Templo das Bacantes Vol. 3
47 O Senhor do Destino - Parte 2
Notas iniciais

Após a breve pausa, Shaka e Mu voltaram a se acomodar, agora no chão, em meio a algumas tantas almofadas, e corroídos pela curiosidade sem perder tempo retomaram a leitura. Esta que daquele ponto em diante passou a tocar diretamente o âmago de Mu, já que ele percebeu que agora ele mesmo era o grande protagonista das notas de seu mestre.
“(...)Sou incapaz de pregar os olhos. Do lado de fora de minha alcova a noite já se faz alta em meio ao estrépito* da procela*, todavia encontro-me ortografando essas linhas enquanto abancado em meu assento tenho nos braços o bebê adormecido. Seu calor irradia; trespassa a indumentária de fazenda de lã pura e penetra-me no peito aquecendo esplendidamente minh'alma. O silvo airoso de sua respiração apazigua-me o coração taciturno.
Demasiado arroubo de ternura faz-me pensar se o presente é real ou apenas um devaneio utópico dessa mente vetusta* e fatigada. Então eu aperto-o contra meu peito, sinto seu peso reles em meu colo e inteiro-me de que sim, é real! É meu este filhote. Meu e de Yuzuriha.
Seu eflúvio* de cria nova, uma mescla aprazível de leite fresco e bálsamo de lavanda, desperta-me os mais inveterados sentidos de proteção. Esqueço-me do mundo lá fora, procrastino os deveres, adio os labores... O bebê tornou-se o meu sol, a estrela poderosa que devolveu o sentido à minha existência, e tudo o que me resta é orbitá-lo. Oh! Pelos poderosos deuses! Eu sinto que já o amo imensamente.(...)”
“(...)Poucos dias passaram desde que recebi o filhote, e o meu fascínio por esta criança é maior a cada dia. Sua adaptação a mim e ao novo homizio não foi laboriosa; aventuro-me a dizer que ele sente o amor que lhe demando desde o momento que o peguei no colo e retribui-me com igual afeto. A despeito de seu nome de batismo, percebi-me bem mais bem-aventurado quando o chamo apenas por Mu; ele por sua vez, dá-me o beneplácito* de tal escolha sempre que abre-me o sorriso banguela quando escuta-me proferir essas duas letras. A graveza* da sílaba deve agradá-lo.
Mü.
Séculos atrás, quando lhanos* e otimistas Yuzuriha e eu principiamos a sonhar em formar uma família, seria este o nome do nosso primogênito. Um tributo que ambos desejávamos prestar ao nosso torrão de origem, em adição a ser um antenome deveras consentâneo* para aquele que seria o príncipe herdeiro de Jamiel e do “Palácio de Mu”.
Na minha filauciosa* mesquinhez, sinto-me incapaz de chama-lo por Jamielson, e confesso que esta já se tornou uma ideia fixa, pois que percebo-me desesperadamente apegado à parva ideia de que quis a Fortuna que seu segundo nome fosse Mu justamente porque ele seria entregue a mim. Um reconhecimento do meu direito a este infante(...)”
“(...)Como é possível um filhote mudar completamente toda uma vida? Que mente audaz aventurar-se-ia em predizer que eu, Shion de Áries, o Mestre do Santuário, prostrar-me-ia diante de qualquer outra criatura que não fosse Atena? Pois que justamente agora estou de joelhos ao chão por um bebê. Pensar nisso tira-me risos. Se outrora padeci de insônia perseguido por pensamentos funestos, hoje é a bem-aventurança que me mantem desperto velando o sono da pequenina criatura que dormece em meu leito. Fascina-me seus doces silvos em cadência perfeita com o escalar e o arriar de seu corpúsculo. Faz-se ímproba a crença de que este vetusto que ortografa enfim tenha logrado tamanha graça dos céus.(...)”
Preso naquela montanha russa de sentimentos, Mu fez uma pausa na leitura para levar as mãos aos olhos e aperta-los por alguns segundos. Seu estômago dava nós, e sua cabeça parecia ter sido enfiada em uma centrífuga que na velocidade máxima embaralhou todos os seus pensamentos.
Sim, havia uma raiva crescente dentre dele; um rancor misturado com mágoa que lhe comprimia o peito e prensava a garganta, mas simplesmente não conseguia ignorar a maneira como lhe afetava ler aqueles trechos em que Shion falava da relação dele com sua versão bebê; as palavras doces, a completa e explícita adoração.
Nunca houve dúvidas em seu coração que o mestre o amava, e naquelas linhas a grandeza desse amor mostrava-se ainda maior, o que só fazia crescer o seu conflito interno.
Com os dedos de Shaka lhe fazendo um cafuné nos cabelos, Mu respirou fundo e prosseguiu com a leitura.
“(...)Mu cresce com imensa graça. Dir-se-ia que, agitado e pândego por natureza, esse pequenino mostra-se gentil e dormece com acentuada facilidade quando embalado. Seu apetite parece sempiterno*. Esfaimado que é, boas horas dos meus dias são consumidas apenas para alimentá-lo. Sem embargo, este ônus cumpro com demasiado júbilo, posto que o vejo crescer esbanjando saúde e robustez. Conquanto, a despeito de nosso vínculo harmônico e de Mu mostrar-se plenamente afeiçoado a mim, resultado que eu esperava depós de ter dispensado os serviços das servas para dedicar-me totalmente a ele, o inevitável se nitidifica*: Mu sente falta de sua família. Quando o pranto inconsolável o assola, vindo, aparentemente, sem qualquer motivo palpável como dores, fome ou desconforto, eu sei que ele chora a ausência.
Nessas horas tudo faço para tentar consola-lo, mas o elo muviano que liga-me a ele, e que faz-me partilhar de suas emoções, derriba-me igualmente em prantos. Mu pranteia a saudade dos pais e do irmão. Ele tem necessidade de sentir-lhes a aura, o cheiro, o toque. Ele espera ouvir-lhes a voz. Ele anseia pela presença daqueles que reconhece como família. Esse sofrimento é uma prova irrefutável da grandeza de um bebê lemuriano, que desde o primeiro suspiro de vida já reconhece e vincula-se aos pais num laço de amor fortíssimo.
Descobrir tão verossímil mazela despedaçou-me. Eu já estava ciente de que o banzo* acometeria o filhote mais cedo ou mais tarde; apieda-me a dor dele, pois que da mesma carência outrossim padeci eu, amargando o vazio que Yuzuriha deixara quando partiu. Oh, pequeno Mu! Entendo-te completamente. A saudade é molesta.
Nas horas de maior angústia eu o embalo em meus braços e uno-me a ele pelo elo psíquico, enquanto o envolvo com as pertenças da mãe, destarte* ele se acalma. Ele aperta e morde o bracelete de ouro deixado por ela tal qual um brinquedo; todavia, seu lenço vermelho acomodei em um baú para que ele possa trajá-lo no futuro, ou tão logo seja capaz de manuseá-lo sem causar-lhe danos.
Manterei minha promessa à Yuzuriha. Jamais deixarei Mu esquecê-la.(...)”
Mu franziu a testa ao ler tal conclusão no texto, depois trocou um olhar apreensivo com Shaka.
Eles agora sabiam de quem realmente era e que Shion quebrou a promessa. Mais do que isso, aliás; embora Shion citasse Yuzuriha o tempo todo nos relatos, eles perceberam que o mesmo não acontecia com Atla e Mauna Pua. Mu já havia lido vários volumes e até agora as únicas menções sobre seu pai e seu irmão foram aquelas que os citavam no Monte Parnasso, no dia em que fora entregue ao mestre.
— O meu lenço vermelho, Sha! É dela! — Mu exclamou emocionado e conflituoso — Ele me entregou o lenço sem nunca ter me contado sua origem. E ele também não me deu o bracelete...
— O que será que o fez mudar de ideia? — o virginiano questionou.
— Eu não sei, mas seja lá o que for, não há nada nesse mundo que justifique — Mu respondeu taciturno, então mais do que depressa voltou a ler para ver se encontrava a resposta.
“(...)Fiz de abrandar a dor do banzo de Mu a minha missão. Sempre que ele pranteia, sem tergiversar* abstenho-me de tudo para apenas conforta-lo. Irei ama-lo tão completo e verdadeiramente que nada mais lhe faltará. Serei seu mestre, o seu amparo, a sua fortaleza, outrossim a sua família. Vicissitude alguma impedir-me-á de ser para Mu tudo, e somente, o que ele necessita. A única lemuriana que amei entregou esta vida a mim, a dedicou a mim; uma vida que veio dela. O amor de Yuzuriha pulsa em cada átomo desse pequenino filhote, e este agora me pertence. Honrarei esse amor com minh´alma.(...)”
“(...)Recebi, pouco tempo, uma visita inesperada. Afirmo, sem franco exagero, que vivo um pesadelo desde então. Ademais, esta pôs-me em luto perene e devastou-me por completo o coração.
O postremo* pupilo de Hakurei de Altar irrompeu de chofre* nos perímetros do Santuário. Adjunto estava seu primogênito. Antes mesmo da guarda avisar-me que exigiam ver a mim e ao bebê, eu já o sabia. O que desconhecia por completo foi o desespero irracional que acometera-me a presença deles aqui. Um temor inominável e incompreensível que congelava-me a alma. De porte desse horripilo sentimento eu desci as 12 Casas; Mu vinha comigo, bem seguro em meus braços. Se pudesse expulsá-los eu o faria, mas obriguei-me a manter a razão e acalmar o meu ânimo, afinal ele é o progenitor da cria.
Não obstante, como sem detença eu presumia, não eram alvíssaras* que me aguardavam. No instante em que deitei os meus olhos neles e os vi encouraçados em trajes tão negros quanto as auras densas que os envolvia, eu concebi inteiramente tanto a razão daquela visita repentina quanto o motivo pelo qual minhas pernas tremiam, o meu coração titubeava e o filhote se agarrava a mim com toda sua irrisória força. Malfadadamente, o temor irracional que dominava-me antes transfigurou-se em lancinante tristeza. Esta outrossim acometera Mu, que principiou a prantear em meus braços de um modo que eu não havia testemunhado antes; sofrido, desalentado, e quando eu aproximei-me deveras dos dois lemurianos ali parados, o sangue falou mais alto e ele tentou deixar o meu colo para atirar-se no do progenitor à minha frente.
Eu não pude impedi-lo.
Se me pedissem para minuciar a sensação do vazio, eu seguramente diria que é a mesma de quando arrancam-lhe algo que te pertence, ou que te é vital tanto quanto ar, a água e a luz do sol. O agente da ação pode ser qualquer um; uma guerra que o deixa estéril, a vida e suas cínicas vicissitudes, um lemuriano Menehune.
Atla é tal ponto empedernido* que meu visível desconforto não o comove. De posse do filhote ele chora enquanto o abraça forte e lhe dá um ósculo na fronte. Depós, ele puxou o primogênito e então os três juntos uniram-se pelo elo psíquico Muviano, deixando-me de fora.
Tudo o que transcorreu posteriormente eu ortografo aqui sem profundidade. As minhas reminiscências deste dia infausto foram nubladas por uma tristeza tão terrível que sei que me fará companhia até o meu último dia na Terra.
Yuzuriha morreu.
Atla viera pessoalmente trazer a fatídica notícia, a mim e a Mu.
Recordo-me vivamente de suas feições débeis e enfermiças de meses atrás, em nosso derradeiro encontro. Não fora surpresa, malgrado Yuzuriha tenha alertado-me que partiria logo. Neguei. Tal prognóstico me era tão difícil aceitar que preferi fiar-me ao fato de que ela apenas ficaria longe e incauta por muitos anos, como fizera antes, e então retornaria para ver Mu já crescido. Nesse dia eu recebê-la-ia com um sorriso no rostro, e ela ficaria admirada com a criação que dediquei ao seu filhote; Mu será a quintessência do exército de Atena, eu sei disso, e Yuzuriha regozijará de orgulho.
Tal encontro só acontecerá na minha fantasia.
A realidade é uma quimera.
O que vejo é Atla viúvo e seus dois filhotes órfãos de mãe; os três procuram se consolar mutuamente como podem.
Malgrado sem nenhum direito, também sinto-me viúvo. Yuzuriha sempre fora a minha vida, o meu oxigênio, mesmo quando deixou-me. Atla sabia, sempre soube. Era em memória dela, e principalmente em respeito à sua honrada pessoa, que ele viera dar-me a notícia pessoalmente e pôr-me a par de como se deu o seu triste passamento.
Sem tergiversar*, e com a voz em volume suficiente apenas para se fazer ouvir, ele contou-me que a saúde dela deteriorou-se rapidamente depós de deixar Mu aos meus cuidados; o banzo doloroso do filhote tirado de seu ninho ainda tão novo a consumiu impiedosamente. Ela feneceu no leito, onde ainda mantinha alguns pertences de Mu.
Todavia, Atla fez questão de nitidificar que Yuzuriha partiu em paz com a decisão de entregar-me o filhote. Em momento algum ela sentiu arrependimento. “A dor da separação e o fardo da saudade já eram esperados; ela só não tinha mais tempo e viço para batalhar contra eles.”, falou ele para mim, Atla. Depós, para minha surpresa, ele ainda emendou relatando-me que Yuzuriha lhe dissera que a vida lhe dera “Dois homens e dois amores; além de duas crias abençoadas. Ela só lamentou não ter tido mais tempo com o pequeno Jamielson.”
Oh, minha doce Yuzuriha! Compadeço-me de sua lástima!
Por todas as décadas que devotadamente vivi ao lado dela, eu estou ciente de que partiu desta vida tranquila sabendo que cumprira a sua missão, que amou e foi amada, e que deixara seu caçula em boas mãos, malgrado teria dado tudo para poder estar ao lado dele e poder acompanhar seu florescimento.
O encontro foi efêmero.
O impacto deletério do funesto informe me anestesiara, contudo foi impossível não reagir aos protestos de Mu quando Atla tencionou me devolve-lo. A taciturnidade da inveja certamente apossou-se de minhas feições quando o bebê, enfurecido, rejeitou-me para agarrar-se ao pescoço do pai. Este que encarava-me com seu orgulho dilatado e uma fachada hostil, como se eu fosse uma criatura horripila, um déspota atroz que estava ali para lhe roubar a cria. Do lado de Atla, o seu primogênito outrossim me afrontava com sua aura a espargir ameaça e uma sanha paulatina. Comportamentos execráveis e absolutamente paradoxais, uma vez que a mim foi cedida a guarda do filhote pela própria mãe e na presença dos mesmos.
Desprezei a cisma de ambos e tomei Mu em meus braços. As sentimentalidades expostas dos dois lemurianos, somada ao escarcéu do bebê que protestava esgoelando-se por ter sido separado do progenitor, capturou a atenção da guarda e de alguns servos que nos ladeavam.
Colérico, e com meus brios experimentando um caos terrível, coloquei-me na defensiva. Sou o Patriarca. O Regente absoluto desse Santuário sagrado. A minha autoridade é lei, e a minha lei é inquestionável. Não aceitaria ser intimidado por vivalma; nem inimigo poderoso, tampouco deuses, quanto muito guardas, servos ou dois lemurianos estrangeiros.
Mu pertence a mim. Nada no mundo mudará isso.
Sim, estávamos todos de luto, e lidando com um bebê sensitivo; Atla e seu filho Mauna Pua agiram com empáfia*, incitaram seu pranto, arrocharam-se a Mu em abraços exagerados e censuráveis demonstrações de afeto, quando era esperado deles um comportamento antagônico, uma postura firme que não alimentasse ainda mais o sentimento de separação.
Aquele foi um golpe engendrado contra mim. A quintessência da covardia de um lemuriano oportunista que valeu-se da morte da consorte para fazer-me passar por cruel ou quiçá reaver o direito perdido sobre o filhote. Néscio incauto.
Conquanto, aquele desassossego em minh´alma que punha-me temeroso de algo que não sabia nomear, perdurava. Movido por este, sob os olhares curiosos ao meu redor e em revide à intimidação que me faziam Atla e Mauna Pua, acendi meu Cosmo e clarifiquei a situação. Minha superioridade física e meu poder ficaram explícitos frente a Atla, que nada tinha a fazer senão aceitar. Com Mu ainda protestante em meus braços, eu dei as costas a eles e adentrei os portões do Santuário, onde não poderiam me seguir.
Mesmo de longe eu podia sentir o olhar celerado de Atla queimando a minha nuca. A cada degrau galgado que eu subia, o pranto e o bravejar de Mu se aguçava; seu desalento era tamanho que quase sufocava em meio às lágrimas, deixando molhado o meu manto. Emudecido, deixei-o externar toda sua frustração e dor o quanto conseguisse e necessitasse; logo quando enfim ele dormiu, alquebrado depois de horas pranteando, acomodei-o em meu leito e deitei-me ao seu lado. Os meus ouvidos só não estavam mais castigados do que o meu coração enlutado e ufano*. Em vista disso, mirando o pequenino rostro repolhudo e encarnado de Mu, cujos olhos de tão empolados devido ao sobejo* carpido* mais pareciam dois pães crescidos, libertei toda a dor apreendida em meu peito e permiti-me prantear a morte de Yuzuriha.
Então, em uma breve fração de tempo, nitidificou-se em minha mente que eu não apenas pranteava a morte de minha amada, outrossim a orfandade prematura do pequeno filhote, mas pela primeira vez eu pranteava fortemente por não ser o pai legítimo de Mu. Eu pranteava não ser o meu sangue que corria em suas veias.
Tal lampejo impertinente de consciência surgiu-me quando, procurando algum consolo para mim mesmo, eu acarinhei os cabelinhos ralos do bebê que começavam a se espessar em torno da moleira e se estendiam para a fronte. Eles eram lilases. Cor de lavanda. Exatamente como os de Atla outrora foram antes de serem amenizados pelo prata da velhice.
A realidade devastou-me.
Mu herdara os cabelos dele, um feito raro em nossa espécie que tem como característica a imensa diversidade de matiz de encabeladura e de olhos. Eu já havia notado antes, mas neguei, como de praxe.
O reencontro com Atla tirou-me do meu eixo. Enxovalhado*, suplantado e inteiramente renitente da minha miserável sina, que cínica conserva dentro de mim o desejo impossível de ser pai, eu nunca desejei com tanto afã que você fosse meu, Mu. Minha cria. Meu filhote. Meu sangue. Quiçá o seu pranto fosse por ter sido tirado de meu colo. Quiçá fosse em meu pescoço que suas mãos se agarrassem. Quiçá a mim você chamaria de pai um dia.(...)”
— Por Buda, isso é tão... — Shaka deixou escapar as palavras enquanto Mu virava a página.
— Desolador... Triste — completou o ariano enxugando os olhos marejados — em todos os aspectos.
— Você se parecer com o seu pai foi obra do Karma — disse Shaka convicto — o Samsara sabe o peso exato de cada paga que ele dá.
Mu suspirou arqueando as pintinhas na testa.
— Pois é... Por causa dos problemas com Kiki eu estive muito distraído, mas eu deveria ter desconfiado de alguma ligação com esse tal “Atla”, já que para o Yeti ter me confundido com ele ao ponto de não acreditar nem mesmo quando eu disse que não era ele, eu devo ser mesmo muito parecido.
— Anda, Mu, continue lendo.
— Sim — fez o ariano retomando a leitura.
“(...)As consequências do encontro com os congêneres foram desastrosas para o filhote. Mu adoeceu, acometido por uma pirexia* rigorosa e persistente que levou-me ao desespero. Pela primeira vez necessitei deixa-lo aos cuidados das servas para poder sair em busca de um esculápio*. Por sorte Avenir recebeu-me em seu homizio e aceitou ceder-me algumas panaceias* de sua botica sem fazer-me mais perguntas, além das necessárias para socorrer-me com o filhote. Silêncio e panaceia em troca de boas peles, frutas secas e um par virgem de botas de coiro. Ele sempre apreciou boas botas. Uma troca justíssima.
A terapêutica de Avenir deu resultado, malgrado não tenha sido simples a recuperação de Mu. Lutei por ele dias e noites insones, e após mais de sete dias a pirexia enfim deixou-o. Sua saúde reestabeleceu-se, entretanto ele continua amuado e sorumbático*. Dedico-me a um esforço hercúleo para fazê-lo sorrir; às vezes sou bem sucedido, mas na maior parte do tempo não. Deste episódio eu tiro uma conclusão irrefutável: Mu é jovem demais para compreender o significado de morte; conquanto, a ausência percebida da mãe o abalara em demasia, mas, e indubitavelmente, não fora isso que o deixara tão transtornado e longe de seu eixo. Foi Atla.
Os danos ao emocional e à higidez de Mu foram consequência da interação inadequada e imprudente de Atla para com ele. Como seu progenitor, Atla foi leviano. Quanto à Mauna Pua, este apenas agiu influenciado pela má conduta do pai, o qual, lemuriano culto e nonagenário que é, deveria estar ciente dos danos que uma interação emocional tão ardorosa através do elo muviano poderia causar a um filhote sensitivo e demasiadamente novo. Era esperado que Atla soubesse que a sua prole herdaria os seus dons raciais, portanto deveria ter considerado e sido mais cuidadoso(...)”
— Não acredito que ele está culpando o Atla por sentir falta do filho. — Shaka manifestou-se indignado.
Mu sentia-se incomodado e emocionado demais para dizer o que quer que fosse, mas concordava com as palavras do marido. Engolindo em seco ele apenas continuou com a leitura.
“(...)Mu se mostra dono de um poder telepático e telecinético grandioso. Já tão novo ele levita para si os haveres de seu interesse; isso sem nem ter aprendido a engatinhar corretamente. Enfurece-me a negligência de seus congêneres ao invocar o enlace empático, desprezando totalmente esse pormenor. Não posso mais permitir tamanho despautério. Lá se vão meses em que o filhote vive sob os meus cuidados e cresce em perfeita paz e harmonia; bastou-lhe ter contato com aqueles dois para ficar enfermo e descompensado. Atla, em particular, que como seu progenitor deveria tê-lo poupado de suas ondas telepáticas nocivas.
Decididamente, cá com meus pensamentos, cheguei à conclusão de que Atla não é confiável. Eu jamais ousaria demandar a Mu a culpa pelo óbito de Yuzuriha, mas a verdade é que este poderia ter sido evitado. Yuzuriha não feneceu de causas naturais; a negligência de seu consorte foi seu algoz. Ela era uma lemuriana de idade já avançada para conceber, e tal qual um macho no cio, selvagem e doidivanas, Atla inseminou-a a seu bel prazer. Certo estou de que ele também não lhe deu a devida assistência durante a gestação. A farmacêutica lemuriana é avançada e profusa, capaz de assegurar o bem-estar das mães tardias; ademais, Yuzuriha era espadaúda, uma amazona, detentora de um Cosmo poderoso... Decididamente ela não era uma lemuriana fraca.
Estou ciente de que minhas especulações podem estar sugestionadas pela mágoa acrimônia que me toma e pelo luto, todavia o ocorrido com Mu é fato real. Atla e Mauna Pua adoeceram-no. Mas isso não voltará a repetir-se. Cabe a mim proteger o filhote. Independentemente da maior ameaça ser justamente seus congêneres.(...)”
“(...)Esta noite espertei em pânico. Mais uma visão horripila me dilacerou. Há muito a clarividência não se manifestava em mim, não obstante sinto que além de esta regressar com força inda traz-me mensagens do futuro. A visão que perturba-me é sempre a mesma: assisto morrer uma lemuriana grávida parturiente, depós, num salto espectral, seguro em meus braços um filhote órfão. Este então enferma-se e morre sem que nada eu possa fazer. Tal agoiro medonho faz-me repetir o gesto de saltar de meu leito imediatamente e correr para o berço de Mu apenas para certificar-me de que dormece tranquilamente.
A frequência dessa visão perturba-me. Pode esta ser tão somente um eco do passado, mas prudência torna consentâneo* delegar-lhe atenção. Isto posto, tomei a decisão de ortografar, em separado, um volume dedicado somente às mensagens que me chegam por intermédio da clarividência. Eu temo por Mu.(...)”
— Sha, você pensou o mesmo que eu? — Mu encarou o marido, abismado.
— Sim. Essa lemuriana parturiente... pode ser a mãe de Kiki.
— Sim. — Mu acenou e continuou de onde parou.
“(...)Hoje Mu deu seus primeiros passos e eu regozijei referto de bem-aventurança. Trouxe-o comigo a Jamiel, e sucedeu-se enquanto eu organizava em baús os espólios da realeza que serão de sua pertença na maioridade. Inopinadamente* ele abandonou o engatinhar e pôs-se de pé, sustentando-se sobre as perninhas repolhudas e equilibrando-se com o auxílio da parede de pedra, então tomado pelo açodamento da nupérrima* habilidade conquistada, ele caminhou claudicante até mim enquanto graçolava e balbuciava vocábulos em seu idioma de bebê. Exortei-o o mais que pude. Minha paga foi um medalhão de ouro que ele afanara de um dos baús e entregara-me no fim de seu trajeto. Adiei todos os compromissos do dia para acompanha-lo em suas primeiras caminhadas. Admira-me a sua inteligência prodigiosa e é o meu dever exorta-lo.(...)”
“(...)Atla e Mauna Pua retornaram. Ordenei à guarda que lhes notificasse que eu estava ausente. A presença de Atla é insalutífera* e eu não quero que meu amado filho de novo adoeça por sua culpa(...)”
“(...)Hoje Mu completou dois anos de vida. Comemorei seu natalício com uma solenidade comezinha*. Teria sido um dia perfeito, não fosse pelo estorvo da presença deletéria de Atla e Mauna Pua nas imediações do Santuário.
Dessa vez, sequer dei-me ao trabalho de responder-lhes. É o natalício de Mu; assegurei que o dia fosse perfeito para ele, e isso incluía não lhe causar lágrimas devido à uma visita inoportuna de seu progenitor(...)”
“(...)Mu disse suas primeiras palavras! Oh, pelos deuses! O meu coração vetusto palpita em alvíssaras! Quão grandiosa ternura toma minh´alma a cada vez que ele indica-me o dedinho gorducho e tartamudeai-me: “Shi-on”. Assim mesmo, em sílabas cortadas, ele clama-me com evidente adoração. Oh, meu pequenino Mu! Esteja ciente de que eu outrossim o adoro! Sua existência foi a melhor coisa que aconteceu-me na vida. Sinto, no âmago de minh´alma, que vivi até aqui apenas para ser o mestre que guiará os seus passos(...)”
“(...)O quadro com aquele lemuriano néscio tem se tornado insustentável. Sua insistência descabida em querer ver Mu está minando a minha paciência. Agora ele tomou como hábito perambular pelos limites do Santuário vez ou outra, numa espécie de vigília desaforada. O que ele pensa que irá conseguir com tal atitude, além de irritar-me às veras? Mu foi dado a mim. Mu é meu pupilo, meu herdeiro, meu sucessor. Será dele a sagrada armadura de Áries; será ele o ferreiro celestial desta Era; quiçá, outrossim, tornar-se-á o novo Patriarca. Se Atla é demasiado estúpido para compreender a grandiosidade do ato de Yuzuriha em entregar seu filhote a mim, caber-me-á então deixar-lhe a situação às claras(...)”
Nesse ponto, Mu abruptamente fechou o diário com um golpe. Sua mão espalmada na contracapa tremia descontroladamente, gelada e pálida.
— O que foi, Mu? — Shaka perguntou preocupado.
— Eu não quero pensar nisso, porque juro que até consigo entender a linha de raciocínio torta e o desespero dele. Meus sentimentos filiais por Shion me empurram a pensar o melhor dele, mas quanto mais eu leio mais eu fico com medo do que ele possa ter feito ao meu pai — disse ele, depois buscou os olhos azuis do virginiano e os encarando com visível angústia emendou: — Será que...
Mu não foi capaz de concluir o pensamento; mas Shaka foi.
— Acha que Shion matou o Atla?
— Eu não sei... está claro que o instinto paternal de Shion lhe tomou completamente a razão... Ele obviamente caiu em uma espiral de loucura conspiracionista — fez uma pausa e respirou fundo esfregando os olhos — pelos deuses, eu não duvido de mais nada.
— Bem, só tem um jeito de saber — disse Shaka voltando a abrir o diário no colo de Mu, na página em que haviam parado a leitura. — Continue.
Mu engoliu em seco e retomou a leitura com os dedos trêmulos e um arrepio frio na nuca.
“(...)Decididamente atingi o meu limite no imbróglio* com Atla. O patife esteve aqui hoje, e acreditando dispor de qualquer apanágio* apenas por ser o progenitor de Mu, valeu-se de um momento meu de distração, que supervisionava a entrega de mercadorias na entrada do Santuário, para acercar-se de Mu quando este afastou-se de mim sem que eu desse-me conta. No instante em que percebi a ausência do meu menino, parti asinha em seu rastreio; foi com espanto e terror que encontrei ajunto a Atla, aceitando de bom grado um punhado de frutas cristalizadas que o maldito lhe ofertava. Sim, maldito! Nóxio* traiçoeiro! Ou que outra nomenclatura definiria melhor um provecto* intrujão* perverso e decadente que faz uso de doces para atrair uma criancinha inocente para sua armadilha? Criatura vil!
Por sorte, os anos longe de Atla nublaram a memória e enfraqueceram o elo muviano de Mu o suficiente para que desta vez ele não demandasse demasiado labor ao ser separado dele. Ordenei à minha serva que o levasse à Casa de Áries e aguardasse lá o meu regresso, pois o que eu tinha a deliberar com aquele lemuriano não deveria ser presenciado pelo pequeno. Como previ, o dissídio* de pareceres fez-se maior que a racionalidade. Atla negou-se a admitir que sua insistência em estabelecer uma relação com Mu era, além de inadmissível, totalmente inapropriada e nociva para o menino, e foi sob uma procela de vitupérios e bravatas acaloradas que quase chegamos às vias de fato. Ora, o que esperar de dois lemurianos regidos pelo signo de Áries em disputa pelos direitos sobre um filhote?
A verdade é que Atla Nawao Menehune não tem nenhum direito sobre Mu, pois que este me foi dado por Yuzuriha. Portanto, desesperado ele procura qualquer motivo para acusar-me de negligência e censurar a criação que demando a Mu. Desta vez ele colocou em xeque a administração do Santuário; isso fez o sangue ebulir em minhas veias. Ignóbil azêmola*!
Atla usou do ímprobo argumento de que o Santuário não era mais como ele havia conhecido outrora; que este agora estava decadente, desamparado, e de acordo com informes que lhe chegavam aos ouvidos, o zelo com os aprendizes estava muito aquém do que fora no passado. Criatura estulta! Cavalgadura! Quem dera fosse ele em meu lugar, desdobrando-se em mil para conseguir alimentar centenas de bocas famélicas; contanto vintém por vintém para liquidar com as despesas e operando milagres para dividir os recursos já quase no fim. Diferentemente dele, que vale-se do título de consorte da finada rainha para dilapidar o pecúlio do sobrenome Lemur e farta-se do bom e do melhor, a mim restou o ônus da limitação monetária. Poltrão! Não lhe caberia sequer citar tal problemática. Pois fiz-lhe questão de clarificar que, mesmo que a crise derribe o Santuário ao ponto de a mim ser preciso vender a alma ao espurco do Hades em troca de um cibalho de pão, a Mu jamais deixarei que falte nada. Vivalma tocará nos haveres destinado a sua criação, tampouco no pecúlio deixado para ele por Yuzuriha.
O revés é que Atla tem a intenção de porfiar-me*. Não fosse esse o seu propósito, teria notado os privilégios delegados a Mu. Suas roupas são de fina fábrica e caprichada cosedura; os sapatos são de coiro encorpado, tão polidos que chegam a reluzir ao sol; sua tez tem viço e exala perfume de lavanda; os cabelos bruxuleiam... regalias que não chegam ao alcance de nenhuma outra criança no Santuário.
Ter a minha competência como mantenedor do filhote posta em xeque, por pouco não me levou a agredi-lo. Estatuí que sua presença não mais seria tolerada, tampouco permitiria que voltasse a se aproximar de Mu, e caso insistisse, duelaríamos. Atla pode ser o maior telepata dessa Era, mas eu sou Shion de Áries; ele está ciente das implicações de entrar em um embate contra a minha pessoa.(...)”
“(...)Mu está crescendo com virtude e higidez. Tenho conseguido conciliar satisfatoriamente o meu ofício no Santuário, apesar das infindas atribulações, com sua educação. Meu vínculo com ele já é tão forte que sinto como se já tivéssemos vivido séculos juntos. Não sou capaz e imaginar a minha vida sem ele.(...)”
“(...)Mu hoje completou três anos de vida; o dia poderia ter sido perfeito, não fosse por aquele maldito lemuriano ter quebrado as regras mais uma vez. Pela manhã deixei Mu recrear-se na Arena de treinamento com alguns dos discípulos, sob os cuidados de um serva; quando fui busca-lo ele segurava nas mãos um pequena estatuária esculpida em cristal lemuriano. Exultante ele prontamente veio mostrar-me o ícone, e nessa hora demandei todo meu esforço para não denunciar o meu abalo. Oh! Deuses do Olimpo todo! Poderosa Atena! Em minhas mãos eu segurava a reprodução perfeita de Yuzuriha!
Vestida como uma ninfa alada e etérea, com graciosas asas vítreas saindo de suas costas, vestes diáfanas, e seu longo cabelo preso no inexorável rabo de cavalo, ela bailava com os braços abertos enquanto tinha o rostro voltado para o firmamento. Uma majestosa obra-prima que retratava a rainha muviana no auge de sua beleza e juventude.
Minh´alma arrefeceu-se completamente; meus dedos seguravam trêmulos aquele ícone, e eu só lutei para conter a emoção por estar diante de Mu. Todavia, assim que esta abrandou-se, acendeu em minha mente a identidade do talentoso artesão que seria capaz de esculpir com tanto refino. Agastado, solicitei a Mu que disse-me como conseguiu a “fada”, ele então jubiloso descrevera-me, com sua proficiência infantil, que encontrou aquele tesouro aos pés da árvore frondosa que fica na fronteira Norte do Santuário, a poucos metros da Arena.
Nenhuma dúvida me restava. Somente um homem no planeta seria capaz de esculpir uma obra de arte singular como aquela com tamanha excelência, e também penetrar as fronteiras do Santuário sem ser visto para deixa-la de presente para Mu na exata manhã do dia 27 de março; esse homem era Atla Nawao Menehune do Clã Alquimista da Casa de Lua Pele.
A ira odienta corroeu-me a alma; fui capaz apenas de reconectar-me com alguma paz quando todas as servas incumbidas do monitoramento de Mu garantiram-me que pessoa nenhuma estivera com ele naquela manhã. Ele brincou só na sombra da árvore. Apenas ele e a fada de cristal.
Enfim, alguma sensatez acendeu ao limitado juízo de Atla e ele não ousou desobedecer-me. Quiçá essa mesma sensatez, ainda que tardia, o tenha feito admitir que sua presença aqui é deletéria para Mu, que o mais adequado é que mantenha-se distante. Assim, apaziguados os ânimos, e tocado por tão bela representação de Yuzuriha presenteada a Mu, sinto que está declarado um armistício entre nós. Confidencio aqui que gratifico o progenitor de Mu por ter-lhe regalado tão emblemático mimo, pois que dessa forma meu menino crescerá conhecendo as feições da mãe, ainda que, em tempos tão modernos, um retrato fosse mais adequado... Caberia a mim ceder-lhe os retratos de Yuzuriha, mas essa é uma missão aquém das minhas faculdades.(...)”
“(...)Mu adorou a fada, todavia o meu coração bateu errático quando ao enroupá-lo com as cobertas para dormecer o vi segurando a escultura entre seus dedinhos.(...)”
“(...)Tenho pensado muito sobre Mu. Ele já conta com completos três anos de vida e evidencia dispor de um excepcional talento psíquico. No entanto, sua fala ainda é insatisfatória e sua estatura demasiado tacanha se comparada aos filhotes de nossa raça quando estes atingem essa mesma marca de idade. Incontendivelmente*, os predicados do sangue Menehune de seu progenitor são bem mais acentuados do que eu pensei; eles são indivíduos cujo crescimento físico dá-se de modo lento em detrimento de seu desenvolvimento psíquico, que vem em primeiro lugar. Mas as parecenças de Mu com Atla vão muito além do desenho físico — para o meu completo infortúnio, embora tal realidade não comprometa em nada a minha adoração por ele —; eu acredito que Mu tenha herdado o poder telepático de Atla.
Depós de uma catártica elucubração*, inferi a excelência dos desígnios divinos.
Se por um lado a parecença desconcertante do meu amado menino com o seu progenitor abespinha-me e humilha-me, pois que todos os dias quando olho para ele e o vejo mais parecido com Atla, a minha incompetência, enquanto macho muviano, é esfolada em minha face, por outro lado devo admitir que o fato de Mu possuir o sangue poderoso dos Menehune e ter nascido destinado a ser o meu sucessor é, cristalinamente, uma manobra divina perfeita.
Se Atla é o maior telepata desta Era, o muviano vivo mais poderoso, eu, Shion de Áries, o Patriarca do Santuário de Atena, vanglorio-me, sem ufanismos, de afirmar que sou o mestre ferreiro com o maior nível de proficiência que existiu em séculos. O meu talento raro para a comunhão com as armaduras garantiu-me, ainda na mocidade, o apuro da armadura de Áries em tão evolutivo grau que nem as investidas dos deuses foram capazes de avaria-la facilmente. Possivelmente, a minha sobrevivência na Guerra Santa deu-se devido a este pormenor. Vaidoso, ouvi do próprio mestre Hakurei que as minhas habilidades eram consideradas raríssimas entre os nossos. Clarifico que não escrevo essas linhas para acariciar-me o ego, mas tão somente como um perfazimento* à compreensão de minha total insignificância em face da grandiosidade dos deuses. É deles todo o mérito.
Era tão necessário que Mu fosse o filhote de Atla e possuísse o sangue poderoso dos Menehune, quanto era crucial que ele fosse o meu discípulo, o meu sucessor. Quiseram os deuses que Mu nascesse sob a proteção da constelação de Áries para assim eu poder ministrar-lhe tudo o que sei, em especial o segredo da comunhão com as armaduras, que com sua herança de sangue com certeza alcançará níveis ainda maiores do que os meus. Pretenderam eles que Mu nascesse como o segundo príncipe, pois que sendo o primogênito ele herdaria o trono, o que poderia acarretar em conflitos que o impediriam de afiliar-se ao Santuário.
Ortografo nesse volume, portanto, esse meu perfazimento como um marco; Toda e qualquer atitude minha demandará o cumprimento da vontade dos deuses.
Finalmente eu tenho paz.
O segundo príncipe muviano está exatamente onde deveria estar, onde os deuses pretenderam: comigo!
Jamielson Mu Nawao Menehune Lemur do Clã Alquimista da Casa de Jamiel: ele tem o melhor sangue, o melhor cognome, o melhor clã e o melhor mestre. Um lemuriano que carrega o nome de nossa terra, um auspicioso augúrio daquele que será um guerreiro extraordinário e sem precedentes. Cosmo e superioridade racial, ambos unidos em um único ente.
E se os avisos em minhas clarividências condizem com o que conjecturo, Mu há de ser o lemuriano que reedificará a raça muviana das cinzas!(...)”
E assim seguiu sendo desvendada toda a verdade sobre a origem de Mu.
Os volumes seguintes eram um compêndio das atividades de Shion na administração do Santuário e também das muitas façanhas de Mu ao longo de seu crescimento, narradas em detalhes caprichosos; embora esta muitas vezes se perdesse em reflexões erráticas e até delirantes.
O que não era nada fantasioso era a maneira visceral e realista com a qual Shion descrevia a decadência progressiva do Santuário. Ficou claro que este começou a colapsar ao mesmo tempo em que o pequeno Mu florescia como aprendiz. Shion, portanto, tinha duas grandes missões, treinar Mu e tentar impedir a queda do Santuário de Atena; além de uma terceira missão auto imposta, e para ele tão essencial quanto as outras duas: manter Atla afastado de Mu.
Shion fora bem sucedido nas três.
A partir desse ponto na narrativa, ficou muito claro, tanto para Mu quanto para Shaka, que Shion passou a nutrir sentimentos distorcidos de posse em relação a Mu, estes enraizados num medo profundo de que Atla o tirasse de si. Em uma passagem, Shion até mesmo confessa que seu desejo era declarar-se pai de Mu, e não apenas mestre e tutor, mas não o fez em respeito à memória de Yuzuriha e devido à sombra constante da presença de Atla rondando o Santuário num lembrete funesto de que o verdadeiro pai não se permitiria fazer-se esquecer, o que os levou a concluir que aquele Atla monstruoso e vil só existiu na concepção de Shion, que personificara nele seus piores medos e inseguranças.
Estava nítido que ter de lidar com a deterioração dos recursos financeiros do Santuário, em conjunto com a exacerbação dos sonhos clarividentes, levaram Shion a agir de forma tão radical com Atla. Ele apegou-se à ideia de que Mu estava destinado a um futuro grandioso, portanto cabia-lhe não apenas prepara-lo para esse futuro, mas também protege-lo para que cumprisse seu destino.
Para Mu, não era mais possível ler uma linha sem que um sentimento dicotômico o tomasse por inteiro. Ele conseguia identificar na narrativa o amor quase doentio que Shion tinha por si, ainda que este fosse muito melhor descrito em palavras escritas do que de fato era em linguagem verbal ou demonstrações afetivas. Seu mestre era um guerreiro de séculos, um lemuriano sofrido, e suas cicatrizes emocionais refletiam-se no seu modo rude, em suas atitudes severas, e também nas falhas de seu juízo. Por isso, ao mesmo tempo que lhe emocionava tomar consciência da imensidão do amor que Shion tivera por si, causava-lhe dor saber que este também o fizera se perder.
Um ciúme corrosivo nublou a razão do mestre. Em diversos trechos ele deixava claro que reconhecia o amor incondicional de Atla por Mu, evidenciado por sua aura paternal, nas incansáveis tentativas de aproximação e, por fim, na obediência às suas ordens; mas Shion nunca deixou de vê-lo como pária, sucumbindo aos seus instintos muvianos mais primitivos. Sendo assim, Atla era tão somente o seu rival, no mais puro e selvagem sentido da palavra. Um macho inimigo que lhe roubou a fêmea e que agora tentava lhe tirar o filhote.
Como lemuriano que era, Mu sabia distinguir como ninguém que todo esse conflito rudimentar e bestial estava muito bem camuflado em uma escrita erudita impregnada de persuasão; a natureza animal dessa disputa passaria despercebida por qualquer um que não conhecesse a fundo as implicações das tradições muvianas. O que não era o seu caso. Ele não apenas entendia tal conflito como conhecia Shion o suficiente para saber que ele sempre veria Atla como seu rival, independente de qual fosse seu comportamento ou intenção.
Mas estar ciente do dilema enfrentado por Shion não significava perdoa-lo pelo que fez. Esconder-lhe a verdade, privar-lhe da família, foi um ato de covardia, ainda que Mu compreende-se o que o levou a cometer tão grande perversidade. A culpa, por certo, foi o que induziu o mestre a escrever aqueles diários, que nada mais eram do que uma confissão pessoal a si.
O caráter confessionário daqueles diários ficaram evidentes nas últimas passagens do volume que lia. Estas narravam o destino trágico de sua família.
Atla, seu pai, o amava de todo coração.
Com certa prepotência e pouco caso, Shion escreveu que testemunhou o sofrimento de Atla ao ceder à ordem de não mais procurar por Mu, e sabia que tal resignação de seu rival não deu-se por medo, mas por amor ao filhote. Uma batalha consigo poderia ferir a ambos gravemente, e Mu precisava de do mestre e tutor, muito mais do que precisava do pai biológico.
O coração de Mu ficou em pedaços ao saber que seu pai abriu mão de si por amor, por saber que não devia interferir em seu destino, tampouco contrapor-se à vontade de Yuzuriha, mas que, mesmo assim, encontrou um jeito de fazer parte de sua vida, lhe presenteando em todo aniversário com uma escultura de cristal lemuriano; presentes que Shion só permitia ficarem consigo porque nunca lhe revelou quem era o autor de verdade, o deixando pensar que eram dados por si.
A verdade sobre sua origem estivera o tempo todo, literalmente, ao alcance de suas mãos.
A fada em realidade era sua mãe, belíssima e etérea como um anjo. O ferreiro, segunda miniatura a ser entregue, um homem de porte viril e barba farta trajando um grosso avental de couro, e que portava na mão um martelo idêntico ao que usava para reparar as armaduras, era o próprio Atla. O rapazote de macacão e espada em mãos, entregue no ano seguinte, era Mauna Pua, seu irmão mais velho. E o pequeno Sátiro saltitante de sorriso largo e pequeninos chifres de carneiro era a sua própria representação aos 5 anos de idade.
Após completar a família, nos próximos três anos Atla lhe esculpira um iaque corpulento, simbolizando a Casa de Jamiel, um cavalo alado, uma lembrança do cavaleiro de Pégaso, que fora seu amigo e de sua mãe, e finalmente a deusa Atena, o último presente recebido, quanto tinha nove anos.
Na manhã de seu décimo aniversário ele foi até a árvore pegar o presente tão esperado, mas não havia nada lá.
Com o rosto lavado de lágrimas e os olhos inchados, Mu precisou mais do que nunca da ajuda de Shaka para conseguir ler os últimos trechos daquele volume. Neles Shion dizia que seu irmão mais velho, Mauna Pua, em uma visita inesperada ao Santuário exigiu vê-lo. Shion o recebeu e com extremo pesar ele noticiou o falecimento de Atla. Dada a notícia seu irmão então lhe entregou um envelope. Neste estava um mapa com a localidade da Casa de Lua Pele, além de instruções de como navegar pelos túneis subterrâneos até a Vila Lemuriana. Lá Atla deixara cartas que escreveu para Mu.
Mauna Pua também notificou a Shion que seu pai sabia que ele escondia a verdade de Mu, que nunca lhe contara sua origem e sua história devido à complexidade da situação que os envolvia, mas que esperava que Shion honrasse a promessa que fizera a Yuzuriha e que no momento certo lhe revelasse a verdade.
A pedido de Atla, Mauna Pua prometeu que não tentaria nenhuma aproximação com Mu, que também deixaria de vir ao Santuário para vê-lo apenas de longe, mas que esperaria por uma visita do irmão quando Shion enfim honrasse a promessa e entregasse a ele o mapa.
Aquele foi o golpe de misericórdia.
Mu abandonou o diário para refugiar-se nos braços do marido acometido por um choro desesperador.
Shaka fazia o que podia para ampara-lo e conforta-lo, mas ele mesmo sabia que não havia conforto para aquela dor naquele momento. Mu teria que senti-la com todos os poros de seu corpo, com sua alma desalentada e com seu coração devastado. Se existisse um modo de pegar a dor dele para si Shaka o faria sem pensar, mas tudo o que podia fazer por ele era nada além de abraça-lo forte e ficar ao seu lado.
E eles ficaram assim por longos minutos sem que nenhuma palavra fosse dita e apenas o choro de Mu preenchesse a sala. A leitura tinha consumido todas as horas daquela manhã e se estendido por quase a tarde inteira; eles tinham perdido a noção do tempo.
Foi Kiki quem os trouxe de volta à realidade quando por telepatia chamou por Shaka.
Preocupado com o estado emocional de Mu, que embalado por seus braços e exausto agora choramingava baixinho, Shaka atendeu ao chamado de Kiki em silêncio, sem fazer alardes.
Mas tanta compreensão durou menos do que cinco segundos.
— Mas nem pensar, Kirian! — Ele gritou assustando o ariano que teve um sobressalto. — Se você não voltar para casa agora, eu vou fazer uma mala com todas as suas coisas e mandar entregar aí nesse lupanar mundano de ar viciado. Você quer morar ai?
Mu respirou fundo, puxou a barra da camiseta de Shaka e enxugou os olhos e o nariz.
— O que foi? Ele está bem? — murmurou baixinho sentindo a cabeça latejar.
— Está tão bem que está querendo ficar lá para jantar com as messalinas — reclamou o virginiano. — É sempre assim. Shaka dá a mão e o Kiki trata logo de tomar o braço todo de Shaka.
Mu deu uma fungada e esfregou os olhos ao dar um riso sem felicidade real.
— Fala para ele voltar... de repente me deu uma vontade de abraçar meu filhotinho...— lamentou — Kiki é o único que restou da minha família, Sha. Eu preciso dele aqui comigo.
— Ei — Shaka segurou seu rosto e o fez olhar em seus olhos — Eu lamento tanto por tudo isso, Mu. O destino foi implacável com todos vocês, Atla, Yuzuriha, seu irmão, a mãe de Kiki... nem Shion foi poupado. Mas a vida seguiu em frente, Mu, torta, como ela é às vezes, e você também vai seguir. Agora a sua família somos nós, você, Kiki e eu, e nunca vamos te deixar sozinho.
Mu encarou Shaka por um momento e então o puxou para um abraço, o apertando forte contra seu corpo.
— E nem eu a vocês — disse choroso — Vocês dois são as luzes da minha vida, Sha... Ah, mas eu estou tão cansado e confuso... Estou com raiva, muita raiva! Mas também uma enorme tristeza e um sentimento de impotência me causam desespero... Sinto tantas coisas que é difícil até explicar.
Shaka beijou seu rosto e depois de um momento inclinou-se para o lado, então fechou os diários que ainda estavam abertos, os organizou em duas pilhas ali mesmo no chão e disse:
— Chega desses diários por hoje. Você precisa descansar. — Levantou-se e puxou Mu junto consigo pelo braço, depois emendou: — Eu vou buscar aquele pestinha no alcoice de pecado e quando voltar prepararei um jantar bem caprichado para nós três... Sei que essa dor não vai passar tão cedo, mas ela vai diminuir. E enquanto ela ainda for imensa, pode dividi-la comigo.
Com um beijo rápido Shaka o deixou ali e seguiu para o Templo de Baco.
Mu ainda ficou um tempo ali, anestesiado, depois respirou fundo e foi tomar um banho para espera-los, não queria que o filho o visse abalado daquele jeito.
Shaka enfim tinha razão. Por mais doloroso que fosse seu passado era no presente que deveria se apegar. Lutou demais para salvar a vida de Kiki e para fazer o homem que tanto amava voltar ao seu eixo; não ia deixar-se abalar mais do que o necessário, por mais duro que fosse esse novo golpe que a vida lhe preparara.
Mais tarde eles jantaram juntos e a alegria de Kiki lhes narrando como fora seu dia junto de Geisty, Afrodite e das bacantes trouxe um pouco de conforto a Mu. Kiki voltou a ser o garotinho agitado e cheio de vida que sempre fora e não podia estar mais agradecido por tê-lo em sua vida. Como disse que faria, Mu o abraçou muito naquela noite; agora tinha um sentimento todo especial quando o tinha em seus braços.
Shaka e Mu enfim conseguiram solucionar parte do mistério que envolvia o nascimento de Kiki. A mãe dele sabia quem era Mu, pois Mauna Pua, seu irmão mais velho, esperou por uma visita sua toda a vida lá nas terras de Lua Pele, lugar onde morava, provavelmente, com sua companheira. Quando eles foram atacados, a lemuriana já sabia onde buscar refúgio. Infelizmente ela não tinha mais tempo, mas sabia que seu filho estaria seguro com o tio, o cavaleiro de Áries.
Restava agora descobrir quem matou Mauna Pua e sua companheira.
Agarrado a Kiki, Mu agora sentia-se mais perto do irmão que nunca conheceu, feliz por literalmente ter um pedacinho dele consigo.
Quando Kiki enfim adormeceu, durante o último bloco do capítulo da novela As Azevinhas do Destino, Mu o levou para o quarto e o colocou na cama, então passou um tempo ali olhado para as pequenas estatuetas esculpidas em cristal que ficavam sobre a prateleira da cabeceira. Ele apanhou a fada e com lágrimas nos olhos demorou-se um longo tempo olhando para cada detalhe caprichosamente entalhado nela, depois a beijou e a devolveu para seu lugar. Ele repetiu o ato com o ferreiro e depois com o aprendiz, silenciosamente fazendo uma prece de amor e agradecimento.
Antes de sair do quarto Mu pensou por um instante, então pegou a escultura menor, que correspondia ao seu irmão, e a colocou do lado de Kiki, sobre seu travesseiro.
— Papai te ama — sussurrou em sua língua natal antes de sair.
***
Shaka já desfazia a cama e Saravá Ebó afofava os cobertores quando Mu entrou no quarto.
Como fazia quase todas as noites ele tirou a camisa, a jogou sobre o cabideiro e foi se deitar. Geralmente ele se ajeitava de costas e abria os braços esperando que Shaka viesse aninhar-se em seu peito, mas desta vez ele encontrou o marido sentado esperando por ele com alguma intenção de conversar.
— Como está se sentindo? — Shaka fez a ele uma pergunta simples, porém nada fácil de responder.
Mu suspirou ajeitando-se nos travesseiros do lado dele e encostando a cabeça em seu ombro.
— Eu não sei... Acho que minha vida do dia para a noite virou uma trama de novela mais louca que “As Azevinhas do Destino”.
Shaka riu baixinho.
— Para isso você precisaria ter uma forma zoomórfica, já que na novela todo mundo se transforma em algum tipo de bicho... Quem sabe, chifres de carneiro e cascos? — brincou ele beijando os cabelos lavanda. — Até que não ficaria mal. Seu pai mesmo o retratou assim na escultura de cristal.
Mu riu com ele, depois deu um longo suspiro.
— Quem diria, né... de um lemuriano sem nome para o “segundo príncipe”.
— Ainda é difícil acreditar que Shion era essa pessoa passional e tão insegura...
— Sabe, eu quero sentir raiva dele... mas no fundo eu tenho é pena.
— Eu compreendo.
— Não consigo ficar indiferente a tanto amor que ele me deu, mas então penso no meu pai... — Mu fez uma pausa e enxugou uma lágrima que lhe saltou de um dos olhos. — Eu posso jurar que tenho uma vaga lembrança de um dia ter visto um homem me espiando nas ruínas, perto da árvore onde eu encontrava os presentes... Foi muito rápido... Talvez seja até minha imaginação. Enfim... pensar nisso me enche de raiva. Meu pai e eu fomos privados de uma convivência que só faria mal ao mestre Shion mesmo... Isso me enfurece, mas ao mesmo tempo, o sentimento de gratidão que tenho por ele ter se dedicado tanto a mim e me amado tanto me impede de odiá-lo. Kiki só está vivo por conta da dedicação dele, das interpretações de seus sonhos... Imagino o quão desesperador foi para ele viver com essa culpa.
— Você não consegue odiá-lo porque você é um homem bom e justo, Mu... Se fosse comigo, além de nunca perdoa-lo eu ainda iria até o Submundo atrás dele... porque é certo que o pilantra está lá embaixo. Os Elísios jamais deixariam entrar em seus campos paradisíacos um homem que cometeu tal atrocidade a um pai que só queria poder amar o filho.
Mu bufou cansado e pensativo.
— Eu também não sei se o perdoei, Sha... Na verdade, nem sei dizer se a questão aqui é perdoar ou não perdoar. Por enquanto só consigo mesmo é sentir uma enorme tristeza... Saber que meu irmão esperou por mim todos esses anos está me doendo demais, sabe?
— Sim, Shaka sabe, Mu — disse o virginiano o abraçando e o confortando.
— Mas não é só isso que está me doendo... Saber que minha mãe nunca deixou de amar o meu mestre, e que só foi atrás do meu pai para procriar me deixa incomodado.
Shaka arqueou as sobrancelhas finas, curioso.
— Incomodado? Com o quê? Você acha que... Yuzuriha pudesse ser uma mulher espetaculosa?
— Quê? Não, Sha. A minha mãe não era uma mulher espetaculosa.
— Ora, não mesmo! Afinal Shion deixou claro os motivos dela, que partiram da incompetência dele como marido.
— Sim, eu sei, Luz da minha vida... Não quero e nem posso julgar, mas não consigo evitar pensar que ela ficou com o meu pai apenas por essa razão, entende? Me dói pensar que Atla nunca teve o amor verdadeiro dela, já que o coração de Yuzuriha era de Shion... Isso é esquisito pra mim.
— Hum.
— Não sei se conseguiria viver feliz se fosse comigo... Vamos supor que eu fosse casado com você, Sha, mas soubesse que você amou outro homem antes de mim, e que o seu amor por ele nunca acabou. Isso significa que o seu coração nunca foi totalmente meu. Para mim, isso é terrível! Shion perdeu a mulher que amava. Yuzuriha perdeu o homem que amava. E Atla? Onde o meu pai se encaixa nisso?
— Você está se torturando em vão, Mu. O amor é um sentimento de dimensões complexas e habilidades transformadoras. E justamente por ser complexo é que ele possui variadas formas. Yuzuriha pode não ter amado Atla da mesma forma que amou Shion, mas certamente existiu amor da união deles. Ora, se filhos movem tanto a vida e as decisões dos lemurianos a ponto de uni-los ou separa-los, então o que uniu os dois por si só já foi um gesto de amor.
— Não tenho dúvidas disso. Conheço os instintos da minha raça e está nítido, para mim, que eles se respeitavam como um par “acasalado”.
— Exato, e mais, Atla não era qualquer homem. Até Asmita de Virgem reconheceu seu valor e nobreza nas páginas de seu diário. E se Asmita, que era um homem como poucos e desprezava qualquer criatura que não fosse Atena, e que, diferente de mim, jamais desviou-se de seu caminho, reconheceu isso e se encantou por Atla, então para sua mãe seria ainda mais fácil cair de amores por ele.
Mu deu um sorriso fraco, um tanto surpreso.
— Se encantou? O que quer dizer?
Shaka deu de ombros, pensou por um momento e então disse:
— Eu posso ter entendido errado, afinal eu ainda estou no nível básico do lemuriano arcaico, mas eu encontrei um manuscrito no meio de um dos diários do Asmita de Virgem e acho que quem o escreveu foi o seu pai.
— Sério? E o que estava escrito? — Mu perguntou curioso.
— É melhor você mesmo ler, Mu. Espere aqui, vou busca-lo.
Shaka deixou o quarto às pressas e quando voltou trazia um papel dobrado nas mãos; ele voltou a se sentar ao lado de Mu, que aguardava ansioso, e lhe entregou para que o lesse. Antes do ariano iniciar a leitura, Shaka apontou para o papel e disse:
— Veja, no final do texto. Estou certo de que é a assinatura do Atla, mas você pode confirmar... Esse dialeto é um pouco diferente do escrito por Shion nos diários, por isso há algumas passagens que não entendi bem, mas eu acho que há uma razão para esse manuscrito estar no diário do cavaleiro de Virgem.
Curioso, Mu começou a ler como se devorasse as palavras. Aquele deveria ser o dialeto da Casa de Lua Pele. Não era muito diferente do escrito por Shion, só era bem menos rebuscado. Contudo, não foi o dialeto, tampouco ter nas mãos um manuscrito escrito pelo próprio Atla, que causou surpresa e espanto em Mu, mas sim o conteúdo da escrita.
— O que foi Mu? O que fala aí nesse papel que te deixou com essa cara? — perguntou Shaka percebendo que o ariano estava boquiaberto.
— Luz da minha vida, agora sim você pode dizer que a minha vida é um enredo de novela indiana... só me falta aparecer um gêmeo do mau.
— Arê! Vire essa boca para lá! Essa já é a novela do proxeneta do Saga... Anda, me diz o que você leu aí.
— Isso aqui, Sha, pasme, é uma carta de amor — disse Mu balançando o papel no ar.
Shaka balançou a cabeça dando um soquinho no ar.
— Eu sabia! Achei que estava louco por ter deduzido isso sem conhecer de fato o idioma que estava escrito.
— Pois é. Se Afrodite estivesse aqui ele diria: Que babado!
— Graças a Buda ele não está aqui. E o que Atla diz aí?
— Nada explícito ou direto demais. São palavras muito respeitosas e veladas... Quando Asmita de Virgem esteve em Jamiel para fazer o rosário que prenderia a alma dos Espectros de Hades, ele pediu para que Atla transcrevesse suas últimas memórias... Ele assim o fez, e depois da morte de Asmita ele escreveu também essa carta póstuma, como uma forma de registrar seus sentimentos para que não fossem esquecidos... Ele confessa que, de certo modo, sentia-se apaixonado por Asmita. Era um sentimento platônico, fruto de uma admiração grandiosa, e que ele tinha consciência disso, mas que sentia ser recíproco. Nobre e íntegro como era, Asmita nunca deixou que isso ultrapassasse o campo da admiração e do respeito. Um sentimento que nunca foi verbalizado, tampouco consumado.
— Por isso ele escreveu essa carta. Para que pudesse confessar esse sentimento, nem que fosse apenas para si mesmo — disse Shaka.
— Exatamente... E ele também agradece pela oportunidade de ter podido conviver com Asmita, nem que fosse por tão pouco tempo, e sempre de forma tão restrita, sendo apenas o transcritor das passagens de seus diários... Ele termina dizendo que irá guardar esse sentimento com ele enquanto viver — Mu suspirou e dobrou o papel conforme as marcas já existentes neste — Enfim... esta é só mais uma passagem triste da vida miserável do meu pai.
Shaka lhe acariciou os cabelos, penalizado.
— Meu querido, não se torture dessa maneira, Mu. Atla também viveu momentos de muita alegria, com Yuzuriha, com Mauna Pua, com o seu nascimento... Infelizmente a vida nos enche de provações, mas também nos dá momentos de refresco.
Mu tomou a mão de Shaka e a beijou com ternura.
— Sim, e esse é um momento de refresco — disse ele apontando a carta dobrada em sua outra mão — De uma forma estranha essa carta me trouxe alguma paz. O meu pai também tinha outro em seu coração, tanto que estava sozinho quando minha mãe o procurou décadas depois. Provavelmente ela sabia, já que eles foram amigos no passado. Ambos tiveram amores que estavam fadados ao fracasso... Mas eles se encontraram e se confortaram um ao outro, formaram uma família, e através dela desfrutaram de outro tipo de amor que não o Eros, mas tão grande e forte quanto, o amor Storge; amor familiar, amor de mãe e de pai, de esposa e de marido.
— E por um tempo eu tenho certeza de que eles foram muito felizes e realizados com esse amor que nasceu deles.
Mu respirou fundo, soltando o ar pela boca, depois deixou a carta sobre o criado-mudo e deitou-se puxando Shaka para deitar junto consigo. O virginiano abriu os braços e o aninhou em seu peito.
Mal eles se aconchegaram um no outro, Saravá Ebó deixou seu ninho nos pés da cama para ir assumir seu posto, encaixadinho na curva da parte traseira dos joelhos de Mu.
— Ah, eu só queria ficar aqui para sempre... nunca mais sair desse quarto — sussurrou Mu fechando os olhos — Só de pensar no pouco que corri os olhos pelos volumes que tratam da ligação do Santuário com a Vory v Zakone eu já sinto vontade de sumir... Algo me diz que as surpresas e decepções não se restringem apenas à história da minha vida quando se trata do mestre Shion.
O cavaleiro de Áries estava certo.
Glossário do Shionês Arcaico
Alvíssaras – exclamação de alegria por notícia ou acontecimento feliz.
Apanágio – vantagem, privilégio
Azêmola – individuo ignorante, burro
Banzo – saudade
Beneplácito – aprovação, concordância
Carpido – choro de luto
Comezinha – de fácil entendimento
Consentâneo – apropriado, adequado
Consentâneo – relativo a consentimento
De Chofre – de forma repentina
Destarte – assim, desse modo, dessa forma
Dissídio – desinteligência, tumulto
Eflúvio – cheiro suave exalado
Elucubração – reflexão, meditação intensa
Empáfia – arrogância, orgulho tolo
Empedernido – inflexível, que não se deixa persuadir, teimoso
Enxovalhado – tornar sujo, manchar, macular
Esculápio – médico
Estrépito – ruído, estrondo; algazarra de vozes
Filaucioso – vaidoso, presunçoso
Graveza – gravidade, severidade
Imbróglio – problema
Incontendivelmente – indiscutivelmente
Inopinadamente – imprevistamente
Insalutífero – que não faz bem à saúde
Intrujão – enganador, mentiroso, falso
Lhanos – amáveis, cândidos, gentis, afáveis, sinceros
Nitidifica – torna nítido
Nóxio – nocivo
Nupérrima – que aconteceu muito recentemente
Panaceias – medicamento para todos os males
Perfazimento – conclusão, chegar à conclusão
Pirexia – febre
Porfiar – brigar, incitar à luta
Postremo – último, derradeiro, final
Procela – tempestade
Sempiterno – duradouro, prolongado, infinito
Sobejo – exagero; resto
Sorumbático – triste
Tergiversar – falar com rodeios, usar de subterfúgios
Ufano – que se orgulha do própria qualidade
Vetusto – velho
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
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