Templo das Bacantes Vol. 3
46 O Senhor do Destino - Parte 1
Notas iniciais

Grécia — mais de três décadas atrás
Ao longo de uma trilha estreita de rochas calcárias que permeia o Monte Parnasso, um homem puxa um pequeno burro pela rédea, deixando para trás as ruínas do Templo de Delfos enquanto segue em direção ao cume.
Caminhando ao lado dele está seu primogênito; o rapaz jovem carrega nas costas um pesado baú de madeira para dividir a carga com seu velho pai, enquanto sobre o burro uma mulher, sua esposa, traz na face quase oculta pelo longo lenço vermelho que também lhe cobre a cabeça, uma fisionomia cansada e abatida. Nos braços ela segura com força seu precioso bebê de poucos meses, que dorme tranquilo.
A procissão familiar segue cautelosamente, e embora a mãe esteja fraca demais até para andar montanha acima por si mesma, seu semblante é firme e decidido.
A jornada tem fim quando próximo ao cume a figura exuberante e imponente de um homem alto, cujos longos cabelos grisalhos eram sacodidos pelo vento, e que trajava um manto negro, é avistada; ele parece muito concentrado com a vista do horizonte à sua frente.
Atrás dele, o marido solta a rédea do burrico e com muito cuidado ajuda sua esposa a descer do animal. Ele então a abraça, dá um beijo em sua testa e outro na cabecinha do seu bebê, depois ele indica ao filho mais velho que faça o mesmo com seu adorável irmãozinho.
A família então caminha junta os metros que faltam até o homem de manto negro, o qual ignora por completo o som de seus passos, dando-se conta da presença deles ali somente quando o jovem deposita no chão o pesado baú de madeira.
Antes mesmo de ele se virar a mulher o chama pelo nome.
— Shion.
O Patriarca do Santuário de Atena se vira com um movimento fluido e assume logo sua melhor postura de autoridade frente a eles. No entanto ele vacila no momento em que seus olhos violetas descem para o bebê sorridente nos braços dela.
Grécia – atualmente.
Santuário de Atena, Templo de Virgem.
Duas semanas se passaram desde o farto banquete oferecido aos deuses dando graças à vida de Kiki. Quatorze dias que correram rápido para aqueles que tinham pressa em reaver a vida que quase lhes escorreu pelos dedos, e se arrastaram para quem buscava respostas à perguntas que nem sequer havia feito um dia, mas que agora não podia mais adiar faze-las.
Nas duas semanas que precederam a melhora de Kiki, Mu priorizou a família. Eram muitos os compromissos que esperavam por sua atenção, mas ele não precisou pensar duas vezes; com Kiki de volta em casa e Shaka finalmente retornando ao seu eixo natural, ele dedicou-se totalmente às duas luzes de sua vida, especialmente quando eram estas as únicas que tinham o poder de tira-lo das trevas.
Como eles trouxeram para a Casa de Virgem o laboratório alquímico improvisado na Ala 5 do Hospital de Atenas, agora eles podiam sintetizar ali mesmo a infusão que Kiki precisaria tomar para o resto da vida. Mu ensinou o passo a passo do processo inteiro a Shaka, que agora lidava com todo aquele aparato científico e místico como se tivesse feito aquilo a vida toda, com impressionante facilidade e genuína satisfação.
Com Shaka já sabendo sintetizar o remédio e Kiki cada dia mais forte e recuperado, Mu encontrou algum tempo para retomar as atividades na Forja de Áries e também dar alguma atenção para a contabilidade pendente do Templo das Bacantes, mas apenas alguma, já que nos últimos dias sua total atenção esteve voltada para outra questão, para ele muito mais urgente: os diários de Shion.
Havia uma pequena pilha deles do lado de uma confortável poltrona na saleta onde eles montaram o laboratório; Mu tinha um deles nas mãos e o lia concentrado enquanto Shaka recolhia de um recipiente de vidro o material extraído dos anfíbios amazonenses para colocá-lo no infusor junto dos outros ingredientes.
— Marido, você está tão sério — disse o virginiano quando levantou os olhos e olhou para ele — o que está lendo nesse diário?
— É sobre a tal Yuzuriha de novo. — Mu falou sem desgrudar os olhos do livro. — Ela aparece muito nos diários dele.
— Bom, pelo que você leu até agora, essa Yuzuriha foi esposa dele, então é natural que fale muito dela.
— Sim, mas... você concorda comigo que é absolutamente estranho que ele nunca tenha me falado dela?
— Concordo, e ainda digo mais. É como se Shion quisesse escondê-la de todos, do mundo... Quem imaginaria que o Grande Mestre fosse casado com a amazona de Grou? Pouquíssimo se sabe sobre ela.
Mu respirou fundo, pensativo.
— Logo ele, que sempre deu valor ao casamento e que tanto me instruiu para que fizesse tudo certinho, como manda nossas tradições — balançou a cabeça em negativa — é realmente esquisito que tenha apagado qualquer registro da própria esposa com quem conviveu por mais de um século!
— E logo ele que se posicionava contra o casamento de amazonas com cavaleiros ou com quem quer que fosse — observou Shaka — Estou sentindo um cheiro forte sabe de quê?
Mu olhou atento para ele.
— Meleca de perereca?
— Não. De hipocrisia.
Mu pensou por um momento.
— No caso do Shion, assim como no meu caso, embora eu não seja um parâmetro, já que me casei com um homem, o casamento vai muito além de um enlace afetivo... Você sabe, já falamos inúmeras vezes sobre isso. O que é esquisito aqui é ele nunca ter mencionado que foi casado com uma lemuriana nem ao menos a mim, que era a pessoa mais próxima a ele e para quem ele ensinou a importância do casamento... E tem mais!
— O quê?
— Ao que tudo indica ela não era qualquer lemuriana. Ela era membro da família real Muviana. Alguém importante.
Shaka arregalou os olhos azuis.
— Uma princesa?
— Quem sabe? — Mu deu de ombros. — Os únicos registros dela são os que constam aqui, nessas linhas escritas pelo meu mestre... E... a maneira como ele fala dela é sempre tão... melancólica, triste mesmo. É como se o relacionamento deles não fosse feliz, como se existisse um peso sobre eles. E não falo de falta de amor, não, está claro que se amavam muito, mas... sei lá, talvez até tenham se separado.
— Isso tudo é tão estranho... — comentou Shaka indo até ele. Ao parar do lado da poltrona ele olhou para a caligrafia rebuscada no papel e disse: — Mesmo que eles tivessem se separado, se eles amavam-se tanto como ele diz aí, não haveria razão para Shion nunca tê-la mencionado a você.
— Bom, talvez ele quisesse mesmo escondê-la de todos, inclusive de mim. Olha só esses trechos:
“(...)todas as noites quando me deito em nosso leito matrimonial, sinto sombras nefastas adejando o meu coração. O tempo dela esgota-se dia após dia, e com ele também o nosso tempo(...)”
“(...)Hoje vi minha amada no átrio de meu templo sagrado ladeada por filhotes. Seria esta uma visão belíssima, não fosse pelo sorriso lastimoso que ela trazia em suas graciosas feições, e a razão de tão enfado entusiasmo eu sabia bem qual era: aquelas crias não eram dela. Eram as benções de uma afortunada serva. Quando ela tomou conhecimento da minha presença ali, os olhos dela fugiram de mim assustados; mas pude ver algo mais do que apenas sobressalto neles. Eu vi culpa. Oh, minha doce amada Yuzuriha... O meu amor é tão egoísta... O que você faria se soubesse que o único culpado por sua desmerecida frustração sou eu?(...)”
Atento a cada palavra ditada por Mu, Shaka torcia o lábio inferior com o polegar e o indicador num gesto de pura ansiedade e concentração.
— De que culpa será que ele se refere, Mu? — indagou ele e depois de uma brevíssima pausa deu dois tapinhas no ombro do ariano e pediu: — Marido, continue lendo. Vamos continue! Isso está ficando melhor do que a trama da novela!
No impulso Mu folheou algumas páginas e enquanto correia os olhos pelas palavras, sem saber ao certo o que procurava, disse:
— Ah, eu tô curioso demais para ficar lendo linha por linha. Preciso saber que fim deu essa lemuriana.
Afobado Mu pulou mais algumas páginas, começando a procurar até mesmo nos outros volumes o desfecho daquele relacionamento, como um leitor desesperado que vai até as últimas páginas do livro para ter spoilers do final.
Porém, o que ele não esperava é que assim como na ficção literária, aqueles diários continham também muitos plot twists.
De repente o rosto de Mu ficou tão branco quanto os lençóis de cama e as toalhas felpudas que Shaka lavava com litros de alvejante e ainda deixava no sol para quarar. Ele sentiu as mãos que seguravam o diário amolecerem e se não fosse Shaka estar ali, sentado ao lado dele no braço da poltrona, para segurar o volume este tinha escorregado até o chão.
Absolutamente, o que acabara de ler não era nem de longe o esperado.
— Mu?
Shaka chamou-lhe a atenção, percebendo na mesma hora que algo havia mudado; as mãos e os braços de Mu estavam gelados. Na verdade, era como se todo seu calor interno tivesse sofrido um golpe. Sua respiração ficou acelerada e pesada, e de seus olhos verdes vidrados colados no papel amarelado um par de lágrimas gêmeas escorreram sem que sua face sofresse qualquer alteração.
— Mu, por Buda! — Shaka lhe deu um chacoalhão, assustado com seu estado. — Por que está chorando? O que você leu aí?
— S-Sha...
A voz do lemuriano soou trêmula e baixa.
— O quê?
Shaka escutava com atenção e os olhos arregalados em expectativa.
— A... A Yuzuriha...
— Sim, o que tem ela?
— Ela... ela é a minha mãe!
Shaka sobressaltou-se.
— Sua... mãe? — disse ele prendendo a respiração e sentindo o coração acelerar. — Mas... como isso é possível? Você leu isso aí? É isso que está escrito aí?
Mu, ainda atônito, ergueu os olhos para o marido e acenou lentamente com a cabeça.
— Então... o Shion é seu pai? Seu pai de verdade?
Mu franziu a testa e piscou os olhos desconcertado. Não tinha lhe passado aquela possibilidade pela cabeça.
— Eu... não! Ele nunca me permitiu chama-lo de pai, mas agora... eu... eu não sei — fez ele enxugando o suor frio que começava a brotar em sua testa — Esse... esse volume ele... pelo que pude perceber correndo rapidamente os olhos por ele, é todo sobre mim quando era bebê.
Mu enxugou os olhos com pressa, apontou outro trecho para o marido e então começou lê-lo em voz alta e embargada:
“(...)Parece-me que a Fortuna, essa incorruptível justiceira, encontrou um modo chistoso* de punir-me pela perversidade que cometi contra minha amada. O menino dado a mim, a cada dia que passa assemelha-se mais ao homem que a fecundou. Embora pequenino ainda, seus esgares*, aspecto, olhares e mesmo seu eflúvio* estão adstritos* a ele. Sua genética poderosa esfrega-me na face a sua semente pródiga ao revés da minha, que é medíocre. O meu júbilo seria um completo engodo não fosse pelos olhos e o sorriso prazenteiro do menino, pois que estes são exatamente como os seus, minha amada Yuzuriha. Quando o pequeno Mu me sorri e faz de suas graçolas, é você quem eu vejo diante de mim, então o meu ígneo* coração pulsa exultante, e orgulho-me por ter sido você quem o gerou. Desde o dia em que colocou-o em meus braços, eu não pude mais desviar os meus olhos dele. Amo-o como se fosse meu. Meu filhote tão aguardado, o meu milagre, meu Mu.(...)”
Mu não conseguiu conter a emoção e deixou o diário cair.
Ele sempre tivera certeza de que era sozinho no mundo, nunca conheceu sua origem verdadeira, e agora descobria que o culpado por isso era ninguém menos que o homem que o criou, seu mestre, Shion. Mas por que ele teria lhe ocultado tais coisas? Pensava Mu, então de pronto lembrou-se do pedido de desculpas contido no índice do diário encontrado por Saga.
Shion arquitetara tudo aquilo. Ele mentira de caso pensado.
Mu estava a ponto de colapsar a qualquer momento tamanho seu desespero.
Shaka imediatamente o amparou com um abraço forte enquanto embalava-o para tentar fazer-lhe se acalmar, embora ele mesmo estivesse tão impressionado com aquela revelação que mal conseguia conter sua própria emoção, que dirá, então, as perguntas que também começavam a tomar forma em sua mente.
— Ah, Mu, meu amor... posso sentir a sua dor — disse ele beijando os cabelos lavanda — Mais terrível do que não ter uma família é saber que esta existiu, mas você foi privado dela... Não há palavras de conforto para algo assim.
Mu seguia chorando em silêncio amparado por Shaka, que não sabia o que fazer para acalma-lo, então como último recurso segurou em seu rosto e disse com um sorriso melancólico:
— Pode não haver palavras, mas um chocolate quente com bastante chantilly salpicado com pistache ajuda?
O ariano fungou apertando o nariz.
— Sempre ajuda — respondeu.
— Então feche os olhos por uns minutos, respire fundo e tente se acalmar... Não vou demorar — disse Shaka dando selinho nos lábios dele.
Mu ficou olhando o marido se retirar da sala e assim que ficou sozinho deu um suspiro longo.
Certo, havia recebido um grande spoiler daquela narrativa que mais parecia um conto fantasioso cheio de tramas intrincadas do que um relato real; no entanto a história era real. Tão real que agora lhe dava medo, mas que por nada no mundo ele abriria mão de sabe-la com o maior número possível de detalhes.
Para isso ele teria que revisar todas as páginas puladas e capítulos ignorados.
Era isso que Mu fazia quando Shaka retornou com uma caneca fumegante de chocolate quente e o encontrou sentado no chão rodeado por vários volumes abertos dos diários escritos por Shion. Alguns deles percebeu que Mu havia organizado por ordem cronológica, enquanto agora, além de ler, fazia anotações em um outro caderno com folhas brancas.
— O que está fazendo? — Shaka perguntou a ele lhe estendendo a caneca.
— Desvendando a história do meu nascimento... descobrindo minha origem — respondeu Mu ainda aparentemente abalado, mas agora decidido — Venha, sente aqui do meu lado e me ajude.
Ele abriu um espaço no carpete para que Shaka se sentasse enquanto impaciente dava um gole na bebida quente.
— Certo, mas agora então vamos começar do começo — disse Shaka — nada e pular páginas.
— Hmmm... está uma delícia, Sha, obrigado — disse pondo a caneca no chão — Sim, do começo. Já separei os volumes... Que os deuses me ajudem que eu não tenha um troço!
***
Conforme o tempo transcorreu, com a ajuda de Shaka aos poucos Mu foi obtendo uma visão clara de um passado que não apenas revelava muito sobre si, mas também sobre sua própria espécie. Agora já sabendo que Yuzuriha era sua mãe, Mu procurou atentar-se aos detalhes do relacionamento dela com Shion, pois era nesse que deveria estar o ponto chave de tudo, e tentar descobrir por qual motivo aquela história de amor que teria tudo para ser promissora e duradoura ao fim mostrou-se trágica.
No primeiro volume dos diários, Shion escrevera bastante sobre seu treinamento ao lado de Yuzuriha no “palácio de Mu”, o nome oficial dado à torre de pedra de Jamiel, descoberta esta que Mu tinha feito recentemente, e sobre como ela quase abandonou a missão e abdicou dos votos consagrados à defesa de Atena em nome do sangue e do dever individual de procriar.
“(...)quando regressei ao nosso torrão natal, enfim trajando minha armadura de Ouro de Áries, derribou*-me o quadro horrípilo que encontrei. A casa de Jamiel fora atacada e muitas vidas foram ceifadas; sem embargo, a maior perda de todas foi a que deu-se na família real. Yuzuriha de um momento para outro tornara-se a única descendente dos Lemur.
A graveza da conjuntura nitidificou* a inevitabilidade de seu dever para com o nosso povo; isto posto, de ciência da realeza de seu sangue, a destemida amazona de Grou, regida pelos distintos prolegômeros* adstritos* à sua nobreza e caráter veneráveis, pôs-se pronta para abandonar a armada de Atena em prol de desposar-se com um lemuriano de linhagem nobre e assim perpetuar o sangue da família real. Uma missão tão sagrada quanto servir à deusa, mas a mim totalmente deletéria. Eu não fui capaz de confessar a ela a minha censura de pronto. Em verdade, somente a ideia de outro homem desposando-a, de outros braços que não os meus tomando-a para si, deixou-me doente.
Eu tenho plena consciência de que o egoísmo e a paixão apossaram-se de mim e eu nada fiz, por vontade própria, para exorciza-los em prol do altruísmo que me faltou. Eu a convenci a manter seus votos com Atena, a cumprir a sua sina de guerreira, não porque eu pensava no bem da Terra e na segurança da nossa deusa, mas porque pensava exclusivamente em mim.
Posso dizer que obtive sucesso; Yuzuriha desfez o noivado, todavia eu temo ter condenado a nós dois(...)”
Era tudo sobre isso. Sobre uma família de monarcas destruída. Sobre uma raça quase extinta e particularmente sobre o dever de uma lemuriana para com seu povo.
Cabia à Yuzuriha ter descendentes, continuar a linhagem real e salvar a herança de sua família. Mas, pelo que Mu entendeu até ali, Shion a convenceu a abrir mão desse dever por ele.
— Mas — disse Shaka fazendo uma pausa — se sua mãe abdicou do compromisso com o noivo nobre para se casar com Shion, então por que eles não tiveram filhos? Porque naquele trecho lá da frente ele fala como se seu pai fosse outro lemuriano.
Mu olhou para ele e depois de um tempo pensativo disse:
— Eu... não sei, porque isso não faz sentido.
Mu entendia perfeitamente a necessidade visceral e nata de todos os indivíduos muvianos em procriar. Sendo uma raça tão longeva e pouco prolífera, gerar filhotes era a força motora de seus instintos. Ele mesmo fora arrebatado por esse ímpeto poucos anos depois de se casar com Shaka, e lembrava-se tão bem o quão difícil foi naquela época porque o seu desejo de ser pai gerara uma crise terrível em seu casamento. Seu desespero em ter um filhote por fim levou o cavaleiro de Virgem a dobrar o espaço e o tempo para dar-lhe Kiki, só assim então ele conseguiu acalmar esse instinto.
Conforme seguia lendo o diário, Mu ia datando as passagens mais trágicas em seu caderno de notas, e a cada página que passava mais melancólica e inesperada aquela história ficava.
Mas nem tudo era tragédia. Ele também descobriu informações sobre si mesmo que sequer um dia sonhara saber.
— Olha isso, Sha — disse Mu apontando para um determinado trecho — segundo os nomes e datas que tomei nota, este deve ser o meu clã.
— Clã dos Alquimistas? — Shaka perguntou sem entender bem como ele havia chegado àquela conclusão.
Mu então explicou a ele que como um Ferreiro Celestial, ele pertencia ao Clã dos Alquimistas; lemurianos que se dedicavam e se especializavam na arte da forja celestial e das fórmulas “mágicas”.
Havia trechos onde Shion falava da convivência em Jamiel junto dos dois últimos aprendizes do Clã dos Alquimistas.
Eram eles os únicos sobreviventes da última Guerra Santa.
Seus nomes: Shion, Yuzuriha e Atla.
— Atla? — Shaka arregalou os olhos azuis brilhantes, pois que aquele nome era surpreendentemente familiar para ambos.
Mu engoliu em seco e respirou fundo.
Uma sensação estranha causou-lhe um aperto no peito.
Impaciente, aflito e curioso, ele tentou ignorar a sensação e continuou lendo:
“(...)A guerra mudou a todos nós. Mestre Hakurei feneceu*, e na carência dele em Jamiel, o seu pupilo deixou o palácio para regressar ao seu homizio* de origem. Atla é um infante distinto. Uma sumidade* nas artes telepáticas sem deixar-se levar por ufanismos*. Um prodígio consecutivo, penso eu, de sua origem Menehune. Malfadadamente, de nós três foi ele quem mais abalou-se com a guerra, mesmo tendo tão pouca participação, embora esta tenha sido de suma valia para nossos exércitos. As vicissitudes da Fortuna o fazem sofrer. Eu posso ver em sua aura e em seu comportamento taciturno; por esta razão não ponho em julgamento a sua partida. Agora a casa de Jamiel está quase vazia(...)”
“(...)Embora, como cavaleiro que sou eu tenha ciência plena de que a paz seja uma quimera, permito-me viver os anos longe da guerra como se deveras acreditasse nesse filaucioso* logro(...).”
“(...) Os anos passam e eu temo ter-me perdido em minha felicidade(...)”
“(...)O palácio de Mu, a herança de Yuzuriha, tornou-se assumidamente a minha morada. Hoje nos desposamos finalmente e aqui enraizamos o nosso ninho.(...)”
“(...)Sob a luz do luar a minha amada me ama em nosso leito matrimonial. Noite após noite o nosso amor vibra em sintonia e o Universo todo parece perfeito. No palácio de Mu, ou em meu Templo no alto do Santuário, Yuzuriha me faz feliz e enche-me de vida.(...)”
“(...)Amo minha doce rainha com todo o meu ser, e sinto que meu amor é reciproco. Yuzuriha me ama com seu coração esplêndido e sua alma casta.(...)”
“(...)Devaneio em poder dizer que somos perfeitos juntos; todavia sei que estaria mentindo para mim mesmo. Não somos. Estamos em falta.(...)”
Nessa hora Mu trocou um olhar angustiado com Shaka, já prevendo o que teria sido o estopim da separação de Shion e Yuzuriha.
Ele havia falhado como marido.
Aquelas eram as confissões de um lemuriano que estava vivendo o pior pesadelo de todos, já que ele fracassara no seu mais sagrado dever: o de dar um herdeiro à sua amada.
“(...)Oh! Por todos os deuses olimpianos... conforme passam os anos, crescente é a angústia em meu coração. As décadas se vão asinhas*, e o ventre seco de minha amada cobre de opróbio* a minha excelência. A falta de um filhote macula nosso amor dia a dia, e mesmo que nos finjamos de cegos e procrastinemos tocar no assunto ele está sempre lá, em nossa sala de estar, sentado à mesa conosco nas refeições, partilhando do nosso leito... Esta criatura acrimônia* e famélica será a nossa ruína, embora Yuzuriha persista em manter-se calada. Sei que a razão de seu mutismo é o amor que ela me tem, mas este é irmão da decepção. Eu sinto seu desapontamento crescente todas as vezes que se deita ao meu lado no leito e dá-me as costas para em seguida tocar o ventre oco; seu solo fértil e inabitado dói diretamente em mim.(...)”
“(...)Delonguei anos até aceitar com franquia a pérfida verdade. Meu negacionismo vinha de uma infausta esperança de melhora ou mesmo de uma cura milagrosa, mas depois de tanto tempo sem nem mesmo a sombra de uma pequena vida sendo gerada da nossa união, eu reuni coragem para investigar. Em absoluto segredo dediquei-me ao estudo dos avitos* cartapácios* medicinais, e depós de uma cabal compreensão do assunto, aliado a exames auto aplicados, o meu pior medo concretizou-se. Tanto os meus olhos quanto as lentes ampliadoras do equipamento me davam o mesmo prognóstico horrípilo: Minha semente é infértil.
A ferida que parecia inócua, resultado de um golpe azarado durante a guerra, na verdade condenou-me para todo o sempre. Esta acometeu-me os testículos a nível celular, já que no âmbito fisiológico pouco dano me causou. A verdade é que sou um macho coxo. Um varão reduzido a um mero rufião, capaz de copular, mas jamais inseminar o ventre fértil de sua fêmea... Às vezes me pergunto se a morte não teria sido um destino menos infeliz.(...)”
Shion era estéril.
O verdadeiro horror dessa verdade atingiu Mu como um soco dado na boca do estômago.
Abalado ele tentava explicar as implicações de tal desgraça para Shaka, pois mesmo ele em um relacionamento homoafetivo, onde o marido obviamente jamais poderia conceber, não conseguia sequer pensar no quão miserável se sentiria caso fosse infértil.
Sua espécie priorizava a reprodução acima de tudo, a elevando até a um conceito sagrado, e por isso miserável era o homem ou a mulher que não podia conceber.
A questão, para Mu, ia muito além engravidar uma fêmea, já que sendo fiel ao marido ele obviamente não teria outros filhos além de Kiki, mas a possibilidade de estar “quebrado”, de “não ser capaz de”, tocava-lhe em algo muito mais profundo, na sua identificação como indivíduo, um macho lemuriano, e até mesmo em seu propósito existencial.
Ao colocar-se no lugar de Shion e pensar que de repente podia descobrir-se infértil fez seu corpo todo arrepiar e o estômago embrulhar trazendo um gosto ruim à boca.
Do lado de Mu, Shaka tinha os olhos velados presos a um ponto qualquer nas páginas ocres do diário. Claramente ele também tinha o pensamento perdido no passado, na mesma época em que o forte instinto lemuriano acometera Mu e provocou uma crise entre eles.
A sala onde estavam repentinamente mergulhou num silêncio profundo. Cada um sabia bem o peso daquela revelação, e porque este causou a separação entre Shion e Yuzuriha.
Havendo tão poucos indivíduos remanescentes da raça lemuriana, e sendo as fêmeas portadoras de poucos óvulos, a Natureza os fizeram totalmente inclinados à procriação; a prole, os filhotes, ocupam o topo da pirâmide hierárquica de sua sociedade, por isso, na grande maioria dos casos, tudo girava em torno deles. E esse instinto parental às vezes era tão forte que os levava a extremos.
Estava mais do que claro que tanto Shion, mesmo sendo infértil, quanto Yuzuriha estavam sendo consumidos por esse instinto. Ela particularmente, uma vez que antes mesmo da Guerra Santa já tinha se mostrado inclinada a abandonar o Santuário para casar-se com um noivo lemuriano. Um casamento arranjando, sim, mas que lhe daria filhotes e asseguraria a descendência de seu sangue real.
Então com o passar das décadas e nenhum fruto de sua união com Yuzuriha (embora eles fossem particularmente empenhados nas tentativas, afinal amavam-se profundamente), sabendo que a cada dia o tempo dava um novo golpe em sua fertilidade a tornando ainda mais baixa, Shion não tinha mais como mascarar o fracasso de um casamento que tinha uma falha em seu objetivo mais básico: reproduzir.
Sobre essa frustração, Shion escreveu muitas páginas. Passagens contidas em volumes que Mu havia pulado inteiramente ou lido sem dar a devida atenção, mas que agora retomava atentando-se aos detalhes. Nessas Shion também relatava que Yuzuriha estava infeliz; o seu amor por ela já não podia mais suprir a falta de um filho, e para o Mestre do Santuário estava cada vez mais difícil viver escondendo a verdade dela e tendo de lidar com culpa por sua tristeza.
“(...)A minha bem-aventurança converteu-se num martírio com sabor acrimônio. Já não dormeço mais, pois que no leito ao meu lado, a presença amargurada de minha amada me apunhala o coração noite após noite causando-me insônia ou pesadelos(...)”
“(...)O ninho se torna cada dia mais frio, quando no ato de amar adjunto vem o peso da minha invalidez(...)”
“(...)Minha amada já não me procura com a mesma frequência de antes; não lhe falta amor ou o desejo concupiscente, mas a frustração do ventre vazio transforma esses em ignóbil amargor. Eu tenho medo, e ela o sabe. Yuzuriha sente o meu terror... como eu sinto o desespero dela.(...)”
“(...)Vivo às vias de sucumbir a uma veneta* por dia. Espavora-me a expectativa do dia em que a verdade virá à tona e ela subsequentemente me deixará, como é de seu direito, já que só o que tenho a oferecer à minha amada é uma semente fraca.(...)”
“(...)Eu sei que o nosso tempo se finda com aguça*. Prendo-me às migalhas do que ainda me resta, mas a sombra de um berço vazio se adensa a cada ano desperdiçado e engole toda bem-aventurança à sua volta. Vivo a miséria do filho que me foi negado.
Há dias em que sinto-me impelido a amaldiçoar os deuses e o dia de meu nascimento, pois que este determinou a minha sorte. Quis a Fortuna que a guerra fizesse de mim um macho coxo. Mas esta é uma provação tão pequena diante das tantas impostas à Atena. Envergonho-me e obrigo-me a lembrar do quão insignificante eu sou diante da grandiosidade da nossa deusa, então coloco-me no meu lugar e aceito o meu fardo. Este que deveria ser somente meu. Não de Yuzuriha.(...)”
“(...)Oh, grandiosos deuses... nunca roguei tanto por um milagre! A minha fé vacila. A graveza da situação me empurra para um ponto de ruptura. Eu estou desesperado! Um filhote... Um único bebê é tudo o que peço! Não importa-me como, pois que seja então um milagre divino que faça o ventre de minha amada crescer, qualquer que seja os meios celestiais, qualquer que seja o deus ou deusa que nos abençoe com um pequenino para acalentar em meus braços. E que este devolva à bem-aventurança à minha vida.(...)”
“(...)Os tempos de espera e infinda angústia chegaram ao fim. A minha tragédia agora é completa.
A verdade veio à tona, em lágrimas de tristeza e mágoa. Eu senti a dor pungente nos olhos vidrados da minha amada quando esta soube, enfim, que o nosso fruto nunca existiria e que eu jamais poderia ser o pai dos filhos que ela tanto precisa. Tive ainda mais certeza de que eu não a mereço quando ela não culpou-me por esconder-lhe a verdade; de avesso, Yuzuriha abraçou-me, e prostrados no chão pranteamos juntos o fadário* maldito do nosso amor.
Agora ela sabe que precisa deixar-me antes que seu corpo esgote seus óvulos; tesouros preciosos demais para serem desperdiçados com um macho infecundo. Ela também está ciente de que pode fazê-lo sem culpa e sem qualquer mancha de vergonha, pois que este é o seu direito sagrado. Mesmo conformado, molesta-me sua decisão. Molesta-me muito. Muito. Estamos despedaçados em meio às ruínas do nosso homizio vazio(...)”
“(...)Como descrever a sensação de divisar a sua própria vida passando por uma porta e indo embora? Yuzuriha partiu. Não disse-me para onde. Não perguntei.
Sinto que seja melhor que eu nunca saiba.
O nosso amor ainda vive e sei que é perene sua chama, portanto melhor caminho é mantermo-nos sem contato. Deste modo será mais fácil administrar a dor. Nossas vidas separaram-se para nunca mais convergir.(...)”
As letras dos trechos seguintes estavam trêmulas e algumas até ilegíveis. Podia-se ver nitidamente que foram borradas por lágrimas.
Yuzuriha deixou Shion. O maior medo do antigo Patriarca enfim se concretizara.
Na sala, Mu estava dividido entre sentir um pesar profundo pelo mestre e uma estranha sensação de conforto. A separação fora visivelmente dolorosa, para ambos, mas sem esse acontecimento trágico na vida de Shion, ele mesmo não existiria, afinal Yuzuriha o deixara para procurar por outro lemuriano que lhe desse um filho, e se estava lendo esta história agora, então isso significava que ela tivera êxito.
O que não tornava o peso de sua própria existência mais leve.
Só agora então Mu entendia o motivo de Shion sempre mostrar-se relutante quando lhe fazia perguntas sobre sua origem que nunca conhecera, procrastinando e prometendo sempre que lhe contaria tudo “mais tarde”; um mais tarde que nunca vinha.
Na verdade, aquelas páginas revelavam a si muitos dos comportamentos estranhos de Shion, em especial aqueles que diziam respeito às exigências e ensinamentos rigorosos sobre casamento, compromisso e castidade.
Mas muitas peças ainda faltavam naquele quebra-cabeças da sua vida. Ainda não conseguia entender o porquê fora entregue a Shion, e principalmente por que motivo este escondera de si que era filho da mulher que ele amava, de Yuzuriha de Grou.
Depois de uma breve pausa, na qual Shaka preparou para ambos mais uma caneca de chocolate quente e dois sanduíches, eles seguiram com a leitura para tentar achar a resposta para mais esta pergunta.
Os primeiros volumes que relatavam o período após a partida de Yuzuriha, a separação do casal, tinham um teor extremamente melancólico. Eram passagens e mais passagens que relatavam a saudade e o amor perdido. Depois, nos anos que se seguiram, essas mudavam de foco e apegavam-se em descrições banais do trabalho de Shion como regente do Santuário de Atena. Uma sina fadada à solidão e à tristeza.
Nesta fase Mu percebeu que Shion escrevia pouco e mecanicamente; seus relatos soavam mais como meros relatórios, bem diferente dos anteriores que eram carregados de emoção. Foram anos em que ele existiu apenas para o trabalho, sem depositar qualquer esperança no futuro, e também vazio de toda a alegria de viver.
Mas tudo isso mudou drasticamente quando enfim Mu chegou ao volume que narrava a sua chegada ao Santuário, e nesse ponto a escrita de Shion voltou a ser tão pessoal e sentimental como a de antigamente. Impaciente que era, como todo bom ariano, Mu já tinha corrido os olhos por aquelas páginas, mas agora dedicava-se a ler palavra por palavra.
“(...)Eu não estava preparado. Confio que jamais estaria. Décadas depós, sem qualquer informe, eu recebi um chamado telepático de minha amada Yuzuriha pedindo-me que fosse encontra-la no Monte Parnasso. Piamente, eu não sei o que esperar dessa reunião. Bem verdade que minha mente tornou-se um completo vazio. Acredito que seja medo. Sinto-me em alvíssaras* de pensar que a verei de novo, todavia temo criar expectativas absurdas. Seria filausioso* demais da minha parte pensar que ela estaria voltando para mim?(...)”
“(...)Como eu havia dito. Eu não estava preparado.(...)”
“(...)Quando ouvi os cascos do animal ribombarem na trilha da montanha, e segundos depois os passos fortes juntarem-se a eles, o meu coração tremeu. Estes se aproximavam e eu empenhava-me em manter-me firme, olhando para o horizonte sem fim, incapaz de virar-me para olhar para aquilo que havia perdido. Yuzuriha não estava sozinha. Eu ouvia. Eu sentia. Haviam mais duas pessoas com ela. Eu não queria ver a família que ela formou sem mim.
Não obstante, o inevitável aconteceu; eles se aproximaram e a voz doce dela, agora envelhecida, chamou-me: Shion!
E fui incapaz de negar aquele chamado.
Diante de meus olhos mais uma vez estava a mulher que eu tanto amei, que eu amo, e justaposto a ela, para o meu completo espanto e desgraça, estava Atla(...)”
Nesse ponto Shaka interrompeu a leitura de Mu porque deixou escapar um grito de pura surpresa.
— Mas o quê? Esse não é... — fez o indiano balançando a cabeça, com os olhos arregalados.
Sem tirar os olhos do diário, Mu lhe chamou a atenção pedindo silêncio.
— Fica quieto, Sha, pelos deuses! Eu já estou quase tendo um treco aqui.
— Desculpe, continue.
— Tá... onde eu parei...
“(...)Atla. O maldito fedelho Menehune enfim crescera; já homem feito ele tinha quase o meu tamanho e os vincos no rostro que o tempo também deixara em mim e em Yuzuriha. Não éramos mais os jovens muvianos aprendizes do Clã dos Alquimistas, mas vetustos* quebrantados cujas histórias de vida eram contadas pelas linhas plissadas dos mapas em nossos rostros. Eu não sei dizer o motivo pelo qual me causou tamanha surpresa a presença dele ali. Deveria ter previsto ou mesmo conjecturado que ela o procuraria.
Ingênuo que fui. Ela o conhecia, sabia onde encontra-lo.
Atla era um exemplar masculino saudável; era detentor do sangue Menehune, uma linhagem de nosso povo oriunda dos sobreviventes diretos do continente de Mu, que se isolaram nas ilhas polinésias guardando grande poder em sua herança genética. E Atla é, sem sombra de dúvidas, a prova concreta desse poder. O maior telepata vivo de nossa espécie. Seus poderes muvianos são deveras superiores inclusive quando comparados aos meus.
Um macho saudável, de boa linhagem e poder imensurável.
Foi impossível não sentir-me miserável.
O mancebo de pé, adjunto a ele, era mais uma prova viva de meu fracasso. Um macho forte, de olhar conspícuo; o amálgama perfeito dos progenitores, com os traços garbosos da mãe em seu rostro e a personalidade sóbria e introvertida do pai.
Sem embargo, não fora o reencontro com a mulher que eu amava, ou mesmo a presença indigesta de Atla, tampouco fora a visão do rebento janota*, fruto da união dos dois, que abalara toda a minha estrutura e fez-me sentir como se o chão fugisse de meus pés, mas algo que mudaria completamente a minha vida a partir de aquele dia.
Nos braços de Yuzuriha havia um pequeno embrulho agitado.
Um bebê.
Pequeníssimo que era, cogitei não ter completado ainda um ano de vida; ela mais tarde confirmou minha suposição.
A pequenina criatura quando posta diante de mim olhou-me com curiosidade e no instante seguinte dirigiu-me um sorriso banguela. Seus olhos eram imensos, de um incrível tom de verde ainda indistinto.
Eu assistia hipnotizado o miúdo filhote quando Yuzuriha, com lágrimas nos olhos e os braços macilentos, desfez-se do lenço vermelho que lhe cobria os cabelos e com ele enrolou o bebê.
Ela então o entregou a mim.
Eis a razão de seu chamado.
Absorto ainda, eu lancei para ela um olhar indagativo. Conquanto, tudo o que fui capaz de fazer naquele instante em que sentia o peso levíssimo do filhote dela em meus braços fora prantear. Ele era quente e macio; e de seu diminuto corpo um Cosmo poderosíssimo já apontava naturalmente.
Eu tinha perguntas, mas não as consegui fazer. Então, na hora em que ela disse-me o nome da criaturinha em meus braços tudo ficou claro e cristalino.
Registro aqui as palavras dela para você que lê, e porque estas ficaram gravadas em mim como ferro quente:
“— Este é o meu milagre, Shion. Um filhote que veio de maneira inesperada, da ovulação tardia de uma lemuriana idosa que não mais acreditava ser capaz de conceber. Um segundo filho, enviado pelos deuses, através desses dois humildes servos.”
Ela nessa hora tomou Atla pela mão.
“— Este é o segundo príncipe muviano, Jamielson Mu Nawao Menehune Lemur do Clã Alquimista da Casa de Jamiel. Ele nasceu sob a proteção da constelação de Áries, para cumprir o dever sagrado do nosso povo para com Atena e servir ao Santuário.”
Isto posto, ele agora é seu! Obviamente ela não verbalizou tal conclusão, mas o seu olhar e a sua aura a disseram-me.
O meu corpo todo fremia tão desvairadamente que temi deixar cair o pequenino embrulho sorridente, então meus dedos apertaram-no com força.
Eu segurava em meus braços o segundo príncipe do sangue real Lemur. O herdeiro das tradições do quase extinto Clã dos Alquimistas. O dono por direito do palácio de Mu, lugar para onde Yuzuriha regressara apenas para dar à luz ao filhote, pois que assim este, por direito de nascença, poderia perpetuar a Casa de Jamiel.(...)”
A narrativa extensa e detalhada desse encontro de Shion com Yuzuriha após anos de separação estendeu-se por mais algumas páginas e por ela Mu tomou conhecimento não apenas de seu próprio nome, mas dos três outros integrantes de sua família.
Sua mãe, Yuzuriha Lemur do Clã Alquimista da Casa de Jamiel; Rainha por direito de sangue dos Muvianos.
Seu pai, Atla Nawao Menehune do Clã Alquimista da Casa de Lua Pele; Rei consorte dos Muvianos; famoso por seu poder telepático e telecinético até hoje insuperável.
E seu irmão, por volta de três décadas mais velho, Mauna Pua Nawao Menehune Lemur do Clã Alquimista da Casa de Lua Pele; o primeiro príncipe, e o pai biológico de Kiki.
Dali em diante passou a ser impossível para Mu conter a emoção.
Toda a trajetória, somada ao relato visceral de Shion, lhe deixava claro o quanto fora amado por seus pais.
Das lágrimas derramadas pela família toda na despedida do pequeno segundo príncipe, até os cuidados de Yuzuriha em entregar-lhe os papéis de seu testamento. As terras de Jamiel ficariam para Mu, bem como parte do tesouro real que ela deixara lá, como herança, e que deveria ser-lhe entregue quando este atingisse a idade adulta.
Uma pequena parte deste tesouro Yuzuriha separara para os gastos pessoais com a criação do bebê. Esta estava em um baú de madeira trazido até ali por seu irmão, Mauna Pua; ele o deixara aos pés de Shion com uma solenidade.
Shion não absteve-se de relatar até mesmo a dor de Atla, que despedira-se de seu amado filhote lhe dizendo que jamais deixaria de amá-lo, não importava a distância que os separava. Apesar da tristeza, Atla entendia que seu caçula estava destinado a se tornar cavaleiro.
Mais difícil que a leitura sobre aquela despedida, foi a que se seguiu depois.
Antes de deixar o Monte Parnasso, Yuzuriha falou a sós com Shion e lhe contou que seus dias estavam no fim.
Ela dera a luz muito tarde e o seu corpo, já debilitado pela idade avançada, não suportara bem a gestação.
Era por isso que Mu estava sendo entregue a Shion tão cedo. Sua mãe temia não ter forças para fazê-lo mais tarde, e ela queria fazê-lo pessoalmente.
Yuzuriha, em suas últimas palavras para o homem que outrora foi o seu amado marido, lhe deixou claro que aprendeu a amar Atla com a convivência e o passar do tempo. Um amor construído aos poucos e a cada dia, enquanto se dedicavam à criação de Mauna Pua.
Ela também fez questão de deixar claro que jamais se esqueceu dos sentimentos que tinha por Shion; ele fora seu primeiro amor, sua verdadeira paixão, e ela sentia que aquele bebê, agora nos braços dele, era o filhote que eles nunca puderam ter juntos.
Um presente para consolar o coração de Shion, já que ambos acreditavam que não haviam coincidências nos planos traçados pelos deuses, e seu bebê, nascendo com um Cosmo tão poderoso sob as bênçãos de Áries, era a prova viva disso.
Yuzuriha em breve deixaria esse mundo, mas iria em paz sabendo que o segundo príncipe estava no lugar certo, aos cuidados de Shion.
Como seu último ato de amor incondicional a Mu, antes de partir ela retirou do braço o próprio bracelete de ouro que a marcava como membro da realeza e o colocou sobre seu lenço vermelho que o embrulhava. Aquele bracelete agora era dele, e como último desejo ela pedira a Shion que mantivesse viva a sua memória, que lembrasse sempre a Mu de onde ele viera e de quem eram seus pais, e do quanto estes o amavam e o amariam para todo o sempre.
— Não. Eu não consigo entender — Mu levantou-se abruptamente num salto, largando o diário que lia no chão junto aos outros — Isso não faz sentido. Não faz a porra de nenhum sentido! Eu não consigo entender!
Shaka sobressaltou-se com o gesto inesperado dele, tão concentrado que estava na leitura.
— Ah, mas eu consigo — disse ele também se levantando abruptamente — o que eu não consigo é aceitar! Como o Grande Mestre pôde cometer tal atrocidade de esconder a sua família de você?
Eles se entreolharam por um momento; Mu parecia mais assustado do que nunca e Shaka começava a temer do caminho pelo qual o seu raciocínio perspicaz o conduzia. Claro, Virgem ainda tinha o privilégio de se deixar conduzir pela razão, diferente de Áries que era a peça central daquele quebra-cabeças, e que devido a isso deixava-se dominar completamente pela emoção.
— Mu — disse Shaka tomando a mão dele e o trazendo para perto de si; tentou acalma-lo lhe afagando os cabelos e o fazendo lembrar-se de que por mais dura que fosse a verdade sobre seu passado, o que importava agora era o presente, e ele estaria ali para ele para todo o sempre — Não pode parar agora... Precisa ser forte, e eu estou aqui com você.
Mu chacoalhou a cabeça se negando a continuar.
— Eu não sei se consigo, ele... ele escreve com tanto cuidado, com tanto sentimento, mas... Pelos deuses, ele nunca me contou nada! Ele nunca me disse que eu tinha uma família!
Mu encarava vidrado os olhos do marido; sem nem perceber ele falava alto, enquanto tremia de nervoso e de revolta.
— Até hoje eu não sabia nem mesmo o meu próprio nome... Nem isso ele foi capaz de me falar, Shaka! Por todos os demônios do inferno, por que Shion escondeu deliberadamente toda e qualquer informação que me desce qualquer pista da minha origem, da minha família? Pela maneira como ele me criou, e por tudo o que eu vivi com ele, está mais do que claro que ele nunca quis que eu os conhecesse.
— Nunca não seria bem a palavra, né Mu — disse Shaka — já que ele arquitetou todo um modo de você descobrir depois que ele morresse.
Mu bufou de raiva.
— Ele... ele conheceu o meu pai, conviveu com ele na juventude, ele... ele foi casado com a minha mãe! E se ele amava tanto ela, então porque não cumpriu o último desejo dela? E por que ele fez isso com o filho dela?
Shaka percebeu que ele falava atropelando as palavras e sem ao menos respirar, à beira de um ataque de nervos, então o abraçou e o apertou forte contra seu peito, amparando sua nuca com a palma da mão, onde concentrou seu Cosmo poderoso para tentar ajuda-lo a se acalmar.
— Shii, meu querido... respire, Mu... respire...
Mas era difícil para o ariano conter tanto a emoção quanto a raiva e a revolta.
— Eu cresci pensando que fui abandonado, rejeitado, que estava sozinho no mundo — dizia ele agora aos prantos — eu obviamente perdi a mãe cedo, mas havia um pai, um irmão... pelos deuses havia até mesmo uma cunhada!
— Respire, Mu... se acalme.
Aos poucos Mu conseguiu controlar a respiração e a explosão, porém não a revolta que lhe consumia por dentro.
— Seu eu os conhecesse poderia tê-los salvo... — disse ele inconsolável, e nessa hora Shaka suspirou profundamente lamentando também o destino da mãe de Kiki, que poderia ter sido diferente apenas se Shion não tivesse escondido de Mu seu passado.
— Por que ele escondeu tudo isso de mim, Shaka?
— Eu... eu não sei, Mu.
— Por que eles também nunca me procuraram? Eu não entendo.
Shaka então afastou-se o mínimo para poder olhar nos olhos dele.
— Olha, Mu, decerto a respostas para essas perguntas também estão nesses diários — disse ele — Ainda que de uma forma torpe e totalmente reprovável, Shion quis que você soubesse de toda a verdade, ou não teria escrito palavra alguma, tampouco feito você chegar até elas descobrindo aquela câmara... Você precisa continuar.
Mu bufou alterado novamente.
— Porra!
— Arê! Palavra chula!
— Ei quis dizer que você tem razão. Precisamos chegar fundo nisso.
Mu suspirou cansado e ainda revoltado, agradecendo internamente por Kiki estar passando o dia fora com o padrinho Afrodite e a tia Geisty lá no Templo das Bacantes; as garotas do bordel, que sempre adoraram o garotinho, sentiam saudades dele e preparam um dia de comilanças e brincadeiras para comemorarem sua recuperação.
— Sim, nós precisamos.
Mu respirou fundo e soltou o ar inflando as bochechas.
— Certo... vamos continuar. Me ajude a separar o que já lemos dos diários não lidos e procurar os trechos relevantes.
Com um aceno de cabeça, Shaka concordou com o marido e rapidamente eles reorganizaram mais uma vez os muitos volumes de livros autobiográficos de Shion.
Ao separa-los e eliminar os já lidos ambos notaram um fato curioso.
O velho mestre havia vivido quase trezentos anos, e embora Mu tivesse aparecido em sua vida apenas nas décadas finais, havia uma quantidade muito maior de diários para ler.
Na verdade, quase um terço dos livros ainda estava intocado; uma dica explícita do quão agitados por ocorrências ou emoções importantes foram os anos finais da vida de Shion, culminando justamente com o aparecimento de Mu.
***
Glossário do Shionês Arcaico
Acrimônio – de sabor azedo
Adstrito – ligado à; que pertence a algo ou alguém
Aguça – pressa; impaciência
Alvíssaras — expressão de alegria por notícia recebida.
Asinhas – depressa; ligeiro
Avito — antigo
Cartapácio — livro
Chistoso — engraçado, feliz, alegre
Derribar – causar destruição; esmorecer
Eflúvio — cheiro
Esgares — trejeitos, gestos, caretas, aparência
Fadário — destino fixado por um poder sobrenatural e ao qual não se pode fugir; vida trabalhosa
Fenecer — morrer
Filaucioso – presunçoso; vaidoso; que se acha
Homizio – lar; lugar de origem; fortaleza; abrigo
Ígneo – próprio do fogo; que remete ao fogo
Janota — bem vestida.
Nitidificar — tornar nítido
Opróbrio – que tem má fama; infama; desonra
Prolegômeros — princípios
Sumidade — indivíduo que se destaca por seu saber ou seu talento
Ufanista — aquele que se orgulha de algo de forma exagerada
Veneta – loucura; ataque de loucura
Vetustos — velhos
** Extras**
Casas: Casa de Jamiel – Casa de Lua Pele. É como os muvianos denominam as vilas fundadas somente por eles. São suas cidades ocultas. Você pertence à ela se você nasceu nela. É sua origem de nascença.
Lua pele — Vulcão/ Cratera de fogo Lua = buraco, Pele = fogo, também é o nome da deusa do fogo que mora no Kilauea.
Linhagem Menehune: Linhagem muviana que se refugiou nas ilhas polinésias quando o continente de Mu afundou; vivem em sua maioria atualmente no Havaí, onde fundaram a “Casa de Lua Pele”. Incorporaram o idioma Havaiano em sua cultura, assim como os humanos locais acabaram criando lendas sobre esse misterioso “povo anão” que mora nos túneis ocos de lava.
Essa linhagem tem um potencial maior para os poderes da raça, sendo particularmente muito poderosos. Como consequência desse potencial apresentam crescimento físico mais lento, atrasando a puberdade. Por isso ficam pequenos, baixinhos e com aparência infantil por mais anos que muvianos de outras linhagens. Mu é um excelente exemplo Menehune quando aos dezoito anos já era cavaleiro, forte telepata e telecinésico, mas sua aparência ainda era equivalente a uma criança de pouco mais de oito anos. Seu pai Atla também. Nos eventos da guerra Santa de seu tempo ele já era um adolescente (nos termos de sua raça) e ainda conservava a aparência de uma criança.
Nomes da família do Mu e seus significados:
Sobrenome do pai, Nawao - Família principal descendente direta dos lemurianos que se refugiaram na grande ilha do Havaí. Fazem parte da linhagem Menehune. Os locais (humanos) acabaram criando lendas e histórias sobre os lemurianos habitantes dos túneis levando a uma pequena confusão de termos. No geral o povo havaiano acredita que existem duas populações diferentes habitando o subterrâneo, nomeando como Menehunes quando avistam os ”pequenos” e Nawao quando avistam os “grandes”. Mas é apenas confusão e ignorância cultural, o mesmo fenômeno que levou Avenir a ser conhecido como Yeti, pé grande, na Sibéria. Na verdade Menehune é uma linhagem de sangue, uma característica e Nawao o sobrenome de uma família específica.
Sobrenome da mãe, Lemur – Exclusivo para a monarquia. É o nome que leva os descendentes dos reis que comandavam a capital do continente de Mu, Lemúria!
O bracelete que Yuzuriha usa, e que deixou para Mu, é o equivalente lemuriano de uma Coroa.
Yuzuriha e Atla nomearam os filhos baseado nos locais onde nasceram:
Mu:
Jamielson Mu Nawao Menehune Lemur do Clã Alquimista da Casa de Jamiel
Jamielson = Filho de Jamiel (Jamiel + son = filho)
Mu = Além de homenagear o continente de origem, é uma lembrança de que ele é o herdeiro do Palácio de Mu em Jamiel.
Irmão do Mu:
Mauna Pua Nawao Menehune Lemur do Clã Alquimista Casa de Lua Pele
Mauna Pua = Filho da montanha (Mouna = montanha + Pua = filho). Ele nasceu nos tuneis da montanha de Mauna Kea, maior montanha do mundo desde a base submersa e que era uma parte do continente de Mu que restou na superfície.
Pais:
Yuzuriha Lemur do Clã Alquimista da Casa de Jamiel
Atla Nawao Menehune do Clã Alquimista da Casa de Lua Pele
Spoiler — Mãe do Kiki:
Lua-nu'u Menehune Clã Pescador da Casa de Lua Pele
Lua-nu'u – significa habitante/ sobrevivente de Mu — lemuriano em havaiano
Lua-nu'u não tem sobrenome de família pois não nasceu de família importante, apenas se identifica como uma lemuriana comum da linhagem Menehune.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic e com as capas e seu Twitter
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