dele para dançarem um ritmo mais lento, pois estava claro para si que ele queria exibi-la no salão diante dos olhares masculinos que a cobiçavam.
Quando a proximidade com ele atingia um nível de desconforto severo, Geisty discretamente se separava dele e seguia para a mesa. Não demorava muito Gêmeos vinha juntar-se a ela trazendo consigo alguns dos figurões com quem pretendia fechar negócios. Os acordos aconteciam ali, sempre na companhia da bela italiana, que era de fato uma distração bem competente para qualquer raciocínio lógico em meio a conversas de negócios.
Em dado momento, quando voltaram à pista de dança, Gêmeos aproveitou-se de outro ritmo lento para trazê-la para mais junto dele e lhe falar rente ao ouvido.
— Olhe discretamente para sua direita. — sussurrou quase roçando os lábios na orelha dela, lhe causando um arrepio involuntário, mas que ele tomou como um sinal positivo. — Há um fotografo da Marie Claire nos fotografando.
Ela pigarreou e depois olhou na direção proposta.
— Não há necessidade de você falar encostando a boca na minha orelha. — disse injuriada tendo um espasmo involuntário dos ombros.
— Se preferir eu posso te beijar! — disse num tom cínico e atrevido.
Geisty aprumou o corpo soltando outro pigarro, deixando claro seu incômodo:
— Faça isso e aí sim eles terão uma matéria de capa bombástica para estampar nas revistas amanhã. — ela o encarou raivosa — Esposa de Saga Megalos, que está possuído por um espírito de porco, quebra o nariz dele em plena pista de dança.
Gêmeos deu um riso cheio de malícia. Sentiu um gostinho fugaz de vitória lhe adoçar a boca, porque a irritação dela só poderia significar orgulho. Era óbvio que ela estava instigada.
— Está vendo aquele homem na mesa ao lado do fotógrafo? — disse, novamente encostando os lábios na orelha dela.
Ela não respondeu, mas olhava para direção proposta.
— Ele é o dono da mais influente empresa norueguesa de transporte de pescados pelo mundo. Eu preciso fechar um contrato com ele.
— Aquele do cavanhaque ridículo? — ela disse apontando para ele com a taça na mão.
— Por obséquio, mulher! Qual parte do discreta você não ouviu? — sussurrou injuriado.
— Eu sou italiana, você está me pedindo discrição? Ah! Vafamcullo!... Já o vi no Templo das Bacantes... Cara discreto, apesar do mau gosto pela barbicha de merda, mas é bom pagador.
— Exato, ele é discreto e cauteloso. Bem detalhista nos termos dos negócios que fecha.
— Hum... E você espera que eu o distraia enquanto usa sua lábia para convencê-lo a fechar um acordo, certo?
— Não acredito que com ele essa estratégia iria funcionar.
— Como assim?
— Como assim, minha cara amazona? Naquela idade, e com toda a fortuna acumulada que ele tem, eu creio que somente um par de seios fartos saltando de um decote não seja o suficiente para persuadi-lo.
Ela parou de dançar e olhou para ele. Seu semblante era sério e irritadiço.
— Ah... entendi. É isso que sempre pensou de mim, não é? Sou só um par de seios fartos, mas um par de seios fartos capaz de convencer qualquer idiota desse mundo através de ilusões.
— Bingo!
Geisty deu uma gargalhada sonora.
— Ah, Grande Mestre, você não muda, né? Eu nunca deixei de ser uma prostituta para você, porque é nesse papel que você aceita me ver.
— Não foi isso que eu disse.
— E é preciso dizer? — ela retrucou de imediato. — Saga criou o Templo das Bacantes para tentar salvar o Santuário da ruína e me salvar da Vory e do Kanon, mas você... Você criou ele para mim! — o encarando firme nos olhos ela deu um gole no prosecco e separou-se dele dois passos antes de continuar: — Sua intenção sempre foi me humilhar, me pôr no lugar que você julgava que eu pertencia, porque é isso que você pensa de mim, Gêmeos... Que eu sou uma puta. — deu uma gargalhada — Ah... mas, ao contrário do que pensa, eu não me importo... Não me importo com você, Grande Mestre. Não me importo com o que pensa. Mesmo porque, até uma puta tem mais dignidade que você.
— Ah, é mesmo?! — disse ele desdenhoso, arqueando uma sobrancelha.
— Sim, é. Aquele porco ali seria um bom investidor? Sim, seria. Talvez por isso eu já tenha feito contato com ele há alguns meses e estamos prestes a fechar negócios. — ela disse, e para a surpresa do grego ela acenava para o homem na mesa, que lhe acenava de volta com um largo sorriso.
— Você o quê? — Gêmeos perguntou surpreso.
— Eu já o tenho nas mãos. Esse acordo vai ser um dos melhores que já fechei para o bordel que você tanto desdenha... De quebra ainda tenho certeza de que vai sobrar uma farpela para merda da sua máfia.
— Por que não me disse que estava negociando com ele?
— Por que não te devo satisfação. Sou eu que toco aquele bordel, Gêmeos. É graças a mim, Afrodite e Mu, e não a você, que não falta comida na sua mesa e nem na de ninguém ali no Santuário. — ela o encarava novamente. — Ainda sobra um troco ao final de cada mês para custear os nossos luxos... E se me permite, eu tenho um novo par para puxar para dançar. Com licença.
Dito isso, Geisty se desvencilhou de Gêmeos no mesmo momento em que a balada romântica terminava e as luzes eram novamente acesas, então ela caminhou até a mesa do velho empresário norueguês e com todo o seu charme o tirou para uma dança. Ele aceitou de pronto.
Sozinho, Gêmeos caminhou até o bar e pediu uma bebida. Por mais que se sentisse afrontado não podia deixar de admirar a sagacidade da amazona, e se bem conhecia aquela mulher, sairia dali naquela noite com um acordo duas vezes mais vantajoso do que o pensava propor aquele homem.
Mais uma vez então ele pensou no sonho que tivera naquela manhã, e o presente começava a delinear as linhas do futuro glorioso que o aguardava.
Santuário de Atena, 01:30am.
As primeiras semanas da primavera na Grécia sempre mantinham a tradição de carregar consigo alguns resquícios do inverno passado. Por isso aquela noite estava nublada, e sem nenhuma estrela no céu e a lua crescente parcialmente coberta, luz alguma havia no Santuário para iluminar o caminho dos dois moradores que retornavam da boemia e subiam vagarosamente as escadarias até a Casa de Gêmeos.
Quando entrou no corredor da área residencial do Templo, Geisty apoiou-se em uma das colunas de pedra e apressadamente desafivelou as sandálias de salto agulha, as abandonando por ali mesmo para seguir descalça o resto do percurso até o quarto que era só seu. No caminho também aproveitava para abrir a lateral do vestido justíssimo, manobra que não passou despercebida pelos olhos maliciosos de Gêmeos, os quais acompanharam o caminho percorrido pelo zíper sem nem ao menos piscarem. A pele bronzeada revelada por debaixo da fenda aberta causou um frisson ao grego e o fez morder os próprios lábios.
A cada dia que passava se tornava mais complicado para ele ignorar, ou mesmo negar, a atração que sentia pela amazona de Serpente. Por vezes ele se pegava perdido em pensamentos, maquinando situações, e se surpreendia ao constatar que só havia um caminho certo a seguir. Ela era a mulher ideal para ele. A única com inteligência e poder à altura para governar ao seu lado.
Era justamente nisso que ele pensava quando a chuva começou a cair e junto com seu barulho ouviu Geisty abrir a porta do quarto.
— Boa noite, Gêmeos. — como manda a regra básica de educação ela despediu-se dele antes de bater a porta com força depois de entrar.
Exausta ela caminhou até a cama, onde se jogou do jeito que estava mesmo, aninhando-se sob as cobertas.
O som da chuva forte não a deixou ouvir o dos passos se aproximando da porta.
Do lado de fora do quarto o geminiano tinha os olhos febris fitos na maçaneta de bronze, mas sua visão, que a momentos antes era plena e nítida, de repente se desfocou, e no mesmo instante uma dor excruciante na cabeça o fez comprimir as pálpebras e levar as mãos à fronte. Sua respiração então ficou pesada, acelerada, dificultosa.
Ele murmurou meia dúzia de impropérios e a passos torpes deixou o local, à contra gosto. Seguiu até a suíte que mantinha ali e apressado foi até o armário do banheiro, onde com as mãos trêmulas alcançou um dos frascos de analgésicos a base de opióides que usava com frequência. Os virou em quantidade irregular garganta a baixo. Só precisava livrar-se daquela dor desesperadora e já velha conhecida sua. Não deixaria que ela o dominasse, não dessa vez, pois estava tão certo do que precisava fazer.
Cerca de uma hora havia se passado.
Geisty ressoava baixinho entre as cobertas num sono pesado, totalmente entregue ao cansaço, quando a presença funesta que invadiu o quarto se esgueirou em meio a escuridão e subiu na cama, já arrastando-se sorrateira por sob os lençóis macios. Sem nenhuma cerimônia colou seu corpo forte e quente, coberto apenas por um fino roupão preto de seda, ao dela, enquanto a mão buliçosa serpenteava as coxas nuas já se infiltrando por debaixo do vestido. Dos lábios quentes que sugavam afoitos a orelha dela um sussurro grotesco, dito em um tom de voz carregado em luxúria, escapou:
— Boa noite, Geisty.
No mesmo instante a amazona arregalou os olhos violetas, desperta em espanto.
Tão logo ela sentiu o odor do hálito a sufocar suas narinas e ouviu a voz grotesca, uma lembrança terrível lhe provocou um calafrio de medo, então ela deu um salto ligeiro da cama e correu até o interruptor acionando a luz. Não que fosse preciso qualquer claridade para a identidade do intruso ser revelada.
— Porca madonna! Ma che não acredito no que estou vendo... Que merda você está fazendo aqui? — disse aos gritos, assustada, ofegante, com parte do vestido a escorregar-lhe revelando o ombro. Estava transtornada ao ponto que mal conseguia falar; sentia os lábios trêmulos, assim como cada fibra muscular de seu corpo cansado.
— O que estou fazendo aqui? — Gêmeos respondeu sentando-se calmamente sobre os lençóis, revelando sua nudez através da abertura no roupão — Ora, amazona, não se faça de dissimulada, não para cima de mim. Esse papel não condiz nada com sua natureza. — deu um sorriso carregado de malícia.
— Do... do que você está falando, seu demente? — ela elevou o tom de voz até quase um grito. — Saia daqui! Esse é meu quarto. Sai! Sai daqui!
Afoita, e totalmente desnorteada, ela agarrou a maçaneta da porta para abri-la, mas qual não foi sua surpresa ao ver que ele a tinha trancado à chaves. Não que uma simples fechadura a fosse impedir de sair dali, mas aquele era o Templo de Gêmeos, e seu guardião, o mesmo que estava nu em sua cama, tinha total controle dele.
— Do que eu estou falando? Faça-me o favor, Geisty. — ele disse em tom de deboche, enquanto se arrastava para a beirada da cama e se punha de pé. — Acha que não notei seu comportamento nesta noite, durante a festa?
— O quê?... Você quer me por louca de vez? Que comportamento? — ela perguntou ajeitando o vestido.
— Por acaso me toma por um energúmeno ingênuo e inexperiente que não é capaz de notar quando uma mulher lhe está dando mole? Lhe está sendo fácil?... Eu vi o seu caminhar insinuante pelo corredor... toda sensual querendo se livrar do vestido. — fez uma pausa para correr os olhos famintos pelo corpo dela enquanto dava uma risadinha incômoda — Ainda está com ele... Estava me esperando para terminar de tira-lo, não é?
— Que... que absurdo! — ela gritou desconcertada cruzando os braços, tentando se defender daqueles olhos lascivos.
— Pois bem, estou aqui. Eu aceito fazer esse seu joguinho de sedução.
— CALA A BOCA! — ela gritou ainda mais alto, e enlouquecida de raiva, medo e indignação, apontou o dedo para ele. Sua mão tremia convulsa. — Cala a boca seu desgraçado! Eu o acompanhei naquela merda de festa da mesma forma que o acompanhei em tantas outras, com profissionalismo, porque você precisava da minha presença lá. Por que o Templo das Bacantes precisava da minha presença lá.
— Ah, sim, os nossos negócios e eu precisávamos de você. E agora você precisa de mim. Eu vejo isso nos seus olhos. — ele disse avançando até ela em passos lentos.
— Não se atreva seu asqueroso lunático! Você é completamente louco! — ela recuou até suas costas chocarem-se contra a porta.
— Deixa de ser orgulhosa, eu sei que você quer. Eu estou aqui... Ambos precisamos um do outro, aceite isso, Geisty. Seja inteligente! Fazemos uma ótima parceria. E agora, mais do que nunca, estou precisando mais uma vez da sua parceria, se é que não notou. — disse deixando em evidência pela abertura do roupão a ereção entre suas pernas. — Eu não vou sair deste quarto até você voltar a se deitar nessa cama, só que comigo... Te asseguro que não vai se arrepender. Eu vou te dar tudo o que você quer e muito mais, boneca.
— SEU... BABACA RIDÍCULO! Eu prefiro lutar sozinha com todos os espectros de Hades a me deitar nessa cama com você! — ela gritou enfurecida como um cão danado, então sem pestanejar acendeu e elevou seu Cosmo a um nível altíssimo, o que provocou a ira imediata dele.
— Dissipe esse Cosmo agora, amazona. É uma ordem! — ele rosnou aflito.
Ela não só não obedeceu à ordem como, munida de uma força ampliada pelo ódio que sentia fazer tremer cada fibra de seu corpo, chutou a porta com tanta violência que a maçaneta ficou cravada na pedra da parede do lado de fora.
— VÁ SE FODER, GÊMEOS! E sim, eu vou te xingar em grego, porque eu quero que você entenda tudo o que penso de você seu pulha nojento, porco asqueroso, filho de uma puta sarnenta! Seu psicopata miserável, SAIA DO MEU QUARTO AGORA! — apontou para fora com o dedo de garra longa em riste.
— CALA BOCA, CARALHO! — ele berrou ainda mais alto, depois baixou o tom novamente — E suprima esse Cosmo antes que eu acenda o meu e te dê uma lição de verdade!
Por sorte a ameaça do geminiano não se concretizou. Fosse porque Geisty não pensou duas vezes em dar-lhe as costas para deixar o quarto ela mesma, ou dada à perspicácia dos dois cavaleiros vizinhos daquele Templo, que assim que sentiram o Cosmo da amazona explodir brotaram ali na mesma hora, a tempo ainda de ver a porta sendo aberta com um chute e ouvir os gritos e trocas de ofensas de ambos.
Ao topar com ambos ali, Geisty arregalou os olhos e deu um grito, assustada, e a cena que eles viam era no mínimo indigesta e constrangedora. Ela parecia aterrorizada, toda desmazelada, vestido aberto, enquanto o Patriarca estava de pé no meio do aposento com cara de poucos amigos — para não dizer nenhum amigo. Seu roupão desmantelado no corpo não mostrava muita coisa, mas também não escondia nada de forma convincente.
— Aldebaran! Máscara! — a amazona disse num soluço aflito.
— Tudo certo aí, dona patroa? — Touro perguntou enquanto limpava a boca suja de maionese com as costas da mão enorme. Ainda tinha nela metade do quitute, o qual mastigava com voracidade. Era certo que havia sido pego pelo sinal do Cosmo dela em um momento de pura descontração, pois que vestia uma camisa imensa do seu time do coração, o Flamengo, que de tão velha e surrada já tinha a costura debaixo do braço toda carcomida, um shorts de malha vagabundo que deixava suas coxas peludas e grossas à mostra e um chinelo havaiana.
— Má che tá na cara dela que non, né uomo? — Máscara da Morte foi quem respondeu, num sussurro direcionado ao brasileiro. O cigarro murcho pela metade que tinha entre os lábios sacolejou com as palavras derrubando um punhado de cinzas no acento da cadeira de madeira que ele trazia nas mãos. Sim ele segurava uma cadeira. — Tá precisando de alguma cosa, donna?
Rapidamente, e sem nenhuma discrição, Geisty correu os olhos pela figura do canceriano à sua frente, um tanto confusa com o que via, já que ele estava seminu. Somente uma cueca zorba samba canção, num tom de cinza horroroso, bem apropriado à sua índole nefasta, lhe cobria as vergonhas. Os cabelos estavam molhados e haviam sido tão puxados para trás com um pente que suas sobrancelhas, que já eram naturalmente expressivas, formavam dois arcos perfeitos. Descalço, ele estranhamente tinha o dedão do pé esquerdo levantado como se estivesse dando um “joinha”.
— Eu... eu... — ela não conseguia responder. O estresse da situação e aquele dedo levantado minaram toda sua concentração.
Sem nenhuma cerimônia Aldebaran esticou sua carcaça curiosa para dentro do quarto. Foi quando olhou diretamente nos olhos de Gêmeos.
— Beleza, patrão? Boa noite. Tu me chamou? — perguntou com seu vozeirão troante.
— Não Aldebaran, eu não o chamei. Não chamei ninguém! Por que diabos eu haveria de chama-los à uma hora dessas da madrugada? — praguejou Gêmeos irritado em vê-los ali, e naqueles trajes.
— Ué, por quê? Eu num sei não, patrão.
— Má é claro que você non sabe. Quem tem que saber é ele que chamou. — disse Máscara da Morte dando de ombros enquanto colocava a cadeira no chão, na porta do quarto.
— É mermo! Ele chamou tu também, carcamano?
— EU JÁ DISSE QUE NÃO CHAMEI NINGUÉM! — gritou Gêmeos enfurecido.
— Non. Io ele non chamo. Io vim porque quis. — disse Câncer apagando o cigarro na língua. Jogou a bituca no chão ali mesmo, na entrada do quarto.
“Ah italiano burro do caralho!”, pensou aflito Aldebaran arregalando os olhos jabuticabas para o canceriano, e este, vendo que tinha metido os pés pelas mãos tratou logo de se emendar, ainda que de fato não visse motivos para mentir. Estava ali por ter sentido o Cosmo de Geisty explodir, e como todos sabiam, imaginou que ela estivesse em perigo, mas era melhor não criar um conflito justamente com o Grande Mestre.
— Má io vim aqui cobrar as minhas horas extras em atraso nesse mês. — disse cruzando as pernas e se ajeitando confortavelmente na cadeira.
— O... quê? — disse Gêmeos tão confuso quanto indignado.
Aldebaran levou a mãos aos olhos os apertando com força. Já suava em bicas de nervoso. Se existia alguém ruim para dar desculpas, mesmo que esfarrapadas, esse alguém era Máscara da Morte.
Geisty estava pasma. Mas nem naquele cenário absurdo ela deixava de encarar Gêmeos com a fúria de uma onça que encara o caçador.
— O quê nada. Má io non sou relógio para trabalhar de graça, capito? Minhas horas extras do mês que voi ainda non me pagou. — esticou o braço balançando a mão aberta no ar com a palma virada pra cima.
— Você está achando que eu sou algum tipo de idiota, Câncer? — rosnou Gêmeos.
— Idiota? Non. Explorador sì. Muquirana, sì, di sicuro! Pois você non me faz trabalhar na hora que você quer? Io estou tomando mio banho e lá vem você: Máscara da Morte de Câncer saia em tal missão. Estou cozinhando minha pasta: Máscara da Morte de Câncer, vá receber o carregamento de armas no porto de Pireus. Estou coçando a porra das minhas bolas: Máscara da Morte de Câncer, faça hora extra no Templo das Bacantes hoje, mesmo nos mios dias de folga... — o italiano revirou os olhos e deu uma bufada demonstrando fastio — Então, se io posso trabalhar a hora que você quiser, io também posso querer receber o mio pagamento a hora que io quiser. E quero receber agora. — olhou para ele e sorriu mostrando seus caninos pontiagudos.
Aproveitando a deixa, Aldebaran deu um passo à frente terminando por enfiar na boca o resto do petisco. Na manobra, discretamente empurrou Geisty para fora do quarto e bloqueou a porta com seu corpo avantajado.
— Ah! Se tu vai adiantar pro Máscara, ô patrão, adianta o meu também, porque eu tô mais duro que pau de tarado. — disse passando os dedos entre as mechas ligeiramente longas de seu cabelo escuro — Sabe como é, né... Gastei meu soldo todo nesse último carnaval. Até meu extra de férias. Qualquer mariola é bem vinda.
— Valeu à pena almeno? — perguntou Câncer.
— Ah, se valeu! — ele respondeu alisando o abdome com ambas as mãos, como se tivesse terminado de fazer uma refeição substanciosa.
Tamanha era a perplexidade com que Gêmeos olhava para Câncer e Touro naquele momento que a pálpebra inferior de um de seus olhos pulsava lépida, o deixando com uma diagramação estranha no rosto lívido, mas percebeu logo a ausência de Geisty do quarto.
— Aonde pensa que vai, Serpente? Volte aqui! — ele gritou avançando até a porta, mas parou de frente aos dois cavaleiros. Câncer sentado na cadeira de pernas cruzadas, e Touro bloqueando a passagem. Ambos a encara-lo com seus olhos faiscantes.
O recado havia sido dado. Ele sabia que se quisesse passar dali para ir atrás dela teria que assumir aos dois suas intenções pérfidas. Ele não faria isso. Não por receio ou qualquer outro sentimento que demonstrasse decoro, mas porque ele era o Grande Mestre; esperava-se que seus atos fossem dotados de honra e uma ética irrefutável.
— Vocês dois... — ele os encarou possesso em fúria — Saiam da minha casa... Agora!
Aldebaran e Máscara da Morte trocaram um olhar ligeiro. Ambos monitoravam o Cosmo de Geisty para saber quando ela estaria do lado de fora do Templo, assim Gêmeos não seria capaz de mantê-la ali através do labirinto ilusório.
— Va bene... — disse Câncer levantando-se da cadeira. — Ma io já imaginava que você non ia me pagar mesmo. Oggi, quando eu levantei da cama, o mio dedão do pé, este aqui... — apontou para o dedo levantado que fazia um “joinha” — Estava assim... torto. E quando mio dedão entorta assim é porque nada vai dar certo nesse dia. Mas... non custava tentar, non é vero?
— Saiam daqui agora antes que eu arranque o seu dedão, Câncer, e o faça engoli-lo! SAIA! SAIAM! OS DOIS! SUMAM DAQUI MALDITOS!
Do final do corredor Geisty ouvia os gritos de Gêmeos, e um calafrio intenso a fez apertar o passo. Ela então cruzou às pressas e aos tropeços o corredor escuro daquele Templo, sentindo o assoalho rústico de pedra machucar seus pés descalços castigados naquela noite pelo sapato fino, motivo que não a fez diminuir os passos, pois tudo o que mais queria era estar o mais longe possível daquela casa, daquele homem.
Quando ela avistou a saída correu desesperadamente para fora. Nem a chuva torrencial que caía e o show de luzes no céu provocado pelos relâmpagos a intimidou. Ela seguiu no mesmo ritmo alucinado até alcançar os primeiros degraus da escadaria da Casa de Câncer, e nessa hora o frio impiedoso da chuva, somado ao medo e ao vazio escuro da noite, a tocaram fundo na alma, e ela sentiu um desalento de morte.
De cabeça baixa ela parou, abraçou a si mesma e chorou.
Por quantos anos ela tinha segurado aquelas lágrimas, que agora desciam pelo seu rosto aterrorizado misturadas à chuva fria que escorria por seus cabelos. Quanto tempo mais ela iria insistir naquela batalha claramente perdida?
De repente sentiu o Cosmo de Gêmeos elevando-se e então seu coração disparou. Em sobressalto ela levantou a cabeça e olhou para trás, para a entrada da Terceira Casa, e com um soluço convulso o viu ali parado; a personificação do horror.
Os olhos dele faiscavam voltados para a direção dela, mas seu olhar parecia atravessa-la e se fixar em um ponto além. Então eis que nessa hora Geisty sentiu um Cosmo poderoso chocar-se violentamente contra o dele no mesmo instante em que um toque gentil em seus cabelos encharcados a fez olhar para frente.
— AFRODITE! — ela disse o nome do cavaleiro num grito em meio ao choro, e sentindo um alento inesperado lhe confortar o coração atirou-se nos braços do pisciano o abraçando com toda força.
O Santo de Peixes, que não trajava sua armadura, mas apenas um pijama de seda de short curtíssimo, e tinha os cabelos presos com grampos em uma touca alisadora, sem titubear tomou a amazona no colo enquanto encarava os olhos mortiços do Patriarca sem desviar nem por um segundo.
“Não precisa descer, Mu. Já estou com ela. Está tudo sob controle. Vou leva-la para minha casa.”
Afrodite falava com Áries pelo Cosmo, deixando que Gêmeos também os ouvisse. O cuidado dos amigos com a amazona nunca fora negligenciado nesses quase seis anos de convívio dela com o Patriarca, e de alguma forma o geminiano sabia que não era inteligente confrontá-los, ainda que por diversas vezes o tenha feito. No entanto, naquela vez ele tinha consciência de que havia forçado uma situação com a amazona, e que entrar em um confronto direto com Peixes ali não a reverteria. Seus planos haviam falhado mais uma vez, e nem à força conseguiria o que queria, pois que Geisty faria um escândalo maior ainda. Furioso ele simplesmente ficou onde estava, imóvel, enquanto via Afrodite lhe dar as costas e subir as escadarias levando no colo a amazona consigo.
Casa de Peixes, 02:44am
No banheiro enorme de chão e paredes revestidas em mármore esverdeado, ajoelhado do lado de fora da banheira de louça branca Afrodite esfregava as costas de Geisty com uma bucha vegetal embebida em Aloe Vera.
Desde que chegaram ali a amazona nada disse, e o cavaleiro, compreendendo que ela precisava daquele momento, também nada perguntou. Tinha percebido que ela estava visivelmente embriagada, mas ainda completamente ciente de seus atos. Graças à Atena! A ajudou a tirar o vestido encharcado, a roupa de baixo — já não existia mais pudores entre eles depois de anos de convivência e cumplicidade — e enquanto ela ainda chorava soluçante a sentou na banheira deixando que a água morna e limpa cumprisse o papel de lhe aquecer o corpo e trazer algum conforto ao espírito. Ele sabia que algo grave havia acontecido, pois que naqueles seis anos foram raras as vezes em que a viu chorar daquela maneira, e quase sempre as crises de choro aconteciam em uma data especifica: no aniversário de nascimento e morte dos filhos.
Mas dessa vez o motivo era claramente Gêmeos.
Aquela situação estava ficando insustentável.
Pensando nisso Afrodite deu um longo suspiro e usando seu Cosmo materializou algumas pétalas de rosas brancas, as quais caíram sobre a água na banheira como uma chuva perfumada e delicada. Elas exalavam um aroma com propriedades calmantes, e pouco a pouco cumpriam seu papel.
Logo o choro de Geisty tornara-se um leve murmurinho.
— Desculpa tirar você da sua casa a essa hora... Já deveria estar dormindo. — ela sussurrou abraçada aos joelhos.
Afrodite ficou aliviado em ouvir a voz dela, mesmo que chorosa. Deixou a bucha sobre a banheira e com as mãos mesmo jogou água sobre as costas morenas.
— Eu não estava dormindo... Estava na cozinha fervendo babosa para fazer meu creme contra pano branco, picada de inseto, torções, conjuntivite... — ele respondeu enquanto despejava shampoo na palma da mão e depois levava até os cabelos negros dela. — E desaquenda de pedir desculpas... a gente fez um pacto, não foi? O Mu, o Buda loirudo e eu só deixamos você voltar a morar na Casa de Gêmeos se a qualquer sinal de babado você nos chamasse, e a senhora não nos chamou, santa... Vai colocar ovos no nosso pacto agora, Mosca?... Poderia ter acontecido uma desgraça!
— Eu... eu não achei que depois de tantos anos... e eu sempre tendo deixando tão claro que... ele ainda ia tentar...
Com um gesto brusco Afrodite tirou as mãos ensaboadas dos cabelos dela e contornou de joelhos mesmo a banheira, até ficar frente a frente com ela para olhar em seus olhos violetas tristonhos.
— Alôca. Acorda Alice! — disse batendo palmas, e ela precisou fechar os olhos devido à chuva de pequenas partículas de espuma que voaram em seu rosto — Por Dadá, Mosca! Estamos falando do cafuçu do Coiso! Aquele jaburu não tem nem alma, e você espera que ele tenha caráter? Olha, eu sei que sua intenção é a mais nobre, que o seu amor pelo Saga é o que te move, mas... — fez uma pausa quando a tristeza profunda que cobria o rosto dela lhe tocou o coração. — Mas... eu acho que... já fazem seis anos, né... talvez...
— Talvez Saga nunca mais volte. — ela concluiu a frase que ele não foi capaz de concluir.
Ambos trocaram um olhar penoso e suspiraram, então Afrodite inclinou-se sobre a banheira e a abraçou forte, sem se importar com a água e a espuma lhe molhando a roupa e os cabelos presos na touca.
— Eu sinto tanto, Mosca... mas... isso está ficando perigoso.
— Eu sei. — ela disse com a voz embargada e mais uma vez as lágrimas escorreram de seus olhos — Mas eu achei que ele não tentaria... Que... que de alguma forma, ali dentro dele o Saga o impediria...
— Mosca...
— Achei que o Saga me protegeria... Mas ele não está lá, Afrodite. Ele não está mais lá.
— Ai Mosca, não fica assim. Não chora! — ele dizia agoniado. — Vai borrar toda sua franja.
— Saga não vai voltar, nem mesmo por mim... Ele se foi, Afrodite. Eu preciso aceitar que ele se foi para sempre, e que eu passei esses anos todos agarrada a uma ilusão... agarrada ao desejo de tê-lo para mim mais uma vez... Seis anos... seis anos nesse sofrimento, e carregando vocês três junto comigo...
Num impulso, aflito por vê-la chorar daquela maneira e abandonar as esperanças, Afrodite tentou confortá-la cantarolando uma canção e lhe enxugando as lágrimas que desciam por seu rosto, mas esqueceu-se que estava com os dedos ensaboados de shampoo, e quando os passou por sobre os olhos dela ela os fechou com força contraindo-se toda.
— Ai... A... Afrodite... está ardendo... — ela disse esticando as mãos à frente até tocar nos ombros dele.
— O quê? — ele perguntou distraído.
— Os meus olhos, bicha... você passou sabão nos meus olhos.
— Aaaaaah enxágua! Enxágua! — ele deu um grito e num reflexo rápido mergulhou as mãos na água jogando alguns respingos no rosto dela.
— A água está cheia de sabão, Afrodite... Ai... abre a torneira, bicha desastrada, rápido. — disse assoando o nariz, por onde havia engolido runs respingos de água com sabão. Apressada tateava a borda da banheira em busca do registro.
Aos trancos e barrancos resolveram o problema do sabão nos olhos de Geisty.
Ao menos o incidente servira para amenizar o clima melancólico da conversa.
— Desculpa, Mosca. Te dou um pouco de pomada para pano branco depois do banho. Ajuda na irritação. — ele disse enquanto a assistia terminar de enxaguar os cabelos sozinha.
— Ah, agradeço, mas não precisa... Vai que melhora os meus olhos e me fecha a garganta igual da outra vez que me fez usar esse seu creme. Um chá quentinho já me é suficiente. — ela disse, e nessa hora parou o que fazia e olhou para ele — Posso ficar aqui essa noite? Claro, se não for atrapalhar.
— Sabe que não atrapalha... Seus dois travesseiros, o da sua cabeça e o da franja, estão lá no mesmo lugar, do meu lado da cama. Depois, eu já fiz o que tinha que fazer. Agora sou todo seu. — brincou dando uma piscadinha para ela.
— Hum... pelo visto o que você tinha que fazer incluía o Batman, né? — ela disse, finalmente conseguindo esboçar um sorriso.
— Tá tão na cara assim?
— Na cara nem tanto. Mas no seu pescoço cheio de chupões sim!
Peixes arregalou os olhos surpreso. Nem havia se dado conta das marcas.
— Abelhuda! — ele reclamou estalando os dedos em frente ao rosto dela.
— Abelhuda não, moscuda. Você toda hora troca a espécie... O Batman estava com fome, heim. — ela brincou.
— Quer parar de botar ovos nos meus chupões? Ah, tá boa?... O Batman é um morcego, logo, ele chupa... Dadá, e como ele chupa! — revirou os olhos dando um suspiro.
Geisty riu terminando o banho.
— Ah... que inveja de você. Há tantos anos ninguém me chupa... — respirou fazendo um muxoxo.
— Quer que eu chupe você?
Houve um instante de silêncio.
— Que? — ela perguntou com um soluço e os olhos esbugalhados.
— Ignora. Foi meu o coágulo. Ele entende essa palavra como um gatilho, sabe? Uma mamada não se nega a ninguém, né Mosca. Anda, sai dessa água que já está ficando igual a cacura* do Gigars, toda enrugada. — disse se levantando e estendendo uma toalha a ela, que àquela altura já ria descontraída. Enfim tinha conseguido distraí-la; fazer com que ela, pelo menos por alguns instantes, se esquecesse daquela noite ruim.
Logo ambos riam juntos enquanto na cozinha de Peixes prepararam um delicioso e quentinho chá de rosas.
Naquela noite, e como fizera tantas vezes desde que Saga se perdeu dentro de si mesmo, Geisty dividiu a cama com o cavaleiro de Peixes, mas nem por um minuto conseguiu fechar os olhos.
Depois de quase seis anos de batalha ela finalmente entendeu que tinha perdido àquela guerra.
Dicionário Afroditesco
Cacura— gay velho, de idade bem avançada.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura" com muitas informações extras.
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.
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