Tempestuoso
39 Salve os Proscritos
Notas iniciais
Eu sabia que havia tomado uma péssima decisão assim que desembarquei na rodoviário central de Pittsburgh, não tinha para onde ir, conhecidos ou dinheiro. Havia gastado tudo o que tinha com o valor da passagem, que não fora muito, porém o suficiente para me deixar zerado. Apesar da ideia estúpida, não tinha arrependimentos, jamais permaneceria na mesma casa que a dele e voltar para minha, estava fora de cogitação. Era de noite e poucas pessoas desembarcavam ou percorriam o espaço, não era uma data comemorativa para gerar grande movimento e por ser próximo das férias de verão, as pessoas mais saíam da cidade do que entravam nela.
Não sabia o que fazer, meus companheiros de viagem aos poucos se dispersavam seguindo seus caminhos com a família ou sozinhos, restando apenas a mim e ao motorista, que logo foi tomar um café em uma lanchonete próxima. Ninguém pareceu reparar ou notar em um adolescente perdido com uma expressão de assustado e também ninguém contestou eu estar viajando sozinho ou para onde eu iria. Quando pulei pela janela de Maggie, deixando além do pouco que eu tinha e o que me restava de bom, corri desesperadamente sem rumo, sem saber o que fazer até ver uma rodoviária imunda e de bairro. Não foi difícil comprar uma passagem e vir parar exatamente aonde estava, não pensei muito bem quando escolhi Pittsburgh, somente perguntei o destino mais distante e comprei.
Se pouco conhecia da Filadélfia, daquele lugar menos ainda. Era mais urbano e agitado, apesar de ser menor, porém menos clássica e ordenada, cosmopolitana. Agradeci mentalmente pela noite quente, seria péssimo se estivesse frio porque não tinha roupa alguma para proteção, saíra na pressa com a do corpo, ainda suja e molhada com o que havia acontecido antes. Cansado de ficar em pé esperando o nada acontecer, sentei em um dos bancos à espera de um milagre ou de algo que certamente não viria.
Estava desconectado da minha fé, pelo os mais diversos motivos, sendo o principal a omissão divina em intervir nos momentos difíceis ou no caso, proporcionar tantas coisas ruins aparentemente sem um proposito. Como um bom cristão, eu sabia que a cruz que carregávamos nunca era seria mais pesada do que poderíamos carregá-la, porém, estava cansado das perdas e percalços, se fosse um teste divino, preferia desistir do que ser reprovado ou conseguir êxito.
Quando o seu corpo está cansado, é possível até dormir em pé, após todos hormônios serem absorvidos e apenas ter restado a exaustão, o banco duro de madeira pareceu como um colchão de nuvens depois de adormecer.
— Ei, moleque. Você não pode dormir aqui. – De maneira bem grosseira fui cutucado e acordado pelo guarda da rodoviária.
Já havia amanhecido, porém era ainda bem cedo pois se via nas ruas mais sombra das edificações, do que, os feixes de luz. O homem estava vestido com um uniforme e apontava uma lanterna diretamente no meu rosto, o que dificultava minha visão.
— Você é surdo? Levanta, daí! — Eu estava muito atordoado quando fui puxado sem cerimonias do banco e posto de pé por ele. – Nada de mendigos aqui, circulando, procure um abrigo ou uma praça.
Em um primeiro momento, não entendia o que ele queria dizer e sua maneira ríspida. O sono e a dor de dormia de maneira inadequada impedia-me de focar-me. Porém, assim que tomada a lucidez, entendi o seu motivo, eu era um morador de rua agora, pelo menos na sua visão. Na realidade, era realmente uma realidade, eu não tinha para onde ir, casa ou alguém. Ficaria aonde? Faria o que? O choque da nova realidade me assustou.
— Você não tem dezoito anos?! – Ele mais afirmou, do que perguntou. – Fique aqui...
Antes que ele pudesse terminar saí em disparada, não sei porquê fiz isso, só não podia ficar lá e para o quê ele planejava para mim. Novamente, não saberia dizer se fora uma sábia ideia fazer aquilo, ele poderia me levar para um abrigo de menores, teria um teto e comida, no entanto, se me mandassem para o meu pai? Certamente, ele faria alguma coisa comigo antes de me largar em algum lugar que não poderia fazer ou pedir ajuda a alguém.
Só corri, novamente por ruas desconhecidas, estava se tornando uma rotina. O guarda ficou para trás gritando por mim, não chegou nem a correr, não fazia de bom coração, somente cumpria com o dever da profissão.
Algumas quadras distantes e quase sem folego, meu corpo reclamou pelo exercício matinal e incomum, não estava preparado para tal ação e aliada a fome e sede de dois dias, logo fiquei cansado. Enquanto recuperava o folego, reparei no cenário ao meu redor. Estava em uma avenida grande, não tão movimenta devido ao horário e muito perto, dava para ver um grande parque com grandes árvores e equipamentos urbanos, como brinquedos para crianças, equipamentos para esporte e bancos. Lá, algumas pessoas já passeavam com cães ou faziam caminhadas, alguns vendedores ambulantes vendiam cafés e rosquinhas.
Não pensei, apenas fui em sua direção e quase fui atropelado, não me importei. Com as últimas moedas, consegui comprar um café e uma rosquinha amanhecida do dia anterior. Melhor refeição não poderia pedir, com a fome, qualquer coisa fica deliciosa, incluindo um café muito doce e uma rosquinha seca. Me sentei novamente em um banco de madeira e observei a vida das pessoas, talvez assim não focasse na minha.
Durante anos, eu me moldara ao máximo para ser o mais invisível e discreto possível, o único momento que gostava de olhares era quando estava no palco porque tudo era completamente diferente quando eu dançava e cantava. Porém, na vida, quando você não tem suas armas ou talento para ser grandioso, só desejava que ninguém pegasse no meu pé e apenas seguisse sem problemas, mas ser irmão de um extremo oposto, não me fazia ser livre da sua gravidade problemática de popularidade e dos seus efeitos. Estar sentado naquele parque foi como voltar ao passado, ser invisível e com êxito, ninguém olhava para mim, isso supondo o estado lastimável que deveria estar, todo mundo era muito ocupado para prestar atenção em algo fora da normalidade de suas rotinas.
O clima era quente e agradável, conforme as horas iam passando o calor se intensificava, porém era abrandado com a brisa fresca que vinha de um dos rios próximos que cortavam a cidade. A tranquilidade me fez perder em minha mente, a beleza das arvores que balançavam ao vento e o cheiro de grama, natureza, que não era tão intensificado como em casa, me levavam para longe com os pensamentos. “Não pense, por favor, Blake. Não pense nisso...” pensava tentando afugentar a realidade, no entanto, lutar contra os seus pensamentos era sempre uma luta impossível e de perda. Sem minha moral, olhava para o chão, acho que estava sem coragem e vergonha de olhar para frente, ter orgulho. Quando vi meus pulsos roxos, frutos do que acontecerá com na noite anterior, comecei a tremer e chorar.
Minha respiração ficou mais descompensado do que nunca, o ar entrava e inflava os meus pulmões e saí na mesma velocidade. Me arranhei, com nojo do meu corpo e nos seus resquícios nele, dos machucados e de tudo, da memoria dentro de mim que não conseguiria esquecer o piso gelado na minha barriga e o sangue escorrendo pelas minhas pernas. Meu subconsciente teve a decência de não fazer um escândalo, apesar de chorar com tanta vontade como não fazia desde a morte de Sam. Arranhei meu rosto e meu braço, conforme transcorria as mãos pelo meu corpo lembrava também dos golpes do meu pai e nos hematomas que ainda saravam no meu corpo.
Era surreal o inferno, o quão pior tudo poderia se tornar a cada segundo.
O que vida havia se tornado, eu perdi tudo, absolutamente tudo, não tinha mais nada para me pegar ou recorrer. Perguntei-me se Maggie e suas mães procurariam por mim ou até mesmo Vick, se meu rosto apareceria nas manchetes de jornais, televisão ou canais de notícias, era bem improvável. No mínimo, meu pai não deixaria minha irmã fazer qualquer coisa, ela estava em um momento critico e a sua mercê; sobre minha amiga, era muito mais provável seu irmão inventar alguma coisa sobre mim para justificar minha fuga, algo bem sujo e não precisaria ser muito inteligente em quem acreditariam, pelo menos as mães. No fundo, não queria que ninguém me procurasse, não confiava em ninguém e qualquer um que procurasse por mim traria todos os problemas.
Eu precisava começar bolar alguma estratégia, pensar em algo para conseguir ter uma condição digna, quais seriam minhas melhores opções, o futuro existia, porém não o via. Desisti, ficaria naquele parque até alguma coisa acontecer ou eu precisar de algo, quando minha fome fosse tão grande que eu tivesse que me mover para morrer de fome ou simplesmente me esvanecer naquele banco encardido.
Duas tardes se passaram comigo naquele banco, as noites foram frescas e um banheiro publico me garantiu água e uma privada. Minha situação deveria ser as das piores, visualmente e por cheiro, já se passara três dias sem banhos decentes, tentei me virar como dava no banheiro, com a mesma roupa suja e em pleno verão. Eu nunca sentira tanta fome na minha vida, quando me vi revirando uma lata de lixo, chorei. Descontroladamente dessa vez, alguém viu e me jogou um saco de salgadinhos, os quais eu comia com muito racionamento, o que nunca era suficiente.
As pessoas agora reparavam em mim, ou melhor, na minha aparecia, que agora, indiscutivelmente era de um morador de rua.
Eu não conhecia o parque, apesar de não ser tão grande, me limitava a ir ao banheiro e voltar ao banco, passava o dia todo olhando para o nada esperando algo acontecer. Foi só no final do meu segundo dia que decidi conhecer a cidade e ver o que poderia fazer. O parque estava cheio, não queria incomodar ninguém ou que alguém reparasse em mim para me levar a um abrigo, percebia os olhares estranhos dos frequentadores regulares, era feriado de 4 de Julho.
Caminhei pelas margens do Rio Ohio, na junção dos Rios Monongahela e Allegheny, como algo poderia ser tão bonito quanto assustador, era lindo o reflexo da cidade, das luzes e edifícios nas águas turvas. O dia ia embora, mas não com ele o meu desabrigo ou fome. Quase como uma intervenção divina visualizei uma igreja imensa: St. Mary of the Mount Church.
[..]
“- Você me ama?
— Com todas as minhas forças.
— Você me deixará?
— Sempre estarei com você.
Eu estava deitado no colo da minha mãe, ela afagava meus cabelos com delicadezas, seus dedos eram tão gentis que quase tinha certeza que fora uma pianista. Seu perfume embebedava minhas narinas, era doce e suave e suas roupas macias junto com o seu calor, davam-me uma leve sonolência.
Estávamos em lugar algum, era apenas tudo muito iluminado, sem foco e nebuloso, não passava uma sensação de perigo ou apreensão, era alinhado a tudo com harmonia e paz.
— Eu gosto dele.
— De quem? – Até então eu não a olhava, lhe encarei e recebi um sorriso. – Ele ela apontou.
Segui a direção dos seus dedos e o visualizei.
Yerik estava com a sua melhor aparência, lindo como sempre e também sorria para mim e para minha mãe, caminhava em nossa direção.
— Você tem bom gosto. – Escutei a voz de Vick ao meu lado. Olhei para ela, não sorria, porém estava calma e seus olhos pareciam ler diretamente o meu coração.
— Eu o amo.
— Ele também te ama. – Meu pai respondeu.
Não o via sorrir a muitos anos, não parecia nem ser ele, com a expressão serena e sem a velha ruga de preocupação. Estava abraçado a minha mãe, uma brisa passou por nós fazendo nossos cabelos balançarem.
— Você me odeia? – Perguntei.
— Eu nunca poderia te odiar. – Ele me fez um carinho no rosto.
— Você deveria ir até ele. – Emily surgiu ao lado dele, imediatamente senti o seu característico cheiro de canela.
— Será que terei que te levar até ele? – Uma sombra apareceu na minha frente, tapando a luz seja lá de onde ela estivesse vindo. – Levanta. – Estendeu a mão.
Sam poderia estar fazendo uma sombra, mas poderia facilmente ser meu Sol. Estava espetacular, cheia de vida e feliz, sem os traços das moléstias como nos seus últimos dias de vida.
Aceitei sua mão e me levantei, posto de pé, a abracei.
— Eu não aguento mais. – Chorei, aos poucos a realidade entrava em minha mente e ao mundo real. – Por favor, me leve com você.
— Mas você não quer ir com ele? – Apontou para Yerik, que ainda estava caminhando em nossa direção, apesar da distancia nunca parecer diminuir.
— Não. – Balancei a cabeça. – Não quero viver.
— Você ainda tem muito para...”
Acordei de supetão como se tivesse levado um susto, encontrei um mar de pares de olhos me encarando, o que foi extremamente intimidador. Olhei para todas as direções buscando alguma familiaridade, porém estava em um lugar desconhecido sendo encarado por pessoas desconhecida.
— Ele finalmente acordou. – A voz de um homem falou.
— Tome um pouco de água. – Alguém enfiou um copo de água na minha boca e sem qualquer objeção tomei, estava surpreendentemente sedento.
— Qual o seu nome? – Uma mulher perguntou.
— Meu nome é Blake. – Respondi entre os goles.
— Padre Axel, Monsieur Fauvel. Ele acordou. – Outra voz gritou.
Os homens chamados apareceram no meu raio de visão com um olhar preocupado.
— O que aconteceu? – Perguntei.
— Você desmaiou. – Monsieur Fauvel respondeu, sabia que era ele porque não tinha a batina.
— Você é morador de rua, filho? – O Padre perguntou.
Fiquei constrangido com a pergunta, saber era uma coisa, dizer parecia tornar real. Balancei a cabeça positivamente, bebendo mais água para esconder meu rosto.
— Você tem fome? – Alguém ofereceu uma barra de cereal, imediatamente a peguei.
— Obrigado. – Falei de boca cheia.
Tantas pessoas em cima de mim deixava o ar carregado.
— Muita gente em cima atrapalha, deem espaço para ele. – O Monsieur afastou os fies de cima de mim.
Pude ver melhor aonde eu estava, era uma igreja bem iluminada e de arcos agudos, deveria ser no estilo gótico. Eu sempre me sentia bem na casa de Deus, independe de como fosse, era como voltar para casa. Os vitrais faziam meu corpo ser iluminado como um caleidoscópio.
— Levante com cuidado. – Uma mulher falou quando fiz menção de levantar.
Segui o seu conselho quando senti um leve mal-estar.
— Estou na St. Mary? – Perguntei.
— Sim. – O padre respondeu. Os olhares das pessoas que me socorreram me constrangeram, me olhava com um misto de pena e nojo. — Pretendia entrar na casa de Deus?
Balancei a cabeça positivamente.
— Acredito que esse jovem precise de nossa ajuda. – O Monsieur falou.
Um milhão de coisas passaram em minha mente, nenhuma delas terminava em algo positivo.
— Por favor, eu não quero nada, só vim rezar. – Falei me levantando. Algumas pessoas fizeram menção de tentar me amparar, mas se conterão porque não queriam me tocar. — Aprecio o agradeço o amparo, mas não quero mais nada.
Os presentes se entre olharam e depois me olharam como um pequeno filhote selvagem.
— Não vamos lhe fazer nada, só queremos te ajudar. – Monsieur parecia tomar a frente dos demais. – Não vamos te levar ou contar para alguém. Lhe olhei desconfiado, deveria confiar nele e acabar em um abrigo ou ignorá-los e continuar passando os dias no parque. Talvez o algo que eu esperasse acontecer, finalmente tivesse acontecido. – Deus te mandou aqui, cruzar o nosso caminho, tudo tem algum proposito.
Não lhe afastei e nem o recebi, me afastei no grupo e corria na direção do altar, sentando-me na primeira fileira. Por sorte, a igreja estava vazia. Senti olhares presos as minhas costas.
“O que eu faço, meu Deus...”
Ainda era iluminado pelos vitrais laterais que provocavam um jogo de luzes deslumbrantes e coloridos. Me ajoelhei e olhei para o altar, Jesus na cruz, as imagens e esculturas dos santos. A imagem da mãe de Cristo sempre mexia comigo, era como se me trouxesse sentimentos que só sentia quando tinha a minha mãe.
Rezei para ela, rezei para minha mãe e para todas as mulheres da minha vida em busca de acalento e sabedoria. Pequenos fragmentos do sonho durante o desmaio vinham e voltavam na memória, fracos pois não conseguia guardá-los.
— Eu também já fui um garoto de rua. – M. Fauvel falou, se ajoelhando ao meu lado. Fiquei em silêncio. — Não vamos ou queremos lhe fazer perguntas, apenas oferecemos nosso amor, uma cama, comida e água.
Ele tentava me convencer a deixa-lo me ajudar, era muito surreal para ser verdade. Depois de todos os últimos dias, alguém querendo me ajudar somente por boa-fé.
— Por que faz isso? – Perguntei.
— Por que não faria. – Respondeu minha pergunta com outra.
Ele ajudar outra pessoa não deveria ser tão inimaginável assim, ainda mais se alguém o tivesse ajudado no passado. O que eu teria a perder? Não tinha nada e poderia ainda tentar fugir, e caso quisessem me encontrar não seria difícil, afinal estava no parque da cidade.
Não cedi de imediato, fiquei ajoelhado, rezando, algo que não fazia a muito tempo. Deus não me respondeu, nunca respondera, não sabia mais nem porquê rezara para ele no passado. Mas algo naquele homem me dizia ser bom.
— Eu gostaria muito de tomar banho e de um prato de comida. – Falei tão baixo que pensei que não seria ouvido.
— Tudo bem. – Percebi um sorriso de canto de rosto.
Monsieur Fauvel deveria ter mais que quarenta anos, poderia ser meu pai, o rosto era marcado por rugas, o que contrastava com as roupas caras. Quando me guiou para fora da Igreja, após uma breve conversa com o Padre, a maioria dos fies já tinham ido embora e a noite reinava soberana.
Nós caminhamos por algumas quadras até entrar em um prédio de tijolinhos vermelhos de três andares mais subsolo. Ele falava sem parar, percebi que não tinha nojo de me tocar, não guardei muito do que dizia. Algo dentro de mim se sentia aliviado e ao mesmo tempo ansioso, ansioso para o que viria, quando tudo iria ruir, porque as coisas não melhoravam assim tão magicamente.
O meu golpe de realidade se deu ao entrar naquele prédio e ver um espaço tão religioso quanto uma igreja.
— [..] aqui ajudamos ao próximo guiados pela fé de Cristo. – Ele terminou de falar ao perceber minha distração ao ficar reparando no espaço. – Tem alguma pergunta? – Analisou-me atentamente.
Balancei a cabeça negativamente.
— Só não consigo acreditar na bondade das pessoas.
— É uma das virtudes que...
— A fé nunca foi sinônimo de bondade. – O interrompi. – Fui criado na religião, sei muito bem disso.
— Eu vejo muita magoa dentro do seu coração, se quiser, podemos fazer uma pequena sessão de orações por você, hoje à noite.
— Não precisa...
Depois disso não conversamos sobre mais nada tão relevante, ficou claro posteriormente que a sugestão de uma noite de preces não era uma sugestão, ela aconteceria com o meu consentimento ou não. Ele me guiou pela instituição de caridade, hospedavam todos os tipos de pessoas imagináveis, não muitas, mas bem variáveis. Cerca de 50 pessoas viviam naquele prédio, algumas famílias, idosos abandonados, crianças e almas desgarradas. Era uma pequena comunidade cooperativa, todos faziam alguma coisa ou ajudavam em algo, o Monsieur era cumprimentado por todos com gratidão e sorriso. Aquele homem era o responsável por ajudar tantas famílias, poderia ser ele a pessoa que me ajudaria a achar um novo rumo e começo, me perguntei.
— Todas essas pessoas estão aqui por livre escolha, não tinham para onde ir e receberam a Cristo e aceitaram a nossa ajuda. Esperamos que também a aceite. – Balancei a cabeça positivamente, alguns moradores também me cumprimentavam.
Fazia um tempinho que ninguém sorria para mim.
— O que ganha com tudo? – Não segurei a língua.
— A paz de saber que ajudei alguém. – Riu como se tivesse se divertido com a pergunta. – Você não é o primeiro a duvidar de minhas ações e nem será o último. – Continuou sorrindo.
Fizemos um pequeno tour pelo prédio, conheci as áreas comuns e os dormitórios que eram também comunitários. Ao terminarmos, fomos servidos com o jantar, porém antes, tive uma pequena e direta sugestão para que me banhar-se.
Enfrentar o chuveiro foi um pequeno desafio, vencido com muito jogo de cintura, minha hidrofobia estava pior do que nunca, todos os avanços do passado tinham ido embora e a repulsa era angustiante. Estava tão sujo que não pode evitar a água, que levou consigo toda sujeira, no entanto, a muito custo. Coloquei roupas doadas, na realidade, ganhei algumas peças de roupa de doação e um pequeno armário com cadeado para guardar minhas poucas coisas com produtos de higiene pessoal.
Os moradores me aguardavam na mesa comunitária para o jantar, o Monsieur sentava-se em um local de destaque, obviamente como um líder. Me juntei a eles, sentando na única cadeira vazia. Quis imediatamente atacar a comida, só Deus sabia quando tinha sido minha última refeição recente, porém, tive que esperar a oração de alguns minutos que o líder puxou, não me atentei muito a suas palavras, mas alguns aspectos do seu discurso chamaram-me a atenção. A parte que citava os desviados, sabia a quem se referia, ficou claro o destino que me aguardava. Aquela casa não era lugar para mim.
— Amém! – Falamos todos juntos.
A comida já não parecia mais tão apetitosa como antes, comi calmamente enquanto todos conversavam e riam. Percebia os olhares sobre mim.
— Quero que vocês conheçam o nosso novo hospede e que espero ser, futuro morador, Blake. – O homem me apresentou, fui pego de surpresa, de repente cinquenta pares de olhos me encaravam.
— Olá. – Acenei, recebi sorrisos o que foi ótimo.
— Quer compartilhar sua história? – Uma das crianças pediu.
A mãe brigou com ele pela pergunta invasiva, no entanto, ficaram apreensivos pela minha resposta.
— Prefiro não falar agora...
Todos pareceram decepcionados, menos o Monsieur que me encarava atentamente, analisava-me, deveria já ter entendido qual era a minha.
Não tocaram novamente no assunto, naquela noite pude desfrutar de uma bela noite de sono em um colchão de verdade.
—x-
Logo pela manhã seguinte, fui acordado e encaminhado para igreja, para primeira missa. Ajudaria como apoio para o padre e a igreja para o que eles precisassem, a primeira tarefa seria a limpeza pós culto. Caminhava pela igreja como um camundongo a espreita, não me identificava mais naquele lugar, mesmo tento aparentado em um primeiro momento ser um lar. Os fieis acompanhavam os sermões e as rezas do padre, aproveitava o tempo para reparar nas pessoas, muitos só estavam ali por descargo de consciência, como se só de estar ali fosse o suficiente pelo perdão dos seus pecados, quantos deveriam ter batido ou expulsados seus filhos de casa por serem diferentes. Nem a pessoa mais boa estava impune de ser ou se tornar alguém horrível aos olhos de alguém.
Quando o culto finalmente terminou, ajudei a limpar o ambiente enorme, o cheiro de incenso era muito bom e a luz da manhã nos vitrais fazia a limpeza ser uma experiencia completamente diferente.
— Olá. – Gritei em voz alta para ter noção da acústica.
O eco dava um efeito interessante na voz, monumental e grandioso. Deveria aproveitar enquanto ainda tenho tempo, Monsieur quando me ver novamente me mandara ir embora, pensei. Pensado isto, caminhei em direção a estatua de St. Mary e comecei a cantar.
I don't know if You can hear me
Or if You're even there
I don't know if You would listen
To a humble's prayer
Yes I know i'm just an outcast
I shouldn't speak to you
Still I see Your face and wonder
Were You once an outcast too?
God help the outcasts
Hungry from birth
Show them the mercy
They don't find on earth
The lost and forgotten
They look to you still
God help the outcasts
Or nobody will
Era como um grito de choro após anos calado, fechei os olhos e me deixei cantar.
I ask for nothing
I can get by
But I know so many
Less lucky than I
God help the outcasts
The poor and downtrod
I thought we all were
The children of God
I don't know if there's a reason
Why some are blessed, some not
Why the few You seem to favor
They fear us, Flee us
Try not to see us
God help the outcasts
The tattered, the torn
Seeking an answer
To why they were born
Winds of misfortune
Have blown them about
You made the outcasts
Don't cast them out
The poor and unlucky
The weak and the odd
I thought they all were
The children of God
— Blake. – Senti um toque nos meus ombros, pulei assustado. – Precisamos conversar.
Mal pude encerrar meus últimos verso até ser chamado por Fauvel, eu já sabia o que aconteceria, eu fui criado dentro na religião e sabia muito bem das suas limitações, fora uma questão de horas para ser expulso por ser gay.
Monsieur era tão importante na paroquia que possuía uma sala, ou melhor, um escritório próprio dentro da sacristia, era muito provável ser uma figura mais importante e de maior destaque, que o próprio padre para aquela comunidade. Entendia o que iria fazer e ainda o achava uma boa pessoa, só era algo além das suas limitações.
— Poderia me dizer qual é a razão para você estar na rua. – Sua voz era controlada.
Eu poderia mentir, seria fácil, fiz isso por muito tempo, mas após tudo o que tinha passado e vivido por justamente ter sido exposto, não queria regredir. Voltar milhares de passos para atrás só para ter um lar, eu já estava sem um a algum tempo e ficaria sem se fosse necessário ser fiel a quem eu era.
— Eu sou gay, meu pai e minha escola expulsaram por causa disso.
Silencio, fico pensativo, porém não confuso. Ele já tinha tomado sua decisão, só procurava a forma mais delicada de dizê-la.
— Você não pode ficar aqui, lamento. – O Monsieur Fauvel falou sério, podia sentir na sua voz o fio da decepção, um pouco de tristeza e raiva, mascarado, porém ainda ali.
Dei um longa e lenta respirada, antes de suspirar. Pensei que me afetaria mais com a notícia, mas já sabia que esse era o meu destino desde o momento que conheci o seu abrigo. Ali não era o meu lugar, não sabia qual era, porém sempre quando não.
— Vou pegar minhas coisas, muito obrigado pelo abrigo.
— Você sabe o motivo.
— Sei, e compreendo.
— Gostaria que fosse diferente, você parece ser um bom garoto e tem um dom incrível. O ouvi agora na igreja, a acústica é ótima, se não fosse bom, eu saberia.
— Muito obrigado.
— Mas eu coloquei algumas regras para o acolhimento de desabrigados... Não acreditamos em cura...
— Por favor, não se justifique. Eu fui criado dentro de tudo isso...
— Pode esperar pela manhã se quiser.
— Não, muito obrigado.
— Espero que trilhe um caminho de sucesso e consiga requer-se.
— Muito obrigado.
Nos cumprimentamos, então saí do seu escritório e caminhei até o prédio de apoio, e o quarto comunitário. Não estava triste ou com raiva, já estava convencido e acostumado a ter que deixar os lugares, o único que não me expulsara fora a rua e para lá retornaria. Não ocorreram despedida, nunca aconteceram antes com pessoas que teoricamente me amava, quanto mais com recém conhecidos.
Com a mochila nova e os itens de higiene pessoal doados, e minhas poucas coisas, saí da Casa de Apoio St. Mary of the Mount Church. Achei engraçado não estar chovendo, as desgraças em minha vida sempre envolviam a água de alguma forma.
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