Templo das Bacantes Vol. 3
37 Mu Potter e a câmara secreta.
Notas iniciais

— O quê? — Virgem questionou confuso.
— O diário, Sha... não está em branco. Agora eu entendi! A tinta que Shion usou para redigi-lo é feita com alquimia lemuriana... só é visível aos olhos diferenciados do meu povo. Shion o escreveu exclusivamente para mim... Ele está completo, meu amor, ele está completo!
Disse Mu, pleno de esperança e alegria.
Ainda de joelhos, imóvel Shaka o abraçava sem conseguir entender exatamente o significado do que acabara de ouvir. Sua confusão, porém, dava-se mais pela razão de Shion ter redigido um diário todo em tinta invisível aos olhos de seres humanos do que o próprio fato em si. Queria ele esconder algo?
Mas nada disso importava no momento.
Após uma breve pausa, Virgem olhou com atenção para Mu e inquiriu absorto enquanto alternava o olhar entre o rosto eufórico do marido e o diário que ele segurava nas mãos como quem protege um tesouro:
— Completo?
— Sim! — Áries sorriu para ele.
— Você... você tem certeza? — perguntou receoso, então mais do que depressa tratou de se levantar trazendo consigo o ariano, o puxando pelo braço.
— Claro que eu tenho certeza!
Nessa hora, com o dedo indicador apontado diretamente para o diário, parecendo um tanto eufórico e muito confuso Saga vinha juntar-se a eles.
— Ei! Ei... espera! — com as mãos espalmadas no ar atraiu a atenção dos dois para si — Que história é essa de tinta lemuriana, coisa invisível e olho de Mu? Eu ouvi isso ou estou delirando? Como assim uma coisa dessas existe?!
Vendo a confusão nos olhos dos dois, e apressado em não se demorar muito em explicações para as quais naquela hora não dispunha de tempo, Mu lhes fez um sinal para que ficassem ali e correu até o tinteiro de cristal caído no chão. Usando apenas as pontas dos dedos para não se sujar ele o tomou em uma das mãos e voltou até os dois cavaleiros que o observavam sem ao menos piscar.
— Vocês não enxergam cor alguma aqui, não é? — ele perguntou sorridente levantando o tinteiro a altura dos olhos deles para que vissem com nitidez o frasco quase vazio.
— Não... eu só sinto o cheiro. Fede. — Saga respondeu de pronto contraindo o nariz.
Já Shaka, apenas balançou a cabeça num gesto quase imperceptível. Seu coração batia tão forte e acelerado que era bem capaz de lhe sair pela boca caso a abrisse para tentar dizer qualquer palavra naquela hora.
— Sabem por quê? Porque seus olhos, olhos humanos, são diferentes dos meus — Mu explicava com eloquente empolgação, balançando o frasquinho entre os dedos. — Isso porque cada espécie possui na íris dos olhos uma combinação diferente de células fotorreceptoras adequada às suas necessidades, ou seja, diferentes espécies podem ver uma gama distinta de espectros de luz. É sabido que alguns pássaros, por exemplo, os quais aos olhos dos humanos são monocromáticos, na verdade são coloridos. O mesmo caso acontece aqui. Os Muvianos têm globos oculares ligeiramente maiores comparados aos dos humanos, por isso nossas íris abrigam uma quantidade e variedade de células cones e bastonetes bem maiores também. Esse detalhe anatômico, junto dos nossos dons psíquicos, nos tornam capazes de não apenas enxergarmos a aura corporal de todos os seres vivos, como também de vermos algumas cores “invisíveis” ao olho humano.
Saga soltou um suspiro longo e levou a mão à cabeça, apertando a fronte com os dedos.
— Ah, eu estou muito bem servido mesmo com vocês... — disse ele gesticulando — Um enxerga a essência das pessoas, o outro enxerga aura e coisas invisíveis... Mas enxergar que eu não bebi ninguém consegue, né? Impressionante! — disse por fim cruzando os braços com o manto desalinhado nos ombros.
Shaka e Mu trocaram um olhar embaraçoso, então sem perder tempo o ariano deixou o tinteiro sobre uma pilha de livros amontoados ali entre a bagunça, limpou a ponta dos dedos no manto de Saga, sob o olhar de protesto dele, e rapidamente, e com ambas as mãos, abriu o diário “vazio” o mostrando para os dois.
— Aqui... porque não conseguem enxergar a cor da tinta dentro do tinteiro, vocês não viram as palavras escritas com ele nesse livro, mas é só tocarem as páginas. — Nessa hora ele fez uma pausa e tomou a mão de Shaka, o fazendo tocar com os dedos o papel puído e amarelado pelo tempo, então emendou olhando diretamente nos olhos dele, que nesse momento estavam presos na página em branco: — Veja, sinta o baixo relevo deixado no papel pela ponta da pena. Seus olhos não são capazes de ver, mas seus dedos podem tocar as palavras.
Sem conseguir se mexer, nem ao menos respirar, Shaka tateava a superfície áspera da folha com uma concentração monástica, preso a cada fina ranhura sob seus dedos.
— Está tudo aqui, Sha! A mensagem final que meu mestre me deixou — disse Mu, que tinha lágrimas de felicidade nos olhos — A minha esperança perdida.
Quando Shaka enfim levantou o olhar para ele, Mu percebeu que o indiano também tinha os olhos marejados, mas diferente de si, um véu denso de preocupação ainda lhe encobria as feições.
Alheio ao conflito silencioso do virginiano, Saga, agora inclinado entre os dois, também tocava as páginas, com um leve sorriso delineado nos lábios e absorto com tamanha engenhosidade de Shion.
— Mas que velho cheio de truques! — disse ele distraído, mas na mesma hora deu-se conta do que dissera, quando levantou os olhos para Mu e seus olhares se cruzaram desfazendo imediatamente o sorriso. — Ah! Digo... que homem precavido, não é mesmo?
Tão concentrando como estava em tudo ali desde que desvendara o segredo do diário, só agora Mu se dera conta do estado em que Saga se encontrava. Agora, olhando firme para ele, até chegou a esboçar um sorriso.
— Saga, eu te aconselho a tomar um bom banho. Você está completamente emporcalhado de tinta iridescente, da cabeça aos pés.
Na mesma hora, Gêmeos endireitou a postura e um tanto surpreso levou ambas as mãos ao peito, sentindo a pele meio pegajosa e o manto ainda molhado.
— Sério? — disse estendendo as mãos à frente do rosto para ver se conseguia enxergar algo. Nada.
— Pelos deuses, está até difícil achar alguma parte do seu rosto que não esteja suja de tinta — Mu ria agora um pouco mais eloquente — Está parecendo àquela moça do filme Carrie, a estranha!
— Ah, mas que merda! — Saga arregalou os olhos. — E essa tinta sai com o quê? Ela sai, né? Pelos deuses, eu não quero ficar todo cagado!
No instante seguinte em que Mu ensaiava a resposta para dar ao geminiano, ele foi surpreendido por Shaka que lhe tomou pelo braço e fazendo ficar de frente para si o encarou nos olhos com uma urgência bem conhecida.
— Mu, leia o diário! Tem que ler todo ele hoje. Agora! Nós não temos tempo. Kiki está em coma... Precisa encontrar a fórmula correta. Ela tem que estar aí em algum lugar — disse aflito, folheando as páginas mesmo sem enxergar nada nelas.
Recobrando a seriedade, já que as palavras do marido lhe atentaram à urgência da situação, Mu tomou o diário voltando a se pôr concentrado.
— Tem razão — disse ele, então imediatamente começou a folheá-lo, a princípio fazendo uma leitura dinâmica pelas linhas escritas em lemuriano arcaico na caligrafia impecável de seu amado mestre, sem perder muito tempo no que via, já que procurava por uma informação específica.
No entanto, bastou poucos minutos de leitura para que o semblante de Mu mudasse drasticamente. Antes concentrado e agitado, agora ele parecia confuso e surpreendido.
O livro que segurava firme nas mãos estava longe de poder ser chamado de diário, pois que, embora houvessem ali algumas anotações de cunho privado e bem íntimo, como relatos em primeira pessoa dos quais Mu não se aprofundou para não perder tempo, a maioria do conteúdo das páginas era composto por listas e mais listas, com nomes e números catalogados minuciosamente.
Mas o que significavam todos aqueles dados? Pensava Mu, quando de repente sentiu o coração disparar dentro do peito ao encontrar, no meio dessas listas catalogadas, uma sessão de páginas que parecia corresponder a um inventário exclusivo de livros e manuscritos sobre medicina alquímica tradicional muviana. Ele percebeu que Shion se dera ao trabalho deixar esta sessão em destaque, como se de alguma forma ele soubesse o quanto ela lhe seria importante um dia.
Desorientado e cada vez mais confuso, Mu seguiu folheando as páginas em busca de alguma outra pista que lhe dissesse onde estaria esse acervo, já que em Jamiel não havia nada. Ele mesmo revirara aquela torre do avesso várias vezes e trouxera praticamente tudo de importante para o Templo de Áries.
Então eis que ele chegou nas últimas páginas...
Nesse ponto, Mu se deteve por um momento.
Seus dedos, ligeiramente trêmulos, tocaram hesitantes um ponto específico no papel envelhecido, e nessa hora seu coração mergulhou num profundo pesar.
Algo estava errado.
A caligrafia antes bonita e bem trabalhada de Shion agora era desleixada e desordenada. Era como se as anotações, a partir dali, tivessem sido escritas com extrema urgência, no auge da pressa, ou quem sabe do desespero.
Mu sentiu um gosto amargo lhe subir pela garganta apertada. Estava, claro para ele que Shion temia não conseguir concluir aquele livro, e de fato ele não conseguiu... Redigiu apenas o máximo de que fora capaz antes de morrer, confirmando, assim, a suspeita que Mu trazia consigo desde que fora mandado para o exílio em Jamiel.
Seu mestre previra a própria morte.
Com o coração pesado e uma tristeza profunda a consumir-lhe o espírito, Mu chegou às últimas linhas escritas naquele livro; ao deitar os olhos nas palavras finais de Shion, em meio a borrões e traços tremidos quase ilegíveis, seu coração falhou uma batida.
“Penélope é quem guarda o vosso segredo. Lá está a herança de teu sangue... toda a verdade que te prometi. Use a chave e encontrarás teu legado... e se possível... se possível... meu filho amado...
Perdoe-me... Mu...”
Junto do pedido de perdão haviam manchas do que pareciam ser lágrimas.
Era aquela a última mensagem de Shion para si, e doeu imensamente lê-las. Mas por que o mestre lhe pedia perdão? Ele não entendia, porém a dor nostálgica que sentiu ao vê-lo referir-se a si como “meu filho amado” tomou todo espaço dentro dele, não deixando nada para a curiosidade em descobrir que pecado o mestre havia cometido para rogar por seu perdão. Shion raramente o chamava assim, e quando o fazia era sempre em momentos de profunda intimidade e amor.
De repente, aquela angústia latente de que havia algo errado em sua relação com o mestre, de que Shion escondia algum segredo terrível, voltou a assombra-lo, e sua consumição não passou despercebida pelo cavaleiro de Virgem, que durante o tempo que esperou ali ao seu lado, gastando as solas das sandálias no carpete úmido enquanto andava em círculos, acompanhou com os olhos atentos cada mudança de fisionomia em seu rosto, travando uma luta consigo mesmo para não interrompe-lo a todo momento.
No entanto, fora impossível para Shaka conter-se diante da terrível máscara de dor que agora cobria as feições do marido, além da ascendente revolta que sentia emanar de seu espírito.
— Mu. — Virgem chamou quando aproximou-se dele e lhe tocou a nuca gentilmente, visivelmente preocupado. — O que houve? O que você leu aí?
Devagar Mu ergueu os olhos fixos nas palavras escritas no livro e encarou os olhos azuis celeste de Shaka, mas não respondeu à pergunta dele.
Na verdade, a fisionomia aflita do marido o lembrou, mais uma vez, do motivo pelo qual estava ali. Não era por si mesmo, era por Kiki. A vida de seu amado filho estava literalmente em suas mãos. Os mistérios e segredos de Shion que esperassem. Assim, respirou fundo, engoliu todas as suas aflições e perguntas e então voltou-se para o cavaleiro de Gêmeos, que os observava calado sentado sobre uma pilha de livros velhos.
— Saga — chamou-o com voz firme — a tapeçaria que Penélope teceu enquanto esperava por Ulisses em Ítaca.
Gêmeos olhou para ele sem se mexer.
— Quê? — perguntou sem entender direito o que ele queria.
— A mortalha de Laerte.
— O que tem ela?
— Ainda está no mesmo lugar?
Gêmeos franziu o cenho, cada vez mais confuso, depois lançou um olhar questionador para Shaka, que tinha estampada no rosto a mesma expressão de confusão.
— Que pertinência tem nessa hora uma das relíquias dos tempos mitológicos guardadas nesse Templo, Mu? — perguntou o indiano sem se preocupar em sufocar sua urgência.
— A mais urgente de todas, Luz da minha vida! Confie em mim — respondeu Mu desviando o olhar para ele apenas por um momento.
Um tanto atarantado Saga por fim respondeu:
— Bom, sim, ela... ela está onde sempre esteve, oras. Desde que assumi o trono nunca toquei ou permiti que tocassem em nenhuma das relíquias — suspirou.
— Loroteiro! — disse Shaka o encarando com severidade. — Você vendeu a maioria das relíquias para financiar aquele lupanar de perdição e os seus vícios libertinos, Saga de Gêmeos!
— Eu não fiz isso! — Saga rebateu imediatamente, indignado.
— Sim, você fez! — refutou Shaka.
— O caralho que eu fiz! — disse ele com o dedo em riste no ar — Eu nunca, veja bem, NUNCA profanei as relíquias, Shaka de Virgem. Foi o Outro, aquele miserável! — contrapôs se mostrando ofendido.
— Vocês dois, querem parar com isso? — Mu lhes chamou a atenção — Vamos logo até a relíquia.
— É, vamos parar com isso sim, Shaka de Virgem. Eu já parei! — Saga bufou nervoso encarando o indiano, que lhe respondeu com um balançar de cabeça provocativo, mas não disse mais nada. Diante do silêncio dele, o grego suspirou e então tomou o rumo da saída daquela sala — Me acompanhem.
Mu por sua vez, voltou a encarar Shaka por um instante, e já sabendo que ele o ia questionar foi mais rápido:
— Sem perguntas, e sem dizer mais nada. Temos que ir até a relíquia agora, ok?
Virgem apenas respirou fundo e balançou a cabeça afirmativamente, enquanto no instante seguinte Mu o tomava pela mão e juntos seguiam Saga para o salão principal.
Assim que os três cavaleiros afoitos deixaram o escritório, uma sombra curiosa os seguia, silenciosa feito um camundongo, entre as colunas do templo.
O único olho de Gigars, sagaz e curioso como de costume, se espremia para enxergar de longe a silhueta dos três homens à medida em que eles avançavam para o interior da construção. Era bem verdade que a distância não lhe favorecia a tarefa, mas era arriscado se aproximar mais, já que de forma alguma poderia cometer o erro amador de ser notado. Por sorte, controle vocal não era uma das muitas habilidades do cavaleiro de Gêmeos, e mesmo que fosse; seus ouvidos muito bem treinados e meticulosos estavam atentos a qualquer timbre de voz e assunto. Foi assim que descobriu que eles encontraram o diário perdido de Shion, e que agora seguiam para a relíquia de Penélope.
Com um pouco de perspicácia ele se deu conta de que aquele diário era apenas a ponta do iceberg, e precisava desesperadamente se inteirar dela, para o seu próprio bem.
Rapidamente os três cavaleiros chegaram ao local onde estava guardada a relíquia: uma pequena e escura passagem atrás do trono do Grande Mestre, a qual levava ao pátio onde estava instalada a grande estátua da deusa Atena.
Bem ali, num corredor demasiado estreito para os padrões gigantescos da arquitetura grega, protegido da luz havia um enorme bastidor feito de cedro libanês entalhado com arabescos e folheado a ouro. Ele contava com mais de dois mil e seiscentos anos, e guardava um verdadeiro tesouro original da Grécia Antiga: a tapeçaria de Penélope, esposa de Ulisses rei de Ítaca. Um sudário que ela levara anos tecendo a mão a fim de ludibriar os pretendentes dispostos a acabar com sua “viuvez”, além de ganhar tempo enquanto esperava o retorno do marido da Guerra de Tróia, quando todos já o davam por morto. Somente quando Ulisses chegou vivo à Ítaca foi que Penélope permitiu-se terminar de tecer a tapeçaria, a entregando pessoalmente de presente à deusa Atena, que foi quem lhe demandou a tarefa e a avisou para que nunca perdesse as esperanças.
Soltando a mão de Shaka, Mu esticou a sua para tocar o linho daquele tesouro milenar e deslumbrou-se ao senti-lo tão bem conservado; uma dádiva oriunda da benção divina da própria Atena sobre tão fino tecido.
Ao lado dele, Saga e Shaka estavam cada vez mais inquietos.
— O que estamos fazendo aqui, Mu? — perguntou Shaka consumido em aflição, mas o Santo de Áries não lhe respondeu.
Cada vez mais concentrado, Mu olhava fixo para os desenhos tecidos na peça, talvez procurando neles a resposta que o cavaleiro de Virgem lhe demandava, já que ele mesmo também não sabia exatamente o que estavam fazendo ali, até que passou por sua cabeça um questionamento muito pertinente. O que uma relíquia tão importante como aquela fazia ali? Praticamente escondida naquele corredor escuro e esquecida por todos, como se tivesse sido abandonada. Intrigado, ele aproximou-se mais da peça e estreitando os olhos para enxergar melhor na penumbra avaliou o bastidor que a mantinha esticada, percebendo que este estava fixado bem firme na parede.
— Mu? — Shaka novamente o chamou — Quer, por favor, me dizer o que está acontecendo, ou pretende me enlouquecer me fazendo olhar para esse pano velho, empoeirado e... torto na parede, sem saber por que estou olhando para ele?
— Penélope nunca perdeu a esperança — Mu sussurrou, tão baixo que sua voz mal saíra, enquanto seguia analisando o bastidor preso à parede.
— O quê? — Shaka questionou.
Preocupado, Saga também se aproximou.
— Mu... — pensou em dizer algo, mas deteve-se quando olhou para o rosto do ariano e o percebeu concentradíssimo.
— Esperança...
Mu sussurrou novamente aquela palavra, enquanto pensava que a esperança de Penélope se assemelhava muito à sua, pois que quando todos afirmavam que Ulisses jamais voltaria vivo à Ítaca, ela nunca deixou de acreditar que teria o marido de volta em seus braços, e como Penélope, Mu também nunca deixou de acreditar que curaria Kiki, mesmo com tudo indo contra essa certeza. Afinal, Shion vira nas estrelas o seu futuro e nele havia uma família completa, próspera e plena de felicidade.
“Penélope é quem guarda vosso segredo... Penélope... É ela quem guarda vosso segredo... segredo...” Ele repetia insistente em sua mente as palavras escritas pelo mestre no livro em suas mãos.
“Não há coincidências nos desígnios divinos. Atena nunca deixa a esperança morrer.”
“Se isso não é mais um sinal dos deuses, então o que mais seria? O que há por trás de seus desígnios?”
Sem pensar duas vezes, e movido por uma impulsividade tipicamente ariana, Mu agarrou a moldura e com um único puxão forte arrancou a relíquia da parede, para total espanto e choque dos dois cavaleiros ao seu lado.
— HOMEM, PELOS DEUSES! — Saga deu um grito assustado, e imediatamente com um salto e ambas as mãos estendidas no ar tentou apanhar a peça antes que ela tocasse o chão — QUE MERDA ESTÁ FAZENDO? ESSE PANO VELHO TEM MILHARES DE ANOS, PORRA!
— Mu de Áries? Mas que maldita veneta blasfêmica é essa? — Shaka berrou, tendo o mesmo impulso do geminiano em salvar a peça milenar do chão empoeirado, mas nem ele, tampouco Gêmeos, perturbados como estavam conseguiram evitar que a tapeçaria se embolasse no chão aos seus pés.
— Ah, não! — lamentou Saga recuando alguns passos para evitar pisar na relíquia, enquanto pensava consigo mesmo que teria mais um vandalismo em sua conta para explicar à Atena quando está retornasse, além dos 6 anos que passou dilapidando seu Santuário sagrado. — Por que caralhos você fez isso, Mu? Se essa merda me rasga, heim? A gente vai achar, seja lá o que você estiver procurando, mas não fode com mais nada não, ou vai acabar sobran...
Gêmeos perdeu a voz assim que olhou para a parede de mármore e, como Áries e Virgem, surpreendeu-se terrivelmente com o que viu ali.
Shaka tinha os olhos azuis arregalados e a boca aberta em espanto.
— Pelas lótus sob os pés sagrados de B... — interrompeu-se e pigarreou quando lembrou-se estar brigado com a divindade, depois emendou: — Marido... como sabia que havia... que havia... Afinal, o que é isso aí?
— O que é eu não sei... não ainda — murmurou o ariano.
Então, lentamente Mu ergueu o braço e tocou a parede de mármore esverdeado. Bem no centro, onde antes estava a tapeçaria de Penélope, mais ou menos na altura dos ombros dos três cavaleiros ali havia um entalhe em formato circular escavado diretamente na pedra. Este formava um desenho rebuscado, com pontas e arabescos diversos, e bem no centro dele, cavado ligeiramente mais fundo, havia um espaço que parecia ter sido feito para que algo fosse encaixado. Era como um molde negativo.
— Mas como eu soube que havia algo aqui, isso eu posso te dizer — falou Mu. — Shion me disse.
Nesse ponto, tanto Saga quanto Shaka desviaram imediatamente o olhar dos entalhes na parede e encararam, atordoados, os olhos de Mu. Então de repente Gêmeos sentiu um calafrio lhe percorrer toda a coluna vertebral, por fim arrepiando-lhe o couro cabeludo.
Ressabiado ele cobriu a boca com a mão e inclinando-se ligeiramente cochichou no ouvido do lemuriano:
— Ele... o Shion... — inconscientemente olhava ao redor como que procurando por algo, ou por alguém — Não me diga que a alma penada do velho está aqui nos observando.
Mu riu discretamente.
— Relaxe, Saga. Eu não estou falando com os mortos. — Mu respondeu, para completo alívio do grego que suspirou com a mão agora sobre o peito — Mestre Shion me deixou uma mensagem através disso.
Mu então levantou o diário até a altura do queixo e olhou sério para ambos os cavaleiros.
— Isso aqui não é um diário.
— Como assim, não é um diário? — Shaka questionou afobado.
— Isso aqui me parece ser um índice. A princípio uma espécie de catálogo de livros e manuscritos, mas também, pelo que pude perceber numa primeira impressão, de vários outros artefatos raros que pertenceram ao meu povo e que mestre Shion escondeu em algum lugar — disse Mu. Em seguida ele abriu o livro na última página e esquecendo-se de que os outros dois não podiam enxergar o conteúdo correu o dedo em dado ponto do papel: — A última coisa que ele escreveu aqui foram instruções para que eu encontrasse o local onde estão esses itens. Mais especificamente ele usou a frase: “Penélope é quem guarda vosso segredo”. Que outra Penélope poderia ser senão aquela que teceu essa tapeçaria?
— Então... a cura para Kiki... não está aí no diário — disse Shaka, cujos olhos acesos e o rosto atordoado tremiam em aflição.
— Não, mas certamente está junto dos itens catalogados nele. Eu só preciso descobrir como... como faço para... — disse Mu voltando a tatear os baixos relevos entalhados na parede.
— E acha que essas inscrições aí na parede indicam o lugar onde Shion guardou essa tralha toda? Você disse que não sabe o que elas significam — observou Saga.
— De fato, eu não sei, mas... — Mu fez uma pausa, em seguida fechou os olhos por um instante concentrando-se, então quando voltou a abri-los afastou-se abruptamente da parede, demasiadamente espantado. — Existe um bloqueio nessa parede!
— Bloqueio? — Saga perguntou surpreso.
— Sim — respondeu Mu.
— Um Selo de Atena? — Saga voltou a perguntar agitado.
— Eu não sei, eu... me parece mais que isso...
— Uma barreira psíquica? Um feitiço? Uma presença espiritual?
— Quer calar a boca, Saga? Eu tô tentando pensar!
— Ah... me desculpe.
Mu franziu o cenho voltando a se concentrar.
Shaka suspirou esfregando o rosto. Seu pensamento não saía do hospital e de Kiki em coma e sozinho. Queria voltar para lá o quanto antes, mas queria voltar com a cura, ou ao menos qualquer sentimento que não fosse apenar dor e fracasso.
— Há algo nesse bloqueio que me impede de usar telecinese — disse Mu esfregando as pintinhas na testa com as pontas dos dedos.
— Teleporte-se para o outro lado! — sugeriu Saga eufórico.
— Também não consigo — Mu chacoalhou a cabeça desconcertado, depois voltou a encarar os símbolos na parede — Simplesmente não consigo saber o que há atrás dessa parede, se é mais matéria sólida ou apenas vácuo. Se eu tentar me teleportar, posso acabar fundindo meus átomos com algo desconhecido ou até mesmo...
De repente, uma explosão de Cosmo pegou Áries e Gêmeos de surpresa, chacoalhando suas roupas e cabelos e os fazendo proteger os olhos por conta da intensa luz dourada que emanava dele.
— SHAKA O QUE ESTÁ FAZENDO? — Mu gritou virando-se para Virgem, que em sua posição típica de ataque, levitando sobre o chão, preparava-se para golpear a parede.
— O que acha? Vou derrubar a parede — respondeu ele, de olhos fechados e sem demonstrar nenhuma emoção ou mesmo hesitação.
Mu o agarrou pela mão para impedi-lo de prosseguir.
— Para com isso, Shaka! — gritou ele sem delongas. — Não me ouviu dizer que está selada? E não apenas por um selo de Atena?
— E espera que façamos o que, Mu? — disse Shaka ao abrir os olhos transtornados e encarar o rosto sério do lemuriano — Que esperemos mais tantas horas ou dias até conseguirmos decifrar mais esse enigma? Kiki não tem mais tempo!
No desespero, Saga havia corrido para salvar a tapeçaria de Penélope que voou para longe, e por ser uma peça muito velha qualquer injúria poderia reduzi-la a pó; agora ele retornava para junto deles a trazendo consigo bem protegida em seus braços, como se fosse um bebê embrulhado em mantas.
— Pelo amor de Zeus, homem, eu estou sem meus remédios... Se eu não morrer de ansiedade hoje eu não morro mais — disse atropelando as palavras, quase histérico — Olha, se não podemos abrir um buraco na parede, eu posso tentar criar uma ponte entre dimensões para chegar até o outro lado. Eu só preciso de um segundo para...
— PAREM VOCÊS DOIS! — Mu gritou ainda mais enérgico. Tinha perdido de vez a paciência. — Mas que merda! Nenhum dos dois me deixa pensar... Minha telecinese e teleporte não funcionam, então que parte não entenderam que se usarem força ou tentativas de invasão por dimensões paralelas, possivelmente irão destruir seja lá o que for que houver lá dentro... Além do mais...
— Além do mais o quê? — perguntou Saga ansioso.
Mu respirou fundo.
— Além do mais, qualquer intervenção à força será imediatamente repelida e ricocheteada... Mestre Shion não era mesmo um amador, pelos deuses! TEM UMA MURALHA DE CRISTAL DENTRO DESSA PAREDE!
Surpreso, Shaka imediatamente desfez a posição de ataque e também suprimiu seu Cosmo voltando à posição em que estava, de pé ao lado de Mu, enquanto Saga, cada vez mais confuso e nervoso com tudo aquilo enxugou o suor que lhe escorria pelo pescoço com a barra surrada da tapeçaria.
— O quê? — disse Gêmeos quase soluçando — Está me dizendo que tem uma Muralha de Cristal aí? Como que... Não. Não pode ser. NÃO MESMO! O Shion está morto há anos. Como ainda pode haver uma Muralha de Cristal erguida por ele bem aqui debaixo do meu nariz e eu nunca senti?
— Porque provavelmente ela também está selada junto dessa parede. Como não sentiu os selos também não sentiu a Muralha — disse Shaka sem conseguir acreditar que estavam passando por mais aquela provação para conseguirem a cura para Kiki. Já haviam sido tantas...
— Que velho ardiloso! — murmurou Saga, depois deu uma breve olhada de soslaio para Mu e sussurrou desconcertado: — Desculpa. Mas verdade seja dita. Shion era um puta de um velho ardiloso. E se não é a alma penada dele aí vigiando, por que todo esse empenho em proteger livros e seja lá o que for mais, afinal?
— Talvez porque ele tivesse medo que caíssem em mãos erradas — disse Shaka, da forma mais irônica possível.
— Sim. Está claro que Shion queria que apenas eu tivesse acesso a esse local... — disse Mu, e sua voz parecia muito aflita — Mas... agora que estou aqui, como eu entro? Deve ter uma maneira segura de rompermos o bloqueio.
— Bem, que bom que você é o cavaleiro de Áries, né Mu. Muralhas de Cristais e Shions da vida são sua especialidade — disse Saga.
O lemuriano então ativou o Cosmo, estendeu a mão, mas no exato momento em que tocou a parede novamente ele confirmou suas suspeitas.
— Eu não consigo desfazer a muralha — disse intrigado — Ela não responde ao meu comando.
— Como que não? O seu Cosmo e o do velho são praticamente a mesma coisa — disse Saga.
— Fica quieto, Gêmeos, deixa ele pensar — Shaka respirou fundo, ele mesmo procurando acalmar seus demônios ao mesmo tempo em que via Mu voltar a ficar cara a cara com os relevos na parede.
— Ok... desculpe... — sussurrou Gêmeos, e novamente enxugou o suor, agora das têmporas, com a tapeçaria milenar — Só, por obséquio, Mu, pensa em algo logo, porque eu não tenho mais nervos.
— Gêmeos, shiiiu — fez Shaka estralando os dedos de ambas as mãos.
— Não, não! Eu não estou medicado, não tomei meus anti ansiolíticos hoje... Eu vou acabar tendo uma isquemia vendo ele encarar essa porra de parede.
Shaka o encarou com ar de repreensão, finalmente o fazendo entender que precisava ficar calado para que Mu conseguisse se concentrar. Apesar de todo o desespero que o consumia por dentro, da urgência desenfreada que o fez agir por impulso tentando mandar todo aquele templo aos ares, e do medo aterrador do tempo devorar a última chance de salvarem o filho, ele confiava em Mu com todo seu coração e seu espírito. E sabendo que ele àquela altura deveria estar tão angustiado quanto si mesmo, aproximou-se lentamente e sem dizer nada cobriu a mão dele com a sua. Agora ambas seguravam firmes o diário, trocando o calor e o silêncio mútuo que aquele momento exigia.
Depois de um momento, Shaka sentiu que a mão de Mu tremia, e ao olhar para o rosto dele o percebeu contemplativo e melancólico. Pudera. Estavam diante de um enigma, mas também de uma lembrança vívida daquele que outrora fora a figura mais importante na vida do lemuriano.
Sem saber como confortá-lo, Shaka apenas desenhou círculos com os dedos na mão dele fazendo uma carícia, depois sussurrou próximo ao seu ouvido:
— Sinto muito não poder ajuda-lo em mais esse enigma, Mu... Só me pergunto como, em todos esses anos, nenhum de nós percebeu que havia uma Muralha de Cristal erguida bem aqui, no Templo do Patriarca... Como isso é possível?
— Mestre Shion foi o Patriarca por mais de duzentos anos — disse ele, com a voz calma e contemplativa — A presença dele está impregnada em cada pedra desse lugar. Nós nos acostumamos a senti-la, por isso não notamos que ela era mais forte nesse corredor. Até porque, quase ninguém passa por aqui... Essa é uma das razões pelas quais sempre evitei vir a esse Templo... É um tanto opressor para mim.
Ao ouvir as palavras do lemuriano a mente de Saga vagou perdida no passado por alguns segundos, e seu rosto que antes era pura curiosidade logo se desfez em uma máscara de tristeza súbita. Para Gêmeos, aquele corredor também trazia antigas lembranças, as quais vinham acompanhas da esmagadora culpa que carregava nos ombros pela morte do velho Patriarca. Era por conta disso que sempre evitava aquele setor. Mu havia definido em uma única palavra o sentimento que o acompanhara todos esses anos, desde que ocupara aquele Templo, e o qual não era vigente apenas naquele corredor, onde a presença de Shion era mais forte, mas na construção como um todo: opressor.
Já Mu, mesmo com o emocional abalado, prosseguiu buscando em sua memória qualquer traço de lembrança que pudesse dar algum sentindo àquele enigma na parede, mas nada lhe ocorria. Tão concentrado que as pintinhas em sua testa quase chegavam a se tocar, ele abriu novamente o livro em suas mãos e folheou angustiado as páginas em busca de qualquer nova informação, até que um desenho, para o qual não dera importância na primeira vez que passou os olhos rapidamente pelo conteúdo, chamou sua atenção.
Se tratava de uma planta esboçada nos mínimos detalhes de um artefato mecânico. Cada pedaço do molde estava dividido e esquematizado nas páginas seguintes, ocupando bem mais de dez delas, e vinha acompanhado de instruções de fabricação e uso. O nome desse artefato era simplesmente “Chave”.
“Use a chave e encontrarás teu legado”.
Mu arregalou os olhos, que de repente faiscaram um brilho dourado.
Alternadamente, e parecendo eufórico, ele agora olhava para os desenhos no livro e para a parede, até que um sorriso largo desabrochou em seu rosto iluminado.
— Mu? — Shaka o puxou pelo braço, mantendo o olhar angustiado fixo nos olhos dele. — O que foi? Descobriu alguma coisa?
— Sim, Luz da minha vida! — ele respondeu voltando-se para o indiano. — Mestre Shion não dá ponto sem nó! O diário não é um diário, mas um índice, assim como essa parede não é apenas uma parede, nem esse desenho é um enigma!
— E o que é então, homem? Diga? — perguntou Saga, que já estava quase arrancando os cabelos.
Mu apontou para os entalhes no mármore.
— Estamos diante de uma porta, isso é uma fechadura, e eu tenho a chave!
Imediatamente após dizer isso, o ariano fechou os olhos e estendeu o braço à frente, mantendo a palma da mão voltada para cima, então no instante seguinte um objeto dourado em forma de um cubo sólido materializou-se sobre ela. Era feito de metal dourado e todo cheio de entalhes, encaixes e desenhos minúsculos; uma mistura de cubo mágico, quebra cabeças e canivete suíço.
— Isso aí é a chave? — Shaka perguntou atônito e muito curioso, já que se tratava de um objeto demasiadamente grande para ser encaixado no buraco na parede.
Mu abriu os olhos e contemplou com nostalgia e carinho o cubo, que levitava a poucos centímetros da palma de sua mão.
— Isso aqui foi o último projeto de ferraria celestial que Shion me mandou construir — explicou ele — Quando ainda estava em treinamento na arte da forja em Jamiel, já no exílio, ele me entregou a planta de um artefato com as instruções para sua fabricação e me mandou estuda-la com afinco e forjar a peça o mais rápido que eu conseguisse. Porém quando eu perguntei a ele do que se tratava, ele simplesmente disse que me diria na próxima visita à Jamiel, quando retornasse do Santuário, mas... — Mu fez uma pausa e soltou um suspiro longo cheiro de pesar — mas aquela foi sua última visita... Ele nunca retornou.
Um clima tenso e desconfortável acometeu os três cavaleiros.
Constrangido, Saga baixou a cabeça e apertou a tapeçaria de Penélope mais forte contra o peito.
Shaka pousou a mão no ombro de Mu e fez um afago para confortá-lo. Sabia o quanto as lembranças do antigo Patriarca mexiam com o emocional dele.
— É estranho como em todos esses anos eu me esqueci completamente dessa peça — disse Mu em voz baixa, com o olhar fixo no cubo pairando sobre sua mão.
Em um instante as lembranças daquele último encontro com o mestre foram recuperadas após um longo período de obscurantismo. Era como se pudesse vê-lo diante de si, sério e centrado como sempre fora, lhe entregando o projeto e lhe destacando a importância de ser perfeccionista, minucioso e principalmente paciente em sua confecção. “Essa peça precisa ser perfeita, Mu.” Foram essas as palavras dele, e o tom em que elas foram ditas era tão sério que mesmo após sua morte tendo ocorrido antes de sequer dar início a confecção do artefato, Mu o forjou com exímia dedicação e rigor, levando incontáveis luas até sua conclusão. Ao fim, ele tinha criado uma obra de arte de valor e importância inigualáveis, e a qual unia o melhor da alquimia lemuriana, ferraria celestial e ourivesaria, mas que nunca soubera para que servia. Até agora.
Com os olhos marejados, Mu olhava para a peça recordando-se que por muitos anos pensou ter sido apenas mais uma das tantas lições de paciência que Shion lhe demandava para ensina-lo a domar sua intempestividade ariana e temperamento explosivo. Um projeto para lhe treinar o autocontrole e apurar o refino. Mas agora estava claro que mais uma vez estivera enganado quanto às intenções do mestre.
Sem perder mais tempo, Mu trocou um rápido olhar com Shaka e então se posicionou de frente com os desenhos entalhados no mármore, usando seus dons para levitar o diário e folhear as páginas que continham as instruções de manejo do cubo para assim poder ter ambas as mãos livres.
— Agora nós vamos ver se eu segui corretamente o projeto do meu mestre ou se...
Ele não concluiu a frase, pois que tinha certeza que a peça era perfeita.
Mu então segurou o cubo firme com ambas as mãos. Num segundo movimento ele puxou uma das arestas para fora revelando uma pequena lâmina afiadíssima com a qual sem hesitar fez um corte na palma esquerda da própria mão. Em seguida ele deixou que o sangue escorresse abundante pela face superior do cubo, de modo que o líquido vermelho vivo penetrasse em todas as arestas e entalhes desenhados; conforme o sangue alimentava o artefato, este começou a pulsar e emanar de seu núcleo um brilho dourado intenso.
— Puta merda! Esse negócio está vivo? — Saga perguntou boquiaberto, pois aquela prática era muito semelhante à usada para reviver as armaduras sagradas quando essas estavam mortas, que também necessitavam de sangue.
— Não. — A resposta de cavaleiro de Áries foi imediata e solene. — Infelizmente, a arte de dar vida ao metal jaz no fundo do oceano junto do continente de Mu, e como ele ela também se perdeu para sempre. O metal desse artefato não está vivo, no entanto ele é feito da mesma matéria prima das armaduras: Oricalco, Gamânio e uma grande concentração de Pó de Estrela. Além disso, ele é resultado da fusão entre alquimia lemuriana e ferraria celestial.
— Então... embora não tenha vida como as armaduras, essa chave exige sangue vivo, porém não qualquer sangue, mas o de um autêntico herdeiro de Mu — observou Saga — O sangue de um lemuriano!
— Exato — disse Mu — Somente o sangue lemuriano é capaz de reagir à alquimia da peça, ativar seus componentes internos e faze-la transmutar na chave que irá encaixar na fechadura.
— Que velho espertalhão! — concluiu o grego admirado.
— Você quer dizer, que homem genial — corrigiu Shaka.
De repente, o brilho no núcleo do artefato se intensificou, mas logo em seguida se esvaiu, permanecendo apenas uma faísca vermelha pulsante. Então eis que no instante seguinte um click foi ouvido, e como numa reação em cadeia o cubo todo se abriu exibindo dezenas de minúsculas engrenagens que giravam a todo vapor.
— A chave me reconheceu como seu dono! — Mu sentenciou eufórico, a seguir fechou a mão cortada e rapidamente estancou o sangramento usando uma das faixas que sempre trazia enroladas nos punhos. Precisava ter as mãos firmes e livres para poder manusear o cubo, que àquela altura já não era mais um cubo, mas uma engenhoca cheia de botões, alavancas, engrenagens internas e minúsculos mecanismos ocultos.
Seguindo rigorosamente as instruções descritas no livro flutuante, Mu agora manipulava a geringonça em suas mãos e sentia como se estivesse brincando com um cubo mágico esquisito. A cada novo movimento ele descobria uma nova forma e seus encaixes.
— Sempre fiquei curioso sobre o que seria isso quando o construí — disse ele enquanto seguia moldando o artefato, como que para sanar a curiosidade dos dois expectadores que acompanhavam calados o desenrolar daquele enigma — Cheguei até a pensar que se tratava de uma arma secreta, ou sei lá... mas conforme eu o construía, cada vez mais eu tinha certeza de que se tratava de um grande quebra-cabeça com várias combinações diferentes, mas que no final apenas uma é a verdadeira... Porém nunca imaginei que fosse uma chave.
Mal ele terminou o relato e um segundo click foi ouvido. Mu então parou imediatamente de mexer nas pecinhas com seus dedos ágeis e depois de se dar conta da forma final que o artefato tomara rapidamente o exibiu orgulhoso aos outros dois cavaleiros.
— Acho que consegui! — disse ele sorridente.
— Tá de brincadeira! — exclamou Saga, e mais uma vez pensou no quanto Shion tinha uma mente engenhosa.
— Mas essa é... a Égide de Zeus! — disse Shaka, impressionado ao testemunhar aquele cubo se transformar diante de seus olhos em uma miniatura do escudo forjado por Hefésto para o pai dos deuses usar na batalha contra os Titãs.
— Sim, uma réplica perfeita — disse Mu correndo os olhos pelo artefato que agora possuía forma circular e exibia a figura da Górgona ornada por arabescos e um par de asas que saiam de sua cabeça. — Agora é a hora da verdade.
Sem perder mais tempo, Mu tomou o livro que flutuava no ar e o entregou a Shaka, depois lhe deu as costas e voltou-se novamente para a parede. Com cuidado estendeu a mão que segurava o artefato e tentou encaixa-lo no espaço destinado, com o rosto da Górgona voltado para o mármore.
Mas a chave não encaixou-se perfeitamente na fechadura.
— Aqui está o verdadeiro segredo — disse Mu, e com um sorriso no rosto ele recuou três passos e tomou a mão de Shaka na sua, cruzando seus dedos com os dele. — Ainda que alguém porventura decifrasse os enigmas do diário, conseguisse sangue vivo de um lemuriano e fosse capaz de manusear o cubo até chegar à sua forma final, a Égide, de nada adiantaria... O encaixe definitivo da chave com a fechadura só é possível com telecinese!
Dito isso, e seguindo as últimas instruções que lera no diário de Shion, usando sua telecinese Mu começou a mover os mecanismos internos do artefato. Eles não podiam ver, mas o rosto da Górgona aos poucos ganhava formas que lentamente se encaixavam aos moldes no mármore; as asas em volta de sua cabeça tornaram-se chifres, e pouco a pouco a Égide se transformou na cabeça de um carneiro. Com o comando telecinético de Mu, este cabeceou o mármore terminando por encaixar a chave totalmente na fechadura esculpida na pedra. Uma vez lá dentro, o ariano continuou a move-la até finalmente ouvir um click, que desta vez veio acompanhado de um estrondo alto e de um raio de luz tão intenso que quase os cegou. Então, na mesma hora em que a luz irradiou pelos desenhos entalhados na parede, a Muralha de Cristal e os selos que protegiam aquela passagem foram desfeitos, os blocos de mármore começaram a tremer, girando e se arrastando sobre si mesmos como se estivessem se dobrando para as laterais, e abriram uma abertura na pedra cujo tamanho era suficiente para passar um homem adulto.
— Eu não posso acreditar! — exclamou Saga boquiaberto. — É uma câmara secreta!
Ao lado dele, Mu apertava a mão de Shaka e sentia as próprias pernas amolecerem trêmulas. Estava difícil controlar as emoções diante de mais aquela descoberta. Sentia um misto de medo e euforia frente ao que iria descobrir e encontrar dentro daquela câmara, afinal Shion não medira esforços para mantê-la em segredo e protegida de todos. Só não estava mais feliz e empolgado por conta das circunstâncias trágicas que levaram a tal descoberta.
Quando a passagem enfim ficou totalmente aberta, os três cavaleiros trocaram um olhar ligeiro e apreensivo. Mu então tomou a frente, soltando a mão de Shaka e cruzando a passagem sem titubear.
Os outros dois cavaleiros o seguiram para dentro da câmara de imediato, enquanto a muitos passos dali, na entrada do corredor, a pesada cortina de veludo vermelho se movimentou discretamente revelando a figura que se espremia na fresta escura entre ela e a parede.
Gigars tinha testemunhado absorto toda a movimentação e ação dos três cavaleiros ali, e agora, por mais que se sentisse impelido a ir espirar o que havia dentro da parede, ele se deteve onde estava, não dando mais nenhum passo.
No entanto, finalmente, e após tantos anos de espera, o esconderijo onde Shion guardara seus segredos tinha sido revelado. Ele vira com seu próprio e único olho, e agora era só questão de pouco tempo até que conseguisse achar um meio de entrar naquela câmara secreta e ver o que havia lá dentro, mas de imediato o que mais demandava urgência era passar aquela informação para quem mais tinha interesse nela, por isso deixou o local às pressas e seguiu para o escritório para poder usar seu celular particular sem ser ouvido ou incomodado.
Enquanto isso, do lado de dentro da câmara se sentia um leve cheiro de naftalina e a escuridão era total, mesmo assim Mu conseguiu perceber que haviam algumas lamparinas fixas às paredes, pois agora a luz que entrava pela passagem aberta refletia no metal delas. Ele então usou o Cosmo para acende-las, iluminando todo o local com uma luz fraca e amarelada. Logo eles se deram conta de que o espaço era bem grande, maior ainda do que o escritório que estiveram momentos antes, e que ali havia muitas estantes de madeira maciça que quase tocavam o teto de pedra. Todas elas estavam lotadas de livros caprichosamente organizados e etiquetados. Mais ao fundo também havia dezenas de prateleiras recheadas de objetos diversos. Alguns deles reluziam como ouro à luz das lamparinas. No chão, amontoados ou enfileirados de maneira bem ordenada havia vários baús de madeira, bem grandes por sinal.
Tudo ali parecia tão atípico e mergulhado em mistérios que enquanto perambulavam pelo espaço correndo os olhos pelos itens sem ao menos piscar os três cavaleiros nada diziam. Saga ainda tinha o tapete milenar bem protegido nos braços e não se atrevia a tocar em nada, pois que tudo parecia respirar a presença forte e austera de Shion. Já Shaka, passado o deslumbre e hesitação inicial que ditaram seus primeiros passos dentro daquela câmara, logo correu para as prateleiras dos livros, mas muitas das etiquetas estavam escritas no idioma lemuriano, e ele pouco conhecia dele.
Mu por sua vez, ainda trêmulo e com o coração palpitando cada vez mais forte e acelerado dentro do peito, caminhou até os baús enfileirados no chão e por curiosidade abriu um deles.
Então outra surpresa.
— Pela deusa! — ele sussurrou com a voz titubeante e os olhos arregalados, faiscantes de surpresa.
Shaka, que estava a poucos passos dali, aproximou-se dele para ver o que havia lhe causado tamanho espanto, mas quando olhou para o conteúdo do baú ele também se surpreendeu.
— Mu! Isso é...
Virgem não concluiu a frase porque Gêmeos, os vendo amontoados ali e ligeiramente inclinados sobre um baú que à luz das lamparinas reluzia um brilho ostensivamente radiante, correu até eles se enfiando entre os dois para também olhar o que havia lá dentro.
— O que foi? O que vocês acharam aí que... — ele fez uma pausa quase se engasgando — CARALHO DO HADES! É UM BAÚ DE TESOURO?
Mu olhou para ele sentindo-se atordoado, depois voltou a olhar para Shaka e por fim para o conteúdo no baú novamente, então num gesto brusco e cheio de pressa esticou o braço e abriu o baú que estava ao lado, que era um pouco maior que o primeiro, e para sua surpresa este também estava repleto com o mesmo conteúdo, peças diversas de ouro e outros metais nobres, também joias, gemas preciosas guardadas em caixinhas de cristais e outros itens que a princípio ele não soube classificar o que era.
— Eu acho que todos eles são... baús de tesouro — disse Shaka em resposta a Saga, tão embasbacado com o que via quanto os outros dois cavaleiros.
Mostrando-se indignado repentinamente, e visivelmente alterado, Gêmeos meteu a mão dentro do baú e trouxe para bem perto dos olhos duas gargantilhas de ouro cravejadas com esmeraldas, como que para comprovar sua legitimidade.
— Pela porra do caralho congelado do Cocito! E de onde veio tudo isso? — perguntou ele em um aparente desespero.
— Isso é ouro do continente de Mu — Áries respondeu quase sem voz, com um olhar intenso e fisionomia muito séria, mal acreditando no que ele mesmo dizia. Estava atônito.
— Como é que é? Não fode! Como você sabe disso? — disse irritado o geminiano, que mantinha a tapeçaria abraçada junto ao seu corpo e com uma das mãos sacudia as joias no ar.
Com os dedos trêmulos e o receio de quem parecia tocar em um fantasma, Mu apanhou uma moeda de ouro das tantas que havia no segundo baú e a mostrou a Saga.
— Porque nessa moeda está gravado o nome Lemúria, a capital de Mu, na forma mais antiga do nosso idioma — disse, depois apanhou outro objeto do baú e passou a analisa-lo incrédulo, custando a acreditar no que tinha nas mãos e diante dos olhos — Isso é tão... extraordinário!... Eu mesmo só tinha ouvido histórias e lendas sobre os tesouros perdidos de Lemúria, e confesso que sempre acreditei que não passavam mesmo de lendas, mas... isso aqui... isso é real! Essa peças, todas elas... foram forjadas Eras atrás por lemurianos puros que habitaram o continente perdido!
De repente, Saga olhou para ele e seu rosto contorceu-se numa expressão de raiva e revolta.
— Então quer dizer que aquele velho miserável do Shion deixou todos nós passando fome e afundou o Santuário em dívidas enquanto ele mantinha um tesouro escondido aqui? É isso mesmo?
Por um momento Mu não soube o que responder, já que ele mesmo tinha um leque de perguntas sem resposta em sua mente, mas logo levantou a cabeça e encarou Saga de volta.
— Você tem certeza que quer entrar nesse assunto agora, Saga? Para começar que se esse tesouro veio de Mu ele não pertence ao Santuário e sim ao MEU povo! — disse ele, devolvendo a moeda ao baú e com um gesto brusco apanhou as gargantilhas da mão de Saga e a devolveu também — E até onde eu sei, o Santuário entrou em decadência porque VOCÊ atentou contra Atena, VOCÊ mandou matar Aiolos e VOCÊ matou Shion a sangue frio!
Gêmeos apertou forte o tapete de Penélope contra o peito e contraiu as mandíbulas e os lábios num gesto nervoso.
Sim, não era bom entrar naquele assunto. Aquele era um dia de muitas revelações e uma hora ele teria que dizer a verdade, mas aquela não era uma boa hora.
— Não fui eu... foi... — disse apenas, se contendo imediatamente enquanto sentia o ar passar quente por suas narinas e o rosto arder ao passo em que encarava enfurecido os olhos verdes de Áries, os quais devolviam o mesmo sentimento.
Notando os ânimos prestes a se alterarem, Shaka aproximou-se de Mu e se colocou entre ele e Saga.
— Saga, Mu, parem! Agora não é hora — disse ele, primeiro olhando firme nos olhos do marido, depois nos do grego — Além do mais, essa é uma discussão inútil que além de não nos levar a lugar algum ainda vai nos distanciar do nosso objetivo e nos fazer perder tempo.
Áries encarou Virgem de volta e respirou fundo baixando a cabeça para se acalmar e mais uma vez enterrar o tópico “proibido”.
— Está certo — disse Mu esfregando os olhos, visivelmente alterado.
— Ótimo. Podemos continuar? Como se sente? — Shaka perguntou.
— Eu... me sinto meio zonzo, enjoado... tudo isso acontecendo ao mesmo tempo e... — disse, então voltou a olhar para Shaka — Mas... estou bem.
Shaka tocou-lhe o rosto suavemente, ajeitando os cabelos dele atrás da orelha e lhe fazendo um afago nas bochechas.
— Eu sei que sua mente deve estar um caos, e que deve ter um milhão de perguntas para as quais está ansioso para correr atrás das respostas, já que parece que elas estão todas aqui, nessa câmara, e eu prometo ajudar você a encontra-las quando for a hora, mas agora precisamos salvar Kiki. Os tesouros e as respostas podem esperar — disse ele.
— Sim você está certo. — Mu concordou limpando os pensamentos com um balançar de cabeça.
Shaka balançou a cabeça de modo afirmativo.
Sem ter mais tempo a perder, Mu abandonou os tesouros e começou a vasculhar as estantes de livros o mais rápido que conseguia, buscando pelos volumes de medicina catalogados no diário de Shion. Não tardou para que ele encontrasse a sessão desejada.
— Shaka, Saga, eu achei! Venham aqui, rápido! — chamou afoito.
Os dois vieram mais do que de pressa.
— Aqui está, a sessão de herborismo e alquimia medicinal! — apontou para a sessão que ocupava mais de duas estantes.
— Nossa, mas... são muitos livros e pergaminhos — Gêmeos fez uma observação pertinente.
— Exato, por isso não temos tempo a perder... — disse Mu, que atento rapidamente abriu o diário mais uma vez e procurou no índice os assuntos específicos, como medicina pediátrica e neonatal e herborismo — Andem, me ajudem a separar os manuscritos e os livros por assuntos específicos. Peguem todos os que tiverem marcados por essa insígnia verde — Apanhou um dos livros na estante e apontou a insígnia gravada nele. — Mestre Shion marcou todos os livros de medicina alquímica pediátrica com essa insígnia.
— Certo. — disse Shaka já indo separar os livros, enquanto Saga se encarregava dos pergaminhos.
— Vão colocando todos aqui nessa pilha para que eu possa analisa-los um por um.
Pouco tempo depois, e assim que todos os volumes já estavam à disposição de Mu para serem analisados, os três cavaleiros deixaram a câmara munidos deles mais a tapeçaria de Penélope, que Saga agora trazia sobre os ombros. O resto todo foi deixado lá como encontraram.
Assim que cruzaram a passagem, as pedras de mármore rolaram se encaixando umas nas outras fechando a entrada, sem qualquer comando ou truque, então a chave se soltou da parede e caiu no chão, voltando a forma original de um cubo.
Mu o apanhou e o guardou no bolso da calça de algodão que vestia.
— Bom, se quiserem usar uma das salas desse templo para estudarem os livros fiquem à vontade — disse Saga.
— Obrigado, mas prefiro descer até Virgem porque lá estão os dicionários de lemuriano arcaico que eu trouxe de Jamiel. Certamente vou precisar consulta-los. Mesmo eu sendo fluente, Shion tinha um vocabulário e uma escrita muito formal e rebuscada, e tenho certeza de que alguns desses livros foram copilados de textos ainda mais antigos e complexos. — explicou Mu já teleportando todos os livros separados para a Casa de Virgem.
— Espero sinceramente que encontrem a cura para o pequeno Kiki. Eu os ajudaria se conhecesse o idioma lemuriano arcaico.
— Você já ajudou, Saga — disse Mu com surpreendente cordialidade — Se não fosse por você não estaríamos aqui agora... nem sei onde estaríamos — suspirou trocando um olhar cúmplice com Shaka, que também agradeceu ao geminiano lhe fazendo uma formal e sutil reverência.
— Certo. Bem, eu vou chamar alguém para fazer outro bastidor para a relíquia de Penélope e mandarei colocar no mesmo lugar sem prendê-lo à parede, assim poderá entrar e sair da câmara o quanto quiser — disse Saga.
— Obrigado, e me desculpe por tê-lo quebrado. Quando tudo isso passar, porque vai passar, estudarei com calma o significado de tudo que está ali dentro, nos baús e também nos livros — disse Mu.
Os três cavaleiros se entreolharam e quase em silêncio se despediram ali mesmo.
Saga agora poderia tomar seus remédios e ser presenteado com suas tão merecidas oito horas de sono.
Já Mu e Shaka seguiram para Virgem lado a lado com a missão urgente de encontrar naquelas dezenas de livros a cura para Kiki, cujo tempo era cada vez mais curto.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
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