Templo das Bacantes Vol. 3
16 Cilício
Notas iniciais

Templo de Áries – 10:20am
No grande pátio principal da primeira casa zodiacal, uma curiosa decoração se destacava em meio as colunas gregas milenares.
Dispostos em um cantinho para não chamar tanto a atenção dos que por ali passavam, mesmo que isso fosse impossível, estavam os destroços do que um dia fora a suntuosa estátua de Buda que residia no Templo de Virgem.
Dadas as circunstâncias, Mu não encontrara tempo, tampouco disposição, para sequer pensar em uma maneira de restaurar aquilo que após a fúria de Shaka acabou se tornando um gigantesco quebra cabeças de mármore lascado, rochas partidas e metal amassado, no entanto, ao menos ele conseguiu recolocar a cabeça em cima do pescoço, do jeito que deu, ou seja, meio torta.
Ao redor das ruínas da grande estátua também havia várias imagens menores de Buda. Todas ele mesmo tinha retirado às pressas do Sexto Templo e levado para lá antes que tivessem o mesmo destino. Entre elas estava o pequeno e modesto Ganeshinha que eles furtaram do estúdio de televisão, no cenário da novela, em sua lua de mel. Tudo isso porque Shaka tinha sido categórico: não queria nada de Budas ou outros deuses em sua casa.
Desde o ocorrido, então, todos os dias o Cavaleiro de Áries descia até a Primeira Casa e antes de começar suas atividades diárias fazia uma prece e ofertava frutas frescas, incenso e velas novas diante da grande estátua em ruínas, e também das menores, sem esquecer nem mesmo do pequeno Lord Ganesha.
Ironicamente, e ao contrário de Shaka, a fé de Mu estava mais forte do que nunca. Precisava estar, pois que era somente crendo nos desígnios divinos e na bondade dos deuses para com os seres vivos que ele encontrava forças para suportar a tão terrível provação que vivia.
E era exatamente isso o que fazia, orava em silêncio e de joelhos diante de seu altar improvisado, de olhos fechados e mãos unidas, quando sentiu alguém se aproximar.
O visitante silencioso parou ao lado dele, inclinou-se e depositou uma vela junto das tantas outras que já estavam acesas, e na hora em que Mu encerrou sua prece, abriu os olhos e encontrou o sorriso cálido e amigável do amigo de Peixes.
— Trouxe uma também... para ajudar. — disse Afrodite quando o lemuriano se levantou.
— Obrigado, Dido. — Mu agradeceu fazendo uma última reverência em frente ao altar — Sei que é chocante vê-la assim. — se referiu a estátua olhando para ela.
— Quando você me disse o que tinha acontecido, eu achei chocante o fato de ele ter expulsado o Buda da Casa de Virgem, mas agora... olhando para ele... ou para o que sobrou dele... — fez uma pausa enquanto corria os olhos pela estátua em ruínas, dando um longo suspiro, então aproximou-se mais de Mu e lhe colocou a mão sobre o ombro — Eu tô é passada!... Espero que a mágoa de cabocla* do Buda não caia sobre o loirudo, amém! — beijou a ponta dos dedos e ergueu a mão para o céu olhando para o alto como quem faz uma prece.
— Eu também espero que isso não se reflita como uma mancha karmica para o Shaka... É só uma fase ruim dele... eu acho — disse ao dar de ombros, pronto para mudar de assunto. Não queria falar sobre a situação delicada do esposo, nem mesmo com seu melhor amigo — E Geisty? Como ela está? Pelo que senti a coisa foi feia ontem.
Afrodite cruzou os braços e fez um biquinho.
— A pobrezinha está tão tomabada*... Parece que levou três raquetadas de mata mosca. — outro suspiro agora veio acompanhado de um leve balançar de cabeça — Eu deixei ela dormindo e junto um recado para que fique por lá hoje, na minha casa, que não desça para o bordel... Isso também serve para você. Hoje não é um dia de muito movimento. Eu dou conta de tudo sozinho numa boa... Mas, se o Máscara e o Touro chifrudo não tivessem aparecido por lá a tempo, eu não sei que desgraça teria acontecido.
— Pelos deuses, que tormento isso também! — Mu balançou a cabeça.
— Aquela alma sebosa malassombrada do fundo do Tejo deve ter aproveitado que ela estava meio derretida* para... você sabe o quê.
— Que desgraçado... — Mu rosnou.
— Eu já falei para a Mosca que esse aleijo* está saindo do controle dela, do nosso controle... Ela está se arriscando demais, mas... você deve saber como é difícil tomar a decisão de abrir mão de quem a gente ama — olhava para Mu com o coração partido, percebendo o quanto ele estava abatido — E o Kiki como está hoje?
Mu apenas suspirou melancólico.
— Hyoga ficou tão chateado com o cancelamento da festinha... Camus o trouxe para o Santuário dois dias antes do previsto só por causa do aniversário do Kiki... Confesso que até eu fiquei derrubado*.
Áries fechou os olhos e segurou firme o ímpeto de perder o controle e entregar-se ao desespero, então respirou fundo recompondo-se, recolhendo cada caquinho de seu coração arrebentado.
— Kiki entendeu, mas chorou muito com a notícia — disse enfim. — Sabe que ele espera o ano todo pela festa de aniversário em abril.
— É, eu sei. — Afrodite suspirou.
— Tínhamos caprichado tanto... para tentar animá-lo um pouco, sabe — fez uma pausa contraindo os lábios. — Mas não teve jeito. O Adônis proibiu visitas e grandes aglomerações, por causa do estado dele.
— E por quanto tempo isso?
— Até conseguirmos um doador, ele precisa ficar longe de possíveis infecções.
— Então é sério esse lance do transplante de medula...
— Sim, é sério. — Mu baixou os olhos por um instante e ao levanta-los fitou as estátuas no altar improvisado — A anemia dele se agravou muito e a imunidade despencou... Transfusão sanguínea já não serve mais. Agora só um transplante de medula pode ajuda-lo. — a voz do ariano saiu difícil.
— Dadá, que tormento! — Afrodite tinha a voz embargada.
— O problema, Dido, é que ele é lemuriano... e eu sou o único da mesma espécie. — baixou a cabeça evitando o olhar do pisciano, ou choraria novamente — Hoje mesmo, quando estivemos na Ala 5, eu fiz os exames para saber se sou compatível... Assim que chegamos ao Santuário vim direto para cá, diante de Buda, rogar por um milagre para que esse resultado dê positivo.
Afrodite não pensou duas vezes. Descruzou os braços e puxou Mu para um abraço forte. Procurava confortá-lo com seu apoio e carinho, ao mesmo tempo em que também buscava, através daquele contato, consolo para si mesmo.
— Vai dar Mu. Vai dar, você vai ver. — disse afagando os cabelos dele e lhe beijando delicadamente o rosto — Kiki é um garoto forte, ele vai reagir.
***
Casa de Virgem 10:45am
Fazia pouco mais de meia hora que eles tinham chegado do hospital. Naquela manhã, mal o sol havia despontado no horizonte e eles já estavam lá.
Durante a madrugada, no instante em que Mu sentiu o Cosmo de Geisty acender-se abruptamente na Casa de Gêmeos, ele e Shaka ouviram o chamado fraco de Kiki e o encontraram em sua cama de lençóis de dinossauros coberto de vômito. As mãos pequeninas pressionavam o nariz que sangrava, e ele chorava, de dor, de cansaço, de desalento. Felizmente, logo em seguida ambos sentiram o Cosmo do Cavaleiro de Peixes, e então Afrodite lhe assegurou que estava tudo sob controle. O resto da madrugada eles passaram acordados prestando os cuidados prescritos por doutor Adônis a Kiki.
Quando amanheceu eles estavam na Ala 5 para uma consulta de emergência, e também para cumprir os protocolos do tratamento. Infelizmente os prognósticos não eram nada promissores. Uma endoscopia revelou que o vômito era decorrente do mau funcionamento do aparelho digestivo de Kiki, que já não digeria mais os alimentos sólidos. A recomendação, então, passou a ser de uma dieta pastosa e líquida, somada a um procedimento drástico que tentaria retardar o avanço da doença desconhecida.
— O que é um transante de medula, Baba? — Kiki perguntou enquanto, sentado na banheira, com a água morninha cheirando à cânfora e camomila até sua cintura, olhava para as mãos de Shaka, cobertas por finas luvas de silicone por ainda estarem bem machucadas, que massageavam delicadamente seus pezinhos.
— Transplante de medula, filho. — o indiano o corrigiu. Estava ajoelhado no piso de mármore do lado de fora da banheira, e vestia uma camiseta branca e calças jeans. Mantinha os longos cabelos bem presos num coque no alto da cabeça. — É um procedimento no qual o médico vai pegar um pouco do material que existe dentro do osso da coluna do doador e vai colocar dentro do seu corpo.
— E o doador é o papai, né? — perguntou.
— Se os exames que ele fez indicarem que a medula dele é compatível com a sua, sim, o seu pai vai ser o doador.
— E se não for compatível?
Shaka parou a massagem, mas não olhou para Kiki. Seus olhos estavam fitos na água; Acompanhavam imóveis os movimentos que ela fazia, enquanto ele mesmo se negava a pensar na possibilidade de Mu não ser compatível.
As palavras do médico naquela manhã atravessaram o coração do virginiano feito flecha traiçoeira. As transfusões, as injeções diárias de suplementação vitamínica, as dezenas de medicamentos, os cuidados caseiros, nada estava impedindo a progressão da doença. Adônis então sugeriu um transplante de medula. Um último recurso para tentar fazer o organismo de Kiki voltar a produzir sozinho as proteínas do sangue, também albuminas e hemácias, que estava perdendo progressivamente. Uma notícia que fez ele se levantar da cadeira e deixar Mu sozinho no consultório do médico antes mesmo de encerrada a explicação. Ele sentia que se ficasse ali mais um segundo teria uma crise de choro ou coisa pior, voaria no pescoço de Adônis e lhe rasgaria a garganta com as próprias mãos. Ele nem sabia por que sentia tal impulso.
A verdade era que há tempos Shaka perdera a paz cultivada por anos, e tudo que lhe sobrou foi uma raiva pura e visceral.
— O seu pai vai ser compatível com você sim, eu tenho certeza. — disse piscando os olhos algumas vezes para voltar ao presente, depois pegou o shampoo e despejou uma boa quantia na palma da mão.
— Como o Baba tem certeza? — Kiki perguntou batendo os dedinhos na água.
— Porque ele é seu pai, não é? Ou o Kiki tem alguma dúvida?
O pequeno lemuriano levantou a cabeça e olhou para Shaka, e este lhe sorriu confiante dando uma piscadinha.
— O Kiki não tem dúvida, Baba... é só medo mesmo. — respondeu, mas sua voz havia quase emudecido, então voltou a olhar para a água enquanto o pai lhe lavava os cabelos. — Só não precisava tê cancelado a festa de aniversário do Kiki por causa desse transante de medula, já que ele é só daqui a alguns dias.
— Transplante. — Shaka o corrigiu dando um suspiro melancólico — Filho, eu sinto muito. Eu também estou triste pela festa. Não apenas eu, mas o seu pai, sua tia, seus padrinhos, o Hyoga... Todos estamos muito tristes, mas você ouviu o doutor Adônis, não ouviu? A noite passada você se sentiu mal porque o seu corpo está muito fraquinho, e para ele ficar mais forte é preciso fazer o transplante de medula. Mas para isso você precisa estar bem, sem febre, sem infecção, sem enjoo, para poder passar pelo procedimento... Precisa ficar de repouso, bem quietinho, e manter o menor contato possível com outras pessoas.
Kiki baixou a cabeça e fungou fazendo um biquinho.
— É um saco ficá doente. — resmungou.
Rapidamente Shaka inclinou-se para o lado afim de poder olhar para os olhos lilases enormes e tocou o queixo dele com o indicador.
— Ei, olhe aqui para mim — pediu, lutando para não se deixar vencer pelo desespero que o devorava silenciosa e lentamente feito uma besta famélica. — O Baba promete que depois do transplante, assim que o Kiki estiver mais forte, ele vai fazer uma festa de aniversário para ele dez vezes maior que esta. Combinado?
Kiki ponderou por um momento.
— E isso vai demorar? — perguntou fazendo um muxoxo.
— Vai nada! Vai passar tão rápido quanto a Radhira gira balançando a saia e o véu. Lembra, filho? No capítulo da novela da semana passada? Quando ela dançou para o sheik e seu exército de homens macacos?
— Todo mundo ficou tonto! — Kiki riu lembrando-se do capítulo que assistiram juntos depois do jantar. Um riso fraco, apagado, porém verdadeiramente divertido.
— Ficou. Porque ela colocou aqueles guizos brilhantes na barra da saia, e o barulho e a luz os hipnotizou.
— É por isso que o apelido dela é pião, né Baba?
— Sim, é por isso, mas também porque ela tem canelas finas e quartos largos.
— O que são quartos largos, Baba? — Kiki franziu as pintinhas na testa, curioso.
Shaka pigarreou embaraçado.
— Ah... bem... é quando as mulheres são fartas de carnes nos quadris e nos glúteos.
— Tipo a tia Geisty?
Virgem não esperava por aquela pergunta. Piscou os olhos azuis celestes um tanto desconcertado, apanhou o chuveirinho e endireitou a postura, voltando à posição em que estava.
— É, sim, tipo sua tia Geisty. Agora feche os olhos que vou enxaguar seu cabelo.
— Baba, na festa nova do Kiki pode ter pula-pula? — quis saber, já de olhos fechados. Sentia a água morninha deslizar por sua cabeça, rosto e ombros enquanto os dedos do pai indiano lhe massageavam delicadamente o couro cabeludo. Era uma sensação gostosa de conforto e proteção que lhe fazia esquecer por um momento os tantos incômodos da doença.
— Claro que pode! — disse Shaka, que tentava imprimir na voz um otimismo que a ele mesmo não convencia mais, especialmente quando passava a mão pelos cabelos do filho para tirar o shampoo e a via sair coberta de volumosos chumaços que se desprendiam da cabeça dele tão fácil como as folhas secas caem dos galhos das árvores quando perdem o viço — Pode ter tudo o que você quiser. É só você pedir que o Baba faz. — disse sentindo a garganta apertada.
— O Kiki quer vinte mesas de docinhos, e 30 mesas de cachorro-quente. — disse animado.
— Feito.
— E o Kiki quer um bolo em forma de dinossauro maior que aquele que o Baba fez ontem.
— Isso é fácil.
— E quando os convidados forem embora, o Kiki quer dar um gato para cada um de lembrancinha.
Shaka riu quase forçado, esvaziado de qualquer empolgação, mas firme para não deixar Kiki perceber sua devastação.
— Bom... desde que sejam gatos de pano ou de papel, eu não vejo problema. Daremos gatos a todos os convidados. — disse, então fechou a torneira e encerrou o banho.
Antes de se levantar, Virgem recolheu todo o cabelo de Kiki que havia caído, fez um bolinho e jogou no cesto de lixo sem deixa-lo perceber, depois apanhou a toalha e foi até ele na banheira para ajudá-lo a se levantar. Resistiu mais uma vez à vontade chorar, como vinha fazendo com afinco desde que todo aquele martírio começou, enquanto enxugava o corpinho pequeno e tão magro que podia sentir os ossos saltados da coluna, clavícula e quadris mesmo por debaixo do tecido felpudo da toalha. Terminada a sessão, Shaka o vestiu com um pijama macio de flanela, o pegou no colo o mais delicadamente que pôde, e tentando disfarçar sua fisionomia terrivelmente triste lhe fez uma proposta animadora enquanto o levava para o quarto.
— A festa teve de ser cancelada, mas os seus presentes não. Alguns estão no seu quarto, os outros o seu pai vai trazer no fim da tarde. Podemos abrir alguns agora. O que acha?
Kiki concordou com a cabeça.
Não chegaram a abrir nenhum presente.
Quando entraram no quarto e Shaka colocou Kiki na cama, tudo que o pequeno lemuriano conseguiu fazer foi agarrar-se à cintura do pai e pedir para que ele ficasse um pouco ali, enquanto passava os dedinhos em sua barba, já há uma semana sem fazer. Adormeceu logo em seguida, exausto, afinal passara a noite em claro e a manhã quase toda no hospital fazendo exames.
Shaka ficou ali por um tempo, acompanhando a respiração dele com os olhos pregados no peito que subia e descia numa cadencia lenta e constante, e quanto sentiu que ele já dormia profundamente, lentamente escorregou o corpo para o lado e deixou a cama.
Antes de deixar o quarto ele olhou para os pacotes coloridos enfeitados com fitas. Foi insuportável.
Já na cozinha, Virgem sentiu os Cosmos de Shiva e Ágora na entrada do Templo, e lhes deu permissão para entrarem. Os esperou ansioso aparecerem ali.
— Mestre. — os dois rapazes disseram em uma só voz enquanto faziam uma leve mesura.
— E então? — Shaka perguntou olhando fixamente para eles com seus olhos azuis celestes a expressar claramente toda sua ansiedade e expectativa, o que fez os dois jovens cavaleiros baixarem a cabeça. Já era difícil, em situações normais, sustentar o olhar nos olhos de Shaka de Virgem, e eles ainda estavam se habituando a vê-los abertos. Naquelas circunstâncias então...
— Sentimos muito, mestre, mas... — disse Ágora.
— Seguimos todas as coordenadas que nos passou, rastreamos todo o perímetro, mais de duas vezes... — continuou Shiva.
— Procuramos nas florestas e vilarejos, sob a neve, acima dos picos mais altos e também debaixo da terra, mas não encontramos vestígio nenhum da existência de um lemuriano, ou de uma criatura conhecida que se assemelhasse a um Yeti nas cordilheiras do Alaska e também de Yukon.
— E quanto questionamos os poucos habitantes que se arriscam em terras tão hostis e remotas, todos dizem a mesma coisa: o Pé Grande é apenas uma lenda urbana. Ele não existe na realidade.
Um silêncio horripilante caiu sobre eles. Tão denso que parecia se estender ao campo físico e paralisar até suas respirações.
— Estão dispensados do treinamento hoje — disse Virgem, quebrando enfim aquele mutismo incômodo. — Assim que eu traçar uma nova rota de exploração, passarei as coordenadas a vocês e então farão uma nova busca. Por enquanto... fizeram um ótimo trabalho. Obrigado... Podem ir.
Eles não estavam acostumados com aquela gentileza e gratidão. Já até sentiam falta das broncas, exigências e implicância do mestre, o verdadeiro Shaka, não aquele espectro de sofrimento que estava à sua frente, mas fizeram uma mesura e se despediram calados.
Depois de um tempo ali, sozinho, calado, vazio de sentimentos bons, repleto dos ruins, e tão imóvel quanto um ídolo feito de madeira, Shaka deu um suspiro longo e seguiu para a sala, para a tarefa terrível de retirar todos os enfeites da festinha de aniversário de Kiki que ele e Mu colocaram na tarde anterior. Apesar da idade do filho ser contada em novembro, quando voltou com ele no tempo, fora em primeiro de abril que ele nascera, e era essa data que escolheram para sempre festejar.
Assim que chegou lá ele parou na entrada e correu os olhos por todo o cômodo decorado. E como era insuportável olhar para tudo aquilo. As bexigas coloridas suspensas no ar e presas por fitas de cetim dourado agora pesavam toneladas. A toalha branca bordada que cobria a mesa larga de madeira ele certamente jamais voltaria a usar. As dobraduras de papel em forma de dinossauro, recortadas e moldadas uma a uma pelas mãos caprichosas de Mu, e que foram espalhadas pelos móveis e mesa do bolo, lhe causavam um aperto no peito e um nó amargo na garganta.
Bem diferente das festas de aniversário que fazia para Kiki todos os anos, aquela seria a mais modesta. Ainda assim ele tinha passado a tarde toda do dia anterior na cozinha, entre preparar os quitutes salgados, os docinhos de diferentes variedades e o bolo imenso em formato de dinossauro, que lhe custou umas boas horas entre recortar as formas de alumínio para a modelagem e acertar o ponto da cobertura. Havia feito tudo com tanto capricho e amor, usando apenas ingredientes que Kiki estava liberado a comer, e agora teria que se desfazer de tudo.
Como quem chega na hora certa sem perguntar antes se sua ajuda seria necessária, apenas se doando ao solidarizar-se com sua dor, Saravá Ebó chegou ali e esfregou a cabecinha peluda em suas pernas. Shaka imediatamente olhou para baixo e seus olhares se encontraram.
Em dois aquela triste tarefa lhe pareceu bem menos pesada.
Ele então pegou uma grande caixa de papelão que já havia deixado ali antes de irem para o hospital e dentro dela jogou a toalha branca, os enfeites todos e as dobraduras. Saravá pulou dentro da caixa, e enquanto ele ia esvaziando as bexigas uma a uma, jogava as fitas de cetim que as prendia para o gatinho brincar.
Terminada a tarefa, Shaka foi até a cozinha, deixou a caixa na dispensa e voltou trazendo várias vasilhas de plástico e vidro. Nelas distribuiu todos os docinhos e petiscos que fizera. O bolo ele deixou inteiro. Guardou em uma vasilha grande de vidro e bem no centro dela colou um bilhete escrito em papel vermelho.
“Para Hyoga com todo nosso amor.
De: Kiki, Mu e Shaka.
ps.: Não coma tudo de uma vez ou terá dor de barriga.
Tio Shaka.”
Pediu para que um servo viesse pegar as vasilhas e que as distribuísse para os cavaleiros nas Doze Casas. Uma em especial, a maior delas, era para ser entregue no Templo das Bacantes, para as garotas.
Quando tudo estava feito, e seu coração e seus olhos tinham o peso de dez transatlânticos, Shaka foi para o banheiro tomar um banho. Logo Kiki acordaria e teria que ter algo pronto para lhe dar de comer, mas o médico havia prescrito uma dieta líquida à base de legumes e frutas, e ele teria que preparar tudo novo, e de uma maneira que não fosse tão desinteressante aos olhos e ao apetite ruim do filho.
Assim que chegou lá ele fez tudo como sempre fizera. Deixou as sandálias ao lado da porta, retirou a calça e a camisa e as colocou dentro do cesto de roupas usadas, caminhou até a pia de mármore e de frente para o enorme espelho iluminado soltou os cabelos. A franja farta quase lhe cobriu os olhos abertos fixos em sua imagem refletida, e as madeixas longuíssimas caíram divididas por suas costas e torso feito cachoeiras de ouro derretido.
Por um tempo, ficou só observando seu reflexo no espelho. Em completo silêncio.
Seus olhos fundos. A pele pálida e sem viço. A barba desleixada. A aparência terrivelmente exausta.
Como ficaria depois de tudo terminado? Depois que Kiki se fosse? Ele pensou, involuntariamente, e o ar em seus pulmões parecia ser feito de cimento.
Implorou a seu coração que lhe deixasse respirar ao menos por um momento. Há tempos que não sabia mais o que era sentir o ar circular livre dentro do peito. O medo e a tristeza que cultivava dentro de si eram bestas vorazes sedentas de oxigênio. Eles consumiam tudo. Quase não lhe sobrava nada.
Ele deslizou pelos cabelos os dedos ainda enfaixados por finas ataduras de algodão. Cultivava com carinho aquelas madeixas longas por tantos anos, desde a infância; Orgulhava-se delas, faziam parte de sua identidade. As escovava lento e devotadamente todas vezes antes do banho.
Abriu a primeira gaveta da pia onde guardava a escova.
Ele nunca fora muito bom nessa história de ter esperança. Ele acreditava ter nascido para um único desígnio: dar esperança aos homens, e não guardar nenhuma para si mesmo.
Ele passou os dedos enfaixados pelo cabo da escova de cabelos, mas seus olhos azuis pesados passeavam por outro objeto, um que subitamente pareceu lhe exercer uma atração magnética irrefreável.
Agarrou a tesoura grande de aço que guardava ali.
Dói tanto!
Não consigo respirar!
Foi o que seu espírito lhe sussurrou no ouvido quando ele trouxe a tesoura para perto do rosto.
Não consigo respirar!
Suas mãos começaram a tremer.
Mas seu corpo estava parado.
Seu peito estava paralisado.
Quero respirar!
Num movimento brusco ele levantou o queixo e encostou a ponta da tesoura na garganta.
Nessa hora seus olhos estavam agarrados à seu reflexo no espelho, mas rapidamente eles escorregaram até a pia e pararam em um objeto deixado dentro de um potinho de vidro branco. Sua aliança de casamento. A tinha deixado ali desde que ferira gravemente as mãos.
Com um gesto igualmente ligeiro ele abaixou o queixo e levou a mão espalmada atrás da cabeça. A fechou com força juntando a maior quantia de fios que conseguiu na altura da nuca, então aflito ele começou a corta-los com a tesoura.
Conforme seus ouvidos ouviam o atrito da lâmina com os fios, seus pulmões se abriam e finalmente o ar entrava sem o peso de antes.
Ele enfim conseguia respirar.
Tomado por um desespero libertador, buscando prolongar aqueles segundos de alívio, juntou outro tanto de cabelo e continuou cortando, e cortando...
As madeixas longuíssimas iam se acumulando em torno de seus pés, e com a boca aberta ele engolia o ar, inflando o peito o mais que conseguia.
Sua respiração estava acelerada, seus olhos molhados, e ele não era capaz de parar de cortar.
Até que de repente, quando correu a palma da mão pela testa juntando toda a franja numa pegada só, sentiu seus punhos serem segurados com extrema força, o impedindo de prosseguir. No instante seguinte seus olhos azuis celestes marejados encontraram os esmeraldas de Mu através do reflexo no espelho, quando este surgiu ali, de pé atrás de si. Sentia as mãos dele ainda quentes pelo manejo com o fogo.
O Cavaleiro de Áries tinha se teleportado da forja da Primeira Casa, onde trabalhava arduamente no conserto das armaduras dos aprendizes e também na feitura de um objeto em especial.
Naquela manhã ele descontava no martelo e na bigorna toda a frustração e tristeza que sentia, usando o exaustivo trabalho braçal como fuga da realidade. Mu sabia que o marido e o filho precisavam dele, mas, somado à exigência do Grande Mestre, que lhe cobrava a entrega das armaduras, queimava em seu peito um sentimento de urgência que o deixava em agonia. Ele precisava finalizar o quanto antes o artefato que passara o dia anterior forjando com extremo pesar e esmero.
Mu queria muito ir para casa. Desejava estar com o filho em seu solitário aniversário, e ajudar Shaka com o que fosse preciso, porém sabia que só poderia ir quando terminasse o artefato. Por isso, cada martelada tinha o peso da necessidade e do amor por sua pequena família. No entanto, quando já trabalhava no acabamento final e polimento da peça, fora tomado por uma sensação estranha, de verdadeira angústia. Imaginando que algo ruim pudesse estar se passando com Shaka, ele olhou na aliança em seu dedo; Nada. Ela estava fria, desconectada, e isso só o perturbou ainda mais. Incomodado, tentou ignorar aquela sensação de aperto no peito e retomar o trabalho com a flanela, mas pouco conseguiu fazer. O sentimento de urgência que o impeliu a finalizar aquela trama de metal em suas mãos naquele mesmo dia, agora exigia que ele largasse tudo e fosse imediatamente para casa. Era o mesmo sentimento que ele experimentou no Templo de Baco quando há seis anos o Cosmo de Shaka despareceu e voltou trazendo Kiki consigo. Com um suspiro pesado, Mu atirou a flanela sobre a mesa de madeira, retirou o grosso avental de couro que usava, e desobedecendo mais um vez as leis quase obsoletas do Santuário se teleportou diretamente para a sala de estar do Templo de Virgem. Sentiu um forte pesar ao ver que Shaka já havia retirado toda a decoração da festinha. Do jeito que estava, suado e ainda todo sujo de carvão, correu apressado até o quarto de Kiki e suspirou aliviado por encontra-lo dormindo, então não perdeu tempo ali. O silêncio opressor daquele templo mais uma vez lhe comprimia o peito, sensação que se agravou quando chegou em seu quarto, de longe viu a luz do banheiro acesa e escutou o ruído baixo, mas nítido, da tesoura de metal. Naquele pequeno instante, estacado ainda na porta, o coração de Mu parou de bater e seu peito gelou. Seu corpo todo estremeceu, mas ele mesmo ficou imóvel, apenas suas pálpebras se fecharam fortes, como se recusassem-se a presenciar a cena que seus pensamentos já lhe desenhavam na mente. Mas ele não conseguiu ficar ali apenas ouvindo aquele som horripilante, que de um simples ruído inicial agora chegava a seus ouvidos como se emanados por altos falantes, então com um franzir de testa surgiu atrás de Shaka e abriu os olhos.
Agora ali estavam eles, Áries e Virgem, olhando-se através do reflexo no espelho, enquanto o lemuriano, com o semblante sério e a face lívida isenta de qualquer sentimento, segurava firme os dois punhos do indiano, que o encarava com a fisionomia assustada de uma criança que acabara de ser repreendida.
Shaka abriu a boca, mas não havia o que dizer. Estava tão sufocado pela vergonha e pela culpa que qualquer palavra naquele instante lhe seria inútil, e após segundos de um desconfortável silêncio mútuo, Mu enfim disse:
— Deixe-me ajuda-lo. — a despeito de sua feição séria, a voz de Mu era repleta de amor e carinho.
Shaka não disse nada. As palavras eram como rochas em sua boca. Ainda assustado, ele apenas relaxou os músculos aos poucos, soltou o que lhe restava dos cabelos e por fim largou a tesoura, então sem conseguir sustentar o olhar nos olhos de Mu, abaixou os seus e deixou que ele lhe corresse as mãos pela cabeça. Sentia que ele avaliava o novo estrago que fizera a si mesmo.
Calado, e com uma fisionomia duramente triste, Mu contemplou a nuca exposta do marido percebendo que pouco havia ali que pudesse ser salvo; Shaka tinha cortado os fios quase na raiz. Seu peito doeu mais uma vez, porém estranhamente a vontade de chorar não voltou, ele estava em choque... Na verdade, sabia que Shaka estava em seu limite, e que ele não iria parar até que...
Olhando para as longas madeixas loiras amontoadas no piso de mármore, Mu se lamentou por não ter sido rápido o suficiente em sua forja, contudo ficou aliviado por ter encontrado um meio de tentar frear o marido, embora tivesse a sensação de estar anestesiado, como se estivesse vivendo em uma realidade paralela e não fosse realmente ele e Shaka ali, naquele banheiro. Seu choque era tamanho que não haviam lágrimas, e suas emoções pareciam flutuar longe de si. Só os deuses sabiam o quanto ele amava os cabelos do virginiano, o quanto adorava toca-los e senti-los escorrendo entre seus dedos, o quanto lhe instigava vê-los brilhantes como o ouro caindo por sobre o corpo nu bronzeado, e como agora lhe doía no fundo da alma vê-los aos montes no chão. Os cabelos de Shaka significavam muito mais que apenas vaidade e beleza, eles eram um símbolo de força herdado de tradições milenares, as mesmas que Mu também carregava consigo nas próprias madeixas longas. E como estas um dia simbolizaram sua majestade e poder, agora eram o sinal de sua queda e fraqueza.
Mas Mu amava Shaka acima de quaisquer tradições ou simbologias, acima de qualquer vaidade ou beleza. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. E honrando os votos que fizera ao Cavaleiro de Virgem, ele estava ali para ama-lo, respeita-lo e ajuda-lo. Por isso, foi movido por um amor profundo que o Cavaleiro de Áries abandonou a tesoura sobre o balcão e pegou na primeira gaveta, que ainda estava aberta, a navalha afiada que Shaka usava para se barbear. Lentamente, com o devido respeito de quem executa um ritual sagrado, tentou aproveitar os poucos fios maiores que sobraram passando a navalha por eles para desfia-los, enquanto Shaka, de cabeça baixa e olhos fechados, pela primeira vez desde que começaram as autopunições, experimentou uma sensação plena de paz.
Uma paz deveras incomum.
Uma paz que vinha acompanhada do cheiro de carvão na roupa de Mu, dos toques gentis dos dedos dele no pouco que sobrara de seu cabelo, e da ausência de culpa.
Uma paz momentânea e breve.
Mas, para quem estava vivendo o tormento da guerra, qualquer paz era bem vinda.
Quando sentiu Mu lhe dar leves tapinhas na nuca e nos ombros Shaka soube que estava tudo terminado, então ele ergueu a cabeça e abriu os olhos. O que viu refletido no espelho a princípio o assustou. Seu cabelo estava tão curto que os fios mais longos mal encostavam em sua orelha, ainda assim Mu tinha conseguido manter sua franja, dando um ar despojado ao corte. Desconhecia que tinha aquela aparência oculta por debaixo da massa densa de cabelo. O pescoço longo, os ombros largos de ossos salientes. De início achou a aparência do homem no espelho um tanto aflitiva, desconcertante, demasiadamente humana... mas sabia que se acostumaria a ela.
Mu deu um passo ao lado e colocou a navalha sobre a pia, ao lado da tesoura. Antes que recolhesse a mão, Shaka a tomou na sua e virou-se de frente para ele.
— Obrigado. — disse o olhando diretamente nos olhos, depois tocou em seu rosto com os dedos enfaixados lhe fazendo um carinho e o puxou para um abraço forte e urgente. Quando seus corpos se tocaram, inspirou fundo o cheiro que vinha dele, do suor na pele, do carvão da forja... Então o prendeu em seus braços e o apertou contra o peito como se quisesse fazer seus corações também se tocarem. — Eu amo tanto você... obrigado... eu sinto muito... sinto muito.
A princípio Mu nada disse. Apenas o abraçou de volta com tanta força que quase o sufocou.
Ficaram assim por um tempo, até que o lemuriano afrouxou o abraço e afastou-se alguns palmos para reunir coragem. Precisava tomar uma atitude radical, com a qual sabia que iria invadir a intimidade de Shaka e expor seus sentimentos mais ocultos de modo visceral, mas era necessário.
— Eu também te amo, Shaka. — deu um longo suspiro — Eu amo você mais do que a mim mesmo, e é por isso que não posso permitir que continue com isso. — sentenciou com a voz grave e firme, então correu a mão pelo pescoço esguio e segurou firme a lateral do rosto dele, raspando as pontas dos dedos na barba rala.
— Mu, eu sei que...
— Shiii... não diga nada. — pediu num sussurro, e sem que Shaka esperasse o segurou pela cintura com ambas as mãos e o levantou do chão num só movimento, o colocando sentado sobre o balcão de mármore.
Surpreso e desconcertado, Virgem olhava para Áries enquanto ele agora mantinha ambas as mãos em seus quadris estreitos. Sentia que ele tinha algo a lhe dizer, mas parecia não conseguir.
— Mu? O que foi? — indagou ansioso.
Áries então respirou fundo e apoiou a testa nos ombros dele.
— Shaka... Eu fiz algo essa tarde. — disse em voz baixa. O que estava fazendo lhe era tão difícil e doloroso como cauterizar uma ferida aberta com ferro em brasa.
— Fez... algo?
Mu afirmou com a cabeça.
— O que você fez? — as palavras saiam apreensivas da boca de Shaka.
— Antes de te mostrar eu preciso que entenda uma coisa... Não existe pessoa nesse mundo que o conheça como eu... Eu conheço cada um dos seus medos, cada uma das suas fraquezas... Por isso, eu forjei uma coisa para você... e eu quero... quero que a use. — levantou a cabeça e lhe deu um olhar súplice — Tem que me prometer que irá usar.
Shaka engoliu em seco, então, apreensivo, viu quando Mu novamente encostou a cabeça em seu ombro e virou a palma de uma das mãos para cima. No instante seguinte nela surgiu o artefato no qual estava trabalhando na forja desde o dia anterior, um cilício de ouro.
Só quando sentiu o metal frio e pesado entre seus dedos foi que Mu reuniu coragem para se afastar dele no balcão e ficar de joelhos no chão. Calado, e diante do olhar de pura perplexidade do virginiano, Áries afastou as pernas dele e em uma delas encaixou a malha de metal manufaturada com dezenas de espinhos de pontas ligeiramente longas, porém sem fio.
— Quando a sua tristeza for imensurável... Quando o desespero da dúvida quiser devorá-lo... — Mu dizia olhando nos olhos de Shaka ao mesmo tempo em que prendia o cilício em sua coxa com os espinhos virados para baixo, um palmo abaixo da virilha — Quando o sofrimento em seu espírito for tão grande que ele exige que você busque na dor da carne algum alívio, lembre-se de mim, lembre-se de nós... lembre-se do quanto eu o amo... e aperte esse cilício com toda a força.
Dito isso, e ainda olhando nos olhos chocados de Shaka, Mu puxou a trava com tanta força que o fez se contrair num reflexo automático e soltar um gemido alto de dor.
Surpreso, chocado, devastado como nem em seus mais malfadados delírios imaginou que pudesse estar um dia, traído por seu coração e seu orgulho, de corpo e alma exposta, o Cavaleiro de Virgem levou as mãos ao rosto e tapou a boca abafando um segundo gemido. A dor lhe trazia alívio, e dessa vez um alívio genuíno, mas a culpa por ter feito Mu descer até o fosso onde encarcerava seus demônios mais íntimos e lhe implorasse para que o permitisse ajudá-lo a enfrenta-los, lhe condenava amargamente. Eram sentimentos ambíguos, de gratidão e vergonha, de alívio e culpa, e o punham em choque. Mesmo assim, sentindo-se fraco, culpado e miserável, Shaka, num movimento rápido desceu da pia e ajoelhou-se à frente de Mu para depois se atirar em seus braços. Em desespero, afundou a cabeça no peito dele e então chorou. Não havia mais o que esconder. Mu lhe eviscerara a alma de um jeito que jamais permitira nem mesmo a si próprio. Aquele cilício em sua coxa era como um machado afiado que rompera as portas de suas últimas muralhas de defesa. Por isso, chorou como nunca havia chorado antes desde que aquela provação com Kiki teve início. Sem se conter, sem inseguranças, esvaziado de toda e qualquer vaidade.
Nos braços de Áries, o Cavaleiro de Virgem enfim abraçou sua condição humana. Frágil, falha e imperfeita.
Tudo que ele construíra havia desmoronado.
Se o Nirvana era o Paraíso, certamente a vida real era o Inferno, e ninguém passava imune do sofrimento por ela.
Nem mesmo Buda, que se negou a sofrer e buscou alívio na iluminação.
— Perdão por fazê-lo sofrer... perdão Mu... perdão... — ele repetia como um mantra e aos gritos. Seu corpo dando solavancos devido ao choro devastador.
— Não há o que ser perdoado, meu amor — disse Mu com pesar, enquanto o confortava em seus braços e lhe distribuía beijos nos cabelos curtos — Eu não estou aqui para julga-lo.
— Tudo que fiz foi... foi apenas para ver você feliz... — fez uma pausa entre um soluço e outro — Porque, desde que somos um... você e eu... o amor é a única força que me move.
— Eu entendo, Sha.
— Não, não entende! — Shaka ergueu a cabeça e olhou nos olhos dele — Eu sou uma alma destinada ao sacrifício, Mu. A minha vida não tem nenhum valor...
— Não diga isso, Shaka! Claro que sua vida tem valor! — disse Mu o interrompendo.
— Não, não tem! — retrucou angustiado — Meu caminho, desde meu nascimento, é a iluminação ou a morte em sacrifício... Minha vida deveria ser apenas uma breve passagem... uma centelha que se extinguirá quando Atena retornar e a Guerra Santa tiver início, por isso, eu nunca deveria ter me apegado a ela, à vida, e a tudo que ela me deu e me dá, como me apeguei... porque meu espírito... Ah, Mu, o meu espírito... ele grita por libertação a cada dia, cada hora, cada segundo... e ele me castiga...
— Shaka... — Mu murmurou lutando para não chorar.
— A força que me impeliu a agarrar meus cabelos e cortá-los, é a mesma força que me impede de cortar minha garganta, ou de me isolar na mais remota das terras e meditar até desencarnar... Eu tenho a escolha de não sofrer, me basta querer, mas... eu não quero. — disse, referindo-se aos anos de prática da filosofia budista, e a grandiosidade do poder de seu Cosmo.
De fato ele poderia escolher não sofrer, fugir de tudo aquilo apenas praticando o desapego, o abraçando como sua grande verdade, mas por escolha própria ele sofria, pois que amava Mu, amava Kiki e por isso escolheu a dor.
Embora estivesse surpreso por ouvir pela primeira vez Shaka se abrir daquela maneira consigo, Mu entendia como ninguém todos os seus dilemas. Não podia deixar, no entanto, de sentir-se culpado por prender aquele espírito tão elevado a ele no ciclo das existências e do sofrimento humano, e como se lesse seus pensamentos, o Cavaleiro de Virgem prontamente segurou em seu rosto com força e o advertiu.
— Não! Não, Mu. Por favor, não! Não vá por esse caminho, meu amor, não vá... não faça essa cara... — pedia aflito correndo as mãos pelos cabelos dele — Um dia Shaka há de encontrar o caminho do meio, o ponto de equilíbrio, então meu espírito e meu corpo enfim coexistirão em harmonia, como um só... Eu quis você, Mu, meu amado, meu marido, eu escolhi o nosso amor... e eu quis Kiki... Dobrei o tempo e o espaço... apenas para trazê-lo para você... para realizar o seu sonho de ser pai, que sem eu perceber também tinha se tornado o meu, mas agora... agora Kiki está indo embora e eu... eu não sei o que fazer. Eu sinto que estou caindo... e caindo...
— Ah, meu amor! Luz da minha vida... Estamos ambos caindo... — Mu disse embalando o marido nos braços — Pelos deuses, como eu entendo tudo isso que está sentindo. Eu também carrego dentro de mim essa dor... Apenas nossos modos de lidar com ela é que são diferentes, por isso eu estou aqui.
Shaka esforçou-se para controlar o choro, e após um momento de reflexão, já que estava visceralmente exposto e não tinha mais como voltar atrás, resolveu dividir com o ariano seu mais terrível dilema e sua mais triste fraqueza.
— Você e Kiki são tudo o que me importa desde que escolhi viver... — fez uma pausa, baixou a cabeça e olhou para o cilício em sua perna, então passou os dedos pelo metal, pela pele saltada entre os elos, já ligeiramente arroxeada, e suspirou — Você me pediu para prometer que o usaria... Mu eu não sei se posso te prometer isso.
— Por quê? — Mu engoliu em seco — Sei o tamanho do fardo que carrega, Sha. Eu só quero poder te ajudar a aliviar essa dor tão grande sem que se machuque mais com tanta gravidade. Dessa vez foi o cabelo, mas poderia ter sido... — calou-se respirando fundo — Por que acha que não pode?
— Porque... o meu espírito... ele é tão mais poderoso que meu corpo... eu não sei se... eu não sei se... não sei se conseguirei viver sem o meu filho... — ao confessar sua pior verdade o virginiano fechou os olhos e soluçou, caindo novamente em um pranto sofrido e doloroso.
Aquela tão terrível confissão dilacerou o coração de Mu. Não lhe era uma real surpresa saber que o marido não sentia vontade de viver sem Kiki. Shaka há muito dava sinais de sua depressão, mas foi duro ouvi-lo verbalizar seu querer. Num impulso o puxou para seu colo e então chorou junto com ele por longos minutos. Só quando sentiu que ele se acalmara um pouco é que com seriedade afastou-se para olha-lo nos olhos.
— Eu também não sei se conseguirei viver sem o meu filho... e sem você. — sentenciou Áries com um sussurro, depois beijou ternamente os lábios de Virgem, que arregalou os olhos, alarmado por aquela verdade.
— Me perdoe... — implorou, mas Mu não permitiu que ele continuasse; O calou colocando o indicador sobre seus lábios trêmulos.
— Shiii... Já disse que não há o que perdoar. Shaka, me escute com atenção... — naquele instante a fisionomia do lemuriano ficou séria e circunspecta — Eu não quero, e não vou, viver sem vocês, mas eu quero viver! Eu quero muito viver, Shaka! E eu quero lutar por Kiki e por você! É por isso que eu fiz esse cilício. — disse ao tocar o metal e encostar sua testa na dele — Porque eu quero que você lute comigo. Que ele seja uma força a mais para te ajudar a enfrentar essa nossa batalha... Mas, se o tempo não estiver a nosso favor... Se nós perdermos esta luta, e se nós cairmos... nós somos uma família, e eu te prometo, aqui... Aonde vocês dois estiverem, eu estarei lá com vocês.
Shaka fechou os olhos e duas lágrimas escorreram deles.
— Por tanto tempo eu tentei poupa-lo da minha fraqueza, mas... Eu lhe sou tão grato, e o meu amor por você é tão grande... Está bem, Mu. Eu te prometo. Toda vez que meu espírito gritar por alívio através da dor, eu buscarei apoio nesse cilício... Vou usá-lo, como me pediu, e continuarei lutando junto com você por Kiki, por nós, por nossa família.
Shaka segurou no rosto dele e o sentiu trêmulo e frio, então selou o pacto com um beijo.
Eles ficaram ali abraçados até seus corações se apaziguarem. Depois Mu ajudou Shaka a recolher os cabelos do chão e também a fazer a barba antes de irem juntos para o banho.
Ambos rogavam para que a água levasse embora a sombra nefasta daquela promessa fúnebre e lhes desse força para continuar lutando.
Templo das Bacantes 4:50 pm.
No camarim particular usado apenas por Afrodite e Geisty nas poucas vezes em que eles se apresentavam em algum número ou evento comemorativo, em meio às inúmeras araras abarrotadas de roupas, acessórios coloridos e brilhantes, caixas e mais caixas de sapatos e toda a sorte de objetos cenográficos, Mu estava sentado na cadeira de forro de veludo vermelho em frente ao grande espelho que pegava quase toda a extensão da parede. Ao lado dele, encostado na penteadeira repleta de frascos de perfumes e estojos de maquiagem, estava Afrodite, e este olhava para ele como quem olha para uma aparição fantasmagórica.
— Ainda não estou acreditando no que você me disse, e muito menos no que está me pedindo para fazer — disse, com ambas as mãos no rosto a apertarem as próprias bochechas. — Pelo picumã iridescente de Dadá! Mu!... O que está acontecendo com vocês? — respirou fundo agora espalmando as mãos no peito — Eu não posso acreditar que o loirudo fez uma coisa dessa! Muito menos posso concordar com o que está me pedindo. Isso é um pecado!
Longe de casa Mu não precisava ser forte. Ainda assim estava tão abalado pelo que ocorrera mais cedo que suas feições pareciam vazias.
Olhava estático para o espelho e não mais se via; era um fantasma de si mesmo. O pacto sombrio ainda lhe atormentava.
— Você não tem que concordar, Afrodite. — a voz saiu pesada, baixa e carregada de sofrimento, mas ainda firme — Quero apenas a sua ajuda porque eu... eu não consigo sozinho. — agora ela saia embargada, quase num choro.
Os olhos de Peixes tinham a cor da agonia.
— Pela deusa, meu amigo... Vai me doer tanto fazer isso. — ele lamentou.
— É só cabelo... — disse Mu passando a mão lentamente entre as madeixas lavanda, correndo os dedos da raiz até as pontas, onde segurou e encarou os fios por um tempo, como um sinal despedida. — Shaka não vai passar pelos olhares de julgamento sozinho... eu estarei com ele. Além disso, não sou mais digno de mantê-los... — mordeu o lábio inferior, segurando-se para não chorar. Achava que nem ele, nem Shaka, eram dignos de tamanha honra, não depois do que haviam feito.
Sem saber de toda a verdade, Afrodite olhou para ele, mortificado.
Dava para ver através dos olhos dele a tristeza que carregava na alma, mas também dava para ver o amor, o imenso amor que sentia por Shaka.
Cortar os cabelos para que Shaka não fosse julgado sozinho pelos curiosos era uma demonstração de amor e cuidado das mais nobres. Por isso, Afrodite, mesmo com o coração pesado, suspirou resignado, desencostou do balcão e se posicionou atrás da cadeira. De pé ali, ele olhou para o reflexo de ambos no espelho. Deslizou suavemente as mãos pelos fios lavanda e então se inclinou para a frente, apoiando o queixo no topo da cabeça de Mu.
— Não existe neste mundo pessoa mais digna que você, meu amigo. — disse, olhando nos olhos do ariano através do reflexo — Eu sempre estarei aqui para fazer por você tudo aquilo que não consegue fazer sozinho, ainda que me doa. Tenha certeza disso. — lhe deu um sorriso terno, mas seus olhos estavam marejados, depois endireitou a postura. — Bom, então vamos logo com isso.
Sem muita cerimônia para não perder a coragem ou mesmo ceder à tristeza, Afrodite prendeu os cabelos de Mu com um rabo de cavalo e depois desceu o elástico até o comprimento que ele lhe indicara, dois dedos acima dos ombros. Apanhou a tesoura sobre a bancada, e antes de começar a cortar ainda trocou um olhar com ele através do espelho.
Tinha esperança que ele mudasse de ideia, mas essa se fora de vez quando Mu assentiu com a cabeça.
Quando tudo terminou Afrodite chorou. Não pelo cabelo em si, mas pelo gesto, pelo significado de tudo que este carregava consigo.
O rabo de cavalo com os cabelos raros e de beleza única do lemuriano, Peixes guardou em uma caixa de vidro, a qual entregou a ele como quem entrega um tesouro a uma pessoa querida, então debruçou-se na cadeira e o abraçou forte.
Choraram juntos ali, por minutos intermináveis.
Dicionário Afroditesco
aleijo— problema grave
derretida— bêbada
derrubado— chateado, triste
mágoa de cabocla— ira, raiva, vingança
tomabada— triste, deprimida
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura" com muitas informações extras.
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.
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