Três dias depois...

Templo das Bacantes, 07:55am.

Dentro da sala de reuniões do bordel, Saga gastava o piso de taco e as solas dos tênis dando incontáveis voltas em círculos.

Ansioso, ele olhou — pela quinta vez só naquele minuto — no relógio em seu pulso e então em seguida coçou o couro cabeludo, que começava a umedecer de suor.

— Não é possível essa demora toda! — resmungou para si mesmo.

Depois de tanto tempo mantendo Saga na “geladeira”, Mu finalmente havia ligado para ele solicitando uma “reunião”. Não fosse pelo pedido excepcional que viera junto, que reservasse a manhã toda apenas para essa conversa, cancelando quaisquer outros compromissos, o grego tinha certeza que estaria bem menos impaciente, já que tudo dentro dele lhe dizia que, pelo bem ou pelo mal, aquele encontro seria tenso.

— A que horas esse homem chega aqui, puta merda? — Outro resmungo e mais dedos nervosos enxugando o couro cabeludo. — Ele só pode estar fazendo de propósito para me...

Foi o ranger da porta de madeira se abrindo atrás dele que interrompeu aquele monólogo sem plateia.

Sobressaltado Saga se virou, sentindo um alívio imediato ao ver Mu ali.

— Graças à Deusa, Mu! Já não era sem tempo!

O ariano o encarou com um semblante sério e um tanto confuso, enquanto ainda atravessava o pórtico.

— Saga, marcamos às oito — tentou argumentar — e eu estou adiantado cinco minutos... Ah! Bom dia para você também!

Sério Mu desviou os olhos, divisando a longa mesa de granito rosado no centro da sala; caminhou sem pressa até ela e colocou ali os dois objetos que trouxera consigo. Um deles era um dos diários de seu velho Mestre, o outro o caderno onde fizera as anotações sobre tudo o que tinha lido.

Os olhos astutos do geminiano repousaram imediatamente sobre o diário velho e ele sentiu um arrepio na espinha.

— Diga isso para os meus nervos, que nem me deixam ser educado... E sim, Bom dia... Bom dia! — respondeu Saga, que sem tirar os olhos dos dois volumes sobre a mesa, puxou uma cadeira e acomodou-se. — E então, o que você precisa falar comigo? Suponho que seja urgente... eu senti sua voz ansiosa ao telefone.

Mu também puxou uma cadeira, sentando-se de frente para ele.

— Não é urgente, mas é importante — disse.

— Esse é um dos diários do Shion? — Saga perguntou curioso. — É sobre isso que quer conversar?

— Sim e não. — Mu suspirou longamente. — Quero dizer... você sabe que temos muitas pontas soltas um com o outro e...

Saga o interrompeu, visivelmente nervoso.

— Sim, sim, um novelo todo esfarrapado de pontas soltas eu diria — falava enquanto tamborilava os dedos na mesa.

— Exato... Nesses anos todos, há muitos assuntos que nós dois fomos deixando de lado ou apenas varrendo para debaixo do tapete, e não me refiro apenas aos que envolvem a Geisty — disse Mu — e foi justamente essa fuga que nos fez chegar onde estamos hoje... Mas, não dá mais para fugir deles.

Saga contraiu os lábios e fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Eu pedi a você um tempo para poder ficar com a minha família e para estudar os diários deixados pelo meu mestre — dizia Mu quando Saga o interrompeu mais uma vez com grande inquietação:

— Justo!

Mu então inclinou-se ligeiramente sobre a mesa e encarando o grego pousou a mão sobre o diário.

— Acredite Saga... Havia muito mais nessas páginas do que você ou eu pudéssemos imaginar.

— Deuses... eu sou todo ouvidos! — Saga falou tão concentrado que mal piscava.

Mu respirou fundo e após um pequeno amontoado de segundos disse:

— Nos últimos dias eu descobri coisas sobre mim e o meu passado que me chocaram demais. Por outro lado, eu diria que essas descobertas me permitiram mergulhar profundamente na mente do meu mestre... — fez uma breve pausa. — Acontece que, do mesmo modo que enfim eu passei a entender melhor algumas das atitudes dele, a minha concepção dos fatos ocorridos nos seus últimos anos de vida mudaram.

Os dedos que tamborilavam o granito rosado congelaram de supetão.

— Mudaram? Que quer dizer?

Uma das mãos de Mu correu inquieta pelo rosto.

— Quero dizer que o que li nos diários não bate com a realidade dos fatos que a maioria aqui acredita, Saga. E você, decididamente, sabe ao que me refiro — disse ele. Sua voz soava manso, e ao contrário dos frequentes embates que permearam seus últimos encontros com o grego, seu tom dessa vez nada tinha de hostil.

O Patriarca engoliu em seco sem tirar os olhos dele, que lhe devolvia um olhar atencioso, sem brechas para saídas miraculosas pela tangente.

— Bem, por isso marquei essa reunião — continuou Mu — eu quero ouvir o seu lado da história. Quero saber a sua versão, e quero que não me esconda nada e nem que me poupe do que quer que seja, porque só assim poderemos desenrolar esse novelo e começar a ligar as pontas que deixamos soltas.

Saga definitivamente não esperava por aquilo, tampouco imaginou um dia passar por tal questionamento, especialmente vindo de Mu, e depois de tantos anos. A verdade era que nunca quis tocar naquele assunto com ninguém.

Acertando a postura na cadeira, ele coçou o rosto de barba recém feita e desviou o olhar brevemente para o diário sobre a mesa.

— Não, Mu — disse num tom baixo, porém firme — eu acho melhor não. Há coisas que o melhor a se fazer é deixar como estão, quietas no lugar delas... nesse caso, no passado.

— Discordo — disse enfático o lemuriano.

Saga levantou os olhos e o encarou com um leve ar de súplica.

— Mu, por favor... Essa história, ela é... é complicada — disse notando que o ariano parecia disseca-lo com o olhar — e além de complicada ela é confusa. Confusa demais até para mim... cheia de perspectivas dúbias, e com mais pontas do que um maldito quiliágono... Além disso, a minha versão dos fatos é tipo merda. Quanto mais você mexe, mais fede.

— Bom — Mu arqueou as pintinhas na testa e acomodou-se confortavelmente na cadeira cruzando os braços — eu duvido que você tenha algo para me contar que seja mais chocante do que o que eu li nos diários do meu mestre, Saga... Quer uma prévia? Vamos lá. Eu tenho uma família que nunca foi mencionada, e um pai que fez de tudo para manter-se próximo a mim, mas que foi completamente rechaçado por Shion e escorraçado daqui igual um cachorro sarnento.

Saga arregalou os olhos sentindo os pelos do braços arrepiados.

— Caralho! Como é que é? Pai? Você tinha um pai?

— Todo mundo tem um pai, né Saga.

— Ah, sim, claro, digo...

— Atla, o ferreiro celestial que ajudou na última Guerra Santa é meu pai — disse Mu com certo pesar — e a amazona de Grou, Yuzuriha, é a minha mãe... Eu também tenho um irmão mais velho, que é o pai biológico do Kiki... mas todos eles estão mortos.

Fez-se um breve silêncio entre eles, mas o suficiente para Saga notar uma melancolia recente nos olhos do cavaleiro de Áries, que diferente de dias antes agora olhavam para os seus com a mesma benevolência do passado.

— Além disso, Saga, eu também já sei que quem colocou o Santuário nas mãos da Vory v Zakone foi o meu mestre e não você, então, se isso te encoraja ou te traz algum alívio, pode seguir em frente que eu estou mais do que preparado.

Gêmeos estava boquiaberto. E pensar que o seu próprio passado nunca lhe fora motivo de orgulho, mas que, finalmente, alguém mais tinha descoberto que o passado de Shion também não era dos mais dignos. E quem melhor para descobrir isso do que Mu?

Os dois cavaleiros trocaram um olhar de profundo pesar que dizia mais do que qualquer palavra.

— Eu... eu sinto muito... por sua família e...

— Eu sei que sente — disse Mu o interrompendo — mas a minha história não é o foco aqui, e sim a sua. Deixa o papo sobre mim para mais tarde. Talvez eu até reúna todos vocês para contar essa história só uma vez... enfim. Hoje eu estou aqui porque, diante de tudo o que descobri, acredito que você seja uma das pessoas mais afetada por esses mesmos fatos ocorridos no passado, como eu fui... Shion confessou seus pecados e explicou seus motivos nas páginas dos diários, e assim como ele, quero te dar a chance de explicar os seus.

Saga esfregou a testa fechando os olhos num típico gesto de incômodo, depois soltou um suspiro exausto carregado de nervosismo.

— Puta merda! Ainda bem que você avisou para eu cancelar todos os meus compromissos desta manhã.

Mu acenou positivamente.

— Talvez seja preciso cancelar até mesmo os da tarde, Saga... Acredite, também será desgastante para mim.

Saga concordou.

— Tenho certeza que será, Mu — disse ele pressionando a mandíbula, depois, como sempre fazia antes de tomar coragem, respirou fundo e perguntou: — Bem, e por qual ponta solta você quer começar?

Mu apanhou seu caderno de anotações e passou algumas páginas até encontrar uma com um tópico destacado por canetinha.

— Vamos começar pelo começo — disse ele.

Saga arqueou uma das sobrancelhas, então curioso e solícito perguntou novamente:

— Há muitos começos, você sabe. Por qual deles?

— Pelo que deu início a tudo. O tesouro que encontramos na câmara secreta do Templo do Grande Mestre, atrás da relíquia de Penélope.

A fisionomia de Saga congelou-se numa careta de desorientação.

— Como é que é? Mas esse começo não seria o fim?

— Pois é, para que possamos conversar direito, primeiro preciso que você saiba que Yuzuriha era a única sobrevivente da família real e, portanto, a rainha do meu povo, o que faz de mim o segundo príncipe muviano e o monarca regente, já que Kiki, filho do primeiro príncipe, é o sucessor por direito.

A surpresa e o espanto tomaram Saga de assalto.

— Porra! — Ele balbuciou com os olhos jades arregalados.

— Mas não é isso que importa e sim de onde veio, a quem pertencia e por que aquele tesouro estava escondido naquela câmara — disse Mu e então emendou: — Como falei, outra hora eu conto a você com calma, mas agora o que precisa saber é que todo aquele ouro e relíquias preciosas são a herança que minha mãe deixou para mim. Peças milenares que pertenceram à linhagem real do meu povo e que deveriam ser entregues a mim quando eu completasse a maioridade. Bem, como você sabe isso nunca aconteceu... Shion perdeu a cabeça, entrando numa disputa insana contra o meu pai e depois atormentado por visões que o alertavam sobre uma traição e um grande mal crescente no Santuário... Esses detalhes prometo te contar depois, mas imagino que só essa informação já responda a sua principal pergunta.

Houve uma concordância imediata por parte do geminiano.

— Sim... aquele velho ranheta — balbuciou ele — Mas com tantos baús cheios de ouro ele não podia pegar um só, unzinho que fosse, para tirar a gente da merda?

— Ele fez uma promessa à minha mãe — explicou Mu, que depois bufou esfregando o nariz num gesto irritadiço — e pelo menos essa ele cumpriu... A questão é que nos diários Shion relatou em detalhes como o problema financeiro do Santuário era muito mais grave do que pensávamos. Acompanhei a luta dele para manter os soldos dos soldados e treinadores, o seu desespero com os atrasos destes, que frequentemente resultavam em debanda e até pequenos motins, a luta diária para botar comida na mesa dos aprendizes e dos funcionários... por fim o embate moral que ele travou consigo mesmo para não recorrer à minha herança.

Enquanto Áries falava, era visível para ele a divagação do geminiano; sua aura mudava de tons, passando de uma massa translúcida para uma composição turva e azafamada, e sua fisionomia era tristonha.

Pudera. Era impossível para Saga não reviver os anos de privações e excruciantes dificuldades de sua infância, quando faltava-lhe até o básico, como higiene, alimentação e vestuário, sendo estes precários e unicamente de subsistência; coisas que para Mu felizmente nunca fizeram parte de sua realidade.

— Bom, isso explica porque você cheirava a talco de lavanda enquanto nós, pobres plebeus, fedíamos a sabonete caseiro, que eles colocavam duas folhinhas miseráveis de alecrim para disfarçar o cheiro da banha — disse Saga soltando um sorriso amarelo — pelo menos a catinga servia para espantar os piolhos.

— Não julgue o Shion — disse Mu — você também recorreu a meios escusos para manter esse lugar de pé... Imagina administrar esse Santuário inteiro sem o dinheiro do Templo das Bacantes, dos cassinos e da sua máfia, Saga.

— Não o estou julgando. Estou lamentando, apenas isso.

Mu coçou o nariz e balançou a cabeça.

— Certo... enfim. Os meus pais garantiram o meu conforto, mas Shion não tinha como fazer dinheiro brotar do nada. Além de não ser uma entidade com fins lucrativos, o Santuário sempre foi mantido pelas bênçãos de Atena, como você bem sabe.

Saga pigarreou.

— Sim, exatamente.

— Em seus diários, Shion atribuiu a decadência do Santuário ao atraso do nascimento de Atena nesta Era, já que sempre foram as instituições ligadas à ela as nossas principais fontes de renda. Foi assim que seu exército de cavaleiros se manteve através dos milênios. A presença da deusa neste Santuário, por si só, nos traria benções e abundância, mas... — Mu fez uma pausa quando notou Saga desviar o olhar e enfiar dois dedos na gola do moletom, a puxando com força como se esta lhe apertasse a garganta. Então ele continuou: — Mas contrariando a todas as suas visões proféticas, Atena não reencarnou na época esperada, e haviam centenas de bocas para serem alimentadas... O dever moral o impediu de usar a herança que minha mãe deixou para mim, e foi então que, infelizmente, eu tomei conhecimento que o mestre que eu sempre vi como um homem de honra inexorável, não teve outra escolha senão recorrer a medidas desesperadas.

Com o coração acelerado e a respiração pesada, Saga apoiou o cotovelo na mesa e o queixo em seus dedos fechados.

— Ele relatou, em mais de um volume, e numa narrativa densa e cheia de culpa, como fez a aliança com a Vory v Zakone e nos colocou diretamente nas mãos da máfia russa. Ele usou Yuri Yurievich Volkov, o cavaleiro de Aquário, mestre do Camus e segundo Vor, para intermediar o acordo de um empréstimo substancial de dinheiro, que seria pago com o retorno de Atena.

Saga deu uma pancada na mesa com a mão espalmada, produzindo um som alto e seco.

— Bingo! — disse ele. — E foi aí que você descobriu que não fui eu que fiz o acordo.

Mu olhou sério para ele.

— Por que você não me contou?

— De que adiantaria eu te contar? Na verdade, de que adiantaria eu contar a quem quer que fosse? Ainda mais depois de tudo o que aconteceu...

— Mas você pegou para si uma culpa que não era sua.

Saga respirou fundo e agora apoiando os dois cotovelos na mesa juntou as mãos cruzando os dedos. Olhou firme nos olhos de Mu e disse enfático:

— Eu não fiz a aliança com a Vory, mas eu a mantive, o que por si só me torna igualmente culpado — bateu com o indicador no granito rosado em uma forma de enfatizar a afirmação. — Mas de todas as culpas que carrego nas costas, Mu, essa é a que menos me envergonha. Se quer saber, nesses anos todos eu aprendi que dá para viver com a consciência pesada, mas não com a barriga vazia, por isso não julgo o velhote do Shion, não mais... E tem mais! O que acha que eu ganharia entregando o matusalém? Me diz? Não! Não precisa dizer. Eu mesmo te respondo. Ganharia o coração partido das três pessoas que eu mais queria bem nesse Santuário, Geisty, Shaka e... você. Eu sei o quanto vocês três admiravam o Shion. Além disso, você e Geisty viam nele uma figura paterna, e para os outros cavaleiros ele era um símbolo de poder e nobreza... Eu não podia simplesmente destruir essa imagem. E para quê? Por um capricho? Não, em nada mudaria a situação mesmo. Até porque você não tinha motivo nenhum para acreditar em mim.

Saga terminou se acomodando na cadeira e voltando a cruzar os dedos, desgastado.

O curto silêncio que se seguiu ajudou Mu a digerir o que acabara de ouvir; a realidade era deveras mais arraigada do que a lógica permitia à compreensão e esta se refletia na fisionomia abatida do geminiano. Ele carregada aquele peso na alma já há muitos anos.

— Se tivesse me contado eu saberia que não estava mentindo, teria visto na sua aura... poderia até ter ajudado você de alguma forma — disse Mu, que por um momento ficou olhando para o rosto inexpressivo de Saga e depois suspirou profundamente antes de continuar: — ou talvez eu não estivesse preparado para saber a verdade mesmo, enfim... Apesar de tudo, eu sempre desconfiei de que tinha algo errado, tanto que passei anos investigando, mas Shion realmente sabia guardar um segredo.

— É, e por mais surpreendente que seja, parece que eu também sei — disse Saga.

— Tem mais uma coisa que acho que você não sabe.

— Ah! Sempre tem! Sempre! — disse Saga voltando os cotovelos à mesa.

— É claro que a Vory v Zakone não ia fazer negócios e firmar alianças com um homem que poderia reduzir a Rússia inteira à pó com um simples estalar de dedos. Eles precisavam de uma garantia.

Saga estreitou os olhos apreensivo.

— Hum, mas do que uma simples garantia, você quer dizer, né? Eles precisavam ter Shion nas mãos deles... Eu sei como aqueles cornos desgraçados trabalham, Mu.

— Exato, e o que colocou Shion nas mãos deles foi um dossiê elaborado pelo Yuri Yurievich Volkov, onde ele listava todo o potencial de cada cavaleiro de Ouro, e também as suas respectivas fraquezas.

Saga teve um sobressalto.

— O quê? — gritou ele batendo as duas mãos contra a mesa.

— Esse dossiê nunca saiu das mãos de Yuri, que deu sua palavra a Shion que o destruiria na quitação da dívida...

— Não! Não é possível!

— Shion confiava na lealdade e na integridade do cavaleiro de Aquário, mas com a morte de ambos o dossiê se perdeu — disse Mu visivelmente abalado — e tudo me leva a crer que ele foi usado no atentado ao Templo das Bacantes, há seis anos atrás.

O rosto de Saga ficou lívido e seus lábios tremiam levemente.

— De alguma forma esse dossiê foi atualizado, porque só assim Dimitri saberia exatamente como neutralizar cavaleiros de Ouro para poder agir.

Saga estava tão perplexo que mal conseguia falar.

— Não... — murmurou ele balançando a cabeça em negativa — Não posso acreditar que Shion fez isso... não posso acreditar que ele cometeu um erro tão amador.

— A Vory exigiu dele esse dossiê para fechar o acordo.

— Mas não se confia nos filhos da puta dos russos, caralho! Onde aquele velho maluco estava com a cabeça? Pelos deuses! — Saga gritou dando um soco na mesa, depois nervoso se levantou e passou os dedos entre os fios azuis de seus cabelos quase os arrancando.

— O que ele podia dar como garantia de que pagaria a dívida? — disse Mu desanimado — Ninguém dá dinheiro de graça para os outros, ainda mais a Vory... A questão é que o cavaleiro de Aquário era de fato confiável e aparentemente foi leal ao Santuário até sua morte. A merda foi que justamente os cabeças desse acordo morreram, no caso Yuri e Shion.

O olhar de Saga se iluminou de repente.

— E assim o cuzão do Dimitri passou a ter dois trunfos contra mim na mão, a cabeça da Geisty e esse dossiê amaldiçoado... Por isso o cretino achou que podia me roubar me taxando com juros absurdos, me chantagear e por fim ainda ter a pachorra de vir aqui pessoalmente tentar matar a minha mulher e o meu cavaleiro. Desgraçado! E te digo mais — virou-se para Mu, transtornado — aquele filho da puta daquele Camus, aquele... aquele amaldiçoado filho do corno peludo do Hades, ele nunca me enganou... O maldito nunca falou dessa porra de dossiê, porque é óbvio que ele sempre esteve do lado deles, pronto para me apunhalar pelas costas! Corno!

Mu respirou fundo e encarou sério o geminiano.

— Você não se lembra porque não era você no dia que interrogamos Camus e Dimitri, no porão do Templo de Baco...

Ofegante Saga ficou estático piscando os olhos.

— Nós fizemos isso? — Ele perguntou.

— Sim, nós fizemos, e na época Camus deu sua palavra de que jamais agiria ou conspiraria contra o Santuário, e eu posso afirmar que ele falou a verdade... ele estava tão assustado e amedrontado quanto nós todos — disse Mu recordando-se do episódio com extremo pesar.

— Não relatar uma arma tão poderosa como esse dossiê não é agir contra e conspirar? Claro que é, Mu!

— Saga, eu entendo a sua raiva — disse Mu — esse dossiê foi a arma municiada na mão da Vory que quase tirou a vida de Afrodite e de Geisty, que tirou de fato a vida de seus dois filhos e levou junto seis anos da sua, mas não cometa o mesmo erro do seu “outro eu”, acusando Camus sem provas mais uma vez... Lembre-se que a Vory v Zakone tem seus códigos de honra e conduta particulares, e que Camus estava na mão deles tanto quanto nós estávamos, afinal eles também sabiam de suas fraquezas... Acredito que, se ele soubesse desse dossiê, talvez tenha feito de tudo para pôr as mãos nele, mas não teve tempo suficiente... Eu estava lá... eu vi o medo e a perplexidade na aura dele. E, no fim das contas, o atentado também o prejudicou.

— O prejudicou? Ah, Mu, pelo cabaço de Atena! Aquele porra virou Vor! — disse Saga num grito que beirava à histeria.

O clima então pesou entre os dois cavaleiros.

Mu não podia revelar o que sabia sobre Camus, sobre o segredo de seu relacionamento com Afrodite, sobre como ele quase enlouquecera diante da possibilidade de perder o pisciano. Dessa forma, não lhe restou outra saída a não ser jogar os fatos na mesa, e sem eufemismos.

— Você não estava lá, Saga — disse Mu encarando firmemente os olhos do grego — Entende o que quero dizer? Você não viu como foi. Mas eu sim... Portanto, você não se lembra do olhar de desespero dele quando o Outro tentou mata-lo o acusando de traição. Eu consegui convencê-lo a não tirar a vida dele, mas então Ele o ameaçou de todas as formas possíveis até por fim obriga-lo a matar o Milo para provar sua lealdade a “você” — fez as aspas com os dedos — e ao Santuário... Camus pode até ser um agente duplo, mas sua lealdade ao Santuário sempre foi incorruptível. Eu acredito que se ele tivesse acesso a esse dossiê ele já estaria na sua mesa há muitos anos... Se ele nunca mencionou esse documento é porque Dimitri deve tê-lo feito acreditar que ele não existia mais... Todos nós subestimamos o Dimitri. Por que acha que Camus também não possa tê-lo subestimado?

— Por que eles são farinha do mesmo saco! — esbravejou Saga.

— Podem até ser, mas não nesse caso. A verdade é que, tanto na Vory quanto aqui no Santuário, a cabeça do Camus estava a prêmio. Você... digo, o seu outro lá, deu ordens para o meu marido executá-lo, e por puro capricho, enquanto lá na Rússia a Vory não estava nada satisfeita em saber que teriam um líder estrangeiro — disse Mu, que sempre estivera a par de todos os detalhes da vida de Camus por intermédio de uma fonte cuja legitimidade era inquestionável: Afrodite. — Acredite, a vida do Camus como o Vor máximo da Vory, nesses seis anos em que o outro Saga lá foi o Patriarca, foi tudo, menos agradável. Foram seis anos nos quais ele passou limpando a bagunça de ambos os lados, brigando para desmanchar células conspiratórias dentro da própria Vory até conseguir se consolidar como chefe... seis anos tendo de driblar a sua loucura, digo, do outro lá.

Saga engoliu com amargor aquelas palavras.

— Ah, Mu, não me venha falar disso, eu te peço... Sei bem o preço desses seis anos... eu o pago a cada minuto que me lembro de tudo o que aconteceu — disse ele ressentido, com a voz carregada e a face contorcida, no mais puro desgosto. Sentimento este tão perceptível que Mu podia vê-lo brotar de seus poros, literalmente, e acumularem em sua aura e a manchando de tons escuros e lhe roubando todo o brilho.

Mu encarou o geminiano longamente, até que num movimento não esperado recostou-se nas costas da cadeira e cruzou os braços, assumindo uma postura relaxada, porém manteve a fisionomia questionadora.

— De qualquer forma, esse assunto nos leva ao segundo motivo que me trouxe aqui. O antigo Patriarca tinha o dom da clarividência, e ele previu muitas coisas, inclusive o próprio fim prematuro — disse Mu encarando Gêmeos — mas, pela maneira abrupta que se encerram os seus relatos no último volume de seus diários, está claro que ele morreu muito antes do que previa... Saga, você e eu fugimos dessa conversa como o diabo foge da cruz, mas agora eu quero... eu preciso saber o que aconteceu naquele dia... Me diga, por que você matou o meu mestre?

O rosto do grego empalideceu de pronto, tal qual um cadáver. Suas pupilas dilataram em assombro, e muito além da mudança física, que já se fazia drástica a qualquer olho vulgar, a mudança em sua aura saltou aos olhos fantásticos de Mu; era como se todos os átomos de seu corpo se agitassem em desespero.

Dentro da mente de Saga, parecia que o seu raciocínio havia sido engolido pelo medo feroz e glutão, lhe impedindo de pensar com clareza, até poder jurar que havia se esquecido de tudo que envolvesse o tal episódio citado... mas não havia. Aquele era um mero recurso desesperado de sua consciência traçando uma rota de fuga. Por anos funcionou, mas agora todos os caminhos traçados o levavam para o mesmo lugar.

Não havia mais escapatória.

Tudo que podia sentir era suas extremidades gelarem, como se o sangue não mais corresse em suas veias; apenas adrenalina com gosto de pavor que retumbavam em seus tímpanos.

Saga engoliu em seco sentindo as gotículas geladas de suor lhe brotarem da testa sob o peso do olhar questionador que aguardava resposta. Esta que ele não queria ter que dar, pois que nunca quis dividir a verdade com ninguém.

Súbito, a voz grave e baixa de Mu trouxe Saga de volta do labirinto criado por seu raciocínio confuso, que ao despertar estremeceu quando olhou para o rosto do ariano e encontrou os verdes lhe vigiando sem nem ao menos piscar.

— Eu tenho a manhã toda para esperar a sua resposta, Saga — Mu falou após um longo tempo de espera.

— Bem...

— Hum?

— Quer a verdade, né?

— Sim.

— Está certo disso, né?

— Estou. Por que você matou o meu mestre, Saga? Me diz a verdade.

— Então... a verdade é que... não fui eu.

Mu empalideceu.

A resposta inesperada veio como uma martelada em seu crânio.

— Não foi você? — Ele repetiu confuso descruzando os braços imediatamente.

— Não. — A voz de Saga saiu quase num sopro. — Não fui eu quem matou o velhote do Shion.

Mu passou a mão pelo rosto, nervoso e agitado.

— Então agora sim eu preciso de respostas! — disse inclinando-se para frente — Quem foi então?

Saga puxou a cadeira e voltou a sentar-se; com um suspiro longo e os lábios trêmulos e pálidos ele repetiu o nome que a tantos anos evitava pronunciar.

— Kanon.

A fisionomia de Mu petrificou-se na mesma hora.

— O... o quê?

— Foi o Kanon que assassinou o seu mestre naquele maldito fatídico dia — disse Saga — Você não queria a verdade? Pode até achar que estou recorrendo a um dos mais covardes artifícios usados para se livrar o rabo de uma acusação, que é culpar os mortos, mas esta é a verdade. Eu estava lá, mas eu não matei o Shion.

Embora chocado, Mu tinha a confirmação da veracidade daquela confissão através da aura de Saga, que não o deixava mentir.

— Eu acredito em você, mas... como e... por quê? — perguntou ele.

— Por que ele o matou? — rebateu o geminiano.

— Sim... e... pelos deuses, Saga, como isso aconteceu? E por que você tomou a culpa por ele?

O Patriarca suspirou longamente, como se um cansaço abrupto e extenuante o acometesse de súbito.

— Ah, Mu, muita coisa aconteceu enquanto você esteve fora, muita coisa mesmo...

— Então me conte tudo, por favor! — pediu impaciente o ariano — E sem meias verdades. Já chega de segredos entre nós, Saga. Eu quero saber tudo o que aconteceu e você me deve essas respostas.

Saga concordou acenando com a cabeça.

— Você está certo, Mu... Talvez se eu tivesse dito a verdade antes, as coisas poderiam ser diferentes... ou talvez não, talvez tivesse ficado tudo a mesma merda... quem é que sabe — disse ele, depois respirou fundo e prosseguiu: — Shion não era mais o mesmo nos últimos anos de sua vida...

— Como assim? O que quer dizer?

— Ele sempre foi um homem atencioso, rígido sim, exigente, mas nunca severo ao ponto de... de perder a cabeça. Mas, desde que ele mandou você para o exílio em Jamiel, a verdade é que qualquer um via que ele estava completamente fora de si. — disse Saga — Em muitos momentos ele se mostrava atormentado, perdido, como se estivesse prestes a enfrentar uma grande ameaça... Dia após dia, seu comportamento se mostrava cada vez mais esquisito. Ele passou a agir com pulso de ferro em situações que não exigiam tamanha severidade... Para ser sincero, em muitas ocasiões de forma arbitrária e desproporcional até.

— E por isso vocês acharam por bem mata-lo? — disse Mu perplexo.

— Não! — Saga respirou fundo passando os dedos entre os cabelos num gesto nervoso e repetitivo — Espera... Não foi assim que aconteceu.

— Então me fala de uma vez o que aconteceu, homem!

— Eu só... só estou tentando achar a melhor maneira de contar.

— Será mesmo? — disse Mu. — Ou será que está tentando ganhar tempo para preparar qualquer desculpa que justifique o assassinato do meu mestre?

Saga o observou por um momento.

— Não estou pensando em porra de desculpa nenhuma, apenas... é difícil para mim falar desse assunto — explicou ele sério — mas, vamos lá. Me deixe falar sem interrupções, pode ser?

Mu fez um gesto a ele para que prosseguisse.

— Certo... na noite em que tudo aconteceu, Kanon me contatou pelo Cosmo pedindo por socorro. Ele parecia desesperado, e eu estranhei sentir seu Cosmo vindo justamente do Templo do Grande Mestre, já que aquele seria o último lugar que qualquer um que o conhecesse bem imaginaria encontra-lo. Kanon sempre evitou qualquer tipo de convívio com o velho Shion, restringindo-se à presença dele apenas quando solicitado ou necessário... A presença do meu irmão no Décimo Terceiro Templo sempre foi sinônimo de problemas, e problemas que acabavam sobrando para o idiota aqui que vos fala resolver... Mas naquela noite foi diferente. Naquela noite... eu não havia me preparado para o cenário que encontrei.

Mu ficou alerta.

— Que cenário?

— Eu os surpreendi no meio de um conflito do caralho.

— O quê? — Áries reagiu com assombro. — Como assim? Que conflito?

— Conflito, Mu, briga! Pendenga! Bafafá! Como você quiser chamar... — disse Saga afrouxando novamente a gola do moletom. — Shion gritava com Kanon, que devolvia com mais berros e insultos. Seus Cosmos estavam acessos e agressivos e eles estavam prestes a chegar às vias de fato quando enfim eu cruzei o corredor de acesso ao pátio onde fica a estátua da deusa e os surpreendi... Shion então olhou para mim como se tivesse vendo um fantasma.

— O que eles diziam?

— Eu não consegui entender. Eles estavam muito exaltados e falando ao mesmo tempo, e eu estava nervoso, né, sem saber o que estava acontecendo e nem o que fazer para para-los... O velho então parece que se surpreendeu ao me ver ali com a guarda baixa sem saber o que estava acontecendo. Pode ser impressão minha, mas foi exatamente essa a sensação que eu tive, sabe. Era como se ele soubesse que eu... que o Outro... bem, você sabe.

— Sim, ele sabia, ele previu na verdade. Digo, ele não sabia exatamente o que era... Nos diários ele se refere a essa essência maligna como “O Mau”.

Saga pigarreou sem graça.

— Certo... continuando então... Mas, então no instante seguinte, sem me dar qualquer explicação ele aos berros me ordenou que conduzisse o meu irmão às prisões do Cabo Sunion, que o trancafiasse em uma cela e nunca mais o tirasse de lá, alegando que Kanon era um perigo para todos nós.

— Mas por qual motivo ele falou isso? O que Kanon tinha feito?

Silêncio. Saga passava as unhas pelo queixo liso parecendo tentar montar um quebra-cabeças no qual peças ainda estavam ausentes.

— Até aquele momento eu não fazia a menor ideia, mas hoje, depois de tudo o que descobrimos, da câmara atrás da tapeçaria, dos tesouros... eu dou o meu cu pro peludo sarnento do Cérbero se o Kanon não descobriu tudo isso e tentou passar a mão na sua herança — disse ele olhando para Mu. — Eu conheço bem o potencial do meu irmão. Mas, agora que sabemos que o velhaco do Shion tinha muito mais a esconder do que baús de ouro e alguns livros, é óbvio que ele não podia me dizer o real motivo de querer condenar Kanon à prisão perpétua, e consequentemente à morte. Sabe, eu tenho um repertório vasto de injúrias para me referir ao seu mestre, mas nunca, em momento nenhum da minha vida, e mesmo até hoje, eu poderia chama-lo de burro. Ah, de burro ele não tinha absolutamente nada!

— Saga, quer parar de enrolar? Vá direto ao assunto, pelos deuses.

— Certo. Então, descartando essa hipótese do Kanon ter descoberto a galinha dos ovos de ouro do Shion, além de que ele escondia a sua família de você, a verdade é que não era surpresa para ninguém que o meu irmão não valia a merda que cagava. Mas, considerando que na época eu não sabia de nada disso, condená-lo à morte sem nenhum motivo aparente ou mesmo uma explicação não era algo que eu podia aceitar sem fazer qualquer questionamento. Mas o velho não me deixou ao menos esboçar uma pergunta que fosse. Ele estava alucinado, babava de ódio feito um cachorro louco, e o Kanon então só precisou fazer o que ele sempre fez de melhor, converteu a situação toda ao seu favor. Hoje eu sei que foi exatamente isso que ele fez, e eu me odeio por sempre cair nesse mesmo golpe... Numa cena digna de Oscar, o safado se jogou aos meus pés implorando por socorro. Até chorar ele chorou, acredita?... Pois então, ele chorou. E não foi pouco não! E em meio ao choro e aos gritos de desespero ele dizia que Shion havia enlouquecido e que pretendia executar a Geisty depois dele... Você sabe que eles mantinham um romance secreto, não sabe? — perguntou sem disfarçar a cara de desgosto.

— Sim, Saga eu sei. Todo mundo sabe.

— Ah... claro... pois então... os remédios me deixam meio esquecido... Geisty nessa época estava exilada na Ilha Fantasma exatamente por Shion ter descoberto seus encontros secretos com meu irmão, mas isso não seria motivo para o matusalém condenar os dois à morte. Se bem que... se ele tivesse mesmo enlouquecido até seria...

Mu seguiu ouvindo tudo aquilo quase sem acreditar no absurdo da cena.

Não era possível que seu mestre Shion, um homem tão íntegro e tão movido por decência e amor pelos seus cavaleiros tomaria uma decisão irracional como aquela apenas por conta da desobediência de um casal apaixonado. Nesse ponto ele concordava com Saga. Era certo que agora Mu sabia muito mais sobre Shion do que antes, isso incluía também o quão perturbado ele se tornou nos últimos anos, atormentado por visões e desesperado para proteger a todos dos agouros terríveis que previa. Todavia, mesmo que ele fosse extremamente contra os relacionamentos entre cavaleiros e amazonas, opinião essa altamente embasada no desastre de seu próprio relacionamento com Yuzuriha, não fazia o menor sentido ele ordenar à execução de Kanon e Geisty.

— Isso não faz nenhum sentido, Saga! Eu li os diários dele. Shion realmente estava fora de tino, mas eu posso te garantir, jurando sobre o túmulo dele e de meus pais, que meu mestre amava a Geisty, tanto que temia pelo futuro dela... Tudo o que ele fazia com ela, comigo e com todos nós, por mais radical que parecesse, sempre foi na intenção de nos proteger — Mu inconscientemente pousou a mão sobre um dos livros que trouxe, depois concluiu: — Shion não daria uma ordem absurda dessas. Ao contrário, sua prioridade sempre foi zelar pela vida de todos nós.

— Eu sei disso — disse Saga apreensivo — Pelos deuses do Olimpo, Mu, eu sei! Por isso estou dizendo que hoje penso que os motivos foram outros. A questão é que, quando Kanon me disse que o velho pretendia matar a Geisty depois dele, Shion não o desmentiu, nem disse que ele estava blefando ou encenando.

— E o que você fez? — ansioso Mu perguntou como alguém que espera o desfecho de um filme de terror.

— Aí que está. Eu não fiz nada!

— Como não fez nada?

— Eu fiquei estático. Aquela situação toda me deixou... paralisado. A minha... a minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento. Aos meus pés Kanon suplicava para que eu fizesse alguma coisa, para que não deixasse Shion mata-lo, enquanto repetia incessantemente que ele havia enlouquecido e que não podia mais reger o Santuário, mas tudo o que eu conseguia pensar era em Geisty. Eu me sentia preso entre o meu dever de cavaleiro e o desespero de salvar a garota que eu amava e o meu irmão... então... — Saga fez uma pausa e esfregou o rosto, atormentado em lembrar daquele momento terrível.

Mu olhou para ele impaciente.

— E então o quê, Saga?

O geminiano respirou fundo e se acomodou na cadeira.

— Então eu olhei para o rosto de Shion — disse ele — Em meio aos gritos ensurdecedores do Kanon, Shion parecia feito de pedra. Os olhos dele me encaravam com espanto e um terror que eu nunca tinha visto antes, e bem no instante em que eu pensei em dizer algo a ele para, sei lá, tentar parar aquela loucura, um silêncio de morte engoliu o mundo... Eu senti como se fosse arrancado dali e lançado em um abismo, e enquanto eu caia, e caia, e caia, eu ouvi aquela voz tenebrosa sussurrar no meu ouvido... “Mate ele! Mate os dois!”... Eu já a tinha ouvido algumas vezes antes, e sempre que ela aparecia eu lutava contra ela, como lutei naquela noite, mas era tarde demais... Tudo que consigo me lembrar é do rosto contorcido de Shion e de seus olhos enormes e escurecidos me encarando... ele tinha um ferimento profundo no peito e outro na garganta... ele... chamou o meu nome e no instante seguinte caiu no chão, morto.

Mu respirou fundo e tapou a boca com a mão sentindo o peito apertado.

O geminiano piscou os olhos por um momento, deixando o silêncio pairar sobre eles por um instante antes de prosseguir:

— As mãos de Kanon estavam encharcadas com o sangue dele... Meu irmão agiu diante da minha falta de reação e provavelmente da guarda baixa do Grande Mestre, que deve ter se distraído vendo o meu Cosmo oscilar e o... o Outro, tentar tomar conta do meu corpo. Foi tudo muito rápido, mesmo assim Kanon teve tempo suficiente para ataca-lo com um golpe covarde, certeiro e mortal, não dando a ele chance nenhuma de defesa. E eu assisti a tudo sem fazer nada... Me lembro de ouvir uma risada satisfeita de escárnio que ecoava da minha garganta, mas que parecia presa dentro da minha cabeça, e de uma dormência espalhada pelo meu corpo... Me lembro do sorriso vitorioso no rosto do Kanon e dele falando: “Acabou para você, Shion, múmia desgraçada”... Me lembro do cheiro de sangue... — Saga apertou a fronte com os dedos, enquanto nervoso tirava os tênis para tentar se acalmar. — Quando consegui me recobrar minimamente daquela letargia estúpida, eu fui até o Kanon e meti um soco naquela cara cretina dele. Na verdade eu queria espanca-lo até a morte, esfregar a cara do patife no chão cagado dos vestiários dos aprendizes, mas tudo que eu conseguia fazer era gritar, assustado e perdido, “O que você fez? O que você fez?”. Eu já estava me arrependendo de não ter cumprido a ordem do velho e tê-lo trancado no Cabo Sunion quando ele me respondeu, “Eu sobrevivi”... Daquele ponto em diante eu não fui mais capaz de surra-lo... Desesperado como eu estava eu só consegui pensar que no fundo ele estava certo, afinal Shion ia mata-lo e a Geisty também, não iria? E se o velhote realmente havia enlouquecido, sabe-se lá quem mais ele teria posto em perigo.

— Saga, pelos deuses, isso é absurdo. Você acha mesmo que Shion iria dizimar o exército de Atena?

— Sinceramente, Mu? Não da forma “napoleônica”, vamos assim dizer, não por ter ficado maluco, mas as tratativas que ele vinha fazendo com os russos estavam nos colocando cada vez mais à mercê da Vory... o tal dossiê é prova disso — disse Saga apoiando os cotovelos na mesa e a cabeça entre as mãos pálidas. — A real é que a verdade, a verdade mesmo, nós nunca vamos saber, porque essa morreu com Shion e o meu irmão... E como sempre eu deixei que tudo acontecesse para lidar com os danos depois. Por que caralho eu sou assim?

— E fazendo isso deixou a culpa cair também nas suas mãos.

— Sim, eu sei. Esse foi um dos motivos que me levaram a assumir a autoria do assassinato... Além disso, se eu não a assumisse eu estaria diretamente pondo em prática a sentença que Shion havia ordenado ao meu irmão.

Mu engoliu em seco nessa hora e Saga continuou.

— Se eu entregasse o Kanon o estaria condenando a morte do mesmo jeito. Ele não tinha chance nenhuma, Kanon não era ninguém no Santuário. Já eu... — disse ele esfregando os pés nus um no outro debaixo da mesa. — Eu era um cavaleiro de Ouro, junto do Aiolos o braço direito do Patriarca e o tutor e treinador de outros quatro cavaleiros de Ouro. Todos os garotos me adoravam e me respeitavam, e no fundo eu sabia que precisava continuar a tomar conta deles... Kanon então me convenceu a assumir o posto de Grande Mestre, sem dar maiores explicações, apenas dizendo que Shion enlouqueceu, o que não seria tão absurdo, já que, como disse, todos notavam que ele estava cada dia mais atormentado... Mas os cavaleiros não são nada ingênuos. Eles deduziram. Porém, para minha total surpresa, ninguém se opôs à minha ascensão como Patriarca, a não ser você sabe quem.

— O Shaka. — Mu concluiu.

Saga deu uma risadinha sem graça.

— Que cara será que o estrupício do teu marido vai fazer quando souber que eu não matei o velhote, heim? Logo ele, que nunca teve papas na língua para me chamar de assassino ébrio usurpador e o caralho todo de predicados lá que ele me fala.

— E que diferença isso faz, ô Saga? Você encobriu um assassinato covarde, foi isso que você fez. Você pode não ter sido o agente, mas isso o torna cúmplice — Mu bufou, um tanto revoltado, depois se jogou no encosto da cadeira. — Além do mais, está mais do que óbvio que o canalha do teu irmão arquitetou um golpe e você caiu como um pato nele.

Com o olhar vago, tanto o corpo quanto o espírito de Saga começaram a se encurvar. Ele já estava com a testa quase colada na mesa quando disse:

— Sim... eu tenho total consciência do canalha que o Kanon era, mas ainda assim, ele era meu irmão... e a única família que eu tinha nesse mundo de merda.

Mu nessa hora levou a mão aos olhos e apertou as pálpebras com força.

— Naquela época eu ainda era muito ingênuo, eu era um garoto, Mu. Eu acreditava que o Kanon podia mudar... — Saga levantou a cabeça e continuou olhando para um ponto qualquer à frente: — Ele me enganou tantas vezes... Ele tirou tudo de mim, mas mesmo assim eu... eu não conseguia simplesmente dar as costas a ele. Fiz o que fiz por amor a ele, para preserva-lo, como tantas outras vezes já havia feito, e na esperança de que ele um dia se remendasse e reconhecesse cada uma dessas merdas que fiz por ele... Talvez, no meu lugar, e apenas com as informações que eu tinha na época, você teria feito o mesmo.

Mu olhou surpreso para ele.

— Sinceramente? Não posso dizer. Acabei de descobrir que tenho um irmão falecido que nunca conheci, e estranhamente ele já tem um lugar no meu coração desde então... E só eu sei de tudo o que sou capaz de fazer para proteger a Geisty — disse Mu fechando um punho e o erguendo até a altura do rosto de Saga, numa clara alusão à briga que travara com seu lado maligno. — Compreendo que na época você era jovem, tolo e estava assustado, mas você assumiu a alcunha de usurpador para proteger o canalha do seu irmão e escondeu esse segredo de todos por anos, para no fim mata-lo, Saga? Isso não faz o menor sentido.

— Tem razão, não faz. Eu apenas adiei o que já era certo que aconteceria mais cedo ou mais tarde, eu só não esperava que seria eu a dar a sentença de morte ao meu irmão... O sangue do Shion está também em minhas mãos, eu sei disso, porque poderia ter impedido sua morte, mas não o fiz. Naquela noite, eu joguei nas mãos do destino uma escolha que caberia somente a mim, Kanon ou Shion? Um dos dois morreria. Eu sempre respeitei e fui grato ao Patriarca. Ele me criou, me deu proteção, me ensinou a caminhar com minhas próprias pernas, mas eu não podia deixar que Kanon fosse morto, da forma que não podia deixar que Geisty fosse. — Saga baixou a cabeça e juntou as mãos. — A minha vida virou um verdadeiro inferno após a morte de Shion... Eu precisava limpar a bagunça deixada pelo meu irmão, precisava tomar a frente das tratativas com a Vory e ao mesmo tempo não podia confiar nenhum dos meus cargos a ele. O meu amor por ele me tornava iludido, mas algo dentro de mim ainda era capaz de erguer algumas defesas contra ele... Kanon logo percebeu que mesmo tirando Shion de seu caminho ele não conseguiu o que queria, não conseguiu ocupar o trono de regente do Santuário, tampouco vestir a minha armadura sagrada de Gêmeos. Enfurecido ele começou a me pressionar, exigindo que eu lhe desse um cargo de importância, e eu então ingenuamente permiti que ele gerenciasse a nossa sociedade com a Vory v Zakone. Sim, eu fiz uma escolha burra, mas era isso ou a minha sanidade. — Saga deu um sorriso de desgosto. — Em menos de um mês à frente das negociações ele começou a tentar me convencer a dar um golpe nos russos e tomar a Vory para nós.

— Inacreditável!

— Pois é. Dessa vez o meu bom senso agiu como deveria.

— Kanon era um crápula, Saga! Me admitira você não querer admitir isso antes... Quando você menos esperasse, ele te derrubaria também — Mu suspirou cansado ao concluir que tudo era resultado de uma sequência de erros e atos inconsequentes. Era apenas um monte de gente fazendo escolhas erradas simplesmente por serem humanos e falhos e isso o irritava e o frustrava. Seria mais fácil se pudesse apontar um culpado, esbravejar e externar toda sua raiva, mas sabia que não podia.

— Sim, mas eu havia aprendido a lição com a experiência anterior... e mesmo que não tivesse aprendido nada, que ainda tivesse esperança de que Kanon mudasse, eu não teria pensado duas vezes em salvar a Geisty e condena-lo à morte. — Gêmeos esfregava o rosto suado com as duas mãos. — E não apenas porque a amo, porque ela é a mulher da minha vida, mas porque ela foi tão vítima dele quanto eu e Shion fomos... Mesmo assim, eu não fui capaz de mata-lo pessoalmente. Permitir que a Vory o entregasse de bandeja à Yakuza foi o máximo que consegui fazer... Eu sei que fui um patife, mas a vida não me deu muitas opções de escolha e eu acabei remando a favor da maré e não contra ela.

— Quer saber? Eu tô puto! — Mu bateu na mesa com força. — Mas nem é com você. Eu queria muito socar alguém na cara, provavelmente o bosta do seu irmão, mas nem isso eu posso.

— Eu falei que remexer nesse passado era igual revirar merda, só ia fazer feder mais. E, no fim, sabe o que muda? Nada. O que está feito está feito. Os pecados dos mortos ficam para nós, os vivos. A gente que se foda para lidar com eles.

— Papo furado, os mortos tem culpa sim! Não me venha com esse blábláblá de que morreu virou santo, porque se eu um dia tiver a sorte de encontrar a alma amaldiçoada do teu irmão, eu quebro ela na porrada! — Mu soltou um riso frustrado.

— Vai me fazer um favor se fizer isso.

— Esconder a verdade não resolveu nada, Saga. Você só se retro alimentou com esse bolo de merda.

— Certo, Mu, e você teria uma solução melhor? Hãm? Eu estava lutando comigo mesmo para não ficar louco, estávamos aqui afogados em dívidas, problemas e favores devidos aos mais sujos criminosos que existem, enquanto você estava lá em Jamiel treinando, alheio de qualquer um desses problemas... Você sequer estava a par do que acontecia debaixo do seu nariz enquanto era pupilo do Shion e era treinado para ocupar o cargo dele. E quando você retornou não parecia estar muito disposto a assumir o posto que era seu de direito.

Mu encarou o geminiano e deu outra pancada na mesa.

— Ah! Mas vai pra bosta, Saga!

— Como é?

— Eu não sabia de nada porque eu não tinha obrigação nenhuma de saber dos teus B.O.. E eu acabei de te dizer aqui hoje, que por anos Shion escondeu a minha família de mim, e você está questionando ele ter me escondido uma aliança com a porra da máfia russa? Eu sou telepata mas não sou adivinho! E tem mais, ninguém nesse caralho de lugar se preocupou comigo, em me contar bosta nenhuma em nenhum momento, me trataram como um idiota o tempo todo... Shion, dias antes de morrer, me proibiu de voltar para cá, me tocou o terror, e ainda assim eu passei por cima da ordem dele e voltei. E para quê? Para descobrir por mim mesmo o que estava acontecendo aqui, e mesmo assim eu não te virei as costas e ainda aceitei de boa vontade trabalhar como tesoureiro de puteiro para você, sem nunca exigir nada, nenhuma explicação. Então vai te foder! Depois que o seu irmão morreu e eu voltei a morar aqui você deveria ter me contado.

— Eu já disse que não iria mudar nada eu contar a você naquela época.

— Talvez sim, talvez não. Mas você nem tentou e olha onde isso nos colocou. E tem mais, eu nunca reclamei o posto de Patriarca justamente porque eu reconheci o fundo do poço em que o Santuário estava, e ainda tinha situação da Geisty e do Afrodite e eu não queria outro levante ou banho de sangue, então não jogue essa merda na minha cara. Eu não sabia como era a situação daqui, e decidi ficar justamente para assuntar, para ver o que podia fazer sem ter de me submeter à Vory.

— Hum, e decidiu ficar só por isso mesmo? — Saga deu uma risadinha o provocando. — Ou por que caiu de encantos por um certo budista maluco, chato para caralho e que eu podia apostar que ia morrer virgem?

— Não fuja do assunto — Mu o repreendeu, levemente corado, ainda assim estava bravo e deixava toda sua indignação fluir — Foi por isso também, claro, mas foi porque eu vi que eu seria mais útil ajudando a pôr tudo em ordem do que exigindo um trono... Eu que organizei as finanças do seu puteiro, eu que descobri o roubo da Vory nos débitos da nossa dívida, eu que segurei as barras para você nesses anos todos. Você sempre foi o Patriarca, o chefão no trono, enquanto o otário aqui — apontou para si mesmo — segurava as pontas, limpava a bagunça e impedia um levante, porque caso os remédios já te fizeram esquecer isso também, o Outro lá só ficou seis anos no poder porque eu impedi o Shaka de lutar contra ele, e ainda lhe dei um susto e garanti ao pessoal que ficaria tudo bem, então vai se foder bem grandão se vai me jogar isso na cara agora.

Saga estalou a língua e ergueu as mãos num gesto de rendição.

A conversa tinha ido para o lado errado e ele realmente não queria brigar mais, além de assumir que havia falado demais, como de costume.

— Ok, Mu, ok. Me desculpa. Eu não queria levar as coisas para esse caminho. Estamos aqui para nos resolvermos, não para começar uma nova briga.

— Então para de falar sem pensar, porque só sai bosta da sua boca e eu estou cansado disso. — Mu bradou batendo o dedo indicador na mesa — Eu sou plenamente capaz de me tornar o Patriarca hoje mesmo, agora, nesse instante, da mesma maneira que eu era quando voltei para cá, e do mesmo modo que eu também era quando o seu lado maligno assumiu. Mas, como naquela época, eu nunca fiz isso para não envolver o Santuário em brigas inúteis por poder, já que Shion antes de morrer tinha me avisado para ter cuidado com você, para vigiá-lo, porque você não era confiável e estava com algum problema grave.

— Ah, ele disse isso é?

— Sim, ele disse, e eu fiz exatamente isso. O que acha que teria acontecido se eu reclamasse o cargo naquela época? Você estava instável, perturbado, fora de si muitas vezes... Teríamos começado uma guerra. Seria extremamente egoísta da minha parte fazer isso quando havia tanta coisa em jogo, tanta gente dependendo de você e de mim. Pode não ter sido a escolha certa, mas o Templo das Bacantes foi uma ótima chance para nos reerguermos.

— E agora? — Saga perguntou.

— Agora? Bom, agora você está lúcido, é dono absoluto das suas vontades, mas tem bastante merda para limpar que o Coiso, como diz o Afrodite, deixou para trás — disse Mu procurando se acalmar — Como eu disse, você que cuide dos teus B.O... Mas eu não sou um escroto como o teu irmão não. Eu vim aqui hoje para acabar com essa briga besta entre nós, e eu não vou te dar as costas. Precisamos nos unir e nos ajudar. Estou disposto a usar todas as minhas habilidades para continuar sendo o seu braço direito e ajuda-lo como venho fazendo a mais de oito anos, mas se você acha que sou um covarde que se escondeu embaixo do seu manto e o que você quer é uma disputa pelo trono, estou aqui também!

Mu encarou firme os olhos jades de Saga com seu cosmo queimando em determinação. O Geminiano o encarou de volta sem deixar de sentir uma pontada de orgulho ao notar as palavras de lealdade que o ariano nervoso deixou escapar sem perceber.

Era bom saber que Mu sempre estaria ao seu lado apesar de tudo e portanto decidiu acabar de vez com aquele empasse idiota.

— Mais uma vez eu te peço desculpas. Não quis realmente duvidar de você e nem ofende-lo. Reconheço suas ações e agradeço imensamente o que fez por mim e por todo o Santuário. — Saga acenou com a cabeça em reconhecimento e ficaram um instante em silêncio — Pronto! Está mais calmo e satisfeito agora?

O bom da fúria ariana é que tão fácil como ela surge ela também se dissipa.

— Sim! — Mu cruzou os braços encostado na cadeira com um bufo satisfeito quase um tanto infantil.

— Ótimo!

Um punhado de segundos se passou até que Mu levantou o indicador tornando a chamar a atenção de Saga.

— Tenho mais uma questão.

— Lá vem!

— Atena e Aiolos.

Saga quis derreter no acento e ir embora pelo ralo do lavabo.

Com um bufo cansado ele esfregou o rosto.

— Ah, isso é mais um monte de merda peluda junta.

— Já estamos num pântano de bosta, Saga, então desembucha!

Com um suspiro fundo e a cabeça apoiada entre as mãos, Saga olhava fixo para a mesa quando resolveu falar:

— Um tempo depois da morte do Shion, uma criança apareceu por aqui no Santuário. Uma menina, sabe-se lá vinda de onde, recém-nascida, e que foi deixada nos pés da estátua de Atena... Foi levantada a hipótese de que ela era a reencarnação da deusa. Os oráculos haviam previsto, mas como Shion não estava aqui para confirmar...

— E onde está essa menina? — Mu questionou com uma pintinha para cima e outra para baixo em sua testa.

— Eu não sei.

— Era só o que me faltava!

Saga coçou nervoso as sobrancelhas.

— Como assim, você não sabe, Saga? — disse Mu. — Um bebê some de dentro do Santuário e você não investiga o seu paradeiro?

— Mas eu mandei investigar sim! Por bastante tempo ainda... mas é como se ela tivesse virado fumaça — disse Saga esfregando um pé no outro enquanto estalava os dedos das mãos. — Naquela época eu não estava pleno das minhas faculdades mentais... Para ser sincero com você, Mu, eu não me lembro exatamente de ter visto essa criança. Tudo o que me lembro era do Kanon, ensandecido e com o corno do Hades no couro dizendo que se aquela criança fosse a reencarnação da Atena todos os nossos planos iriam por água abaixo.

— Pelos deuses!

— Eu... não sei até que ponto posso confiar na minha memória, porque há partes desconexas que não consigo dizer se são lembranças reais ou... delírio, como... como o Kanon entregando nas minhas mãos a Adaga Dourada... Depois disso eu não sei precisar quanto tempo se passou e nem exatamente o que aconteceu... — Saga fez uma pausa no que esfregou os olhos parecendo exausto —... me lembro do Aiolos invadindo o templo transtornado... e me lembro vagamente do choro do bebê... então depois tudo mergulhou no silêncio outra vez e a minha mente se apagou. Quando recobrei a consciência Kanon me disse que Aiolos estava morto... e que eu tinha dado a ordem para executá-lo... sob acusação de traição e deserção.

Mu deu um soco ruidoso na mesa e lançando a cadeira para trás se pôs de pé bruscamente. Com os punhos cerrados ele deu as costas à Saga e esfregou o rosto uns pares de vezes.

— Sagitário, Escorpião, talvez a própria Atena e por pouco também Aquário, Virgem e eu... Nunca vou entender que estratégia estúpida, insana e de merda é essa de querer exterminar o próprio exército — murmurou o ariano ainda de costas para Saga, então depois de um momento virou-se e olhou nos olhos dele: — Aiolos era seu amigo, era um garoto bom... O seu lado maligno ter dado a ordem de mata-lo não isenta você da culpa pela morte dele, Saga.

— Eu sei! Eu sei, e me culpo todos os dias por isso. Eu... eu devia ter... devia ter procurado um jeito de contê-lo já naquela época. Quantas desgraças eu teria evitado se tivesse feito isso, eu sei, mas eu não consegui. EU NÃO CONSEGUI! — Ele se levantou da cadeira e agora encarava Mu enquanto batia as mãos contra o próprio peito — Mas agora não há nada que eu possa fazer para mudar o passado... Você queria saber a verdade, Mu, e a verdade é essa.

Mu baixou a cabeça e levou as mãos aos cabelos num gesto impaciente.

— Assim que recuperei a minha consciência, eu ordenei uma busca pela bebê. Mobilizei centenas de cavaleiros, mandei que procurassem em toda parte do mundo, em cada caralho de continente, mas é como se ela tivesse desaparecido da face da Terra... Depois de alguns anos eu dei as buscas por encerradas.

— E ela... a bebê, ela era a deusa?

— Não sei — disse Saga, por fim se jogando na cadeira exausto — talvez nunca saberemos... mas acredito que não, do contrário nós já teríamos conseguido sentir sua presença divina. Provavelmente era só uma bebê órfã mesmo, que alguém deixou aqui na esperança de dar a ela um destino menos miserável... A pobre além de morrer inocente ainda se tornou mais um dos tantos pecados que se acumulam na minha conta.

Mu também se afundou na cadeira. Sentia o peso de uma tonelada em cada ombro.

— Deuses! — resmungou o ariano. — Eu vim aqui para me entender com você, mas a vontade que tenho é de te dar um murro na cara e arrancar mais uns dois dentes seus.

— Os meus molares reimplantados ainda nem se fixaram direito, mas se acha que isso resolve as coisas, vá em frente! — Saga falou num tom de deboche.

Os dois cavaleiros trocaram um olhar sério, então depois de um momento ambos caíram na risada.

— Isso não tem a mínima graça — disse Mu ainda rindo. Não sabia dizer se de conformismo ou desespero.

— Não mesmo — disse Saga também rindo aflito, depois emendou com a voz baixa e sentida: — Sabe Mu, eu nunca quis nada disso para mim. Nem para mim e nem para ninguém, mas na vida nem sempre querer é poder... E já que tudo isso foi despejado no meu colo sem me pedir licença, eu simplesmente segui como pude. A minha intenção sempre foi poupar todos vocês, mas eu estava errado, e fazendo isso eu só consegui falhar... falhei com Kanon ao tentar protege-lo e fazer vista grossa para sua ausência de caráter e psicopatia, falhei com Geisty ao não ser capaz de protege-la de mim mesmo, falhei com Shion... e falhei com você.

— Tsc! Pode tirar essa da sua conta — Mu abanou a mão — você falhou comigo sim, mas não mais do que o Shion. Devo tudo que sou ao meu mestre, mas ter me privado da minha família foi... enfim... Espero que tire dessa lição que as escolhas que fazemos têm influência direta na vida das outras pessoas, por isso devemos sempre pensar com empatia e responsabilidade sobre elas... Shion sabia disso melhor do que ninguém, por isso ele deixou todos os pecados dele registrados em diários, para me dar a chance de tomar minhas próprias escolhas.

— Pode ter certeza que aprendi a lição sim... Todas as minhas escolhas daqui para frente serão sempre pensando em Geisty, no Santuário, nos meus amigos e principalmente em mim, na minha saúde mental... porque né, não somente eu dependo dela.

— Me alivia ouvir isso, Saga.

— Mais alguma coisa que queria saber?

— Por enquanto não.

— Bandeira Branca então? Declarado o nosso armistício?

— Sim, mas se você vacilar de novo com a Geisty, se fizer a minha irmã sofrer, se machuca-la, se trai-la, se quebrar uma unha dela que for eu juro que arranco a sua cabeça, assim os dentes já vão todos juntos.

— Feito. Tudo o que me move na vida agora é fazer essa mulher feliz... é provar para ela que estou fazendo tudo que está ao meu alcance para ser merecedor do amor dela, para reconquistar sua confiança... Geisty é tudo para mim e eu só quero vê-la chorar de alegria daqui para frente.

Mu coçou a testa e encheu o peito de ar para depois soltar de uma vez só com um suspiro ruidoso.

— Infelizmente ela ainda vai chorar de tristeza mais algumas vezes.

— Por que está dizendo isso?

— Bem... porque...

— Fala de uma vez, Mu! — pediu Saga aflito enquanto segurava o tecido do moletom e o sacudia para afasta-lo do corpo.

— Shion escreveu um volume inteiro sobre a Geisty... E da mesma forma que eu descobri a minha origem eu agora também sei como ela veio parar aqui... Eu sei o que aconteceu com a família dela...

De repente um forte estrondo invadiu a sala interrompendo a fala do ariano; a porta havia sido aberta de supetão, o que causou um sobressalto em ambos os cavaleiros que estavam concentrados.

No instante seguinte a voz em volume altíssimo de Geisty ecoou no recinto.

— MA CHE?

Geisty e Afrodite estavam ali, pálidos e assustados como se tivessem visto uma assombração. Peixes tinha nas mãos duas canecas do cappuccino da amizade, que eles tomavam juntos todas as manhãs, mas que naquela já tinha esfriado há muito tempo.

— Ei! — Saga se levantou da cadeira na mesma hora. — Vocês dois estavam escutando atrás da porta?

— Ma é claro que sim, cazzo! — disse Geisty entrando na sala feito uma locomotiva sem freio. Ela foi direto até Mu que estava sentado, inclinou-se na frente dele e com os olhos brilhantes perguntou com a respiração ofegante: — Pela deusa, foi isso mesmo que eu ouvi, Mu? Você sabe o que aconteceu com a minha família?

Afrodite já vinha logo atrás apressado. Sem cerimônia ele sentou-se sobre a mesa, deixou ali as duas canecas e agitado disse:

— Viado, quanto babado para uma manhã de terça-feira! Alôca! Tenho nem roupa pra isso!

— Anda, Mu, me fala! O que sabe sobre a minha família?

Alarmado, já que não havia se preparado para aquela conversa com Geisty, pois que sabia que ela não seria nada fácil, além de nunca ter imaginado que esta seria daquela forma tão despreparada, Mu respirou fundo e engoliu em seco.

Pelo jeito aquela reunião se estenderia para a tarde e seus efeitos seriam sentidos ainda por muitos dias mais.

***

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

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