Templo das Bacantes Vol. 3
36 O fim do mundo
Notas iniciais

Santuário de Atena, Décimo Terceiro Templo, 06:11am
(No mesmo dia, porém a muitos quilômetros de Moscou...)
A anunciação do início de mais um dia de primavera veio através dos vitrais azulados mais ao alto, cujos cantos estavam adornados por várias camadas de teias de aranhas. Por eles, a luz clara do sol passava e corria pelo chão de carpete rubro atolado de toda a sorte de quinquilharias; livros, pergaminhos, molduras de todos os tamanhos, gavetas empilhadas, pastas, caixas a perder de vista... Com seu brilho matutino ela também lapidava o manto vazio do Patriarca, o qual vestia uma cadeira tombada no chão, porém sua presença calorosa e viva só foi percebida por este quando lhe tocou o rosto abatido e de barba por fazer, lhe ferindo os olhos pesados de fadiga e o obrigando a pisca-los repetidas vezes antes que de fato fosse capaz olhar para o mundo lá fora, através das janelas.
Sentado sobre uma pilha desorganizada de livros, descalço e só de cuecas, Saga tinha as costas encurvadas e a respiração ofegante. Pouco acima dele, na parede, o rosto imponente do antigo Grande Mestre, eternizado em óleo sobre tela, parecia lançar um olhar severo ao caos que assolava aquela que um dia fora a dependência onde outrora passara a maior parte dos seus últimos anos de vida, o escritório particular do Patriarca.
Certamente Shion não aprovaria tal atitude, pensou o geminiano, que por fim suspirou exausto sentindo que seu corpo suplicava por descanso, ao passo que seu mente estava longe de entregar os pontos, pois que o tempo corria sem trégua. Desde que Geisty mencionara o diário que supostamente pudesse conter a cura para o mal que acometia Kiki, Saga não tinha feito outra coisa, nas horas vagas entre as sessões de terapia e reuniões do AA, senão procura-lo. E tal busca incessante nem era de todo motivada pela tão almejada redenção que carecia seu espírito cheio de remorsos, mas muito mais pelo desejo genuíno de poder salvar uma vida e devolver a paz perdida para Mu e para Shaka, além da promessa que fizera ao virginiano de que iria encontra-lo custe que custasse.
E ele não estava mais disposto a quebrar nenhuma de suas promessas.
Com esforço e determinação ele levantou-se mais uma vez do chão para continuar a procurar. No ato, uma pilha de papéis amarelados e carcomidos pelo tempo e pelas traças caíram de seu colo e se espalharam pela bagunça.
— Preciso achar.... Preciso... Ele tem que estar aqui... Preciso achar.
Saga repetia como um mantra, em voz baixa e sem muito sentido para quem o ouvisse.
E alguém o ouvia.
Atrás da suntuosa porta que vedava aquela sala, com uma das orelhas coladas na madeira, um ouvido curioso assuntava cada ruído do lado de dentro, mesmo sem entender muito bem o que ocorria. A missão de Gigars dessa vez era desvendar se o Patriarca guardava algum segredo, ou aquele rebuliço todo era apenas só mais um dos devaneios de sua mente perturbada, por isso o velhote passara a noite em claro fazendo uma espécie de companhia clandestina a Saga, que de tão concentrado em seu intento sequer deu-se conta de tão desprezível presença. Por isso falava para si mesmo em alto e bom tom:
— Não é possível! Essa porra de diário tem que estar aqui em algum lugar. Tem que estar! — dizia ele passando os dedos entre os cabelos suados. — Todo Cavaleiro de Ouro escreveu um diário... TODO! Por que só esse velho cornudo não escreveria?! Ah, escreveu sim! Eu sei que você escreveu, Shion. A minha Geisty disse que escreveu, e se ela falou tá falado. Se ela se lembra de você ter um diário que levava consigo para cima e para baixo, então eu vou achar essa porra, nem que esteja enfiado no rabo peludo do Hades!
Ansioso e atordoado, ele seguiu revirando papéis, livros, gavetas e tudo o mais que encontrasse pelo caminho, numa corrida desenfreada contra o tempo, até que sem perceber chutou uma garrafa de absinto que provavelmente fora deixada ali pelo Outro. A mera lembrança Dele lhe causou uma súbita paralisia, a qual ele enfrentou na mesma hora. Não seria mais escravo de suas memórias sombrias.
Respirando fundo, Saga acompanhou com os olhos a garrafa rolar pelo carpete até ir parar debaixo de uma escrivaninha antiguíssima, relegada à aposentadoria há tempos, em um dos cantos da sala de frente com uma janela de vista estreita, mas bastante iluminada.
— ARGH! Desgraçado! Só falar no nome desse corno... — resmungou se agachando para massagear o dedo mindinho, que latejava, do pé nu, enquanto direcionava um olhar de puro ódio para a garrafa.
Movido por um impulso sem muita lógica, ele de repente se ajoelhou no chão e engatinhou para debaixo da escrivaninha a fim de apanhar a garrafa. Na verdade, ele sentia ganas em quebra-la na própria cabeça para, quem sabe, enxotar para longe um intempestivo desejo que brotara dentro dele de afogar-se no líquido verde entorpecente guardado no interior dela, e que agora aos poucos se espalhava pelo carpete.
Quando finalmente apanhou a garrafa, seus dedos se apertaram contra o vidro, seus olhos focaram o líquido translúcido, e seu olfato acionou zonas no cérebro que fizeram seu corpo todo tremer e os pelos eriçarem. Só a breve ideia da sensação de calor do álcool a descer-lhe pela garganta fez brotar gotículas de suor em sua testa e a boca salivar... mas ele não podia ceder. Não fácil assim. Não depois de tanto esforço.
Num impulso Saga lançou a garrafa para longe de si, então fechou os olhos e respirou fundo.
Não. Não ele não ia ceder.
Determinado a retomar a busca pelo diário, embora estivesse exausto, ainda de olhos fechados ele tomou impulso para se levantar, esquecendo-se completamente de que estava debaixo de uma escrivaninha do mais puro cedro himalaio.
— Ai, cacete!
O choque da testa de Saga contra a madeira maciça foi tão forte que o fez cair de costas, ali mesmo onde estava, e provocou no móvel um solavanco, tornando possível ouvir algo dentro dele ser sacudido, algo que, dado o som que produzira, era bem pesado por sinal. Detalhe que não foi ignorado pelo geminiano.
Levando a mão à cabeça, Saga esfregava o local da pancada enquanto corria os olhos pelo fundo da gaveta com a qual se chocara. Aparentemente não havia nada de estranho ali, mas cismado ele segurou nos pés da escrivaninha e a chacoalhou com força, então novamente ele ouviu o som de algo dentro dela sendo sacudido. Ansioso ele engatinhou para fora e passou a analisa-la com mais atenção. Correu os dedos pelo puxador de bronze da última gaveta e a abriu, encontrando ali apenas uma luxuosa pena branca com ponta de cristal e ornamentos em fios de ouro, junto de um tinteiro também de cristal; dois objetos pessoais que outrora pertenceram a Shion, e que ele mesmo havia mantido ali, intocados. Era estranho como a lembrança do antigo Patriarca não lhe afetava tanto quanto seus pertences, pois que estes pareciam manter viva a presença dele ali. Talvez por isso nunca quis usar aquela pena para assinar qualquer documento que fosse sob seu atual governo; nunca se achara à altura de tal comparação.
Com um nó na garganta e o coração pesado pela culpa que agora voltava a assombra-lo, Saga fechou a gaveta disposto a nunca mais abri-la, mas na manobra novamente ouviu o som de algo sacudindo por dentro. Cismado ele repetiu o gesto mais duas ou três vezes, sempre ouvindo o mesmo som, então passou a analisar a gaveta por baixo, correndo os dedos e os olhos jades por cada pedacinho da madeira, até que tentou puxa-la devagar toda para fora. Para sua surpresa esta parecia ter um espaço interno muito mais estreito do que aparentava, e se antes Saga estava somente curioso, agora ele estava à beira de um ataque de nervos.
Sem conseguir conter a aflição, ele absteve-se das delicadezas e com um puxão forte terminou de arrancar a gaveta inteira para fora da escrivaninha, mas na afobação do ato ele caiu sentado para trás e derrubou sobre si a pena e o tinteiro de cristal, que depois de despejar-se sobre ele, no rosto, peito, ombros e braços, rolou pelo carpete vermelho e pelos objetos jogados no chão, levantando no ar um odor forte do que parecia uma espécie de solvente incolor.
— Mas que... porra! — excomungou passando a mão pelos olhos, que ardiam em contato com o líquido mal cheiroso e transparente.
Enxergando meio turvo, Saga esticou a mão e apanhou o manto branco para tentar limpar os olhos nele, vestindo-o de qualquer jeito logo em seguida, depois colocou a gaveta no chão e passou a analisar seu interior minuciosamente, assim pôde reparar que em uma das arestas internas havia marcas de ranhuras e uma pequena fenda. Nessa hora seu coração disparou. Estava claro que havia um fundo falso ali e que algo fora escondido nele.
Sem pensar duas vezes, com um só toque de seu indicador ele desintegrou a madeira que revestia a base superior da gaveta e então eis a surpresa!
***
Hospital de Atenas, Ala 5, 06:20am
“Shaka?”
“Meu caro Shaka, por que está tão triste?”
“Você certamente já entendeu que temos que estar separados de tudo o que amamos... e que impermanentes são todas as coisas. ”
“Assim é a vida. Apenas um momento passageiro que é encerrado pela morte, o grande nivelador da existência de todas as coisas, o que torna todos iguais. Você apenas precisa abrir os seus olhos e olhar à sua volta, então verá que tudo está morrendo, dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, o tempo todo. As plantas, os animais... desertos já foram oceanos; a terra árida um dia já foi fértil... A morte é natural... Mas, Shaka, a morte... ela não é o fim.”
Por anos ele viveu certo de que seus olhos haviam enxergado a verdade que seu espírito abraçara no momento em que tivera consciência de quem era e do que era esperado de si.
Por anos ele encontrou nessa verdade o conforto para as fantasmagorias de sua mente sempre inquieta.
Mas agora, diante da cena que acompanhava com seus olhos azuis celestes arregalados cobertos por um véu fino de lágrimas trêmulas, sentindo as palpitações fortes do coração acelerado e os músculos tensos de seu corpo exausto e tão maltratado, as palavras de Buda, que outrora tanto o confortaram, agora lhe soavam como pedras atiradas à superfície de um lago de águas turbulentas.
De pé em frente à janela de vidro do quarto de terapia intensiva onde Kiki estava internado, parado sob a luz pálida do lado de fora, Shaka acompanhava a movimentação dos enfermeiros e médicos em torno do leito do paciente. Uma cena que se repetiu por toda aquela noite, e a qual certamente classificou como a mais terrível de sua vida.
Feito formigas a devorarem frenéticas um inseto, a equipe médica da Ala 5, coordenada por doutor Hector, passara aquela noite ali, debruçada sobre o leito do garotinho lemuriano, que precisou ser entubado às pressas, empenhados na única e difícil missão de mantê-lo vivo.
Foi uma piora súbita e inesperada.
Ainda à tarde, enquanto Kiki recebia a terceira dose do soro experimental sintetizado por Mu e doutor Adônis, eles assistiram televisão e riram juntos de um bocado de trivialidades que em situações normais lhes passariam batidas, como a dificuldade absurda de Shaka em lidar com a tecnologia dos celulares, ou as reclamações constantes de Mu com a textura molenga da gelatina que era servida nas refeições do hospital. Então de repente veio a febre, que evoluiu rapidamente para um quadro de convulsões graves e recorrentes, e quando o corpo pequenino, já tão débil e judiado, não mais as suportou este entrou em colapso. Uma parada cardiorrespiratória fez os dois jovens pais liberarem os gritos há muito entalados em suas gargantas.
A surpresa e frustração diante daquela realidade só não eram maior que o horror e o medo que os devastava.
Antes mesmo de Adônis ser capaz de lhes dar uma explicação do que havia ocorrido, Shaka e Mu já sabiam. O soro estava errado, não havia surtido efeito algum. A fórmula não era aquela.
Como um bravo guerreiro digno de todas as heranças a ele delegadas, Kiki resistiu a mais duas paradas cardiorrespiratórias até finalmente ser estabilizado.
O sol nem bem tinha derramado o seu calor naquela parte da Terra quando Adônis reuniu os médicos para uma nova avaliação do estado da criança e através desta decidir o que mais poderia ser feito.
Mu fizera questão de ficar dentro do quarto para participar de tudo o que seria dito e decidido por eles. Já Shaka precisou sair, ou sua raiva mortal do karma, que agora era nada além do que um medo visceral, o impeliria a cometer alguma loucura.
Agora ali, diante da janela de vidro, ele prendia a respiração enquanto acompanhava com os olhos as movimentações dentro do quarto. Via os rostos taciturnos dos enfermeiros por detrás das máscaras e podia ler em cada linha aparente deles a mesma desesperança e sentimento de impotência que agora voltava a estampar o seu. Em dado momento olhou para Mu, que como se fosse capaz de sentir sua aflição lhe lançou de volta um olhar que dizia que estavam perdendo aquela guerra.
Nunca sentiu-se tão alquebrado quanto naquela hora.
Sem ao menos piscar os olhos, voltou a olhar fixo para o aparelho ao lado do leito que monitorava os sinais vitais de Kiki, enquanto dizia para si mesmo que sua falta de fé, a negação e a raiva, eram como o gosto amargo inextinguível que sentia na boca desde que aquele pesadelo tivera início, puro e simplesmente medo.
Medo... logo ele, que nunca temeu a morte.
Logo ele, que sempre ansiou por ela como sua única chance de libertar-se da ilusão da vida.
Shaka estava a ponto de voltar para dentro do quarto quando súbito sentiu seu celular vibrar no bolso da calça de algodão. A princípio o ignorou. Estava inclinado na borda do precipício, olhando diretamente para infinito vazio, pronto para atirar-se nele, e não havia nada no mundo que tivesse o poder de desviar sua atenção do que já estava decidido.
Mas a insistência dos toques, repetidas e repetidas vezes, por fim o impeliu a enfiar a mão no bolso e apanhar apressado o aparelho. Seu rosto magro e abatido então ganhou um ar de perplexidade quando olhou no visor azul e leu o registro da chamada.
Respirou fundo, duas, três vezes, de olhos fechados, enquanto com a mão que tinha livre arranhava fortemente a nuca raspada.
Por fim decidiu atender.
— Saga... eu não posso falar com você agora — disse Shaka sem esforçar-se para disfarçar o nervosismo, porém notando de imediato a euforia na voz do outro lado da linha. — Não!... O quê? Ir até aí? Você não ouviu o que eu disse? Eu não posso falar com você agora, muito menos ir até aí ao Santuário e...
De repente, o rosto do Santo de Virgem ficou lívido e seus olhos emanaram uma faísca dourada forte.
No instante seguinte ele desapareceu, ficando apenas o corredor vazio.
***
Templo do Grande Mestre, Santuário de Atena
Ignorando o protocolo que exigia que ele aguardasse no saguão trajado com sua armadura de ouro enquanto um dos soldados do Santuário ia até o Patriarca anunciar sua presença, Shaka invadiu as dependências do Décimo Terceiro Templo fazendo com que uma turba frenética e barulhenta de soldados viessem ao seu encalço.
A perseguição desenfreada se deu até as grandes portas de madeira do escritório de Saga, as quais Virgem abriu com um tranco num único golpe.
— SAGA!
Ele chamou, aflito e ofegante, enquanto já adentrava o aposento à procura do geminiano, correndo os olhos alarmados pelo caos descomunal que assolava o local.
Atrás dele, perdidos como pássaros desorientados voando em círculos, os soldados já se assomavam com a típica expressão nos rostos de quem falhou gravemente no que era esperado de si, ainda que tivessem plena consciência de que jamais teriam poder para conter um Cavaleiro de Ouro, especialmente um cuja urgência e determinação eram visíveis. E quando já não sabiam nem mais o que estavam ainda fazendo ali, eis que sentiram um certo alívio quando viram o Grande Mestre, totalmente desalinhado, descabelado, com o manto aberto e amarrotado jogado por cima das costas, saltar de detrás de uma estante de livros tombada por cima de um móvel e lhes fazer um sinal com a mão para que deixassem o recinto e fechassem a porta.
— Saga! — disse Shaka ao vê-lo, e imediatamente caminhou apressado até ele saltando por cima daquele pandemônio todo. — Rápido! Onde está? Onde está?
Gêmeos voltou toda sua atenção para ele sem nem ao menos esperar que os soldados todos deixassem o recinto e fechassem a porta, e quando olhou em seu rosto percebeu de pronto que sua expressão estava deveras mudada desde a última vez que o vira. Nela havia agora um terror indescritível.
— Shaka! Graças aos deuses você veio! — disse ele o encarando com os olhos fundos, marcados pelo cansaço, arregalados. Aquela expressão no rosto dele só podia significar que algo ruim se passara com Kiki, e que mais do que nunca o tempo não era um aliado.
Com a mesma pressa de Shaka, Saga atravessou aquele caos que os separava à medida em que tentava fechar o manto, mas com as mãos trêmulas mal ele deu conta de alinha-lo nos ombros.
— Mas o que pelos Seis Infernos aconteceu aqui? — esbravejou o virginiano sem poder crer que havia acabado de pisar numa poça do que parecia bebida alcóolica, já que poucos palmos à frente viu a garrafa de Absinto tombada sobre uma pilha rasgada de livros.
Por conta do afobamento e a ansiedade que o corroía por inteiro, Saga achou por bem ignorar a pergunta e seguir até ele focando no que realmente interessava.
— Shaka, eu preciso da sua ajuda para resolver uma incógnita.
— Como é que é? — Virgem levantou os olhos da garrafa e os cravou no rosto afoito do grego. — Você me tirou do hospital para me fazer vir aqui resolver os seus problemas com o vício etílico, Gêmeos?
— O quê? — disse Saga, aturdido com aquela pergunta. — N- Não!
— Como não? Seu sacripanta dos Seis Mundos! Seu espírito de porco! — berrou o indiano, então tomado por uma fúria cega abaixou-se, apanhou a garrafa de Absinto e a atirou com toda força contra Saga, que desviou por pouco se abaixando. — SEU BÊBADO!
— Ei! Se acalme, Shaka, eu não...
— Além de ébrio você é um intrujão dissimulado, Gêmeos. Para o inferno! — gritou ele com o indicador em riste apontado para a cara de Saga.
— EU NÃO BEBI! — o geminiano gritou de volta, visivelmente perturbado.
— Eu devia arrancar a sua língua por mentir para mim depois de todo apoio que eu te dei, depois de me colocar ao seu lado... eu... eu briguei com o Mu por sua causa! Eu deixei o meu filho morrendo no hospital para vir aqui porque você disse no telefone móvel que tinha achado o diário do Shion e...
Shaka foi interrompido quando de repente, e num rompante de desespero, Saga avançou um passo e o agarrou pelos braços lhe dando um chacoalhão forte.
— O que você disse? Kiki... ele está...
Não teve coragem suficiente para concluir a pergunta.
Shaka o encarou buscando dentro de si a força necessária para sequer concluir aquele pensamento. No fim não a encontrou, e com um safanão livrou-se das mãos do geminiano e recuou um passo.
— ÉBRIO PROXENETA! — gritou ele fazendo uma careta de nojo e desgosto, enquanto corria os olhos por Gêmeos dos pés à cabeça.
— Eu já disse que não bebi, caralho! Será que pode me ouvir, ô cria barulhenta do Ganges?
— Claro que você bebeu! E esse cheiro? Você está fedido, cheirando a álcool, descomposto e com cara de louco. Você é um caso perdido! — esbravejou. — Mas dessa vez você que se dane sozinho e...
— CALA A BOCA, PORRA! — berrou Saga, com os olhos jades faiscantes. — Eu não bebi caralho nenhum, Shaka! Esse cheiro que está sentindo é daquela merda de tinteiro ali — apontou afoito para o tinteiro tombado no chão.
Os olhos azuis celeste do indiano acompanharam o dedo dele e analisaram o objeto em questão entre toda aquela bagunça, o qual, a princípio, lhe pareceu bem estranho, já que não havia tinta alguma derramada dele, só mesmo um cheiro fortíssimo muito semelhante a álcool.
Diante da aparente desconfiança de Shaka, Saga saltou pela bagunça e foi ele mesmo apanhar o tinteiro no chão, então o entregou nas mãos do indiano.
— Veja você mesmo... Parece ter algum produto como tíner ou... sei lá, mas o cheiro vem daí, desse tinteiro — falou ele ansioso, e enquanto Virgem molhava os dedos e as mãos naquele líquido transparente deveras estranho emendou: — Ele caiu em cima de mim quando eu achei isso aqui.
Finalmente ele enfiou a mão no grande bolso interno que havia no manto de Patriarca e de lá tirou um livro grosso de capa de couro muito dura.
O sacodiu no ar, bem à frente dos olhos de Shaka, que emitiram uma faísca dourada ao olhar para ele.
Prendendo a respiração, Virgem nem pensou duas vezes. Jogou o tinteiro de cristal no chão e desesperado tomou o livro das mãos do geminiano sem que este tivesse tempo ou chance de impedi-lo.
— Me dá isso aqui — disse Shaka, e com o livro nas mãos passou a vasculhar afoito a capa.
Saga olhava aflito para ele, e em seu peito o coração batia tão forte que era como se tivesse um bate-estacas o martelando.
— Shaka... isso... bem, isso não é exatamente o que imaginei que encontraria.
— Como assim, não é, Gêmeos? — disse Virgem enquanto abria apressado a fivela de cobre na capa para desatar a correia de couro que o mantinha selado — É exatamente como a Geisty o descreveu.
— Sim, mas... é que... — a voz de Saga era reticente e baixa. Não sabia como falar o que havia visto, ou melhor, o que não havia visto —... bem, me parece que há algo de errado em tudo isso... por isso eu o chamei aqui, justamente porque há... algo errado.
— O que há de errado? Este é o diário! O diário do Shion!
— Sim, é, mas... Ele está em branco, Shaka.
Naquele exato instante, os olhos de Virgem confirmavam as funestas palavras do Patriarca, correndo absortos pelas páginas em branco, cujas únicas marcas impressas eram as do tempo, visíveis nas arestas amareladas e carcomidas.
Páginas e mais páginas, centenas delas, e nenhuma palavra sequer existia ali para alimentar uma miserável fagulha que fosse de esperança para Kiki.
As batidas do coração de Shaka então se tornaram pancadas fortes e aceleradas. Sua garganta secou e o estômago se contorceu em nós doloridos.
— Não... — ele murmurou passando as páginas, sentindo uma pontada de terror produzir um zumbido alto em seus ouvidos e lhe gelar as pernas, tornando a simples tarefa de se manter de pé um esforço hercúleo — não pode ser... o que significa isso?... Você está zombando de mim!
— O quê?
— Você disse que achou o diário de Shion... onde ele está? ONDE ELE ESTÁ? — gritou, fuzilando Saga com os olhos, completamente alucinado, com toda a sua frustração convertida em raiva irracional.
— Ele está nas suas mãos, Shaka. — disse o geminiano apontando confuso.
— ESSA PORRA DE LIVRO VELHO EM BRANCO NÃO PODE SER A ÚLTIMA ESPERANÇA DO MEU FILHO, SEU PROXENETA ÉBRIO! — ele esbravejou dando um empurrão em Saga.
— Eu já te disse que não bebi, CARALHO! — Saga revidou o empurrando de volta, com os nervos à flor da pele. — Esse é o diário, Shaka! ESSE É O DIÁRIO DO SHION!... Olhe à sua volta! Veja! Eu revirei tudo por aqui, canto por canto, as cortinas, os quadros e até a porra do carpete eu arranquei. Esse é o diário!
Saga passava as mãos nos cabelos desalinhados, quase os arrancando da testa.
— Onde ele estava? — Shaka perguntou ofegante.
— Estava na antiga escrivaninha do Shion, dentro de uma gaveta com um fundo falso — respondeu Saga aos gritos. — Não há outro, Shaka. Só pode ser essa porra do caralho aí, mas ele está completamente vazio... Por isso eu o chamei aqui... Eu sabia que algo estava errado, então achei mais prudente que você o visse antes de eu leva-lo para o Mu, já que ultimamente não há muito diálogo entre mim e ele... Bem... na verdade, acho que eu não queria aparecer lá no hospital para entregar para vocês essa merda em branco, porque sei o que isso significa... — respirou fundo e engoliu em seco esfregando o rosto agoniado. — Porra, eu nem sei como falar para o Mu que o diário do mestre dele, o qual poderia conter tudo o que o velho sabia, na verdade não tem é merda nenhuma... eu... eu sinto muito.
Shaka olhava para ele, calado, inerte.
Saga esfregou novamente o rosto, desconcertado.
— Eu... eu não acredito que aquele velho maldito levou tudo para o túmulo com ele. Que ódio! Que ódio de mim! Que ódio dele! Que ódio do corno do Hades! Caralho!
Virgem sequer ouvia os esconjuros de Gêmeos.
Sentia o rosto queimar como fogo, embora esse estivesse tão pálido quanto o de um fantasma.
Tentava piscar os olhos, mas não conseguia.
Tentava respirar, se mover, pensar em algo, mas não conseguia.
O momento parecia-lhe simplesmente o fim do mundo.
Trêmulo e lutando para manter-se de pé, pois que sentia seu sistema nervoso à beira de um colapso causado pelo pânico tão terrível de pensar no que aquele livro em branco em suas mãos significava, Shaka baixou os olhos para este e mais uma vez folheou as páginas vazias.
Em profundo desespero, tentou buscar na memória qualquer lógica que pudesse explicar o fato de Shion ter um diário tão bem guardado, escondido praticamente, sem qualquer conteúdo, e obviamente não encontrou nenhuma.
O antigo Patriarca era um homem rodeado por mistérios, e muitos deles nem mesmo Mu tinha conhecimento.
Aquele era só mais um.
Shion tinha levado consigo para a sepultura grande parte dos segredos e conhecimentos de seu povo, e por isso agora também levaria Kiki.
Num repentino acesso de raiva e desesperança, Shaka girou ofegante e com um urro hediondo atirou o diário contra a parede do fundo da sala.
— Teri maa ki chut! — ele berrou em sua língua natal, enquanto cravava as unhas em uma das estantes de madeira e a atirava contra outra das paredes, obrigando Saga a cobrir a cabeça e saltar para o lado para proteger-se dos destroços. — Tere gaand mein keede paday, Shion. Ullu ke pathe!
Saga naquela hora agradeceu não ser fluente em hindi, assim não sentiria o peso da série de maldições que saiam da boca de Shaka, as quais eram tantas quantas os objetos que ele destruía com as próprias mãos feito um lunático. Alguns ele socava, partia ao meio, outros ele atirava ao leo com toda raiva.
Foi justamente um desses, um peso de papel de bronze maciço, que voou contra a porta de madeira, mas instantes antes do choque a porta se abriu e ele freou bruscamente no ar.
— SHAKA!
A figura transtornada do Cavaleiro de Áries assomou-se na entrada da sala tão grave e raivosa quando a voz que chamava pelo Cavaleiro de Virgem.
Momentos antes de chegar ali, Mu, completamente desolado, procurou desesperadamente pelo marido nos corredores do hospital. Tanta urgência e angústia se davam pelo fato de ter que transmitir a Shaka a notícia que eles mais temiam. No entanto, para seu completo desgosto, além de não encontra-lo ali sentiu sua presença no Santuário, e especificamente no Décimo Terceiro Templo junto de Saga.
Todo o pesar no coração de Mu então se tornou ira.
O que diabos Shaka fazia lá? Por que o tinha abandonado no hospital, sozinho, e justo num momento tão terrível, para perder tempo com aquele traste? Eram as perguntas que atormentavam sua mente, então num piscar de olhos teleportou-se para o Santuário e invadiu o Templo do Grande Mestre sem se importar com os guardas apavorados, que a essa altura já nem sabiam mais o que fazer com aquela sequência de invasões descabidas.
O humor de Áries azedou de vez quando ele avançou pelos corredores feito um carneiro desembestado e ouviu os berros e maldições que o marido lançava dentro daquela sala fechada.
Agora ali, parado diante dos dois cavaleiros, Mu mantinha as portas abertas as segurando com ambos os braços, enquanto levitava no ar o peso de papel atirado por Shaka em sua direção. Mas, ao contrário do que tinha pensado em fazer quando ali chegasse, ao contrário das palavras que havia pensado em dizer, ao contrário da bronca que queria dar em Virgem, ao vê-lo ali, visivelmente transtornado dentro da antiga sala de seu mestre, toda sua raiva e agitação desapareceram.
A mente de Mu então ficou em branco. Também sua boca ficou muda.
Com os olhos verdes injetados ele divisava firmemente os olhos azuis intensos de Shaka, e tudo o que parecia restar em ambos os olhares era o vazio. O Nada.
Os gritos cessaram. Um silêncio fúnebre e incômodo preencheu todo o recinto. Era uma situação deveras estranha, na qual nenhum dos três cavaleiros sabia o que fazer ou dizer. Saga alternava o olhar, ora para Shaka, ora para Mu, enquanto os outros dois tornaram-se completamente alheios à sua presença, incapazes de quebrarem o contato visual um com o outro.
Na realidade, nada precisava ser dito.
Tanto Virgem quanto Áries traziam a mesma verdade agourenta impressa em suas íris vidradas: não havia mais esperanças.
A vida de Kiki estava irremediavelmente próxima do fim, e assim as vidas deles também. A hora de cumprirem a promessa de estarem todos juntos na morte se aproximava.
Áries estampava em sua face a figura de um homem que perdera tudo.
Mu sentia-se vazio e cego. Não havia mais fúria, raiva ou ira. Não havia futuro. Não havia esperança, nem sequer o ambiente ao redor e a presença de uma terceira pessoa ali.
Sob o peso esmagador do desamparo, tudo o que existia agora era Shaka.
Movido por uma necessidade visceral, Mu avançou em direção ao marido, fechando as portas atrás de si e deixando o peso de papel cair barulhento no chão. Um silêncio funesto destacava os passos dele, enquanto Shaka o via se aproximar sem conseguir se mexer, como uma criança que é pega em flagrante fazendo arte e já espera pela sentença do castigo certo.
— Mu... — Virgem balbuciou quando conseguiu falar, e seu tom era tão baixo que mais parecia um sussurro — O que faz aqui?
Shaka temeu o pensamento que se formou em sua mente e sufocou um grito.
Mas nem era preciso voz para expressar o puro desespero que o devastava, ele era completamente visível em seu olhar, este que Mu foi incapaz de sustentar.
Sem conseguir encarar Shaka, de cabeça e olhos baixos Áries se aproximou e num gesto muito mais involuntário do que pensado tomou a mão dele e a apertou contra a sua.
— Nós falhamos — disse ele, e fez uma pausa apertando os lábios trêmulos, como se as palavras fossem dolorosas demais e não conseguisse pronuncia-las. — O doutor Adônis disse que o nosso filho... ele entrou em coma e não vai mais acordar... Não há mais nada a ser feito.
Shaka ficou olhando para ele sem reação.
Mu levantou a cabeça, mas ainda evitava olhar o virginiano nos olhos, mantendo os seus marejados presos nos lábios trépidos entreabertos.
— Kiki está nos deixando, Shaka — disse o ariano num sussurro embargado, arranhado, e que por fim explodiu num soluço engasgado — Tudo o que nos resta agora é... é ficar ao lado dele e... esperar.
— Não... — Shaka murmurou.
Mu finalmente olhou nos olhos dele e os viu cobertos por um véu espesso de lágrimas. Naquele instante Shaka deixou de lutar contra elas; as sentia deslizarem quentes por seu rosto, tornando a imagem de Mu à sua frente cada vez mais turva.
— Não... — ele repetiu.
Como se subitamente seu corpo tivesse ganhado o peso de toneladas, Shaka se inclinou para frente e apoiou a testa num dos ombros de Mu, então movendo os braços devagar o passou pelas costas dele e o abraçou, sem força, sem intensidade, almejando apenas consolação, para ele e para si. Sabia que Mu estava tão destruído quanto si mesmo, e o único refúgio que lhes restava agora para encarar o fim do mundo era um ao outro, nada mais.
A tragédia que Áries e Virgem vivenciavam naquele instante era tamanha que sentiam-se engolidos por ela. Era como ser tragado para um poço fundo onde só há dor e isolamento, onde nada mais ao redor deles, nada fora do poço, importava mais.
Eles não podiam mais perceber o mundo, mas alguém ali os percebia. Alguém ali nunca deixara de fato de percebê-los, pois que a dor deles era também a sua, e esta ainda o feria sem misericórdia.
Saga percebeu que havia algo de muito errado assim que bateu os olhos em Mu. Ele conhecia como ninguém o peso da derrota impresso no olhar do lemuriano. Era uma falta de viço, um pesar descomunal, uma dor que corrói a alma e as vísceras até chegar no tutano dos ossos. Sim, a dor no olhar de Mu era uma velha companheira sua.
Pela segunda vez Saga vivenciava o pesadelo de ter de testemunhar a morte de uma criança, e o fato de agora ser apenas expectador não tornava aquele horror menos terrível. Seus músculos retesaram da mesma forma, o sangue gelou nas veias do mesmo jeito, e o chão sob seus pés se esfarelou como da primeira vez. Temeu perder-se novamente dentro de si mesmo, então em pânico num reflexo rápido e impensado olhou para os próprios pés. Eles ainda estavam lá, descalços, sobre o tapete carmim coberto por papeis inúteis.
Ainda era ele mesmo.
Deixou escapar um suspiro, mas logo em seguida se colocou alerta novamente e voltou olhar para Shaka e Mu. O nó em sua garganta então se afrouxou e lágrimas quentes banharam seu rosto.
Ah, como queria poder fazer algo por eles... Como queria que tudo fosse diferente.
Tudo o que conseguiu fazer foi encontrar um diário em branco. Como se envergonhava de dar a eles aquela esperança vã, de ser ele a pessoa que lhes daria o tiro de misericórdia.
Fechando os olhos e respirando fundo, Saga se moveu com certo custo e caminhou lento até os dois cavaleiros no centro da sala destruída.
— Mu...
Sua voz era um mero sussurro, mas que quebrou o silêncio e atraiu a atenção imediata de Áries.
— Eu... eu sinto muito, acredite — disse Saga quando os olhos úmidos de Mu encontraram os seus, depois desviou o olhar para Shaka, que chorava copiosamente escondendo o rosto na curva do pescoço do ariano — nenhum pai jamais deveria passar por isso.
Suspirou, depois prendendo a respiração levantou a mão e tocou os cabelos curtos do virginiano fazendo neles um afago. Era absurdo e desconcertante ver um homem tão poderoso, e a quem tinha tanta estima, naquele estado e não poder fazer nada para consola-lo.
— Shaka eu... eu sinto ainda mais ter dado a você falsa esperança, me perdoe — falou com a voz embargada, entre soluços.
Nessa hora, Saga novamente desviou o olhar e olhou para Mu, e o que viu fez seu peito gelar e o estômago levar um choque.
Mu olhava para ele como quem olha para uma aberração, para um evento ou entidade incompreensível à primeira vista, com os olhos verdes arregalados, a boca semiaberta e uma expressão de puro assombro.
— Pelos deuses, Saga! — exclamou Mu com visível espanto.
Num sobressalto, Saga recolheu a mão que confortava Shaka e seu rosto se contorceu numa carranca.
— O que foi? — perguntou trêmulo.
Mu então varreu com os olhos toda a figura do geminiano, dos pés à cabeça, e em seguida lançou um breve olhar ao redor, por todo o entorno, só percebendo agora o caos instaurado ali. Sobressaltado ele segurou Shaka pelos ombros e o afastou de si para também poder olhar para ele e constatar o que seus olhos não lhe pregavam uma peça.
— O que demônios aconteceu aqui? — questionou enquanto vasculhava curioso as roupas de Virgem e também seus cabelos. Na área onde Saga os havia tocado momentos antes, Mu inclinou-se e os cheirou.
Sem entender a reação do lemuriano, e pensando que novamente o cheiro de álcool impregnado naquela sala pudesse estar pondo em cheque sua conduta, Saga logo tratou de se explicar:
— Olha, Mu, não é o que parece... Eu não bebi. Eu juro!
Mas Mu parecia nem escutar o que Saga dizia. Curioso ele agora tomava ambas as mãos de Shaka nas suas e vasculhava dedo por dedo, enquanto Virgem lutava consigo mesmo para se acalmar e controlar o choro.
— Aquela garrafa estava aberta e espalhou a bebida no chão quando eu a chutei sem querer, depois o tinteiro antigo do seu mestre caiu em cima de mim, mas não tinha tinta nele, só tíner, então eu achei o diário do Shion e liguei para o Shaka, mas infelizmente ele está em branco, daí eu achei que... — matraqueava nervoso o geminiano quando Áries o interrompeu.
— O... o diário? — Mu perguntou consumido em aflição, trêmulo e com os olhos arregalados a encararem Saga firmemente. — Você disse que encontrou o diário? O diário do Mestre Shion?
Saga apertou os lábios olhando para ele.
— Sim, mas... como eu disse...
— Onde está? — perguntou eufórico o interrompendo.
Saga trocou um rápido olhar com Shaka, que enxugando as lágrimas pegou na mão de Mu para chamar-lhe a atenção, sem entender o motivo de toda aquela afobação que consumia o ariano.
— Mu... o diário é inútil... não há nada nele. Como o Saga disse, está em branco — falou Shaka com extremo pesar.
— Só me diga onde está o diário, Shaka — insistiu Mu.
Shaka o encarou por um momento, sério, depois virou o rosto na direção em que havia atirado o diário e fez um sinal com a cabeça.
Na mesma hora Mu correu até o local indicado, saltando por sobre aquela bagunça toda até encontrar o livro jazido no chão, enquanto Shaka e Saga o observavam de longe lamentando o momento que ele confirmasse a verdade com seus próprios olhos.
Mas não foi bem isso que aconteceu.
Quando tomou o diário nas mãos, a princípio Mu ficou curioso. Sua capa de couro estava toda manchada de tinta, a mesma que cobria os cabelos, o rosto, ombros, braços, pés, manto e torso de Saga, e a mesma que também estava impregnada nas mãos, na camisa e nas mechas de cabelo de Shaka onde Saga os havia tocado; as arestas das páginas ainda estavam meio enrugadas e úmidas pela mesma tinta.
Afoito, e com o coração saltando num ritmo alucinado dentro do peito, Mu abriu o diário, rapidamente correu algumas páginas e, ao contrário do que Saga e Shaka lhes disseram, lá estavam elas, as palavras, escritas com a caligrafia inconfundível de seu mestre Shion, junto do que pareciam instruções, listas, mapas que certamente indicavam locais secretos e tantos outros segredos, todos redigidos à mão no idioma lemuriano. A verdadeira herança do antigo Patriarca para aquele que deveria ter sido seu sucessor. Tudo devidamente anotado com uma tinta holográfica de coloração furta cor, uma mistura de verde com terracota. Por isso ele havia se assustado ao olhar para Saga, pois que era o mesmo que olhar para uma criança que havia brincado com guache e sujado toda a si mesma, além do chão e tudo mais ao seu redor.
Como um viajante sedento que encontra um oásis no meio do deserto, Mu começou a folhear as páginas, e a cada nova uma arrebatadora esperança voltava a preencher seu espírito.
Então ele chorou, mas suas lágrimas dessa vez tinham a farta companhia de um riso nervoso descomedido, que pouco a pouco se transformou em uma gargalhada alta e alucinada, a qual deixou desconcertados os dois cavaleiros que o observavam à distância.
Será que ele tinha enlouquecido diante do diário em branco? Era o que pensavam Shaka e Saga.
Sem conseguir conter a emoção, Mu caiu de joelhos ali mesmo, abraçado ao diário, rindo e chorando enquanto intimamente creditava aos deuses, que tanto orara, àquela benção, os quais finalmente se apiedaram de si e lhe atenderam as preces.
— Obrigado... deuses, obrigado! Obrigado Shion! Obrigado! — não esquecia-se do Mestre. — Eu sabia que não me desamparariam.
Ele murmurava emocionado, e enquanto ainda agradecia aos deuses e Shion sentiu-se ser abraçado por trás e lábios ternos tocarem seu rosto molhado. Era Shaka, que preocupado logo veio até ele prestar-lhe algum conforto como conseguia.
— Mu... deixe isso aí, acabou. Temos que voltar ao hospital — disse ele baixinho em seu ouvido.
Mu esperou um instante, o tempo suficiente para conseguir conter a euforia então poder olhar para Shaka e transmitir a ele a esperança e confiança que se renovara dentro de si, então girou o corpo e ficou frente a frente com ele, o olhando diretamente nos olhos.
— Não, Luz da minha vida, ainda não acabou!
— Mu... — Shaka apertou os lábios contendo o choro.
— Tinta alquímica lemuriana! — disse ele sorrindo, com os lábios e com os olhos.
— O quê? — Virgem questionou confuso.
— O diário, Sha... não está em branco. Agora eu entendi! A tinta que Shion usou para redigi-lo é feita com alquimia lemuriana... só é visível aos olhos diferenciados do meu povo. Shion o escreveu exclusivamente para mim... Ele está completo, meu amor, ele esta completo!
Disse Mu, pleno de esperança e alegria.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
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