Tempestuoso

9 Sangue e Milho para as Vadias


Notas iniciais
Postando da casa da amiguinha, Gabi com a participação da minha antiga beta Lara. Desculpa a demora, estou muitíssimo ocupado. o próximo vai ser nesse prazo. Shuahuahauhauahu. Agradeço a Dani, ela betou esse pq meu beta estava ocupado. Ainda te amo Incon. Les Miserables - I Dreamed a Drem https://www.youtube.com/watch?v=WzNVmZfNoa8

— Vai ter sim. – Disse convicto.

Vick acabara de me dizer que estava grávida e que recorreria a um aborto para se livrar daquela situação. Ela me olhou pasma pela última frase dita, o rosto era molhado pelas incessantes lágrimas.

— Isso não é você que decide. – Quem me respondera fora Camille. Ela tinha uma expressão fria, como se eu tivesse acabado de dizer um disparate.

— Não se trata mais apenas da vida dela. – Reforcei, aproximando-me de Vick.

— É o corpo dela. – Cami retrucou.

— O filho, não. O pai, ou melhor, Marc tem que saber disso.

— Feto. – Vick murmurou decisiva.

— Seu filho.

— Feto, não vou me apegar à isso. – Tocou o próprio ventre.

— Possui vida e o seu sangue, o nosso sangue. – Tentei lhe tocar o ventre, porém ela repudiou o toque.

— Não vou tê-lo.

— Matará o próprio filho?

— Não existe nada aqui, a não ser um amontoado de...

— Vida. – Completei o que não seria essa palavra.

Consegui mudar a feição de minha irmã, poderia até dizer que uma singela culpa lhe passou pelos olhos.

— Só será vida se ela assim desejar. – Cami se intrometeu, acho que lhe lancei um olhar perigoso de reprovação.

— Não pode decidir isso por si só.

— Acho que ela já deve ter maturidade para isso.

— Não sei o que fazer. – Vick gemeu enquanto eu discutia com Camille.

Percebi que o momento não era o melhor para debater a questão e eu também não era o mais adequado para isso, o papel pertencia a Marc, ainda leigo sobre tudo.

Fiz a única coisa que poderia fazer no momento, abracei minha irmã com todas as forças. O toque lhe foi inesperado, tanto que a primeiro momento ficou estática sem retribuir a carícia, no entanto, este estado não perdurou muito. Logo ela me abraçou com convicção. Um contato caloroso e de entrega, onde ela não me disse nada e ao mesmo tempo tudo.

Ficamos por um tempo assim, o que deve ter causado desconforto em Camille, por ficar excluída.

— Vai ficar tudo bem. – Sussurrei no ouvido de Vick, ainda sem soltá-la.

— Não vai. – Ela chorava no meu ombro, fazia um singelo esforço de se abaixar pela diferença de alturas.

— Tenha fé que sim. – Finalmente lhe soltei.

— Obrigada. – Ela falou. – Por se importar.

Estava constrangida, seria um arrependimento?

Não lhe respondi com palavras, somente lhe dei o sorriso mais positivo que poderia fazer. Foi o suficiente para fazê-la melhorar um pouco. Nossa relação fraternal estava longe de ser a mais afetiva.

— Acho melhor eu ir limpando a bagunça. – Camille falou pegando as embalagens dos testes de gravidez, eram muitos, cerca de dez.

Me aproximei dela e lhe perguntei quase inaudível.

— Ela fez todos?

Camille balançou a cabeça positivamente.

— Todos deram positivo?

— Sim. – Ela me encarou. – E como amiga dela, sugiro que não palpite sobre o feto.

Também se referia à criança como “feto”. Quando aceitariam que o “feto” era uma vida? Enquanto conversávamos Vick tentava se recompor, lavava o rosto, se encarava no espelho e não nos reparava.

— Até algumas horas atrás você se referia à minha irmã como uma vadia. Pouco sei da relação turbulenta de vocês, então não diga sobre como devo trata-la.

— Você está colocando pressão na cabeça dela, como se tivesse pouca. E está certo, não sabe nada da nossa relação.

— Assim como não sabe sobre a minha e a dela.

— Sei mais do que imagina. – Sua expressão era ardilosa e a minha deveria ser a de dúvida.

— Acho melhor irmos... – Vick nos chamou, impedindo-me de dizer qualquer coisa.

Saímos do bainheiro feminino alarmados com a passagem de alguma Irmã e seguimos para o dormitório. No caminho, surpreendendo-me Vick entrelaçou sua mão na minha, o que não era do seu feitio. Na bifurcação dos dormitórios nos despedimos, e novamente fui surpreendido com o beijo que recebi dela, que seguiu abraçada de lado por Cami.

Como um gato desconfiado, voltei ao meu quarto, pois já passava do toque de recolher. Ninguém estava no salão ou corredores.

— Demorou. – Foi a minha palavra de recepção.

Não respondi a Yerik. Ele estava vestido com pijamas de verão: um short azul marinho que estava na altura da metade das coxas e uma regata de algodão acinzentada.

Passei por ele sem lhe responder. Queria fazer uma coisa que não fazia há alguns dias, escrever na minha caderneta. No novo quarto, havia a escondido no armário de roupas, no bolso interno de um casaco grosso de inverno.

Não me importei com a presença de Yerik. Sentei-me na minha cama para escrever, tinha prendido a caneta na própria caderneta. O búlgaro me observava, analisava-me para dizer a verdade. Os olhos acompanhavam os movimentos dos meus dedos no papel, poderia estar até tentando ver através dele o que escrevia.

Muita coisa acontecera em tão pouco tempo, em tão poucas horas. Minha irmã estava grávida, e queria abortar. Minha melhor amiga era uma “vadia” sem coração. Desejei ter minha mãe naquele momento, sua ajuda seria útil para classificar os tópicos, ver todas as possibilidades, e me ajudar com minha dualidade. Está seria a primeira vez que escreveria só nomes.

Yerik — Ruim

O fato de ter me contado sobre Vick poderia tê-lo feito aumentar um crédito comigo, porém não mudava o fato dele ser uma pessoa ruim. Ele era uma confusão mental para mim. E eu não gostava de confusões.

Cami — Ruim

Camille, não me transparecia confiabilidade. Eu não acreditava que o simples fato de minha irmã ter lhe pedido ajuda, tenha sido o suficiente para ela esquecer todas as desavenças. Para mim, ela possuía um interesse oculto por trás da boa ação. Além de que seus conselhos para Vick não eram, ao meu ver, sensatos.

Sam – Bom

Sam era a minha mais nova incógnita. Sentia sinceridade com sua culpa em relação aos garotos, principalmente com Harry. Porém, me custava pensar que ela não poderia ter evitado tudo aquilo. Até mesmo me sentia culpado, pois se não a tivesse beijado na frente de todos, o problema poderia ter sido resolvido de outra forma.

Minha irmã havia me precavido de Sam, avisando-me de sua fama. De início ignorei, mas agora já considerava a possibilidade de ser tudo verdade. Eu gostava muito dela e sentia que a amizade dela me valia muito a pena. Por isso ainda era bom.

Alex – Bom

Ele tinha uma estranha aura, sempre carregada de muita frieza e seus olhos transmitiam isso. Nem sabia se poderia considerá-lo um amigo, no entanto, já o considerava. A relação não saía da superficialidade, mal se conheciam. Por tanto, não havia o que temer ou julgar ruim.

Mick – Bom

Meu melhor amigo poderia ter seus problemas, mesmo que graves, mas isso não mudava o que eu sentia. Na realidade, como seu amigo deveria ajudá-lo a melhorar e a se livrar de todos os pecados que o cercavam e cometidos. Queria muito vê-lo, porém este ainda insistia em manter o anonimato. Tinha minhas teorias sobre sua identidade, esperava estar errado.

Vick — ?

Creio que a incógnita nunca mudaria, as pessoas dificilmente mudavam. Se fosse honesto comigo mesmo e menos compassivo mudaria aquele resultado, mas preferia isso ao pior. Pensei nos problemas que minha irmã enfrentaria e isso ficava acima de tudo.

Preso nos meus devaneios, não percebi uma perigosa aproximação. Ao notar, fora tarde demais. Com um único puxão Yerik pegara a caderneta de minhas mãos e colocou-a em altura superior do meu alcance.

— Devolva! – Gritei ao levantar com um pulo da cama.

— O que guarda aqui, “Bleika”? – Encarava-me com uma expressão de divertimento.

Não era o momento mais apropriado para brincadeiras e nem a mais apropriada. Poucas coisas me tiravam o controle, e uma delas era mexer em minhas coisas. Odiava.

— Me devolva a caderneta.— Tentei soar calmo, falhando.

— Vejamos... – Ainda fora do meu alcance, ele começou folheá-la.

— Não! – Esbravejei, antes de ir pra cima dele.

Era meio óbvio que eu partiria para cima dele, por isso ele conseguira desviar com facilidade e elevando ainda mais o objeto no processo.

— Devolve! – Toquei-lhe nos braços tentando abaixá-lo até uma altura confortável.

— O que esconde de tão importante, por essa reação? – Yerik andou para trás enquanto o seguia.

— Não estou brincando! – A cada tom minha fala se elevava, notei isso ao perceber que gritava.

O divertimento em sua face era como combustível para minha raiva interna que queimava. Iniciamos uma perseguição pelo quarto, ele corria e tentava ler ao mesmo tempo e eu me limitava a persegui-lo, torcendo para que não o conseguisse.

— É um diário?

— Não!

— Mentiroso. – Acusou-me.

— Você é burro, surdo ou o quê? Já falei para me devolver e isso é uma caderneta! – Com certeza, eu já estava vermelho.

— Interessante... E a usa com qual finalidade?

— A uso para idiotas pegarem-na e ficarem me perguntando isso.

— Mal criado, vou confiscar isso. – Ele parou bruscamente.

Mal tive tempo de digerir as últimas palavras e por instinto pulei em suas costas, envolvendo-o com as pernas. O braço da mão que segurava minha caderneta ficou balançando de modo grotesco, na tentativa de desviar das minhas investidas. Forcei meu braço contra sua cabeça para que lhe causasse desconforto.

— Está me machucando. – Falou entre dentes.

— É essa intenção, devolva-me.

— Esforce-se mais.

Dei um brande solavanco dele, mais especificamente no seu pescoço.

— Também posso fazer isso...

Esse deveria ter sido um aviso. Com um rápido movimento para trás, ele chocou abruptamente minhas costas contra a parede. O impacto foi tão grande, que deixei escapar uma lamúria pelos lábios.

— Doeu? – Perguntou sínico.

— Não o suficiente para te soltar! Devolva-me. – Prendi-me ainda mais à suas costas.

— Deixe-me ler um pouco antes...

Desta vez fiz o máximo possível de força para fazê-lo sentir dor, e novamente ele fez um movimento brusco. Sua cama estava próxima de nós e ela foi o nosso destino com o último movimento. Por sorte, o colchão era macio, diferente da parede, e o choque quase não fora percebido.

Ele caiu sobre mim e seu corpo e se fez de prisão, prendendo-me.

Nossos olhos cruzaram-se, e não pude deixar de notar a beleza naquela imensidão azul. Sempre os achei belos, mas dessa vez, eles me pareceram ainda mais. Poderia ficar dias, décadas ou até séculos olhando-os e não me cansaria. As nuances intensas de azul possuíam sutis filetes de verde. Suas pupilas estavam dilatadas.

Tudo contribuía para a beleza. Pela aproximação, pude reparar em alguns detalhes como as imperfeições provocadas pela idade e as poucas sardas que cobriam o nariz e as maçãs do belo rosto. Seus lábios não eram grossos nem finos e os caninos salientavam-se, o sujeitando a uma constante vermelhidão. Notei que também me reparava, pois tinha desviado o olhar. Registrava-me como uma câmera ultramoderna, a cada microssegundo guardava uma feição. Em um determinado momento de nossa contemplação, ele fixou a atenção nos meus lábios, parecia hipnotizado. E eu não estava muito diferente disso.

Seus dedos se afrouxaram da Caderneta, nem me lembrava mais do porquê dela estar ali. Mal piscávamos. Nossas respirações descompassaram-se, parecia que nem todo oxigênio presente no universo seria suficiente para nos suprir.

Yerik aproximou-se, a distância antes curta se tornou quase inexistente, não existia espaço pessoal. Ele entreabriu os lábios, e eu já sabia o que esperar e por um segundo, almejei.

— O que pensa que está fazendo? – Lhe perguntei rispidamente, após um momento de lucidez.

Ele era bom em esconder seus sentimentos, pois logo em seguida sua face tronou-se indecifrável.

— Não sei. – Foi o que conseguiu responder antes de se levantar.

Uma profunda culpa me dominou. Levantei-me e corri para pegar o terço de contas brancas preso em minha cama. Ajoelhei-me no chão e fiz uma sequência de preces ao lado do móvel. O que havia pensando era uma série de pecados carnais bestiais.

Yerik não disse nada ou fez menção de me interromper. Passei a noite rezando. Por mais que me entregasse à oração, os pensamentos não me abandonavam. Em um determinado momento iniciei um choro mudo, torcia para que ele estivesse dormindo e não me visse naquele estado.

Na manhã seguinte, eu ainda estava de joelhos apoiado na cama, estes doíam. Havia adormecido em algum momento, dormindo em uma posição desfavorável. Meu corpo denunciava isso com o desconforto muscular, mais proeminente no pescoço. Os óculos tinham caído e por isso minha visão estava embaçada. Apalpando pelo colchão na tentativa de encontra-los, encontrei o motivo da discórdia de outrora, a minha caderneta e meus óculos ao seu lado.

O coloquei na face e vi que meu objeto estava aberto e em uma página estava escrito isso:

“Desculpe-me por ontem, exaltei-me. Espero que as coisas mudem, mas para melhor. Não li seu diário/caderneta, apesar de estar escrevendo nele. Desculpe-me.”

Por sorte, Yerik já havia saído do dormitório.

—x-

— Acredito que a Srta. Margot tenha acertado nas suas escolhas. – Sam falou enquanto caminhávamos.

Os testes para os papéis haviam acabado de acontecer e eu não estava feliz com o meu.

Estávamos no corredor do quinto andar de ciências humanas do prédio principal, era ali que ficava o armário de Sam. Ela tinha pedido a minha companhia e a de Beth para não ir sozinha. Faltava pouco para servirem o jantar.

— Gavroche não é de todo mal. – Beth tentava me consolar.

De certa forma ela estava certa. Gavroche não poderia ser o protagonista ou o principal, mas sua participação era muito relevante e vital muitas vezes. Ele era um moleque morador de rua, todo sujo e que não tem um dos finais mais felizes da obra, fato não muito difícil se tratando dos Miseráveis.

— Acha que eu tenho cara de pivete? – Meu humor não estava em um dia dos melhores, devo ter soado ríspido.

— A incorporação masculina do amadurecimento é que não parece. – Beth foi sincera.

Bufei frustrado.

— O acho o suficientemente maduro para acha-lo bonito. – Sam me causou constrangimento.

Era a primeira vez, desconsiderando os beijos, que ela dava em cima de mim diretamente. E foi a primeira vez que me toquei sobre isso e me vi sem saber como reagir àquela investida.

— Pelo menos conseguiu o papel que queria. – Foi o que consegui dizer.

Pela sua expressão não era exatamente o que queria ouvir, porém foi o suficiente para tirar-lhe um sorriso.

— Joanne está inconformada. – Beth nos lembrou.

— Não posso nem dizer que lamento, pois não lamento. Queria muito o papel.

A disputa pelo papel da Fantine havia sido acirrada pelas duas. Joanne possuía a delicadeza e o timbre diferenciado na voz. E Sam, a técnica em manter as notas com precisão, apesar de não ser excepcional. No final, a técnica se sobressaiu e Sam ficou com a personagem. Joanne ao receber a notícia simplesmente virou as costas e saiu do palco, sem cerimonias, uma atitude julgada por muitos como um show de estrelismo que ela não tinha.

— Alguns perdem, outros ganham. É a lei da vida. – Beth falou longínqua.

— Não acredito que perdi para ele. – Soltei uma grande lamúria.

— Não se preocupe, tem dois musicais por ano. O do semestre que vem você consegue o papel que quiser e se ainda tudo der errado nesse, tem outros seis pela frente. – Sam quis soar otimista.

— Só queria que não fosse ele. Também concordam que ele combina mais com o papel?

— Olha... Eu acho que cada um tem o seu biótipo e o personagem que melhor se adapta. Marcus é um personagem meio que... Longe do seu biótipo. – Sam criou delongas, sua expressão era quase de compadecimento. Uma ruga lhe dividia a face.

— O que ela quis dizer é que sim, ele combina mais com o papel que você. – Beth foi certeira na resposta que no meu intimo já sabia e que a Srta. Margot evidenciara na sua escolha.

— Outros personagens viram... – Sam se aproximou do seu armário, ele era quase no fim do corredor perto da última sala.

Suspirei, sentia-me decepcionado comigo mesmo. Nunca fui de ser muito competitivo, mas naquela audição algo mudara, estava com muita gana. Treinei durante os tempos livres, estava até um pouco confiante e no final, não conseguira.

— Pelo menos Gavroche tem cenas com Eponine. – Sam piscou para mim.

— São irmãos. – Beth justificara.

— Marcus teria mais...

— Compartilhemos então as cenas da vida real. – Falou ao abrir o armário.

Uma enxurrada de amarelo quase dourado saiu por ele e quicou pelo corredor, espalhando-se por este. O fluxo seguiu se por um tempo, era milho. Deviam ter lotado todo compartimento pela quantidade emanada.

Os grãos escorriam pelas pernas de Sam. Ela estava estática, parada de costas para nós em choque. Os únicos movimentos era o do seu peito, a respiração estava começando a ficar descompassada. A mão que segurava a pequena porta começou a tremer, consequentemente fazendo oscilações.

Olhei para Beth, ela parecia tão surpresa e não enérgica como eu.

— Sam-m. – Gaguejei ao tentar tocá-la.

Ela somente balançou a cabeça negativamente cabisbaixa, não podia vê-la, porém sabia que chorava ou estava prestes a isso. Iniciou uma tosse seca e incessante, que a fez apoiar-se no joelho tentando recuperar-se.

A porta da sala mais próxima a nós explodiu. Ou melhor, foi o que pareceu quando outra enxurrada saiu por ela, mas desta vez não era de milho, e sim de líderes de torcida, em torno de vinte e cinco. Todas devidamente uniformizadas com as cores escolares e os cabelos presos em diferentes modelos de rabo de cavalo. Camille as liderava, era a capitã. Com as mãos bem fechadas, não demorara em entoar os seguintes versos:

“Olha a Samantha

é uma piranha.

Olha essa menina

é uma galinha.

Segure as asinhas,

ou vai queimar a periquita.”

Repetiram diversas vezes até que Sam virasse e as encarasse. Pude ter a confirmação do que pensara, o seu rosto estava lavado por lágrimas e a pouca maquiagem borrada que usava. Pelo pouco que a conhecia, pensei que revidaria a ofensa, porém a única coisa que conseguiu fazer foi chorar mais, se encolhendo no chão em meio aos grãos.

Assim que as animadoras a viram virar, iniciaram um coro de gargalhadas que mais se assimilava ao som de um poleiro. Lucy e Mirna faziam parte da torcida, porém estavam ausentes.

— Alimentem a galinha! – Camille ordenou.

Instintivamente, Beth e eu nos posicionamos de maneira protetora a Sam e recebemos tona a carga da última ordem. Nunca imaginei que líderes de torcida possuíssem mão tão pesada. O motivo por estarem com as mãos fechadas era porque carregavam mais milho e o jogaram contra Sam, ou mais correto, jogaram contra nós.

Sentir o choque de milho na face não estava entre as melhores sensações do mundo ou sensações que todos devem ter antes de morrer. A primeira carga acertara Beth e eu no rosto. Cami fora certeira na sua, a única a acertar Sam. Sabiamente viramos contra elas, fazendo com que as próximas cargas nos acertassem nas costas.

— Por que fazem isso? – Beth gritou a pergunta na última leva que recebíamos.

— Alimentamos os animais. – Cami lhe respondeu debochada, fora a primeira e a última a jogar.

— Então estejam servidas. – Beth fez um gesto ao nosso entorno, cercado pelo dourado anterior e jogado agora. – Tem alimento para todas vocês.

— Só vejo uma galinha, uma pata e um franguinho. – Cami nos ofendeu.

— Eu, um poleiro todo. – Falei pensando alto demais.

— Como disse? – A loira surpreendeu-se.

— Exatamente o que ouviu. – Me mantive firme.

— Tem que fazer isso para se sentir melhor? Pois é muito onipotente.

— Faço isso porque amo minha amiga.

— Ama o que ela faz pra você. Deve ter te ensinado o que é boquete, pois até ontem não sabia.

Fiquei mais vermelho, deveria estar antes pela agressão. O bando de galinhas gargalharam.

Beth tirou o blazer escolar, jogando-o no chão. Escorregando caminhou até Cami, ajustou os óculos para mais junto do rosto, encarou-a e falou sem pestanejar:

— Se sente tão inferior aos outros que precisa fazer tudo isso para se sentir superior. Sei que tudo isso tem dedo seu, porque elas – Apontou para as garotas. – não fariam isso, são burras demais para se organizarem e serem tão cruéis...

— Estão aqui por mim sim. – Interrompeu.

— Por que está aqui? – Beth a encarava enojada.

— Senti que precisava dar um choque de realidade na cadela.

— Se dedique a algo mais útil, você não é ninguém para julgar qualquer pessoa. Guarde a sua insignificância e leve tua matilha junto.

— Pode deixar já dei o recado. Só não segue o exemplo da sua amiguinha ou nós – Abriu os braços na demonstração de indicação de grupo. – alunas que se presam e de postura, lhes colocaremos no seu lugar.

As duas soltavam faíscas apenas pelo olhar.

— Já que se consideram detentoras da ordem, então você deve ser punida. Não se deseja o companheiro da outra.

Camille não tinha resposta para isso. Todos conheciam o triangulo amoroso entre ela, Vick e Marc. Não poderia negar isso.

— Vamos, meninas. – Ordenou serrando os dentes.

Virou-se para seguir pelo corredor, mas foi impedida pela protagonista de toda aquela cena.

— CAMILLE! – Sam gritara, somente voltou a falar quando a outra lhe deu atenção. – Pode ter me arrancado lágrimas agora, mas ainda lhe arrancarei as suas. Não pense que estou mal por isso. Está acima de você o que sinto.

Ao terminar limpou a face, devia sentir orgulho de si mesma. Eu sentia, ela não havia se deixado humilhar por inteira. Cami lhe deu um dos sorrisos mais falsos que já vi, parecido com o que dera a Vick ontem e seguiu com o seu bando.

Após a última animadora virar o corredor e estar a uma distância considerável foi que Sam se permitiu desmoronar novamente. Desta vez poderíamos ajuda-la.

— O que aconteceu aqui? – Uma Irmã apareceu, estava perplexa com a sujeira e confusão de dourado. Ela desempenhava o papel de inspetora, não me lembrava do seu nome.

— O pessoal de agricultura extrapolou na produção de milho esse ano. – Beth falou enquanto nos afastávamos.

— Como é? – A Irmã, se possível, ficara ainda mais perplexa com a resposta.

Para escaparmos deixamos o silencio como resposta.

Quem nos guiou foi Beth, segurando a mão de Sam nos levou até os andares inferiores do prédio Principal, passando pelos corredores e dormitórios até sairmos perto do ginásio. Não diminuímos o ritmo até estarmos uma distância considerável de qualquer edificação, em uma trilha nos boques do terreno escolar.

O sol já estava no poente e a copa das arvores fazia da iluminação traiçoeira, propícia a brincar com as sombras. Paramos e sentamos em um banco decrepito verde de madeira descascada e úmida. Em cima dele havia um poste antigo de ferro, de luminária encardia já acesa. As árvores em nosso entorno eram frondosas e espaçadas uma das outras, de folhagem esmeraldina pelo final de verão proeminente. O outono se aproximava e já dava seus sinais, a temperatura de final de tarde encontrava-se em uma linha tênue entre o agradável e o singelo frio desconfortável.

Escutar o soluço do choro de Sam encolheu meu peito, eu sentia sua dor. Ela estava envolvida nos braços de Beth e segurava minhas mãos. Não falávamos nada, Beth e eu sabíamos que naquele momento Sam gostaria de estar sozinhas, mas também gostaria de estar acompanhada. Só para ter a certeza de que tinha alguém ao seu lado sem julgá-la, somente sentir o seu apoio.

Com a chegada dos raios lunares, o frio o acompanhou. A linha do conforto fora ultrapassada e o vento nos causava arrepios.

— Eu mereço. – Sam falou frágil.

— Ninguém merece. – Beth lhe abraçou mais forte.

— Eu brinquei com os sentimentos deles. Mereço a punição, é a lei do universo. Tudo gera consequências, algumas vezes positivas outras negativas, no meu caso foram justamente as negativas.

— Cada um decide acreditar no que lhe é mais conveniente. Eles quiseram acreditar em um amor ilusório, assim como você está acreditando em uma culpa e castigo ilusório. – Falei.

Eu era hipócrita, pois fazia justamente o que criticava. Uma ironia da vida que eu ainda não estava preparado para encarar. As duas encaravam-me impressionadas com minhas palavras.

— Concordo. – Beth falou.

— Minha culpa não é ilusória.

— Qual é sua culpa? Ser uma garota e ter ficado com vários caras? – Beth lhe perguntou.

— Em parte...

— A maioria dos homens fazem isso. No coral mesmo temos o Marc e ninguém joga milho nele, apesar de merecer. Pois esse sim brinca com os sentimento alheios.

— Mas...

— Abra sua mente e pare de reproduzir o machismo consigo mesma. Fique com vários caras, ou só com um. – Beth olhou para mim, e não pude deixar de ficar constrangido. – Viva e se julgue menos, porque as outras pessoas já fazem isso por ti, sem você pedir ou dar permissão.

Um sorriso fraco botou nos lábios de Sam.

— Eu sempre estarei aqui com você. – Toquei sua mão com mais força e lhe dando um sorriso.

Minhas palavras eram sinceras, não abandonaria Sam. Não a deixaria só, eu sabia como era passar pelos problemas na solidão, não era bom.

— Nós estaremos aqui. – Beth deu ênfase no “nós” ao colocar a mão em cima das nossas;

— Obrigada. – Sam nos deu um beijo na bochecha e um abraço.

Permanecemos abraçados por um momento.

— Por que Cami lhe fez isso? Não acredito no simples argumento que ela deu. – Perguntei.

— Não sei... Cami nunca foi a pessoa mais cristalina do St’Agnes.

— Como assim?

— Bem, no primeiro ano ela era um patinho feio que seguia a sua irmã como uma sombra. Usava aparelhos e os cabelos eram mais escuros, mas sempre fora uma excelente ginasta. As pessoas viviam dizendo que a companhia da sua irmã com ela era prejudicial, mas Vick sempre fora popular. No segundo ano, Camille voltou toda linda, loira platinada e sem aparelho. É possível ver que os dentes dela são um pouco para frente, tirou antes do tempo. Muitos dizem que a Vick a transformou na nova Cami, lhe deu um banho de estética e por influencia a colocou na torcida. Como te falei, Cami sempre fora excelente ginasta só que era feia, foi reprovada na primeira vez.

— Está dizendo que Camille Bernard é uma boneca maligna montada pela irmã dele? – Beth lhe perguntou.

— Sim. Camille criou quase que uma nova personalidade, antes ela era reservada, hoje em dia extravagante. Tínhamos até uma relação razoável, sempre pertencera ao Coral, Marc também sempre foi. Cami que apresentou ele a sua irmã e os fez um casal...

— E depois ficou com ele. – Falei.

— Sim. Mas isso foi na metade do ano passado.

— Qual é o signo dela? – Beth perguntou aleatoriamente.

— Áries.

— Droga!

— O que foi?

— Pensei que era de Libra, mais suscetível a influencias. – Beth soou desgostosa. – Preciso reavaliar minhas reavaliações astrológicas, pois errei feio nessa. – Falou mais consigo, do que com a gente.

— A bruxinha não acerta sempre. – Falei em meio sorriso.

— Cuidados com a saúde. – Falou novamente aleatoriamente.

— O que? – Sam lhe perguntou.

— Os dois devem cuidar melhor da saúde. Os astros indicam momento propicio para isso. – Beth olhava para o céu.

Sam e eu a imitamos. Eram poucas às vezes em que nos permitíamos fazer algo tão simples, puro e belo, como admirar o céu. Uma ação tão banal que não fazíamos pela falta de tempo. Contemplar aquela vastidão dava-me o sentimento de infinito. Acho que era assim que Beth se sentia na maior parte do tempo. O céu já estava escuro como um veludo azul escuro salpicado de prateado, as estrelas, visíveis pela distância que nos encontrávamos dos grandes aglomerados urbanos luminosos.

— É tão bonito. – Sam falou, e uma lágrima lhe escapuliu por um dos olhos.

Com as costas de minhas mãos lhe limpei a face.

— Sim é muito bonito. – Concordei.

— Será que quando morremos poderemos alcançar e tocar as estrelas? – Seu olhar ainda estava perdido na vastidão.

— Acredito que podemos virar uma após a morte. – Beth soou quase infantil, considerei uma das coisas mais belas que já escutara na vida.

Uma brisa fina e cortante como uma navalha passou por nós arrepiando. Aconchegamo-nos um no outro por um tempo. Aproximação gerou um calorzinho gostoso, como o de uma lareira nas reuniões familiares em noites frias de inverno.

— Acho melhor irmos para jantar antes que acabe a comida e o resfriado de Sam piore. – Falou, levantando-se adiantada.

— Não aguento mais essa gripe, há meses estou com ela e não melhora.

— Vá ao médico. – Falei.

— Vou fazer isso depois das festas. Sabe que estamos proibidos de sair nos finais de semana.

— Te deixariam por esse motivo.

— Sim, porém não faz muita diferença esperar mais quatro meses.

— Você que sabe... Vamos indo que estou faminto. – Falei.

—x-

Quase dois meses se passaram sem muitos acontecimentos. Minha convivência com Yerik beirava a civilidade, ao menos dávamos “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”, porém nos mantínhamos afastados, ignorando um ao outro. Isso não me incomodava a maior parte do tempo, somente em alguns momentos.

O inverno se aproximava cada vez mais, os bosques dos arredores já estavam quase totalmente desnudos ou com poucas folhas ambares. Era um cenário bonito, ver as folhagens voando pela janela com os ventos frios. Ocasionalmente uma chuva fina caía.

Por sorte e pela restrição escolar de saída, Vick não pudera procurar um método para resolver seu “problema”. Eu orava todos os dias para que uma iluminação surgisse na sua mente e a impedisse de cometer tal sacrilégio. Quem voltara a ser seu braço direito foi Camille, que estava sendo uma boa amiga na maior parte do tempo.

Ela conseguia disfarçar as saídas sorrateiras de Vick para poder vomitar, por sorte a gravidez não era as das mais enjoadas. Porém para evitar comentários maliciosos, Cami a defendia ou roubava a atenção para si. A reaproximação das duas fora o assunto mais comentado durante um mês, não era todos os dias que rivais de um dia para o outro passavam a andar abraçadas pelos corredores.

Eu desempenhava o meu papel de irmão, sempre que possível ficava ao lado de Vick. Apesar de sofrer certo repudio, sempre justificava que eram os hormônios e pressões. E era o que Lucy e Mirna me diziam também, elas sofriam, só que menos que eu. Para Vick o único apoio que poderia ter era o de Camille.

— Se quer resolver isso terá que ser em breve, pois daqui a pouco completa três meses e será mais complicado. – Cami falou enquanto estávamos nós cinco sentados em um banco no jardim de inverno escondido das irmãs.

O ambiente era todo composto por vidro e metais de coloração branca. Lindo, com teto em formato de redoma. As plantas eram uma variação de ervas medicinais e flores de paisagismo, e essas deixavam o lugar com uma variação gostosa de aromas doces.

— Eu sei, só que...

— É difícil. – Completei.

— Nem tanto, existem alguns métodos...

— Ela se refere a aceitar a fazer o aborto. – Mirna esclareceu.

As animadoras já haviam se adequado ao clima, já não usavam mais o uniforme mais leve, estavam com uma blusa de mangas compridas e por baixo da saia vestiam uma calça legging.

— É a escolha certa. – Cami prosseguiu.

— Nem sempre. – Suspirei para mim.

— Precisa avisá-lo. – Mirna voltou a falar.

— Não! Ele não precisa se envolver nisso, é uma escolha só minha. O conheço...

— É direito, o bebê é de vocês. – Falei.

— Não se refira com carinho a isso, logo vai embora. – Vick fez uma pausa. – Nesse final de semana. – Terminou convicta.

— O que tem no final de semana? Festa do Dia das Bruxas? – Lucy perguntou. Ela era um pouco lenta em captar entre as entrelinhas ou coisas sugestivas.

Vick esboçou um sorriso simples.

— Não, tapada. Vick vai resolver seus problemas. – Mirna lhe respondeu ríspida, a lerdeza da irmã não lhe deixava com muita paciência.

Era 30 de outubro, sexta-feira, seria amanhã pensei. Com a proximidade fiquei ainda mais nervoso, nos últimos tempos havia tido a esperança de mudar a ideia de Vick. Só teria dois dias para tentar fazer o impossível.

— Vick? – Lhe chamei a atenção. – Gostaria de ver um dos ensaios amanhã?

— Por que eu iria querer ver um?

— Não sei, pode me ajudar com alguma crítica... – Tentei soar o mais despretensioso possível.

Mirna e Cami me analisavam desconfiadas e Lucy estava perdida no vácuo.

— No ensaio não tem nada demais. – Cami falou olhando para Vick.

— Queria muito que você fosse. – Lhe fiz cara de pedinte.

— Está bem. – Se deu por convencida. – Que horas?

— Ás nove da manhã.

— Aparecerei ás dez.

— Tudo bem.

— Poderá me ver também, amiga. – Cami lhe abraçou.

Aquela demonstração de afeto era-me tão estranha, como imaginar líderes de credos diferentes se abraçando.

— Minha barriga já é proeminente? – Vick perguntou.

— A sua não, mas a do seu irmão sim. – Cami respondeu rindo.

Fiquei constrangido.

— Falei que a comida daqui era pesada.

Eu havia ganhado alguns quilos, isso começara a me preocupar. Porém ainda não tinha tido tempo para refletir melhor sobre isso. Minhas calças já ficavam um pouco mais justas e ela estava certa, uma barriga já começava a se tornar proeminente.

— Vou me regrar melhor. Prometo-lhe.

— Se você não se regrar, a escola fará isso por você. – O semblante de Vick era preocupado, ela devia estar pensando que tudo estava se reiniciando.

— O que quer dizer?

— Viu muitos alunos acima do peso? – Mirna me perguntou.

— Não, mas eu não ando muito pelo colégio para ver todos.

— Não. Você não vê porque não têm. St’Agnes é bem preocupado com a saúde dos seus alunos, ao verem alguém acima do peso logo os colocam em algum esporte e muda a alimentação.

— Isso é algo bom. – Falei.

— Nem sempre. Você não tem muito controle sobre isso, já imaginou fazer algo que detesta? Perder o controle do que come? – Ela continuou.

Fiquei calado.

— O melhor a fazer é se controlar. – Me preveniu.

—x-

Ensaiávamos durante quase todo o dia dos finais de semana e também nas tardes de quarta. Faltava um pouco mais de um mês para a estreia da peça. O pessoal nos bastidores estavam a todo vapor como os do palco, uma boa construção de cenário e sonoplastia era primordial.

Para os respectivos papeis: Jean Valjean, Fantine, Cosette, Javert, Enjolras e Eponine ficaram com Steve, Sam, Georgina, Zach, Jesse e Maggie. Surpreendendo-me e aos demais, Steve conseguira assumir uma postura mais dramática na sua audição, bem diferente da sua descontraída do dia-a-dia. Ele era um ótimo ator, não foi surpresa após ver sua atuação e constatar que ficara com o papel.

Cosette tinha sido também uma personagem de segunda fase de audições. A disputa fora com Cami e Georgina. Todos apostavam na primeira, só que não previram a doçura que a segunda conseguia transmitir. Sua voz fora tão angelical e sofrida que quase levara muitos as lágrimas, Camille não teve chances. Ela ficou com muita raiva, bravejou e proferiu várias pragas contra a rival, declarando guerra.

Jesse tinha disputado o papel comigo e Yerik. A Srta. Margot gostara tanto dele que só não lhe dera o papel porque possuía pouca presença no palco, por isso ficou com um secundário. Ele era realmente encantador, possuía os olhos lindos por baixo dos óculos, aceitaria se tivesse ficado com o personagem.

Eu tinha que admitir, Yerik fora perfeito na sua apresentação. Não desafinara, tinha presença, o rosto e o corpo de protagonista, sua namorada seria o seu par. Tudo havia lhe caído muito bem.

Na minha apresentação, eu dei tudo de mim. Não possuía arrependimentos, a não ser por ter escolhido uma música que valorizasse melhor o meu timbre. Tentei transmitir o que considerava o melhor de Marcus, mas segundo a Srta. Margot esse melhor não era suficiente. Faltava-me virilidade, ainda era muito menino segundo ela. Acabei por ficar com a única criança da peça.

Naturalmente o casal parabenizou um ao outro quando conseguiram as suas respectivas conquistas. Não me senti bem em observá-los.

— Vamos, Vick. – Eu a chamava do palco.

Minha irmã estava da porta de entrada do auditório e eu tentava convence-la a descer até a primeira fileira de frente ao palco. Só me atrevia a gritar porque a Sra. Margot estava nas coxias brigando com a parte técnica e não me escutaria.

— Estou cansada! – Gritou em resposta, descendo mesmo assim.

Já passava das nove e meia, mais cedo do que prometera a vir.

— Só fique até eu ensaiar, por favor. – Pedi.

Ela não me deu muita atenção, pois Cami apareceu atrás dela. Provavelmente vieram juntas, o que vazia da outra uma atrasada. Após a amarga derrota para Georgina, ela ficara com a Sra. Thénardier, o par de Marc, seria interessante depois que Vick descobrisse isso, caso Cami ainda não tivesse contado.

— Em suas posições! – A Sra. Margot gritou assustando a todos.

Todos endireitaram suas posturas, incluindo-me e os que estavam nos lugares errados correram para os certos, isso incluía Cami.

Minha irmã sentou-se na fileira da frente com um semblante sonolento e irritado.

— Onde estava, Srta. Bernard? – A professora perguntou.

— Ajudando uma amiga, Srta. Margot.

A mulher lhe analisou frivolamente.

— Ainda bem que não escolhi uma pessoa tão descompromissada para minha Cosette. — Cami fez menção de respondê-la, só que professora fora mais rápida. – No próximo mísero atraso estará fora do espetáculo. E isso serve para os demais, não tolero atrasos. – Falou a última frase em tom mais elevado para que todos ouvissem.

Número após número foi apresentado até chegar ao que eu pretendia que Vick visse e ouvisse. Era um solo de Sam, sua personagem era triste durante toda sua vida e essa canção representava isso e até mesmo um pouco de Sam.

Minha amiga se posicionou ao centro do palco e colocou toda a carga emocional necessária para canção:

There was a time when men were kind

When their voices were soft

And their word inviting

There was a time when love was blind

And a world was a song

And the song was exciting!

There was a time

Then it all went wrong

I dreamed a dream in time gone by

When hope was high and life worth living

I dreamed that love would never die

I dreamed that god would be forgiving

Then i was young and unafraid

And dreams were made, used, wasted

There was no ransom to be paid

No song unsung, no wine untasted

But the tigers come at night

With their voices soft as thunder

As they tear your hope apart

As they turn your dream to shame

He slept a summer by my side

He filled my days with endless wonder

He took my childhood in his stride

But he was gone when autumn came

And still i dream he'll come to me!

That we will live the years together

But there are dreams that cannot be

And there are storms we cannot weather

I had a dream my life would be

So different from this hell i'm living

So different now from what it seemed!

Now life has killed the dream

I dreamed

No meio da música busquei os olhos de Sam, trocamos um sorriso e logo busquei os de Vick. Assim que nossos olhares se encontraram ela percebeu que só havia lhe chamado para que assistisse esse número. De início, mostrou irritação só que conforte foi absorvendo a letra, foi tocada por ela.

Não sei ao certo quando, mas em um determinado momento estava chorando de soluçar e eu corri para acudi-la.

— Não gostou? – Lhe perguntei preocupado.

— Não. – Soluçou.

— Deveria ter escolhido outra coisa...

— Não, quero dizer que gostei muito. – Vick agora sorria e chorava ao mesmo tempo.

— Espero que de certa forma lhe ajude a clarear as coisas e fazer a decisão mais sensata.

— Já sei agora o porquê disso tudo...

— Queria que visse esse número. Senti que lhe seria bom.

— E foi. Muito obrigada. – Inesperadamente me puxou para um abraço.

Vick não era forte, mas aquele abraço foi caloroso e firme. Pude sentir meu ombro umedecer, ela estava chorando. Afaguei os seus cabelos, os cachos estavam bagunçadas e cheiravam a jasmim, pouco havia se arrumado para ir no auditório.

— Vick?! – Cami nos atrapalhou. – Está chorando?

Infelizmente nos separamos e minha irmã limpou a face molhada.

— Um pouco. – Admitiu em um fraco sorriso.

— Por isso? – Debochou.

Camille tinha decido do palco. Por sorte a Srta. Margot conversava com Sam e não reparou no nosso indecoro.

— Foi lindo. – Vick falou. Não pude evitar sorrir com presunção para Cami.

— Acho que outra pessoa poderia ter melhor executado.

Nunca fui de desejar mal a ninguém, mas naquele momento desejei que Cami sumisse ou que só ficasse muda. Mesmo que fizesse “bem” para minha irmã, ela possuía todo o meu desgosto. Sua personalidade era má e dissimulada. Difícil era acreditar em uma redenção ou mudança.

— Por favor, fique calada. – Não consegui me refrear.

— Como disse? – Cami estava abismada, ambas estavam.

Após ter dito aquelas palavras, já me arrependia. Com certeza, seria uma centelha para um incêndio no qual eu seria o mais prejudicado. Não repeti. Não me atreveria proferir tais palavras novamente.

— Quem pensa que é?

— Meu irmão. – Vick respondeu, eu que fiquei abismado dessa vez.

— Poderia ser qualquer um, mas ninguém me manda ficar calada. – Pela primeira vez, Cami pareceu ameaçadora.

— Não diga nada, Cami. – Vick impediu qual quer coisa que ela poderia pensar em fazer.

— Sim, eu vou.

— Não.

— Sim.

— Não vai.

Trocaram faíscas pelos olhos durante um curto período até que Camille cedeu.

Ter Vick como minha defensora era uma novidade, uma boa novidade. Ela nunca foi de me defender, a não ser as vezes do nosso pai. A sua postura sempre fora mais egocêntrica, não se importava com aquilo que não lhe afetasse diretamente. Supus ser também ser pelos hormônios gestacionais que fizesse isso.

— OS DOIS DE VOLTA AO PALCO! – A Srta. Margot gritou e eu me arrepiei todo.

—x-

A angústia acabou no final da tarde de domingo, ou melhor, piorou.

De manhã, Vick e eu tínhamos frequentado a missa das sete e meia. Era frequentada sempre por um número muito grande de Irmãs e por ser de domingo e pela punição também por alguns pais e alunos. Não seria o nosso caso, nosso pai estaria muito ocupado com o trabalho. Tive esperanças de que Emy aparecesse para nos ver e a própria neta, só que não ocorreu.

— Não sei se vir à igreja agora me ajudará. – Vick sussurrou no meio da missa segurando um terço de contas claras.

— Deus e a fé sempre são esclarecedores.

— Existe quem discorde.

— A luz do pai clareará as trevas de tuas incertezas.

— Não fale assim, até me arrepia.

— Desculpe.

— Essa igreja no meio do nada já é meio sinistra, aí vem você com esse tom austero.

— Acho essa capela tão tranquila...

— É porque não é você que esconde muitos pecados.

Tais palavras me remeteram a situações vividas por Yerik e isto me causou rubor.

— Lembrou-se de algo? – Seus lábios possuíam um sorriso divertido.

— Não. – Tentei desconversar.

— Blake, você está com cara de pecador. – A voz que falou era masculina e vinha do meu lado.

— Alex! – Falei em tom elevado atraindo alguns olhares.

— Olá, meu amigo.

Alex se juntou ao nosso banco de madeira lustrosa, ele possuía o semblante iluminado como se tivesse visto uma das melhores coisas da vida, diferente do habitual triste.

— Todos pecamos de alguma forma. – Falei ainda mais baixo.

— Se vai ser condenado vai depender do grau e da quantidade desses pecados. – Ele completou.

Alex assim como eu era presente em todas as missas dominicais. O considerava um servo devotado, tinha sido criado com essa mentalidade pela família. A única coisa que eu não entendia era sua frivolidade.

Não prestamos muita atenção na missa, pois mantínhamos uma conversa em tom baixo. Apresentei-os e se deram bem, o dialogo fluiu bem, temi em algum momento sermos chamados atenção.

A trilha que seguíamos até a Capela e usávamos obviamente na volta era parecia com a que eu usara no dia do milho, acompanhado de Beth e Sam até o banco no meio do nada. Ficamos para mais atrás na volta com o grupo. A manhã era fria, estávamos agasalhados por roupas de proteção razoável, menos Vick que estava com uma saia rosa claro na altura dos joelhos.

— Vick, você está bem? – Alex perguntou, estávamos um pouco à frente dele.

— Estou. Por quê? – Viramos para saber o motivo.

— Você está sagrando. – Ele apontou para pernas dela.

O rubro líquido escorria quase como uma veia exposta ou como um fino rio por sua perna, somente por estar de saia que era possível aquela visão. Os seus olhos se esbugalharam, podia jurar que era audível a aceleração sem controle dos seus batimentos.

— Não era para ser agora. – Pensou que falava em tom inaudível se atrapalhando com a pequena bolsa que carregava. Desesperava-se.

— Vi-Vick. O que você fez? – Mil e uma ideias passavam pela minha mente, ignorava todas, não queria novamente enxergar a verdade.

— Acho melhor a levarmos à enfermaria. – Alex se aproximou.

— Não se aproxime. – Vick esticou os braços em defesa quase que histérica. – Por favor, é problema de garotas. – Tentou disfarçar.

Alex não era bobo, porém também não tanto curioso dado o tamanho que parecia aquele problema. Deve ter preferido acreditar nisso.

Vick pegou de sua bolsa alguns lenços de papeis e limpou o filete de sangue vindo do ventre, virou-se para nós e fez alguma coisa que não deixasse tão evidente a saída daquele fluxo da sua intimidade.

— Acho melhor eu ir seguindo. – Alex apontou para o grupo que se distanciava.

Acedei positivamente e ele se afastou.

— Preciso da Camille. – Vick me falou com certo nervosismo.

Isso foi a confirmação para os meus temores. Eu não detinha o controle sobre aquilo, era uma opção dela, mas não posso deixar de afirmar que de certa forma meu mundo caiu. Tudo de repente parecia mais escuro e sem vida, era a perda da inocência.

— Você matou. – Foi a única coisa que consegui dizer ou pensar.

— O que?

— Você matou seu próprio filho.

Tais palavras lhe chocaram momentaneamente, passada a primeira percepção começou a andar desengonçada. Pegou o celular e mandou uma mensagem, deveria ser para Cami.

— Eu sabia que não poderia contar com você. – Falou apressada, eu a seguia.

— Eu não fiz nada. – Falei triste.

Uma profunda tristeza me dominou, parecia ser feita da substancia mais densa do mundo e afundava no meu interior.

— Está me julgando.

— O que você quer que faça! – Falei desesperado.

— Me dê apoio e me entenda. – Cuspiu as palavras.

— Eu não consigo, é brutal demais.

— Isso não sente ainda.

— Seu filho está escorrendo pelas suas pernas. – Minha voz soou embargada, um provável e incontido choro estava por vir.

— Não diga isso. Faz com que eu sinta ainda pior. – Lamuriou.

— Não tenho como te consolar. – Meu nariz já se congestionara, o choro estava cada vez mais eminente.

— Preciso de um banheiro. – Foi o que falou. Ela estava perdida, não deveria estar assimilando as coisas. O processo de confirmação e aceitação nem sempre eram rápidos. Eu mesmo, não conseguia processar direito.

O banheiro mais próximo era os do complexo esportivo, desse, a modalidade mais próxima era o de vôlei. Ao entramos no ginásio, um diferente do usado na Integração, somente com arquitetura semelhante, seguimos direto para o vestiário feminino. Não esperávamos nos deparar com duas figuras, na verdade apenas com uma. Cami estava acompanhada de Marc.

Marc possuía o semblante sério e a outra de excitação, planejara e deveria querer expor tudo naquele momento.

— Droga. – Disse Vick, estava tão alarmada quanto eu.

— O que está acontecendo? – Marc pelo que parecia ainda não sabia de nada.

— O que sabe? – Ela foi até ele e depositou um beijo nos seus lábios.

— Cami me chamou falando que você estava passando mal e que era melhor acompanha-la.

Do pouco que conhecia dele, nunca pensei que se preocupasse de verdade com minha irmã. Só o imaginava como um cretino sem coração que a usava como bem entendia, o mesmo vazia com Cami, mas com essa eu não me importava.

— Está na hora de contar tudo. – Cami falou séria e ansiosa.

— Não acredito que você fez isso. – Olhei para ela, em resposta balançou os ombros.

— Ele deve saber disso, ainda mais depois de feito.

— Me digam agora. – Marc trovejou, todo aquele rodeio irritava-o, ele não parecia uma pessoa muito paciente.

— A Vick está ...

— Eu estou grávida. – A voz de minha irmã se sobressaiu da amiga.

A mente de Marc deve ter ido do inferno ao céu. Ficou evidente com as expressões e cores que sua face vazia. Balbuciou meias palavras, porém não conseguiu pronunciar nenhuma. Coçou a cabeça, evidentemente muito confuso.

— Eu-eu vou ser pai? – Nos seus olhos infantis possuíam um brilho animador.

— Não. – Cami respondeu.

— Mas se ela está grávida... Ou eu não sou o pai? – O brilho pareceu fraquejar

— Você era o pai. – Falei, minha voz ainda parecia frágil e dizer tais palavras não me ajudou.

— Eu me caso com você e criamos esse filho juntos. – Marc se precipitou para abraçar Vick e lhe dar beijos em sequência. – Eu saio da escola e arrumo um emprego enquanto você estuda. Posso estudar em uma escola pública. Tudo dará certo, vamos conseguir.

Aquele brilho que tinha nos olhos era esperança e o desejo reprimido de paternidade. Amargurei mais, por mais ruim que ele fosse, não merecia receber as notícias que estava prestes a receber. Estava disposto a mudar e se adaptar por um filho que nunca teria. Se pensei que ele pediria para Vick abortar, me enganei profundamente.

— Isso não vai rolar. – Cami falou venenosa.

Nunca cheguei a odiar uma pessoa, porém ela estava chegando perto de conseguir essa façanha.

— Como assim não vai rolar? – Ele olhava para a outra, porém virou-se para encarar minha irmã. Ela ainda estava nos seus braços.

— Diga. – Cami a incentivou.

Silencio, minha irmã tão corajosa fraquejou pela primeira vez. Permanecemos mudos até a intrometida fazer jus a esse novo adjetivo.

— Ela está abortando.

— Abortando? – Marc arqueou uma das grossas sobrancelhas escuras, perplexo.

— Eu estou abortando. – Vick falou cada palavra pausadamente e com uma falsa tranquilidade, mas eu a conhecia e sabia que ela estava um caos por dentro.

Quase como uma confirmação do que ela dissera, os papeis que lhe protegia na intimidade ficaram empapuçados daquilo que sugavam e filete lento de sangue voltou a escorrer. Seu namorado parecia à incorporação da perplexidade.

De novo Marc me surpreendeu. De todas as reações que ele poderia ter, nem de longe eu imaginaria aquela. Ele tocou o ventre de Vick com as mãos e ajoelhou-se chorando. Ver um homem daquele tamanho e quase formado aos prantos era de se comover.

— Por quê? Por quê? Por quê? ... – Repetia tênue entre a compreensão e incompreensão.

— Eu não poderia... – Sua frase morrera antes de terminar, e o acompanhou no choro.

— Eu criaria. – Ele sussurrou lhe abraçando pelo ventre.

— Eu não o quero.

— Nosso filho...

— Indesejado.

— Seria amado.

— Não por mim. – Essas palavras foram duras.

O impacto dessas palavras refletiu na posição de Marc, ele se levantou em todo seu porte de atleta encarou Vick com desprezo.

— Você não disse isso.

Marc a afastou como afastamos uma coisa grudenta ou suja da sola do sapato.

— Não vou mentir.

— Matou nosso filho e não tem o mínimo de remorso. – Limpou a própria face. – Nem ao menos me falou que estava grávida antes de iniciar os procedimentos do aborto.

— Não sou obrigada a lhe informar isso. O corpo é meu e eu decidi por não tê-lo.

— Quem é você? O que se tornou? – Marc exaltava-se a cada palavra. – ACABOU!

— Acabou o quê?

— A gente.

Vick ficou em silêncio no primeiro momento, pois temia o namorado. Ele estava a um passo de perder o controle e uma pessoa do seu tamanho perdendo o controle não era propício.

— Por favor, não. – Ela implorou.

— Eu não posso como você acabou de dizer. No momento só sinto repulsa de ti. – Falando isso, se afastou de Vick ainda mais, como se ela estivesse com algo contagioso.

— Não diga isso.

Os dois choravam, Vick mais. Cami era sensata o suficiente para não se manifestar.

— Somos estranhos a partir de agora.

Dito isso, ele saiu do vestiário e minha irmã tentou segui-lo. Na primeira barreira desistiu, a porta que ele fechara na sua face.

— Não me deixe assim, eu preciso de ti. – Vick bateu na porta, como se ele fosse voltar fazendo aquilo.

— Vai te perdoar. – Cami falou.

— Não, não vai. – Vick soluçava. – Não deveria ter enrolado tanto.

— Eu falei que deveria ter falado com ele desde início. – Falei.

Minha fala conseguiu tirá-la do seu estupor de sentimento. Vick ficou vermelha como o sangue persistente que ainda escorria e só me respondeu após essa cor lhe abandonar da face, ficou pálida como uma vela.

— Só me deixei em paz! Eu quero ficar só e você só está piorando tudo novamente. Mamãe deveria ter feito o que eu fiz, assim poderia estar viva.

Isso foi a coisa mais cruel que me disseram. A abandonei, deixando-a em má companhia, a de Camille. Corri pelos corredores até alcançar a ala masculina e posteriormente meu dormitório. Entrei abruptamente no quarto, sem me importar com meu companheiro, jogando-me na cama e tentei me sufocar com o travesseiro.

— Por que está assim? – Pude senti-lo sentar na minha cama.

Não respondi, tentei controlar meu choro sufocando-me ainda mais no travesseiro. Não adiantava.

— Por favor, olhe para mim. – Pediu, sua voz transmitia calma.

— Não. – Soei como uma criança birrenta.

Yerik não falou, ele simplesmente afagou meus cabelos. Tocou meus cachos com delicadeza, como quem toca seda.

— Deixe-me vê-lo.

Não forcei resistência quando ele me virou. Meus olhos e face deveriam estar vermelhos. Sua expressão demonstrava preocupação, me perdi quando foquei nos seus belos e profundos olhos azuis.

— Não quer me contar o que te deixou assim? – Estava calmo e terno.

Algo estranho dentro de mim despertou um misto de emoções e sentimentos. As temi, pois as desconhecia. Não sabia se era algo bom ou ruim.

— Você não se importa, porque eu deveria lhe contar? – Tentei voltar a me afundar no travesseiro, no entanto, fui impedido.

Ele segurou meu rosto de modo que eu ficasse imobilizado, e se aproximou quase deitando sobre mim.

— Me importo o suficiente para te perguntar. – Sussurrou. E a cada lufada do hálito quente no meu ouvido causava-me arrepios.

— Aprendi a lição da última vez que abaixei a guarda para você.

— Se refere aos beijos?

Não me referia a eles, mas ao cita-los devo ter ficado ainda mais vermelho.

— Não a só isso.

— Vou te mostrar que sou digno de confiança. – Falou fazendo um sorriso mais confiante possível. – Mas antes, queria saber o que te entristece.

— Não posso...

— Às vezes o que precisamos para nos sentir melhor é desabafar.

Fiquei pensativo ainda preso nos seus olhos. Desde quando exercia poder de convencimento sobre mim?

— Não posso dizer. — Dei uma fungada. — Não é sobre mim.

Yerik limpou uma lágrima persistente que escorria por minha bochecha.

— Tem haver contigo, pois lhe faz triste.

— O que quer de mim? — Me levantei abruptamente quase o beijando, de modo que ele teve que esquivar-se para direita.

— Por que acha que eu quero algo? — Se acomodou colocando as costas na cabeceira de metal.

— Você não gosta de mim, eu sei disso e você mesmo já provou.

Por que seus olhos eram tão hipnóticos?

— Аз те харесвам, като небето като звездите.

— O que disse? — Perguntei. — É injusto falar um idioma com quem não pode entendê-lo.

— Não posso deixar de usar essa vantagem. – Sorriu. Como sempre os caninos superiores pressionavam o lábio inferior, era charmoso.

— Mais uma coisa que comprova o que eu disse.

— Não é justo. — Soltou uma fraca risada. — Faço isso com todos, incluindo o povo búlgaro.

— Costumava falar inglês na Bulgária?

— Só quando queria dizer coisas que os outros não entendessem. Funcionava a maioria do tempo, a não ser com meus pais e o professor de inglês.

— Não te entendo nem quando fala inglês.

— Nem eu me entendo a maior parte do tempo.

— Ultimamente estou me sentindo assim a maior parte do tempo.

— Por quê?

— Por tudo. Parece que tudo ao meu redor está errado. Você, por exemplo, e essa situação para começar.

— Eu sinto muito. Sei que sua vida não tem sido fácil. Porém vai melhorar...

— Mal me conhece.

— Sei o que sua irmã me contou.

— O que ela te contou?

— Me contou a história de um garotinho que tinha uma irmã mais velha, perdeu a mãe em um acidente de barco no dia do seu aniversário de cinco anos e na véspera dos sete dela. Ambos ficaram à deriva por um tempo, ela com o pai e ele por mais tempo com a mãe. Ela morreu e o garotinho desenvolveu medo de água, já a irmã criou uma espécie de respeito com desafio. Durante muito tempo você passou se recuperando, pois desenvolveu traumas. Não conhece muitas pessoas, não tem amigos ou amores. Foi criado pela mesma mulher que criou sua mãe. Hoje, nos dias atuais aventura-se pela primeira vez em uma escola.

Ele realmente sabia muita coisa sobre mim. A expressão "mal me conhece" não era mais cabível.

— Realmente sabe da minha história, mas não me conhece.

— Estou disposto a conhecer. O que quis dizer é: como já passou por tudo isso, o que vier de novo e ruim não se compara com os males do passado.

— Não posso ter certeza disso.

— Eu sim.

Yerik aproximou-se de mim, e eu não tinha como escapatória, estava entre ele e a parede apoiado na cabeceira. Meu mundo não era mais os seus olhos, era sua boca. Vermelha e úmida. Ela veio de encontro à minha, e independente de qualquer coisa, eu queria, eu almejava por isso,

— Não... — Consegui dizer em um sussurro preso de um grito. Uma luz de lucidez havia surgido no instante em que sua respiração já fazia quase que parte da minha. — Por favor, não. — Lhe pedi.

Ele não parou, depositou seus lábios no canto dos meus, e só aquilo me levou aos céus. Uma de suas mãos foi de encontro à minha nuca, virando-a para o sentido de sua boca. Dez por cento de mim não queria aquilo, só que os outros noventa por cento sim, vencendo a batalha.

Yerik me deu selinhos até que nossos lábios estivessem perfeitamente encaixados para um beijo. Segurava meu rosto pelo maxilar, levantou um pouco meu queixo e tentou me beijar. No entanto, me encolhi.

Ele puxou-me novamente para si e me encarou. Seu olhar era tão terno que senti que um dia poderia guardar todo o sofrimento do mundo neles e continuariam a ser os mesmos. Balancei a cabeça negativamente, fingindo não querer aquilo. Ele sabia que eu mentia.

Entreguei-me ao umedecer os lábios. Yerik os capturou com os dentes. Fora gentil, apenas os puxou e mordeu, sem machuca-los. Na hora, eu havia fechado os olhos na expectativa, só que os abri ao sentir o contato diferente do pensado. Foi sensual vê-lo com os olhos centrados em mim e com minha boca presa na sua. Aonde ele mordia, que Deus me perdoe o uso dessa expressão, ardia em luxúria.

Ao soltar-me não se demorou em me tomar novamente, assim me provando de verdade. Era nosso primeiro beijo, o primeiro consentido.

Notas finais
Em relação ao aborto, não sei se o que escrevi está 100% correto, lembrando q moramos na BR, ou seja é ilegal fazer isso. O ep. com o milho é baseado em um fato real. Papai ama vcs, venham me fazer perguntas no meu ask: http://ask.fm/BjsInimig. Personagens também respondem :D. Аз те харесвам, като небето като звездите : Eu gosto de você, como o céu gosta das estrelas. AGORA MUITO IMPORTANTE, gente o proximo cap. é o 10 OMGGG. Vai ser um especial, com outro personagem narrando, qual vocês querem ? Reviews? :(